Algumas (poucas) décadas atrás eu tinha uma mania engraçada para quem convivia comigo: gostava de pagar boletos das Casas Bahia pessoalmente. Lá no jornal tínhamos um conforto que outras grandes empresas ofereciam aos seus funcionários. Um rapaz, cuja função era ser “contínuo”, passava pelas mesas na parte da manhã, arrebanhava todos os pagamentos e à tarde efetuava. Bem, como vocês já perceberam estou falando de uma era em que a internet ainda existia realmente só para facilitar a vida de pesquisadores.
E por que eu gostava de ir às filas? Porque lá eu conversava um bocado. E, como sempre tive curiosidade, fazia muitas perguntas. Era divertido, socialmente rico.
Ontem me lembrei disso quando resolvi abrir mão do conforto de um táxi para percorrer, de ônibus, o micro caminho de Laranjeiras a Botafogo, cerca de 3 a 4 quilômetros. Minha estada em Botafogo custou-me apenas uns 40 minutos, mas levei quatro horas para fazer o que precisava. O resto do tempo foi em deslocamento. E, como não havia trânsito pesado, a maior parte foi esperando em ponto de ônibus. Sobre essa absurda falta de olhar administrativo, falarei mais abaixo.

Por ora, prefiro contar o lado lúdico, digamos assim, da longa espera. Tanto na ida, quanto na volta, bati muito papo. Com mulheres. Aliás, na minha micropesquisa particular no microcosmo que me ronda, fiz um levantamento que dá conta de que 90% das pessoas que esperam ônibus no meio da manhã são mulheres acima de 60 anos e gostam bastante de conversar. As mais jovens não fazem parte desse grupo de maritacas porque estao sempre com os fones plugados no ouvido, fazem pouco contato com o entorno.
Catarina foi a primeira. Uma jovem de 79 anos, sorridente, cabelos pintados de vinho, roupa de malha elegante e confortável, sandália baixa que deixava à mostra as unhas dos pés, pintadas da mesma cor que as unhas das mãos. Acho isso lindo, o maior cuidado feminino. Nunca consegui a proeza.
Catarina estava esperando o ônibus para Niterói, embora more no Flamengo. É que os carros que fazem a linha Rio-Niterói são mais novos e – detalhe importantíssimo – o primeiro degrau é baixinho. A estratégia de Catarina é de quem morou a vida inteira na selva urbana e que já não pode contar com a força dos joelhos e dos músculos das pernas como antes. Claro que a administração municipal poderia estar olhando para isso com respeito, obrigando os ônibus a se adaptarem a uma cidade que pertence ao estado com o maior percentual de pessoas idosas, segundo último Censo do IBGE (2022). No município, 20,3% da população têm mais de 60 anos. Não é um número desprezível. Custa baixar os degraus dos ônibus para facilitar a subida e descida?
Mas, enquanto a sustentabilidade urbana é apenas promessa no quesito transporte/mobilidade, vamos tecendo histórias, criando afetos. Os humanos costumavam ser melhores nisso, mas ainda há quem se interessa pelo outro.
Depois de me contar sua estratégia, o que nos rendeu boas gargalhadas – “Se você quiser fazer isso, só presta atenção para pegar o ônibus certo, o que tem duas portas. Aquele que tem uma porta só é até mais luxuoso, mas não tem passe livre para a terceira idade e custa R$ 15, aí não vale a pena”- Catarina espraiou mais o assunto. Contou-me que mora só, a irmã está sempre por perto, que as duas pintam os cabelos uma da outra desde os 12 anos e que a única vez em que precisou pedir ajuda para fazer isso foi quando levou uma queda em casa e quebrou um braço. A irmã estava viajando. Catarina foi no salão, ainda engessada, e pediu para fazerem a pintura porque “a raiz dos cabelos já estava toda branca”. De novo prestei atenção na vaidade/cuidado, e invejei. Tenho poucos hábitos de beleza, embora cuide bem do corpo. E Catarina detestou o resultado, o que a fez voltar ao salão e cobrar.
A conversa ia por aí quando o ônibus dela despontou. Fizemos sinal. Se você, caro leitor, é usuário de ônibus, sabe que este momento, de fazer sinal, pode ser bem tenso. Se o motorista estiver atrasado ou de maus bofes, ele simplesmente não para. Portanto, fazer sinal para o ônibus exige também uma estratégia até perigosa. A gente quase se joga em cima dele para fazê-lo parar.
E lá se foi Catarina, não sem antes olhar pra trás e me mostrar com as mãos que o ônibus tinha duas portas. Deu uma piscadela pra mim, e pronto: ali nos tornamos íntimas confidentes de tática. Ergui o polegar, como a dizer: “ok, captei a mensagem”. E, de novo, rimos.
Alguns minutos depois, Selma se chega. Não sei se já estava ali e se animou para conversar comigo, reconhecendo em mim uma maritaca, ou se tinha recém chegado. Selma ia para casa, mora na rua do Rezende, no Centro. De maneira mais séria, ela também se queixou do tamanho do primeiro degrau do ônibus, e eu já me imaginei como cabeça de um grande protesto – Rio Ônibus, acorda!
Selma já morou em Botafogo nos anos 70, quando a Cobal era recém criada e não havia a quantidade de prédios na Voluntários da Pátria, onde estávamos. Mas teve que se mudar quando se separou, o dinheiro diminuiu. O filho mais velho até chorou, não queria sair de lá. Este encontro/ bate-papo foi triste, mas rico.
O ônibus de Selma também chegou antes do meu, nos despedimos e virei-me para perguntar as horas para alguém perto. Ah! Sim, eu estava sem celular. E talvez por isso mesmo pude olhar tanto para os lados, conversar tanto.
Já se passavam 25 minutos de minha espera. Começava a ficar impaciente, quando chegou Dora. Com um saco de batatas fritas exalando um cheiro que fez roncar meu estômago, Dora comia e comia e comia. Mas é magrinha, a danada. E esperta. Quando reclamei da espera, perguntou-me se eu não tenho o aplicativo que diz “certinho’ se o ônibus está chegando. Eu até tenho, mas certa vez perdi o ônibus enquanto tentava me entender com o tal aplicativo. Dora sabia como fazer, mas ela também não estava com celular, daí que não poderia ver quanto tempo esperaríamos ali. Ela aguardava o mesmo 583 que eu.
Fomos salvas por uma jovem acompanhada pelo pai. Ela rapidamente sacou o dispositivo e nos acalmou: o ônibus chegaria em quatro minutos. Para quem estava ali há 40… foi bálsamo para meus ouvidos.
Agora vem a parte nada lúdica ou engraçada de ficar esperando ônibus por mais de 40 minutos. No meu caso, a mesma espera se deu na ida, ou seja, ontem dediquei 1h20minutos de meu dia a fazer nada. Só esperando. Não tinha compromisso algum marcado para aquele meio da manhã, e não tinha texto para entregar. Se tivesse, não poderia esperar, e me aliaria à lista não pequena de pessoas que desistem e pegam Uber, ou moto Uber. Ambos veículos poluentes, extremamente condenados pelas autoridades. Mas, tá bom… ou isto ou espera sentada. Não dá.
Fico pensando se o prefeito Eduardo Paes conseguiria investir tanto de seu tempo a palrear com moradores num ponto de ônibus (aliás, mal cuidado pra caramba, mas isso é outra história). A resposta é não. Esta alienação das autoridades daquilo que administram é bem ruim. Vira uma retórica inútil, no campo das promessas que nunca são cumpridas.
Basta ir a um encontro, conferência, forum, para entender o que estou falando. O atributo “sustentável’ aplicado à urbanização inclui às vezes longas explanações sobre mobilidade, onde os transtornos dos consumidores (45 minutos de espera, por exemplo) são tratados com algum menosprezo. O que prevalece é a promessa de mais veiculos para o transporte público, com ar condicionado, novos, todos elétricos, inclusive, para minimizar a poluição.
Os responsáveis pela mobilidade urbana no Rio de Janeiro precisam estreitar o caminho entre intenção e gesto.










