Enquanto eu transcrevia a entrevista que fiz ontem (07) à noite com o professor e pesquisador, cientista, referência mundial em estudos sobre as mudanças do clima, Carlos Nobre, os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos estavam reunidos. Toda a mídia tentava adivinhar o que estava sendo discutido a portas fechadas. Entre os possíveis assuntos que estariam na agenda, havia uma aposta muito segura: as terras raras.
O tema está muito em alta e há muitas traduções. Li ontem uma definição que me deixou de cabelos em pé, tamanha a verdade e tamanho o problema que encerra: “Terras raras são 17 elementos essenciais para a indústria bélica”. Daí o interesse do chefe de estado norte-americano. Zero comentários sobre o fortíssimo impacto que traz ao ambiente a extração de minérios tão profundamente escondidos. E quase não se fala sobre o uso de tais metais em paineis solares e eólicas, o que deixa às claras nossa era das contradições.
Mas é preciso desligar um pouco da rota cruel que um tempo de guerras impõe, e alcançar outro estágio, o dos líderes de nações e das pessoas que querem pensar um mundo diferente. Carlos Nobre está entre essas pessoas. O tema da entrevista foi a I Conferência Internacional para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que terminou na quarta-feira dia 29 de abril e foi realizada em Santa Marta, Colômbia, sobre a qual já falei em outros posts aqui do meu blog, e onde também foi discutido o tema das terras raras. Minha primeira pergunta foi sobre o estado de ânimo do professor Nobre com relação ao encontro na Colômbia.
“Eu saí de lá otimista”, disse ele.
É um sentimento justificado. Afinal, 57 países se juntaram para traçar um caminho para longe dos combustíveis fósseis. Além de estar nessa espécie de caldeirão de boas intenções, Carlos Nobre, em parceria com o colega alemão Johan Rockström, teve aprovado um projeto de lançar o Painel Científico para a Transição Energética. Ainda em construção, o Painel pretende ser uma espécie de complementaridade ao IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima na sigla em inglês) e já levará para a COP31, que vai acontecer em novembro na Turquia, dois informes, um deles contando sobre o estado atual das mudanças climáticas.
E, sim, já estamos quase com 1.5° a mais, o que queríamos evitar.
Reproduzo abaixo a entrevista:
A.G. – Em todo o material que li sobre a Conferência de Santa Marta havia posições otimistas e pouco otimistas. Qual seu estado de ânimo sobre o encontro?
Carlos Nobre – Eu tive uma responsabilidade, junto ao meu colega da Alemanha, Johan Rockström, de levar para Santa Marta um projeto de criação do Painel Científico para a Transição Energética. Nós o lançamos antes do início da Conferência, e foi um lançamento muito bem sucedido, com apoio inclusive da ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez-Torres. Mas eu participei também da Conferência e vi aspectos positivos, vi representantes de 57 países dizendo que estão de acordo em fazer a transição energética, reduzir rapidamente o uso de combustiveis fósseis. O próprio presidente Gustavo Petro fez um discurso no dia 28, foi um discurso rápido mas ele falou que o país dele está nessa linha, de diminuir as emissões. A Colômbia não não faz nenhuma nova exploração desde 2023, embora seja um país que ainda exporta muito petróleo. Com tudo isso, posso dizer que eu saí de lá otimista. Não vejo sentido nas críticas das pessoas.
A.G. – O Painel Científico para a Transição Energética segue o modelo do IPCC?
Carlos Nobre – Nós fizemos contato com o IPCC, eles estão dispostos a colaborar conosco, mas temos algumas diferenças importantes. O IPCC, normalmente, costuma fazer um relatório a cada seis, sete anos – o último foi em 2021/2022 e o próximo será em 2027/2028. Nós vamos fazer uma série de informes importantes sobre todos os aspectos, e já vamos lançar dois desses informes na COP31, que vai acontecer em novembro na Turquia. Outra diferença é que nós vamos ter condições de desenhar as transições energéticas para regiões, países, e o IPCC não faz isso. E nós não somos ligados a governos, temos uma enorme liberdade de trazer toda a questão da transição energética, como fazer essa trabsição de forma rápida e como convencer todo o setor político, econômico, como buscar financiamento para fazer a transição. São essas liberdades que nos diferenciam do IPCC. Ou seja: nós vamos ser uma complementaridade importante ao IPCC.
A.G – O site da Conferência de Santa Marta diz que foi um encontro que permitiu aos países interessados em uma saída gradual dos combustíveis fósseis operando fora dos auspícios da arquitetura climática internacional tradicional. O Painel criado por vocês complementa o IPCC e conversa com eles, mas estou entendendo que vai ser independente também, é isso?
Carlos Nobre – Nossa ideia é levar adiante a mensagem de que é totalmente possível fazer a transição energética, e nossa função agora é levar isso para a COP31. Já selecionamos cientistas especializados em energia – nem eu nem o Johan Rockström temos essa especialização. Convidamos o Gilberto Januzzi, cientista e professor da Unicamp, que será um dos copresidentes do Painel, assim como uma cientista de Camarão, na África, e outro do Instituto Potsdam. Esses três copresidentes estão agora buscando 30 a 40 cientistas para se juntarem a nós. Já fizemos quatro grupos de trabalho: o primeiro para mostrar o que está acontecendo e a importância de reduzir as emissões; o segundo para falar sobre as técnicas de transições energéticas; o terceiro sobre como convencer o setor econômico e político a acelerar a transição energética; e o quarto sobre como obter o financiamento para acelerar a transição energética. Estamos bem otimistas de que, já na COP31, dois informes estarão prontos para mostrarmos a todos os países.
A.G. – Sobre o primeiro grupo de trabalho: qual o cenário atual do aquecimento global, provocado pelo acúmulo de emissões e que causa as mudanças climáticas?
Carlos Nobre – Os três primeiros meses de 2026 já tiveram um aumento de temperatura que foi quase 1,5°. Os anis de 2023, 24 e 25 ficaram também numa média de 1,5°, e a Ciência já mostrou que vamos atingir 1,5° permanentemente até 2030.
A.G. – Hoje o presidente Lula está nos Estados Unidos e um dos assuntos será terras raras. E o que o próprio presidente diz é que se trata de elementos essenciais para a indústria bélica. O tema terras raras foi debatido em Santa Marta?
Carlos Nobre – Sim, discutimos muito mas com o enfoque sobre a utilização desses minérios para acelerar a energia renovável, solar, eólica, baterias, carros elétricos. A questão levantada foi como fazer o início dessa exploração sem causar impactos ao meio ambiente. Mas isso que você falou é uma ameaça muito grande. O sistema militar usa muito combustivel fóssil, essas guerras aumentam as emissões e o setor bélico vai competir muito pelos minerais e pelas terras raras. Em vez de isso ir diretamente e em grande escala para o setor da transição energética vai também para continuar apoiando o setor militar e vai continuar aumentando as emissões.
A.G – Tendo uma visão mais otimista, eu lhe pergunto se acha possível, mesmo nesse cenário, que se consiga baixar produção e consumo de fósseis. Porque não adianta só baixar produção.
Carlos Nobre – É muito importante acelerar isso porque cerca de 75% das emissões de gases do efeito estufa que causam aquecimento global vêm dos combustíveis fósseis. Penso que vocês, da comunicação, são muito importantes para ajudar a criar essa cultura, mais eficientes do que os cientistas. Eu participei do primeiro IPCC, há mais de 30 anos, estamos sempre chamando atenção para isso e as emissões não param de aumentar. Confio muito que vocês, da comunicação, possam trazer a mensagem da urgência e a imporgtancia de todas as pessoas reudirem as emissões.
A.G. – Mas é uma mudança de hábito bem radical, tanto da indústria como das pessoas.
Carlos Nobre – Vou dar um exemplo: quem tem veículo, se usar biocombustiveis, veja, o bioetanol consegue reduzir 90% das emissões em relação a gasolina e diesel. E veículos elétricos também, porque a produção de energia renovável emite quase zero, e hoje a renovável muito mais barato do que energia fóssil, tem um valor economico enorme. Hoje, finalmente, os veiculos elétricos já são mais baratos do que veiculos a combustíveis. Mas isso é uma questão de consumo: eu fui fazer doutorado nos Estados Unidos em 1983, na área de clima do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e meu orientador já falava sobre o aquecimento global e seus efeitos. Comprei um carro a bioetanol e posso dizer a você: nunca pus um litro de gasolina num automóvel. Mas é lógico, eu era um cientista da área. Agora nós precisamos convencer toda a população.
A.G. – Mas o problema não é só o combustível fóssil…
Carlos Nobre – Sim, não se esqueça de que aqui no Brasil, 70% das emissões vêm de desmatamento e da agriopecuária. Então, hoje já existe carne e outros produtos agrícolas que vêm com selo verde, são fazendas que não fazem nenhum novo desmatamento. E muitas praticam a chamada agricultura e pecuária regenerativa, o que reduz muito as emissões. Tem esses produtos em lojas, supermercados. Se os consumidores começarem a falar: “não vou comprar nenhum produto que seja produzido com emissões altas, uma carne que vem de uma área que está desmatando”, isso pode se tornar totalmente factível. O Brasil pode se colocar como um dos primeiros países do mundo a zerar as emissões.
A.G. – Voltando a Santa Marta, por que a China não foi convidada para o encontro?
Carlos Nobre – Vários países não foram. A Conferência foi feita porque quando o Brasil lançou o Mapa do Caminho para zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis, na COP30, infelizmente vários países, inclusive China, Rússia, Índia, Arábia Saudita e Emirados Árabes não concordaram. Foi quando os representantes da Colômbia e da Holanda decidiram programar essa Conferência Internacional em Santa Marta. E esses países não foram convidados.
