
“Amelia, você tem que entrar na campanha para salvar os vaga-lumes!”
Esses meus amigos são tudo de bom. Dão pitaco, sugerem pautas, e eu – sortuda que sou – vou só aproveitando.
Mas hesitei diante da mensagem da amiga sobre os vaga-lumes. Lembrei-me das convocações muito populares no fim dos anos 1990, como “salvem as baleias”, “salvem os micos leões dourados”, que escalaram para “vamos salvar o planeta”. Foram importantes naquela época, mas será que agora seriam, com tanta emergência e horrores vitimizando nossa própria espécie? Respondi rapidamente a mensagem, com um emoji sorridente, e fui para a rua, andar para cima e para baixo, comprar isso e aquilo no supermercado.
Não tem coisa melhor, para mim, do que caminhar quando quero expandir meus pensamentos. Vou espalhando minhas ponderações pelo espaço, alcançando árvores, pássaros, cachorros, gatos, minhocas e pedras, seres viventes, humanos ou não. Sim, os vaga-lumes merecem todo o nosso apoio e empenho, mas…
“É um paradoxo!” Como tentar salvar insetos que não chegam a medir dois centímetros, em um mundo de tantos absurdos? No Oriente Médio, crianças e mulheres são alvos do sujeito que se julga dono da terra e quer eliminar todo um povo. Na Europa, outro conflito que submete pessoas a dias tensos, convivendo com a morte, a fome, a destruição total de casas, bairros inteiros. E o presidente do país mais rico do mundo se julga dono e senhor de todos os países, impondo sanções que vão provocar desempregos, mais fome e tensão. Um horror atrás do outro.
Mas… será mesmo inútil o esforço dos biólogos para mapearem as áreas de extinção, estudarem a fundo os hábitos desses bichinhos e tentarem, assim, salvá-los?
“É quase uma arte!”, pensei, enquanto pagava as compras no caixa do supermercado. E arte é resistência!
Pronto. Estava ali a costura necessária para me convencer. Cheguei em casa já pronta para atender a convocação da amiga. Sim, vamos colaborar para estancar a extinção dos vaga-lumes. Porque resistir é preciso.
Toda essa história começou com a reportagem do “Jornal Nacional” de terça-feira (5) sobre a diminuição drástica de espécies de vaga-lumes no mundo, inclusive no Brasil. A entrevistada foi a bióloga Stephanie Vaz, do Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (Lece/Uerj) e coordenadora regional da América do Sul para a conservação dos vaga-lumes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês), que se tornou uma espécie de embaixadora pela causa dos vaga-lumes.
Mesmo com todos esses títulos, a simpática Stephanie Vaz é uma jovem de 33 anos, com quem conversei ontem pela manhã, buscando mais informações. Aliás, vale dizer que, depois da reportagem, os vaga-lumes viralizaram nas redes, fenômeno de nossos tempos, tornando Stephanie Vaz praticamente uma celebridade. O campo de estudo da equipe do Lece à qual Stephanie faz parte é a Mata Atlântica.
Perguntei-lhe sobre os motivos da extinção anunciada – daqui a trinta anos é possível que não haja mais vaga-lumes entre nós – e não me surpreendi com a resposta:
“A poluição luminosa causada por luzes artificiais, o desmatamento, a poluição causada por inseticidas”, disse-me ela, confirmando o que eu já imaginara. Ações do homem.
Avançamos na conversa, até que Stephanie Vaz contou-me um detalhe da vida dos vaga-lumes que me levou a fazer um link direto com os seres ctônicos. Aprendi o conceito com Donna Haraway em “Ficar com o problema” (N-1 edições), livro que, como sabem os que me seguem no blog, está na minha mesa de cabeceira.
Os vaga-lumes nascem larvas, e assim permanecem por um ou dois anos. Só depois desse tempo é que saem do casulo, ganham asas, órgãos bioluminescentes, e vêm para fora, ao encontro da humanidade. Concluí, portanto, que na maior parte de sua existência os vaga-lumes são seres ctônicos. Diz Donna Haraway:
“Os ctônicos são seres da terra, antigos e totalmente atuais ao mesmo tempo. Eu os imagino cheios de tentáculos, antenas, dedos, cordões, caudas de lagarto e patas de aranha, com cabelos bem rebeldes. Os ctônicos fazem estrepolias num humus multibichos, mas não querem nada com o Homo que contempla o céu”.
Donna Haraway é filósofa e zoóloga estadunidense. Ela denuncia a matança desses seres, expõe a vulnerabilidade também de nossa espécie diante de tantas dores e alegria, e se permite fabular um mundo em que seja possível criar “parentes estranhos”.
“Os ctônicos não são seguros e não estão em segurança, eles não têm nada a ver com ideólogos e não pertencem a ninguém”, escreve ela.
A sugestão é “aprender a estar verdadeiramente presente”, e quem sabe ajudar a florescer até mesmo “um florescimento multiespécie”, incluindo seres humanos e alteridades não humanas em parentesco”.
Bem… iremos longe demais assim, não? Mas não custa tirar daí alguma reflexão.
Vaga-lumes são insetos que realizam a metamorfose completa, ou seja, passam pela fase de ovo, larva, pupa e adulto. Enquanto larvas, eles têm poucos predadores, já que são tóxicos e seu gosto não agrada nem mesmo às aranhas. Por outro lado, alimentam-se de outros vaga-lumes e de larvas, muitas delas responsáveis por doenças humanas.
A bioluminescência acontece nas fases de larva e adultos, e serve também como sinal sexual. Durante sua breve vida, os vaga-lumes adultos não se alimentam, pois utilizam toda a reserva genética que consumiram quando larvas.
“A poluição por conta dos pesticidas está causando problemas à espécie porque afetam as larvas. E se as larvas morrem, não teremos mais os adultos”, disse Stephanie Vaz.
E por que devemos nos preocupar com os vaga-lumes?, pergunto à Stephanie Vaz. A resposta é múltipla.
“A espécie é importante para regular a cadeia alimentar onde está inserida. Ela também é capaz de controlar algumas doenças que são vetores para os seres humanas. O estudo da bioluminescência, que é o brilho que ele tem na cauda, serve também para receptar doenças ou exames de PCR na biomedicina. Saindo do campo da medicina, há também os aspectos culturais, pois os vaga-lumes são pensados em muitas obras artísticas. Eles causam o que chamamos de conforto mental, porque são capazes de relaxar as pessoas”, disse Stephanie Vaz.
Resumindo: a existência dos vaga-lumes só faz bem à humanidade. Em resposta, o que fazemos é restringir sua vida. É o que está dando errado. Como diz Anna Tsing, em “O cogumelo no fim do mundo”, também da N-1 Edições, “Os humanos não podem sobreviver tripudiando sobre todos os outros seres. O espectro que muitos tentam ignorar é uma realidade muito simples – o mundo não será ‘salvo’. Se não acreditamos em um futuro revolucionário global, devemos viver no presente (como sempre foi o caso).”
Viver no presente é a sugestão das duas autoras, e uma das soluções que me conforta. A arte dos estudos dos biólogos da equipe da qual Stephanie Vaz faz parte, colabora para isso. Mesmo que os vaga-lumes não sejam salvos, eles estão sendo olhados como seres que prestam. Como, de resto, todas as outras vidas.













