Não sei quanto a vocês, mas eu já não consigo mais saber se o estreito de Ormuz está fechado ou aberto, bloqueado ou não, se estão cobrando pedágio, se não estão, quais petroleiros com quais bandeiras podem passar ou não por ali. E o Ormuz, que era um nome distante, faz parte da minha rotina agora. Depois que o presidente da nação mais rica do planeta resolveu brincar de imperador do universo, acrescentou Ormuz às minhas preocupações diárias.

As declarações de Mr. Trump não clareiam, mas distorcem e confundem. No abre e fecha do estreito, nas proibições de embarcações, meu pensamento e minha torcida vão para os seres que habitam aquele pequeno/grande pedaço de mar. Acho que, no fim das contas, com menos movimento, eles podem até estar levando vida mais tranquila…
Fato é que Ormuz está ligado a petróleo, o combustível fóssil que tem nos levado a tantos horrores climáticos. Vidas que se vão por causa de furacões, tempestades e secas. E vidas que se vão por estarem no caminho de mísseis. Qual o apelido que Eric Hobsbawm daria para a nossa era?
Há tempos não escrevo aqui no blog. Como já sabem os que me acompanham, escrevo quando posso, quando não estou comprometida com a entrega de algum trabalho. Mas assuntos não me faltam.
Apesar desse início, serei mais otimista. Prefiro isso do que me deixar envolver pelas artimanhas de dois homens que se tomam por líderes e que jogam o tempo todo com a vida de humanos para aplacar seu desvario por poder e dinheiro. Obviamente que me refiro a Trump e Netanyahu.
Enquanto isso… num país não muito longe daqui… na sexta-feira dia 24 de abril vai começar uma Conferência bem interessante. E é sobre essa possibilidade de um respiro civilizacional que quero falar aqui.
Durante a COP30, a Colômbia e a Holanda decidiram organizar um encontro para “identificar e promover caminhos viáveis para implementar uma transição progressiva longe dos combustíveis fósseis, criando sociedades e economias sustentáveis”. É um fórum que vai acontecer durante cinco dias na cidade colombiana de Santa Marta. Para mim, o que me chama a atenção e me faz ter interesse, é que ele propõe caminhos, não impõe soluções.
Menos ordens, mais espaços para criar.
No dia 9 de abril participei de um encontro online, organizado pela Climate Home News, no qual os palestrantes, entre eles a ministra Irene Vélez Torres, do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, debateram sobre o encontro. Sem esconder o momento de instabilidade global que estamos vivendo. Sim, parece anacrônico organizar uma conferência para discutir caminhos que nos ajudem a ficar livres do petróleo quando, do outro lado do mundo, há uma guerra pelo petróleo.
Entre os palestrantes estava também o Diretor Técnico do Gabinete do Ministro das Alterações Climáticas e da Sustentabilidade do Gana, Cedric Dzelu. Ele foi enfático ao comentar sobre a ausência dos Estados Unidos na reunião, que deixaria o final com gosto de inocuidade.
“Há Estados Unidos com Trump e Estados Unidos sem Trump”.
Dzelu, cujo país está entre os 53 que já garantiram presença na Conferência de Santa Marta (Brasil também estará), disse que há vários governos estadunidenses subnacionais que estão dispostos a dar um passo à frente na transição para uma economia mais limpa e justa. Como exemplo, citou Chicago e Atlanta.
No site da Conferência, o recado é claro:
“O fórum que vai começar na sexta-feira não procura alcançar um resultado negociado, mas sim gerar um entendimento comum e orientações práticas que possam ajudar a acelerar uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis.”
Vale a pena acompanhar. Vou tentar trazer para vocês, aqui no blog, o texto final.
Santa Marta pode ser uma peça de resistência ao momento que estamos vivendo. Um espaço onde a vida é pensada com respeito, porque é disso que se trata o desenvolvimento sustentável. Desde que se começou a pensar e debater, em encontros e conferências, sobre a necessidade de se recriar o modelo civilizatório, inventaram-se várias siglas, deram apelidos à economia e ao próprio desenvolvimento, mas o que se vê hoje, estrelado pelos Estados Unidos e Israel, é tudo menos o cuidado com a vida.
E é disso que estamos precisando.