O jornalista Claudio Ângelo, Coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, caprichou tanto nesse texto que eu tive vontade de copiar e colar aqui para vocês lerem.

Além de esmiuçar tudo sobre a Primeira Conferência para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que começou hoje lá em Santa Marta, na Colômbia, sobre a qual eu traço algumas linhas nesse post (https://ameliagonzalez848.com/2026/04/20/cedric-dzelu-do-ministerio-das-alteracoes-climaticas-e-da-sustentabilidade-de-gana-ha-estados-unidos-com-trump-e-estados-unidos-sem-trump/), ele ainda tem uma visão quase, vejam bem, eu disse quase otimista com relação ao mapa do caminho para se sair da dependência dos combustíveis fósseis.
Deixo para vocês. Mas, para quem preferir ler direto no site do OC, aqui vai o link: https://oc.eco.br/conferencia-de-santa-marta-busca-clubao-antifossil/. O que eu quero é que a gente espalhe por aí o que está acontecendo no país do nosso continente, e que pode abrir nossos olhos. Sobretudo em um momento tão delicado como esse que estamos vivendo. Não chega a ser conseguir limonada do limão, mas penso que pode ser assim: bora fazer alguma coisa de fato, né gente? Não dá para fingir que nada está acontecendo.
O título é “Conferência de Santa Marta busca ‘clubão’ anti fóssil”. A seguir:
Na tradição católica, Marta era irmã de Lázaro, amigo de Jesus morto após uma doença. Suas súplicas levaram Cristo a ressuscitar o irmão, o que deu a santa Marta a alcunha de padroeira das causas desesperadas e impossíveis.
Nada mais adequado, portanto, que a primeira reunião da história para tratar do fim dos combustíveis fósseis – a mais desesperada e impossível das causas – aconteça na cidade de Santa Marta, no Caribe colombiano. A partir desta sexta-feira (24), milhares de representantes da sociedade civil, academia, sindicatos, povos indígenas, parlamentares e governos subnacionais se reúnem ali para discutir barreiras e modos de impulsionar a transição energética. Na terça e quarta-feira da semana que vem, representantes de 63 países chegam à cidade para o segmento de alto nível da conferência, que reunirá cerca de duas dezenas de ministros de Estado.
Um dos principais objetivos do encontro é formar uma coalizão de países dispostos a avançar na eliminação gradual de petróleo, gás e carvão mineral, a trinca dos infernos que nos últimos 200 anos deu ao mundo tanto um grau sem precedentes de prosperidade quanto uma crise climática que ameaça 10 mil anos de civilização.
A reunião na Colômbia, co-organizada pela Holanda, é um dos dois processos em curso hoje no mundo para atacar diretamente as causas do superaquecimento da Terra. A outra é o mapa do caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis que vem sendo desenhado pela presidência brasileira da COP30. São iniciativas paralelas, mas que se complementam: o resultado de Santa Marta deve fornecer subsídios ao Brasil para o mapa do caminho, razão pela qual a CEO da COP, Ana Toni, participará do encontro na cidade caribenha.
Ambos os processos visam atacar uma falha do regime multilateral de combate à mudança do clima: hoje tornou-se impossível construir consenso dentro da UNFCCC, a Convenção do Clima da ONU, para implementar as determinações do Acordo de Paris na velocidade necessária para cumprir o objetivo de evitar que o aquecimento global ultrapasse 1,5oC.
O tratado assinado no subúrbio da capital francesa em 2015 prevê que a cada cinco anos os países se reúnam para revisitar a ambição coletiva das metas nacionais, ou NDCs. Nesses encontros de balanço global (chamados, sem nenhuma criatividade, de Balanço Global), a soma da ambição das NDCs é comparada ao que seria necessário para resolver o problema. Em caso de insuficiência, recomendações são feitas para que os países aumentem a ambição das metas atuais e proponham metas muito mais estritas para o próximo ciclo de cinco anos.
No primeiro balanço do gênero, concluído em Dubai em 2023, os países concordaram em fazer a “transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis”. Só que não há consenso sobre como tirar essa determinação do papel. Países árabes dizem que não são obrigados a nada e que há “preconceito” contra o petróleo. A Índia e alguns africanos dizem que só se mexerão quando pingar dinheiro dos países ricos, a quem cabe financiar a transição nos países pobres. E, no ano passado, os EUA implodiram o sistema, não apenas saindo do acordo, como desmontando suas políticas internas de transição energética e fazendo bullying para evitar que outras nações avancem no corte de emissões. Como as metas são nacionalmente determinadas, ninguém é obrigado a nada.
O terremoto geopolítico colocou uma questão insolúvel para os participantes do acordo do clima, expressa da seguinte forma por um diplomata de um país emergente: “O que nós preferimos? Universalidade ou eficácia? Não dá mais para ter os dois”. Seguir tratando a implementação nas conferências anuais do clima (as COPs), com 196 países, é uma opção pela universalidade – que nem é tão universal assim, já que os EUA respondem por mais de 10% das emissões atuais do planeta e estão fora do jogo. Só que significa também que o mecanismo de “torniquete” do tratado (que pressupõe avanços progressivos na ambição até zerar emissões líquidas no mundo daqui a 24 anos) será necessariamente frouxo e não conseguirá entregar o que o clima precisa.
Neste ano, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, publicou uma carta à comunidade internacional sugerindo que a eficácia precisará necessariamente ser tratada fora do consenso geral na UNFCCC. O mapa do caminho para a saída dos fósseis se inscreveria num “segundo nível” de governança climática, no qual quem está pronto para avançar toma a dianteira, já que as bilhões de pessoas cujas vidas e o bem-estar se encontram sob ameaça pelos eventos climáticos extremos não podem esperar. A proposta do Brasil é produzir uma espécie de roteiro para que cada país possa fazer o próprio mapa do caminho, coordenando internacionalmente os esforços nacionais de forma a evitar que países consumidores sofram choques de oferta e que produtores sofram choques de demanda. Se organizar direitinho, todo mundo transiciona.
A Colômbia, a Holanda e outros países também estão fazendo a opção pela eficácia. Daí a conferência de Santa Marta ter como um de seus objetivos principais a consolidação da tal “coalizão dos dispostos”, que precisa crescer muito e muito rápido. Os países que confirmaram presença representam um terço do consumo de combustíveis fósseis no mundo, mas apenas um quinto da produção. Somente um movimento político significativo, que surfe a onda criada na COP30 (onde 24 países assinaram uma declaração de princípios lançada pela Colômbia e 84 se disseram de acordo com o mapa do caminho para fósseis), pode empurrar a transição energética no mundo real e influenciar as COPs, que afinal seguem sendo importantes pelo peso legal e pela universalidade. Há, ainda, a intenção de marcar mais uma ou duas conferências do gênero, nas quais se comece a discutir um novo tratado internacional para interromper a proliferação de projetos extrativos de óleo, gás e carvão.
O fator Trump
O “clubão” do carbono que se planeja criar em Santa Marta ganhou um impulso inesperado há dois meses: a agressão de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, que fez os iranianos fecharem o estreito de Hormuz e causou aquilo que a Agência Internacional de Energia chamou de a maior interrupção de oferta de energia da história. A guerra, com seu impacto sobre os preços da energia – e de tudo o mais num mundo extremamente dependente de petróleo –, tem feito os países buscarem alternativas energéticas que não dependam da sanidade mental de Donald Trump.
E, embora algumas das respostas iniciais ao conflito tenham sido procurar óleo e gás fora do Oriente Médio ou simplesmente criar mais oleodutos, é crescente o número de iniciativas nacionais que envolvem ampliar renováveis e aumentar a eletrificação: o Japão expandiu as licenças para energia eólica offshore; a renitente Índia está acelerando licenças para sistemas eólicos com armazenamento; a Coreia do Sul anunciou planos de triplicar a capacidade instalada renovável até 2030; a Espanha estendeu incentivos para carros elétricos e o Reino Unido anunciou planos de descarbonização de novas residências.
A própria quantidade de países confirmando presença em Santa Marta sinaliza um interesse ampliado na conferência e em suas implicações: duas semanas atrás, apenas 45 países estavam confirmados, dos cem inicialmente convidados; na semana do início do encontro já eram 63, duas vezes e meia o número de signatários da declaração de Belém.
A reunião, cujo nome oficial é Primeira Conferência para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, não tem uma bala mágica. Ninguém vai sair de Santa Marta fechando poços de petróleo, até porque, segundo as contas dos pesquisadores suecos Andreas Malm e Wim Cartom, 50% do sistema financeiro global está atrelado ao capital fóssil. O que se espera de resultado são duas coisas: primeiro, um relatório que traga uma visão honesta do tamanho da encrenca, e que possa começar a responder do que precisam os países produtores para iniciar, por exemplo, a conversão de empresas nacionais de petróleo em empresas de energia. Esse relatório não será apresentado dia 29, quando terminar o segmento ministerial, mas deve ser encaminhado à presidência brasileira da COP30.
O segundo resultado é esperado em mobilização da sociedade e da opinião pública. Santa Marta precisa aproveitar a guerra para fazer tanto barulho sobre a transição energética que os políticos em Washington, Riad e Moscou não consigam mais dormir.
O Caribe colombiano é pé quente nesse sentido: a quatro horas de ônibus de Santa Marta está Cartagena de Índias, cidade que em 2009 batizou um encontro entre 40 países ricos e pobres para discutir como avançar a ambição climática após o fracasso da conferência de Copenhague. O chamado Diálogo de Cartagena seria transmutado em 2015 na Coalizão da Alta Ambição, grupo de países considerado chave para o sucesso da conferência de Paris.











