O tronco de uma árvore também arrancada do solo urbano carioca. Foto que eu mesma tirei durante uma caminhada.
Já não me importo com a falha, visível a olho nu, da administração municipal do Rio de Janeiro no caso das 71 árvores que foram arrancadas do solo para deixar construírem dois prédios com 350 apartamentos no Flamengo. Infelizmente, não vivemos momentos de muita fé nas instituições e nos que se tomam por líderes e chefes.
Fico, sim, espantada, irritada, dá-me gana perceber a absoluta crueza de tais empresários. Mais ainda, com as pessoas que escolherão um bairro já muito densamento povoado, para morar, sabendo que as caixas/apartamentos onde amontoarão as coisas que acumularam serão construídas no lugar do verde.
É possível que, se tivessem tido um pouco, um pouquinho só, de respeito ao entorno, tais empresários percebessem zeros a menos em seu lucro. E o horror de se sentirem menos ricos nublou totalmente a capacidade de perceber que estariam sendo muito, mas muito mais interessantes, até para o mercado imobiliário, caso erguessem os prédios em meio às árvores. Compor com o verde, fazer disso um alarde. Tantas oportunidades de não serem tão triviais e vulgares.
A ganância torna as pessoas medíocres, sem subjetividade, sem criatividade. Erguerão ali amontoados de cimento, porcelanato, ladrilhos, fazendo aquele amontoado de sempre.
Por essas e outras que estamos vendo o Rio de Janeiro se tornar uma ilha de calor mais forte a cada dia. Por essas e outras que sempre tenho desejo de pedir desculpas a uma criança recém-nascida. Olhem bem o mundo que estamos deixando para as próximas gerações.
E para não ficar devendo informações, já que o ofício de jornalista assim obriga, aqui vai: segundo a revista Lancet, de 2000 para cá, aumentou muito o número de pessoas mortas po conta das formas modernas de poluição. E o urbanismo descontrolado é um dos responsáveis. Todos os anos nove milhões de pessoas morrem por causa da poluição. Só para se ter um meio de comparação, a Covid matou 15 milhões.
Na absoluta impossibilidade de (d)escrever ações para conter as mudanças do clima, extermínio criminoso de árvores urbanas, resíduos urbanos não coletados, desmatamento, poluição, temas que sempre povoam este blog, decido pegar carona nos pensamentos inquietos de Dona Haraway em “Ficar com o problema” (Ed. N-um). Sim, estou incapaz de construir um pensamento que se desprenda das cenas arrogantes protagonizadas por um homem que se toma por líder de grande nação e sequestra outro para roubar-lhe o território, petróleo e terras raras, sem considerar o direito sagrado de uma população fazer escolhas. Pior: obrigando as pessoas a sentirem pânico e dor.
Eu e minha bolsa coletora andamos muito por aí. Foto tirada por mim em um certo caminhar
Deveria estar escrevendo sobre a quantidade desastrosa de lixo deixado pelas pessoas que foram passar a noite de ano novo nas areias da Praia de Copacabana. Deveria estar cobrando de mr. Trump os bilhões ou trilhões que tem gasto com armamento sem dar atenção à necessidade dos países vulneráveis aos eventos extremos causados por emissões de gases poluentes de nações como a dele, a mais rica do planeta.
Mas eu me sentiria desfocada, aquela que fala sobre coisas nada-a-ver. Porque só se tem olhares para as mudanças do clima quando acontece uma grande Conferência, como foi a COP30, em Belém. Foi em novembro, lembram-se? Há pouco mais de um mês.
Em vez disso, busco, preciso tentar desconstruir as imagens que me obrigam a ver, em todos os sites noticiosos na internet, de um homem tolhido de visão e audição, com algo nas mãos que não entendo bem, num cenário semelhante a um bunker. É um presidente, foi eleito pelo povo. A imagem foi também a primeira página dos principais jornais impressos do mundo.
Na verdade, o estado do mundo, hoje, me entristece. Tento construir um hiato de tempo para pensar outras coisas. Sem forças para lutar contra tantos desmandos, peço licença aos leitores para fabular um pouco. Lendo Haraway, espelho-me em um trecho da escritora ficcionista Ursula Le Guin, que ela reproduz. Diz Le Guin: “Eu sou uma mulher envelhecida e zangada, impondo-me com a minha bolsa, lutando contra os bandidos”. Se tirar a palavra “envelhecida”, pois não é assim que me sinto, o resto sou eu.
Às vezes zangada – o calor excessivo destrói meu humor – às vezes nem tanto, me transformo em um ser livre, andando por aí com uma bolsa coletora, a sair juntando bons pedaços de tudo o que mais quero perto de mim. O que levaria na minha bolsa coletora? Fiz uma lista, que compartilho com os leitores nessa tarde/noite chuvosa do primeiro domingo de 2026, o ano que começou com uma guerra.
Levaria na minha bolsa…
O doce vagar de um olhar que vai de um canto a outro sem buscar nada. Um olhar que apenas sorve o que as árvores, as pedras, as plantas, os bichos e o céu têm para mostrar;
O barulho da chuva caindo no chão, acariciando as folhas. E elas adoram esse contato;
O aconchego de um cão;
O doce momento empregado em não empregar, em desempregar. Um doce momento, apenas isso. Sendo;
Uma distração;
Todos os bichos. Bem, quase todos – que me desculpem as baratas e os mosquitos, eles não estão nessa lista, por eles não tenho afeto;
Uma paisagem paralisada que trago de tempos idos. Manhã fria, bem fria, com céu azul, sol fraquinho, e a intensa e rara sensação de estar bem segura;
A sensação de acolhimento que sinto ao ver uma luz de cor amarela, bem fraca, em um cômodo quieto, com uma cortina branca fechando parte de uma janela de madeira;
A sensação de amparo que me traz a lembrança de uma estrada de terra vazia, com dois, três, quatro postes daqueles antigos, de lâmpadas quentes, a iluminar o caminho;
Uma estrada que leva e traz pouca gente;
Motores não barulhentos, com potência certa, capaz apenas de servir como apoio às pernas dos coletores. Para que mais?
A não velocidade;
A não ganância;
O desacúmulo, para não explorar mais os bens comuns da natureza;
Eu levo na minha bolsa coletora a vontade, o desejo;
O movimento. Faz parte de mim não gostar de estar parada;
A despreguiça;
A água, a terra, todas as plantas;
Um som que não é melodia;
Na minha bolsa coletora cabem também os livros que me ensinam. De autores que compartilham aquilo que lêem em outros livros. Não de autores que ditam verdades;
Levo comigo a delícia do ser.
Minha bolsa coletora estará comigo em todos os cantos em que eu puder me sentar, com meu cachorro do lado, meus pensamentos soltos. E meus pedidos de desculpas por tudo o que nós, dessa raça incrível que consegue ser a única que destrói o próprio habitat, estamos fazendo ao meio ambiente.
Feliz 2026! Ainda há tempo para se desejar coisas boas.
Hoje pela manhã, fui surpreendida quando o amigo Marcio Barroso me mandou um zap dizendo que acabara de receber o link desse texto que reproduzo abaixo, escrito por mim em agosto de 2024.
Naquele tempo, eu contribuía para o site da Casa Monte Alegre, postava lá meus textos, antes de postar aqui no blog.
Quem mandou o texto para o Marcio foi a Dionê, uma das personagens do meu texto de outrora.
Comecei a ler e achei tão bom que decidi compartilhar novamente com vocês. Passei essas duas últimas semanas muito lotada de trabalho, a tal ponto que não consegui escrever.
Semana que vem eu retorno. Mas fiquem com essa reportagem. Está grande, mas é interessante para todos nós que pensamos o mundo com fronteiras abertas e que sabemos que não estamos por aqui sozinhos.
O elo cauteloso, mas preciso, entre os Jardins Filtrantes de Niterói e as palestras sobre Economia Azul
Um corredor pintado de preto e iluminado apenas com a luz nervosa de desenhos futuristas controlados por computador. Formatos diferenciados, exigindo do espectador uma atenção redobrada, já que em segundos se desfaziam e se transformavam em outra coisa. A música de fundo, um misto de som clássico e futurista, acompanhava o sentido de urgência que se traduz numa quase frenética busca, numa total falta de hiato. Mas instiga, sugere novas possibilidades, cria um grande ponto de interrogação que vai nos acompanhando pelo caminho. Foi assim minha acolhida na Rio Innovation Week, auto intitulado maior evento global de tecnologia e inovação, que aconteceu no Pier Mauá entre os dias 13 e 16 de agosto.
O encontro foi, efetivamente, mega. Ocupou uma área de 70 mil metros quadrados no Píer Mauá, ofereceu 32 conferências, teve mais de 2.500 palestrantes, rendeu R$ 2,3 bilhões em geração de novos negócios, recebeu 155 mil visitantes. E foi pensado, segundo o card de apresentação, para “gerar reflexão e impacto real para transformar realidades: vai além do estímulo à inovação e ao empreendedorismo”. Se é isso, estou junto.
Pois muito bem. E o que eu, que prezo e respeito o conhecimento tradicional e o contato com a realidade que se transforma por si só (natureza), estava fazendo ali, cercada pelo povo da inteligência artificial? Curiosidade jornalística é meu combustível. E como tenho amigos que fazem coisas interessantes e me convidam, fui a convite de Marcio Marcio Santa Rosa, que há tempos vem me atiçando a curiosidade com a expressão Economia Azul. Ele é coordenador do Programa Guanabara Azul e Bacias da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro, entende muito do assunto, e eu estive na conferência promovida por ele num dos muitos espaços da feira.
No caminho, lembrei-me de quantos movimentos ao desconhecido tenho feito na lida como repórter. Em 2008, por exemplo, fui à China participar de um seminário sobre “Cidades Sustentáveis” porque era uma expressão nova por aqui. Quem diria, né? Praticamente uma década e meia depois, hoje é uma expressão tão usada e ousada. Ali mesmo, na RIW (esta é a sigla que facilita a comunicação), vi muitas vezes a palavra sustentabilidade escrita nos cartazes que apresentavam os espaços, as conferências. Que bom.
A subsecretaria Ana Asti faz apresentação no evento Guanabara Azul
Assim, vamos ao que interessa: o que é Economia Azul? Conceitualmente, é um sistema que se preocupa em promover o desenvolvimento econômico com foco na preservação dos ecossistemas marinhos e na sustentabilidade ambiental. Pelo que comecei a aprender a partir das três palestras às quais assisti na RIW, a Economia Azul tem, na essência, o olhar cuidadoso para quem vive do ecossistema marinho, ou para o S do acrônimo ESG (Environmental, Social and Governance). Para isso, aqui no Rio de Janeiro, conta com o Programa Guanabara Azul, que virou política pública no ano passado.
Para que a gestão de Economia Azul seja eficaz, uma questão é absurdamente premente: a limpeza dos rios, baías, oceanos, mares etc. E sim, a poluição da Baía de Guanabara, mais conhecida dos cariocas do que o mate e o biscoito da praia, é, no mínimo, um obstáculo e tanto para a Economia Azul no Rio de Janeiro.
Para não desanimar nem avivar o tal espírito de vira-lata, vale pensar que o problema não é só nosso. Vejam o que aconteceu durante as Olimpíadas em Paris, quando alguns atletas que nadaram no Sena adoeceram por conta da sujeira. E dias antes, a prefeita Hidalgo tinha feito aquela cena para as redes, nadando no Sena para mostrar que estava limpinho. Tá vendo? Não é só aqui do lado debaixo do Equador que acontece.
O fenômeno que acabou causando o problema em Paris foi explicado por Luiz Firmino Martins Pereira, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, geógrafo e especialista em saneamento, um dos palestrantes da conferência que se chamou “Guanabara Azul”. A explicação é técnica, mas dá para entender:
“Só um sistema de separador absoluto não consegue dar conta da poluição. O Sistema de Tempo Seco colapsou, extravasou e vazou para o Rio Sena”, explicou ele.
Resumindo: quando a prefeita Hidalgo nadou, realmente estava tudo limpo, mas logo depois choveu forte, o que fez o tal Sistema de Tempo Seco colapsar. Quem quiser conhecer os detalhes, pode acessar o estudo feito por Luiz Firmino e colegas da FGV, chamado Cinturão Metropolitano da Guanabara.
Ana Asti, subsecretária de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do RJ, foi a primeira a palestrar e deixou patente um sentimento comum a todos ali: a paixão pela Baía de Guanabara. Asti traduziu assim o intento do Guanabara Azul, coordenado por Marcio Santa Rosa: até 2030, 90% da região estarão saneados.
“Se eu conseguir que os municípios tenham relação com a Baía de Guanabara, vou conseguir também desenvolver novos empregos , o que vai gerar renda. Há dez projetos de fomento à bioeconomia que podem viabilizar novos negócios. A Baía é a principal porta de entrada do país e hoje ainda tem muitas casas que estão de costas para ela. Queremos mudar isso”, disse Asti.
As mudanças climáticas serão levadas em conta, ressalta Ana Asti, que elenca o saneamento em favelas como o maior desafio da área. Para isso, por exemplo, vai ser inaugurada uma Estação de Tratamento de Esgotos em Queimados daqui a dois anos.
De qualquer forma, o plano de recuperação ambiental da Baía de Guanabara precisa sair do papel, já não é sem tempo. Parcerias têm sido feitas pela turma que está no comando da Secretaria, cuidando do meio ambiente. Estudos têm sido aplicados. Luiz Firmino falou sobre o modelo de Jardins Filtrantes, que está sendo empregado em Nova York e eu me lembrei, imediatamente, de outro local em que este modelo está sendo usado: Niterói. Meu pensamento voou longe dali.
Pouco mais de uma semana antes, a convite de outra amiga, Samyra Crespo, ambientalista, escritora, que elaborou a primeira pesquisa de opinião pública sobre meio ambiente no Brasil, estive visitando o Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis, em Niterói, que pôs em prática o Sistema de Jardim Filtrante, e urbanizou a área onde fica o bairro Fazendinha. E foi lá que eu ouvi falar em Jardins Filtrantes.
Em Niterói, como no Rio, o objetivo é o mesmo: limpar as águas. Com águas limpas e saudáveis, é fácil pensar em atividades relacionadas com os meios aquáticos. A economia azul pretende impulsioná-las, mas com equilíbrio para não impactar o ecossistema. É um elo cauteloso, mas preciso.
Ode às Macrófitas
Foi também numa manhã ensolarada que cheguei a Piratininga. Antes, pegamos um catamarã, e fomos ouvindo a explanação de Dionê Maria Marinho Castro, que há mais de uma década está à frente do Programa de Despoluição da Enseada de Jurujuba e criação de Modelo de Gestão Municipal Integrada na Prefeitura de Niterói. É também uma servidora pública animada com o que faz, como a Asti, o Marcio… dá gosto de ver.
Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis
Dionê começou contando sobre como Niterói se modificou com a inauguração da Ponte. Era uma cidade, virou outra, e isso é facil de imaginar. Deveria ser fácil, para as autoridades da época, imaginar também. E tomarem providências para evitar, por exemplo, colapsos no sistema de esgoto. Mas é assim: na hora de prever o lucro, dificilmente os donos do poder e do capital querem pensar em problemas…
Uma das mais prejudicadas foi a Lagoa de Piratininga. Passaram-se muitos anos até que veio uma Solução Baseada na Natureza, expressão criada pela Comissão Europeia que significa, resumidamente: ações que visam a proteger, gerir de maneira sustentável ou restaurar ecossistemas naturais a fim de enfrentar desafios da natureza. No caso, a solução encontrada foi, justamente, criar dois quilômetros de Jardins Filtrantes.
Não vou tentar dar detalhes técnicos, porque tenho medo de errar alguma coisa. Naquela manhã de quinta-feira, quando Dionê levou toda a equipe do Projeto de Implantação de Infraestrutura Sustentável para Recuperação Socioambiental de um Sistema Lagunar Urbano, tivemos uma aula sobre Jardins Filtrantes. E eu pude exercer a profissão que me constitui: sou repórter. Anotei um bocado sobre leito de secagem, retenção de sedimentos, caixas de passagem de 50 em 50 metros, tudo para a criação de novos equilíbrios ambientais. Mas, para não cansar os leitores, vou preferir resumir assim: o projeto deu certo. É visível a recuperação socioambiental do sistema lagunar, o cuidado que a equipe teve, sem precisar gastar mais do que R$ 100 milhões. Ou seja: é possível, precisa apenas ter vontade política e uma boa equipe.
Conto aqui duas histórias rápidas.
A primeira história é sobre a Macrófita aquática. Revelo minha paixão pelo mundo das plantas, e deixo a recomendação de um livro maravilhoso – “Sumário de Plantas Oficiosas”, de Efrén Giraldo – que li logo após ter tomado conhecimento de outro, Stefano Mancuso, pioneiro da neurobiologia das plantas, de quem já li três volumes. Durante a visita ao Parque Orla, não por acaso me aproximei da bióloga Heloisa Osanai, que faz parte da equipe e cuida desses seres.
Mancuso e Giraldo nos fazem pensar nas plantas como seres ativos, que se mudam, que viajam, e que escolheram a imobilidade em contraponto aos animais errantes. As macrófitas, assim, merecem todo o meu respeito porque, entre tantas outras qualidades, conforme me explicou Heloisa Osanai, elas podem servir como uma espécie de biofiltro, reduzindo a carga orgânica no ambiente. Contribuem, então, para formar os Jardins Filtrantes. Querem atitude mais nobre e mais oportuna para nós, humanos que vivemos depositando por aí nossos detritos? Elas limpam.
A outra história é a do bairro que se criou ali, ao lado dos jardins. Tinha tudo para ser uma questão social séria, já que, como a maioria das megalópoles, também em Niterói há uma enorme desigualdade. E as 1277 familias que residiam no lugar onde havia problemas de esgoto e necessidade de solucioná-los, achavam que seriam removidas. Não foi assim, todo mundo ficou, a Lagoa foi dividida em nove trechos e, com todo cuidado, fizeram reuniões para apresentar o Parque Orla e ouvir sugestões dos moradores.
“Acolhemos mais de 85% das reivindicações da população. Formaram-se associações, eles se organizaram. E não fizemos só reuniões, fomos também no tête a tête, conversando com eles, indo à casa deles. Hoje as famílias da comunidade convivem com os moradores do bairro Fazendinha. O poder público ajeitou essa relação. Se os moradores não se sentissem responsáveis pelo projeto seria difícil, eles ajudam a preservar”, contou Dionê, que só não conseguiu mostrar-nos o jacaré de três metros que vive na região e também convive com todos. Ufa.
Bem o texto acabou ficando muito grande, mas foi preciso porque não é a toda hora que eu tenho a chance de fazer reportagens tão ricas, que me possibilitem tantas análises.
Quando Emanuel Alencar me chama no zap e diz: ‘Quero te fazer dois convites”, eu já fico alerta porque sei que vem coisa boa na nossa área. Emanuel e eu trabalhamos juntos no Razão Social (caderno do O Globo que editei de 2003 a 2012, sempre atualizando temas relativos ao desenvolvimento sustentável) e depois cada um seguiu seu rumo, mas com o mesmo mote.
Hoje Emanuel tem um movimento muito interessante que se chama “Respira Rio” e já marquei com ele de fazermos uma conversa para virar entrevista e trazer aqui para os leitores a essência do “Respira Rio’. Está faltando é tempo, porque como vocês sabem, não monetizo meu blog, portanto preciso fazer frilas para pagar boletos. Mas espreme daqui, espreme de lá, acaba dando um tempo.
O Museu do Amanhã clicado por mim em 2023. Um excelente programa para segunda e terla-feiras
Pois bem: um dos convites que Emanuel me fez foi para eu chamar os leitores para um super evento que vai acontecer no Museu do Amanhã nos dias 1 e 2, das 9 às 19h, e vai ser uma espécie de continuação da COP30, com ótimas intenções. É isto mesmo. Precisamos continuar falando a respeito.
A ideia é reunir especialistas para debaterem sobre a melhor forma de financiar a conservação ambiental e a restauração ecológica. Como vocês se lembram, o presidente Lula anunciou lá o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês), que tem a ver com o tema. Mas o evento vai focar, especificamente, em como transformar o Código Florestal em motor econômico da transição ecológica. Faz sentido. Apesar de o Código Florestal ser considerado por especialistas a maior infraestrutura climática já criada no país, seu potencial permanece subutilizado
O evento é organizado pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), com apoio de várias instituições. Vai ter ainda o lançamento da nova Vitrine da Restauração, uma plataforma desenvolvida pela Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (Sobre), com apoio técnico e financeiro do projeto PlanaFlor (BVRio/FBDS). Ela busca resolver exatamente um dos principais gargalos da restauração em escala: a falta de dados estruturados e de coordenação territorial para orientar políticas e investimentos. infraestrutura pública essencial para viabilizar restauração em larga escala.
Vai ser um encontro de peso, ao qual comparecerão representantes do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), da Secretaria de Estado do Ambiente (Seas), do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério da Gestão e Inovação, do Serviço Florestal Brasileiro e de diversas instituições da sociedade civil. A programação inclui painéis sobre CAR, interoperabilidade de dados, restauração ecológica, regularização ambiental e mercado de CRAs, culminando no lançamento das primeiras CRAs do Brasil.
A programação completa pode ser vista aqui. As inscrições podem ser feitas aqui. E vai ter também transmissão ao vivo.
Emanuel me convidou para participar pessoalmente, mas a este amável convite eu não poderei dizer sim. Estou lotada de trabalho. Mas vou seguir algumas transmissões ao vivo e trago notícias aqui.
Difícil tentar trazer alguma notícia sobre a COP30 que vocês, caros leitores, não tenham lido ou ouvido. Sendo assim, escrevo algumas percepções, como jornalista que estuda e se atualiza sobre esse movimento – vamos chamar de desenvolvimento sustentável para facilitar – desde o início do século.
O entardecer em viagem pelo Amazonas. Foto tirada por mim durante uma viagem ao Bailique em 2015
Foi uma COP da intensidade, tanto quanto é intensa a Floresta Amazônica, que abrigou seus representantes. Uma COP que levou estrangeiros a sentirem o calor úmido da região, a andarem muito de um pavilhão para outro. Uma COP de muitas discussões, o que sempre acontece.
Não, eu não estive em Belém. Mas aqui do meu computador consegui acompanhar muito do que foi debatido, como vocês devem ter percebido se leram meus textos anteriores.
No dia da plenária final, que durou cerca de cinco horas, estive com os olhos grudados na tela. Aliás, desde muito cedo, quando o embaixador André Corrêa do Lago saiu da sala de negociações, onde esteve quase durante toda a noite, e ainda conseguiu sorrir com simpatia e paciência para responder a um esperto repórter – Daniel Nardin, do Amazoniavox.com – que deu plantão na porta e fez algumas perguntas.
O embaixador estava demonstrando sinais de cansaço, claro, mas estava confiante. O pequeno princípio de incêndio, que durou seis minutos e não fez vítimas, havia atrasado umas seis horas as decisões. Mas ele citou ali, rapidamente, alguns ganhos, entre eles o TFFF (acordo em que investidores poderão obter lucro ao financiar florestas tropicais), a Declaração de Belém, que propõe uma resposta climática centrada nas pessoas. “E o Road Map?”, quis saber o repórter.
Road Map é um compromisso que o presidente Lula havia assumido no início da Conferência, uma espécie de guia para o fim do uso dos combustíveis fosseis lentamente.
“Vamos anunciar. Mas vai ser uma iniciativa da presidência brasileira. Não fica no texto”, respondeu Corrêa do Lago.
A frustração de não ver no texto final uma convocação mundial para o fim dos combustíveis fósseis criou uma espécie de plano B para alguns países. Em abril de 2026, na Colômbia, haverá uma inédita conferência internacional que pretende focar apenas no fim dos fósseis. Segundo a jornalista Míriam Leitão, já há 80 países interessados no evento, anunciado pela ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Velez. Holanda, país costeiro que sofre muito com o aumento do mar, está na coorganizando.
Corrêa do Lago tem onze meses para fazer andar nossa trilha para longe dos combustíveis fósseis. Ele anunciou também outra trilha, esta que levará ao fim do desmatamento, outro ponto bastante sensível para os negociadores.
Foram duas longas semanas. Diferentemente do que tinha sido anunciado, houve a presença em massa dos 195 países das Nações Unidas, ou seja, nada diferente do que acontece há trinta anos. Houve também muita discussão, sobretudo ali na última plenária, quando a fragmentação do mundo ficou exposta de maneira triste.
Para se ter uma ideia, a folhas tantas, quando a questão de gênero estava sendo debatida, representantes mulheres de alguns países, entre eles a Rússia e Argentina, fizeram questão que constasse do texto a declaração formal de que existem apenas dois gêneros e que pessoas do mesmo gênero não podem se tornar casais. Se estivesse no zap, eu poria aqui um emoji de pânico.
Mas, como sói, tudo tem vários lados. O ponto de vista otimista, do site da Conferência, assume que, mesmo com tantas tensões geopolíticas, a COP30 “aprovou um pacote de decisões robusto que cumpriu seus três objetivos principais: fortalecer o multilateralismo, conectar o multilateralismo climático às pessoas e acelerar a implementação do Acordo de Paris. A COP30 equilibrou forças entre norte e sul, países desenvolvidos e em desenvolvimento, energia e natureza, tecnologia e pessoas, compromissos e implementação, mitigação e adaptação”.
Entre os menos otimistas estão aqueles que rigorosamente não esperavam nada da Conferência, nem mesmo apontando as famosas lacunas e fragilidades. O professor Eduardo Sá Barreto, da Faculdade de Economia (UFF) e membro do NIEP-Marx, escreveu no site da Boitempo quase tudo o que deveria estar na mesa de debates, mas não esteve:
“Não haverá concertação pelo decrescimento (muito menos um que contemple responsabilidades históricas diferenciadas); não haverá concertação pela contenção (muito menos pela aniquilação) do capital fóssil; não haverá concertação pela abertura de fronteiras ou pela relocalização de populações de regiões vulneráveis ou tornadas inabitáveis; não haverá concertação pela desconcentração urbana ou pela desglobalização da produção e do consumo”.
Não é possível discordar dele. Tenho, contudo, visão um pouco mais otimista, e percebi nessa Conferência, talvez por ter sido realizada em território conhecido, maior robustez nas intenções. E o fato de estar nas mãos de André Corrêa do Lago, a partir de agora, tomar providências para se alcançar uma luz nos caminhos acho positivo. Foi notável o comprometimento dele à frente das negociações. Até mesmo quando precisou interromper a última plenária porque, honestamente, percebeu que se equivocou ao não dar voz a delegadas que haviam levantado a bandeirinha para falar.
Àquela altura, já extenuado, era perfeitamente compreensível e humano um equívoco. Corrêa do Lago desculpou-se, o que também soou bem, numa reunião tão tensa e com tantas divergências postas sobre a mesa.
Santa Marta pode ser uma possibilidade, até porque tem menos países interessados, ou seja, menos chance de uma agenda multifacetada. Mas vai lidar com um assunto muito espinhoso, o fim dos combustíveis fósseis. Vamos aguardar e acompanhar.
Desde as 10h estamos (a mídia especializada) aguardando a plenária final da COP30.
É aquele momento em que a presidência da Conferência, no caso o embaixador André Corrêa do Lago, entrega à sociedade o texto que a duras penas foi conseguido, em consenso, com os 194 países que fazem parte do encontro.
A madrugada foi intensa, e ainda estão reunidos.
Mas faço questão de destacar aqui para vocês dois pontos importantes, que certamente vão ser nublados pelas notícias quentes da política nacional, com a prisão do ex-presidente.
O primeiro ponto: indigenas e povos pretos foram mencionados no texto, como partes interessadas e importantes para conter o aquecimento global. Nada mais justo. Há algum tempo esteve aqui no Brasil uma representante da ONU que cunhou a expressão: os indígenas são os guardiães da floresta. Agora eles são justamente lembrados.
O segundo ponto que acho interessante, pelo que até agora surgiu, é a resposta dos cientistas, aqueles mesmos que escreveram a carta sobre a qual eu fiz menção neste post.
Reproduzo abaixo, na íntegra, o texto que eles acabam de divulgar.
Sigo aqui esperando a plenária.
Reação de cientistas | Carlos Nobre – Painel Científico da Amazônia; Fatima Denton – United Nations University; Johan Rockström – Potsdam Institute for Climate Impact Research; Marina Hirota – Instituto Serrapilheira; Paulo Artaxo – Universidade de São Paulo; Piers Forster – University of Leeds; Thelma Krug – Presidente do Conselho Científico da COP30.
A verdade é que não há como evitar um perigoso aumento da temperatura global sem acabarmos com a dependência de combustíveis fósseis até 2040, ou no mais tardar até 2045. Não cumprir isso empurrará o mundo para uma perigosa mudança climática dentro de 5 a 10 anos, causando extremos climáticos cada vez mais intensos que afetarão bilhões de pessoas. Sistemas essenciais para a capacidade da Terra de sustentar nossa sociedade, como a Floresta Amazônica, os Recifes de Corais, as Calotas de Gelo, as Correntes Oceânicas podem atingir pontos de não retorno. No início da semana, dissemos que a COP tinha uma escolha — proteger as pessoas e a vida, ou os interesses da indústria de combustíveis fósseis. Apesar dos melhores esforços do Brasil e de muitos países que trabalharam para unir o mundo em torno de um roteiro para acabar com nossa dependência de combustíveis fósseis, forças contrárias bloquearam o acordo. Elas parecem ignorar que, ao contrário dos pavilhões da COP, não podemos evacuar o planeta Terra quando desastres acontecem.
Uma transição energética alinhada à ciência exige liderança, coragem e coerência. Devido ao fracasso, até agora, em implementar o Acordo de Paris, o ritmo necessário de mudança é extremamente elevado. Precisamos ver as emissões globais começando a cair a partir de 2026 e passar de um cenário de aumento das emissões para reduções de 5% ao ano. Isso, junto com a proteção dos sumidouros de carbono na natureza e a ampliação das remoções de carbono (CDR), é necessário para minimizar o transbordamento e retornar a um futuro climático administrável para a humanidade.
Como cientistas, sabemos que os seres humanos são capazes de feitos extraordinários. Aqui em Belém, muitos países mostraram que estão prontos para se libertar do domínio e dos perigos dos combustíveis fósseis. Esses serão os vencedores do século XXI. Agora é hora de nos unirmos em um Mutirão dos que estão dispostos a liderar o caminho. A ciência está, e continuará aqui para ajudar. Trabalhando com a Presidência brasileira, vamos propor a criação de um Painel Científico sobre a Transição Energética Justa e o Fim dos Combustíveis Fósseis, para subsidiar o Acelerador Global de Implementação.
Desde o dia 6 de novembro estamos circulando por assuntos ligados ao meio ambiente por conta da COP 30. Quando eu escrevo “estamos”, estou querendo me referir a nós, jornalistas ligados ao tema. Sobretudo aqueles que estão lá, em Belém, onde tudo está acontecendo.
O manifesto da 350.org, em foto de Hugo Duchesne, gentilmente cedida pela instituição
Hoje sentei-me para ouvir, ler e escrever um texto com as novidades. E fui abduzida pela carta dos cientistas. Estava em outra vibração, mais positiva, achando bom até mesmo o simples fato de o tema estar na roda. Mas os cientistas – entre eles Carlos Nobre e Paulo Artaxo – puxaram minha cordinha. Já me explico.
Continuo achando bom uma reunião dessa magnitude estar acontecendo no coração da Floresta Amazônica. Continuo achando bom que os povos indígenas, os ribeirinhos, os pantaneiros, os povos da floresta, aqueles que realmente sentem os efeitos das mudanças climáticas em geral estejam sendo ouvidos, estejam ocupando lugares na Green Zone.
Achei bom aquele fundo para florestas tropicais para sempre (TFFF), que o presidente Lula apresentou de forma tão simples, dizendo: “Não é doação, é investimento”. Mas preciso confessar que, naquele momento, um certo desconforto me roçou o pensamento: “Ora, mas então o modelo continua o mesmo, ou seja, a ideia é ganhar mais dinheiro, acumular para consumir…” Logo uma amiga me disse, e eu repensei: “Mas é este o sistema capitalista, e é nele que vivemos”. Fazer o quê?
Estava indo por esse caminho. Usando lentes cor de rosa, na linha do “dos males, o melhor”.
Até que duas frases da carta que os renomados cientistas divulgaram ontem (19) pela manhã, conseguiram acender a luz da razão. E espanei as lentes otimistas.
“A proteção florestal não pode ser usada como compensação. Florestas em pé não podem ser uma desculpa para continuar queimando combustíveis fósseis”.
Juntei-me novamente àqueles que entendem que a raiz da crise climática está no modelo global de consumo, que esgota os recursos naturais e amplia as desigualdades. E na produção em massa, extração sem limite e desperdício em escala mundial. Essa nefasta combinação, que está também na essência de um sistema econômico baseado no acúmulo de riquezas, causa o desmatamento, a poluição e o aquecimento do planeta. E todos os eventos extremos que advém desse cenário.
Bem faz o pessoal da ONG 350.org, que lançou hoje mesmo a campanha “Mind the Gap-ybara”. Confesso que levei um tempo e precisei conversar com amiga(o)s jornalistas (já falei aqui, tenho um grupo que é de causar inveja) para perceber a mensagem.
Solange Noronha decifrou:
“No Metrô de Londres a expressão Mind the Gap é usada para alertar as pessoas sobre o espaço entre o trem e a plataforma. Os ambientalistas podem estar querendo chamar a atenção para o fosso que há entre intenção e gesto na questão climática”, disse ela.
Bingo!
Já escrevi aqui sobre a eterna sensação de estarmos vivendo uma era dos paradoxos. Acho mesmo que se Eric Hobsbawm estivesse vivo, poderia agregar esse livro à sua excelente série de “Eras”…
Faço um parêntese para dizer que as capivaras são animais maravilhosos. Não querem briga com ninguém, são amigas de todo mundo, até mesmo de seus predadores. É um mamífero roedor, mas flutua bem nas águas, onde pode permanecer para se livrar do perigo, e dá um latido curto para avisar de perigo. Vivem sua curta vida – chegam, no máximo, a 15 anos, como nossos pets – na boa, e até comem suas próprias fezes quando não tem outro jeito.
Não à tôa a capivara se tornou uma paixão nacional.
Mas, voltando aqui aos paradoxos, hoje mesmo, penúltimo dia da COP30, a COP da Verdade, a COP da Implementação, ficamos sabendo que o Salão do Automóvel voltou ao Brasil depois de sete anos e que a Jeep apresentou detalhes do SUV que chegará ao Brasil no próximo ano.
Reproduzo um trecho do livro “A política da mudança climática”, de Anthony Giddens, quando ele apresenta o SUV – “É impossível que esses motoristas (de SUV) não saibam que estão contrivuindo para uma crise de proporções épicas no que tange ao clima mundial” – e se apressa em dizer: “Somos todos motoristas de SUV”.
“Pouquíssimos de nós estamos preparados estamos preparados para a gravidade das ameaças que temos pela frente”, escreveu Giddens em 2009.
Seguindo o pensamento de Giddens, eu pergunto: estaríamos preparados para dizer “não!” à disposição da empresa automobilística de querer produzir aqui seu novo carro? Mesmo sabendo que as fábricas de automóveis hoje são mecanizadas, ainda assim há empregos no entorno. E há toda uma entourage em defesa de tais lançamentos.
Eu respondo, trazendo aqui outro trecho de outra conversa com outra amiga: “Não, ainda não estamos preparados para a mudança necessária”.
Será que um dia estaremos?
Termino essa reflexão com um trecho do release da 350.org, com o pensamento de Brianna Fruean, Anciã do Conselho do Pacífico da 350.org:
“Essa discrepância entre ambição e ação não pode ser ignorada. Nossos povos do Pacífico estão lutando com unhas e dentes para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus e nossas ilhas acima do nível do mar. Por que precisamos ser constantemente a ponte entre o mundo e a sobrevivência? Nossos anciãos merecem descansar e nossos jovens merecem prosperar, livres da crise climática.”
Com o fogaréu que se espalhou hoje em Belém, justamente na Blue Zone, área que a ONU administra na COP, vamos nos despedindo dessa mega COP, mega em todos os sentidos. Mas ainda volto aqui para falar dela porque falta o documento final.
A grande dúvida é: o texto escrito a 194 mãos (os países da ONU) vai dizer que é preciso baixar a produção e o consumo de combustíveis fósseis? E como garantir a prosperidade de nossos jovens sem lançamentos de SUVs, por exemplo? Ou sem pesquisar para descobrir novos locais de exploração de petróleo?
Hoje cedo encontrei um amigo na caminhada, e ele está bem pouco otimista com a COP30. Não só ele, muita gente está. “Não vai solucionar nada”; “não se discute o que realmente importa”; “não tem assento para os mais vulneráveis, que são os primeiros a sofrer os impactos”; “o país mais poluidor, Estados Unidos, não está representado, então do que adiantará fazer qualquer acordo?”.
São motivações justas, todas elas. Mas tem também o “outro lado”, que não responde a todas essas questões, mas que podem ser sementes de novas possibilidades de pensamento. Apego-me a tais sementes para ampliar minhas chances de analisar o grande imbróglio da civilização de hoje.
Por exemplo: acaba de sair a Declaração da Cúpula dos Povos Rumo à COP30. Como são muitos os momentos da Conferência, nem todo mundo se deu conta de uma enorme Marcha Mundial pelo Clima que aconteceu pelas ruas de Belém neste domingo. Cerca de 70 mil pessoas desfilaram toda a sua diversidade pela cidade que hoje recebe líderes e negociadores de todo o mundo. Não é pouca coisa.
A foto é uma gentileza do Artyc Studio e mostra o funeral dos fósseis na Marcha pelo Clima de domingo
A marcha foi organizada por integrantes da Cúpula dos Povos e da COP das Baixadas, e teve a participação de representantes de organizações de todos os continentes, de povos tradicionais e das comunidades paraenses. E lá estavam a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas, endossando a caminhada da sociedade civil.
No texto da Declaração que se seguiu à marcha há pontos tão sensíveis quanto verdadeiros. Impossível deixar passar em branco, por exemplo, que “o avanço da extrema direita, do fascismo e das guerras ao redor do mundo exacerba a crise climática e a exploração da natureza e dos povos”. Denominadas como “exigências”, há outras questões que também devem receber atenção dos negociadores.
É preciso olhar para o resultado dessa enorme organização. Se isso não for feito, há chance de aumentar o fosso entre a retórica dos gabinetes da COP e a fala do povo das ruas. O documento está aberto, pode ser acessado por quem tiver curiosidade. É um dos pontos positivos da Conferência. Mas tem outros. E nem é preciso botar as lentes cor de rosa para vê-los.
Na coletiva de imprensa do final do dia 12, com o presidente da COP30, André Corrêa do Lago e a CEO Ana Toni, o assunto principal foi sobre novos empregos e habilidade dos trabalhadores dentro da nova economia. Foi lançado um estudo – “Jobs and skills for the New Economy” – desenvolvido em colaboração com a presidência da COP30 e parceiros internacionais, que mostra que a transição climática, focada nas pessoas, poderá criar 375 milhões de empregos na próxima década. Será um impacto significativo em quatro setores que foram analisados: energia, construção, manufatura e agricultura).
À mesa da coletiva de imprensa estava Nicholas Stern, economista britânico famoso por ter produzido, com equipe, o Relatório Stern sobre a Economia das Mudanças Climáticas, lançado em 2006. O professor está lançando agora “A história do crescimento do século XXI” (tradução literal), livro que está disponível gratuitamente no site LSE Press.
Stern fez várias autocríticas sobre seu primeiro Relatório, onde reconhecia que “o problema das alterações climáticas envolve uma falha fundamental dos mercados: aqueles que prejudicam outros emitindo gases com efeito de estufa geralmente não pagam”. E estava ali, na mesa, endossando a possibilidade de criação de empregos.
As iniciativas para a adaptação climática serão capazes de gerar alguns milhões de empregos, diz o relatório, sobretudo na gestão de riscos e saúde.
“A partir de investimentos em construção, impulsionados por infraestrutura resiliente em regiões rurais, urbanas, costeiras e de baixa altitude. Outros 105 a 205 milhões de empregos poderiam ser criados nos setores de agricultura e uso da terra, impulsionados por intervenções como resiliência de culturas, pecuária e pesca; preservação de áreas de alta biodiversidade; e conservação e recuperação de ecossistemas terrestres, marinhos e de zonas úmidas.”
Para concretizar esse grande potencial de criação de novos empregos será preciso uma grande concertação entre governos, empresas e instituições financeiras. Se vamos conseguir, é outra história.
Fato é que a segunda semana da COP30 começou com um nível de tensão mais elevado, o que pode ser observado até pelo aumento da segurança nas imediações do centro onde tudo acontece. As negociações avançam do nível técnico para o político. E aí fica mais complicado. No site da COP, uma frase diz tudo: o jogo é jogado até o último minuto.
A Quaest, instituto de pesquisas que usualmente consolida dados para alimentar o debate público, decidiu se engajar (estou fazendo referência ao meu último post) às questões climáticas. Criou o Índice de Percepção de Mudanças do Clima (IPM-Clima), e depois de entrevistar duas mil pessoas com 16 anos ou mais, em todo o território nacional, concluiu que 94% já sentiram alguma mudança do clima em sua região. Importante dizer que a pesquisa foi feita de 3 a 16 de julho, portanto quando as notícias sobre a COP 30 ainda não estavam ocupando a mídia de maneira tão intensa como agora.
Esta foto foi tirada por mim em um dia de muito calor aqui no bairro
No estudo, quando o entrevistado é instigado a responder sobre que tipo específico de mudança ele mais sentiu, as respostas se diversificam. Afinal, o Brasil é muito grande. A maioria, 69%, sentiram ondas de calor mais intensas do que o normal e 42% se queixam das secas mais prolongadas, enquanto 35% perceberam que algo está mudando nas estações do ano. Geadas, incêndios e chuvas mais intensos ocuparam 34 e 32% das respostas.
Com isso, 77% dos brasileiros estão preocupados, o que já é um grande primeiro passo para provocar mudança. E, a depender de 84% dos respondentes, o setor produtivo, ou seja, a indústria, precisa ser responsabilizadas pelas mudanças do clima. Logo abaixo, com 38%, vem a mea culpa: a sociedade de consumo também precisa ser estimulada a fazer uma mudança em seus hábitos.
Esse dado remonta à “Encíclica Laudato Si”, escrita pelo Papa Francisco e publicada em 2015. O documento foi saudado pelos ambientalistas à época, justamente porque toca nos dois pontos mais sensíveis do problema: a produção e o consumo.
“Temos de nos convencer que reduzir um determinado ritmo de produção e consumo pode dar lugar a outra modalidade de progresso e desenvolvimento”, escreveu ele.
Sabia tudo o papa Francisco…
Hoje já temos alguns autores que oferecem como solução o decrescimento, o que faz muita gente torcer o nariz. Kohei Saito é um desses autores. Ele tem apenas 37 anos, portanto um legítimo representante da geração Y, e no livro “O Capital no Antropoceno” faz coro ao papa Francisco em sua Encíclica. Para ele, a atividade ilimitada do capitalismo é incompatível com os recursos naturais, que não são ilimitados.
Pelo que se percebe no IPM, já há um forte pensamento neste sentido entre a parcela da população que foi entrevistada. E isso é bom. Dialoga, inclusive, com a proposta do governo do presidente Lula, de investir agora na pesquisa de petróleo para poder ter recursos e sair da era dos fósseis. É o que o papa Francisco chama de “outra modalidade de progresso e desenvolvimento”.
E como, de falta de dados e informações a gente não morre nesse período de COP30, acaba de sair outra pesquisa, realizada pelo Instituto Ethos em parceria com a GlobeScan, que dialoga com o que estamos refletindo aqui. Segundo o estudo, somente 41% das empresas produzem relatório formal sobre riscos climáticos, enquanto 65% não acessam financiamento climático. Apenas 31% afirmaram desenvolver ou apoiar iniciativas voltadas à transição justa, enquanto 16% disseram estar em fase de planejamento e 61% não sabem ou não contam com políticas que envolvem essa temática.
A pesquisa, na íntegra, só vai ser divulgada hoje à noite lá em Belém. Mas o teaser já nos leva a perceber que sim, o setor produtivo, apesar de muito barulho que faz em propagandas, ainda precisa trabalhar mais para enfrentar a mudança do clima. O próprio Caio Magri, presidente do Instituto Ethos, fala sobre isso no release que a organização distribuiu para os jornalistas:
“As empresas precisam se responsabilizar, pois são importantes não apenas em termos de adaptação técnica e operacional, mas também no que diz respeito à influência sobre políticas públicas, engajamento com a sociedade e inovação para enfrentar a mudança do clima. Por isso é tão necessário que o setor empresarial tenha metas nítidas de mitigação e adaptação climática”.
Vou continuar atenta para trazer notícias fresquinhas por aqui. Mas, gente… vocês não imaginam como é difícil fazer essa escolha. Tem muita notícia. E quem lê?
E eis que os riscos climáticos se fizeram sentir, de maneira trágica e novamente no Sul do país, dando materialidade às questões que começarão a ser debatidas na COP30, que começa hoje em Belém. Por conta de um tornado, seis pessoas morreram e mais de 600 ficaram feridas em Rio Bonito do Iguaçu, Centro-Sul do Paraná, segundo a reportagem publicada no G1. As imagens mostram casas destelhadas, imóveis danificados, árvores caídas, postes de energia no chão.
Era um ciclone, que ajudou a formar um tornado, e que assustou até o meteorologista Braun. Segundo ele, em 23 anos de profissão, esse foi o evento mais forte que presenciou. E está categorizado como EF3.
Neste post, que escrevi e publiquei no mês passado, eu conto que a carta de número 8 escrita pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago, divulgada no dia 24 de outubro, foca em adaptação. Ele defende que só assim será possível “aproximar o risco climático da vida cotidiana das pessoas”.
Adaptação pode ser mais uma dessa palavras que só ambientalistas entendem o significado quando aplicada às questões climáticas. Mas é muito mais fácil de entender do que se imagina. E tem a ver com justiça social e climática.
Vamos imaginar que muita gente que sofreu pelas famílias das vítimas da tragédia no Sul e pelas perdas materiais, não conecta o evento climático – que não é um desastre natural – às mudanças climáticas. Essa falta de conexão pode ser porque a pessoa não acredita mesmo no que diz a Ciência, e aí não há muito a fazer. Mas também pode ser porque o tema está – ainda! – distante do dia a dia, como alerta Corrêa do Lago.
Há tempos os ambientalistas se perguntam o motivo desse distanciamento. O pensador britânico Anthony Giddens, que em 2009 escreveu “A Política da Mudança Climática”, chegou a criar uma teoria que chamou de “Paradoxo de Giddens”, na qual sustenta que as pessoas têm dificuldade em agir contra perigos que não são imediatamente visíveis, como o aquecimento global.
Dá para entender. A vida já está difícil hoje, como ainda arranjar tempo para preocupações futuras? E, sobretudo, como se ocupar de questões cujas soluções dependem muito mais de líderes mundiais e empresas do que do cidadão comum?
Chegamos ao ponto. Adaptação é política pública, tem que ser vista assim, como diz também o relatório da Conferência das Partes (UNFCCC) que acabou de ser publicado elegendo o tema adaptação como primordial. E isso depende da vontade de quem está à frente da cidade, do estado, do país. E depende do meu, do seu, do nosso voto consciente.
Vou dar um exemplo bem próximo aos moradores do Rio de Janeiro. A cidade foi atingida pelo fim do tornado que assolou o Sul. Desde sábado (8), aqui está ventando bastante, chovendo muito. Nada que se compare ao problema que os gaúchos estão sofrendo, mas que também tem causado danos.
O maior estrago para os cariocas foi a queda de árvores. Isto é um assunto sério, e que tem tudo a ver com adaptação. As árvores urbanas não podem ser negligenciadas. Muitas foram plantadas de maneira totalmente equivocada, suas raízes se espalham pelo asfalto, pela calçada, ficam frágeis e caem com ventos fortes. A prefeitura precisa investir pesado, fortemente, com muito afinco, no cuidado com essas árvores. E mais: tirar uma e plantar outra! Porque precisamos das árvores também para nos adaptarmos a outro sério risco climático: as ondas de calor.
É apenas um exemplo. É preciso um olhar minucioso para cuidados com os territórios urbanos. Já somos 56% de moradores de cidades no mundo, e esse número tende a aumentar. Administrar cidades em condições de risco climático como vivemos, e viveremos cada vez mais, quer dizer investir prioritariamente em torná-las adaptadas a tais riscos.
Adaptar é fazer justiça social também. Deslocar pessoas que moram em locais de risco de enchente ou de queda de encosta, construir lugares seguros para essas pessoas. Cuidar do lixo para que as águas possam fluir, plantar muitas árvores para que o solo possa absorver parte dessas águas. Enfim, há um cabedal de iniciativas.
Contratar shows com artistas pop não faz parte desse programa. Não resisti à provocação.
Adaptar-se à vida sob risco climático é, com certeza, muito mais chato do que viver como se os perigos estivessem longe, lá no fim do século. Mas é a realidade, e os moradores da cidade vão acabar agradecendo, talvez nas urnas. Os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês) que se debruçam voluntariamente para pesquisar esse risco já fizeram sua parte. Não faltam alertas em seus relatórios, ano após ano. E não é raro ouvir deles uma expressão que deixa transparecer surpresa sempre que os dados mostram que os riscos climáticos estão acontecendo muito mais cedo do que se pensava.
A bola está com aqueles que elegemos. E, é claro, a responsabilidade também é nossa, no momento de eleger. Pensa bem: quantos candidatos apresentam plataformas nas quais as questões climáticas têm protagonismo?
A COP30 certamente vai chamar esse tema, já que adaptação está no radar.
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