Diante da já constatada incapacidade de a humanidade reagir ao aquecimento global como seria desejado, ou seja, baixando as emissões de carbono na atmosfera, cabeças pensantes (e capitalizadas) do mundo ocidental criam métodos mecânicos para fazer isso. Não é de hoje que alguns cientistas se empenham em estudos para chegar a uma forma de intervir no sistema climático do planeta. A esses estudos deram o nome de geoengenharia.

A primeira vez que ouvi falar sobre atividades humanas deliberadas para alterar o estado do planeta foi ao ler o livro “Gaia: alerta final”, escrito pelo fisico James Lovelock* e lançado no Brasil em 2009. Os métodos são ousados e vão desde a manipulação da luz solar até a fertilização dos oceanos para estimular o crescimento de algas, passando pela criação de um imenso guarda-sol, feito de malha fina de fibra de carbono, que seria levado para levitar ao redor do Sol e em sincronia com o movimento da Terra.
Tais planos estavam apenas em pranchetas e eram divulgados entre laureados. Até pouco tempo atrás.
No dia 30 de setembro, assisti o documentário “Plano C para a Humanidade”, dirigido por Bem Kalina, no Festival de Cinema Ambiental do Rio de Janeiro, e o filme me fez voltar à leitura de Lovelock. Tendo David Keith como protagonista, um cientista pesquisador que propõe uma fórmula para o resfriamento climático sem ter que privar as pessoas do conforto garantido pelo uso de carros e máquinas de todo tipo, o vídeo vai levando a plateia a conhecer detalhes dos cálculos mirabolantes feitos pelo cientista e sua equipe.
O projeto, encabeçado por Keith na Universidade de Chicago, consiste em introduzir um aerossol de gotículas de dióxido de enxofre na estratosfera, a aproximadamente 20km acima do solo, o que tornaria possível refletir parte da energia do sol para longe da Terra. Assim, no período de três anos, o aquecimento global estaria estagnado, segundo o cientista. Muito simples, quase como mágica.
Fácil. E tudo que é fácil… é vulgar.
O filme aborda as promessas e os perigos dessa geoengenharia solar, com as explicações feitas pelo próprio David Keith, que deu ao seu projeto, realizado com ajuda de ninguém menos do que o milionário Bill Gates, o nome de SCoPEx. Há também espaço, na película, para contar as aventuras de dois geoengenheiros rebeldes, donos da marca Make Sunsets, que tentam fazer o mesmo plano de forma bem amadora, dentro de uma van.
O experimento científico de Keith foi descontinuado em 2024, e o documentário acompanha seus melancólicos momentos finais. Mas como ele vendeu a própria empresa para uma petrolífera (sim, você entendeu bem), terá dinheiro bastante para continuar com outros experimentos estratosféricos.
A geoengenharia solar vai se tornando, assim um novo capítulo da saga das mudanças climáticas.
Uma cena do documentário é reveladora da tensão existente entre países poluidores, ricos, e países pobres que sofrem os impactos dos eventos climáticos causados pela poluição. Foi quando o cientista David Keith esteve em Bangladesh expondo seu plano C para a humanidade, o ScOPEX, diante de colegas acadêmicos. O país asiático está encabeçando o ranking dos territórios que mais sofrem e sofrerão por conta dos eventos climáticos extremos.
Na pequena sala onde se reuniram Keith e os cientistas locais, uma pergunta soou incômoda. Os bengalis queriam saber o efeito colateral que os balões com enxofre poderiam causar aos bichos, plantas e humanos. A resposta foi evasiva. Na verdade, ainda não há como avaliar. Como se esse fosse, assim, um problema menor.
Aceleração, um manifesto
Na mesma semana em que assisti o documentário, a amiga Martha Neiva Moreira mandou-me uma entrevista que o jornalista Fabricio Silveira deu ao site do Instituto Humanas Unisinos, onde ele aborda a corrente teórica conhecida como “Aceleracionismo”. O principal formulador dessa teoria é o filósofo Nick Land, que dialoga muito confortavelmente com pensamentos de direita. A leitura da entrevista levou-me ao “Manifesto Acelerativo para uma Política Acelerativa”, construído em maio de 2013 pelos filósofos Alex Williams e Nick Srnicek. Esses dois já têm uma visão crítica ao capitalismo.
Conheci esse Manifesto ao mesmo tempo em que descubri que tudo o que li há quinze anos no livro de Lovelock, como se fosse invenção ficcional, ganhou uma versão real com investimentos bilionários. Dinheiro que poderia ter sido gasto na ajuda às vítimas mais vulneráveis dos eventos extremos causados pelas mudanças climátivas.
Estamos diante de um colapso do sistema climático planetário e o Plano C para a Humanidade, pelo visto, à ótica de uma elite de cientistas, será investir em dispositivos tecnológicos feitos à base de escavações e minerações que contribuem, justamente, para o colapso climático. E mais: sem garantia de que as vidas serão salvas. Talvez, só as vidas que importam àqueles que se acham mais empoderados pelo capital.
Vale a pena conhecer os 24 tópicos do Manifesto, que traz críticas ao sistema capitalista desde sua virada ao neoliberalismo. Gestões tecnocráticas tentam equilibrar o desenvolvimentismo às necessidades da natureza, profundamente e recorrentemente ignoradas. Resta olharmos à volta e, como diz Anna Tsing*, “notar esse estranho mundo novo e expandir nossa imaginação para compreender seus contornos”.
A certeza de que há soluções tecnológicas para todos os problemas sociais, políticos, humanos e não humanos fomentam as cabeças ditas inovadoras e criativas. Abandonam pensamentos simples, gestos pequenos, em troca de aceleração e outros superlativos.
Isso não é resistir à modernidade. Mas fazer contato com ela, entendê-la e tentar intervir humanamente.
Vivemos tempos difíceis no Brasil. Tudo o que consigo, hoje, é estudar, refletir, sobre nossas caminhadas, sobre as multiespécies que têm sido esmagadas por nossas pisadas ecológicas. Em nome de quê, no fim e ao cabo?
- Morto em 2022 aos 103 anos
- Em “O cogumelo no fim do mundo – sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo”






