Dez entre dez líderes que discursaram na abertura da Assembleia das Nações Unidas de 2026, no dia 22 de setembro, elencaram críticas à instituição. Críticas são válidas, sobretudo quando, como fez o presidente Lula, vêm acompanhadas de sugestões para melhorar o desempenho.

As Nações Unidas e suas agências, no entanto, mesmo com casos explícitos de retórica inútil, têm um papel fundamental de botar o dedo na ferida de situações que a humanidade preferiria não ter que enfrentar (por covardia ou por inação). Foi assim quando lançou as Metas do Milênio (2000) e depois os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (2015).
Planos que se revelaram inexequíveis? Sim. Mas, volta e meia, é bom lembrar o quanto a ONU, mesmo sem exigir obrigatoriedade, pode fazer as nações lidaram com questões humanitárias. Aqui vale trazer um dado do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo: em 2025, os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,887 trilhões em 2025, o que representa um aumento de 2,9% em relação a 2024 e marca o 11º ano consecutivo de crescimento da indústria bélica mundial.
Resumindo os dados do Instituto: em vez de se concentrarem em missão contra o inimigo comum, as mudanças climáticas, os países se armam para provocar matança entre humanos. Inacreditável, mas é o que acontece.
O relatório sobre o impacto das mudanças climáticas em apátridas, encomendado pela agência da ONU para refugiados (Acnur) em parceria com o Centro Peter McMullin sobre Apátrida, é um exemplo do que essa instituição ainda consegue fazer de bom. Quem mais, se não uma agência internacional desse porte, para se interessar pelas pessoas que perdem tudo, até a própria cidadania, por causa de chuvas intensas, furacões ou secas mortais?
Nas contas da Acnur, já são mais de 4,5 milhões de pessoas apátridas, nem todos apenas pelas questões climáticas – a violência também é responsável pela fuga dos territórios. Mas o relatório afirma que desastres climáticos, como incêndios, inundações e elevação do nível do mar, estão contribuindo para aumentar esse número.
Um exemplo simples, cotidiano: em uma enchente, a pessoa pode perder seus documentos de identidade e é forçada a se deslocar. Se, nesse movimento, ela não tiver um acompanhamento governamental, que a ajude a tirar novos papéis, o tempo passa e essa pessoa vira uma apátrida. Sem direitos, vulnerável, exposta a ser escravizada e vítima de violência.
Segundo o relatório, divulgado na edição do dia 22 de setembro do jornal britânico The Guardian, os países insulares do Pacífico são os que produzem maior número de apátridas, já que estão perdendo território para a elevação do nível do mar. Tuvalu está entre eles.
Quem me acompanha aqui no blog, já sabe que tenho uma apreensão especial por esse pequeno país-arquipélado na Polinésia, com cerca de 11 mil habitantes. Desde que assisti “Climate Refugees”, documentário de Michael Nash e Justin Hogan (escrevi sobre ele na coluna que eu assinava no portal G1), exibido no Festival do Rio de 2013, nunca mais deixei de pensar na vida daquelas pessoas moradoras de um lugar paradisíaco que, simplesmente, vai sumir do mapa.
Em “Climate Refugees”, uma mulher que nasceu e vivia (não sei se agora, 13 anos depois, ela continua morando lá) há 45 anos no país-ilha, resumiu, diante das câmeras, seu drama e a impossibilidade de achar solução:
— A Nova Zelândia está abrindo suas fronteiras, aceitando pessoas que moram em Tuvalu. Mas eles exigem que os refugiados sejam jovens que tenham algum tipo de habilidade para trabalhar. Eu não tenho habilidades, eles não me querem lá, já sou considerada uma velha sem serventia – disse ela.
Em 2008, ano em que o diretor Michael Nash e o produtor Justin Hogan terminaram sua pesquisa qualitativa sobre o fenômeno, havia 25 milhões de refugiados no mundo. Hoje, segundo estudo do Instituto Humanitas Unisinos, esse número saltou para 250 milhões.
O documentário de Michael Nash, assim como as agências da ONU e outros tantos institutos que se dedicam a produzir dados sobre a face humana das mudanças climáticas merecem, portanto, respeito. Um trabalho importante para nos ajudar a traçar um perfil humano dos impactos das mudanças climáticas.
Agora, a cereja do bolo (um bolo salgado e insosso): “Climate Refugees” está entre 222 obras-primas que foram parar na Lua em 2024, levadas pela cápsula do tempo Lunaprise pela espaçonave privada Odysseus. A ideia da empresa SpaceX, do multimilionário Elon Musk, é encapsular a essência da experiência da humanidade na Terra. Talvez para ser encontrada por escafandristas do futuro distante. Quem sabe, então, eles consigam perceber o quão letal para a Terra tem sido o progresso industrial desmesurado, sem respeito, desconectando perigosamente (como se vê) o Homem da Natureza.