Em vez de só engenheiros, cientistas e técnicos, a transição energética vai precisar de profissionais que estudem filosofia e ética. Essa sim, uma grande mudança que nem sonham os senhores da guerra e negacionistas que se regozijam fazendo estúpidas ameaças e matando pessoas em guerras por mais poder. Há, no mundo, quem esteja trabalhando para tentar manter a raça humana no planeta. Ao menos um pouco mais e, ao menos, com um pouco de dignidade. É isso que importa, é disso que iremos tratar aqui neste espaço.
Entrevistei uma dessas pessoas, o pesquisador Sênior do Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Energia e professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, Gilberto Jannuzzi. Ele foi convidado pelo colega cientista Carlos Nobre para ser copresidente do novo Painel de Transição Energética, projeto apresentado durante a Conferência de Transição Energética que aconteceu em Santa Marta, na Colômbia, no fim do mês passado.
Nesta entrevista, Jannuzzi fala sobre o grande imbróglio da humanidade, a energia – “Não temos um substituto, uma vez consumida, ela só degrada” – e concorda com os pensadores que sugerem que o único meio de tentarmos reverter os danos nesse setor é baixar produção e consumo dos fósseis. Em outras palavras, é preciso fazer um uso eficiente da energia. E, para isso acontecer, muita coisa terá que ser reestruturada, inclusive o meio de nos relacionarmos com os outros seres vivos do planeta. É de ética que estamos falando.
Mas, até haver uma pactuação universal, envolvendo as grandes potências mais consumidoras (uma delas os Estados Unidos) no sentido de se equilibrar mais o uso de energia, continuaremos em busca de melhores fontes, as que menos causam impactos ao meio ambiente. Como “causar impactos ao meio ambiente” se tornou quase uma expressão híbrida, de efeito anódino, é sempre bom explicar: impactos ao meio ambiente causam eventos extremos que matam pessoas.
Um relatório da organização alemã Germanwatch divulgado em novembro de 2025 mostrou que, mais de 832 mil pessoas perderam a vida no mundo em consequência de mais de 9.700 eventos climáticos extremos que aconteceram no mundo entre 1995 e 2024. Os desastres causaram prejuízos econômicos de US$ 4,5 trilhões, em valores ajustados pela inflação.
É disso que se trata. E é isso que precisaríamos estar irmanados para combater. A essência do problema está no fato de termos criado um estilo de vida absurdamente dependente de petróleo. “Reverter isso não é só difícil culturalmente, mas a gente movimenta milhões de reais ou dólares com essas indústrias”, disse Jannuzzi. E de vivermos uma era dos paradoxos, onde profissionais do campo dos combustíveis fósseis precisam também lidar com a transição energética. “Isso me deixa irritado. A transição energética tem que ser feita por outros atores. A Petrobras não tem que participar disso”.
Abaixo, reproduzo nossa conversa:
A.G. – Estamos sendo vítimas de eventos extremos mais intensos, menos espaçados, e muitas das pessoas que têm autoridade para agir e mudar as coisas estão pouco interessadas nisso. No dia 20 de maio, a ONU apelou, em resolução, para que os países cumpram, ao menos, aquilo que foi assumido como compromisso no Acordo de Paris. Oito países, entre eles Estados Unidos, Israel e Rússia, votaram contra. Certa vez ouvi de um cientista que a classe de vocês já fez todos os alertas possíveis, não há mais o que fazer. É isso?
Gilberto Jannuzzi – É super verdade: 99% das soluções já existem, já estão colocadas, especialmente na área de energia. É uma questão de implementar e de repensar a infraestrutura de serviços.Esse é o nosso desafio.
A.G. – Como fazer uso eficiente de energia?
Giberto Jannuzzi – Temos a possibilidade de trocar o fóssil pelo biocombustível, por exemplo. De um certo modo, com o biocombustível recicla-se o carbono, porque quando a planta cresce, o carbono queimado pela queima da lenha ou do álcool é capturado de volta pela fotossíntese. Mas existe um equilíbrio, tem que ter tempo para fazer isso. A gente tem que procurar voltar a esse tipo de equilíbrio. Eletrificar mais, usar mais a energia solar para produzir eletricidade, a eólica. Existe aí toda uma receita.
A.G. – O senhor acha possível que a mensagem de que será preciso baixar produção e consumo seja ouvida e acatada?
Gilberto Jannuzzi – É interessante observar que não há um substituto para energia. Até se pode guardar energia, como se faz com a fóssil, mas não há como reciclá-la. Ou seja: uma vez consumida, a energia só degrada. Todo o nosso processo, até biológico, é baseado em trocas de energia, conversão de formas de energia e outras, até degradar finalmente no calor. Então, o único jeito é não consumir. Não temos o sonhado moto perpétuo, mesmo a energia renovável, o que é uma maquiagem porque não existe. O sol também se degrada.
A.G. – Parece que a mensagem não está chegando a todos.
Gilberto Jannuzzi – Sim, porque criamos um estilo de vida, que aprendemos a ter e estimulamos, que conduz a um um consumo que não comporta. Viagens de avião para lá e para cá, construção, habitação, urbanização, é como se a energia fosse inesgotável. Reverter isso não só é difícil culturalmente, porque tem que ficar pingando sempre essa gota, mas a gente movimenta milhões de reais ou dólares com essas indústrias. Então vamos colocar assim: existe todo um subsídio indireto à economia de petróleo porque a gente criou um modo de operar, de viver, de fazer negócio, em que nem percebemos, por exemplo, quanto de fertilizantes, que vem de origem fóssil, está na nossa alimentação. No nosso dia a dia, na nossa vestimenta, estamos cercados de plástico. Reverter isso é uma tarefa enorme, de longo prazo, mas que começa com essa consciência.
A.G. – Para formar essa consciência é preciso participação social, e eu lhe pergunto: por que a gente não consegue? Anthony Giddens diz, em “A Política da Mudança Climática”, que não se consegue essa conexão com o cidadão no dia a dia porqu sempre se imprimiu caráter anódino aos impactos. Qual sua visão a respeito?
Gilberto Jannuzzi – Só mudamos perante crises. Mas acho que importante os exemplos. O jovem não está tendo bons exemplos. O Brasil é um país neurótico porque a Petrobras é nossa maior empresa, com lucro de bilhões. O petróleo ajuda o Rio de Janeiro, ajuda o Brasil a fechar o caixa, a guerra está sendo boa, neste sentido, para o próprio Brasil. É sedutor os benefícios de curto prazo. Mas o que foi interessante na primeira Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, é que foi feita uma certa divisão entre os países. Por que foi feita em Santa Marta? Porque aquela localidade começou a sair do uso de carvão para obter energia já há uns 15 anos, e ela era o principal porto exportador de carvão da américa do sul. Esses exempos são importantes. Aqui no Brasil a gente fala sobre bioenergia, mas isso é neurótico. Não enfrentamos o problema dos recursos que o petróleo gera, não ouvimos o que a Ciência está falando.
A.G. – Mas a Petrobras é uma empresa que investe muito em fontes sustentáveis de energia…
Gilberto Jannuzzi – Isso me deixa irritado. Temos que disciplinar nossa visão crítica para entender o que é marketing e o que é, de fato, investimentos em transição energética. Os royalties do petróleo são, basicamente, gerenciados para financiar o próprio setor. No meu entendimento, a transição energética tem que ser feita por outros atores. A Petrobras não tem que participar disso. Não é politicamente correto falar disso, mas é a visão de um cientista que estuda o assunto. Os piores interlocutores de transição energética são aqueles que estão ligados à própria indústria. Isso não tem nenhuma conotação malévola, é porque eles são prisioneiros de um raciocinio de uma lógica que reforça.
A.G. – Quem, então, está apto a participar desse grande movimento pela transição energética?
Gilberto Jannuzzi – São pessoas muito mais ligadas à ética, à filosofia. É um profissional que tem que entender de Ciência, tem que entender de materiais, de Física, de processos, mas tem que entender desses princípios mais humanísticos. Ele tem que sair desse ambiente, que é sedutor. Mesmo o pessoal que está ligado à energia solar, eólica. Para eles, isso é a solução do mundo. E não é verdade.
A.G – E qual a solução? Ou melhor… quais as soluções? Penso que tem que tangenciar a relação do humano com os seres vivos que não sejam humanos… Quando o senhor falou sobre ética, pensei em relação.
Gilberto Jannuzzi – Isso. Entre classes também, porque o Brasil tem uma população que não consome suficiente energia. Eu tenho que olhar isso também. A gente começa a colocar na gtransição energética tantos elementos que não é só sair de combustíveis fósseis. A gente precisa resolver outros problemas também.
A.G. – O senhor disse que a gente muda por conta das crises. Qual a crise que vai proporcionar essa mudança?
Gilberto Jannuzzi – Os eventos climáticos. A nossa população começa a ficar mais velha e mais vulnerável também ao calor e ao frio. Na medida que a gente começa a relacionar isso com mudanças do clima… são aprendizados caros. E a outra coisa, que é triste recconhecer: somos um país pouco letrado e costumamos eleger pessoas ignorantes. Esse é um desafio permanente. Eu me preocupo com essa geração que cresce com uma superficialidade magnética, não há uma valorização de conhecimento e realmente esse é o pior dos desastres. Especialmente nesse tipo de assunto que é complexo não dá para resolver numa entrevista, não dá para fazer uma auto ajuda, é um pocesso muito mais complexo. A gente precisa equipar a nova geração porque eles é que vão fazer alguma coisa.
A.G. – Vamos falar sobre o Painel de Transição Energética que o senhor está copresidindo. Não tem como deixar de fazer uma comparação com o Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima, já conhecido pelo grande público como IPCC (na sigla em inglês). Foi essa a inspiração? Como o senhor se envolveu com o projeto?
Gilberto Jannuzzi – Fui convidado pelo Carlos Nobre depois que a iniciativa foi implementada. A ideia surgiu na COP30, em Belém, porque uma das propostas do Brasil relativa à transição energética não foi acatada pelo plenário. Sim, ele é parecido com o IPCC mas tem o seguinte ponto de vista que o diferencia: é uma governança dividida, não é de estado. Estamos convidando representantes de maneira equilibrada, do Hemisfério Norte ou do Sul Global . Há uma busca de equilíbrio em termos de representatividade na vivência, estamos nos organizando. Carregamos, no Hemisfério Sul, um passado onde há ainda muitos gaps de conhecimento, especialmente relacionado aos impactos de medidas de mitigação. Vimos avançando, mas o Hemisfério Norte tem mais conhecimento acumulado do que o nosso. E, como não há remuneração, dependemos muito da disponibilidade das pessoas. Mas acho que dentro de um mês ou um pouco mais, já estaremos organizados.
A.G. – O professor Nobre me disse também que o Painel de Transição Energética vai fazer informes menos espaçados do que os relatórios do IPCC, que saem de seis em seis ou sete em sete anos.
Gilberto Jannuzi – Sim. Queremos ter mais agilidade, e a ideia até o momento é que na COPs anuais tenhamos um relatório de progresso ou de metas que estejamos alcançando. Uma dinâmica bem diferente do IPCC.
A.G. – Qual sua expectativa com esse projeto?
Gilberto Jannuzzi – O que precisamos é começar com produtos tangíveis. Com soluções que não são mais advocacy (argumentação em torno de uma causa);. Trata-se de oferecer uma rota, uma possibilidade para quem está querendo. Não adianta a gente falar isso para os Estados Unidos, temos que buscar essas audiencias que estão motivadas.
A.G – Essas audiências, o senhor diz, vêm de países que estão sentindo os eventos climáticos mais cruelmente. Qual o tamanho atual do nosso problema em termos de aquecimento global?
Gilberto Jannuzzi – Eu não sou cientista do clima, sou mais usuário da informação. Obviamente o valor médio global de aquecimento que devemos atingir é 1.5 grau, mas tem regiões que já estão em 2 graus. A gente tem que distinguir um pouco sobre adaptação e sobre mitigação. Já estamos no estágio de ter que fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Energia eólica, por exemplo. Aqui no Brasil já está mudando o regime de ventos por causa do clima, então eu tenho que pensar nessa solução já entendendo que ela pode produzir menos em algumas regiões e mais em outrsas. Temos que adaptar isso, mas oferecer uma solução melhor do que queimar combustível. Temos que construir uma casa mais adequada e resiliente a eventos. E cidades também. É complexo.
