Um roteiro para cada país fazer do seu jeito: começou a reunião antifóssil em Santa Marta

O jornalista Claudio Ângelo, Coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, caprichou tanto nesse texto que eu tive vontade de copiar e colar aqui para vocês lerem.

Uma vista da bela cidade costeira de Santa Marta, onde está acontecendo a reunião. A foto é de JohnEgo/Pexels

Além de esmiuçar tudo sobre a Primeira Conferência para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que começou hoje lá em Santa Marta, na Colômbia, sobre a qual eu traço algumas linhas nesse post (https://ameliagonzalez848.com/2026/04/20/cedric-dzelu-do-ministerio-das-alteracoes-climaticas-e-da-sustentabilidade-de-gana-ha-estados-unidos-com-trump-e-estados-unidos-sem-trump/), ele ainda tem uma visão quase, vejam bem, eu disse quase otimista com relação ao mapa do caminho para se sair da dependência dos combustíveis fósseis.

Deixo para vocês. Mas, para quem preferir ler direto no site do OC, aqui vai o link: https://oc.eco.br/conferencia-de-santa-marta-busca-clubao-antifossil/. O que eu quero é que a gente espalhe por aí o que está acontecendo no país do nosso continente, e que pode abrir nossos olhos. Sobretudo em um momento tão delicado como esse que estamos vivendo. Não chega a ser conseguir limonada do limão, mas penso que pode ser assim: bora fazer alguma coisa de fato, né gente? Não dá para fingir que nada está acontecendo.

O título é “Conferência de Santa Marta busca ‘clubão’ anti fóssil”. A seguir:

Na tradição católica, Marta era irmã de Lázaro, amigo de Jesus morto após uma doença. Suas súplicas levaram Cristo a ressuscitar o irmão, o que deu a santa Marta a alcunha de padroeira das causas desesperadas e impossíveis.

Nada mais adequado, portanto, que a primeira reunião da história para tratar do fim dos combustíveis fósseis – a mais desesperada e impossível das causas – aconteça na cidade de Santa Marta, no Caribe colombiano. A partir desta sexta-feira (24), milhares de representantes da sociedade civil, academia, sindicatos, povos indígenas, parlamentares e governos subnacionais se reúnem ali para discutir barreiras e modos de impulsionar a transição energética. Na terça e quarta-feira da semana que vem, representantes de 63 países chegam à cidade para o segmento de alto nível da conferência, que reunirá cerca de duas dezenas de ministros de Estado. 

Um dos principais objetivos do encontro é formar uma coalizão de países dispostos a avançar na eliminação gradual de petróleo, gás e carvão mineral, a trinca dos infernos que nos últimos 200 anos deu ao mundo tanto um grau sem precedentes de prosperidade quanto uma crise climática que ameaça 10 mil anos de civilização.

A reunião na Colômbia, co-organizada pela Holanda, é um dos dois processos em curso hoje no mundo para atacar diretamente as causas do superaquecimento da Terra. A outra é o mapa do caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis que vem sendo desenhado pela presidência brasileira da COP30. São iniciativas paralelas, mas que se complementam: o resultado de Santa Marta deve fornecer subsídios ao Brasil para o mapa do caminho, razão pela qual a CEO da COP, Ana Toni, participará do encontro na cidade caribenha. 

Ambos os processos visam atacar uma falha do regime multilateral de combate à mudança do clima: hoje tornou-se impossível construir consenso dentro da UNFCCC, a Convenção do Clima da ONU, para implementar as determinações do Acordo de Paris na velocidade necessária para cumprir o objetivo de evitar que o aquecimento global ultrapasse 1,5oC.

O tratado assinado no subúrbio da capital francesa em 2015 prevê que a cada cinco anos os países se reúnam para revisitar a ambição coletiva das metas nacionais, ou NDCs. Nesses encontros de balanço global (chamados, sem nenhuma criatividade, de Balanço Global), a soma da ambição das NDCs é comparada ao que seria necessário para resolver o problema. Em caso de insuficiência, recomendações são feitas para que os países aumentem a ambição das metas atuais e proponham metas muito mais estritas para o próximo ciclo de cinco anos. 

No primeiro balanço do gênero, concluído em Dubai em 2023, os países concordaram em fazer a “transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis”. Só que não há consenso sobre como tirar essa determinação do papel. Países árabes dizem que não são obrigados a nada e que há “preconceito” contra o petróleo. A Índia e alguns africanos dizem que só se mexerão quando pingar dinheiro dos países ricos, a quem cabe financiar a transição nos países pobres. E, no ano passado, os EUA implodiram o sistema, não apenas saindo do acordo, como desmontando suas políticas internas de transição energética e fazendo bullying para evitar que outras nações avancem no corte de emissões. Como as metas são nacionalmente determinadas, ninguém é obrigado a nada.

O terremoto geopolítico colocou uma questão insolúvel para os participantes do acordo do clima, expressa da seguinte forma por um diplomata de um país emergente: “O que nós preferimos? Universalidade ou eficácia? Não dá mais para ter os dois”. Seguir tratando a implementação nas conferências anuais do clima (as COPs), com 196 países, é uma opção pela universalidade – que nem é tão universal assim, já que os EUA respondem por mais de 10% das emissões atuais do planeta e estão fora do jogo. Só que significa também que o mecanismo de “torniquete” do tratado (que pressupõe avanços progressivos na ambição até zerar emissões líquidas no mundo daqui a 24 anos) será necessariamente frouxo e não conseguirá entregar o que o clima precisa.

Neste ano, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, publicou uma carta à comunidade internacional sugerindo que a eficácia precisará necessariamente ser tratada fora do consenso geral na UNFCCC. O mapa do caminho para a saída dos fósseis se inscreveria num “segundo nível” de governança climática, no qual quem está pronto para avançar toma a dianteira, já que as bilhões de pessoas cujas vidas e o bem-estar se encontram sob ameaça pelos eventos climáticos extremos não podem esperar. A proposta do Brasil é produzir uma espécie de roteiro para que cada país possa fazer o próprio mapa do caminho, coordenando internacionalmente os esforços nacionais de forma a evitar que países consumidores sofram choques de oferta e que produtores sofram choques de demanda. Se organizar direitinho, todo mundo transiciona.

A Colômbia, a Holanda e outros países também estão fazendo a opção pela eficácia. Daí a conferência de Santa Marta ter como um de seus objetivos principais a consolidação da tal “coalizão dos dispostos”, que precisa crescer muito e muito rápido. Os países que confirmaram presença representam um terço do consumo de combustíveis fósseis no mundo, mas apenas um quinto da produção. Somente um movimento político significativo, que surfe a onda criada na COP30 (onde 24 países assinaram uma declaração de princípios lançada pela Colômbia e 84 se disseram de acordo com o mapa do caminho para fósseis), pode empurrar a transição energética no mundo real e influenciar as COPs, que afinal seguem sendo importantes pelo peso legal e pela universalidade. Há, ainda, a intenção de marcar mais uma ou duas conferências do gênero, nas quais se comece a discutir um novo tratado internacional para interromper a proliferação de projetos extrativos de óleo, gás e carvão.

O fator Trump

O “clubão” do carbono que se planeja criar em Santa Marta ganhou um impulso inesperado há dois meses: a agressão de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, que fez os iranianos fecharem o estreito de Hormuz e causou aquilo que a Agência Internacional de Energia chamou de a maior interrupção de oferta de energia da história. A guerra, com seu impacto sobre os preços da energia – e de tudo o mais num mundo extremamente dependente de petróleo –, tem feito os países buscarem alternativas energéticas que não dependam da sanidade mental de Donald Trump. 

E, embora algumas das respostas iniciais ao conflito tenham sido procurar óleo e gás fora do Oriente Médio ou simplesmente criar mais oleodutos, é crescente o número de iniciativas nacionais que envolvem ampliar renováveis e aumentar a eletrificação: o Japão expandiu as licenças para energia eólica offshore; a renitente Índia está acelerando licenças para sistemas eólicos com armazenamento; a Coreia do Sul anunciou planos de triplicar a capacidade instalada renovável até 2030; a Espanha estendeu incentivos para carros elétricos e o Reino Unido anunciou planos de descarbonização de novas residências. 

A própria quantidade de países confirmando presença em Santa Marta sinaliza um interesse ampliado na conferência e em suas implicações: duas semanas atrás, apenas 45 países estavam confirmados, dos cem inicialmente convidados; na semana do início do encontro já eram 63, duas vezes e meia o número de signatários da declaração de Belém.

A reunião, cujo nome oficial é Primeira Conferência para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, não tem uma bala mágica. Ninguém vai sair de Santa Marta fechando poços de petróleo, até porque, segundo as contas dos pesquisadores suecos Andreas Malm e Wim Cartom, 50% do sistema financeiro global está atrelado ao capital fóssil. O que se espera de resultado são duas coisas: primeiro, um relatório que traga uma visão honesta do tamanho da encrenca, e que possa começar a responder do que precisam os países produtores para iniciar, por exemplo, a conversão de empresas nacionais de petróleo em empresas de energia. Esse relatório não será apresentado dia 29, quando terminar o segmento ministerial, mas deve ser encaminhado à presidência brasileira da COP30.

O segundo resultado é esperado em mobilização da sociedade e da opinião pública. Santa Marta precisa aproveitar a guerra para fazer tanto barulho sobre a transição energética que os políticos em Washington, Riad e Moscou não consigam mais dormir.

O Caribe colombiano é pé quente nesse sentido: a quatro horas de ônibus de Santa Marta está Cartagena de Índias, cidade que em 2009 batizou um encontro entre 40 países ricos e pobres para discutir como avançar a ambição climática após o fracasso da conferência de Copenhague. O chamado Diálogo de Cartagena seria transmutado em 2015 na Coalizão da Alta Ambição, grupo de países considerado chave para o sucesso da conferência de Paris. 

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Cedric Dzelu, do ministério das alterações climáticas e da sustentabilidade de Gana: ‘Há Estados Unidos com Trump e Estados Unidos sem Trump’.

Não sei quanto a vocês, mas eu já não consigo mais saber se o estreito de Ormuz está fechado ou aberto, bloqueado ou não, se estão cobrando pedágio, se não estão, quais petroleiros com quais bandeiras podem passar ou não por ali. E o Ormuz, que era um nome distante, faz parte da minha rotina agora. Depois que o presidente da nação mais rica do planeta resolveu brincar de imperador do universo, acrescentou Ormuz às minhas preocupações diárias.

Vista aérea de Santa Marta, na Colômbia. Foto de Nehemias Gomez Fotografia/Prexels

As declarações de Mr. Trump não clareiam, mas distorcem e confundem. No abre e fecha do estreito, nas proibições de embarcações, meu pensamento e minha torcida vão para os seres que habitam aquele pequeno/grande pedaço de mar. Acho que, no fim das contas, com menos movimento, eles podem até estar levando vida mais tranquila…

Fato é que Ormuz está ligado a petróleo, o combustível fóssil que tem nos levado a tantos horrores climáticos. Vidas que se vão por causa de furacões, tempestades e secas. E vidas que se vão por estarem no caminho de mísseis. Qual o apelido que Eric Hobsbawm daria para a nossa era?

Há tempos não escrevo aqui no blog. Como já sabem os que me acompanham, escrevo quando posso, quando não estou comprometida com a entrega de algum trabalho. Mas assuntos não me faltam.

Apesar desse início, serei mais otimista. Prefiro isso do que me deixar envolver pelas artimanhas de dois homens que se tomam por líderes e que jogam o tempo todo com a vida de humanos para aplacar seu desvario por poder e dinheiro. Obviamente que me refiro a Trump e Netanyahu.

Enquanto isso… num país não muito longe daqui… na sexta-feira dia 24 de abril vai começar uma Conferência bem interessante. E é sobre essa possibilidade de um respiro civilizacional que quero falar aqui.

Durante a COP30, a Colômbia e a Holanda decidiram organizar um encontro para “identificar e promover caminhos viáveis para implementar uma transição progressiva longe dos combustíveis fósseis, criando sociedades e economias sustentáveis”. É um fórum que vai acontecer durante cinco dias na cidade colombiana de Santa Marta. Para mim, o que me chama a atenção e me faz ter interesse, é  que ele propõe caminhos, não impõe soluções.

Menos ordens, mais espaços para criar.

No dia 9 de abril participei de um encontro online, organizado pela Climate Home News, no qual os palestrantes, entre eles a ministra Irene Vélez Torres, do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, debateram sobre o encontro. Sem esconder o momento de instabilidade global que estamos vivendo. Sim, parece anacrônico organizar uma conferência para discutir caminhos que nos ajudem a ficar livres do petróleo quando, do outro lado do mundo, há uma guerra pelo petróleo.

Entre os palestrantes estava também o Diretor Técnico do Gabinete do Ministro das Alterações Climáticas e da Sustentabilidade do Gana, Cedric Dzelu. Ele foi enfático ao comentar sobre a ausência dos Estados Unidos na reunião, que deixaria o final com gosto de inocuidade.

“Há Estados Unidos com Trump e Estados Unidos sem Trump”.

Dzelu, cujo país está entre os 53 que já garantiram presença na Conferência de Santa Marta (Brasil também estará), disse que há vários governos estadunidenses subnacionais que estão dispostos a dar um passo à frente na transição para uma economia mais limpa e justa. Como exemplo, citou Chicago e Atlanta.

No site da Conferência, o recado é claro:

“O fórum que vai começar na sexta-feira  não procura alcançar um resultado negociado, mas sim gerar um entendimento comum e orientações práticas que possam ajudar a acelerar uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis.”

Vale a pena acompanhar. Vou tentar trazer para vocês, aqui no blog, o texto final.

Santa Marta pode ser uma peça de resistência ao momento que estamos vivendo. Um espaço onde a vida é pensada com respeito, porque é disso que se trata o desenvolvimento sustentável.  Desde que se começou a pensar e debater, em encontros e conferências, sobre a necessidade de se recriar o modelo civilizatório, inventaram-se várias siglas, deram apelidos à economia e ao próprio desenvolvimento, mas o que se vê hoje, estrelado  pelos Estados Unidos e Israel, é tudo menos o cuidado com a vida.

E é disso que estamos precisando.

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Blocos em bairros só até mil componentes. Passou disso, vai para o ‘blocódromo’

Moro em um canto de bairro no qual vizinhos e vizinhas têm o excelente hábito de cultivar bons cuidados com a natureza, incluindo aí os bichos, plantas, todos os seres não humanos. É uma relação de respeito. A maior parte da natureza preservada aqui nos jardins é para enfeite, e fica lindo mesmo sem o poder e a beleza de uma agrofloresta.

Poucos dias antes do carnaval, começa uma certa tensão. Os porteiros são orientados pelos síndicos a tentarem armar estruturas com madeira e redes a fim de preservar as plantas e gramas tão lindas dos apupos mais febris de carnavalescos nos blocos que passam aqui. Tem o Gigantes da Lira e Bichos do Mar (ou algo assim), ambos para a criançada e, por óbvio, também seus pais. E tem, sempre no domingo de carnaval, o Laranjada, que acolhe a efusividade foliã dos jovens e dos mais velhos.

Sempre foi assim, pelo menos desde que moro por aqui.

Ocorre que, neste domingo de carnaval, o bloco dos jovens e adultos exagerou. Seus membros não respeitaram os limites, arrebentaram as grades, as madeiras, pisotearam em plantas, urinaram em tudo que é lugar, e foram embora deixando um rastro de destruição. Além de um sentimento de raiva legítima, por parte dos moradores, que consegui captar numa rápida pesquisa aqui no território.

Foto clicada por mim há pouco tempo. as plantas pisoteadas

Quase ninguém quer mais o bloco dos jovens e adultos por aqui.

É um sentimento legítimo, a julgar pelo que se vê em um breve passeio pelas ruas.

Por um lado, eu lamento porque gosto muito da festa, embora já não participe mais como antigamente. E não participo por falta de energia, mas porque respeito, justamente, a natureza, que me exclui das ruas de asfalto quente por conta das ondas de calor absurdas que fazem mal a qualquer ser humano nessa época do ano. Seja novo, velho ou só adulto, qualquer um precisa se cuidar em temperaturas altas.

Por outro lado, entendo a fúria dos moradores. Uma delas, ontem, não conseguia conter sua indignação: “Você precisava ver! Cenas de barbárie explícitas, como eu nunca tinha visto na vida!”. Acredito.

E onde eu estava enquanto tudo isso acontecia? No mesmo território, mas vendo sob outro prisma. Eu estava numa sombra, protegida, e assistindo exatamente ao ponto de refúgio, para onde acorriam os foliões que não estavam querendo participar das cenas bárbaras de assassinato das plantas. Sob meu ponto de visão, portanto, eu via apenas o pessoal mais tranquilo e civilizado. Sorte a minha, no fim das contas.

A conclusão geral, aqui entre os moradores, é a de que isto aconteceu porque o bloco cresceu demais. E o canto de bairro é pequeno, não suporta tanta gente em estado febril de euforia. Tendo a concordar. Não são apenas moradores, é óbvio. A cidade, este ano, está comemorando mais um recorde de turistas, e isso é bom para a economia, sobretudo a informal. Mas, como sempre acontece, nós, os humanos, não nos detemos diante de nada. Muito menos em respeito à natureza, aos seres vivos com quem compartilhamos o espaço.

Ora, e eles não praticam o desmatamento em troca de bens naturais?

Voltando ao meu microcosmo, que se depender da vizinhança, ano que vem não terá mais a alegria efusiva, débil, histérica do bloco de adultos, quero compartilhar uma ideia. Jogo para o universo e, quem sabe, possa chegar a quem autoriza tais acontecimentos no município. Assim como existe o Sambódromo, existiria o Blocódromo. Já tem o camelódromo…

Seria organizar demais? Sim, seria. Mas, vejam bem: não dá para ser diferente. E, para quem acha que as ruas precisam ser ocupadas (eu me incluo neste rol), a solução é fácil. Blocos em bairros só até mil componentes (não sei se este número é real, estou só especulando). Passou disso, vai para o Blocódromo.

Em nome da folia, mas também em respeito aos seres que não participam dela e que só ficam com os maus-tratos impingidos pelos humanos em febre de euforia.

Bom fim de carnaval para todos.

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Indígenas encenam um teatro a céu aberto em Mato Grosso e mostram o impacto negativo do encontro com os brancos

Pequeno afluente do Rio Paraguai, o Rio Branco foi palco de uma peça teatral encenada pelos indígenas da etnia Zoró para os jornalistas na Aldeia Escola Anguytatua, em Mato Grosso, no município de Rondonópolis, a mais de 200 quilômetros da capital do estado. O ano era 2008 e eu, juntamente com o repórter fotográfico Carlos Ivan, estava entre os jornalistas que formaram aquela privilegiada plateia. A foto que ilustra este texto é de Carlos Ivan e foi publicada no caderno Razão Social em dezembro de 2008.Estávamos fazendo reportagem para o suplemento de “O Globo” que eu editei até 2012.

Foto de Carlos Ivan publicada no Razão Social de janeiro de 2009 mostra o teatro a céu aberto

Carlos Ivan e eu já tínhamos ido a outras aldeias indígenas, sempre a trabalho, mas aquela visita foi especial. As cenas daquele teatro a céu aberto sempre me voltam quando vejo notícias sobre o papel dos indígenas como guardiães da natureza. Diferentemente dos brancos, esses povos têm uma relação intrínseca com a terra e rios, vivem na pele a importância da preservação porque é dali que tiram seu alimento.

 Hoje, vendo as notícias sobre a manifestação dos indígenas contra a dragagem de parte do Rio Tapajós, quis relembrar a cena aqui no blog. Vale a pena para reflexão.

Foi uma peça teatral sem enredo ou falas, com um roteiro simples, de fácil entendimento e, ao mesmo tempo, de uma profundidade inquietante para os não-indígenas. Na época, havia cerca de 650 Zorós no Brasil, e esse número hoje é de 755.

O espetáculo começou à tarde, logo depois do almoço, e foi acompanhado também pelo cacique Benamo, que se comunicava na língua tupi-mondé e era traduzido por um de seus filhos, Zawandu. Alguns atores se vestiram com roupas ocidentais e puseram barba postiça.

O objetivo era mostrar o que aconteceu com indígenas da etnia Zoró no momento exato em que fizeram o primeiro contato com os brancos. O encontro aconteceu em 1979, portanto, a pouco menos de três décadas daquele momento em que estávamos. E, exatamente, naquela beira do Rio Branco.

Os indígenas estavam excitados para encenar. A peça começou para valer quando uma canoa fabricada por eles próprios, com casca de Roxinho – uma árvore local – lentamente veio descendo o Rio Branco, conduzida por dois indígenas. Ela se aproximou da margem e voltou para trás. Naquele instante, o cacique Thoatore, um dos atores, começou a gesticular, como se estivesse muito aflito, tendo uma pedra como palco. Seus gestos demonstravam espanto, medo, aflição, num vai-e-vem incessante, em círculos.

A dramaturgia era para avisar que ele acabara de avistar outra canoa, que vinha na direção contrária à primeira. Aquela trazia outros atores. Eram indígenas caracterizados com barba postiça, calça comprida e camisa de manga. Estavam interpretando os brancos.

Deu-se o primeiro contato.  Indígenas amedrontados e brancos solícitos, oferecendo açúcar, refrigerante, panelas, armas, até um tênis. A canoa dos brancos era motorizada, e de lá eles não saíam: jogavam os presentes e iam embora.

O grupo de indígenas passou a experimentar aqueles objetos. A encenação levava a platéia a perceber que eles gostaram do açúcar, lambiam o refrigerante, demonstravam medo das armas e não sabiam muito bem o que fazer com o único pé de tênis.

 A peça teatral continuou, com uma passagem de tempo. No segundo encontro, os brancos encontraram os indígenas um pouco menos temerosos, ofereceram mais presentes e, dessa vez, foram convidados a ficar. Desce o pano.

O segundo ato começou com outra cena. A interpretação, dessa vez, foi muito mais definida. Os indígenas, depois de aceitarem todos os presentes, passaram a tossir, espirrar, bem alto, lá do meio do rio, para que a plateia, cá na beira, pudesse ouvir.

 Sim, nós ouvimos e entendemos. O contato com o branco levou doença aos indígenas. Nesse momento, o cacique Benamo, um personagem que estava na cena real, quando aconteceu, auxiliou a plateia a acompanhar melhor, explicando o que víamos. O texto abaixo reproduz o que ele disse, à época, aos jornalistas, sempre com Zawandu como intérprete:

“Antes era difícil fazer a roça com aquele machado tão pequeno. O branco nos apresentou outro, melhor. Mas eu não sabia que, junto com essas coisas boas, vinha também tanta doença e tristeza. Só que a gente não tinha outra coisa para fazer, porque as terras foram ficando pequenas, os brancos foram tomando tudo. Já fui até Manaus (a mais de dois mil km dali) aqui por esse rio, na minha canoa, sem encontrar nenhum branco. Hoje não dá para chegar nem até ali”, disse ele.

Perguntei-lhe: “E se pudesse voltar no tempo?’

“Se pudesse voltar, eu não teria feito contato com os brancos”, respondeu-me, para nenhuma surpresa minha.

Lembrei-me de toda a cena, colhi aqui nos arquivos as notas que fiz e trouxe para o blog como uma espécie de homenagem aos indígenas que estão, neste momento – liderados por povos do Baixo Tapajós e apoiado por outras etnias de outras partes do rio – agrupados, manifestando-se contra a dragagem do Rio Tapajós. Há impactos em série que a dragagem pode trazer, entre eles o risco de insegurança alimentar dos povos que vivem no local e o assoreamento do leito do rio.

Povos indígenas da América Latina são os melhores guardiões da floresta na região, principalmente quando seus territórios são demarcados, e têm papel decisivo contra a crise climática. Este é o  alerta do Relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (Filac) divulgado em março de 2021.

Sendo assim, nada mais razoável do que ouvir os povos indígenas antes de tomar uma decisão como a dragagem de um rio tão importante. Felizmente, ao que parece, o Governo Federal voltou atrás e anunciou a suspensão do processo. Um Grupo de Trabalho Interministerial, com participação de representantes indígenas, será criado para discutir os processos de consulta.

Vamos acompanhar.

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Cidade do Rio de Janeiro perdeu, em dez anos, 78.732 árvores

Nos dias de hoje, ser convidada para um evento presencial é uma raridade que merece respeito. Pensando assim, lá estava eu no dia 28 do mês passado, às 17h30, na Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Rio de Janeiro, na Glória, para acompanhar o debate “Corte de árvores no Rio de Janeiro: critérios e responsabilidades”. Este tem sido um tema recorrente, não só aqui no blog como pelas ruas, praças, bares e padarias. Mesmo quem não tem ligação umbilical com as questões de mudanças climáticas tem se preocupado com a ilha de calor em que se transformam as megalópoles e na falta de oásis para nos confortar minimamente.

Foto auto-expicativa: a beleza de uma cidade que está perdendo suas árvores. Clicada por mim, a partir do Mirante do Pedrão

 A mesa de palestrantes do evento tinha representantes da sociedade civil, do setor público, um promotor de Justiça, e meu colega, o jornalista Emanuel Alencar, fundador do movimento “Respira Rio”, com quem trabalhei quando eu editava o caderno Razão Social no jornal “O Globo”. Detalhe importante: foram convidados representantes da Secretaria Municipal do Ambiente e Clima e da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Licenciamento. Ambos não compareceram.

O time era bom e, como já disse, o assunto tomou um tardio sentido de urgência depois do que aconteceu no Flamengo, no final do ano passado. No terreno de um ex-colégio, a empresa construtora decidiu cortar 71 árvores para erguer seu prédio residencial.

Vale lembrar que, além de absorverem dióxido de carbono e liberarem oxigênio, vital para a respiração dos humanos, as árvores facilitam o escoamento da água das chuvas e ainda servem como abrigo e alimento para pássaros, insetos e outros animais. Matar uma árvore, portanto, é matar uma cadeia de seres vivos. Imaginem o estrago à natureza que foi o corte de 71 árvores.

 Emanuel Alencar, o primeiro a ser convidado falar, resumiu um pensamento que eu já compartilhei aqui: por que os donos da incorporadora que vai construir o prédio no Flamengo não usou saberes de arquitetos conscientes para dar um jeito de compor com as árvores, em vez de destruí-las?

A mesa de palestrantes do evento. Da esquerda para a direita: Pedro Maia, do grupo Reflorestamento Urbano; Rose Compans, Emanuel Alencar, os mediadores Celso Junius e Altamirando Moraes; Carlos Alberto Muniz e o promotor Jose Maximino

“Estamos vendo, na cidade, uma ocupação de território sem modelo. Qual o modelo de cidade do Rio de Janeiro? É possível fazer uma mediação com as árvores”, explicou o jornalista.

O jornalista lembrou que existe um Plano Diretor de Arborização Urbana na cidade do Rio de Janeiro, criado em 2015, mas está engavetado. A própria Fundação Parques e Jardins, que participou da produção do Plano, mudou seu perfil de atuação junto às árvores urbanas. O que se vê pelas ruas da cidade é o pessoal da Comlurb fazendo podas ou remoções.

Coordenadora do movimento “O Rio Não Está à Venda”, Rose Compans levou dados impressionantes sobre remoção de árvores urbanas – em dez anos a cidade do Rio de Janeiro perdeu 78.732 árvores – enfatizando que este é o resultado “de uma opção que o prefeito Eduardo Paes fez, de flexibilizar a legislação e ousar nas intervenções”. Rose Compans se referiu à lei municipal “Mais Valerá”,  mecanismo baseado na Lei Complementar número 281 de 2025, que permite licenciar previamente construções e acréscimos que superam parâmetros urbanísticos — como altura, área e ocupação. O detalhe realista é: mediante contrapartida financeira.

Sim, o capital fala mais alto. O ex-vice-prefeito e ex-secretário municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Muniz, último a se manifestar na mesa de palestrantes do evento, lembrou que há estruturas no setor público – e não são poucas, digo eu –  que resistem às questões climáticas. Entre elas, a Secretaria Municipal de Obras, que lida com a necessidade de erguer moradias.

“Não vamos ter vitória total”, lamentou ele, que fez questão de pontuar a ausência de representantes do município no evento. “Fui secretário de Meio Ambiente durante oito anos e nunca fugi a um debate”.

“O planejamento urbano desconhece os ensinamentos do mundo das plantas”, escreve o mais importante especialista global em neurobiologia vegetal, autor de “Revolução das Plantas” e “Nação das Plantas”, e de “Fitópolis”, recém-lançado. Sábias palavras.

Mas, pelo que pude perceber no auditório cheio do evento ao qual participei como ouvinte – cerca de 90 pessoas na plateia –  a sociedade civil estará sempre atenta para denunciar e exigir.

Neste sentido, vale lembrar que ontem, dia 4 de fevereiro, entrou em vigor a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Seis meses atrás foi aprovado, por parlamentares do nosso poder executivo, um Projeto de Lei que cria uma espécie de “livre mercado da destruição”. Para saber mais a respeito, entre no site do Observatório do Clima.

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Um lugar onde os cachorros são salvos e bem cuidados

Como é bom viver em um mundo onde há pessoas capazes de se unir e criar um coletivo com um nobre objetivo, o de ajudar cachorros que foram abandonados. Bem, nesse mesmo mundo há pessoas que abandonam cachorros, e outras que até os matam cruelmente. Não vou falar a respeito da barbárie ocorrida em Santa Catarina porque não consigo fazer contato com aquela monstruosidade.

Este texto é para contar uma boa prosa.

Bolt, nosso querido, doido para ter uma casa só para ele tomar conta

Moro em um bairro que gosta de cachorros. Na verdade, a gente costuma dizer que aqui moram mais caninos do que humanos, o que certamente é um exagero. Mas é um despropósito simpático.

Ocorre que nossa empatia foi se alastrando feito rastro de pólvora por toda a gente e tem ultrapassado fronteiras. Isto quer dizer que, mais amiúde do que seria desejável, alguém decide pregar uma peça (comentário que contém uma tonelada de ironia) em seu bicho de estimação, aquele mesmo que diariamente, anos a fio, recebia o tutor com o rabo abanando em festa, fosse qual fosse a situação, e o abandona aqui na rua.

 Vez ou outra o antropocentrismo é tamanho que traduz a covardia em compaixão pelo animal. E o tutor o amarra a um poste para mostrar zelo para que o bichinho, preso, não perambule a ponto de ser atropelado. De uma só tacada, o cruel abandona o cão e impõe-lhe uma tormenta de estar preso, às vezes debaixo de um sol tremendo, sem condições mesmo de buscar comida estragada em algum canto.

Mas temos boas notícias, e é delas que vou tratar aqui. Nos grupos criados para tentar garantir a proteção desses bichos, há casos narrados pelos que se tomam por ‘cachorreiros” (adoro esse apelido), ou seja, pessoas que chegam perto dos animais e levam-nos para abrigos, dando conta de uma transformação radical no comportamento do cão abandonado. De triste e cabisbaixo, depois de poucos dias de comida, carinho, bons tratos e segurança, eles se tornam guardiães do(a) humano(a) que os protegeu. É lindo de ver. E verdadeiro.

Não sou uma cachorreira legítima. Em parte porque sou tutora de um Shih Tzu bem territorialista, que não receberia com apupos outro ser de quatro patas aqui em casa. Acho até que depois de um tempo ele seria obrigado a se acostumar, mas não quero submetê-lo a essa aflição.

Sendo assim, estou na linha do “ajudo como posso”. Como as redes sociais possibilitam esse vazamento de conversas para um canto e outro, participo de dois grupos de cachorreiro(a)s .

O primeiro grupo que me atraiu surgiu há dois anos, quando uma amiga que mora na Lagoa se compadeceu de um cão preto muito magro e deprimido que perambulava por ali, sem dono e sem rumo. A coleirinha que os abandonados ostentam é o triste símbolo de que um dia foram parceiros de um humano.

 Um contou para o outro, que contou para um terceiro, alguém arrumou um táxi, outro alguém fez contato com uma pessoa que tem abrigo… E lá se foi o cão magro e deprimido, que por ter pernas longas recebeu o nome de Bolt.

Bolt recebeu cuidados veterinários (esta é sempre a primeira providência após o recolhimento). Andava comendo besteiras na rua há muito tempo, pelo jeito, o bichinho, porque tinha problemas no fígado. Mas recebeu o tratamento adequado, tomou antibiótico, as vacinas necessárias. No abrigo, os primeiros dias foram de solidão para Bolt, pois pretendeu-se fortalecê-lo antes de ser apresentado aos amigos.

O tempo passou e Bolt se recuperou totalmente. O grupo que se criou para assegurar sua saúde, do qual orgulhosamente eu faço parte, vira e mexe tenta fazer algum movimento para que Bolt arrume uma casa para chamar de sua, um tutor ou uma tutora que ele precise guardar, afinal é esta a função dos cães. Ainda não conseguimos, mas não perdemos a esperança. O problema é que o abrigo tem outros tantos (acho que uns 30) na mesma situação. De qualquer maneira, na rua Bolt não fica mais.

Já um outro grupo se formou em torno de Pérola e Chérie, duas fêmeas que foram amarradas em uma calçada aqui perto. Alguém passou, viu, pegou, levou para o veterinário, um abrigo… o mesmo esquema. Pérola teve sorte, já foi adotada, e hoje vive vida de madame no Leblon. Chérie, sua companheira de desdita, ainda aguarda a boa fortuna.

A bela Chérie, como não adotar?

Mal cuidávamos das duas, quando, em uma manhã calorenta no dia de Natal, um malhadinho apareceu zanzando pelo bairro.  Foi feito todo o périplo novamente (ah, sim, eu me esqueci de dizer que todos e todas passam pela castração), o cão recebeu o nome de Noel (não podia ser outro, né?) e também já está abrigado.

Poucos dias depois, o agora Rudolf foi encontrado à beira de um caminho perigoso, a um passo de ser atropelado, o bichinho. Lá foi Rudolf ser bem cuidado, bem tratado, ganhou casa, comida, e outros companheiros. Também está no abrigo, também querendo ser adotado.

Esta é a história com final quase feliz para alguns cães abandonados que ganham, ao menos, abrigo e comida.

E se alguém aqui quiser se juntar e colaborar, será muito bem-vindo. O endereço para a vakinha dos três abrigados de Laranjeiras – Noel, Chérie e Rudolf – é este: https://www.vakinha.com.br/5886152.

Rudof, todo alegre agora que é bem cuidado
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Governo do Rio cria política de promoção da cultura oceânica e as vidas marinhas agradecem

Um assunto puxa o outro, que puxa outro, e assim vai se fazendo o bordado de quem escreve sobre a natureza, melhor dizendo, sobre os impactos que a raça humana causa à natureza. Há muitos fios para se puxar porque é amplo o espectro dos assuntos que envolvem os impactos causados em prol do desenvolvimento, que às vezes é bem-vindo mas que, na maioria das vezes, tem sido desmedido, acirrado pela ganância e pela fala de limites. Estamos vendo isso em cores e ao vivo, pelos atos provocados por Donald Trump, que se toma como líder da nação mais rica.

Foto tirada de um frame do documentário “Ocean”

Bem, mas ia dizendo que um assunto puxa o outro. E aos amigos e autores que me rodeiam, todo o meu agradecimento porque me fornecem o alimento certo para poder compartilhar com os leitores alguns pensamentos que vão longe do que estamos vendo, ouvindo e lendo diariamente em tempo real. Dá tanta angústia que, muitas vezes, a gente tem vontade de fechar tudo e apenas sonhar.  Meu convite, aqui, é ampliar pensamento.

Um bom começo para essa conversa é o documentário “Ocean” (assistir somente pelo stream da Disney), dirigido e narrado por David Attenborough, apresentador britânico de 99 anos,  considerado uma espécie de tesouro do Reino Unido, que há cerca de sete anos tornou-se uma voz potente contra o extermínio da natureza. Nos primeiros 25 minutos do filme, as imagens são de deixar qualquer um extasiado com tanta beleza. É tanta vida que existe no mundo submarino. E vidas tão coloridas, legítimas, dignas.

A partir dos 25 minutos, como sói, chega o tempo da denúncia. Eu não sabia, por exemplo, que existem já 400 mil indústrias espalhadas nos oceanos. Navios plataformas imensos, que não só abrigam milhares de pescadores, como também geram emprego – não se sabe em quais condições trabalhistas, mas dá para fazer uma ideia.

Nas plataformas imensas há máquinas potentes capazes de transformar o pequeno peixe vermelho de nome krill em ração e comprimidos de Ômega 3 que vão dali direto para a gôndola da sua farmácia ali na esquina.

Ocorre que o krill, o que tem de pequeno, tem de gigante em importância na cadeia alimentar na vida marinha, já que serve de alimento para baleias e focas, além de ajudar a regular o carbono atmosférico. Os krills se alimentam de fitoplâncton e têm a capacidade de produzir luz (são bioluminescentes), sendo cruciais para o ecossistema.

Foi na década de 1980, que os japoneses descobriram que os pequeninos peixes também podem ser usados como suplemento para humanos. (Aqui vale a dica: a linhaça está entre os vegetais que também fornecem essa “gordura boa”, como se descobriu depois). Com a descoberta, houve uma corrida global ao Ômega 3, ou seja, ao krill. Resultado direto: a população de krill está sob ameaça severa, não só por causa da pesca industrial como por causa das mudanças do clima.

É só um exemplo, dos muitos que Attenborough lista em seu documentário, lançado em maio de 2025, para mostrar que é preciso ter um limite para a pesca industrial, e que nossos oceanos estão completamente à mercê da ganância do desenvolvimento inescrupuloso. Só 3% são protegidos. O britânico faz questão de afirmar que não é contra a pesca, mas enfatiza a necessidade de que a atividade venha seguida pela palavrinha mágica: preservação.

“A pesca saudável e a preservação têm os mesmos objetivos: mais peixes, mais abundância e mais saúde para os oceanos”, diz ele. “Oceans” vale a pena ser visto, e quem me chamou atenção no livro de Donna Haraway, “Ficar com o problema” (Ed. N-um) sobre o qual já falei várias vezes com vocês, caros leitores e caras leitoras. A ela, todo meu agradecimento.

O assunto mares e oceanos ficou me rondando, portanto. Até que a amiga Lucila Soares, que atravessou o Atlântico para gozar de merecidas férias, mandou-me uma foto, um texto, e a mensagem: “Lembrei de você. Dá assunto para a sua coluna”.

Mais do que depressa, inteirei-me do assunto. No Museu Guggenheim, em Bilbao, uma das salas é ocupada por uma escultura metálica de oito metros de altura por 14 metros de largura, do artista ganês El Anatsui, já aos 81 anos. A obra se chama “Mar Crescente”.

“A serena harmonia visual contrasta com o título da obra, Mar Crescente, que nos lembra e nos alerta que a natureza e as civilizações podem ser transformadas em um instante. A grande escala da obra é, portanto, uma metáfora da enormidade das mudanças climáticas”, diz o texto explicativo.

Pouco mais de 400 km separam o país de El Anatsui de Lagos, na Nigéria. E Lagos é uma das 48 cidades que, segundo um estudo realizado por pesquisadores da Nanyang Technological University, em Singapura, está ameaçada de ser engolfada pelo mar até 2100. Rio de Janeiro e Tóquio também estão na lista divulgada pelos pesquisadores de Singapura em janeiro de 2025. El Anatsui denuncia o problema e retrata o avanço do mar sobre um horizonte urbano com escarsas marcas de cor na obra (veja aqui, no site do artista). 

É interessante ler também sobre a vida do artista de Gana, país colocado na 143 ª posição entre 193 nações listadas no Relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2025. El Anatsui conquistou o mundo enquanto vivia e trabalhava na cidade universitária nigeriana de Nsukka. O material predileto dele são as tampas de garrafa de metal, assim como o tecido.

“Mar Crescente” foi realizada em 2019 e, para concretizá-la, El Anatsui empregou uma equipe de pessoas de toda Nsukka. Apontou, com essa atitude, uma sensibilidade que deveria ser universal – a arte que gera empregos e renda.

Vou terminar com uma  nota fresquinha, que dá título ao texto. Na verdade, se eu seguisse a ordem correta das notícias, teria que abrir o texto com ela. Mas ando meio desordeira.

Foi logo no iniciozinho do ano que outro amigo, Márcio Santa Rosa, que trabalha na Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do estado do Rio e tem um especial carinho pelo desenvolvimento sustentável que os oceanos e mares podem oferecer, mandou-me uma mensagem lacônica, só com um link. Era uma notícia do Diário Oficial do Rio de Janeiro. E foi uma boa surpresa.  

Trata-se da lei estadual número 11.103, de 15 de janeiro de 2026, assinada pelo governador Castro,  dispondo sobre a “Criação da política estadual de promoção da cultura oceânica do Estado do Rio de Janeiro”.  Uma leitura mais apurada do texto da lei pode provocar até uma parcimoniosa euforia.

A considerar verdadeiras as intenções dos servidores envolvidos no novo regramento, o estado do Rio de Janeiro tem, desde então, obrigação de seguir um letramento oceânico que, segundo o texto do D.O. significa “conhecer a influência dos oceanos sobre nós e nossa influência nos oceanos”. Ora, só isto já vale minha parcimoniosa euforia.

Estou entendendo que agora é lei: crianças, jovens e adultos precisam se dar conta de tudo aquilo que David Attenborough fala em seu documentário. Seria muita ousadia minha pedir que as escolas estaduais fossem obrigadas a fazer sessões audiovisuais com “Ocean with David Attenborough”?

Para além do letramento, haverá necessidade de as escolas ensinarem educação ambiental. Faremos ainda campanhas de sensibilização sobre o impacto da poluição marinha, sobre a elevação dos mares e pesquisas serão incentivadas. E mais: o estado vai dar um Certificado de Amigo da Cultura Oceânica para empresas que atuam na exploração dos recursos marinhos e adotem práticas sustentáveis.

Só boas notícias. E assim termino meu texto que, como sempre, ficou maior do que eu gostaria. Mas, o que eu posso fazer se meus amigos são um barato e se eu só me cerco também de bons e criativos autores?

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‘Cidades são epicentro de nossas agressões ao meio ambiente’, escreve Stefano Mancuso

O tema do post anterior continua em evidência, portanto vou retomá-lo. Escrevi sobre a morte das 71 árvores que estavam postas em sossego em um terreno privado de um colégio no Flamengo e foram derrubadas para darem lugar a prédios com mais de 400 apartamentos.

Lindos ipês que floraram aqui na esquina. Por que não temos campanhas para salvar árvores? Foto Amelia Gonzalez

“Ainda que ocupem uma pequena porção da superfície terrestre (2 a 3%), as cidades são o epicentro de nossas agressões ao meio ambiente”, denuncia Stefano Mancuso.

 Trata-se do escritor italiano, o mais importante especialista global em neurobiologia vegetal, autor de “Revolução das Plantas” e “Nação das Plantas”, entre outros. Mancuso agora brinda os leitores com “Fitópolis”, que será lançado em fevereiro pela Editora Ubu, cuja leitura me acompanhou nesses primeiros dias do ano.

No livro, Mancuso demonstra a total incapacidade de a humanidade perceber a importância da vegetação nas cidades. Na natureza, a relação é de 86,7% de plantas contra 0,3% de animais. No entanto, mesmo sabendo disso, nossas cidades têm sido projetadas com uma espécie de cegueira vegetal.

Nesse ponto, e em vários outros do livro, não há como dissociar o que diz o italiano do que estamos vivendo no Rio de Janeiro hoje. A cidade deveria ter pelo menos mais 300 mil árvores, segundo informações do meu colega Andre Trigueiro no portal G1. Ocorre que empresas que recebem autorização para fazer empreendimentos apenas se cumprirem a compensação, nem isso fazem.

É bom que se diga: exigir o plantio de mudas para compensar o desmatamento é quase inócuo. As mudas são plantadas e, em geral, não há acompanhamento para ver se, de fato, estão crescendo e se desenvolvendo para compensar todo o serviço ambiental que as árvores extirpadas prestavam.

Vamos a alguns dados bem alarmantes sobre a falta de árvores em cidades, anunciados por Stefano Mancuso em seu necessário “Fitópolis”.

. Hoje, 350 cidades vivem três meses em que as temperaturas não ficam abaixo de 35 graus. Em 2050, serão 970 cidades nessa situação;

. Hoje, 200 milhões de pessoas vivem em cidades em condições de calor extremo e esse número chegará a 1,6 bilhão em 2050;

. Hoje 14% da população urbana mundial vivem em cidades muito quentes e, em 2050, serão 45%

. Se o aquecimento global alterar o ambiente a uma velocidade superior à capacidade de deslocamento das nossas florestas, as consequencias podem ser dramáticas

Não são profecias apocalípticas, mas estudos realizados por incansáveis cientistas que, a despeito de não serem ouvidos, continuam debruçados em computadores (eram pranchetas) calculando o quanto nos custará nossa indiferença. Mancuso reuniu alguns desses dados em seu livro e alerta:

“Segundo a maioria dos modelos, nos próximos 30 a 50 anos uma porcentagem significativa do globo estará quente demais para se viver.”

Bem, mas alguns seres vivos terão mais capacidade do que os outros de sobreviver ao colapso. As árvores, garante Stefano Mancuso.

“O planejamento urbano desconhece os ensinamentos do mundo das plantas. Onde quer que se reduza a biodiversidade (mesmo em diferentes áreas de uma cidade) o risco de o ambiente se tornar instável é muito maior” , denuncia o italiano.

Stefano Mancuso defende um modelo de cidade baseado nas plantas, que funcionaria da seguinte maneira:

“Cidades mais espalhadas, onde a maioria das necessidades dos cidadãos podem ser satisfeitas em longos trajetos e nas quais cada bairro é construído de forma a garantir a maior biodiversidade possível, representam um pré-requisito necessário para a resistência”, escreve Mancuso.

Ao mesmo tempo, o escritor se pergunta: “Como é possível realizar a mudança drástica que seria necessária para resistir ao aquecimento global, se mesmo propostas ridiculamente limitadas como plantar árvores ao longo da rua encontram oposição?”

Qualquer semelhança com o que vivemos no Rio de Janeiro não será mera coincidência. Porque o modelo animal é rígido.

“Para viver milênios é necessário que nenhuma parte do corpo seja única e insubstituível, e para que isso seja possível, cada função essencial à vida precisa ser distribuída por todo o corpo e não se concentrar em órgãos especializados. A organização da planta é exatamente assim, espalhada e distribuída, capaz de responder a limitações catastróficas sem perder a funcionalidade. O exato oposto da organização animal, baseada em uma hierarquia rígida e na especialização segundo a qual basta que alguns órgãos falhem para que toda a organização entre em colapso”.

Mancuso dá a régua e o compasso. Assim como ele, alguns outros pensadores da urbanidade não se limitam ao trivial para pensar em centros urbanos que possam oferecer qualidade de vida aos moradores. É preciso evitar a organização centralizada, entender a cidade como um ser vivo, que nasce, cresce e morre. Participar da vida desse ser vivo requer cuidados e requer ter respeito a todos os seres vivos que convivem conosco.

O livro vale muito a pena. Recomendo.

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Ganância e mediocridade explicam as árvores arrancadas no Flamengo

O tronco de uma árvore também arrancada do solo urbano carioca. Foto que eu mesma tirei durante uma caminhada.

Já não me importo com a falha, visível a olho nu,  da administração municipal do Rio de Janeiro no caso das 71 árvores que foram arrancadas do solo para deixar construírem dois prédios com 350  apartamentos no Flamengo. Infelizmente, não vivemos momentos de muita fé nas instituições e nos que se tomam por líderes e chefes.

Fico, sim, espantada, irritada, dá-me gana perceber a absoluta crueza de tais empresários. Mais ainda, com as pessoas que escolherão um bairro já muito densamento povoado, para morar, sabendo que as caixas/apartamentos onde amontoarão as coisas que acumularam serão construídas no lugar do verde.

É possível que, se tivessem tido um pouco, um pouquinho só, de respeito ao entorno, tais empresários percebessem zeros a menos em seu lucro. E o horror de se sentirem menos ricos nublou totalmente a capacidade de perceber que estariam sendo muito, mas muito mais interessantes, até para o mercado imobiliário, caso erguessem os prédios em meio às árvores. Compor com o verde, fazer disso um alarde. Tantas oportunidades de não serem tão triviais e vulgares.

A ganância torna as pessoas medíocres, sem subjetividade, sem criatividade. Erguerão ali amontoados de cimento, porcelanato, ladrilhos, fazendo aquele amontoado de sempre.

Por essas e outras que estamos vendo o Rio de Janeiro se tornar uma ilha de calor mais forte a cada dia. Por essas e outras que sempre tenho desejo de pedir desculpas a uma criança recém-nascida. Olhem bem o mundo que estamos deixando para as próximas gerações.

E para não ficar devendo informações, já que o ofício de jornalista assim obriga, aqui vai: segundo a revista Lancet, de 2000 para cá, aumentou muito o número de pessoas mortas po conta das formas modernas de poluição. E o urbanismo descontrolado é um dos responsáveis. Todos os anos nove milhões de pessoas morrem por causa da poluição. Só para se ter um meio de comparação, a Covid matou 15 milhões.

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O que você levaria na sua bolsa coletora?

Na absoluta impossibilidade de (d)escrever ações para conter as mudanças do clima, extermínio criminoso de árvores urbanas, resíduos urbanos não coletados, desmatamento, poluição, temas que sempre povoam este blog,  decido pegar carona nos pensamentos inquietos de Dona Haraway em “Ficar com o problema” (Ed. N-um). Sim, estou incapaz de construir um pensamento que se desprenda das cenas arrogantes protagonizadas por um homem que se toma por líder de grande nação e sequestra outro para roubar-lhe o território, petróleo e terras raras, sem considerar o direito sagrado de uma população fazer escolhas. Pior: obrigando as pessoas a sentirem pânico e dor.

Eu e minha bolsa coletora andamos muito por aí
Eu e minha bolsa coletora andamos muito por aí. Foto tirada por mim em um certo caminhar

Deveria estar escrevendo sobre a quantidade desastrosa de lixo deixado pelas pessoas que foram passar a noite de ano novo nas areias da Praia de Copacabana. Deveria estar cobrando de mr. Trump os bilhões ou trilhões que tem gasto com armamento sem dar atenção à necessidade dos países vulneráveis aos eventos extremos causados por emissões de gases poluentes de nações como a dele, a mais rica do planeta.

Mas eu me sentiria desfocada, aquela que fala sobre coisas nada-a-ver. Porque só se tem olhares para as mudanças do clima quando acontece uma grande Conferência, como foi a COP30, em Belém. Foi em novembro, lembram-se? Há pouco mais de um mês.

Em vez disso, busco, preciso tentar desconstruir as imagens que me obrigam a ver, em todos os sites noticiosos na internet, de um homem tolhido de visão e audição, com algo nas mãos que não entendo bem, num cenário semelhante a um bunker. É um presidente, foi eleito pelo povo. A imagem foi também a primeira página dos principais jornais impressos do mundo.

Na verdade, o estado do mundo, hoje, me entristece. Tento construir um hiato de tempo para pensar outras coisas. Sem forças para lutar contra tantos desmandos, peço licença aos leitores para fabular um pouco.  Lendo Haraway, espelho-me em um trecho da escritora ficcionista Ursula Le Guin, que ela reproduz. Diz Le Guin: “Eu sou uma mulher envelhecida e zangada, impondo-me com a minha bolsa, lutando contra os bandidos”. Se tirar a palavra “envelhecida”, pois não é assim que me sinto, o resto sou eu.

Às vezes zangada – o calor excessivo destrói meu humor – às vezes nem tanto, me transformo em um ser livre, andando por aí com uma bolsa coletora, a sair juntando bons pedaços de tudo o que mais quero perto de mim. O que levaria na minha bolsa coletora? Fiz uma lista, que compartilho com os leitores nessa tarde/noite chuvosa do primeiro domingo de 2026, o ano que começou com uma guerra.

Levaria na minha  bolsa…

O doce vagar de um olhar que vai de um canto a outro sem buscar nada. Um olhar que apenas  sorve o que as árvores, as pedras, as plantas, os bichos e o céu têm para mostrar;

O barulho da chuva caindo no chão,  acariciando as folhas. E elas adoram esse contato;

O aconchego de um cão;

O doce momento empregado em não empregar, em desempregar. Um doce momento, apenas isso. Sendo;

Uma distração;

Todos os bichos. Bem, quase todos – que me desculpem as baratas e os mosquitos, eles não estão nessa lista, por eles não tenho afeto;

Uma paisagem paralisada que trago de tempos idos. Manhã fria, bem fria, com céu azul, sol fraquinho, e a intensa e rara sensação de estar bem segura;

A sensação de acolhimento que sinto ao ver uma luz de cor amarela, bem fraca, em um cômodo quieto, com uma cortina branca fechando parte de uma janela de madeira;

A sensação de amparo que me traz a lembrança de uma estrada de terra vazia, com dois, três, quatro postes daqueles antigos, de lâmpadas quentes, a iluminar o caminho;

Uma estrada que leva e traz pouca gente;

Motores não barulhentos, com potência certa, capaz apenas de servir como apoio às pernas dos coletores. Para que mais?

A não velocidade;

A não ganância;

O desacúmulo, para não explorar mais os bens comuns da natureza;

Eu levo na minha bolsa coletora a vontade, o desejo;

O movimento. Faz parte de mim não gostar de estar parada;

A despreguiça;

A água, a terra, todas as plantas;

Um som que não é melodia;

Na minha bolsa coletora cabem também os livros que me ensinam. De autores que compartilham aquilo que lêem em outros livros. Não de autores que ditam verdades;

Levo comigo a delícia do ser.

Minha bolsa coletora estará comigo em todos os cantos em que eu puder me sentar, com meu cachorro do lado, meus pensamentos soltos. E meus pedidos de desculpas por tudo o que nós, dessa raça incrível que consegue ser a única que destrói o próprio habitat, estamos fazendo ao meio ambiente.

Feliz 2026! Ainda há tempo para se desejar coisas boas.

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