O ano era 2015. Exaustos depois de dias de negociações intensas, representantes de 196 países uniram as mãos para o alto e posaram para a foto histórica. O Acordo de Paris, que preconiza um aumento de, no máximo, 1,5° na temperatura do planeta até o fim do século, finalmente fora conseguido. Era o último dia da COP21, que acontecera no centro de exposições Paris-Le Bourget, localizado na comuna de Le Bourget, nos arredores de Paris, na França.
Houve muitas comemorações, até mesmo entre os ambientalistas. Aqui e ali, no entanto, vozes dissonantes destoavam o coro dos contentes. Naomi Klein, ativista ambiental canadense, lembrou em um artigo que o fato de não ser vinculante, ou seja, não obrigatório, fazia do acordo quase uma retórica inútil. Não foi a única.
A efervescência em torno do Acordo de Paris – somos ótimos em criar títulos – foi grande na mídia. Depois do Protocolo de Kyoto, assinado durante a COP3 no Japão, em 1997, que estabelecia regras para que as emissões de gases do efeito estufa tivessem que ser reduzidas em pelo menos 5,2% em comparação com os níveis registrados em 1990, era o primeiro compromisso conjunto conseguido nesses termos pelas Nações Unidas.
Kyoto começara mal, já que os Estados Unidos, maior poluidor, assinou mas não ratificou. Já o Acordo de Paris foi assinado pela nação mais rica, mas… Dois anos depois, o atual presidente Donald Trump, negacionista de carteirinha, se retirou do compromisso. A alegação oficial estadunidense, de que o país passaria a priorizar “acordos alinhados aos interesses econômicos nacionais”, diz muito sobre os obstáculos que o Acordo de Paris enfrentou e enfrenta.
Cada país se move dentro de seus próprios interesses, sem considerar o todo, sem solidariedade aos mais pobres e vulneráveis.
O resultado dessa incapacidade de fazer movimentos em conjunto decretou a falência do Acordo de Paris. Em reportagem publicada no jornal Valor Econômico do dia 3 de setembro, a jornalista Daniela Chiaretti anuncia que “pela primeira vez, as Nações Unidas reconhecem que ultrapassar o limite de aquecimento de 1,5°C é inevitável e deve acontecer nos próximos anos”. Um relatório divulgado pelo Pnuma (agência da ONU para o meio ambiente) no dia 2 de setembro fala sobre o estouro de metas da temperatura e diz que o melhor cenário é um aumento de 1.8°.
Fato é, caros e caras leitores e leitoras, que a cada ano nosso sistema econômico emite mais carbono para a atmosfera, e não há indícios de que isso possa ser freado. Em 2023, foram 57 bilhões de toneladas: 1,3% a mais do que no ano anterior. Dados do relatório do Pnuma naquele ano dão conta de que, na década anterior, de 2010 a 2019, portanto no período da assinatura do compromisso em Paris, esse percentual era de 0,8%.
A importância da comunicação
Esse tema foi abordado pelo jornalista Bruno Torturra em entrevista ao cientista Paulo Artaxo no excelente podcast, recém-lançado, chamado “Clima Urgente”. Uma iniciativa que vem como uma chuva depois de dias de seca para quem busca um espaço de debate sobre o clima sem cair no senso comum.
Um detalhe que pode temperar a informação dada por Artaxo a Torturra foi fornecido pelo ambientalista José Eli da Veiga em sua coluna no “Valor Econômico” de maio de 2025: “80% dos estragos ao meio ambiente estão sendo feitos por 57 empresas, que operam em apenas 34 nações”. Isso pode explicar a falta de união. O lema é “farinha pouca, meu pirão primeiro”, e às favas com a preocupação ambiental.
Voltando à entrevista com Paulo Artaxo, a boa notícia é que o cientista está otimista. Mesmo trabalhando com um cenário severo, traçado por seus colegas do IPCC, que indicam um aumento de até 2.8° no final do século e, no Brasil, de 3.5 a 4°, Artaxo está certo de que estamos vivendo um processo de transição.
Se a transição será no sentido de conseguir uma sociedade mais justa e um mundo mais habitável para a humanidade e para todos os seres vivos do planeta, vai depender, segundo o cientista, de mudar o sistema de governança das Nações Unidas.
“A ONU foi construída com o resultado do pós guerra, para que as principais potências mantivessem sue poder sobre os demais países.
Isso não é sustentável. Ela trabalha num sistema em que todas as decisões têm que ser tomadas em consenso. Como conseguir consenso entre Estados Unidos e países pobres da África, por exemplo? – pergunta Artaxo.
O questionamento parece não ser só do cientista. Em recente evento para empresários, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, foi taxativo ao afirmar que é hora de implementar ações. Já negociamos bastante, disse ele.
Tomara que seja ouvido antes que seja tarde.
Vale a pena resumir o que é “ser tarde” para o cientista Paulo Artaxo:
E assim chegamos à fala do presidente da COP30, Andre Correa do Lago, em evento recente para empresários. O embaixador foi taxativo ao declarar que é hora de implementar as ações. Chega de negociações.
Tomara que ele seja ouvido antes que seja tarde.
Mas, o que é “ser tarde”? Artaxo dá um exemplo que, por si só, deveria servir para conter os arroubos extrativistas da turma que crê muito mais em Ter do que em Ser. Indígenas isolados da Amazônia precisaram receber água potável em 2024 por causa da seca, senão morreriam desidratados. Amplie isso para o macro, imagine quantos seres vulneráveis passarão pela mesma desgraça. E tome aqui um dado que vai botar mais um tempero à sua reflexão: 12 pessoas mais ricas do mundo detêm uma fortuna maior do que a metade mais pobre de toda a humanidade.
Adivinha quem não está se preocupando com o aquecimento global?
