Estamos no momento certo. Haverá um momento certo?
Precisamos, é urgente que se crie formas de viver – e morrer – em nosso planeta, que sejam afáveis aos seres humanos, aos seres não humanos. Aos seres viventes, vamos dizer assim.
Acabo de acompanhar Donna Haraway em suas instigantes reflexões sobre tudo isso e mais um pouco, em um vídeo que me chegou aos olhos e ouvidos sedentos de mais ideias. No mesmo momento, comecei a recolher aqui arquivos sobre a 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis realizada em Santa Marta, Colômbia, na semana passada.
O que Mrs Haraway e seu propósito de refletir sobre a relação entre humanos e não humanos que exale respeito aos seres tem a ver com a Conferência para se traçar um caminho além dos combustíveis fósseis? Tudo. Basta pensar no imenso impacto contra a vida de muitos seres quando se enfia uma daquelas imensas máquinas terra ou mar adentro para extrair das entranhas o óleo que vai nos permitir ter energia.

Alguns colegas ficaram mais esperançosos do que outros com a reunião na Colômbia. Prefiro o otimismo, não sei correr por caminhos que me levariam à triste constatação de que não tem mais jeito, de que nunca mais conseguiremos abandonar o vício e achar um jeito de: 1) conviver com menos petróleo; 2) extrair sem causar tantos danos ao mundo ao redor. Claro que tem. Tem soluções, no plural. Enxergo luzes no caminho quando constato belezas em vidas. Qualquer vida.
O encontro terminou no dia 29 de abril, e dele participaram 57 países. Não é nada, não é nada, é muita coisa, sim. Olhem em volta, percebam o movimento negacionista que tenta impulsionar mais extrativismo e imaginem como é difícil ultrapassar a barreira desse imenso poder. O presidente Lula, da nossa República, ele mesmo está indo aos Estados Unidos para negociar porque, sem isso, viraríamos uns párias. Assim é a configuração do mundo de hoje.
O tanto que é gasto em armas e munições, o tanto que não se investe em novas arrumações para se viver por aqui.
Neste cenário, onde os mais fortes falam através de armas e capital, 57 países se dispuseram a participar de uma reunião que buscou tratar de forma abrangente e honesta a necessidade de extrairmos, produzirmos e consumirmos menos fósseis. Eu chamo de passo adiante.
Ninguém esperava da Conferência de Santa Marta, que não foi convocada pelas Nações Unidas, portanto esteve livre de amarras burocráticas, um acordo vinculante. Seria muito interessante que o coletivo de 57 países tomasse a decisão de marcar uma data limite para a extração de petróleo, e que essa data limite caísse ainda nessa década. Sonhar não custa nada, desde que a gente não confunda sonho e realidade.
Na prática, a reunião na Colômbia mostrou aquilo que se propunha desde o início: um mapa do caminho contra a dependência dos fósseis. Isso mesmo, um mapa, que inspira movimento, mas um movimento em direção contrária à que se está trilhando hoje. Segundo o Instituto Humanas Unisinos, que batizou a reunião de “histórica”, apesar da organização caótica (ou será que a alcunha serve justamente por causa disso?), os resultados foram modestos.
O principal feito foi o de terem recuperado, vejam só, o texto da COP28 (Dubai, 2023) que, pela primeira vez na história das COPs, estabeleceu um marco ao falar em “transição para longe dos combustíveis fósseis”. Os 57 países se alinharam em torno desse objetivo e marcaram uma nova reunião, no ano que vem, em Tuvalu, país que se tornou símbolo dos efeitos dos eventos climáticos, já que está fadado a ser engolfado pelas águas do Pacífico.
Neste período de tempo, 365 dias até a Conferência em Tuvalu, grupos de trabalho se reunirão em torno de três eixos: cada um vai estimular um mapa do caminho em seu próprio país, pensando em como acabar com a dependência macroeconômica dos fósseis, estimulando comércio livre de fósseis. Não, não são tarefas fáceis.
No entanto, ninguém pode esperar que, dado o tamanho do problema, as soluções sejam triviais. O primeiro passo precisa ser dado, e muitos já estão fazendo isso. Estamos no momento certo porque é impossível que soe natural, aos ouvidos de pessoas sensíveis à vida, que em vez de uma grande concertação para enfrentarmos esse grande desafio, há potências mais interessadas em continuar investindo seu dinheiro na indústria bélica. E, se muita gente acha que isso não pode continuar, mais gente pode se mexer no sentido contrário.
Exemplos não faltam, de comunidades que conseguiram abandonar o business as usual, mesmo no regime capitalista, ou seja, de acúmulo e de necessidade de desenvolvimento. Mas, em quase todos esses exemplos, detalhes chamam a atenção: a micropolítica, os resultados não vultosos, relações e contatos entre os povos das comunidades, respeito e incentivo a pessoas e seus saberes tradicionais. Menos máquinas, mais mãos e pés empenhados. Ninguém está falando em retorno, mas em sofisticar nossos conhecimentos de forma a não dependermos tanto. E, sobretudo, de nos unirmos em ágoras. E aqui está o eixo que nos une ao pensamento de Haraway. “Sozinhos, com nossos diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco, e então sucumbimos ao desespero ou à esperança”, diz a escritora em seu livro “Ficar com o problema” (Ed. N-1).
Entre os bons avanços elencados pelos meus colegas jornalistas, a Conferência de Santa Marta apresentou o estabelecimento de um painel científico, que recebeu o nome de Painel Científico para a Transição Energética Global. Trata-se de um “organismo de assessoramento permanente a governos, que reunirá entre 50 e 100 cientistas para fornecer evidências científicas e produzir recomendações voltadas a orientar a saída progressiva dos combustíveis fósseis”. Seria uma espécie de IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas na sigla em inglês) ?
O Painel reunirá nomes de destaque da ciência internacional, com sede na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo. A melhor notícia é que o Painel foi idealizado pelo cientistas Carlos Nobre, referência mundial nos estudos sobre aquecimento global, com quem eu já estou marcando uma entrevista.
Assim que conseguir conversar com o professor Carlos Nobre, trago aqui as informações para vocês.