Era uma vez… um jovem brasileiro que morava na ilha mais úmida do Hawai, chamada Kaua´i. Estamos no início da segunda década do século XXI e Bruno Kemp, portador de HIV, buscava na maior proximidade com o mundo natural uma forma de reequilibrar seu corpo. Foi assim que ouviu, de uma amiga vegana, que uma bebida milenar andava rondando o mercado estadunidense e se mostrando um bom auxílio, sobretudo para o trato digestivo. Essa bebida chama-se kombucha e fora criada há mais de dois mil anos na China durante a Dinastia Qin.

Bruno passou a consumir kombucha, e a se sentir bem. Já em terras brasileiras, em 2016, percebeu que o mercado nacional ainda não tinha a bebida. Em conversa com o ex-marido e grande amigo Leo de Mattos, surgiu a ideia: e se os dois passassem a produzir e a vender kombucha no Brasil? Bruno trouxe a visão de mercado, que dialogou sem resistência com a memória ancestral de Leo. Bruno explica:
“A mãe do Leo tinha uma atuação forte, nos anos 80, com a Pastoral da Saúde de Zilda Arns, e lá preparava um fermentado que chamava de “Cidra Milagrosa” ou “Chá da Alga”. Era uma infusão que fazia parte de política pública, já que a troca de bactérias ia passando de mão em mão. Quando experimentou kombucha, Leo se lembrou na hora daquela infusão que ele, quando menino, bebia com frequência”, disse Bruno.
Nasceu ali a Pi Kombucha Tropical. A matriz de sua levedura foi dada por Mana Bernardes, dentro de um pote dourado. A artista plástica, que vive com a Doença de Crohn, já consumia kombucha, produzida em sua própria casa, há anos, com o objetivo de garantir maior qualidade de vida.
A partir daí, a história é feita de bons encontros, boas oportunidades – como a cozinha industrial herdada do pai de Bruno em Cachoeiras de Macacu – e uma baita vontade de buscar “o lugar da kombucha como kombucha”:
“É uma bebida fermentada, não alcóolica, que cabe em todos os corpos. Para mim, funciona como uma ferramenta para buscar o equilíbrio do meu corpo, mas gosto de frisar isso: para cada um funciona de uma forma diferente. É preciso falar com seu corpo para saber o que ele está dizendo”, disse Bruno.
E os bons encontros se espraiaram, na vida de Bruno e Leo, indo despontar nas feiras da Glória e da General Glicério (na Zona Sul do Rio de Janeiro), onde vendem seu produto semanalmente, juntando-se ao “balé de calçada”, expressão usada por Jane Jacobs em “Morte e Vida das Grandes Cidades” (Ed. Martins Fontes, 2018). Já bem cedindo os dois entram em cena com seus barris de kombucha, que alguns incautos, no fim da manhã embalada por boa música e algumas cervejas, até confundem com chopp.
A barraca da Pi Kombucha faz parte de um ritual que confere aos sábados um toque de conforto seguro sob a aparente desordem e burburinho do mercado a céu aberto. Bruno, Leo e sua kombucha tornam-se uma dupla fiel ao balé, com poucos improvisos. Quem chega na banquinha de madeira sinalizada com um enorme letreiro sabe que vai parar para uma conversa, geralmente acompanhada de risadas ou de indignação solidária. Nunca haverá indiferença de negociante focado apenas e unicamente no capital. Há propósito envolvido.
Posso dar meu próprio depoimento para agregar à nossa história um toque pessoal.
Tenho um cachorro da raça Shih tzu que, como bom representante de sua espécie, é sistemático e, digamos, cauteloso. Na lista de objetos que ele rechaça, embora calma e respeitosamente, está o carrinho que comprei recentemente para me ajudar a carregar o peso das compras da feira. Beto – meu cachorro – anda com muita desconfiança quando está ladeado por aquele estranho ser de rodas que não late mas não é humano. E empaca. Para driblar seu infortúnio, costumo deixar o “inimigo’ estacionado na barraquinha da kombucha, minha primeira parada na feira, para que Beto, então distensionado, possa fazer suas necessidades em paz.
Dia desses, descendo a rua com o carrinho e Beto para chegar à barraca, vejo que Leo me viu de longe e, para meu encanto, veio até mim:
“Já vou pegar o inimigo daqui, para o Beto ficar mais tranquilo”, disse rindo.
Histórias soltas haverá aos montes, com certeza, do tanto de kombucheiros que chegam ali para trocar vários dedos de prosa com Bruno e Leo. Se fosse um bar, estaria sempre cheio.
Mas há ainda a cereja do bolo: a kombucha que produzem é orgânica, feita em ambiente de muito cuidado ambiental e social, em Cachoeiras de Macacu.
“Hoje nosso maior valor agregado é o modo de produção. Chamo Macacu de nossa “bay area”, porque fica no fundo da Baía de Guanabara e, como fica a uma hora e meia de distância do Rio, podemos ir para lá uma vez por semana. Plantamos ali, organicamente, os insumos que são usados na bebida: capim limão, abacaxi, pitanca, guapo, lima. No dia da produção temos oito colaboradores. Nossos ingredientes principais, o chá preto e o chá verde, vêm do Vale da Ribeira, de famílias de origem japonesa. E o açúcar é orgânico”, contou Bruno.
O método de produção não é nada trivial, e nem vou me arriscar a detalhar aqui. Vale dizer que a bebida é fermentada, e que essa fermentação, as borbulhas que indicam que ali há vida, não tem como ser controlada pela grande indústria sem o uso de estabilizante. A kombucha Pi não usa estabilizantes.
Bruno se apressa em ressaltar que kombucha não substitui refrigerante: “Minha preocupação é ocupar intestinos”.
E aqui eu termino essa história.
Enquanto caraminholava as ideias para juntá-las aqui, estive pensando sobre o momento tão impactante, alegre e intenso que vivemos. Como contar uma história de um microcosmo urbano, quando estamos embricados em situações macro, que de uma hora para outra podem transformar o mundo? Justamente porque nosso micro sempre estará por perto, dando-nos algum conforto, mesmo em dias de tsunamis.
E o jornalista tem que ter curiosidade para ouvir, um caderninho e bom sentido para fazer contato, perceber e saber contar uma história. Quer seja de vidas humanas ou não humanas, quer seja em maior ou menor grau de intensidade ao redor. Nosso maior objetivo é que elas pulem de galho em galho, como macacos em floresta, para espalhar informação.
É assim que aprendi. É esse meu ofício, e tenho certeza de que, embora esteja passando por um movimento de acomodação das placas tectônicas, nossa profissão ainda vive. Sempre haverá ouvintes para boas histórias contadas de forma consistente e, sobretudo, verdadeira.
Dito isto…







