Ordem unida em torno dos vaga-lumes. Resistir é preciso

A foto é do biólogo Andre Alves e mostra um vaga-lume em todo o seu esplendor

“Amelia, você tem que entrar na campanha para salvar os vaga-lumes!”

Esses meus amigos são tudo de bom. Dão pitaco, sugerem pautas, e eu – sortuda que sou –  vou só aproveitando.

Mas hesitei diante da mensagem da amiga  sobre os vaga-lumes. Lembrei-me das convocações muito populares no fim dos anos 1990, como “salvem as baleias”, “salvem os micos leões dourados”, que escalaram para “vamos salvar o planeta”. Foram importantes naquela época, mas será que agora seriam, com tanta emergência e horrores vitimizando nossa própria espécie? Respondi rapidamente a mensagem, com um emoji sorridente, e fui para a rua,  andar para cima e para baixo, comprar isso e aquilo no supermercado.

Não tem coisa melhor, para mim, do que caminhar quando quero expandir meus pensamentos. Vou espalhando minhas ponderações pelo espaço, alcançando árvores, pássaros, cachorros, gatos, minhocas e pedras, seres viventes, humanos ou não. Sim, os vaga-lumes merecem todo o nosso apoio e empenho, mas…

“É um paradoxo!” Como tentar salvar insetos que não chegam a medir dois centímetros, em um mundo de tantos absurdos? No Oriente Médio, crianças e mulheres são alvos do sujeito que se julga dono da terra e quer eliminar todo um povo. Na Europa, outro conflito que submete pessoas a dias tensos, convivendo com a morte, a fome, a destruição total de casas, bairros inteiros. E o presidente do país mais rico do mundo se julga dono e senhor de todos os países, impondo sanções que vão provocar desempregos, mais fome e tensão. Um horror atrás do outro.

Mas… será mesmo inútil o esforço dos biólogos para mapearem as áreas de extinção, estudarem a fundo os hábitos desses bichinhos e tentarem, assim, salvá-los?

“É quase uma arte!”, pensei, enquanto pagava as compras no caixa do supermercado.  E arte é resistência!

Pronto. Estava ali a costura necessária para me convencer. Cheguei em casa já pronta para atender a convocação da amiga. Sim, vamos colaborar para estancar a extinção dos vaga-lumes. Porque resistir é preciso.

Toda essa história começou com a reportagem do “Jornal Nacional” de terça-feira (5) sobre a diminuição drástica de espécies de vaga-lumes no mundo, inclusive no Brasil. A entrevistada foi a bióloga Stephanie Vaz, do Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (Lece/Uerj) e coordenadora regional da América do Sul para a conservação dos vaga-lumes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês), que se tornou uma espécie de embaixadora pela causa dos vaga-lumes.  

Mesmo com todos esses títulos, a simpática Stephanie Vaz é uma jovem de 33 anos, com quem conversei ontem pela manhã, buscando mais informações. Aliás, vale dizer que, depois da reportagem, os vaga-lumes viralizaram nas redes, fenômeno de nossos tempos, tornando Stephanie Vaz praticamente uma celebridade. O campo de estudo da equipe do Lece à qual Stephanie faz parte é a Mata Atlântica.

Perguntei-lhe sobre os motivos da extinção anunciada – daqui a trinta anos é possível que não haja mais vaga-lumes entre nós – e não me surpreendi com a resposta:

“A poluição luminosa causada por luzes artificiais, o desmatamento, a poluição causada por inseticidas”, disse-me ela, confirmando o que eu já imaginara. Ações do homem.

Avançamos na conversa, até que Stephanie Vaz contou-me um detalhe da vida dos vaga-lumes que me levou a fazer um link direto com os seres ctônicos. Aprendi o conceito com Donna Haraway em “Ficar com o problema” (N-1 edições), livro que, como sabem os que me seguem no blog, está na minha mesa de cabeceira.

Os vaga-lumes nascem larvas, e assim permanecem por um ou dois anos. Só depois desse tempo é que saem do casulo, ganham asas, órgãos bioluminescentes, e vêm para fora, ao encontro da humanidade. Concluí, portanto, que na maior parte de sua existência os vaga-lumes são seres ctônicos. Diz Donna Haraway:

“Os ctônicos são seres da terra, antigos e totalmente atuais ao mesmo tempo. Eu os imagino cheios de tentáculos, antenas, dedos, cordões, caudas de lagarto e patas de aranha, com cabelos bem rebeldes. Os ctônicos fazem estrepolias num humus multibichos, mas não querem nada com o Homo que contempla o céu”.

Donna Haraway é filósofa e zoóloga estadunidense. Ela denuncia a matança desses seres, expõe a vulnerabilidade também de nossa espécie diante de tantas dores e alegria, e se permite fabular um mundo em que seja possível criar “parentes estranhos”.

“Os ctônicos não são seguros e não estão em segurança, eles não têm nada a ver com ideólogos e não pertencem a ninguém”, escreve ela.

A sugestão é “aprender a estar verdadeiramente presente”, e quem sabe ajudar a florescer até mesmo “um florescimento multiespécie”, incluindo seres humanos e alteridades não humanas em parentesco”.

Bem… iremos longe demais assim, não? Mas não custa tirar daí alguma reflexão.

Vaga-lumes são insetos que realizam a metamorfose completa, ou seja, passam pela fase de ovo, larva, pupa e adulto. Enquanto larvas, eles têm poucos predadores, já que são tóxicos e seu gosto não agrada nem mesmo às aranhas. Por outro lado, alimentam-se de outros vaga-lumes e de  larvas, muitas delas responsáveis por doenças humanas.

A bioluminescência acontece nas fases de larva e adultos, e serve também como sinal sexual. Durante sua breve vida, os vaga-lumes adultos não se alimentam, pois utilizam toda a reserva genética que consumiram quando larvas.

“A poluição por conta dos pesticidas está causando problemas à espécie porque afetam as larvas. E se as larvas morrem, não teremos mais os adultos”, disse Stephanie Vaz.

E por que devemos nos preocupar com os vaga-lumes?, pergunto à Stephanie Vaz.  A resposta é múltipla.

“A espécie é importante para regular a cadeia alimentar onde está inserida. Ela também é capaz de controlar algumas doenças que são vetores para os seres humanas. O estudo da bioluminescência, que é o brilho que ele tem na cauda, serve também para receptar doenças ou exames de PCR na biomedicina. Saindo do campo da medicina, há também os aspectos culturais, pois os vaga-lumes são pensados em muitas obras artísticas. Eles causam o que chamamos de conforto mental, porque são capazes de relaxar as pessoas”, disse Stephanie Vaz.

Resumindo: a existência dos vaga-lumes só faz bem à humanidade. Em resposta, o que fazemos é restringir sua vida. É o que está dando errado. Como diz Anna Tsing, em “O cogumelo no fim do mundo”, também da N-1 Edições, “Os humanos não podem sobreviver tripudiando sobre todos os outros seres. O espectro que muitos tentam ignorar é uma realidade muito simples – o mundo não será ‘salvo’. Se não acreditamos em um futuro revolucionário global, devemos viver no presente (como sempre foi o caso).”

Viver no presente é a sugestão das duas autoras, e uma das soluções que me conforta. A arte dos estudos dos biólogos da equipe da qual Stephanie Vaz faz parte, colabora para isso. Mesmo que os vaga-lumes não sejam salvos, eles estão sendo olhados como seres que prestam. Como, de resto, todas as outras vidas.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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