Como se não bastasse ter acordado muita gente no meio da madrugada com um barulho estridente, amedrontador – eu fui uma dessas infelizes criaturas – o falso alerta emitido por hackers no meio da noite de sexta (19) para sábado (21) também pode prejudicar ainda mais a confiança da população em alertas verdadeiros que salvam vidas. Não poderia, portanto, ser mais oportuno o aviso feito pelo presidente do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o cientista José Marengo, à jornalista Denise Assis, colunista do site Brasil 247, em entrevista neste domingo.

O tema da conversa era o El Niño, ou o super El Niño como nós, da mídia, estamos classificando o fenômeno. Mas, ao terminar a entrevista, mesmo tendo sido gravada antes do evento dos hackers, Marengo foi assertivo e quase adivinhou o que aconteceria dias depois ao dizer que um dos propósitos da organização que preside é fazer alertas. Por isso, “queremos que os governos escutem a Ciência e que a população confie nos alertas de desastres”:
“O El Nino é um fenômeno natural, um aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico tropical, que vai da Austrália até a costa Oeste da América do Sul. Os pescadores o apelidaram assim porque ele costuma ocorrer perto do Natal, e o “niño” é, portanto, homenagem a Jesus Cristo. Ele tem histórico, e vai continuar acontecendo, mas não é resultado das mudanças climáticas. O que acontece é que as mudanças climáticas pioram o El Niño, e é para isso que estamos alertando. Nós, cientistas, não chamamos de super ou mega El Niño, mas entendo que a mídia chame assim porque é preciso chamar atenção da população e dos governos. O El Niño é um desarranjo total do clima no mundo” disse José Marengo.
À frente do Cemaden desde 2011, quando o órgão foi criado a pedido da presidente Dilma Roussef por conta da tragédia que ocorreu na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro, José Marengo está vendo com algum otimismo o movimento do poder legislativo e executivo com relação ao El Niño. Desde que a agência Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica na sigla em inglês), científica e regulatória do governo estadunidense anunciou a chegada do fenômeno climático, no dia 11 de junho, o cientista já se reuniu com senadores e tem interagido mais intensamente com a Casa Civil, antesala do Palácio do Planalto.
“Estão preocupados com o assunto El Niño e seus impactos, e isso torna tudo diferente do El Niño de 2015/2016 e de 2023/2024. Vejo que há uma pressão para os governos trabalharem como prevenção, sem esperar que o desastre aconteça. Ainda não sabemos a intensidade do El Niño, mas sabemos que ele vem e que as mudanças climáticas intensificam seus eventos, isso não temos como combater. Mas é preciso que a gente crie a cultura de adaptação. É preciso preparar as pessoas que moram em lugares de alto risco, os mais vulneráveis – idosos, pessoas com deficiência e crianças. A chuva não mata, o que mata é a combinação de chuva intensa, exposição, cidades construídas em áreas de alto risco e pessoas vulneráveis. Aí nós temos um desastre”, afirmou Marengo.
Como um desarranjador do clima, o El Niño faz chover muito onde antes não chovia, ou o inverso. A previsão para o Brasil, sob o comando do El Niño, é muita chuva no Sul, pouca chuva no Nordeste e na Amazônia. E calor, muito calor para o Sudeste.
“O inverno quase não vai existir, o que aumenta os riscos de incêndio e de mortes por causa de temperaturas elevadas. Com o calor, as pessoas consomem mais água, e é preciso notar que o sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, hoje está com 40,19% do volume útil armazenado, e já acabou a temporada de chuvas”, disse o cientista.
Outra fonte de preocupação é o que Marengo chama de estresse térmico, ou “o assassino silencioso”. Se um deslizamento de terra pode matar cem pessoas no momento do desastre, o estresse térmico mata milhares, mas são mortes não notificadas. Em novembro de 2023, durante o show da cantora Taylor Swift no Rio de Janeiro, a jovem Ana Clara Machado morreu por “exaustão térmica”. Uma notificação que ainda não obedece a uma regra.
“Agora a Fundação Oswaldo Cruz e escolas de saúde estão fazendo reanálises e estão surgindo essas causas. Na Europa, em 2022, 60 mil pessoas morreram de calor, mas não foi registrado no momento, diferentemente do que aconteceu em 2024, quando 600 muçulmanos morreram por conta do forte calor em peregrinação a Meca”. Ali eles foram morrendo na rua, desmaiando e morrendo”, disse o cientista.
Não fechar os olhos a esse problema é crucial para que providências sejam tomadas e para que, de fato, o Brasil participe do grande chamado do presidente da COP30, André Corrêa do Lago, que expressou o desejo de que a conferência do clima que aconteceu em Belém, no ano passado, seja lembrada como “a COP da adaptação”. Para o embaixador, a adaptação aos eventos extremos é um “novo passo da evolução humana”.
Um exemplo claro de adaptação necessária ao estresse térmico foi dado pela França, segundo contou José Marengo. Em agosto de 2003, após uma fortíssima onda de calor na Europa, muitos idosos morreram por falta de ar condicionado em suas casas. Como têm mobilidade reduzida, eles eram impossibilitados de buscar uma forma de se refrescar ao ar livre, e muitos prédios antigos não têm condições de ter um sistema de refrigeração.
Para se adaptar a esse problema, a França agora emite alertas de ondas de calor e as casas onde há idosos são obrigadas a buscar abrigos para eles, com refrigeração adequada. E há tais abrigos, o que é muito importante.
Adaptar uma cidade ao calor escaldante significa, por exemplo, plantar muitas árvores para que os cidadãos possam encontrar pequenos oásis em suas jornadas urbanas. O Rio de Janeiro não é exemplo disso, como sabemos. Recentemente, no bairro do Flamengo, investidores do ramo imobiliário arrancaram 71 árvores em vez de compor com elas para construir um prédio. A população reclamou, a mídia deu notícia, mas de nada adiantou. Quem passa por ali, agora, não tem mais a sombra gostosa das árvores centenárias que refrescavam a região;
É do que se trata.
Os cidadãos comuns devem estar atentos aos alertas, e vamos torcer para que a polícia encontre e puna os que emitiram alertas falsos na madrugada. Mas as autoridades competentes, quer seja do nivel federal, estadual ou municipal, precisam dar ao tema o peso que merece. O Cemaden faz a previsão de alertas e emite para a Secretaria Nacional de Defesa Civil de Brasília que, por sua vez, passam para as secretarias de defesa civil dos municípios. Mas, nem sempre o município tem este órgão, o que obriga o Cemaden a ligar pessoalmente. Como aconteceu, certa vez, quando precisaram avisar à prefeitura de São Sebastião que haveria uma tormenta e que a população precisaria ser alertada.
“A prefeitura ouviu e, do outro lado da linha, argumentou: poxa, estamos no Carnaval, como vamos pedir para as pessoas abandonarem suas casas?”
A resposta é simples e, ao mesmo tempo, bem complexa: dando valor à vida.
Vale a pena ouvir a entrevista. O assunto merece. Precisamos falar sobre El Niño.









