Sugestões civis para o possível Ministério dos Idosos

Animadas com o boato (infelizmente ainda não é fato) de que o presidente Lula da Silva, em seu quarto mandato,  está decidido a criar um Ministério dos Idosos, a turma da hidroginástica se alvoroçou ontem (29). O que poderíamos pedir ou sugerir a quem fosse ancorar a nova pasta do poder executivo? Apurações de analistas políticos dão conta de que Lula teria feito contato com o pessoal da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati),  fundada pelo médico Renato Veras em 1993 dentro da Universidade do estado do Rio de Janeiro (Uerj). E esse é um bom começo de conversa.

Um senhor no ponto de ônibus. Nem sempre a vida urbana dialoga com os idosos. Foto: Amelia Gonzalez

Tenho uma amiga professora na Unati, a psicomotricista, mestre e doutora Cristie Campelo, que ajuda a universidade a criar um ambiente de saúde para os idosos que a procuram. Conheço o trabalho dessa turma e fiquei feliz com o fato de que a Unati possa servir como referência para o possível futuro ministério.

Sendo assim, saí da academia com a tarefa de listar e publicar aqui no blog as sugestões que foram surgindo de nossas cabeças. Aquelas atletas da piscina já estão nesse mundo a cinco, seis, sete décadas, portanto desenvolveram o espírito livre dos sábios e das sábias. A ninguém ali incomoda a alcunha de “idoso”, palavra latina que quer dizer “cheio de idade”.

Já o desejo forjado pela atual modernidade, de parecer jovem a todo custo, passa longe de nossos hábitos. Rugas, manchas de pele, cabelos mais ou menos grossos e mais ou menos brancos são respeitados. Só se mexe com as marcas se elas interferem na saúde. As dores também são suportadas porque, afinal, ali todo mundo sabe que, depois dos 40, dificilmente se levanta da cama sem um “ai”. Dedinhos tortos, joelhos que estalam… quem nunca?

Vale dizer que o perfil da turma é de pessoas ativas, de uma geração que criou filhos para serem independentes, o que torna sem sentido ficarem hoje subordinados a(o)s meninos(as). Muitas ali correspondem aos 41,2% do total de brasileiros que moram sozinhos, segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE de 2022.

Dito isso, segue a lista. Ela pode aumentar, é claro. Aceitam-se sugestões.

. Segurança nas ruas – É preciso proibir sumariamente e multar bicicletas elétricas que usam as ciclovias. Ter saúde para caminhar é uma coisa, mas ter agilidade para correr de bicicleta voadora é outra.  Idosos e idosas têm  direito a ter espaço nas calçadas sem passar pelo susto constante e o temor de ser atropelado por um veículo silencioso que, em geral, trafega em alta velocidade;

. Mercado de trabalho – Se o homem que preside o país e recebeu do povo a licença para continuar a cumprir a nova tarefa acabou de fazer 81 anos e está esbanjando energia, a pergunta é: por que os 50, 60 e 70 mais são tão pouco beneficiados pelo mercado de trabalho?  As empresas precisam entender isso e não aderir ao etarismo. Pessoas idosas não querem tomar o lugar de jovens, mas muitas vezes precisam trabalhar para compor a renda que recebem de suas aposentadorias. Sobretudo quem não tem apartamento próprio e precisa pagar aluguel. Só um detalhe importante: o mundo digital não amedronta, é só aprender.

. Oásis urbanos – As mudanças climáticas trazem causam eventos extremos, como sabemos. No caso de territórios urbanos, o excesso de calor é um dos que mais atormenta. E sim, os corpos que viveram mais décadas têm mais dificuldade para regular a própria temperatura. A sugestão é criar oásis pelas cidades, vários deles, com cobertura verde, água para borrifar o rosto, água potável para beber e um banco para descansar. O cumprimento dessa tarefa deve ficar por conta dos governos subnacionais, mas o Ministério dos Idosos se encarregaria de fiscalizar e cobrar.

. Quem não anda, desanda – Fazer movimento é fundamental para ajudar a pessoa a enfrentar as décadas de vida com mais saúde. Na verdade, é fundamental para todo mundo, né? As academias da Terceira Idade, gratuitas, são um apoio necessário. Embora seja uma iniciativa que cabe aos governos subnacionais, o Ministério dos Idosos poderia empreender esforços para que mais e mais academias ao ar livre fossem criadas. O mais importante: com professores, no plural. E assistentes sociais, de saúde. Enfim, uma turma contratada para dar contorno aos idosos que queiram se exercitar. De uma só tacada, será a possibilidade de garantir mais saúde e dar muitos empregos.  

. Praças com aparelhos de ginástica – Ainda na linha saúde, juntando o lazer, uma excelente ideia que surgiu foi ampliar os oásis (considerando que eles sejam criados) para servirem também como ponto  de enconto dos idosos. Sob supervisão de funcionários das prefeituras, esses locais poderiam oferecer aulas de dança, encontros com leituras de livros, jogos como gamão, dama, dominó. Afinal, a gente não quer só farmácia popular e remédios mais baratos: queremos também diversão, arte e cultura.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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