Ordem unida em torno dos vaga-lumes. Resistir é preciso

A foto é do biólogo Andre Alves e mostra um vaga-lume em todo o seu esplendor

“Amelia, você tem que entrar na campanha para salvar os vaga-lumes!”

Esses meus amigos são tudo de bom. Dão pitaco, sugerem pautas, e eu – sortuda que sou –  vou só aproveitando.

Mas hesitei diante da mensagem da amiga  sobre os vaga-lumes. Lembrei-me das convocações muito populares no fim dos anos 1990, como “salvem as baleias”, “salvem os micos leões dourados”, que escalaram para “vamos salvar o planeta”. Foram importantes naquela época, mas será que agora seriam, com tanta emergência e horrores vitimizando nossa própria espécie? Respondi rapidamente a mensagem, com um emoji sorridente, e fui para a rua,  andar para cima e para baixo, comprar isso e aquilo no supermercado.

Não tem coisa melhor, para mim, do que caminhar quando quero expandir meus pensamentos. Vou espalhando minhas ponderações pelo espaço, alcançando árvores, pássaros, cachorros, gatos, minhocas e pedras, seres viventes, humanos ou não. Sim, os vaga-lumes merecem todo o nosso apoio e empenho, mas…

“É um paradoxo!” Como tentar salvar insetos que não chegam a medir dois centímetros, em um mundo de tantos absurdos? No Oriente Médio, crianças e mulheres são alvos do sujeito que se julga dono da terra e quer eliminar todo um povo. Na Europa, outro conflito que submete pessoas a dias tensos, convivendo com a morte, a fome, a destruição total de casas, bairros inteiros. E o presidente do país mais rico do mundo se julga dono e senhor de todos os países, impondo sanções que vão provocar desempregos, mais fome e tensão. Um horror atrás do outro.

Mas… será mesmo inútil o esforço dos biólogos para mapearem as áreas de extinção, estudarem a fundo os hábitos desses bichinhos e tentarem, assim, salvá-los?

“É quase uma arte!”, pensei, enquanto pagava as compras no caixa do supermercado.  E arte é resistência!

Pronto. Estava ali a costura necessária para me convencer. Cheguei em casa já pronta para atender a convocação da amiga. Sim, vamos colaborar para estancar a extinção dos vaga-lumes. Porque resistir é preciso.

Toda essa história começou com a reportagem do “Jornal Nacional” de terça-feira (5) sobre a diminuição drástica de espécies de vaga-lumes no mundo, inclusive no Brasil. A entrevistada foi a bióloga Stephanie Vaz, do Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (Lece/Uerj) e coordenadora regional da América do Sul para a conservação dos vaga-lumes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês), que se tornou uma espécie de embaixadora pela causa dos vaga-lumes.  

Mesmo com todos esses títulos, a simpática Stephanie Vaz é uma jovem de 33 anos, com quem conversei ontem pela manhã, buscando mais informações. Aliás, vale dizer que, depois da reportagem, os vaga-lumes viralizaram nas redes, fenômeno de nossos tempos, tornando Stephanie Vaz praticamente uma celebridade. O campo de estudo da equipe do Lece à qual Stephanie faz parte é a Mata Atlântica.

Perguntei-lhe sobre os motivos da extinção anunciada – daqui a trinta anos é possível que não haja mais vaga-lumes entre nós – e não me surpreendi com a resposta:

“A poluição luminosa causada por luzes artificiais, o desmatamento, a poluição causada por inseticidas”, disse-me ela, confirmando o que eu já imaginara. Ações do homem.

Avançamos na conversa, até que Stephanie Vaz contou-me um detalhe da vida dos vaga-lumes que me levou a fazer um link direto com os seres ctônicos. Aprendi o conceito com Donna Haraway em “Ficar com o problema” (N-1 edições), livro que, como sabem os que me seguem no blog, está na minha mesa de cabeceira.

Os vaga-lumes nascem larvas, e assim permanecem por um ou dois anos. Só depois desse tempo é que saem do casulo, ganham asas, órgãos bioluminescentes, e vêm para fora, ao encontro da humanidade. Concluí, portanto, que na maior parte de sua existência os vaga-lumes são seres ctônicos. Diz Donna Haraway:

“Os ctônicos são seres da terra, antigos e totalmente atuais ao mesmo tempo. Eu os imagino cheios de tentáculos, antenas, dedos, cordões, caudas de lagarto e patas de aranha, com cabelos bem rebeldes. Os ctônicos fazem estrepolias num humus multibichos, mas não querem nada com o Homo que contempla o céu”.

Donna Haraway é filósofa e zoóloga estadunidense. Ela denuncia a matança desses seres, expõe a vulnerabilidade também de nossa espécie diante de tantas dores e alegria, e se permite fabular um mundo em que seja possível criar “parentes estranhos”.

“Os ctônicos não são seguros e não estão em segurança, eles não têm nada a ver com ideólogos e não pertencem a ninguém”, escreve ela.

A sugestão é “aprender a estar verdadeiramente presente”, e quem sabe ajudar a florescer até mesmo “um florescimento multiespécie”, incluindo seres humanos e alteridades não humanas em parentesco”.

Bem… iremos longe demais assim, não? Mas não custa tirar daí alguma reflexão.

Vaga-lumes são insetos que realizam a metamorfose completa, ou seja, passam pela fase de ovo, larva, pupa e adulto. Enquanto larvas, eles têm poucos predadores, já que são tóxicos e seu gosto não agrada nem mesmo às aranhas. Por outro lado, alimentam-se de outros vaga-lumes e de  larvas, muitas delas responsáveis por doenças humanas.

A bioluminescência acontece nas fases de larva e adultos, e serve também como sinal sexual. Durante sua breve vida, os vaga-lumes adultos não se alimentam, pois utilizam toda a reserva genética que consumiram quando larvas.

“A poluição por conta dos pesticidas está causando problemas à espécie porque afetam as larvas. E se as larvas morrem, não teremos mais os adultos”, disse Stephanie Vaz.

E por que devemos nos preocupar com os vaga-lumes?, pergunto à Stephanie Vaz.  A resposta é múltipla.

“A espécie é importante para regular a cadeia alimentar onde está inserida. Ela também é capaz de controlar algumas doenças que são vetores para os seres humanas. O estudo da bioluminescência, que é o brilho que ele tem na cauda, serve também para receptar doenças ou exames de PCR na biomedicina. Saindo do campo da medicina, há também os aspectos culturais, pois os vaga-lumes são pensados em muitas obras artísticas. Eles causam o que chamamos de conforto mental, porque são capazes de relaxar as pessoas”, disse Stephanie Vaz.

Resumindo: a existência dos vaga-lumes só faz bem à humanidade. Em resposta, o que fazemos é restringir sua vida. É o que está dando errado. Como diz Anna Tsing, em “O cogumelo no fim do mundo”, também da N-1 Edições, “Os humanos não podem sobreviver tripudiando sobre todos os outros seres. O espectro que muitos tentam ignorar é uma realidade muito simples – o mundo não será ‘salvo’. Se não acreditamos em um futuro revolucionário global, devemos viver no presente (como sempre foi o caso).”

Viver no presente é a sugestão das duas autoras, e uma das soluções que me conforta. A arte dos estudos dos biólogos da equipe da qual Stephanie Vaz faz parte, colabora para isso. Mesmo que os vaga-lumes não sejam salvos, eles estão sendo olhados como seres que prestam. Como, de resto, todas as outras vidas.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Das empresas regenerativas ao Ano das Cooperativas

Fato é que a vida nos ensina e a natureza exige mais.

“Amelia, seu blog tem dois problemas: você não publica com regularidade e escreve textos muito longos”.

O que fazer, senão concordar com o amigo que me fez este alerta?

Mas… concordar não significa ter condições de fazer mudanças. O blog é errático porque quando eu tenho compromisso com trabalhos free lancers (necessários para pagar contas) eu não tenho condições de me dedicar. E os textos são longos porque são tantos e tão bons assuntos, que não dá para reduzir, simples assim.

Hoje, porém, vou tentar um novo modelo. Escreverei três pequenos textos sobre notícias que me chegaram e que podem ajudar a engrossar nosso caldo de reflexões sobre o tipo de desenvolvimento e civilização que queremos:

O primeiro tema me fez viajar no tempo. Em junho de 2006, fui convocada para uma entrevista coletiva, em Manaus, em que a empresa Phillips lançaria seu primeiro relatório de sustentabilidade. A convocação fazia sentido porque, até então, a empresa seguia o conceito de responsabilidade social corporativa, que passava a abandonar por ter percebido o esgotamento dele.

Desce o pano, e vamos para julho de 2025.  A notícia agora é que a Natura, empresa que sempre teve sua marca atrelada às questões socioambientais, apresenta seu relatório que chama de Visão 2050. No documento, ela expressa seu desejo de não querer ser mais uma empresa sustentável, e cria um novo emblema: “empresa regenerativa”.

O que isso quer dizer? Quer dizer que, em vez de repor ao meio ambiente os recursos que dele retira, a ideia é investir em práticas que contribuam para a resiliência do solo, das florestas, recuperar os recursos naturais que utiliza na produção de seu produto. “Empresa regenerativa” é, sim, um conceito criado especialmente para a Natura, mas o modelo não é tão novo.

Em 2022 o ex-CEO da Unilever Paul Pollman, lançou o livro “Impacto Positivo”,  juntamente com Andrew Winston. As empresas de impacto positivo, segundo o executivo, são aquelas que operam dentro de limites naturais para respeitar o planeta.

“Parte disso parecerá familiar aos defensores da sustentabilidade, mas uma coisa é falar, outra é agir”, escreve Paul Pollman.

A distância entre intenção e gesto parece que tem sido a marca de nossa era. E são boas intenções, na maioria das vezes, que produzem algum bem estar, talvez maior do que o impacto negativo que as produções causam.

Mas é preciso mais para provocar mudanças reais. 80% dos estragos no meio ambiente estão sendo feitos por 57 empresas, que operam em apenas 34 nações, segundo o Dados Carbon Majors. E, em maio deste ano, um estudo publicado pela Nature Communications mostrou que as metas atuais de aquecimento que os países estão debatendo nas COPs não impediriam o colapso das camadas de gelo na Groenlândia e na Antártida, o que pode afetar milhões de pessoas em áreas costeiras.

Seja a mudança de emblema de vinte anos atrás, seja a de agora, fato é que a vida nos ensina e a natureza exige mais.

SEGUNDO TEMA

Os indígenas não têm assento nem voto na COP30, apesar de, em 2018, a relatora da ONU para os Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, ter declarado serem eles os verdadeiros guardiães das florestas. Mas, aqui e ali, há meios de contornar e dar voz a eles, por formas indiretas. “Diálogos pelo Clima”, do Programa Copaíbas, faz este papel ao lançar o livro “Comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas: impactos e soluções na agenda climática”.

Este é o segundo tema do nosso post.

 Na publicação, o artigo “A voz dos povos indígenas e a (in)justiça climática”, escrito por Suliete Gervásio Monteiro, lembra os efeitos causados pelos eventos extremos e explicita o papel importante dos povos indígenas para tentar conter o desastre:

“A seca que ocorreu em 2023 (no estado do Amazonas) atingiu 633 mil pessoas. Segundo boletim divulgado pela Defesa Civil, das 62 cidades do estado, 59 ficaram em situação de emergência por causa da estiagem. Ainda de acordo com a Defesa Civil, 158 mil famílias foram afetadas pela seca. Devido a essa situação, o governo do estado decretou situação de emergência em 55 dos 62 municípios. Em Manaus, a seca é a pior registrada em 121 anos: a cota do Rio Negro foi 12,89 metros, a menor registrada desde 1902, quando começaram as medições do volume do rio. As populações indígenas ribeirinhas sentiram e sofreram os impactos da seca nos rios Solimões e Negro, influenciando as dinâmicas socioculturais do povo. Nesse contexto entra em cena a (in)justiça ambiental. Sendo os povos indígenas os responsáveis pela conservação das florestas por meio de seus territórios e seus saberes milenares, são os que sofrem diretamente os impactos das mudanças climáticas”.

É bom quando se consegue mostrar, em números, que é sobre vidas – humanas ou não – que se está falando. O aquecimento global – que já superou o teto de 1.5 grau acordado em 2015, na COP21 – tem efeitos diretos na qualidade de vida e na vida. Por isso ser tão urgente ter um fundo para ajudar os países pobres, os indígenas, os ribeirinhos, para enfrentarem os desastres que estão cada vez mais fortes e frequentes.

“Os apoios e financiamentos climáticos contribuem diretamente para o sucesso e a ampliação da atuação das comunidades tradicionais no enfrentamento às mudanças climáticas”, escrevem Luiz Eloy Terena e Caíque Ribeiro Galícia no artigo “Construção do bem-viver dos povos indígenas no Brasil” .

A publicação, inteiramente dedicada a destacar o protagonismo de comunidades tradicionaos, quilombolas e indígenas no uso sustentável da sociobiodiversidade, no combate ao desmatamento e na resposta às mudanças climáticas, pode ser acessada, gratuitamente, na biblioteca virtual no site da COPAÍBAS.

TERCEIRO TEMA

Por último, achei bastante interessante a notícia de que a ONU criou o Dia Internacional das Cooperativas, que comemorou em 8 de julho com uma celebração de alto nível em sua sede em Nova York. A instituição não anda colaborando para o que se propôs quando foi criada – manter a paz e a segurança globalmente – mas funciona, muitas das vezes, para criar formas de propor temas que são importantes para a humanidade.

É o que parece ser o caso. Com a criação da efeméride sobre as cooperativas, que vem na sequência da criação do Ano Internacional das Cooperativas 2025, sob patrocínio da Mongólia e do Quênia, a ONU reconhece o papel delas na construção de uma civilização diferente. E uma sociedade que tem tudo para ser mais inclusiva, já que embute o sentido de socialização.

O tema do ano é “Cooperativas constroem um mundo melhor”, segundo destaca o impacto global duradouro das cooperativas, posicionando-as como soluções essenciais para os desafios globais da atualidade. Antonio Guterres, secretário da ONU, acredita que as cooperativas contribuem  “para o desenvolvimento sustentável em dimensões sociais, econômicas e ambientais, mostrando como as cooperativas são motores essenciais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU até 2030”. O tema também enfatiza a capacidade única das cooperativas de promover o crescimento inclusivo e fortalecer a resiliência comunitária.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Uma praça, um banco, sem tela. Instantes de alívio

Dia desses, eu me sentei na pracinha aqui do bairro.Não levei relógio, nem celular.

Esta foto foi tirada por mim, do décimo andar de um prédio. É a praça Carioca, no Centro. Uma praça

Éramos só eu, Beto, as pedras, algumas moscas, poucas folhas de poucos arbustos.

Rodeados pelo mundo ctônico, como diria Donna Haraway (“Ficar com o problema”) invisível aos meus olhos.

E muitos seres humanos que passavam, iam e vinham. Uns com pressa, outros nem tanto.

O que me levou a me sentar na pracinha foi o frio que comecei a sentir aqui em casa. Moro numa casa onde o sol não chega.

 Aqui somos eu, Beto, o computador e minhas lembranças, algumas sob a forma de móveis, outras sob a forma de retratos, muitas sob a forma de livros e muitos enfeites que vou guardando pela vida afora.

Sabe aquelas coisinhas que a gente não consegue jogar fora? Pois é disso que estou falando.

Mas, voltamos à pracinha.

O sol foi me aquecendo, tirei as meias. Senti que o pescoço estava duro, fiz um movimento para soltar. Não sabia muito bem o que fazer com as pernas, ergui-as e fiz pose de Buda.

Sem tela para absorver minha atenção, passei a ouvir minha respiração, a me dar conta dos meus movimentos.

Fiquei assim até que veio uma certa moleza.

 Não me deitei no banco da praça porque a pequena comunidade que dividia comigo aquele território, naquele instante, optou por se sentar. Não quis ser revolucionária.

As bombas, os mísseis, as ogivas que estraçalham pessoas, aves, flora, comunidades, interferem no poderoso submundo ctônico, a mando de seres impensáveis… ficaram longe de mim naqueles pequenos e deliciosos instantes, minutos, que eu me dediquei.

Uma hora e meia, não mais do que isso. Mas um tempo investido no excepcional encontro de células vivas, sentindo cada instante de mim e de meu entorno. Sem interface.

 Com respeito – palavra em desuso – a cada um dos seres vivos com quem eu habito o planeta que os experts do capital estão destruindo.

Estou me referindo à destruição provocada pelas guerras em curso, é bom que eu deixe claro. Porque a outra, aquela que há tempos vimos engendrando para que possamos nos desenvolver… esta fica até distante num momento em que indivíduos limitados, empossados, tomam as rédeas do mundo para destruí-lo. O que pensam? O que querem? O que sentem?  Não ouso responder.

Mas ali, naquele  mundo que me rodeava na pracinha do bairro, eu me dei conta de quão distante de mim estão esses seres do mal. E tive um lampejo de saúde, o ar fluiu melhor.

 Aquela comunidade da pracinha do meu bairro estava unida em prol dos sentidos. Querendo pegar um solzinho para aquecer.

Cheguei em casa, tinha um recado. Solange, a vizinha artista que faz trabalhos lindos, estava fazendo um bolo! E me convidava, a mim e a outra vizinha, para nos reunirmos em volta dele, mais tarde. Beto, meu cachorro, estava convidado. Ele encontraria um par, o Bonitinho, cachorro de Solange e Jomar, seu companheiro.

Prometi levar hibisco seco para o chá. Acertamos o melhor horário. E lá fui eu, completar o dia me nutrindo de Ser. Meus neurônios deram uma festa, as proteínas dançaram, as células se animaram. Longe das telas um dia inteiro!

Lá a conversa foi sobre tudo o que importa. Sobre a vida. Pressão alta, pressão baixa, insônia ou não, quanto se dorme, quanto se pensa, é bom levar celular para o quarto? Sugeri a leitura de “24/7 O capital quer roubar seu sono”, de Johnathan Crary, e fui alimentada com outras tantas dicas.

Quando urbanistas defendem as cidades, eles falam sobre trocas. Os humanos só enriquecem – a riqueza que mais interessa – quando trocam com outros.

Dia desses, eu me sentei na pracinha aqui do bairro.

Não levei relógio, nem celular.

Éramos só eu, Beto, as pedras, algumas moscas, poucas folhas de poucos arbustos.

Rodeados pelo mundo ctônico, como diria Donna Haraway (“Ficar com o problema”) invisível aos meus olhos.

E muitos seres humanos que passavam, iam e vinham. Uns com pressa, outros nem tanto.

O que me levou a me sentar na pracinha foi o frio que comecei a sentir aqui em casa. Moro numa casa onde o sol não chega.

 Aqui somos eu, Beto, o computador e minhas lembranças, algumas sob a forma de móveis, outras sob a forma de retratos, muitas sob a forma de livros e muitos enfeites que vou guardando pela vida afora.

Sabe aquelas coisinhas que a gente não consegue jogar fora? Pois é disso que estou falando.

Mas, voltamos à pracinha.

O sol foi me aquecendo, tirei as meias. Senti que o pescoço estava duro, fiz um movimento para soltar. Não sabia muito bem o que fazer com as pernas, ergui-as e fiz pose de Buda.

Sem tela para absorver minha atenção, passei a ouvir minha respiração, a me dar conta dos meus movimentos.

Fiquei assim até que veio uma certa moleza.

 Não me deitei no banco da praça porque a pequena comunidade que dividia comigo aquele território, naquele instante, optou por se sentar. Não quis ser revolucionária.

As bombas, os mísseis, as ogivas que estraçalham pessoas, aves, flora, comunidades, interferem no poderoso submundo ctônico, a mando de seres impensáveis… ficaram longe de mim naqueles pequenos e deliciosos instantes, minutos, que eu me dediquei.

Uma hora e meia, não mais do que isso. Mas um tempo investido no excepcional encontro de células vivas, sentindo cada instante de mim e de meu entorno. Sem interface.

 Com respeito – palavra em desuso – a cada um dos seres vivos com quem eu habito o planeta que os experts do capital estão destruindo.

Estou me referindo à destruição provocada pelas guerras em curso, é bom que eu deixe claro. Porque a outra, aquela que há tempos vimos engendrando para que possamos nos desenvolver… esta fica até distante num momento em que indivíduos limitados, empossados, tomam as rédeas do mundo para destruí-lo. O que pensam? O que querem? O que sentem?  Não ouso responder.

Mas ali, naquele  mundo que me rodeava na pracinha do bairro, eu me dei conta de quão distante de mim estão esses seres do mal. E tive um lampejo de saúde, o ar fluiu melhor.

 Aquela comunidade da pracinha do meu bairro estava unida em prol dos sentidos. Querendo pegar um solzinho para aquecer.

Cheguei em casa, tinha um recado. Solange, a vizinha artista que faz trabalhos lindos, estava fazendo um bolo! E me convidava, a mim e a outra vizinha, para nos reunirmos em volta dele, mais tarde. Beto, meu cachorro, estava convidado. Ele encontraria um par, o Bonitinho, cachorro de Solange e Jomar, seu companheiro.

Prometi levar hibisco seco para o chá. Acertamos o melhor horário. E lá fui eu, completar o dia me nutrindo de Ser. Meus neurônios deram uma festa, as proteínas dançaram, as células se animaram. Longe das telas um dia inteiro!

Lá a conversa foi sobre tudo o que importa. Sobre a vida. Pressão alta, pressão baixa, insônia ou não, quanto se dorme, quanto se pensa, é bom levar celular para o quarto? Sugeri a leitura de “24/7 O capital quer roubar seu sono”, de Johnathan Crary, e fui alimentada com outras tantas dicas.

Quando urbanistas defendem as cidades, eles falam sobre trocas. Os humanos só enriquecem – a riqueza que mais interessa – quando trocam com outros.

Publicado em Uncategorized | 3 Comentários

Muros contra o mar. Quem vai conter a humanidade?

Acabo de assistir, no portal G1, à reportagem do “Fantástico” deste domingo (4) sobre a muralha que o Japão está construindo para conter tsunamis. A reportagem lembra o terrível desastre de Fukushima após o terremoto em 2011, conta sobre a triste história de uma cidade que nunca mais se reergueu. E fala sobre a pressão que alguns países – Estados Unidos entre eles – fazem em prol da energia nuclear. Será preciso ter fontes para aumentar a energia num mundo que só faz criar formas – IA, por exemplo – que demandarão cada vez mais.

Enquanto assistia à reportagem, lembrei-me da história de Fudai, que reportei no próprio G1 quando fui colunista do site – Nova Ética Social era o nome da coluna. Dando o devido crédito, achei importante resgatar aqui essa história para os meus leitores. Segue abaixo:

“Era uma vez um prefeito de uma cidade japonesa com cerca de 30 mil habitantes chamada Fudai. Quando foi eleito, na década de 70, Kotaku Wamurapôs uma ideia na cabeça: no seu mandato, ele iria construir um muro tão alto que protegeria sua cidade de qualquer tsunami. Wamura não conseguia parar de pensar nos horrores causados pelas ondas enormes que varreram seu município em duas ocasiões distintas: 1893 e 1933. A cidade, que basicamente vive do turismo e das algas que os pescadores buscam no mar, ficou praticamente soterrada pelas águas e muita gente morreu. O prefeito, que era um jovem idealista quando ocorreu a segunda tragédia, não queria que isso acontecesse enquanto fosse ele a administrar Fudai. E o muro foi erguido.

O povo de Fudai, que fica a cerca de 500 km de Tóquio,não ficou muito contente durante a obra, que durou cerca de 12 anos e gastou 20 milhões de libras. Muita gente criticou, dizendo que era dinheiro gasto à toa, que não iria resolver o problema, questionaram valores e intenção.Wamura não quis só um muro, mas construiu também imensos painéis que podem ser levantados para permitir que o Rio Fudai esvazie para deixar mais espaço para o mar e, assim, bloqueie as ondas. Os proprietários das terras que tiveram que ser realocados para a construção protestaram. Mas Wamura estava tão seguro de si que conseguiu convencer a todos. E a estrutura de concreto terminou de ser construída em 1984, por um valor que chegou perto de 4 bilhões de ienes.

Wamura morreu em 1997, aos 88 anos. Mais de uma década depois, em 2011, quando um imenso tsunami varreu o Japão, matando quase 18 mil pessoas em todo o país, os ventos e as ondas golpearam fortemente a praia de Fudai, na enseada na cidade, e barcos foram destruídos no porto. Mas na aldeia nenhuma casa foi destruída, não houve uma morte. Passada a tormenta, a cidade em romaria foi ao túmulo de Wamura agradecer e deixar flores para o ex-prefeito.

Talvez esta história tenha inspirado a construção dos atuais muros que estão sendo construídos no Japão, como uma forma de tentar evitar que outro tsunami aterrorize a região como aconteceu há sete anos. As paredes têm 12,5 metros de altura e substituíram os quebra-mares, que com o tsunami mostraram-se ineficazes. Em toda a costa japonesa há agora cerca de 395 quilômetros de muros de concreto, construídos por 6,8 bilhões de dólares, para tentar barrar as águas do mar do Japão caso elas, de novo, sejam insufladas pelos ventos a ponto de se tornarem perigosas aos humanos.

Em 2011, algumas ondas chegaram a 30 metros de altura. Será, então, que muros de “apenas” 12 metros vão conseguir barrar o fenômeno? Segundo Hiroyasu Kawai, pesquisador do Instituto de Pesquisa do Porto e do Aeroporto em Yokosuka, disse ao jornal britânico “The Guardian”, mesmo que o tsunami seja maior em altura, o muro terá o efeito de atrasar as inundações, talvez garantindo também mais tempo para a evacuação das pessoas.

Assim como aconteceu no tempo de Wamura, agora também tem muita gente contra a construção das paredes. Quer seja porque enfeia espaços que têm vocação turística, quer seja porque o governo deixou de reconstruir algumas edificações importantes pós-tsunami e priorizou a verba para erguer os muros, o fato é que há cidadãos tristes com tantas edificações anacrônicas na paisagem japonesa. Há quem diga que os muros se parecem com uma prisão, e eu não posso discordar.

Em Fudai, cidade de Wamura, muitos ainda se lamuriam.

“Todos aqui viveram com o mar e do mar, através de gerações. O muro nos mantém separados dele, e isso é insuportável” , disse Sotaro Usui, chefe de uma empresa de abastecimento de atum, à reportagem do “The Guardian”.

O risco, dizem especialistas que se opõem ao projeto, é que os muros podem acabar dando às pessoas uma falsa sensação de segurança. Outros discutem o impacto ambiental que tanto concreto já trouxe ao país. Em Iwanuma, por exemplo, o prefeito da cidade preferiu substituir o muro cinza por uma barreira feita com uma espécie de cerca viva, ou seja, florestas plantadas ao longo da costa em locais altos que poderiam barrar as águas.

Em outros lugares do mundo os humanos também precisam se proteger contra a fúria das águas do mar quando ventos as deixam violentas. E, como os cientistas já se cansam de provar, o abuso do uso dos combustíveis fósseis pela humanidade deixa uma chance enorme de que mais e mais eventos como esse aconteçam.

Na Holanda, em Roterdã, o Maeslant é um imenso portão que foi instalado em 1997 na via fluvial que conecta a cidade ao Porto, no Mar do Norte. Pode se fechar se as ondas começarem a se elevar muito. A expectativa é que só se feche de dez em dez anos. Até agora, funcionou em 1997 e 2007.

A barreira está conectada a um sistema de computadores que funciona da seguinte maneira: com ondas no Mar do Norte acima de três metros de altura ela se fecha automaticamente. Mas todo o processo é acompanhado por funcionários vigilantes, que avisam aos navios com quatro horas de antecipação. Estive em Roterdã em 2010  e pude visitar o local onde fica a grande barreira. Conversei também com os funcionários responsáveis por avisar aos navios. O que observei foi um senso tremendamente responsável e de seriedade no trabalho de todos.

Não é para menos. Trata-se de um processo de adaptação necessário para se viver em grandes cidades costeiras. Mas, sabem o que destoa totalmente desse tipo de atitude? Construções feitas à beira-mar, como a Ciclovia Tim Maia, por exemplo. Ou o que as autoridades do Principado de Mônaco, país onde há a maior concentração de bilionários por centímetro quadrado, pensa em fazer: permitir a construção de ilhas artificiais no mar para caber mais bilionários no território. Todos querem Mônaco, sobretudo porque lá se paga poucos impostos. O príncipe Albert 2º é contra a construção, o que nos deixa uma dose de esperança de que tal aberração não seja levada adiante.

E assim caminhamos.”

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Papa Francisco e sua corajosa Encíclica ‘Laudato Si´’

Fui criada em uma família eclética. Mãe mineira católica (às vezes fervorosa, às vezes não) e pai paraguaio ateu e anarquista. Passada a primeira infância, tombei para o lado do pai. E assim sigo a vida. Respeito a fé, tenho alguma cisma com religiões que tiram a potência do humano, mas nunca discuto as preferências. Cada um sabe de si.

Papa Francisco abençoa lideranças indígenas da Amazônia. Foto Mídia Vaticano publicada no site #Colabora

Mas aqui na estante, em lugar nobre, tem um exemplar impresso da “Carta Encíclica ‘Laudato Si´ – Sobre o cuidado da casa comum”, adquirido por mim em 2015. Foi neste ano que o católico argentino Jorge Mario Bergoglio, que se tornara Papa Francisco em 2013, arrebatou-me com seus pensamentos e ideias. Não cheguei a me tornar religiosa, mas passei a respeitar muito o Chefe de Estado do Vaticano.

 “Laudato Si´” é um texto corajoso, abrangente, diverso, que foca em assuntos atuais, meu objeto de estudo desde o início do século. A economia real, a proteção ambiental versus o desenvolvimento, a biodiversidade, a  injustiça climática e tantos outros destaques que, num amarrado efêmero chamamos de desenvolvimento sustentável, estão ali muito bem contextualizados.

Na época de divulgação da Encíclica eu tinha uma coluna no Portal G1, e escrevi um texto pormenorizando a substancial ajuda que o tema tinha acabado de ganhar.

São 246 aforismos, e vou destacar aqui o meu  trecho favorito:

Habitualmente, a bolha financeira é também uma bolha produtiva. Em suma, o que não se enfrenta com energia é o problema da economia real, aquela que torna possível, por exemplo, que se diversifique e melhore a produção, que as empresas funcionem adequadamente, que as pequenas e médias empresas se desenvolvam e criem postos de trabalho”.

E aqui, a cereja do bolo, a resposta para o eterno, e talvez falso problema da nossa atualidade, que o escritor japonês marxista Kohei Saito prefere  chamar de “capitaloceno”.

Quando se colocam estas questões, alguns reagem acusando os outros de pretender parar, irracionalmente, o progresso e o desenvolvimento humano. Mas temos de nos convencer que, reduzir em determinado ritmo de produção e consumo, pode dar lugar à outra modalidade de progresso e desenvolvimento. Os esforços para um uso sustentável dos recursos naturais não são gasto inútil, mas um investimento que poderá proporcionar outros benefícios econômicos a médio prazo. Se não te3mos vista curta, podemos descobrir que pode ser muito rentável a diversificação de uma produção mais inovadora e com menor impacto ambiental. Trata-se de abrir caminho e oportunidades diferentes, que não implicam frenar a criatividade humana nem o seu sonho de progresso, mas orientar esta energia por novos canais.”

Papa Francisco não se limitou a lançar a Encíclica.  O Sumo Pontífice estava empenhadíssimo em organizar uma conferência, na cidade italiana de Assis, que se chamaria “Economia de Francisco” e reuniria jovens do mundo todo para debater sobre o desenvolvimento que se quer. Durante a etapa de organização, o Vaticano lançou o documentário “A carta”, produzido pela equipe Off the Fence – a mesma do filme “Professor Polvo”,  em outubro de 2022, com parte do conteúdo da Encíclica, mas com foco nas vítimas das mudanças do clima.

Para os católicos este período, entre a morte de um papa e a escolha de outro é conhecido como sede vacante. Sete cardeais brasileiros com menos de 80 anos estão aptos a votar no Conclave, segundo lista oficial divulgada pelo Vaticano. E entre os 14 que estão na lista de onde pode sair o próximo papa, há um, em especial, o cardeal francês Jean-Marc Aveline – França, citado por alguns especialistas como o favorito de Francisco. Pela sua linha humanitária, de ampla visão, dedicado às questões dos imigrantes  e ao diálogo inter-religioso, ele seria o preferido pelo lado mais progressista da Igreja Católica.

Pode ser. Fica a torcida para que o próximo Chefe do Estado de Vaticano tenha uma visão tão ampla quanto a do Papa que se foi. Francisco deixará uma lacuna.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Pensamentos florescentes do xamã Kopenawa, agora em documentário inédito

A câmera desliza devagar, num ritmo diferente daquele no qual nos acostumamos em tempos tão rápidos. Assim, sem pressa, as imagens vão  mostrando para o telespectador um mundo diferente, uma rotina distante da nossa, mas que faz parte de nossa essência. Estamos vendo de perto, quase como invasores, uma das aldeias da Terra Indígena Yanomami – que se estende por Roraima e Amazonas, no Brasil e na Venezuela. Se a tela exalasse cheiro, certamente estaríamos sentindo o odor humano que sobe das muitas redes instaladas na imensa casa coletiva de Watoriki.

O xamã Davi Kopenawa no documentário com seus pensamentos. Foto de divulgação

O som é local, difuso, de pássaros misturados ao vozerio da criançada brincando. O documentário “Watoriki – Conversa com David Kopenawa”, de  Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, presenteia a audiência com essas imagens da aldeia antes da primeira fala do xamã David Kopenawa. É inédito e vai estrear amanhã (18) no Canal Curta!. A minha primeira vontade, quando comecei a assistir, foi quase  pedir desculpas pela invasão, tamanha a intimidade que se passa a ter com a rotina dos indígenas ianomami.

Quem já leu “A Queda do Céu – palavras de um xamã yanomami”, escrito por Kopenawa e Bruce Albert, vai ter a sensação de que puseram imagem no livro. De certa forma, é isto mesmo. Kopenawa fala todo o tempo, contando, como fez com Bruce Albert, muitas da sua história rica de vida. O muito interessante, no caso do documentário, é que o xamã, que quase nunca se comunica na língua dos brancos, de vez em quando fala em português, misturando um pouco as palavras.

A casa coletiva da aldeia Yanomami de Watariki. Foro de divulgação

Logo de cara, a pergunta feita por Kopenawa, sentado em seu habitat, no meio de uma natureza pujante que o recebe bem mas que a nós, urbanos, repele,  faz a gente se mexer na cadeira: “Por que os brancos querem nos maltratar?”

Em vista do que estamos assistindo, dos eventos climáticos cada vez mais intensos associados às atividades humanas, na verdade eu penso que nós também estamos sendo maltratados. No caso dos Yanomami, porém, como de resto de todos os povos indígenas, os efeitos são sentidos na base. Não vamos nos esquecer que a própria ONU os considera guardiães da floresta.

Como tal, é muito difícil estarem lutando contra garimpeiros ilegais, por exemplo, ou com estradas que cortam suas terras. Sem falar na luta que foi para a homologação de sua terra, conseguida apenas em 1992.

Kopenawa é um líder que sempre defendeu a floresta, e ele explica: “Foi por minha mãe e pelo meu pai que eu defendo a floresta”. O pensamento do xamã vai florescendo em todo o documentário, com sua voz doce e enérgica. Ao fundo, imagens que nos conectam com o mundo entremeado de natureza, com crianças vivendo livremente. Mas sem romance ou glamour: é uma vida plena, em conexão direta com o que pode machucar, ferir.

A câmera vai nos levando por trilhas no meio da floresta, acompanhando crianças que usam facões e com eles se safam de perigos. A não alienação de humanos com todos os outros seres vivos fica assim escancarada. O respeito, a certeza de que dali vem a sobrevivência. E Kopenawa avisa:

“Yanomami é gente; yanomami é povo; yanomami tem família; yanomami tem filho; yanomami tem criança; sente fome, chora, fica triste, preocupado. Pensando como resolver os problemas”.

E ele lista os problemas, que não são poucos:

“O   que vai acontecer? Onde vamos viver? Onde vamos beber água?”

Dá para entender, profundamente, esse grito pela sobrevivência. Assim como se percebe na fala de Kopenawa o misto de desconfiança e menosprezo que os indígenas têm pelos brancos. Foram eles, afinal, que levaram para seu mundo as doenças que os matam. E são eles também que destroem a floresta que é sua vida.

O Governo Federal tem ajudado os Yanomami com doação de cestas básicas, o que é muito bem vindo. Daqui a alguns dias, será entregue a cesta de número 160 mil.  Por outro lado, dá uma tristeza danada perceber que essa iniciativa só é necessária porque a verdadeira fonte de alimentos deles está sendo dilapidada pela ação humana.

Já no fim do documentário, Kopenawa descreve como tem sido sua vida de viajante, levando mundo afora a história de sua aldeia. Tornou-se um xamã mundial, desconcertando a gente com ilações tão férteis quanto evidentes. Quando viajou ao Reino Unido, deparou-se com crianças comendo lixo e se perguntou:

“Por que os brancos não compartilham a sua comida e deixam criança comer lixo?”

A outra indignação do xamã é com relação ao tempo. “Por que os brancos seguem o horário com tanta pressa?”. Lúcido, ele mesmo explica, novamente de maneira perturbadora e definitiva, a dificuldade que tem em se fazer ouvir pelos brancos:

“Palavra não é mercadoria. Por isso eles (os brancos) não param para ouvir os yanomamis”.

Vale a pena assistir. O Curta! vai transmitir também em horários alternativos: 19 de abril, sábado, às 2h10 e às 16h15; 20 de abril, domingo, às 21h20; 21 de abril, segunda-feira, às 16h10; 22 de abril, terça-feira, às 10h10.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Pontos de ônibus no Rio: melhor sentar, porque você vai esperar muito

Algumas (poucas) décadas atrás eu tinha uma mania engraçada para quem convivia comigo: gostava de pagar boletos das Casas Bahia pessoalmente. Lá no jornal tínhamos um conforto que outras grandes empresas ofereciam aos seus funcionários. Um rapaz, cuja função era ser “contínuo”, passava pelas mesas na parte da manhã, arrebanhava todos os pagamentos e à tarde efetuava. Bem, como vocês já perceberam estou falando de uma era em que a internet ainda existia realmente só para facilitar a vida de pesquisadores.

E por que eu gostava de ir às filas? Porque lá eu conversava um bocado. E, como sempre tive curiosidade, fazia muitas perguntas. Era divertido, socialmente rico.

Ontem me lembrei disso quando resolvi abrir mão do conforto de um táxi para percorrer, de ônibus, o micro caminho de Laranjeiras a Botafogo, cerca de 3 a 4 quilômetros. Minha estada em Botafogo custou-me apenas uns 40 minutos, mas levei quatro horas para fazer o que precisava. O resto do tempo foi em deslocamento. E, como não havia trânsito pesado, a maior parte foi esperando em ponto de ônibus. Sobre essa absurda falta de olhar administrativo, falarei mais abaixo.

Por ora, prefiro contar o lado lúdico, digamos assim, da longa espera. Tanto na ida, quanto na volta, bati muito papo. Com mulheres. Aliás, na minha micropesquisa particular no microcosmo que me ronda, fiz um levantamento que dá conta de que 90% das pessoas que esperam ônibus no meio da manhã são mulheres acima de 60 anos e gostam bastante de conversar. As mais jovens não fazem parte desse grupo de maritacas porque estao sempre com os fones plugados no ouvido, fazem pouco contato com o entorno.

Catarina foi a primeira. Uma jovem de 79 anos, sorridente, cabelos pintados de vinho, roupa de malha elegante e confortável, sandália baixa que deixava à mostra as unhas dos pés, pintadas da mesma cor que as unhas das mãos. Acho isso lindo, o maior cuidado feminino. Nunca consegui a proeza.

Catarina estava esperando o ônibus para Niterói, embora more no Flamengo. É que os carros que fazem a linha Rio-Niterói são mais novos e – detalhe importantíssimo – o primeiro degrau é baixinho. A estratégia de Catarina é de quem morou a vida inteira na selva urbana e que já não pode contar com a força dos joelhos e dos músculos das pernas como antes. Claro que a administração municipal poderia estar olhando para isso com respeito, obrigando os ônibus a se adaptarem a uma cidade que pertence ao estado com o maior percentual de pessoas idosas, segundo último Censo do IBGE (2022). No  município, 20,3% da população têm mais de 60 anos. Não é um número desprezível. Custa baixar os degraus dos ônibus para facilitar a subida e descida?

Mas, enquanto a sustentabilidade urbana é apenas promessa no quesito transporte/mobilidade, vamos tecendo histórias, criando afetos. Os humanos costumavam ser melhores nisso, mas ainda há quem se interessa pelo outro.

Depois de me contar sua estratégia, o que nos rendeu boas gargalhadas – “Se você quiser fazer isso, só presta atenção para pegar o ônibus certo, o que tem duas portas. Aquele que tem uma porta só é até mais luxuoso, mas não tem passe livre para a terceira idade e custa R$ 15, aí não vale a pena”- Catarina espraiou mais o assunto. Contou-me que mora só, a irmã está sempre por perto, que as duas pintam os cabelos uma da outra desde os 12 anos e que a única vez em que precisou pedir ajuda para fazer isso foi quando levou uma queda em casa e quebrou um braço. A irmã estava viajando. Catarina foi no salão, ainda engessada, e pediu para fazerem a pintura porque “a raiz dos cabelos  já estava toda branca”. De novo prestei atenção na vaidade/cuidado, e invejei. Tenho poucos hábitos de beleza, embora cuide bem do corpo. E Catarina  detestou o resultado, o que a fez voltar ao salão e cobrar.

A conversa ia por aí quando o ônibus dela despontou. Fizemos sinal. Se você, caro leitor, é usuário de ônibus, sabe que este momento, de fazer sinal, pode ser bem tenso. Se o motorista estiver atrasado ou de maus bofes, ele simplesmente não para. Portanto, fazer sinal para o ônibus exige também uma estratégia até perigosa. A gente quase se joga em cima dele para fazê-lo parar.

E lá se foi Catarina, não sem antes olhar pra trás e me mostrar com as mãos que o ônibus tinha duas portas. Deu uma piscadela pra mim, e pronto: ali nos tornamos íntimas confidentes de tática. Ergui o polegar, como a dizer: “ok, captei a mensagem”. E, de novo, rimos.

Alguns minutos depois, Selma se chega. Não sei se já estava ali e se animou para conversar comigo, reconhecendo em mim uma maritaca, ou se tinha recém chegado. Selma ia para casa, mora na rua do Rezende, no Centro. De maneira mais séria, ela também se queixou do tamanho do primeiro degrau do ônibus, e eu já me imaginei como cabeça de um grande protesto – Rio Ônibus, acorda!

Selma já morou em Botafogo nos anos 70, quando a Cobal era recém criada e não havia a quantidade de prédios na Voluntários da Pátria, onde estávamos. Mas teve que se mudar quando se separou, o dinheiro diminuiu. O filho mais velho até chorou, não queria sair de lá.  Este encontro/ bate-papo foi triste, mas rico.

O ônibus de Selma também chegou antes do meu, nos despedimos e virei-me para perguntar as horas para alguém perto. Ah! Sim, eu estava sem celular. E talvez por isso mesmo pude olhar tanto para os lados, conversar tanto.

Já se passavam 25 minutos de minha espera. Começava a ficar impaciente, quando chegou Dora. Com um saco de batatas fritas exalando um cheiro que fez roncar meu estômago, Dora comia e comia e comia. Mas é magrinha, a danada.  E esperta. Quando reclamei da espera, perguntou-me se eu não tenho o aplicativo que diz “certinho’ se o ônibus está chegando. Eu até tenho, mas certa vez perdi o ônibus enquanto tentava me entender com o tal aplicativo. Dora sabia como fazer, mas ela também não estava com celular, daí que não poderia ver quanto tempo esperaríamos ali. Ela aguardava o mesmo 583 que eu.

Fomos salvas por uma jovem acompanhada pelo pai. Ela rapidamente sacou o dispositivo e nos acalmou: o ônibus chegaria em quatro minutos. Para quem estava ali há 40… foi bálsamo para meus ouvidos.

Agora vem a parte nada lúdica ou engraçada de ficar esperando ônibus por mais de 40 minutos. No meu caso, a mesma espera se deu na ida, ou seja, ontem dediquei 1h20minutos de meu dia a fazer nada. Só esperando. Não tinha compromisso algum marcado para aquele meio da manhã, e não tinha texto para entregar. Se tivesse, não poderia esperar,  e me aliaria à lista não pequena de pessoas que desistem e pegam Uber, ou moto Uber. Ambos veículos poluentes, extremamente condenados pelas autoridades. Mas, tá bom… ou isto ou espera sentada. Não dá.

Fico pensando se o prefeito Eduardo Paes conseguiria investir tanto de seu tempo a palrear com moradores num ponto de ônibus (aliás, mal cuidado pra caramba, mas isso é outra história). A resposta é não. Esta alienação das autoridades daquilo que administram é bem ruim. Vira uma retórica inútil, no campo das promessas que nunca são cumpridas.

Basta ir a um encontro, conferência, forum, para entender o que estou falando. O atributo “sustentável’ aplicado à urbanização inclui às vezes longas explanações sobre mobilidade, onde os  transtornos dos consumidores (45 minutos de espera, por exemplo) são tratados com algum menosprezo. O que prevalece é a promessa de mais veiculos para o transporte público, com ar condicionado, novos, todos elétricos, inclusive, para minimizar a poluição.

Os responsáveis pela mobilidade urbana no Rio de Janeiro precisam estreitar o caminho entre intenção e gesto.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Nesse ‘pileque homérico no mundo’, vamos falar sobre coisas boas

Certamente não é prioridade minha, mas é bom compartilhar sentimento. As notícias sobre a guerra comercial, tarifas versus tarifas, andam me deixando com uma enorme vontade de abandonar tudo e ir para o campo plantar batatas. Aliás, ontem à noite eu terminei de ver o dorama “Amor e batatas,” muito bom, recomendo para quem, como eu, não consegue dormir levando para a cama histórias da esperteza de Mr. Trump, que muitos, erroneamente, chamam de loucura. Não, loucura não é isto. O que este homem está causando ao mundo é coisa ruim.

A foto é só para ilustrar. Um beleo pôr do sol na Lagoa Rodrigo de Freitas. Vida em movimento. Foto: Amelia Gonzalez

Na rede social de uma amiga, revi o momento em que Chico Buarque e Gil são censurados, microfones desligados no palco, enquanto cantavam “Cálice” (daí me veio a ideia no título. Querem coisa mais atual do que o mundo num ‘pileque homérico’?). Idos de 1973, ditadura a mil.

Mas, ao dar aquela já cansada passada de olhos pelos jornais, quase certa de que nada vai me surpreender, ontem (10) eu me surpreendi. E foi uma surpresa boa, o que me deixa mais feliz e com vontade de dividir com os leitores.

O sisudo “The New York Times”, jornal que remonta ao fim do século XIX e que em 2023 tinha 9,13 milhões de assinantes, deu espaço a uma jornalista para que ela passe a viajar pelos 50 estados em busca de soluções climáticas locais pensadas e postas em práticas por pessoas comuns. Ou seja: boas notícias! A sessão começou ontem, e tem uma pequena entrevista de apresentação, na qual a repórter Cara Buckley  conta porque decidiu propor a empreitada aos seus editores.

Segundo Buckley, certa vez, fazendo reportagem sobre mudanças climáticas, ouviu de um entrevistado:

“Nós lemos todas essas notícia ssobre emissões, sobre partes de milhão de carbono no ar, mas estamos perdendo essa outra parte da história: muitas pessoas estão fazendo um bom trabalho. Só que não vemos muitas notícias a respeito”.

Foi este o impulso que levou Cara Buckley a criar a seção “50 estados/50 soluções”, que ontem me animou a manhã com algumas histórias interessantes. Há, por exemplo, a reportagem sobre Culdesac Tempe, no Arizona, um bairro que está sendo construído a cerca de 3,2 km do centro da cidade de Tempe para mil pessoas que queiram mudar de vida. Porque lá não há carros. E, obviamente, um bairro sem carros constroi um outro tipo de relação entre as pessoas e o ambiente ao redor.

“É uma das melhores coisas que podemos fazer pelo clima, saúde, felicidade, baixo custo de vida, mesmo baixo custo para o governo. É também um estilo de vida muito melhor. Todos nós nos tornamos a pior versão de nós mesmos quando estamos sobre quatro rodas”, disse Ryan Johnson, o chefe do Culdesac.

Há outros casos interessantes na reportagem inicial da série, como um terreno baldio no Hawai que foi adotado pelos moradores e se tornou um local de saúde. Pessoas passam um tempo do seu dia lá, plantando e colhendo, fazendo terapia com a natureza. Longe das telas e do pânico.

A ideia da jornalista, na verdade, não é nova. E me levou a 22 anos atrás, quando o então editor executivo do jornal “O Globo”, Agostinho Vieira, me chamou em sua sala para sugerir que eu editasse um caderno que estava ainda para ser formatado. A ideia era mostrar projetos bem-sucedidos de empresas grandes,  médias e pequenas que podem ser chamadas de “socialmente responsáveis”. Pouco tempo depois, em junho de 2003, a primeira edição do “Razão Social” ia para as bancas. Na capa, a história de uma padaria no Rio Grande do Sul que ajudava a creche do bairro e insuflava seus funcionários a fazerem o mesmo.

O “Razão Social” viveu nove anos. Nesse tempo, tive uma equipe danada de boa. Os jornalistas Camila Nóbrega, Cristiane de Cássia, Martha Neiva Moreira e Carlos Ivan. Acompanhamos passo a passo o movimento das empresas cidadãs, que cresceu muito, arrefeceu na crise financeira de 2008, teve outros tropeços e, em muitos casos, foi abduzido pelo marketing. A linha editorial do “Razão Social’ foi se adaptando aos tempos, trazendo a questão climática para a cena, convidando especialistas que explicavam o contraditório.  O papel das corporações que, num sistema capitalista, existem para dar lucro e, ao mesmo tempo, são cobradas para dividir esse lucro com a sociedade.

Neste longo caminho, li muitos autores que foram me ajudando a entender melhor o movimento, sobretudo a não cair na tentação de apontar vilãos e mocinhos só pelo papel que estão jogando na sociedade. O poço é mais fundo.

 Joel Bakan, que escreveu e editou os vídeos “The Corporation” (2005)  e “The New Corporation” (2020), foi um desses autores que me acompanhou. O escritor americano-canadense diz que as empresas cumprem o papel que se espera delas no sistema econômico capitalista: dar emprego e lucrar. Há desvios, até porque elas são muito menos reguladas do que deveriam ser. Mas, de verdade, elas ocupam o espaço que damos a elas em nossas vidas. Por isso é importante um estado forte.

Dessa forma, fui entendendo que os bons projetos beneficiam muita gente e tornam-se boas notícias, que merecem ser publicadas. Foi esta a linha editorial do “Razão Social”. Mas, sempre, publicando no mesmo espaço as ideias de autores que nos ajudavam a ir entrelançando, desenhando o caminho das informações. Explicações abrangentes, ajudando a ampliar o pensamento.

Enfim… foi muito bom fazer contato com o material que ontem estava nas páginas de um dos maiores jornais do mundo. No “Razão Social” também publicávamos muitas histórias transformadoras, pessoais, de comunidades, aldeias. O entrelaçamento era nosso mote. Hoje me senti parte de uma história.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Salvem as vieiras, ostras e algas*

Comecei meu relato  sobre a reportagem na Ilha Grande de trás para frente porque, como disse, meu interesse maior são as histórias das pessoas. Mas outros seres vivos merecem atenção: vieiras, ostras e algas.  Vidas que não têm a promessa de estabilidade, como diz outra escritora que anda me acompanhando os dias, Anna Tsing, em seu livro “O cogumelo do fim do mundo”. Pensei muito em suas filosofias durante a visita ao laboratório do Instituto de Ecodesenvolvimento da Baía de Ilha Grande (IED-BIG), ciceroneados pelo biólogo e diretor técnico Renan Ribeiro.

Céu de chuva na Baía de Ilha Grande: problemas quando chove. Foto: Amelia Gonzalez

Mas esta história tem início com uma precariedade: as vieiras, antes abundantes na Ilha Grande, estão escasseando. Motivos para isto há aos montes, desde os barcos que chegam em disparada, maculando seu habitat, passando pela poluição dos mares até ondas de calor, a pesca predatória. Sabemos bem como os humanos conseguem pôr a perder muitas vidas desde a revolução industrial. Mais ainda com a globalização, que passou a exigir tudo em escalas grandiosas.

São tempos para se pensar em adaptação. “Viver com precariedade requer mais do que revoltar-se contra quem nos colocou nessa situação…precisamos reativar a imaginação”, escreve Anna Tsing.

O dinheiro dado pela Prio, sempre via Funbio, incrementou o laboratório do IED, que agora está criando berçários de vieiras e ostras para lançá-las ao mar já em condições de superar os muitos obstáculos à sua vida. As sementinhas passam por algumas etapas, encontram sempre água extremamente limpa e vitaminada no laboratório, agarram-se e crescem seguras em redes chamadas lanternas, feitas de Netlon.

Aqui, uma ironia que retrata bem nosso estágio atual civilizatório: Netlon é uma substância que precisa do petróleo para ser produzida, o mesmo combustível fóssil que pode causar a morte das vieiras, ostras e mariscos que o laboratório salva.

É preciso estar em contato para reativar a imaginação, como sugere Tsing, e se adaptar. Contato é uma palavra latina, que quer dizer toque, convívio, relacionamento. É bem diferente do estado de  alienação que nos envolve a todos nas megalópoles, pelo menos a maioria de nós que busca e precisa, legitimamente, estar a salvo de outras maneiras. E vamos nos alienando do ambiente que nos cerca.

As vieiras vão crescendo e os técnicos precisam estar atentos para mantê-las dentro das lanternas. A certa altura, muitos dias depois, elas passam a estar prontas para a reprodução. Cutuca-se o cantinho da concha e elas se abrem. É lindo de ver. Muitas seguem dali para a mesa, servem-nos como proteína.

Mais adiante fizemos contato com Eduardo Filho e Felipe Barbosa, também da Ambig, que me apresentaram ao mundo das algas. Eles mantém uma fazenda marinha de algas – também com recursos da Prio – e praticam a algicultura. Fiquei sabendo que são seres fotossintéticos, ou seja, organismos que produzem seu próprio alimento através da fotossíntese, um processo que converte energia solar em energia química. Servem para muita coisa, podem nos ajudar de diversas maneiras, até para cosméticos. Ganhei a chance de pegar e acarinhar um molho de algas. Experiência quase tão inesquecível quanto pisar na lama de um mangue.

A fazenda marinha de algas na Baía de Ilha Grande. Foto de Amelia Gonzalez

A velha fábrica, hoje laboratório

Nossa próxima parada foi em novo laboratório, e esta é outra bela história de criação humana. A principal fonte de renda para os habitantes da praia de Matariz foi, durante muito tempo, a Kamome fábrica de salgar sardinhas construída por japoneses da família Ueti. Cerca de trinta anos se passaram, quando a atividade começou a dar sinais inequívocos de que, sem a estação de tratamento adequada, estavam colaborando terrivelmente para a poluição do mar. A fábrica fechou em 1994, talvez não por acaso dois anos depois da ECO92, conferência de meio ambiente que pôs holofotes em muitos impactos ao meio ambiente.  E a edificação ficou ali, sendo aos poucos destruída pela maresia.

A ideia de restaurá-la surgiu e foi impulsionada – novamente com a parceria do Funbio e recurso conseguido por edital do TAC Frade da Prio.   O projeto que seduziu os analistas foi construir ali um laboratório de mexilhões, vieiras e ostras e capacitar jovens da região para fazer uma espécie de berçário artificial, sustentando as sementes dos animais de maneira que eles conseguissem sobreviver até irem para o IED, que visitamos primeiro. A fábrica foi reinaugurada no fim do ano passado. Fomos  recebidos pelo oceanógrafo Julio Cesar Alves, que está à frente do projeto:

“Os projetos do Funbio começaram a mudar o cenário e a dar mais ânimo à região. A ideia inicial era criar aqui o Bijupirá, conhecido como o salmão brasileiro, mas depois ficou decidido que o laboratório seria reservado para a produção de vieiras. Nós produzimos aqui as sementes que seguem para o laboratório do Instituto de Ecodesenvolvimento, na Ambig”, disse ele.

A visita continua

Matariz é uma comunidade de pescadores tranquila, com pouco mais de 200 moradores. Ficamos hospedados numa pousada bonitinha, numa vila de casas bem cuidadas, embora pobres. Uma energia que deve ser padrão das regiões pesqueiras, com turismo na alta temporada e muito sossego no resto do ano.

Além da fábrica, numa espécie de coworking, a edificação mantém também o pessoal da Marulho, que se autointitula “iniciativa de impacto socioambiental”.  Bia e Lucas fundaram em 2019 depois de fazerem contato com um dos maiores problemas para os peixes da região: as redes de náilon abandonadas por pescadores matavam muitos seres marinhos. “Verdadeiramente presentes” (olhem aí Donna Haraway de novo dando rumo aos meus pensamentos), Bia e Lucas se entrelaçaram com alguns moradores e começaram a fazer de tudo com aquelas redes. Hoje estão lançando uma sandália bem bonita. Se você, caro(a) leitor(a), já encontrou produtos com a inscrição “Eu já fui rede”, saiba que vem de lá, do cantinho simpático da praia de Matariz.

O projeto emprega pessoas e salva peixes. Foi preciso imaginar, executar, se consorciar e não replicar o velho modelo de ganância e acumulação. Dá para distribuir o suficiente para se manter vidas com dignidade.

E assim chegamos ao fim da estada. O calor permanecia, e só encontraríamos a frente fria que os fluminenses esperavam dois ou três dias depois. Infelizmente, uma quantidade excepcional de chuvas – os cientistas já avisaram que daqui para frente todos os eventos climáticos serão extremos – desabrigou muita gente em Angra dos Reis, município ao qual a Ilha Grande pertence.

São problemas sem fim, que nos deixam às vezes com um desalento doloroso. Sabemos que vamos ficar com eles, não tem outro jeito.

*Amelia Gonzalez viajou a Ilha Grande a convite da Prio

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Na Ilha Grande, histórias de vidas entrelaçadas com a natureza*

Fazia muito calor. Mesmo com aquele mundo de águas em volta, a sensação térmica era elevada, incomodava. Por volta das 8h fomos encontrar o grupo de marisqueiras na Praia Saco do Céu, que fica na Enseada das Estrelas. Eu estava na Ilha Grande, em Angra dos Reis, com colegas jornalistas a convite da empresa de petróleo Prio, interessada em mostrar o que fez para cumprir o Termo de Ajuste de Condutas (TAC) imposto pelo MP Federal por conta de derramamentos de óleo em 2011 e 2012 na Bacia de Campos, quando as operações ainda eram da Chevron.

Porto de Matariz, Ilha Grande. Foto: Amelia Gonzalez

Já o meu interesse, ali, era ouvir histórias de pessoas que convivem intensamente com a natureza, que vivem de seus bens. Extrativistas orgânicos, por assim dizer.  E, como sói, são justamente aquelas que mais sentem os efeitos devastadores das mudanças do clima, resultado dos impactos que a humanidade está causando ao meio ambiente. São tempos perturbadores e é preciso dar voz a quem está “verdadeiramente presente”, como diz a filósofa e zoóloga Donna Haraway no livro “Ficar com o problema”.  É dessa forma que se pode evitar pensar com a cabeça no futuro (“tecnocismos”) ou no passado (“como era bom quando o mar e o ar eram limpos”).

Durante dois dias visitamos alguns dos projetos que a empresa ajudou com recursos, entre eles duas fazendas marinhas. E ouvi relatos de pessoas que foram beneficiadas por esse dinheiro, já que a escolha da Prio foi espalhar mais a verba do que centralizá-la em uma grande organização.

Ilha Grande e toda a sua majestosa quantidade de águas. Foto de Amelia Gonzalez

A Ilha tem várias enseadas, e seus habitantes vão se organizando em grupos, entrelaçados, criando formas de melhor viver. O livro “Narradores das estrelas – Histórias de Ilha Grande”, feito com o recurso do TAC,  mostra esse entrelaçamento de forma poética até. A publicação relata trechos da vida de 23 moradores do Saco do Céu, num desenho que os organizadores decidiram chamar de mapa. As falas são publicadas in natura, com quase nenhuma revisão, e trazem relatos fiéis ao mundo em que vivem, que pode ser harmonioso, frutífero, avassalador e estéril. Ali quem manda é a natureza.

Turismo Comunitário

No segundo dia da nossa estada na Ilha acordamos bem cedinho para conhecer o projeto Turismo Comunitário. Alguns minutos de voadeira nos separavam da praia de Matariz, onde estávamos hospedados, à outra praia, que fica na região Saco do Céu, onde estariam nossos entrevistados. Pouco antes de chegar à margem, o timoneiro diminuiu a marcha para não perturbar os mariscos, vôngoles e ostras. É assim que deve ser feito, mas infelizmente o padrão não é mantido por todos os barcos.

O jovem caiçara Marcos Vinicius Corecha já nos esperava, como um bom guia turístico. Com 21 anos, ele está cursando Ciências Biológicas mas, para além da graduação acadêmica, Marcos tem uma vivência prática, gosta do lugar e cria rumos, se importa, faz contato. Fala em “mapeamento dos saberes da Enseada das Estrelas” com respeito àqueles que já estão ali há muito tempo. Com o recurso destinado pela empresa, que chegou via edital no Funbio,  há um ano ele e outros companheiros criaram o “Turismo de Base Comunitária Enseada das Estrelas e Suas Raízes”, que já tem sido bastante procurado por quem quer conhecer histórias e culturas do local por seus mestres e jovens.

Um dos roteiros inclui café da manhã tradicional na comunidade, conversa com mestres do local e visita a um cerco flutuante, arte de pesca que é importante ferramenta de manejo sustentável. Os pescadores selecionam apenas os peixes para o consumo, e devolvam ao mar os demais. 

Na mesma enseada, fomos apresentados às marisqueiras, outra atividade que faz parte da cultura local. Jaisa dos Santos Assis, neta de Maria Nascimento, filha de Lindalva e mãe de Taís, todas marisqueiras, foi nossa guia, e as mulheres já estavam colhendo os mariscos, o que fazem com as mãos, pés na lama e na posição de cócoras.

O mangue estava à minha frente e me oferecia uma experiência nova: andar com os pés enterrados na lama que serve de berço a muitas vidas. Fiquei em dúvida, mas decidi encarar. A sensação é estranha, o caminhar precisa ser lento, qualquer escorregão leva ao chão o incauto, sujando de lama tudo o que carrega. Enquanto eu me equilibrava em passos bêbados, Jaisa ia contando a saga das marisqueiras:

“Não temos mais tantos mariscos, em parte por causa dessas lanchas que chegam carregando areia, mexendo no fundo. Antigamente nós comprávamos e vendíamos para os restaurantes da Ilha, mas hoje quase nenhum deles compra. Preferem comprar de que compra daqui e leva até eles”, disse Jaisa.

Jaisa fala dos atravessadores. Lembro-me de uma viagem que fiz a uma comunidade de açaizeiros no Pará onde a queixa era a mesma. No final das contas, essas pessoas cumprem um papel na roda da economia, já que os donos de restaurantes não querem perder tempo com o deslocamento. Mas cobram caro por isto.

Jaisa prossegue, contando também que tudo mudou nos anos 1980, quando a Ilha Grande passou a ser considerada Área de Proteção Ambiental Estadual de Tamoios.

“Plantávamos a mandioca, a banana, o café. Aqui tinha fábrica de farinha, era uma ação comunitária. Hoje não podemos mais tirar uma árvore, como a Bacuruvu, que servia para fazermos canoa e andar pelo mangue sem importunar a vida dos mariscos. O Inea vem, multa”, conta ela.

As marisqueiras criaram uma Associação de Moradores e Pescadores da Enseada das Estrelas (AMPEE) em 2013 para edificar uma integração entre elas pela proximidade geográfica. Nisso, criaram também o mais importante: relações de amizade e solidariedade. O resultado é uma organização local afável que conseguiu, com muita luta e resistência, transporte marítimo para levar as crianças à escola, um posto de saúde, equipamentos públicos.

A manhã já ia pelo meio, o sol castigava ainda mais,  quando Marcus nos levou para apresentar seu tio, misto de historiador, engenheiro, pescador e carpinteiro, Pedro Paulo Ferreira, 60 anos. Ele estava em sua oficina a céu aberto e nos mostrou uma pequena embarcação que estava acabando de construir. Pedro Paulo também tem lembranças doces do passado:

O mestre Pedro Paulo sendo entrevistado por mim em Matariz, praia de Ilha Grande. A foto é de Custodio Coimbra, jornalista que estava no tour para a impresna

“O que mais me faz falta, daqueles tempos atrás, antes de virarmos Unidade de Conservação, é a liberdade que eu e todo mundo aqui tinha. Podíamos plantar, tirar uma ou outra árvore, pescávamos nossos peixes. Fazíamos farinha da mandioca, tomávamos nosso próprio café”.

Pergunto se ele está sentindo os efeitos do aquecimento global, ele responde afirmativamente. Pergunto se ele reconhece que houve abusos e que tais abusos podem ter causado o aquecimento, ele me diz ok, mas…

“Olha em volta e veja essas mansões milionárias que estão sendo construídas, algumas até com heliponto. Pode imaginar quantas árvores foram cortadas para isto? Agora eu pergunto: cadê o Inea, que não vem multar, prender, como faz conosco quando tentamos tirar uma árvore que seja?”, perguntou.

Eu não tive resposta a sua pergunta.

Antes de nos despedirmos, Pedro Paulo fez questão de nos mostrar a canoa caiçara, transporte característico da região no tempo em que as árvores Bacurubu eram sortidas e podiam ser arrancadas pelos locais.

Não consigo me solidarizar com Pedro Paulo na história da Bacurubu, mas respeito muito sua experiência de vida e estou com ele na luta pela igualdade de direitos. O Inea não pode escolher a quem multa.

Encerro este texto com o pensamento de Stefano Mancuso, a maior autoridade em neurobiologia vegetal. Em “A Nação das plantas” ele alerta:

“O homem, ainda que se comporte como tal, não é de modo algum o dono da Terra, mas somente um dos seus condôminos mais desagradáveis e molestos […] conseguiu alterar tão drasticamente as condições do planeta que o tornou um lugar perigoso para a sua própria sobrevivência”.

A viagem continuou, e na próxima quarta-feira eu conto mais.

*Amelia Gonzalez viajou a Ilha Grande a convite da Prio.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário