Documentário francês leva espectadores às entranhas da floresta e ensina o valor das vidas não humanas

Para assistir “O canto da floresta”, longa-documentário de Vincent Munier que será exibido no Festival de Cinema Francês de 29 de outubro a 11 de novembro, é preciso estar presente. Porque vai ser uma viagem de cerca de 90 minutos acompanhando aqueles que respeitam os não humanos, que se sensibilizam com um canto, um olhar, que montam acampamento dias a fio em busca de uma emoção provocada pelas vidas multiespécies. Uma aranha fazendo teia ou um micro pássaro que pesa nove gramas e encanta com seu piar têm o mesmo peso e valor que um Lince e seu olhar agudo ou Cervos que se enfrentam.

O olhar de Simon, o adolescente, em cabana erguida com galhos na Noruega para ver o pássaro Tetraz. Foto: Bonfim

Portanto, prepare-se: deixe longe o telefone celular, apure bem os ouvidos e a visão para entrar em outro mundo. O mundo dos seres que importam, que ainda sobrevivem aos horrores causados pelo avanço do homem sobre vidas que não são consideradas úteis para seu progresso.

“O mundo importa para quem se vê nele, compondo com todos os seres”, escreve Donna Haraway em ‘Ficar com o problema”. Vincent Munier mora próximo à cadeia de montanhas Vosgos, na França, e escolheu esse cenário para mostrar em seu filme, vencedor de dois prêmios Cesar e já visto por mais de 1,3 milhão de espectadores em seu país, a “urgência de compreendermos que a floresta não é apenas um cenário ou um reservatório de recursos, mas um ambiente vivo e complexo”.

São imagens e sons captados por cerca de dez anos. Para acompanhá-lo, Munier convidou o pai, o naturalista Michel Munier, e seu filho Simon. Foi com o pai que o cineasta aprendeu a ter fascínio pela floresta:

“Eu cresci perto da floresta, com pais que me ensinaram a olhar as árvores, os pássaros, a sentir o vento. Cresci entendendo que são nossos tesouros. É um raro privilégio, e eu senti que chegou a hora de compartilhar tudo isso em um filme”, disse Munier.

O olhar curioso do jovem Simon foi escolhido para ser a primeira cena do filme, conduzindo o espectador pelo verde da floresta fria, em intimidade sensorial que  se revela aos poucos. Juntos, quase todo o tempo em silêncio e quietos à espera de que alguma coisa aconteça, os três humanos deixam que os movimentos ao redor, os sons, os cantos, sejam a atração principal.

“Essa intimidade com a floresta surge quando você aceita tornar-se minúsculo, para que possa vivenciar plenamente o que o cerca”, disse o diretor.

Uma casinha de luz fraca amarela, feita de madeira e encravada entre as árvores serve de cenário em vários momentos. Em outros, uma cabana é erguida com galhos de árvores e os três descansam em sacos de dormir quando vão em busca do Tetraz, pássaro da família dos galináceos, que existe desde a era glacial e que hoje, por conta do aquecimento global, está em extinção. O trio se desloca para a Noruega porque sabe que lá é possível, ainda, encontrar um ou outro indivíduo da espécie.

Tetraz surge, como um protagonista. Um bicho potente, lindo, com um canto delicado que usa só na hora de se acasalar. Como ficar impune à barbárie que provocamos a ponto de torná-lo, hoje, uma espécie ameaçada?

Tetraz surge, o protagonista. Foto: Bonfim

“Acostumamo-nos à mediocridade e, por vezes, a coisas que são, pura e simplesmente, inaceitáveis: rios poluídos ou canalizados, ar saturado, florestas derrubadas e replantadas, e paisagens homogeneizadas. E o que me entristece é que tão poucos de nós fiquemos chocados ou incomodados com tudo isso. É como se a nossa capacidade de sentir deleite tivesse sido extinta. Fico furioso ao perceber que tão poucos de nós se importam com os danos que causamos às formas de vida não humanas. Mas quero continuar nutrindo a esperança de que uma abordagem mais consciente e poética em relação à natureza possa nos transformar. Precisamos reaprender a ser criaturas entre criaturas, sem nos colocarmos como superiores nem como seres à parte”, disse Munier

Não há muito mais o que falar, a não ser aplaudir a iniciativa do francês Munier. Que sorte a do filho Simon, que tão jovem já está percebendo o valor de todas as vidas do planeta. Uma das cenas belíssimas do filme é quando o adolescente ensina o avô a comer marshmallow esquentado na fogueira em meio à floresta. O avô experimenta, não faz uma cara muito boa, e o menino entende:

“É muito doce para você”.

Assista, vá ao cinema ver essa maravilha e saia de lá com vontade de mudar a maneira como se relaciona com o entorno. Estamos vivendo um momento de mudanças, afinal. Por que não acreditar que é possível ir além?

No site do Festival de Cinema Francês tem um site onde há a lista dos filmes da mostra e onde cada um vai ser exibido. No caso de “O canto da floresta”, no Rio de Janeiro será possível assistir no sábado, dia 31 no Cine José Wilker, além de outros horários e dias.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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