Procurando uma boa notícia para respirar melhor? Aqui você encontra. Após uma forte queda de 13% em 2024, as emissões de gases de efeito estufa do Brasil caíram mais 6% em 2025, atingindo seu menor valor bruto desde 2018. Os dados são do Seeg, o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, cuja 14a coleção foi lançada hoje.
Não vou esmiuçar os detalhes técnicos, basta ir ao site do Observatório do Clima, está tudo lá. Mas é importante saber que, com a queda, o Brasil ficou próximo de cumprir sua NDC, a meta estabelecida no Acordo de Paris para o ano de 2025. Esta meta, acordada em 2015, é reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035 em relação aos níveis de 2005, o que representa um teto de emissão entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO2.
É claro que, para isso, todos os setores da economia, da política, precisam estar envolvidos, assim como os cidadãos comuns. É preciso uma concertação geral, o que seria fácil se todo mundo realmente levasse a sério as questões ambientais e quisesse se unir para tentar minimizar os impactos aos mais vulneráveis causados pelos eventos extremos.
Por isso, representantes dos setores do agro, de resíduos, energético e da conservação da Amazônia participaram da entrevista coletiva que divulgou os dados do SEEG. Cada um apresentou dados referentes à sua esfera de atuação.
São números que mostram o resultado de políticas públicas elaborados por uma administração federal ocupada com o tema. Ainda que seguindo a cartilha do desenvolvimento elaborada pelo sistema econômico de base capitalista que nos rege, há preocupação, por exemplo, com povos originários, em manter a floresta em pé, em causar, enfim, menos impactos à natureza.
Ocorre que, mesmo com notícias tão alvissareiras, não foi possível deixar de falar no enorme elefante que está na sala de todos nós. E eu não falo sobre o animal elegante, nobre, simpático. Estou usando uma metáfora para me referir ao problema que teremos pela frente caso o candidato Flavio Bolsonaro (PL) ganhe as eleições neste domingo 25.

Quem ainda está em dúvida sobre o negacionismo de Flavio Bolsonaro, preste atenção à fala dele em um encontro com sua legião de fieis nesta segunda (19) em Marabá, no estado do Pará. Do alto do carro de som, bradou que legislação ambiental é sinônimo de “entraves por causas ideológicas”. Disse ele:
“Vou fazer a maior regulação fundiária que o Pará já viu. Sua terra vai ser sua no papel. Vamos respeitar a propriedade privada. Você vai poder plantar, criar gado, fazer o que quiser na sua terra e o que você explorar na sua terra é seu. Esses entraves ambientais que existem, principalmente por causas ideológicas, nós vamos acabar”.
Como bem escreveu a jornalista Claudia Antunes em sua reportagem no site Sumaúma (leia aqui), ninguém pode dizer que não foi avisado. No texto, Antunes esmiuça o plano de governo apresentado pelo candidato do PL à presidência e faz uma comparação com os quatro anos do Bolsonaro pai.
Para ficar só no setor do meio ambiente, basta lembrar que de 2018 a 2022 o desmatamento na Amazônia aumentou 59% e o garimpo ilegal em terras indígenas se alastrou como água em terra seca. Para se ter uma ideia, com políticas públicas eficientes, entre agosto de 2025 e julho de 2026, o mesmo desmatamento registrou uma queda de 41,8%.
No tal plano de governo, Bolsonaro filho não fala sobre mudanças do clima, tampouco que elas seriam causadas pelas atividades humanas. Um trabalho feito pelo Observatório do Clima reuniu frases ditas por ele sobre o tema. Vejam esta pérola:
“Tem épocas cíclicas que faz mais calor, tem épocas que faz mais frio, tem épocas que chove mais, e não acho que isso tem a ver diretamente só com a influência humana no meio ambiente’.
O pai Bolsonaro não fiscalizava o desmatamento, o que nos faz supor que o filho siga o caminho. Por isso eu quis saber do coordenador de política internacional do Observatório do Clima, Cláudio Ângelo, se ele acha possível que todo esse conjunto de dados alvissareiros sobre a redução de emissões de gases do efeito estufa que hoje tivemos a chance de acompanhar pode ser preservada em um governo Bolsonaro 2.
De uma coisa, Claudio Ângelo tem certeza: ninguém consegue mais tirar do Brasil o conhecimento das politicas publicas de combate ao desmatamento. O Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases do Efeito Estufa (SEEG) foi criado em 2012 , em 2013 foi oficialmente incorporado pelo Observatório do Clima, e hoje é considerado o melhor arcabouço de tecnologia de monitoramento de desmatamento por satélite do mundo, sistema que passou a ser utilizado por vários países.
“Esse pacote, que alia conhecimento científico a políticas públicas, só pode ser colocado em prática por um governo que queira fazer isso. As ameaças que temos hoje vão além da regressão de políticas públicas, o que a gente já viu no governo Bolsonaro (de 2018 a 2022). Elas passam por um desmonte legislativo, o que torna tudo mais dificil”, disse Cláudio Ângelo.
Dito isso, vai restar às organizações de sociedade civil continuarem falando a verdade sobre o que estiver acontecendo nas florestas.
“Nossa trajetória de queda de emissões vai ser interrompida em um futuro governo Bolsonaro. Não só isso: se fossem os 4 anos de governo Bolsonaro, possivelmente já teriamos cumprido a meta NDC 2025. Tivemos que voltar algumas casas no nosso esforço de redução de emissões porque houve um descontrole de desmatamento de 2018 a 2022”, concluiu Cláudio Ângelo.
É para refletir.