Como é bom viver em um mundo onde há pessoas capazes de se unir e criar um coletivo com um nobre objetivo, o de ajudar cachorros que foram abandonados. Bem, nesse mesmo mundo há pessoas que abandonam cachorros, e outras que até os matam cruelmente. Não vou falar a respeito da barbárie ocorrida em Santa Catarina porque não consigo fazer contato com aquela monstruosidade.
Este texto é para contar uma boa prosa.
Bolt, nosso querido, doido para ter uma casa só para ele tomar conta
Moro em um bairro que gosta de cachorros. Na verdade, a gente costuma dizer que aqui moram mais caninos do que humanos, o que certamente é um exagero. Mas é um despropósito simpático.
Ocorre que nossa empatia foi se alastrando feito rastro de pólvora por toda a gente e tem ultrapassado fronteiras. Isto quer dizer que, mais amiúde do que seria desejável, alguém decide pregar uma peça (comentário que contém uma tonelada de ironia) em seu bicho de estimação, aquele mesmo que diariamente, anos a fio, recebia o tutor com o rabo abanando em festa, fosse qual fosse a situação, e o abandona aqui na rua.
Vez ou outra o antropocentrismo é tamanho que traduz a covardia em compaixão pelo animal. E o tutor o amarra a um poste para mostrar zelo para que o bichinho, preso, não perambule a ponto de ser atropelado. De uma só tacada, o cruel abandona o cão e impõe-lhe uma tormenta de estar preso, às vezes debaixo de um sol tremendo, sem condições mesmo de buscar comida estragada em algum canto.
Mas temos boas notícias, e é delas que vou tratar aqui. Nos grupos criados para tentar garantir a proteção desses bichos, há casos narrados pelos que se tomam por ‘cachorreiros” (adoro esse apelido), ou seja, pessoas que chegam perto dos animais e levam-nos para abrigos, dando conta de uma transformação radical no comportamento do cão abandonado. De triste e cabisbaixo, depois de poucos dias de comida, carinho, bons tratos e segurança, eles se tornam guardiães do(a) humano(a) que os protegeu. É lindo de ver. E verdadeiro.
Não sou uma cachorreira legítima. Em parte porque sou tutora de um Shih Tzu bem territorialista, que não receberia com apupos outro ser de quatro patas aqui em casa. Acho até que depois de um tempo ele seria obrigado a se acostumar, mas não quero submetê-lo a essa aflição.
Sendo assim, estou na linha do “ajudo como posso”. Como as redes sociais possibilitam esse vazamento de conversas para um canto e outro, participo de dois grupos de cachorreiro(a)s .
O primeiro grupo que me atraiu surgiu há dois anos, quando uma amiga que mora na Lagoa se compadeceu de um cão preto muito magro e deprimido que perambulava por ali, sem dono e sem rumo. A coleirinha que os abandonados ostentam é o triste símbolo de que um dia foram parceiros de um humano.
Um contou para o outro, que contou para um terceiro, alguém arrumou um táxi, outro alguém fez contato com uma pessoa que tem abrigo… E lá se foi o cão magro e deprimido, que por ter pernas longas recebeu o nome de Bolt.
Bolt recebeu cuidados veterinários (esta é sempre a primeira providência após o recolhimento). Andava comendo besteiras na rua há muito tempo, pelo jeito, o bichinho, porque tinha problemas no fígado. Mas recebeu o tratamento adequado, tomou antibiótico, as vacinas necessárias. No abrigo, os primeiros dias foram de solidão para Bolt, pois pretendeu-se fortalecê-lo antes de ser apresentado aos amigos.
O tempo passou e Bolt se recuperou totalmente. O grupo que se criou para assegurar sua saúde, do qual orgulhosamente eu faço parte, vira e mexe tenta fazer algum movimento para que Bolt arrume uma casa para chamar de sua, um tutor ou uma tutora que ele precise guardar, afinal é esta a função dos cães. Ainda não conseguimos, mas não perdemos a esperança. O problema é que o abrigo tem outros tantos (acho que uns 30) na mesma situação. De qualquer maneira, na rua Bolt não fica mais.
Já um outro grupo se formou em torno de Pérola e Chérie, duas fêmeas que foram amarradas em uma calçada aqui perto. Alguém passou, viu, pegou, levou para o veterinário, um abrigo… o mesmo esquema. Pérola teve sorte, já foi adotada, e hoje vive vida de madame no Leblon. Chérie, sua companheira de desdita, ainda aguarda a boa fortuna.
A bela Chérie, como não adotar?
Mal cuidávamos das duas, quando, em uma manhã calorenta no dia de Natal, um malhadinho apareceu zanzando pelo bairro. Foi feito todo o périplo novamente (ah, sim, eu me esqueci de dizer que todos e todas passam pela castração), o cão recebeu o nome de Noel (não podia ser outro, né?) e também já está abrigado.
Poucos dias depois, o agora Rudolf foi encontrado à beira de um caminho perigoso, a um passo de ser atropelado, o bichinho. Lá foi Rudolf ser bem cuidado, bem tratado, ganhou casa, comida, e outros companheiros. Também está no abrigo, também querendo ser adotado.
Esta é a história com final quase feliz para alguns cães abandonados que ganham, ao menos, abrigo e comida.
E se alguém aqui quiser se juntar e colaborar, será muito bem-vindo. O endereço para a vakinha dos três abrigados de Laranjeiras – Noel, Chérie e Rudolf – é este: https://www.vakinha.com.br/5886152.
Um assunto puxa o outro, que puxa outro, e assim vai se fazendo o bordado de quem escreve sobre a natureza, melhor dizendo, sobre os impactos que a raça humana causa à natureza. Há muitos fios para se puxar porque é amplo o espectro dos assuntos que envolvem os impactos causados em prol do desenvolvimento, que às vezes é bem-vindo mas que, na maioria das vezes, tem sido desmedido, acirrado pela ganância e pela fala de limites. Estamos vendo isso em cores e ao vivo, pelos atos provocados por Donald Trump, que se toma como líder da nação mais rica.
Foto tirada de um frame do documentário “Ocean”
Bem, mas ia dizendo que um assunto puxa o outro. E aos amigos e autores que me rodeiam, todo o meu agradecimento porque me fornecem o alimento certo para poder compartilhar com os leitores alguns pensamentos que vão longe do que estamos vendo, ouvindo e lendo diariamente em tempo real. Dá tanta angústia que, muitas vezes, a gente tem vontade de fechar tudo e apenas sonhar. Meu convite, aqui, é ampliar pensamento.
Um bom começo para essa conversa é o documentário “Ocean” (assistir somente pelo stream da Disney), dirigido e narrado por David Attenborough, apresentador britânico de 99 anos, considerado uma espécie de tesouro do Reino Unido, que há cerca de sete anos tornou-se uma voz potente contra o extermínio da natureza. Nos primeiros 25 minutos do filme, as imagens são de deixar qualquer um extasiado com tanta beleza. É tanta vida que existe no mundo submarino. E vidas tão coloridas, legítimas, dignas.
A partir dos 25 minutos, como sói, chega o tempo da denúncia. Eu não sabia, por exemplo, que existem já 400 mil indústrias espalhadas nos oceanos. Navios plataformas imensos, que não só abrigam milhares de pescadores, como também geram emprego – não se sabe em quais condições trabalhistas, mas dá para fazer uma ideia.
Nas plataformas imensas há máquinas potentes capazes de transformar o pequeno peixe vermelho de nome krill em ração e comprimidos de Ômega 3 que vão dali direto para a gôndola da sua farmácia ali na esquina.
Ocorre que o krill, o que tem de pequeno, tem de gigante em importância na cadeia alimentar na vida marinha, já que serve de alimento para baleias e focas, além de ajudar a regular o carbono atmosférico. Os krills se alimentam de fitoplâncton e têm a capacidade de produzir luz (são bioluminescentes), sendo cruciais para o ecossistema.
Foi na década de 1980, que os japoneses descobriram que os pequeninos peixes também podem ser usados como suplemento para humanos. (Aqui vale a dica: a linhaça está entre os vegetais que também fornecem essa “gordura boa”, como se descobriu depois). Com a descoberta, houve uma corrida global ao Ômega 3, ou seja, ao krill. Resultado direto: a população de krill está sob ameaça severa, não só por causa da pesca industrial como por causa das mudanças do clima.
É só um exemplo, dos muitos que Attenborough lista em seu documentário, lançado em maio de 2025, para mostrar que é preciso ter um limite para a pesca industrial, e que nossos oceanos estão completamente à mercê da ganância do desenvolvimento inescrupuloso. Só 3% são protegidos. O britânico faz questão de afirmar que não é contra a pesca, mas enfatiza a necessidade de que a atividade venha seguida pela palavrinha mágica: preservação.
“A pesca saudável e a preservação têm os mesmos objetivos: mais peixes, mais abundância e mais saúde para os oceanos”, diz ele. “Oceans” vale a pena ser visto, e quem me chamou atenção no livro de Donna Haraway, “Ficar com o problema” (Ed. N-um) sobre o qual já falei várias vezes com vocês, caros leitores e caras leitoras. A ela, todo meu agradecimento.
O assunto mares e oceanos ficou me rondando, portanto. Até que a amiga Lucila Soares, que atravessou o Atlântico para gozar de merecidas férias, mandou-me uma foto, um texto, e a mensagem: “Lembrei de você. Dá assunto para a sua coluna”.
Mais do que depressa, inteirei-me do assunto. No Museu Guggenheim, em Bilbao, uma das salas é ocupada por uma escultura metálica de oito metros de altura por 14 metros de largura, do artista ganês El Anatsui, já aos 81 anos. A obra se chama “Mar Crescente”.
“A serena harmonia visual contrasta com o título da obra, Mar Crescente, que nos lembra e nos alerta que a natureza e as civilizações podem ser transformadas em um instante. A grande escala da obra é, portanto, uma metáfora da enormidade das mudanças climáticas”, diz o texto explicativo.
Pouco mais de 400 km separam o país de El Anatsui de Lagos, na Nigéria. E Lagos é uma das 48 cidades que, segundo um estudo realizado por pesquisadores da Nanyang Technological University, em Singapura, está ameaçada de ser engolfada pelo mar até 2100. Rio de Janeiro e Tóquio também estão na lista divulgada pelos pesquisadores de Singapura em janeiro de 2025. El Anatsui denuncia o problema e retrata o avanço do mar sobre um horizonte urbano com escarsas marcas de cor na obra (veja aqui, no site do artista).
É interessante ler também sobre a vida do artista de Gana, país colocado na 143 ª posição entre 193 nações listadas no Relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2025. El Anatsui conquistou o mundo enquanto vivia e trabalhava na cidade universitária nigeriana de Nsukka. O material predileto dele são as tampas de garrafa de metal, assim como o tecido.
“Mar Crescente” foi realizada em 2019 e, para concretizá-la, El Anatsui empregou uma equipe de pessoas de toda Nsukka. Apontou, com essa atitude, uma sensibilidade que deveria ser universal – a arte que gera empregos e renda.
Vou terminar com uma nota fresquinha, que dá título ao texto. Na verdade, se eu seguisse a ordem correta das notícias, teria que abrir o texto com ela. Mas ando meio desordeira.
Foi logo no iniciozinho do ano que outro amigo, Márcio Santa Rosa, que trabalha na Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do estado do Rio e tem um especial carinho pelo desenvolvimento sustentável que os oceanos e mares podem oferecer, mandou-me uma mensagem lacônica, só com um link. Era uma notícia do Diário Oficial do Rio de Janeiro. E foi uma boa surpresa.
Trata-se da lei estadual número 11.103, de 15 de janeiro de 2026, assinada pelo governador Castro, dispondo sobre a “Criação da política estadual de promoção da cultura oceânica do Estado do Rio de Janeiro”. Uma leitura mais apurada do texto da lei pode provocar até uma parcimoniosa euforia.
A considerar verdadeiras as intenções dos servidores envolvidos no novo regramento, o estado do Rio de Janeiro tem, desde então, obrigação de seguir um letramento oceânico que, segundo o texto do D.O. significa “conhecer a influência dos oceanos sobre nós e nossa influência nos oceanos”. Ora, só isto já vale minha parcimoniosa euforia.
Estou entendendo que agora é lei: crianças, jovens e adultos precisam se dar conta de tudo aquilo que David Attenborough fala em seu documentário. Seria muita ousadia minha pedir que as escolas estaduais fossem obrigadas a fazer sessões audiovisuais com “Ocean with David Attenborough”?
Para além do letramento, haverá necessidade de as escolas ensinarem educação ambiental. Faremos ainda campanhas de sensibilização sobre o impacto da poluição marinha, sobre a elevação dos mares e pesquisas serão incentivadas. E mais: o estado vai dar um Certificado de Amigo da Cultura Oceânica para empresas que atuam na exploração dos recursos marinhos e adotem práticas sustentáveis.
Só boas notícias. E assim termino meu texto que, como sempre, ficou maior do que eu gostaria. Mas, o que eu posso fazer se meus amigos são um barato e se eu só me cerco também de bons e criativos autores?
O tema do post anterior continua em evidência, portanto vou retomá-lo. Escrevi sobre a morte das 71 árvores que estavam postas em sossego em um terreno privado de um colégio no Flamengo e foram derrubadas para darem lugar a prédios com mais de 400 apartamentos.
Lindos ipês que floraram aqui na esquina. Por que não temos campanhas para salvar árvores? Foto Amelia Gonzalez
“Ainda que ocupem uma pequena porção da superfície terrestre (2 a 3%), as cidades são o epicentro de nossas agressões ao meio ambiente”, denuncia Stefano Mancuso.
Trata-se do escritor italiano, o mais importante especialista global em neurobiologia vegetal, autor de “Revolução das Plantas” e “Nação das Plantas”, entre outros. Mancuso agora brinda os leitores com “Fitópolis”, que será lançado em fevereiro pela Editora Ubu, cuja leitura me acompanhou nesses primeiros dias do ano.
No livro, Mancuso demonstra a total incapacidade de a humanidade perceber a importância da vegetação nas cidades. Na natureza, a relação é de 86,7% de plantas contra 0,3% de animais. No entanto, mesmo sabendo disso, nossas cidades têm sido projetadas com uma espécie de cegueira vegetal.
Nesse ponto, e em vários outros do livro, não há como dissociar o que diz o italiano do que estamos vivendo no Rio de Janeiro hoje. A cidade deveria ter pelo menos mais 300 mil árvores, segundo informações do meu colega Andre Trigueiro no portal G1. Ocorre que empresas que recebem autorização para fazer empreendimentos apenas se cumprirem a compensação, nem isso fazem.
É bom que se diga: exigir o plantio de mudas para compensar o desmatamento é quase inócuo. As mudas são plantadas e, em geral, não há acompanhamento para ver se, de fato, estão crescendo e se desenvolvendo para compensar todo o serviço ambiental que as árvores extirpadas prestavam.
Vamos a alguns dados bem alarmantes sobre a falta de árvores em cidades, anunciados por Stefano Mancuso em seu necessário “Fitópolis”.
. Hoje, 350 cidades vivem três meses em que as temperaturas não ficam abaixo de 35 graus. Em 2050, serão 970 cidades nessa situação;
. Hoje, 200 milhões de pessoas vivem em cidades em condições de calor extremo e esse número chegará a 1,6 bilhão em 2050;
. Hoje 14% da população urbana mundial vivem em cidades muito quentes e, em 2050, serão 45%
. Se o aquecimento global alterar o ambiente a uma velocidade superior à capacidade de deslocamento das nossas florestas, as consequencias podem ser dramáticas
Não são profecias apocalípticas, mas estudos realizados por incansáveis cientistas que, a despeito de não serem ouvidos, continuam debruçados em computadores (eram pranchetas) calculando o quanto nos custará nossa indiferença. Mancuso reuniu alguns desses dados em seu livro e alerta:
“Segundo a maioria dos modelos, nos próximos 30 a 50 anos uma porcentagem significativa do globo estará quente demais para se viver.”
Bem, mas alguns seres vivos terão mais capacidade do que os outros de sobreviver ao colapso. As árvores, garante Stefano Mancuso.
“O planejamento urbano desconhece os ensinamentos do mundo das plantas. Onde quer que se reduza a biodiversidade (mesmo em diferentes áreas de uma cidade) o risco de o ambiente se tornar instável é muito maior” , denuncia o italiano.
Stefano Mancuso defende um modelo de cidade baseado nas plantas, que funcionaria da seguinte maneira:
“Cidades mais espalhadas, onde a maioria das necessidades dos cidadãos podem ser satisfeitas em longos trajetos e nas quais cada bairro é construído de forma a garantir a maior biodiversidade possível, representam um pré-requisito necessário para a resistência”, escreve Mancuso.
Ao mesmo tempo, o escritor se pergunta: “Como é possível realizar a mudança drástica que seria necessária para resistir ao aquecimento global, se mesmo propostas ridiculamente limitadas como plantar árvores ao longo da rua encontram oposição?”
Qualquer semelhança com o que vivemos no Rio de Janeiro não será mera coincidência. Porque o modelo animal é rígido.
“Para viver milênios é necessário que nenhuma parte do corpo seja única e insubstituível, e para que isso seja possível, cada função essencial à vida precisa ser distribuída por todo o corpo e não se concentrar em órgãos especializados. A organização da planta é exatamente assim, espalhada e distribuída, capaz de responder a limitações catastróficas sem perder a funcionalidade. O exato oposto da organização animal, baseada em uma hierarquia rígida e na especialização segundo a qual basta que alguns órgãos falhem para que toda a organização entre em colapso”.
Mancuso dá a régua e o compasso. Assim como ele, alguns outros pensadores da urbanidade não se limitam ao trivial para pensar em centros urbanos que possam oferecer qualidade de vida aos moradores. É preciso evitar a organização centralizada, entender a cidade como um ser vivo, que nasce, cresce e morre. Participar da vida desse ser vivo requer cuidados e requer ter respeito a todos os seres vivos que convivem conosco.
O tronco de uma árvore também arrancada do solo urbano carioca. Foto que eu mesma tirei durante uma caminhada.
Já não me importo com a falha, visível a olho nu, da administração municipal do Rio de Janeiro no caso das 71 árvores que foram arrancadas do solo para deixar construírem dois prédios com 350 apartamentos no Flamengo. Infelizmente, não vivemos momentos de muita fé nas instituições e nos que se tomam por líderes e chefes.
Fico, sim, espantada, irritada, dá-me gana perceber a absoluta crueza de tais empresários. Mais ainda, com as pessoas que escolherão um bairro já muito densamento povoado, para morar, sabendo que as caixas/apartamentos onde amontoarão as coisas que acumularam serão construídas no lugar do verde.
É possível que, se tivessem tido um pouco, um pouquinho só, de respeito ao entorno, tais empresários percebessem zeros a menos em seu lucro. E o horror de se sentirem menos ricos nublou totalmente a capacidade de perceber que estariam sendo muito, mas muito mais interessantes, até para o mercado imobiliário, caso erguessem os prédios em meio às árvores. Compor com o verde, fazer disso um alarde. Tantas oportunidades de não serem tão triviais e vulgares.
A ganância torna as pessoas medíocres, sem subjetividade, sem criatividade. Erguerão ali amontoados de cimento, porcelanato, ladrilhos, fazendo aquele amontoado de sempre.
Por essas e outras que estamos vendo o Rio de Janeiro se tornar uma ilha de calor mais forte a cada dia. Por essas e outras que sempre tenho desejo de pedir desculpas a uma criança recém-nascida. Olhem bem o mundo que estamos deixando para as próximas gerações.
E para não ficar devendo informações, já que o ofício de jornalista assim obriga, aqui vai: segundo a revista Lancet, de 2000 para cá, aumentou muito o número de pessoas mortas po conta das formas modernas de poluição. E o urbanismo descontrolado é um dos responsáveis. Todos os anos nove milhões de pessoas morrem por causa da poluição. Só para se ter um meio de comparação, a Covid matou 15 milhões.
Na absoluta impossibilidade de (d)escrever ações para conter as mudanças do clima, extermínio criminoso de árvores urbanas, resíduos urbanos não coletados, desmatamento, poluição, temas que sempre povoam este blog, decido pegar carona nos pensamentos inquietos de Dona Haraway em “Ficar com o problema” (Ed. N-um). Sim, estou incapaz de construir um pensamento que se desprenda das cenas arrogantes protagonizadas por um homem que se toma por líder de grande nação e sequestra outro para roubar-lhe o território, petróleo e terras raras, sem considerar o direito sagrado de uma população fazer escolhas. Pior: obrigando as pessoas a sentirem pânico e dor.
Eu e minha bolsa coletora andamos muito por aí. Foto tirada por mim em um certo caminhar
Deveria estar escrevendo sobre a quantidade desastrosa de lixo deixado pelas pessoas que foram passar a noite de ano novo nas areias da Praia de Copacabana. Deveria estar cobrando de mr. Trump os bilhões ou trilhões que tem gasto com armamento sem dar atenção à necessidade dos países vulneráveis aos eventos extremos causados por emissões de gases poluentes de nações como a dele, a mais rica do planeta.
Mas eu me sentiria desfocada, aquela que fala sobre coisas nada-a-ver. Porque só se tem olhares para as mudanças do clima quando acontece uma grande Conferência, como foi a COP30, em Belém. Foi em novembro, lembram-se? Há pouco mais de um mês.
Em vez disso, busco, preciso tentar desconstruir as imagens que me obrigam a ver, em todos os sites noticiosos na internet, de um homem tolhido de visão e audição, com algo nas mãos que não entendo bem, num cenário semelhante a um bunker. É um presidente, foi eleito pelo povo. A imagem foi também a primeira página dos principais jornais impressos do mundo.
Na verdade, o estado do mundo, hoje, me entristece. Tento construir um hiato de tempo para pensar outras coisas. Sem forças para lutar contra tantos desmandos, peço licença aos leitores para fabular um pouco. Lendo Haraway, espelho-me em um trecho da escritora ficcionista Ursula Le Guin, que ela reproduz. Diz Le Guin: “Eu sou uma mulher envelhecida e zangada, impondo-me com a minha bolsa, lutando contra os bandidos”. Se tirar a palavra “envelhecida”, pois não é assim que me sinto, o resto sou eu.
Às vezes zangada – o calor excessivo destrói meu humor – às vezes nem tanto, me transformo em um ser livre, andando por aí com uma bolsa coletora, a sair juntando bons pedaços de tudo o que mais quero perto de mim. O que levaria na minha bolsa coletora? Fiz uma lista, que compartilho com os leitores nessa tarde/noite chuvosa do primeiro domingo de 2026, o ano que começou com uma guerra.
Levaria na minha bolsa…
O doce vagar de um olhar que vai de um canto a outro sem buscar nada. Um olhar que apenas sorve o que as árvores, as pedras, as plantas, os bichos e o céu têm para mostrar;
O barulho da chuva caindo no chão, acariciando as folhas. E elas adoram esse contato;
O aconchego de um cão;
O doce momento empregado em não empregar, em desempregar. Um doce momento, apenas isso. Sendo;
Uma distração;
Todos os bichos. Bem, quase todos – que me desculpem as baratas e os mosquitos, eles não estão nessa lista, por eles não tenho afeto;
Uma paisagem paralisada que trago de tempos idos. Manhã fria, bem fria, com céu azul, sol fraquinho, e a intensa e rara sensação de estar bem segura;
A sensação de acolhimento que sinto ao ver uma luz de cor amarela, bem fraca, em um cômodo quieto, com uma cortina branca fechando parte de uma janela de madeira;
A sensação de amparo que me traz a lembrança de uma estrada de terra vazia, com dois, três, quatro postes daqueles antigos, de lâmpadas quentes, a iluminar o caminho;
Uma estrada que leva e traz pouca gente;
Motores não barulhentos, com potência certa, capaz apenas de servir como apoio às pernas dos coletores. Para que mais?
A não velocidade;
A não ganância;
O desacúmulo, para não explorar mais os bens comuns da natureza;
Eu levo na minha bolsa coletora a vontade, o desejo;
O movimento. Faz parte de mim não gostar de estar parada;
A despreguiça;
A água, a terra, todas as plantas;
Um som que não é melodia;
Na minha bolsa coletora cabem também os livros que me ensinam. De autores que compartilham aquilo que lêem em outros livros. Não de autores que ditam verdades;
Levo comigo a delícia do ser.
Minha bolsa coletora estará comigo em todos os cantos em que eu puder me sentar, com meu cachorro do lado, meus pensamentos soltos. E meus pedidos de desculpas por tudo o que nós, dessa raça incrível que consegue ser a única que destrói o próprio habitat, estamos fazendo ao meio ambiente.
Feliz 2026! Ainda há tempo para se desejar coisas boas.
Hoje pela manhã, fui surpreendida quando o amigo Marcio Barroso me mandou um zap dizendo que acabara de receber o link desse texto que reproduzo abaixo, escrito por mim em agosto de 2024.
Naquele tempo, eu contribuía para o site da Casa Monte Alegre, postava lá meus textos, antes de postar aqui no blog.
Quem mandou o texto para o Marcio foi a Dionê, uma das personagens do meu texto de outrora.
Comecei a ler e achei tão bom que decidi compartilhar novamente com vocês. Passei essas duas últimas semanas muito lotada de trabalho, a tal ponto que não consegui escrever.
Semana que vem eu retorno. Mas fiquem com essa reportagem. Está grande, mas é interessante para todos nós que pensamos o mundo com fronteiras abertas e que sabemos que não estamos por aqui sozinhos.
O elo cauteloso, mas preciso, entre os Jardins Filtrantes de Niterói e as palestras sobre Economia Azul
Um corredor pintado de preto e iluminado apenas com a luz nervosa de desenhos futuristas controlados por computador. Formatos diferenciados, exigindo do espectador uma atenção redobrada, já que em segundos se desfaziam e se transformavam em outra coisa. A música de fundo, um misto de som clássico e futurista, acompanhava o sentido de urgência que se traduz numa quase frenética busca, numa total falta de hiato. Mas instiga, sugere novas possibilidades, cria um grande ponto de interrogação que vai nos acompanhando pelo caminho. Foi assim minha acolhida na Rio Innovation Week, auto intitulado maior evento global de tecnologia e inovação, que aconteceu no Pier Mauá entre os dias 13 e 16 de agosto.
O encontro foi, efetivamente, mega. Ocupou uma área de 70 mil metros quadrados no Píer Mauá, ofereceu 32 conferências, teve mais de 2.500 palestrantes, rendeu R$ 2,3 bilhões em geração de novos negócios, recebeu 155 mil visitantes. E foi pensado, segundo o card de apresentação, para “gerar reflexão e impacto real para transformar realidades: vai além do estímulo à inovação e ao empreendedorismo”. Se é isso, estou junto.
Pois muito bem. E o que eu, que prezo e respeito o conhecimento tradicional e o contato com a realidade que se transforma por si só (natureza), estava fazendo ali, cercada pelo povo da inteligência artificial? Curiosidade jornalística é meu combustível. E como tenho amigos que fazem coisas interessantes e me convidam, fui a convite de Marcio Marcio Santa Rosa, que há tempos vem me atiçando a curiosidade com a expressão Economia Azul. Ele é coordenador do Programa Guanabara Azul e Bacias da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro, entende muito do assunto, e eu estive na conferência promovida por ele num dos muitos espaços da feira.
No caminho, lembrei-me de quantos movimentos ao desconhecido tenho feito na lida como repórter. Em 2008, por exemplo, fui à China participar de um seminário sobre “Cidades Sustentáveis” porque era uma expressão nova por aqui. Quem diria, né? Praticamente uma década e meia depois, hoje é uma expressão tão usada e ousada. Ali mesmo, na RIW (esta é a sigla que facilita a comunicação), vi muitas vezes a palavra sustentabilidade escrita nos cartazes que apresentavam os espaços, as conferências. Que bom.
A subsecretaria Ana Asti faz apresentação no evento Guanabara Azul
Assim, vamos ao que interessa: o que é Economia Azul? Conceitualmente, é um sistema que se preocupa em promover o desenvolvimento econômico com foco na preservação dos ecossistemas marinhos e na sustentabilidade ambiental. Pelo que comecei a aprender a partir das três palestras às quais assisti na RIW, a Economia Azul tem, na essência, o olhar cuidadoso para quem vive do ecossistema marinho, ou para o S do acrônimo ESG (Environmental, Social and Governance). Para isso, aqui no Rio de Janeiro, conta com o Programa Guanabara Azul, que virou política pública no ano passado.
Para que a gestão de Economia Azul seja eficaz, uma questão é absurdamente premente: a limpeza dos rios, baías, oceanos, mares etc. E sim, a poluição da Baía de Guanabara, mais conhecida dos cariocas do que o mate e o biscoito da praia, é, no mínimo, um obstáculo e tanto para a Economia Azul no Rio de Janeiro.
Para não desanimar nem avivar o tal espírito de vira-lata, vale pensar que o problema não é só nosso. Vejam o que aconteceu durante as Olimpíadas em Paris, quando alguns atletas que nadaram no Sena adoeceram por conta da sujeira. E dias antes, a prefeita Hidalgo tinha feito aquela cena para as redes, nadando no Sena para mostrar que estava limpinho. Tá vendo? Não é só aqui do lado debaixo do Equador que acontece.
O fenômeno que acabou causando o problema em Paris foi explicado por Luiz Firmino Martins Pereira, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, geógrafo e especialista em saneamento, um dos palestrantes da conferência que se chamou “Guanabara Azul”. A explicação é técnica, mas dá para entender:
“Só um sistema de separador absoluto não consegue dar conta da poluição. O Sistema de Tempo Seco colapsou, extravasou e vazou para o Rio Sena”, explicou ele.
Resumindo: quando a prefeita Hidalgo nadou, realmente estava tudo limpo, mas logo depois choveu forte, o que fez o tal Sistema de Tempo Seco colapsar. Quem quiser conhecer os detalhes, pode acessar o estudo feito por Luiz Firmino e colegas da FGV, chamado Cinturão Metropolitano da Guanabara.
Ana Asti, subsecretária de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do RJ, foi a primeira a palestrar e deixou patente um sentimento comum a todos ali: a paixão pela Baía de Guanabara. Asti traduziu assim o intento do Guanabara Azul, coordenado por Marcio Santa Rosa: até 2030, 90% da região estarão saneados.
“Se eu conseguir que os municípios tenham relação com a Baía de Guanabara, vou conseguir também desenvolver novos empregos , o que vai gerar renda. Há dez projetos de fomento à bioeconomia que podem viabilizar novos negócios. A Baía é a principal porta de entrada do país e hoje ainda tem muitas casas que estão de costas para ela. Queremos mudar isso”, disse Asti.
As mudanças climáticas serão levadas em conta, ressalta Ana Asti, que elenca o saneamento em favelas como o maior desafio da área. Para isso, por exemplo, vai ser inaugurada uma Estação de Tratamento de Esgotos em Queimados daqui a dois anos.
De qualquer forma, o plano de recuperação ambiental da Baía de Guanabara precisa sair do papel, já não é sem tempo. Parcerias têm sido feitas pela turma que está no comando da Secretaria, cuidando do meio ambiente. Estudos têm sido aplicados. Luiz Firmino falou sobre o modelo de Jardins Filtrantes, que está sendo empregado em Nova York e eu me lembrei, imediatamente, de outro local em que este modelo está sendo usado: Niterói. Meu pensamento voou longe dali.
Pouco mais de uma semana antes, a convite de outra amiga, Samyra Crespo, ambientalista, escritora, que elaborou a primeira pesquisa de opinião pública sobre meio ambiente no Brasil, estive visitando o Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis, em Niterói, que pôs em prática o Sistema de Jardim Filtrante, e urbanizou a área onde fica o bairro Fazendinha. E foi lá que eu ouvi falar em Jardins Filtrantes.
Em Niterói, como no Rio, o objetivo é o mesmo: limpar as águas. Com águas limpas e saudáveis, é fácil pensar em atividades relacionadas com os meios aquáticos. A economia azul pretende impulsioná-las, mas com equilíbrio para não impactar o ecossistema. É um elo cauteloso, mas preciso.
Ode às Macrófitas
Foi também numa manhã ensolarada que cheguei a Piratininga. Antes, pegamos um catamarã, e fomos ouvindo a explanação de Dionê Maria Marinho Castro, que há mais de uma década está à frente do Programa de Despoluição da Enseada de Jurujuba e criação de Modelo de Gestão Municipal Integrada na Prefeitura de Niterói. É também uma servidora pública animada com o que faz, como a Asti, o Marcio… dá gosto de ver.
Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis
Dionê começou contando sobre como Niterói se modificou com a inauguração da Ponte. Era uma cidade, virou outra, e isso é facil de imaginar. Deveria ser fácil, para as autoridades da época, imaginar também. E tomarem providências para evitar, por exemplo, colapsos no sistema de esgoto. Mas é assim: na hora de prever o lucro, dificilmente os donos do poder e do capital querem pensar em problemas…
Uma das mais prejudicadas foi a Lagoa de Piratininga. Passaram-se muitos anos até que veio uma Solução Baseada na Natureza, expressão criada pela Comissão Europeia que significa, resumidamente: ações que visam a proteger, gerir de maneira sustentável ou restaurar ecossistemas naturais a fim de enfrentar desafios da natureza. No caso, a solução encontrada foi, justamente, criar dois quilômetros de Jardins Filtrantes.
Não vou tentar dar detalhes técnicos, porque tenho medo de errar alguma coisa. Naquela manhã de quinta-feira, quando Dionê levou toda a equipe do Projeto de Implantação de Infraestrutura Sustentável para Recuperação Socioambiental de um Sistema Lagunar Urbano, tivemos uma aula sobre Jardins Filtrantes. E eu pude exercer a profissão que me constitui: sou repórter. Anotei um bocado sobre leito de secagem, retenção de sedimentos, caixas de passagem de 50 em 50 metros, tudo para a criação de novos equilíbrios ambientais. Mas, para não cansar os leitores, vou preferir resumir assim: o projeto deu certo. É visível a recuperação socioambiental do sistema lagunar, o cuidado que a equipe teve, sem precisar gastar mais do que R$ 100 milhões. Ou seja: é possível, precisa apenas ter vontade política e uma boa equipe.
Conto aqui duas histórias rápidas.
A primeira história é sobre a Macrófita aquática. Revelo minha paixão pelo mundo das plantas, e deixo a recomendação de um livro maravilhoso – “Sumário de Plantas Oficiosas”, de Efrén Giraldo – que li logo após ter tomado conhecimento de outro, Stefano Mancuso, pioneiro da neurobiologia das plantas, de quem já li três volumes. Durante a visita ao Parque Orla, não por acaso me aproximei da bióloga Heloisa Osanai, que faz parte da equipe e cuida desses seres.
Mancuso e Giraldo nos fazem pensar nas plantas como seres ativos, que se mudam, que viajam, e que escolheram a imobilidade em contraponto aos animais errantes. As macrófitas, assim, merecem todo o meu respeito porque, entre tantas outras qualidades, conforme me explicou Heloisa Osanai, elas podem servir como uma espécie de biofiltro, reduzindo a carga orgânica no ambiente. Contribuem, então, para formar os Jardins Filtrantes. Querem atitude mais nobre e mais oportuna para nós, humanos que vivemos depositando por aí nossos detritos? Elas limpam.
A outra história é a do bairro que se criou ali, ao lado dos jardins. Tinha tudo para ser uma questão social séria, já que, como a maioria das megalópoles, também em Niterói há uma enorme desigualdade. E as 1277 familias que residiam no lugar onde havia problemas de esgoto e necessidade de solucioná-los, achavam que seriam removidas. Não foi assim, todo mundo ficou, a Lagoa foi dividida em nove trechos e, com todo cuidado, fizeram reuniões para apresentar o Parque Orla e ouvir sugestões dos moradores.
“Acolhemos mais de 85% das reivindicações da população. Formaram-se associações, eles se organizaram. E não fizemos só reuniões, fomos também no tête a tête, conversando com eles, indo à casa deles. Hoje as famílias da comunidade convivem com os moradores do bairro Fazendinha. O poder público ajeitou essa relação. Se os moradores não se sentissem responsáveis pelo projeto seria difícil, eles ajudam a preservar”, contou Dionê, que só não conseguiu mostrar-nos o jacaré de três metros que vive na região e também convive com todos. Ufa.
Bem o texto acabou ficando muito grande, mas foi preciso porque não é a toda hora que eu tenho a chance de fazer reportagens tão ricas, que me possibilitem tantas análises.
Quando Emanuel Alencar me chama no zap e diz: ‘Quero te fazer dois convites”, eu já fico alerta porque sei que vem coisa boa na nossa área. Emanuel e eu trabalhamos juntos no Razão Social (caderno do O Globo que editei de 2003 a 2012, sempre atualizando temas relativos ao desenvolvimento sustentável) e depois cada um seguiu seu rumo, mas com o mesmo mote.
Hoje Emanuel tem um movimento muito interessante que se chama “Respira Rio” e já marquei com ele de fazermos uma conversa para virar entrevista e trazer aqui para os leitores a essência do “Respira Rio’. Está faltando é tempo, porque como vocês sabem, não monetizo meu blog, portanto preciso fazer frilas para pagar boletos. Mas espreme daqui, espreme de lá, acaba dando um tempo.
O Museu do Amanhã clicado por mim em 2023. Um excelente programa para segunda e terla-feiras
Pois bem: um dos convites que Emanuel me fez foi para eu chamar os leitores para um super evento que vai acontecer no Museu do Amanhã nos dias 1 e 2, das 9 às 19h, e vai ser uma espécie de continuação da COP30, com ótimas intenções. É isto mesmo. Precisamos continuar falando a respeito.
A ideia é reunir especialistas para debaterem sobre a melhor forma de financiar a conservação ambiental e a restauração ecológica. Como vocês se lembram, o presidente Lula anunciou lá o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês), que tem a ver com o tema. Mas o evento vai focar, especificamente, em como transformar o Código Florestal em motor econômico da transição ecológica. Faz sentido. Apesar de o Código Florestal ser considerado por especialistas a maior infraestrutura climática já criada no país, seu potencial permanece subutilizado
O evento é organizado pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), com apoio de várias instituições. Vai ter ainda o lançamento da nova Vitrine da Restauração, uma plataforma desenvolvida pela Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (Sobre), com apoio técnico e financeiro do projeto PlanaFlor (BVRio/FBDS). Ela busca resolver exatamente um dos principais gargalos da restauração em escala: a falta de dados estruturados e de coordenação territorial para orientar políticas e investimentos. infraestrutura pública essencial para viabilizar restauração em larga escala.
Vai ser um encontro de peso, ao qual comparecerão representantes do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), da Secretaria de Estado do Ambiente (Seas), do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério da Gestão e Inovação, do Serviço Florestal Brasileiro e de diversas instituições da sociedade civil. A programação inclui painéis sobre CAR, interoperabilidade de dados, restauração ecológica, regularização ambiental e mercado de CRAs, culminando no lançamento das primeiras CRAs do Brasil.
A programação completa pode ser vista aqui. As inscrições podem ser feitas aqui. E vai ter também transmissão ao vivo.
Emanuel me convidou para participar pessoalmente, mas a este amável convite eu não poderei dizer sim. Estou lotada de trabalho. Mas vou seguir algumas transmissões ao vivo e trago notícias aqui.
Difícil tentar trazer alguma notícia sobre a COP30 que vocês, caros leitores, não tenham lido ou ouvido. Sendo assim, escrevo algumas percepções, como jornalista que estuda e se atualiza sobre esse movimento – vamos chamar de desenvolvimento sustentável para facilitar – desde o início do século.
O entardecer em viagem pelo Amazonas. Foto tirada por mim durante uma viagem ao Bailique em 2015
Foi uma COP da intensidade, tanto quanto é intensa a Floresta Amazônica, que abrigou seus representantes. Uma COP que levou estrangeiros a sentirem o calor úmido da região, a andarem muito de um pavilhão para outro. Uma COP de muitas discussões, o que sempre acontece.
Não, eu não estive em Belém. Mas aqui do meu computador consegui acompanhar muito do que foi debatido, como vocês devem ter percebido se leram meus textos anteriores.
No dia da plenária final, que durou cerca de cinco horas, estive com os olhos grudados na tela. Aliás, desde muito cedo, quando o embaixador André Corrêa do Lago saiu da sala de negociações, onde esteve quase durante toda a noite, e ainda conseguiu sorrir com simpatia e paciência para responder a um esperto repórter – Daniel Nardin, do Amazoniavox.com – que deu plantão na porta e fez algumas perguntas.
O embaixador estava demonstrando sinais de cansaço, claro, mas estava confiante. O pequeno princípio de incêndio, que durou seis minutos e não fez vítimas, havia atrasado umas seis horas as decisões. Mas ele citou ali, rapidamente, alguns ganhos, entre eles o TFFF (acordo em que investidores poderão obter lucro ao financiar florestas tropicais), a Declaração de Belém, que propõe uma resposta climática centrada nas pessoas. “E o Road Map?”, quis saber o repórter.
Road Map é um compromisso que o presidente Lula havia assumido no início da Conferência, uma espécie de guia para o fim do uso dos combustíveis fosseis lentamente.
“Vamos anunciar. Mas vai ser uma iniciativa da presidência brasileira. Não fica no texto”, respondeu Corrêa do Lago.
A frustração de não ver no texto final uma convocação mundial para o fim dos combustíveis fósseis criou uma espécie de plano B para alguns países. Em abril de 2026, na Colômbia, haverá uma inédita conferência internacional que pretende focar apenas no fim dos fósseis. Segundo a jornalista Míriam Leitão, já há 80 países interessados no evento, anunciado pela ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Velez. Holanda, país costeiro que sofre muito com o aumento do mar, está na coorganizando.
Corrêa do Lago tem onze meses para fazer andar nossa trilha para longe dos combustíveis fósseis. Ele anunciou também outra trilha, esta que levará ao fim do desmatamento, outro ponto bastante sensível para os negociadores.
Foram duas longas semanas. Diferentemente do que tinha sido anunciado, houve a presença em massa dos 195 países das Nações Unidas, ou seja, nada diferente do que acontece há trinta anos. Houve também muita discussão, sobretudo ali na última plenária, quando a fragmentação do mundo ficou exposta de maneira triste.
Para se ter uma ideia, a folhas tantas, quando a questão de gênero estava sendo debatida, representantes mulheres de alguns países, entre eles a Rússia e Argentina, fizeram questão que constasse do texto a declaração formal de que existem apenas dois gêneros e que pessoas do mesmo gênero não podem se tornar casais. Se estivesse no zap, eu poria aqui um emoji de pânico.
Mas, como sói, tudo tem vários lados. O ponto de vista otimista, do site da Conferência, assume que, mesmo com tantas tensões geopolíticas, a COP30 “aprovou um pacote de decisões robusto que cumpriu seus três objetivos principais: fortalecer o multilateralismo, conectar o multilateralismo climático às pessoas e acelerar a implementação do Acordo de Paris. A COP30 equilibrou forças entre norte e sul, países desenvolvidos e em desenvolvimento, energia e natureza, tecnologia e pessoas, compromissos e implementação, mitigação e adaptação”.
Entre os menos otimistas estão aqueles que rigorosamente não esperavam nada da Conferência, nem mesmo apontando as famosas lacunas e fragilidades. O professor Eduardo Sá Barreto, da Faculdade de Economia (UFF) e membro do NIEP-Marx, escreveu no site da Boitempo quase tudo o que deveria estar na mesa de debates, mas não esteve:
“Não haverá concertação pelo decrescimento (muito menos um que contemple responsabilidades históricas diferenciadas); não haverá concertação pela contenção (muito menos pela aniquilação) do capital fóssil; não haverá concertação pela abertura de fronteiras ou pela relocalização de populações de regiões vulneráveis ou tornadas inabitáveis; não haverá concertação pela desconcentração urbana ou pela desglobalização da produção e do consumo”.
Não é possível discordar dele. Tenho, contudo, visão um pouco mais otimista, e percebi nessa Conferência, talvez por ter sido realizada em território conhecido, maior robustez nas intenções. E o fato de estar nas mãos de André Corrêa do Lago, a partir de agora, tomar providências para se alcançar uma luz nos caminhos acho positivo. Foi notável o comprometimento dele à frente das negociações. Até mesmo quando precisou interromper a última plenária porque, honestamente, percebeu que se equivocou ao não dar voz a delegadas que haviam levantado a bandeirinha para falar.
Àquela altura, já extenuado, era perfeitamente compreensível e humano um equívoco. Corrêa do Lago desculpou-se, o que também soou bem, numa reunião tão tensa e com tantas divergências postas sobre a mesa.
Santa Marta pode ser uma possibilidade, até porque tem menos países interessados, ou seja, menos chance de uma agenda multifacetada. Mas vai lidar com um assunto muito espinhoso, o fim dos combustíveis fósseis. Vamos aguardar e acompanhar.
Desde as 10h estamos (a mídia especializada) aguardando a plenária final da COP30.
É aquele momento em que a presidência da Conferência, no caso o embaixador André Corrêa do Lago, entrega à sociedade o texto que a duras penas foi conseguido, em consenso, com os 194 países que fazem parte do encontro.
A madrugada foi intensa, e ainda estão reunidos.
Mas faço questão de destacar aqui para vocês dois pontos importantes, que certamente vão ser nublados pelas notícias quentes da política nacional, com a prisão do ex-presidente.
O primeiro ponto: indigenas e povos pretos foram mencionados no texto, como partes interessadas e importantes para conter o aquecimento global. Nada mais justo. Há algum tempo esteve aqui no Brasil uma representante da ONU que cunhou a expressão: os indígenas são os guardiães da floresta. Agora eles são justamente lembrados.
O segundo ponto que acho interessante, pelo que até agora surgiu, é a resposta dos cientistas, aqueles mesmos que escreveram a carta sobre a qual eu fiz menção neste post.
Reproduzo abaixo, na íntegra, o texto que eles acabam de divulgar.
Sigo aqui esperando a plenária.
Reação de cientistas | Carlos Nobre – Painel Científico da Amazônia; Fatima Denton – United Nations University; Johan Rockström – Potsdam Institute for Climate Impact Research; Marina Hirota – Instituto Serrapilheira; Paulo Artaxo – Universidade de São Paulo; Piers Forster – University of Leeds; Thelma Krug – Presidente do Conselho Científico da COP30.
A verdade é que não há como evitar um perigoso aumento da temperatura global sem acabarmos com a dependência de combustíveis fósseis até 2040, ou no mais tardar até 2045. Não cumprir isso empurrará o mundo para uma perigosa mudança climática dentro de 5 a 10 anos, causando extremos climáticos cada vez mais intensos que afetarão bilhões de pessoas. Sistemas essenciais para a capacidade da Terra de sustentar nossa sociedade, como a Floresta Amazônica, os Recifes de Corais, as Calotas de Gelo, as Correntes Oceânicas podem atingir pontos de não retorno. No início da semana, dissemos que a COP tinha uma escolha — proteger as pessoas e a vida, ou os interesses da indústria de combustíveis fósseis. Apesar dos melhores esforços do Brasil e de muitos países que trabalharam para unir o mundo em torno de um roteiro para acabar com nossa dependência de combustíveis fósseis, forças contrárias bloquearam o acordo. Elas parecem ignorar que, ao contrário dos pavilhões da COP, não podemos evacuar o planeta Terra quando desastres acontecem.
Uma transição energética alinhada à ciência exige liderança, coragem e coerência. Devido ao fracasso, até agora, em implementar o Acordo de Paris, o ritmo necessário de mudança é extremamente elevado. Precisamos ver as emissões globais começando a cair a partir de 2026 e passar de um cenário de aumento das emissões para reduções de 5% ao ano. Isso, junto com a proteção dos sumidouros de carbono na natureza e a ampliação das remoções de carbono (CDR), é necessário para minimizar o transbordamento e retornar a um futuro climático administrável para a humanidade.
Como cientistas, sabemos que os seres humanos são capazes de feitos extraordinários. Aqui em Belém, muitos países mostraram que estão prontos para se libertar do domínio e dos perigos dos combustíveis fósseis. Esses serão os vencedores do século XXI. Agora é hora de nos unirmos em um Mutirão dos que estão dispostos a liderar o caminho. A ciência está, e continuará aqui para ajudar. Trabalhando com a Presidência brasileira, vamos propor a criação de um Painel Científico sobre a Transição Energética Justa e o Fim dos Combustíveis Fósseis, para subsidiar o Acelerador Global de Implementação.
Desde o dia 6 de novembro estamos circulando por assuntos ligados ao meio ambiente por conta da COP 30. Quando eu escrevo “estamos”, estou querendo me referir a nós, jornalistas ligados ao tema. Sobretudo aqueles que estão lá, em Belém, onde tudo está acontecendo.
O manifesto da 350.org, em foto de Hugo Duchesne, gentilmente cedida pela instituição
Hoje sentei-me para ouvir, ler e escrever um texto com as novidades. E fui abduzida pela carta dos cientistas. Estava em outra vibração, mais positiva, achando bom até mesmo o simples fato de o tema estar na roda. Mas os cientistas – entre eles Carlos Nobre e Paulo Artaxo – puxaram minha cordinha. Já me explico.
Continuo achando bom uma reunião dessa magnitude estar acontecendo no coração da Floresta Amazônica. Continuo achando bom que os povos indígenas, os ribeirinhos, os pantaneiros, os povos da floresta, aqueles que realmente sentem os efeitos das mudanças climáticas em geral estejam sendo ouvidos, estejam ocupando lugares na Green Zone.
Achei bom aquele fundo para florestas tropicais para sempre (TFFF), que o presidente Lula apresentou de forma tão simples, dizendo: “Não é doação, é investimento”. Mas preciso confessar que, naquele momento, um certo desconforto me roçou o pensamento: “Ora, mas então o modelo continua o mesmo, ou seja, a ideia é ganhar mais dinheiro, acumular para consumir…” Logo uma amiga me disse, e eu repensei: “Mas é este o sistema capitalista, e é nele que vivemos”. Fazer o quê?
Estava indo por esse caminho. Usando lentes cor de rosa, na linha do “dos males, o melhor”.
Até que duas frases da carta que os renomados cientistas divulgaram ontem (19) pela manhã, conseguiram acender a luz da razão. E espanei as lentes otimistas.
“A proteção florestal não pode ser usada como compensação. Florestas em pé não podem ser uma desculpa para continuar queimando combustíveis fósseis”.
Juntei-me novamente àqueles que entendem que a raiz da crise climática está no modelo global de consumo, que esgota os recursos naturais e amplia as desigualdades. E na produção em massa, extração sem limite e desperdício em escala mundial. Essa nefasta combinação, que está também na essência de um sistema econômico baseado no acúmulo de riquezas, causa o desmatamento, a poluição e o aquecimento do planeta. E todos os eventos extremos que advém desse cenário.
Bem faz o pessoal da ONG 350.org, que lançou hoje mesmo a campanha “Mind the Gap-ybara”. Confesso que levei um tempo e precisei conversar com amiga(o)s jornalistas (já falei aqui, tenho um grupo que é de causar inveja) para perceber a mensagem.
Solange Noronha decifrou:
“No Metrô de Londres a expressão Mind the Gap é usada para alertar as pessoas sobre o espaço entre o trem e a plataforma. Os ambientalistas podem estar querendo chamar a atenção para o fosso que há entre intenção e gesto na questão climática”, disse ela.
Bingo!
Já escrevi aqui sobre a eterna sensação de estarmos vivendo uma era dos paradoxos. Acho mesmo que se Eric Hobsbawm estivesse vivo, poderia agregar esse livro à sua excelente série de “Eras”…
Faço um parêntese para dizer que as capivaras são animais maravilhosos. Não querem briga com ninguém, são amigas de todo mundo, até mesmo de seus predadores. É um mamífero roedor, mas flutua bem nas águas, onde pode permanecer para se livrar do perigo, e dá um latido curto para avisar de perigo. Vivem sua curta vida – chegam, no máximo, a 15 anos, como nossos pets – na boa, e até comem suas próprias fezes quando não tem outro jeito.
Não à tôa a capivara se tornou uma paixão nacional.
Mas, voltando aqui aos paradoxos, hoje mesmo, penúltimo dia da COP30, a COP da Verdade, a COP da Implementação, ficamos sabendo que o Salão do Automóvel voltou ao Brasil depois de sete anos e que a Jeep apresentou detalhes do SUV que chegará ao Brasil no próximo ano.
Reproduzo um trecho do livro “A política da mudança climática”, de Anthony Giddens, quando ele apresenta o SUV – “É impossível que esses motoristas (de SUV) não saibam que estão contrivuindo para uma crise de proporções épicas no que tange ao clima mundial” – e se apressa em dizer: “Somos todos motoristas de SUV”.
“Pouquíssimos de nós estamos preparados estamos preparados para a gravidade das ameaças que temos pela frente”, escreveu Giddens em 2009.
Seguindo o pensamento de Giddens, eu pergunto: estaríamos preparados para dizer “não!” à disposição da empresa automobilística de querer produzir aqui seu novo carro? Mesmo sabendo que as fábricas de automóveis hoje são mecanizadas, ainda assim há empregos no entorno. E há toda uma entourage em defesa de tais lançamentos.
Eu respondo, trazendo aqui outro trecho de outra conversa com outra amiga: “Não, ainda não estamos preparados para a mudança necessária”.
Será que um dia estaremos?
Termino essa reflexão com um trecho do release da 350.org, com o pensamento de Brianna Fruean, Anciã do Conselho do Pacífico da 350.org:
“Essa discrepância entre ambição e ação não pode ser ignorada. Nossos povos do Pacífico estão lutando com unhas e dentes para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus e nossas ilhas acima do nível do mar. Por que precisamos ser constantemente a ponte entre o mundo e a sobrevivência? Nossos anciãos merecem descansar e nossos jovens merecem prosperar, livres da crise climática.”
Com o fogaréu que se espalhou hoje em Belém, justamente na Blue Zone, área que a ONU administra na COP, vamos nos despedindo dessa mega COP, mega em todos os sentidos. Mas ainda volto aqui para falar dela porque falta o documento final.
A grande dúvida é: o texto escrito a 194 mãos (os países da ONU) vai dizer que é preciso baixar a produção e o consumo de combustíveis fósseis? E como garantir a prosperidade de nossos jovens sem lançamentos de SUVs, por exemplo? Ou sem pesquisar para descobrir novos locais de exploração de petróleo?
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