Pontos de ônibus no Rio: melhor sentar, porque você vai esperar muito

Algumas (poucas) décadas atrás eu tinha uma mania engraçada para quem convivia comigo: gostava de pagar boletos das Casas Bahia pessoalmente. Lá no jornal tínhamos um conforto que outras grandes empresas ofereciam aos seus funcionários. Um rapaz, cuja função era ser “contínuo”, passava pelas mesas na parte da manhã, arrebanhava todos os pagamentos e à tarde efetuava. Bem, como vocês já perceberam estou falando de uma era em que a internet ainda existia realmente só para facilitar a vida de pesquisadores.

E por que eu gostava de ir às filas? Porque lá eu conversava um bocado. E, como sempre tive curiosidade, fazia muitas perguntas. Era divertido, socialmente rico.

Ontem me lembrei disso quando resolvi abrir mão do conforto de um táxi para percorrer, de ônibus, o micro caminho de Laranjeiras a Botafogo, cerca de 3 a 4 quilômetros. Minha estada em Botafogo custou-me apenas uns 40 minutos, mas levei quatro horas para fazer o que precisava. O resto do tempo foi em deslocamento. E, como não havia trânsito pesado, a maior parte foi esperando em ponto de ônibus. Sobre essa absurda falta de olhar administrativo, falarei mais abaixo.

Por ora, prefiro contar o lado lúdico, digamos assim, da longa espera. Tanto na ida, quanto na volta, bati muito papo. Com mulheres. Aliás, na minha micropesquisa particular no microcosmo que me ronda, fiz um levantamento que dá conta de que 90% das pessoas que esperam ônibus no meio da manhã são mulheres acima de 60 anos e gostam bastante de conversar. As mais jovens não fazem parte desse grupo de maritacas porque estao sempre com os fones plugados no ouvido, fazem pouco contato com o entorno.

Catarina foi a primeira. Uma jovem de 79 anos, sorridente, cabelos pintados de vinho, roupa de malha elegante e confortável, sandália baixa que deixava à mostra as unhas dos pés, pintadas da mesma cor que as unhas das mãos. Acho isso lindo, o maior cuidado feminino. Nunca consegui a proeza.

Catarina estava esperando o ônibus para Niterói, embora more no Flamengo. É que os carros que fazem a linha Rio-Niterói são mais novos e – detalhe importantíssimo – o primeiro degrau é baixinho. A estratégia de Catarina é de quem morou a vida inteira na selva urbana e que já não pode contar com a força dos joelhos e dos músculos das pernas como antes. Claro que a administração municipal poderia estar olhando para isso com respeito, obrigando os ônibus a se adaptarem a uma cidade que pertence ao estado com o maior percentual de pessoas idosas, segundo último Censo do IBGE (2022). No  município, 20,3% da população têm mais de 60 anos. Não é um número desprezível. Custa baixar os degraus dos ônibus para facilitar a subida e descida?

Mas, enquanto a sustentabilidade urbana é apenas promessa no quesito transporte/mobilidade, vamos tecendo histórias, criando afetos. Os humanos costumavam ser melhores nisso, mas ainda há quem se interessa pelo outro.

Depois de me contar sua estratégia, o que nos rendeu boas gargalhadas – “Se você quiser fazer isso, só presta atenção para pegar o ônibus certo, o que tem duas portas. Aquele que tem uma porta só é até mais luxuoso, mas não tem passe livre para a terceira idade e custa R$ 15, aí não vale a pena”- Catarina espraiou mais o assunto. Contou-me que mora só, a irmã está sempre por perto, que as duas pintam os cabelos uma da outra desde os 12 anos e que a única vez em que precisou pedir ajuda para fazer isso foi quando levou uma queda em casa e quebrou um braço. A irmã estava viajando. Catarina foi no salão, ainda engessada, e pediu para fazerem a pintura porque “a raiz dos cabelos  já estava toda branca”. De novo prestei atenção na vaidade/cuidado, e invejei. Tenho poucos hábitos de beleza, embora cuide bem do corpo. E Catarina  detestou o resultado, o que a fez voltar ao salão e cobrar.

A conversa ia por aí quando o ônibus dela despontou. Fizemos sinal. Se você, caro leitor, é usuário de ônibus, sabe que este momento, de fazer sinal, pode ser bem tenso. Se o motorista estiver atrasado ou de maus bofes, ele simplesmente não para. Portanto, fazer sinal para o ônibus exige também uma estratégia até perigosa. A gente quase se joga em cima dele para fazê-lo parar.

E lá se foi Catarina, não sem antes olhar pra trás e me mostrar com as mãos que o ônibus tinha duas portas. Deu uma piscadela pra mim, e pronto: ali nos tornamos íntimas confidentes de tática. Ergui o polegar, como a dizer: “ok, captei a mensagem”. E, de novo, rimos.

Alguns minutos depois, Selma se chega. Não sei se já estava ali e se animou para conversar comigo, reconhecendo em mim uma maritaca, ou se tinha recém chegado. Selma ia para casa, mora na rua do Rezende, no Centro. De maneira mais séria, ela também se queixou do tamanho do primeiro degrau do ônibus, e eu já me imaginei como cabeça de um grande protesto – Rio Ônibus, acorda!

Selma já morou em Botafogo nos anos 70, quando a Cobal era recém criada e não havia a quantidade de prédios na Voluntários da Pátria, onde estávamos. Mas teve que se mudar quando se separou, o dinheiro diminuiu. O filho mais velho até chorou, não queria sair de lá.  Este encontro/ bate-papo foi triste, mas rico.

O ônibus de Selma também chegou antes do meu, nos despedimos e virei-me para perguntar as horas para alguém perto. Ah! Sim, eu estava sem celular. E talvez por isso mesmo pude olhar tanto para os lados, conversar tanto.

Já se passavam 25 minutos de minha espera. Começava a ficar impaciente, quando chegou Dora. Com um saco de batatas fritas exalando um cheiro que fez roncar meu estômago, Dora comia e comia e comia. Mas é magrinha, a danada.  E esperta. Quando reclamei da espera, perguntou-me se eu não tenho o aplicativo que diz “certinho’ se o ônibus está chegando. Eu até tenho, mas certa vez perdi o ônibus enquanto tentava me entender com o tal aplicativo. Dora sabia como fazer, mas ela também não estava com celular, daí que não poderia ver quanto tempo esperaríamos ali. Ela aguardava o mesmo 583 que eu.

Fomos salvas por uma jovem acompanhada pelo pai. Ela rapidamente sacou o dispositivo e nos acalmou: o ônibus chegaria em quatro minutos. Para quem estava ali há 40… foi bálsamo para meus ouvidos.

Agora vem a parte nada lúdica ou engraçada de ficar esperando ônibus por mais de 40 minutos. No meu caso, a mesma espera se deu na ida, ou seja, ontem dediquei 1h20minutos de meu dia a fazer nada. Só esperando. Não tinha compromisso algum marcado para aquele meio da manhã, e não tinha texto para entregar. Se tivesse, não poderia esperar,  e me aliaria à lista não pequena de pessoas que desistem e pegam Uber, ou moto Uber. Ambos veículos poluentes, extremamente condenados pelas autoridades. Mas, tá bom… ou isto ou espera sentada. Não dá.

Fico pensando se o prefeito Eduardo Paes conseguiria investir tanto de seu tempo a palrear com moradores num ponto de ônibus (aliás, mal cuidado pra caramba, mas isso é outra história). A resposta é não. Esta alienação das autoridades daquilo que administram é bem ruim. Vira uma retórica inútil, no campo das promessas que nunca são cumpridas.

Basta ir a um encontro, conferência, forum, para entender o que estou falando. O atributo “sustentável’ aplicado à urbanização inclui às vezes longas explanações sobre mobilidade, onde os  transtornos dos consumidores (45 minutos de espera, por exemplo) são tratados com algum menosprezo. O que prevalece é a promessa de mais veiculos para o transporte público, com ar condicionado, novos, todos elétricos, inclusive, para minimizar a poluição.

Os responsáveis pela mobilidade urbana no Rio de Janeiro precisam estreitar o caminho entre intenção e gesto.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Nesse ‘pileque homérico no mundo’, vamos falar sobre coisas boas

Certamente não é prioridade minha, mas é bom compartilhar sentimento. As notícias sobre a guerra comercial, tarifas versus tarifas, andam me deixando com uma enorme vontade de abandonar tudo e ir para o campo plantar batatas. Aliás, ontem à noite eu terminei de ver o dorama “Amor e batatas,” muito bom, recomendo para quem, como eu, não consegue dormir levando para a cama histórias da esperteza de Mr. Trump, que muitos, erroneamente, chamam de loucura. Não, loucura não é isto. O que este homem está causando ao mundo é coisa ruim.

A foto é só para ilustrar. Um beleo pôr do sol na Lagoa Rodrigo de Freitas. Vida em movimento. Foto: Amelia Gonzalez

Na rede social de uma amiga, revi o momento em que Chico Buarque e Gil são censurados, microfones desligados no palco, enquanto cantavam “Cálice” (daí me veio a ideia no título. Querem coisa mais atual do que o mundo num ‘pileque homérico’?). Idos de 1973, ditadura a mil.

Mas, ao dar aquela já cansada passada de olhos pelos jornais, quase certa de que nada vai me surpreender, ontem (10) eu me surpreendi. E foi uma surpresa boa, o que me deixa mais feliz e com vontade de dividir com os leitores.

O sisudo “The New York Times”, jornal que remonta ao fim do século XIX e que em 2023 tinha 9,13 milhões de assinantes, deu espaço a uma jornalista para que ela passe a viajar pelos 50 estados em busca de soluções climáticas locais pensadas e postas em práticas por pessoas comuns. Ou seja: boas notícias! A sessão começou ontem, e tem uma pequena entrevista de apresentação, na qual a repórter Cara Buckley  conta porque decidiu propor a empreitada aos seus editores.

Segundo Buckley, certa vez, fazendo reportagem sobre mudanças climáticas, ouviu de um entrevistado:

“Nós lemos todas essas notícia ssobre emissões, sobre partes de milhão de carbono no ar, mas estamos perdendo essa outra parte da história: muitas pessoas estão fazendo um bom trabalho. Só que não vemos muitas notícias a respeito”.

Foi este o impulso que levou Cara Buckley a criar a seção “50 estados/50 soluções”, que ontem me animou a manhã com algumas histórias interessantes. Há, por exemplo, a reportagem sobre Culdesac Tempe, no Arizona, um bairro que está sendo construído a cerca de 3,2 km do centro da cidade de Tempe para mil pessoas que queiram mudar de vida. Porque lá não há carros. E, obviamente, um bairro sem carros constroi um outro tipo de relação entre as pessoas e o ambiente ao redor.

“É uma das melhores coisas que podemos fazer pelo clima, saúde, felicidade, baixo custo de vida, mesmo baixo custo para o governo. É também um estilo de vida muito melhor. Todos nós nos tornamos a pior versão de nós mesmos quando estamos sobre quatro rodas”, disse Ryan Johnson, o chefe do Culdesac.

Há outros casos interessantes na reportagem inicial da série, como um terreno baldio no Hawai que foi adotado pelos moradores e se tornou um local de saúde. Pessoas passam um tempo do seu dia lá, plantando e colhendo, fazendo terapia com a natureza. Longe das telas e do pânico.

A ideia da jornalista, na verdade, não é nova. E me levou a 22 anos atrás, quando o então editor executivo do jornal “O Globo”, Agostinho Vieira, me chamou em sua sala para sugerir que eu editasse um caderno que estava ainda para ser formatado. A ideia era mostrar projetos bem-sucedidos de empresas grandes,  médias e pequenas que podem ser chamadas de “socialmente responsáveis”. Pouco tempo depois, em junho de 2003, a primeira edição do “Razão Social” ia para as bancas. Na capa, a história de uma padaria no Rio Grande do Sul que ajudava a creche do bairro e insuflava seus funcionários a fazerem o mesmo.

O “Razão Social” viveu nove anos. Nesse tempo, tive uma equipe danada de boa. Os jornalistas Camila Nóbrega, Cristiane de Cássia, Martha Neiva Moreira e Carlos Ivan. Acompanhamos passo a passo o movimento das empresas cidadãs, que cresceu muito, arrefeceu na crise financeira de 2008, teve outros tropeços e, em muitos casos, foi abduzido pelo marketing. A linha editorial do “Razão Social’ foi se adaptando aos tempos, trazendo a questão climática para a cena, convidando especialistas que explicavam o contraditório.  O papel das corporações que, num sistema capitalista, existem para dar lucro e, ao mesmo tempo, são cobradas para dividir esse lucro com a sociedade.

Neste longo caminho, li muitos autores que foram me ajudando a entender melhor o movimento, sobretudo a não cair na tentação de apontar vilãos e mocinhos só pelo papel que estão jogando na sociedade. O poço é mais fundo.

 Joel Bakan, que escreveu e editou os vídeos “The Corporation” (2005)  e “The New Corporation” (2020), foi um desses autores que me acompanhou. O escritor americano-canadense diz que as empresas cumprem o papel que se espera delas no sistema econômico capitalista: dar emprego e lucrar. Há desvios, até porque elas são muito menos reguladas do que deveriam ser. Mas, de verdade, elas ocupam o espaço que damos a elas em nossas vidas. Por isso é importante um estado forte.

Dessa forma, fui entendendo que os bons projetos beneficiam muita gente e tornam-se boas notícias, que merecem ser publicadas. Foi esta a linha editorial do “Razão Social”. Mas, sempre, publicando no mesmo espaço as ideias de autores que nos ajudavam a ir entrelançando, desenhando o caminho das informações. Explicações abrangentes, ajudando a ampliar o pensamento.

Enfim… foi muito bom fazer contato com o material que ontem estava nas páginas de um dos maiores jornais do mundo. No “Razão Social” também publicávamos muitas histórias transformadoras, pessoais, de comunidades, aldeias. O entrelaçamento era nosso mote. Hoje me senti parte de uma história.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Salvem as vieiras, ostras e algas*

Comecei meu relato  sobre a reportagem na Ilha Grande de trás para frente porque, como disse, meu interesse maior são as histórias das pessoas. Mas outros seres vivos merecem atenção: vieiras, ostras e algas.  Vidas que não têm a promessa de estabilidade, como diz outra escritora que anda me acompanhando os dias, Anna Tsing, em seu livro “O cogumelo do fim do mundo”. Pensei muito em suas filosofias durante a visita ao laboratório do Instituto de Ecodesenvolvimento da Baía de Ilha Grande (IED-BIG), ciceroneados pelo biólogo e diretor técnico Renan Ribeiro.

Céu de chuva na Baía de Ilha Grande: problemas quando chove. Foto: Amelia Gonzalez

Mas esta história tem início com uma precariedade: as vieiras, antes abundantes na Ilha Grande, estão escasseando. Motivos para isto há aos montes, desde os barcos que chegam em disparada, maculando seu habitat, passando pela poluição dos mares até ondas de calor, a pesca predatória. Sabemos bem como os humanos conseguem pôr a perder muitas vidas desde a revolução industrial. Mais ainda com a globalização, que passou a exigir tudo em escalas grandiosas.

São tempos para se pensar em adaptação. “Viver com precariedade requer mais do que revoltar-se contra quem nos colocou nessa situação…precisamos reativar a imaginação”, escreve Anna Tsing.

O dinheiro dado pela Prio, sempre via Funbio, incrementou o laboratório do IED, que agora está criando berçários de vieiras e ostras para lançá-las ao mar já em condições de superar os muitos obstáculos à sua vida. As sementinhas passam por algumas etapas, encontram sempre água extremamente limpa e vitaminada no laboratório, agarram-se e crescem seguras em redes chamadas lanternas, feitas de Netlon.

Aqui, uma ironia que retrata bem nosso estágio atual civilizatório: Netlon é uma substância que precisa do petróleo para ser produzida, o mesmo combustível fóssil que pode causar a morte das vieiras, ostras e mariscos que o laboratório salva.

É preciso estar em contato para reativar a imaginação, como sugere Tsing, e se adaptar. Contato é uma palavra latina, que quer dizer toque, convívio, relacionamento. É bem diferente do estado de  alienação que nos envolve a todos nas megalópoles, pelo menos a maioria de nós que busca e precisa, legitimamente, estar a salvo de outras maneiras. E vamos nos alienando do ambiente que nos cerca.

As vieiras vão crescendo e os técnicos precisam estar atentos para mantê-las dentro das lanternas. A certa altura, muitos dias depois, elas passam a estar prontas para a reprodução. Cutuca-se o cantinho da concha e elas se abrem. É lindo de ver. Muitas seguem dali para a mesa, servem-nos como proteína.

Mais adiante fizemos contato com Eduardo Filho e Felipe Barbosa, também da Ambig, que me apresentaram ao mundo das algas. Eles mantém uma fazenda marinha de algas – também com recursos da Prio – e praticam a algicultura. Fiquei sabendo que são seres fotossintéticos, ou seja, organismos que produzem seu próprio alimento através da fotossíntese, um processo que converte energia solar em energia química. Servem para muita coisa, podem nos ajudar de diversas maneiras, até para cosméticos. Ganhei a chance de pegar e acarinhar um molho de algas. Experiência quase tão inesquecível quanto pisar na lama de um mangue.

A fazenda marinha de algas na Baía de Ilha Grande. Foto de Amelia Gonzalez

A velha fábrica, hoje laboratório

Nossa próxima parada foi em novo laboratório, e esta é outra bela história de criação humana. A principal fonte de renda para os habitantes da praia de Matariz foi, durante muito tempo, a Kamome fábrica de salgar sardinhas construída por japoneses da família Ueti. Cerca de trinta anos se passaram, quando a atividade começou a dar sinais inequívocos de que, sem a estação de tratamento adequada, estavam colaborando terrivelmente para a poluição do mar. A fábrica fechou em 1994, talvez não por acaso dois anos depois da ECO92, conferência de meio ambiente que pôs holofotes em muitos impactos ao meio ambiente.  E a edificação ficou ali, sendo aos poucos destruída pela maresia.

A ideia de restaurá-la surgiu e foi impulsionada – novamente com a parceria do Funbio e recurso conseguido por edital do TAC Frade da Prio.   O projeto que seduziu os analistas foi construir ali um laboratório de mexilhões, vieiras e ostras e capacitar jovens da região para fazer uma espécie de berçário artificial, sustentando as sementes dos animais de maneira que eles conseguissem sobreviver até irem para o IED, que visitamos primeiro. A fábrica foi reinaugurada no fim do ano passado. Fomos  recebidos pelo oceanógrafo Julio Cesar Alves, que está à frente do projeto:

“Os projetos do Funbio começaram a mudar o cenário e a dar mais ânimo à região. A ideia inicial era criar aqui o Bijupirá, conhecido como o salmão brasileiro, mas depois ficou decidido que o laboratório seria reservado para a produção de vieiras. Nós produzimos aqui as sementes que seguem para o laboratório do Instituto de Ecodesenvolvimento, na Ambig”, disse ele.

A visita continua

Matariz é uma comunidade de pescadores tranquila, com pouco mais de 200 moradores. Ficamos hospedados numa pousada bonitinha, numa vila de casas bem cuidadas, embora pobres. Uma energia que deve ser padrão das regiões pesqueiras, com turismo na alta temporada e muito sossego no resto do ano.

Além da fábrica, numa espécie de coworking, a edificação mantém também o pessoal da Marulho, que se autointitula “iniciativa de impacto socioambiental”.  Bia e Lucas fundaram em 2019 depois de fazerem contato com um dos maiores problemas para os peixes da região: as redes de náilon abandonadas por pescadores matavam muitos seres marinhos. “Verdadeiramente presentes” (olhem aí Donna Haraway de novo dando rumo aos meus pensamentos), Bia e Lucas se entrelaçaram com alguns moradores e começaram a fazer de tudo com aquelas redes. Hoje estão lançando uma sandália bem bonita. Se você, caro(a) leitor(a), já encontrou produtos com a inscrição “Eu já fui rede”, saiba que vem de lá, do cantinho simpático da praia de Matariz.

O projeto emprega pessoas e salva peixes. Foi preciso imaginar, executar, se consorciar e não replicar o velho modelo de ganância e acumulação. Dá para distribuir o suficiente para se manter vidas com dignidade.

E assim chegamos ao fim da estada. O calor permanecia, e só encontraríamos a frente fria que os fluminenses esperavam dois ou três dias depois. Infelizmente, uma quantidade excepcional de chuvas – os cientistas já avisaram que daqui para frente todos os eventos climáticos serão extremos – desabrigou muita gente em Angra dos Reis, município ao qual a Ilha Grande pertence.

São problemas sem fim, que nos deixam às vezes com um desalento doloroso. Sabemos que vamos ficar com eles, não tem outro jeito.

*Amelia Gonzalez viajou a Ilha Grande a convite da Prio

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Na Ilha Grande, histórias de vidas entrelaçadas com a natureza*

Fazia muito calor. Mesmo com aquele mundo de águas em volta, a sensação térmica era elevada, incomodava. Por volta das 8h fomos encontrar o grupo de marisqueiras na Praia Saco do Céu, que fica na Enseada das Estrelas. Eu estava na Ilha Grande, em Angra dos Reis, com colegas jornalistas a convite da empresa de petróleo Prio, interessada em mostrar o que fez para cumprir o Termo de Ajuste de Condutas (TAC) imposto pelo MP Federal por conta de derramamentos de óleo em 2011 e 2012 na Bacia de Campos, quando as operações ainda eram da Chevron.

Porto de Matariz, Ilha Grande. Foto: Amelia Gonzalez

Já o meu interesse, ali, era ouvir histórias de pessoas que convivem intensamente com a natureza, que vivem de seus bens. Extrativistas orgânicos, por assim dizer.  E, como sói, são justamente aquelas que mais sentem os efeitos devastadores das mudanças do clima, resultado dos impactos que a humanidade está causando ao meio ambiente. São tempos perturbadores e é preciso dar voz a quem está “verdadeiramente presente”, como diz a filósofa e zoóloga Donna Haraway no livro “Ficar com o problema”.  É dessa forma que se pode evitar pensar com a cabeça no futuro (“tecnocismos”) ou no passado (“como era bom quando o mar e o ar eram limpos”).

Durante dois dias visitamos alguns dos projetos que a empresa ajudou com recursos, entre eles duas fazendas marinhas. E ouvi relatos de pessoas que foram beneficiadas por esse dinheiro, já que a escolha da Prio foi espalhar mais a verba do que centralizá-la em uma grande organização.

Ilha Grande e toda a sua majestosa quantidade de águas. Foto de Amelia Gonzalez

A Ilha tem várias enseadas, e seus habitantes vão se organizando em grupos, entrelaçados, criando formas de melhor viver. O livro “Narradores das estrelas – Histórias de Ilha Grande”, feito com o recurso do TAC,  mostra esse entrelaçamento de forma poética até. A publicação relata trechos da vida de 23 moradores do Saco do Céu, num desenho que os organizadores decidiram chamar de mapa. As falas são publicadas in natura, com quase nenhuma revisão, e trazem relatos fiéis ao mundo em que vivem, que pode ser harmonioso, frutífero, avassalador e estéril. Ali quem manda é a natureza.

Turismo Comunitário

No segundo dia da nossa estada na Ilha acordamos bem cedinho para conhecer o projeto Turismo Comunitário. Alguns minutos de voadeira nos separavam da praia de Matariz, onde estávamos hospedados, à outra praia, que fica na região Saco do Céu, onde estariam nossos entrevistados. Pouco antes de chegar à margem, o timoneiro diminuiu a marcha para não perturbar os mariscos, vôngoles e ostras. É assim que deve ser feito, mas infelizmente o padrão não é mantido por todos os barcos.

O jovem caiçara Marcos Vinicius Corecha já nos esperava, como um bom guia turístico. Com 21 anos, ele está cursando Ciências Biológicas mas, para além da graduação acadêmica, Marcos tem uma vivência prática, gosta do lugar e cria rumos, se importa, faz contato. Fala em “mapeamento dos saberes da Enseada das Estrelas” com respeito àqueles que já estão ali há muito tempo. Com o recurso destinado pela empresa, que chegou via edital no Funbio,  há um ano ele e outros companheiros criaram o “Turismo de Base Comunitária Enseada das Estrelas e Suas Raízes”, que já tem sido bastante procurado por quem quer conhecer histórias e culturas do local por seus mestres e jovens.

Um dos roteiros inclui café da manhã tradicional na comunidade, conversa com mestres do local e visita a um cerco flutuante, arte de pesca que é importante ferramenta de manejo sustentável. Os pescadores selecionam apenas os peixes para o consumo, e devolvam ao mar os demais. 

Na mesma enseada, fomos apresentados às marisqueiras, outra atividade que faz parte da cultura local. Jaisa dos Santos Assis, neta de Maria Nascimento, filha de Lindalva e mãe de Taís, todas marisqueiras, foi nossa guia, e as mulheres já estavam colhendo os mariscos, o que fazem com as mãos, pés na lama e na posição de cócoras.

O mangue estava à minha frente e me oferecia uma experiência nova: andar com os pés enterrados na lama que serve de berço a muitas vidas. Fiquei em dúvida, mas decidi encarar. A sensação é estranha, o caminhar precisa ser lento, qualquer escorregão leva ao chão o incauto, sujando de lama tudo o que carrega. Enquanto eu me equilibrava em passos bêbados, Jaisa ia contando a saga das marisqueiras:

“Não temos mais tantos mariscos, em parte por causa dessas lanchas que chegam carregando areia, mexendo no fundo. Antigamente nós comprávamos e vendíamos para os restaurantes da Ilha, mas hoje quase nenhum deles compra. Preferem comprar de que compra daqui e leva até eles”, disse Jaisa.

Jaisa fala dos atravessadores. Lembro-me de uma viagem que fiz a uma comunidade de açaizeiros no Pará onde a queixa era a mesma. No final das contas, essas pessoas cumprem um papel na roda da economia, já que os donos de restaurantes não querem perder tempo com o deslocamento. Mas cobram caro por isto.

Jaisa prossegue, contando também que tudo mudou nos anos 1980, quando a Ilha Grande passou a ser considerada Área de Proteção Ambiental Estadual de Tamoios.

“Plantávamos a mandioca, a banana, o café. Aqui tinha fábrica de farinha, era uma ação comunitária. Hoje não podemos mais tirar uma árvore, como a Bacuruvu, que servia para fazermos canoa e andar pelo mangue sem importunar a vida dos mariscos. O Inea vem, multa”, conta ela.

As marisqueiras criaram uma Associação de Moradores e Pescadores da Enseada das Estrelas (AMPEE) em 2013 para edificar uma integração entre elas pela proximidade geográfica. Nisso, criaram também o mais importante: relações de amizade e solidariedade. O resultado é uma organização local afável que conseguiu, com muita luta e resistência, transporte marítimo para levar as crianças à escola, um posto de saúde, equipamentos públicos.

A manhã já ia pelo meio, o sol castigava ainda mais,  quando Marcus nos levou para apresentar seu tio, misto de historiador, engenheiro, pescador e carpinteiro, Pedro Paulo Ferreira, 60 anos. Ele estava em sua oficina a céu aberto e nos mostrou uma pequena embarcação que estava acabando de construir. Pedro Paulo também tem lembranças doces do passado:

O mestre Pedro Paulo sendo entrevistado por mim em Matariz, praia de Ilha Grande. A foto é de Custodio Coimbra, jornalista que estava no tour para a impresna

“O que mais me faz falta, daqueles tempos atrás, antes de virarmos Unidade de Conservação, é a liberdade que eu e todo mundo aqui tinha. Podíamos plantar, tirar uma ou outra árvore, pescávamos nossos peixes. Fazíamos farinha da mandioca, tomávamos nosso próprio café”.

Pergunto se ele está sentindo os efeitos do aquecimento global, ele responde afirmativamente. Pergunto se ele reconhece que houve abusos e que tais abusos podem ter causado o aquecimento, ele me diz ok, mas…

“Olha em volta e veja essas mansões milionárias que estão sendo construídas, algumas até com heliponto. Pode imaginar quantas árvores foram cortadas para isto? Agora eu pergunto: cadê o Inea, que não vem multar, prender, como faz conosco quando tentamos tirar uma árvore que seja?”, perguntou.

Eu não tive resposta a sua pergunta.

Antes de nos despedirmos, Pedro Paulo fez questão de nos mostrar a canoa caiçara, transporte característico da região no tempo em que as árvores Bacurubu eram sortidas e podiam ser arrancadas pelos locais.

Não consigo me solidarizar com Pedro Paulo na história da Bacurubu, mas respeito muito sua experiência de vida e estou com ele na luta pela igualdade de direitos. O Inea não pode escolher a quem multa.

Encerro este texto com o pensamento de Stefano Mancuso, a maior autoridade em neurobiologia vegetal. Em “A Nação das plantas” ele alerta:

“O homem, ainda que se comporte como tal, não é de modo algum o dono da Terra, mas somente um dos seus condôminos mais desagradáveis e molestos […] conseguiu alterar tão drasticamente as condições do planeta que o tornou um lugar perigoso para a sua própria sobrevivência”.

A viagem continuou, e na próxima quarta-feira eu conto mais.

*Amelia Gonzalez viajou a Ilha Grande a convite da Prio.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

‘Ficar com o problema’ inspira presidente da COP30 em carta pública

O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, publicou uma carta pública na semana passada. É de praxe que os presidentes de COPs façam isto, com o objetivo de se apresentarem e divulgarem o que o país espera oferecer para o encontro. Mas Corrêa do Lago foi além dos dados e da demonstração de ações, que são muitos. No seu texto, o embaixador faz algumas reflexões filosóficas sobre o que a humanidade está vivendo, em tempos de pressão climática. E é neste ponto que vou me deter, para compartilhar algumas impressões com vocês.

Uma bela imagem do Rio Amazonas. COP30 será na região. Foto de Amelia Gonzalez

 A linha mestra, que costura todo o texto da carta, é uma exortação à comunidade internacional, para que enfrente coletivamente o perigo dos eventos causados pelas mudanças climáticas. O sentido de urgência, que já se tornou comum nos discursos das COPs, está presente.

“Devemos enfrentar a mudança do clima juntos e reativar nossas habilidades coletivas e individuais de resposta: nossas “responsa-habilidades”, afirma Corrêa do Lago.

Quem já leu “Ficar com o problema”, da filósofa e zoóloga estadunidense Donna Haraway, sabe que esta expressão – ‘responsa-habilidades’ – é criação dela. Confesso que fiquei feliz com a citação na longa carta de 12 páginas, embora não tenha referência à criadora do termo. Importante saber que Haraway defende que “é preciso que pratiquemos a respons-habilidade por meio da prática da fabulação”. Verbo que também pode ser entendido como sinônimo de criar.

Não me passou despercebido, portanto, que Corrêa do Lago talvez tenha lido Haraway e se sentiu, de alguma forma, sintonizado com ela. A carta do embaixador diz que a COP30 deve ser o momento da “esperança e das possibilidades por meio da ação – jamais da paralisia e da fragmentação”. E Haraway, que transita pelos “mundos humano-animais”, diz que “precisamos uns dos outros em colaborações e combinações inesperadas, em amontoados quentes de composto”.

São duas formas diferentes de dizer que “sozinhos, com nossos  diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco”.

A carta de Corrêa do Lago conclama a comunidade internacional a se juntar ao Brasil “em um mutirão global contra a mudança do clima, um esforço global de cooperação entre os povos para o progresso da humanidade… dos governos nacionais aos municipais, dos mercados de capitais internacionais às pequenas lojas de bairro, dos principais agentes tecnológicos aos inovadores locais, dos conhecimentos acadêmicos aos tradicionais”.

Neste trecho, lembrei-me de outra pensadora que também dialoga, mesmo que timidamente, com os pensamentos do embaixador: Anna Tsing, de “O cogumelo no fim do mundo”. Mas, aqui, será preciso um exercício de conectar ideias.

Haraway e Tsing têm em comum não o derrotismo, como muitos desenvolvem ao ouvir uma retórica já tão batida nas COPs. As duas autoras apresentam uma revolucionária ideia de identificar o problema – sem, contudo, amplificá-lo – e viver com ele, fabulando modos de bem viver.

Para cada pessoa, bicho ou planta, há de ter um meio diferente de conseguir estar no mundo e ficar com o problema. Tsing diz que é preciso reativar a imaginação, e me proponho a pensar de forma compartilhada, neste espaço, dizendo que, para mim, ficar com o problema é, justamente, viver com o tanto que eu tenho hoje, muito menos do que já foi, mas de forma digna e bem.

A fonte de Haraway é a relação entre espécies:  bichos, plantas, homens. “Ficar com o problema requer estabelecer parentescos estranhos”, diz ela, enquanto me pego pensando em Fernanda e na barriga da pedra. “Sozinhos… sabemos muito e muito pouco”. E então sucumbimos ao desespero ou à esperança, diz ela.

Faz sentido, para vocês,  costurar o pensamento de Corrêa do Lago sobre a COP30 com filosofias tão revolucionárias como de Haraway e Tsing? Para mim, faz. É assim que eu consigo ler com propósito.

Agrego Tsing a esta linha de pensamento. A antropóloga, também estadunidense, alerta: “O problema é que o progresso parou de fazer sentido”, e afirma que o rei estava nu, alusão à forte conexão da palavra progresso com “sempre algo melhor adiante”. O “adiante” esbarra num sistema que não foi contemplado no texto que o  embaixador dedica à humanidade.

Corrêa do Lago prefere chamar de ‘arquitetura financeira”, mas evoca esperança quando diz que ela pode ser “reformada e aprimorada” para acabar com a desigualdade, o câncer do mundo (meu atributo). E continua dando asas à imaginação quando diz que a COP30 pode registrar o nascimento de “uma única nova revolução industrial que seja consciente em relação ao clima”.

“O reconhecimento da necessidade de agir o mais rápido possível para enfrentar a urgência da mudança do clima deve inspirar novas atitudes. Devemos reconhecer que questões consideradas “problemas” podem emergir como importantes “soluções”, diz o embaixador.

Para isso, seria bom ouvirmos Tsing. É genial a ideia da autora, ao destrinchar à luz da ecologia a expressão alienação, apontada por Marx em sua teoria econômica como uma situação típica do capitalismo, em que as pessoas são separadas dos bens que produzem. É um menosprezo aos entrelaçamentos, às composições.

“O sonho da alienação inspira a modificação da paisagem, na qual se isola apenas aquele recurso que se considera importante; tudo o mais se torna ervas daninhas ou descarte […] Quando aquele recurso específico já não pode mais ser produzido, o lugar é abandonado. A madeira foi cortada; o petróleo acabou; o solo das plantações já não sustenta mais as lavouras. A busca por ativos é retomada em outro lugar”.

Isto só é possível por conta da alienação. Porque nos transformamos, também, em ativos. Ficar com o problema é perceber que o mundo não será salvo. Ficar com o problema é viver no presente, e aí a adaptação, palavra tão repetida nas COPs, faz sentido. Encerro com Corrêa do Lago e seu chamamento:

“O realismo climático exige que a adaptação esteja na vanguarda e no centro de tudo o que fazemos como governos, setor privado, membros da sociedade civil e indivíduos. Uma grande inflexão sobre adaptação na COP30 será a porta de entrada para alinhar nosso processo multilateral com a realidade cotidiana das pessoas: a adaptação climática é o veículo para o cuidado e o reparo rumo à transformação coletiva”.

Mas vou continuar pensando. Se você quiser se juntar, escreva no comentário.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Sobre alienação e o futuro possível para cada um de nós

Na primeira semana de fevereiro eu estive em um evento que aconteceu em um auditório muito bem climatizado, com o ar refrigerado funcionando a todo vapor. Não podia ser diferente, já que os termômetros, do lado de fora, marcavam inacreditáveis 46, 47 graus. As chuvas de fim de tarde aqui no Rio de Janeiro estão marcando a despedida do verão, portanto as temperaturas estão um pouco mais suportáveis hoje. Um pouco…

Mas naquele dia, pouco depois de sair do auditório onde precisei usar até mesmo um xale para me proteger do frio, e encarar o calorão, soltei as rédeas do pensamento. Não será por falta de conferências internacionais que a humanidade vai deixar de tentar outra forma de produzir e consumir para diminuir os eventos extremos causados pelas mudanças do clima. No entanto, COP após COP, o que vemos é se acirrarem os debates sem muitas chances de alcançar soluções.

Fiquei pensando sobre alienação, palavrinha potente quando lida e entendida sob a visão antropocênica.

Acompanhem comigo: os líderes que tomam as decisões nas conferências estão alienados do ambiente ao redor.  Não andam nas ruas como nós andamos.

Largo da Carioca em fevereiro: um forno. Foto Amelia Gonzalez

Imaginem a rotina de um CEO ou de um chefe de estado. Dos tapetes de casa para o helicóptero ou o jatinho, não há chance de pisarem em asfalto, sentirem o bafo de um Largo da Carioca ao meio-dia de fevereiro.

Sem viver esse desconforto brutal que nos deixa no dilema, entre ligar o ar e ver a conta de luz estourar o orçamento, ou ficar num calor danado, os líderes e autoridades somente teorizam. E muitos entram no terreno da retórica inútil: “Quero que meus netos tenham qualidade de vida”; “A urgência climática nos obriga a tomar atitudes em parcerias”; “É preciso cortar imediatamente as emissões de carbono”; “Meu negócio não sobrevive se não for sustentável” são algumas frases recorrentes. Mas a prática ficará sempre para o futuro.

O economista estadunidense Kenneth Boulding (1910 – 1933) foi um especialista em se esforçar para alcançar efeitos práticos nos debates. Basicamente, ele reconheceu desde sempre a finitude dos bens naturais. Tanto que muita gente o põe na galeria dos que iniciaram o atual conceito de sustentabilidade. Disse Boulding, certa vez:

“Aquele que acredita que um crescimento exponencial pode continuar eternamente em um mundo finito ou é uma pessoa insana ou é um economista”.

Claro, foi uma provocação. Mas…

A primeira coisa que vem à mente quando se lê um alerta desses é: “E aí, vamos pesquisar mais sobre petróleo?”. A resposta é sim. A menos que haja uma concertação mundial para acabar com tudo o que, hoje, significa conforto. Incluindo o ar-condicionado que tanto me fez bem naquele dia, naquele evento.

O nosso pulo do gato será estudar formas de baixar essa produção sem causar o desemprego de milhões. Além disso, sim, precisamos produzir de forma consciente, sem degradar tanto o ambiente. Sabemos fazer isto.

Quanto a nós, vamos precisar pensar seriamente em reduzir muito nosso consumo, em mudar muito os nossos hábitos, e tudo isso terá que ser feito, dentro do possível, em conjunto. Uma grande concertação para baixar as emissões verdadeiramente. Àqueles que defendem o uso de tecnologias, vamos agradecer e dizer: está muito tarde para isso. Agora é preciso saber que, como diz Kohei Saito, “a maioria de nós, pessoas comuns que não têm margem para manobras no cotidiano, perderá o modo de vida e terá que procurar desesperadamente uma alternativa para sobreviver”.

Não será um futuro tranquilo, muito menos com qualidade de vida. Vai ser o futuro possível para cada um de nós.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

A menina Fernanda e a barriga da pedra

Fernanda é uma garota muito esperta.

Tem 5 anos, mas parece que tem mais. É tão esperta que um dia, caminhando pelo bairro e conversando comigo, ouviu atenta até franzir o cenho quando eu disse que as pedras são seres vivos e que respiram. Estávamos passando por um muro de pedra que tem pequenas elevações, Fernanda passou as mãos com cuidado numa dessas elevações, ficou um tempo calada e decretou:

“Então esta é a barriga da pedra”.

Eis a barriga da pedra, batizada assim pela menina Fernanda

Ficamos assim combinadas, aquela pedra, um ser vivo, estava mostrando sua barriga para nós duas. E a conversa continuou. Eu tinha acabado de ler, no site Doomsday Clock , aquele que revela quanto tempo falta para o fim do mundo, que estamos a 89 segundos da falência. É isso mesmo: conte vagarosamente até 89, é esse o prazo. Os cálculos são feitos por pessoas que não recebem nada para fazer um apanhado geral dos riscos que a humanidade está correndo.

A proximidade de uma guerra nuclear é o risco mais elevado no momento. E, é claro, a posse de um presidente negacionista na nação mais poderosa, a favor de atos violentos como algemar pessoas e mandá-las para seus países em aviões sucateados, é um fator que colabora para a sensação de insegurança, medo, vergonha, sei lá. Só sentimentos ruins.

Claro que eu não me excedi no relato, não vinha ao caso. Fernanda é, apenas, uma criança. Mas a geração dela vai herdar essa bagunça toda, e fico na torcida para que tenham sensibilidade, subjetividade, criem valores novos e fujam de tudo o que possa ser banal.

Que tal começar fazendo contato com a ecologia dos saberes? É uma expressão criada por Boaventura de Sousa Santos, replicada por Aylton Krenak em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo”.

Busquei o livro, aqui na estante, e fiquei quase surpresa: sem saber da teoria, Fernanda estava praticando, justamente, a ecologia dos saberes ao dar um nome de órgão humano à protuberância da rocha.

Vejam o que diz Krenak:

“A ecologia dos saberes deveria também integrar nossa experiência cotidiana, inspirar nossas escolhas sobre o lugar em que queremos viver, nossa experiência como comunidade”.

Tomara que Fernanda siga assim, nessa importante integração.

Para isso, precisa sse sentir mais à vontade, quase íntima, com o lugar onde vive.

Uma ideia puxa a outra, e volto ao meu post anterior, onde resenhei “O Capital no Antropoceno”. O livro do japonês Kohei Saito tem referências muito boas, ideias boas, talvez para adiar o fim do mundo.

Uma das ideias apontadas como bem-sucedidas é o “Fearless Cities”, um movimento global informal de ativistas, organizações, vereadores e prefeitos. Segundo o site da associação, envelopado no site da Fundação Sentit Comú, que em tradução literal quer dizer “Sentir-se comum”, o movimento Fearless Cities trabalha para “radicalizar a democracia, feminizar a política e impulsionar a transição para uma economia que se preocupa com as pessoas e com o meio ambiente”.

As propostas são interessantes, há espaço para muitos debates, mas o movimento ainda chegou ao Brasil. Quem sabe a geração da Fernanda consegue trazê-lo?

O movimento fala sobre municipalização, conceito expandido a partir de uma conferência realizada em Barcelona em 2017 que de define “por sua vontade de transformar, e de acabar com o medo”. Para isso, sugerem dar nomes aos medos e pensar, coletivamente, como fazer frente a eles.

Lendo sobre a definição das cidades sem medo, lembrei-me de uma viagem que fiz à China em 2008 para participar, como ouvinte, de um seminário que se chamava Cidades Sustentáveis. Um dos palestrantes foi Enrique Peñalosa, economista e urbanista colombiano, que foi prefeito de Bogotá entre 1998 e 2001, revolucionando políticas urbanas e transportes de tal forma a conseguir tirar a cidade do triste ranking de ser a mais violenta do mundo. Pois bem, após a palestra eu me aproximei de Peñalosa e perguntei: “Prefeito, o que é uma cidade sustentável?’

“A cidade que não provoca medo em seus habitantes”, respondeu-me ele.

Percebam que Peñalosa não estava se referindo a bandidos ou policiais violentos que transtornam a vida das cidades. Ele estava se referindo, naquele instante e para aquela resposta, aos prédios enormes, calçadas pequenas, carros em alta velocidade, bicicletas que podem atropelar, à falta de espaços verdes.

 Em resumo, ele falava sobre uma cidade que possibilitaria a todas as meninas Fernandas um espaço para criar figuras como a barriga da pedra. Sem medo e dando asas a uma imaginação que, se desenvolvida de maneira livre, pode agregar muito ao ambiente urbano  no futuro.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Livro ‘O Capital no Antropoceno’ põe em debate as questões climáticas e oferece solução: o decrescimento

Aos 37 anos, portanto um representante legitimo da geração Y, o professor de economia politica na Universidade de Osaka e escritor japonês Kohei Saito, membro do conselho editorial  internacional  do projeto Marx-Engels-Gesamtausgabe, parece ter sentido que sua geração, e a de seus filhos e netos, terão mesmo uma dura vida por conta dos eventos extremos causados pela crise climática. E resolveu pesquisar, em estudos e publicações heterodoxas, respostas para uma instigante pergunta: “Não é muito cedo para desistir, quando ainda temos tantas possibilidades?”

Pesquiso o tema há mais de vinte anos, e não vou me poupar de dar aqui um depoimento enfático: o livro que Saito escreveu após suas pesquisas –  “O Capital no Antropoceno”, editado pela Boitempo – respondeu a muitas de minhas perguntas. Mais do que isso, a leitura de Kohei Saito foi me oferecendo a chance de fazer um mergulho também nas obras de filósofos que nos mostram o caminho para que a diferença se manifeste, quebrando o campo da representação.

O ex vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore ganhou o Prêmio Nobel em 2006 revelando ao mundo uma “verdade inconveniente”. Àquela época, a mídia publicava o tema a página dois, dedicada aos assuntos importantes mas anódinos. Num estilo quase apocalíptico, Al Gore desfilou por corações e mentes um cenário triste, de fim do mundo como nós o conhecemos, embasando uma concepção que se tornou quase um mantra: se as emissões de carbono continuarem, o fim do século será muito quente. A humanidade precisava salvar o planeta.

Dezessete anos depois, Kohei Saito lança um livro com muitas verdades muito mais inconvenientes, e certamente não será protagonista de um documentário, tampouco talvez laureado com a premiação tão almejada. Possivelmente porque, diferentemente de Gore, o asiático não traz respostas que nos deixem tranquilos. Nossa participação não pode ser a compra de ecobags ou trocando o carro para um elétrico. É preciso agir em associações.

“O Capital no Antropoceno” analisa o entrelaçamento do capital, da sociedade e da natureza no Antropoceno e aponta falhas nas instituições até agora pensadas pelo main stream para dar solução à crise climática. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o Mercado de Carbono, a Tecnologia Verde, a Economia Verde, o Green New Deal são, para o autor, escapismos vendidos, cada qual à sua maneira, como deuses ex-machina. O asiático aponta fatos que endossam o que diz e que nem sempre ficam expostos para o público.

A transição total para veículos elétricos pode parecer sedutora, por exemplo. Mas, quando se olha o processo de produção desses carros, eles são feitos com produtos que impactam, destroem o ambiente. Quanto ao combustível, se for à base de etanol, quanta terra será desmatada? E, para as baterias, será preciso minerar cada vez mais e mais para conseguir o lítio necessário.

Nesse ponto, Saito traz uma conclusão que parece óbvia e  que leva à proposição fundamental de seu livro:

“ Não tem nada de sustentável no fato de uma família ter mais de um carro, mesmo que todos sejam elétricos”.

O marxista Kohei Saito se junta, então, ao Papa Francisco que, em sua Encíclica editada em 2015 – “Laudato Si” – provoca os fieis a pensarem em um outro tipo de civilização, onde produção e consumo sejam rebaixados. Escreve Saito:

“O objetivo deste livro é mostrar que a grande mudança que precisa ser gerada é, justamente, desafiar o próprio sistema capítalista”.

Rufem os tambores porque entramos num terreno fértil para o pensamento dialético. E polêmico.  A partir da metade, Saito desvela o título de seu livro. Ele localiza Marx no Antropoceno e convida os leitores para uma nova interpretação da teoria marxista com base em estudos e pesquisas no projeto Marx-Engels-Gesamtausgabe (Mega) – a maior coleção de escritos de Marx e Engels em qualquer idioma – do qual faz parte como membro do conselho editorial internacional. O pensador alemão, segundo textos descobertos dos últimos 14 anos de sua vida, preocupou-se  com a pegada humana sobre os bens comuns (atenção: não são recursos naturais).  E rompeu com o produtivismo.

“A chave aqui é a teoria do metabolismo material que Marx desenvolveu em O Capital. O ser humano vive sua vida neste planeta interagindo constantemente com a natureza, produzindo, consumindo e descartando diversas coisas. Marx chamou essa interação cíclica com a natureza de ‘o metabolismo material dos humanos com a natureza’”, escreve Saito.

Ocorre que o capital “causa uma grande perturbação no metabolismo dos seres humanos e da natureza”. Ele faz uso “completo dos seres humanos e da natureza” e, como se pode observar, a “atividade ilimitada do capitalismo é incompatível com a natureza”. Sendo assim, “a consequência disso é o Antropoceno, e essa é também a raiz da crise climática atual”.

Kohei Saito passa a descrever parte de sua pesquisa  no Mega, pincelando aqui e ali trechos importantes, fazendo links com o momento que vivemos, apresentando soluções para além da retórica inútil. Para que dê certo o “comunismo do decrescimento”, teoria marxista, é necessário, sobretudo, um forte sentimento de comuna.

“Após catorze anos de estudo, Marx concluiu que a sustentabilidade e a igualdade baseadas numa economia estacionária serviriam como resistência ao capital e se tornariam a base da sociedade futura”, escreve Saito.

Não às “tecnologias fechadas”, que priorizam os países desenvolvidos em detrimento das pessoas “de fora”.  Sim às Assembleias de Cidadãos para o Clima, abertas a todos os cidadãos e cidadãs que queiram participar da elaboração de planos para o enfrentamento aos impactos do clima em seus municípios. Não ao “politicismo”, ou seja, eleger bons políticos e esperar que eles façam tudo – “A política parlamentar por si só não pode expandir o alcance da democracia”. Sim à municipalização. Não à subsunção do capital, ou seja, tornarmo-nos impotentes a ele.

Saito vai além: “Precisamos parar de ligar o crescimento econômico à riqueza e considerar seriamente a combinação entre decrescimento e riqueza”.

Consideremos não recursos naturais, mas bens comuns, como terra e água, já que “ter água em abundância é, ao mesmo tempo, desejável e necessário para as pessoas. Nessas condições, a água é gratuita. Essa é a forma ideal de ‘riqueza pública’”.

A juventude de Saito o auxilia a desenvolver estratégias, muitas delas com base no que já vem acontecendo em alguns cantos do mundo, dando aos cidadãos um poder de participação que ele chama de ‘cidadanização”, em uma brincadeira com a palavra privatização. Mas o autor não brinca quando descreve pilares do comunismo de decrescimento, entre eles a “transição para uma economia  do valor de uso”. E enfatiza que o comunismo de decrescimento vai ajudar a sociedade a enfatizar “as indústrias de mão de obra intensiva (valor de uso)”.

“O trabalho de cuidado é uma produção que prioriza o valor de uso (setores difíceis de mecanizar). Por exemplo, um cuidador não auxilia a alimentação, ajuda a se vestir e a tomar banho simplesmente seguindo um manual… O mesmo vale para pedagogos e cuidadores de crianças e bebês. “

São chamados de “trabalho emocional”, que “não se pode dobrar ou triplicar a produtividade aumentando o número de pessoas atendidas”.  O cuidado e a comunicação requerem tempo.

“Se perseguirmos a produtividade  para aumentar o lucro (valor de troca), a própria qualidade do serviço (valor de uso) acabará decaindo”.

Essa é uma tendência mundial, acrescenta Saito, citando alguns exemplos. “Podemos nos solidarizar com eles nesse momento? Ou iremos nos ater à bullshit economy, que desconsidera  o valor de uso e dá prioridade ao valor de troca?”

Não creio que seja preciso decifrar a expressão em inglês, tampouco acho necessário descrever a rotina de um trabalhador médio, sem tempo para mais nada que não seja cumprir suas funções para pagar boletos no fim do mês.

Caminhos concretos para além da crítica

Como eu disse no início do texto, o jovem Saito possivelmente faz as contas: em 2050, quando o cenário mundial estará modificado para pior por conta dos efeitos dos eventos climáticos, ele terá 62  anos.  Como será seu dia a dia, um senhor entrando na sexta década de vida, portanto com muito chão pela frente, num mundo com ar irrespirável, oceanos acidificados e dependendo de  alimentos cada vez mais processados por falta de terra para plantar?

Posso imaginar que, por tudo isso, Saito traça caminhos concretos, para além das críticas. Um deles é o decrescimento. Mas ele  sabe também que terá muitos críticos, até mesmo de ambientalistas que acreditam nas estratégias postas atualmente como soluções. Quase sempre postergadas, por falta de um entendimento global, como acontece com as COPs (quando termina uma, a mensagem é sempre que a próxima terá a tarefa de alinhavar acordos que não foram conseguidos).

Assistindo ao excelente encontro que reuniu três especialistas para debater o “Capital no Antropoceno”, ancorados pelo jornalista Bruno Torturra na TV Boitempo, eu encerro este texto com a pergunta que ficou no ar durante o programa:

“O crescimento econômico produz qualidade de vida? Onde esse crescimento se torna real na vida das pessoas?”.

Leiam o livro. Vale a pena.

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Trump culpa a luta pela preservação de um peixe pelos incêndios que devastam Los Angeles. É só o começo

Uma vez mais a nação mais rica do planeta entrega sua liderança ao negacionista Donald Trump. Assim como em 2016, são esperados retrocessos gigantes na área ambiental, e países que se inscrevem nas agendas do setor apenas para marcar presença nas conferências, vão se sentir à vontade para cair fora quando os Estados Unidos começarem a retroceder nos acordos. As consequências não vão demorar muito para surgir, como agora, nos incêndios que estão acabando com casas e pondo em risco vidas no estado da Califórnia.

Claro que não estou dizendo que o fogo já é culpa da política negacionista. Mas em declaração informal, Trump não perdeu tempo para pôr em evidência seu pensamento anti preservação e, como sói acontecer, sua fala é reverberada. Segundo ele, a política adotada pelo governador  Gavin Newsom, da California, para tentar salvar uma espécie de peixe chamada smelt, pequenino, que está sendo sugado pelo bombeamento de águas do delta da baía do norte da Califórnia para as fazendas locais, é a grande responsável pelo desastre.

Já os ambientalistas locais vêm alertando, desde há muito tempo, que o fato de os smelts estarem em extinção é um alerta importante para o colapso iminente do delta.

Mas Trump, nas redes sociais, chamou smelt de inútil e o governador de incompetente porque se recusara a assinar uma declaração permitindo que mais água fluísse, do delta, para o sul do estado.  Os jornais, no entanto, não apostam que a política implementada por Joe Biden, que permitiu que a água fluísse mas com esforços para proteger os peixes, tenha sido a causadora do desastre.

Os incêndios florestais na área de Los Angeles estão sendo provocados por ventos secos, temperaturas altas e oito meses de seca quase total. Responsabilizar os esforços para salvar um peixe de extinção é querer impulsionar suas ideias negacionistas e deixar claro que o ativismo em prol de politicas que possam considerar a possibilidade de baixar emissões de carbono, de preservar florestas em pé, de respeitar a biodiversidade terá, novamente, um inimigo poderoso.

E assim começamos 2025, ano em que o Brasil vai sediar a Conferência das Partes sobre o clima – COP30. Temo que, diante do cenário que vem do hemisfério Norte, a reunião seja esvaziada ou sirva apenas como palco para os movimentos  socioambientais se manifestarem. O que não é ruim, claro. Mas precisamos de muito mais do que isto.

Estava preparando um texto para inaugurar o blog em 2025 com alguns aforismos sobre a nossa civilização na era dos extremos climáticos.  Mas fui atropelada pela declaração de Trump.

Fico devendo a vocês, por exemplo, subsídios para reflexão sobre os gastos com guerras versus investimento em melhorar a qualidade de vida; sobre o papel de um dos países mais pobres do mundo, o Iêmen, que se tornou importante adversário no Oriente Médio, barrando navios. Andei pensando também sobre a nossa incrível capacidade de gerar lixo não orgânico, sobretudo em tempos de festas natalinas, onde o hábito de dar “lembrancinhas” grassa pelas famílias.

E terminaria pensando sobre a convocação do prefeito Eduardo Paes, que anunciou um choque de civilidade em seu quarto mandato. Será possível pensar em civilidade sem que os cidadãos consigam, prioritariamente, cuidar de si? De que maneira a administração municipal pode ajudar nesse importante movimento? Distribuição de água para os moradores de rua, por exemplo, pode ser um importante passo, assim como a revisão dos horários de ônibus, que muitas vezes nos deixam esperando muitos minutos. E plantar árvores, muitas árvores, pela cidade.

Mas aceitar a convocação do prefeito também passa por mudança de hábitos. Dos nossos hábitos.

Enfim… como sempre, um turbilhão de pensamentos, de notícias, mais vontade de escrever do que tempo para dedicar ao blog.

No rol das promessas que a gente sempre se faz nessa época, eu ponho essa tarefa, que tanto me faz bem. Escrever, espalhar informação.

Apesar dos pesares, estou com uma sensação de que 2025 vai ser um bom ano. E desejo a vocês saúde, trabalho e alegria.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Uma grande novidade, envelhecer

“Se cada idade é nova, o envelhecimento é uma novidade”.

Ouvi essa frase numa aula de filosofia do professor Auterives Maciel, e estou ruminando esse pensamento desde então.

Hoje eu faço aniversário. Passo, portanto, a ter uma nova idade. E vou encarando, assim, a grande novidade que é o envelhecimento.

Hoje o dia amanheceu colorido, céu azul, muito calor. À tarde, porém, já estava cinzento. E menos quente.

Hoje trabalhei bastante, um frila benfazejo que me tirou de uma certa seca nos últimos tempos. O dia foi, portanto, produtivo. Que bom.

Hoje eu amanheci com meus dedos todos perfeitinhos, mas à tarde, quando cortei legumes, fiz um ferimento a faca no mindinho.

São acontecimentos, afetos instantâneos, vivo cada um com intensidade. Gosto disso.

Viver está difícil. Sobretudo quando a dor de pessoas, mesmo distante, nos afeta. O clima, os eventos extremos, as guerras…

Mas vou vivendo, assim mesmo, no gerúndio, o verde das árvores que recebe o amarelo do sol e forma um quadro incrível tendo o azul do céu como fundo. Ou o cinza, que se mescla ao verde mais escuro. E ouvindo os pássaros, tomando cuidado para não pisar nas formigas, lindas, trabalhadoras como eu.

Viver é difícil. Mas é bom.

E recebi tanta energia boa vindo de amigos, que sou só agradecimento. A cada um que reservou um instante do dia para me desejar coisas legais, o meu muito obrigado. Desejo em dobro.

Estou fechando agora o trabalho e vou abrir uma garrafa de Soju, bebida coreana que comprei num site. Nunca experimentei. É mais uma novidade. Tim-tim!

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário