Sob um teto rendado pelas folhas de uma árvore maravilhosa, quase centenária, a rua tranquila segue seu ritmo. Vez ou outra, como é de manhã, passa alguém apressado para um compromisso, quem sabe um trabalho. A corrida desse alguém contrasta com o ritmo lento da vassoura do porteiro, que varre a calçada ostentando seu uniforme cinza, aliviado por pertencer à classe dos “com CLT”. Mais à frente, o senhor que já guardou sua vassoura emana a calma dos que estão apenas contando tempo para ingressar em outra classe, a dos aposentados. Passa uma jovem com headphone no ouvido, que se encontra com outra e ambas nem se falam, apenas seguem caminhando juntas. O encontro já estava previamente marcado pela internet.

Somos muitos. E somos heterogêneos, o que dá cor e movimento ao balé urbano imaginado por Jane Jacobs em “Morte e vida nas grandes cidades” e assegura que “os fatos de rua atuam sobre nossa sensibilidade” criando uma “atmosfera de poesia” , como traduz Manuel Bandeira em seu texto “Poesia e verso” (citado no livro “Aventura das cidades”, de Janice Caiafa).
Somos muitos. E cada vez somos mais.
Antes de 1600, menos do que 5% da população mundial morava em cidades.* Em 1800 chegamos a 7%, e em apenas cem anos esse percentual mais que dobrou, atingindo 16% em 1900. Hoje somos cerca de 55%, e a ONU calcula que, até 2050, já seremos 68%. O fenômeno, como se vê, só cresce. E parece irrefreável.
Não é difícil entender: os humanos precisam de relação e de contato para criar, se desenvolver, ser. Mais do que isso: é nas grandes concentrações urbanas que se acha trabalho. A imagem idílica de vida no campo é boa para quem tem recursos que possibilite viver lá e cá. Ou, apenas passar férias e trazer a quietude do campo para enfeitar os álbuns e porta-retratos.
Estamos, pois, fadados a nos agruparmos em complexos urbanos cada vez mais. No entanto, viver em cidades não tem sido fácil, como sabemos. A pegada ecológica dos humanos, quando concentrados, tem elevado a intensidade e a frequência de eventos extremos. Isso acontece por conta da emissão de gases que causam efeito estufa, o que nos confina em ilhas de calor sufocante. Só no mês de junho deste ano, a capital francesa registrou três mil mortes, afetada pelas altas temperaturas que atingiram a Europa no verão de 2026.
Banda, na Índia, está inabitável, e isto não é um exagero. Também em junho, as temperaturas na cidade indiana ficaram entre 47ºC e 48ºC por mais de uma semana, algo extraordinário até mesmo para os padrões locais. De dia ou à noite. Com sintomas como diarréia, vômito e febre, mais de vinte pessoas procuraram atendimento hospitalar diariamente. Um calor que escolhe os mais pobres para tornar mais desconfortável suas vidas.
Por aqui, nós que nos preparemos. Ontem mesmo a Prefeitura do Rio convocou a imprensa para dizer o que pretende fazer para enfrentar o El Niño, fenômeno climático que tem se intensificado. Segundo os meteorologistas, há mais de 80% de chance de nosso verão começar bem mais cedo, trazendo com ele as mazelas de sempre: chuvas muito fortes e calor muito forte. E, para quem acha que “isso sempre acontece”, os registros da ciência estão aí para desmentir.
Não são poucos os casos, não são poucos os estudos que demonstram a curva ascendente das temperaturas e dos eventos extremos. Mais de 1200 pesquisadores se uniram e criaram a Rede de Pesquisas sobre Mudancas Climáticas Urbanas (UCCRN, na sigla em inglês). Quem tiver curiosidade, pode acessar o site da entidade e ler o relatório que divulgaram e estão percorrendo várias cidades do mundo para divulgar. Um dado alarmante, que me afeta profundamente porque tenho muita dificuldade em viver com desconforto térmico: hoje há 200 milhões de pessoas morando em cidades em condições de calor extremo, e as estimativas são de que, em 2050, este número chegue a 1,6 bilhão.
Problema análogo, a poluição do ar, outra grande mazela das grandes cidades, hoje mata 7 a 8 milhões de pessoas por ano, segundo a Organização Mundial de Saúde. Estamos falando de saúde, de qualidade de vida.
Assim mesmo, a maioria das pessoas não demonstra ter interesse – ou é cética – em relação ao aquecimento global. O fato pode ser explicado por uma razão simples: muitos se sentem indefesos diante de um fenômeno irreversível. E dão de ombros. Os mais ricos se viram, já que para eles sempre haverá uma saída, nem que seja o aeroporto. Como sempre, aos mais pobres resta a carga mais pesada.
Será que, no fim e ao cabo, vamos ter que admitir que nosso sistema de aglomeração urbana, definitivamente não deu certo? Que outros caminhos poderemos seguir para evitar não o fim do planeta, mas o fim de ambientes habitáveis aos humanos?
Há quem encontre soluções e despeje esperança, sobretudo sob as lentes científicas. Uma dessas pessoas é o neurobiólogo vegetal italiano Stefano Mancuso, sobre quem já falei aqui neste blog, que no livro “Fitópolis” traz soluções baseadas em plantas. Para enfrentar um problema de tão grandes dimensões é preciso haver certeza de propósito. Se isso é difícil conseguir no macro sistema, já que o mundo tem líderes capazes de investir dinheiro em armas em vez de encarar corretamente as questões climáticas, vamos ao microcosmo.
E vamos radicalizar.
Mancuso sugere transformar parte significativa das ruas da cidade em alamedas arborizadas. Não é preciso ter a lâmpada mágica do professor Pardal para saber que o neurobiólogo está certo. Dependemos das plantas para tudo, elas representam a base da cadeira alimentar e nos fornecem o oxigênio, simples assim.
“O homem coevoluiu com as plantas e sempre viveu em ambientes onde elas representam praticamente todo o ecossistema. Em termos evolutivos, o rompimento desse vínculo é bastante recente. Até poucas décadas atrás não passávamos o tempo em frente a uma tela de computador e só há três ou quatro gerações temos salas iluminadas por luz elétrica. Antes disso, fomos agricultores ao longo de cerca de quinhentas gerações. E ao longo de umas vinte mil gerações, caçadores-coletores, intimamente conectados ao mundo da natureza e, portanto, às plantas que o constituem quase por completo”, escreve Mancuso.
Nem que seja em nome de nossas origens, portanto, está na hora de ouvir a urgência do clima e encarar de frente as soluções radicais para salvar nossa vida. É disso que se trata. É só assim que nosso balé urbano, ou atmosfera de poesia, pode ainda fazer algum sentido.
- Dados publicados no livro “Fitópolis’, de Stefano Mancuso (Ed. Ubu, 2026).








