‘Ficar com o problema’ inspira presidente da COP30 em carta pública

O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, publicou uma carta pública na semana passada. É de praxe que os presidentes de COPs façam isto, com o objetivo de se apresentarem e divulgarem o que o país espera oferecer para o encontro. Mas Corrêa do Lago foi além dos dados e da demonstração de ações, que são muitos. No seu texto, o embaixador faz algumas reflexões filosóficas sobre o que a humanidade está vivendo, em tempos de pressão climática. E é neste ponto que vou me deter, para compartilhar algumas impressões com vocês.

Uma bela imagem do Rio Amazonas. COP30 será na região. Foto de Amelia Gonzalez

 A linha mestra, que costura todo o texto da carta, é uma exortação à comunidade internacional, para que enfrente coletivamente o perigo dos eventos causados pelas mudanças climáticas. O sentido de urgência, que já se tornou comum nos discursos das COPs, está presente.

“Devemos enfrentar a mudança do clima juntos e reativar nossas habilidades coletivas e individuais de resposta: nossas “responsa-habilidades”, afirma Corrêa do Lago.

Quem já leu “Ficar com o problema”, da filósofa e zoóloga estadunidense Donna Haraway, sabe que esta expressão – ‘responsa-habilidades’ – é criação dela. Confesso que fiquei feliz com a citação na longa carta de 12 páginas, embora não tenha referência à criadora do termo. Importante saber que Haraway defende que “é preciso que pratiquemos a respons-habilidade por meio da prática da fabulação”. Verbo que também pode ser entendido como sinônimo de criar.

Não me passou despercebido, portanto, que Corrêa do Lago talvez tenha lido Haraway e se sentiu, de alguma forma, sintonizado com ela. A carta do embaixador diz que a COP30 deve ser o momento da “esperança e das possibilidades por meio da ação – jamais da paralisia e da fragmentação”. E Haraway, que transita pelos “mundos humano-animais”, diz que “precisamos uns dos outros em colaborações e combinações inesperadas, em amontoados quentes de composto”.

São duas formas diferentes de dizer que “sozinhos, com nossos  diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco”.

A carta de Corrêa do Lago conclama a comunidade internacional a se juntar ao Brasil “em um mutirão global contra a mudança do clima, um esforço global de cooperação entre os povos para o progresso da humanidade… dos governos nacionais aos municipais, dos mercados de capitais internacionais às pequenas lojas de bairro, dos principais agentes tecnológicos aos inovadores locais, dos conhecimentos acadêmicos aos tradicionais”.

Neste trecho, lembrei-me de outra pensadora que também dialoga, mesmo que timidamente, com os pensamentos do embaixador: Anna Tsing, de “O cogumelo no fim do mundo”. Mas, aqui, será preciso um exercício de conectar ideias.

Haraway e Tsing têm em comum não o derrotismo, como muitos desenvolvem ao ouvir uma retórica já tão batida nas COPs. As duas autoras apresentam uma revolucionária ideia de identificar o problema – sem, contudo, amplificá-lo – e viver com ele, fabulando modos de bem viver.

Para cada pessoa, bicho ou planta, há de ter um meio diferente de conseguir estar no mundo e ficar com o problema. Tsing diz que é preciso reativar a imaginação, e me proponho a pensar de forma compartilhada, neste espaço, dizendo que, para mim, ficar com o problema é, justamente, viver com o tanto que eu tenho hoje, muito menos do que já foi, mas de forma digna e bem.

A fonte de Haraway é a relação entre espécies:  bichos, plantas, homens. “Ficar com o problema requer estabelecer parentescos estranhos”, diz ela, enquanto me pego pensando em Fernanda e na barriga da pedra. “Sozinhos… sabemos muito e muito pouco”. E então sucumbimos ao desespero ou à esperança, diz ela.

Faz sentido, para vocês,  costurar o pensamento de Corrêa do Lago sobre a COP30 com filosofias tão revolucionárias como de Haraway e Tsing? Para mim, faz. É assim que eu consigo ler com propósito.

Agrego Tsing a esta linha de pensamento. A antropóloga, também estadunidense, alerta: “O problema é que o progresso parou de fazer sentido”, e afirma que o rei estava nu, alusão à forte conexão da palavra progresso com “sempre algo melhor adiante”. O “adiante” esbarra num sistema que não foi contemplado no texto que o  embaixador dedica à humanidade.

Corrêa do Lago prefere chamar de ‘arquitetura financeira”, mas evoca esperança quando diz que ela pode ser “reformada e aprimorada” para acabar com a desigualdade, o câncer do mundo (meu atributo). E continua dando asas à imaginação quando diz que a COP30 pode registrar o nascimento de “uma única nova revolução industrial que seja consciente em relação ao clima”.

“O reconhecimento da necessidade de agir o mais rápido possível para enfrentar a urgência da mudança do clima deve inspirar novas atitudes. Devemos reconhecer que questões consideradas “problemas” podem emergir como importantes “soluções”, diz o embaixador.

Para isso, seria bom ouvirmos Tsing. É genial a ideia da autora, ao destrinchar à luz da ecologia a expressão alienação, apontada por Marx em sua teoria econômica como uma situação típica do capitalismo, em que as pessoas são separadas dos bens que produzem. É um menosprezo aos entrelaçamentos, às composições.

“O sonho da alienação inspira a modificação da paisagem, na qual se isola apenas aquele recurso que se considera importante; tudo o mais se torna ervas daninhas ou descarte […] Quando aquele recurso específico já não pode mais ser produzido, o lugar é abandonado. A madeira foi cortada; o petróleo acabou; o solo das plantações já não sustenta mais as lavouras. A busca por ativos é retomada em outro lugar”.

Isto só é possível por conta da alienação. Porque nos transformamos, também, em ativos. Ficar com o problema é perceber que o mundo não será salvo. Ficar com o problema é viver no presente, e aí a adaptação, palavra tão repetida nas COPs, faz sentido. Encerro com Corrêa do Lago e seu chamamento:

“O realismo climático exige que a adaptação esteja na vanguarda e no centro de tudo o que fazemos como governos, setor privado, membros da sociedade civil e indivíduos. Uma grande inflexão sobre adaptação na COP30 será a porta de entrada para alinhar nosso processo multilateral com a realidade cotidiana das pessoas: a adaptação climática é o veículo para o cuidado e o reparo rumo à transformação coletiva”.

Mas vou continuar pensando. Se você quiser se juntar, escreva no comentário.

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Sobre alienação e o futuro possível para cada um de nós

Na primeira semana de fevereiro eu estive em um evento que aconteceu em um auditório muito bem climatizado, com o ar refrigerado funcionando a todo vapor. Não podia ser diferente, já que os termômetros, do lado de fora, marcavam inacreditáveis 46, 47 graus. As chuvas de fim de tarde aqui no Rio de Janeiro estão marcando a despedida do verão, portanto as temperaturas estão um pouco mais suportáveis hoje. Um pouco…

Mas naquele dia, pouco depois de sair do auditório onde precisei usar até mesmo um xale para me proteger do frio, e encarar o calorão, soltei as rédeas do pensamento. Não será por falta de conferências internacionais que a humanidade vai deixar de tentar outra forma de produzir e consumir para diminuir os eventos extremos causados pelas mudanças do clima. No entanto, COP após COP, o que vemos é se acirrarem os debates sem muitas chances de alcançar soluções.

Fiquei pensando sobre alienação, palavrinha potente quando lida e entendida sob a visão antropocênica.

Acompanhem comigo: os líderes que tomam as decisões nas conferências estão alienados do ambiente ao redor.  Não andam nas ruas como nós andamos.

Largo da Carioca em fevereiro: um forno. Foto Amelia Gonzalez

Imaginem a rotina de um CEO ou de um chefe de estado. Dos tapetes de casa para o helicóptero ou o jatinho, não há chance de pisarem em asfalto, sentirem o bafo de um Largo da Carioca ao meio-dia de fevereiro.

Sem viver esse desconforto brutal que nos deixa no dilema, entre ligar o ar e ver a conta de luz estourar o orçamento, ou ficar num calor danado, os líderes e autoridades somente teorizam. E muitos entram no terreno da retórica inútil: “Quero que meus netos tenham qualidade de vida”; “A urgência climática nos obriga a tomar atitudes em parcerias”; “É preciso cortar imediatamente as emissões de carbono”; “Meu negócio não sobrevive se não for sustentável” são algumas frases recorrentes. Mas a prática ficará sempre para o futuro.

O economista estadunidense Kenneth Boulding (1910 – 1933) foi um especialista em se esforçar para alcançar efeitos práticos nos debates. Basicamente, ele reconheceu desde sempre a finitude dos bens naturais. Tanto que muita gente o põe na galeria dos que iniciaram o atual conceito de sustentabilidade. Disse Boulding, certa vez:

“Aquele que acredita que um crescimento exponencial pode continuar eternamente em um mundo finito ou é uma pessoa insana ou é um economista”.

Claro, foi uma provocação. Mas…

A primeira coisa que vem à mente quando se lê um alerta desses é: “E aí, vamos pesquisar mais sobre petróleo?”. A resposta é sim. A menos que haja uma concertação mundial para acabar com tudo o que, hoje, significa conforto. Incluindo o ar-condicionado que tanto me fez bem naquele dia, naquele evento.

O nosso pulo do gato será estudar formas de baixar essa produção sem causar o desemprego de milhões. Além disso, sim, precisamos produzir de forma consciente, sem degradar tanto o ambiente. Sabemos fazer isto.

Quanto a nós, vamos precisar pensar seriamente em reduzir muito nosso consumo, em mudar muito os nossos hábitos, e tudo isso terá que ser feito, dentro do possível, em conjunto. Uma grande concertação para baixar as emissões verdadeiramente. Àqueles que defendem o uso de tecnologias, vamos agradecer e dizer: está muito tarde para isso. Agora é preciso saber que, como diz Kohei Saito, “a maioria de nós, pessoas comuns que não têm margem para manobras no cotidiano, perderá o modo de vida e terá que procurar desesperadamente uma alternativa para sobreviver”.

Não será um futuro tranquilo, muito menos com qualidade de vida. Vai ser o futuro possível para cada um de nós.

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A menina Fernanda e a barriga da pedra

Fernanda é uma garota muito esperta.

Tem 5 anos, mas parece que tem mais. É tão esperta que um dia, caminhando pelo bairro e conversando comigo, ouviu atenta até franzir o cenho quando eu disse que as pedras são seres vivos e que respiram. Estávamos passando por um muro de pedra que tem pequenas elevações, Fernanda passou as mãos com cuidado numa dessas elevações, ficou um tempo calada e decretou:

“Então esta é a barriga da pedra”.

Eis a barriga da pedra, batizada assim pela menina Fernanda

Ficamos assim combinadas, aquela pedra, um ser vivo, estava mostrando sua barriga para nós duas. E a conversa continuou. Eu tinha acabado de ler, no site Doomsday Clock , aquele que revela quanto tempo falta para o fim do mundo, que estamos a 89 segundos da falência. É isso mesmo: conte vagarosamente até 89, é esse o prazo. Os cálculos são feitos por pessoas que não recebem nada para fazer um apanhado geral dos riscos que a humanidade está correndo.

A proximidade de uma guerra nuclear é o risco mais elevado no momento. E, é claro, a posse de um presidente negacionista na nação mais poderosa, a favor de atos violentos como algemar pessoas e mandá-las para seus países em aviões sucateados, é um fator que colabora para a sensação de insegurança, medo, vergonha, sei lá. Só sentimentos ruins.

Claro que eu não me excedi no relato, não vinha ao caso. Fernanda é, apenas, uma criança. Mas a geração dela vai herdar essa bagunça toda, e fico na torcida para que tenham sensibilidade, subjetividade, criem valores novos e fujam de tudo o que possa ser banal.

Que tal começar fazendo contato com a ecologia dos saberes? É uma expressão criada por Boaventura de Sousa Santos, replicada por Aylton Krenak em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo”.

Busquei o livro, aqui na estante, e fiquei quase surpresa: sem saber da teoria, Fernanda estava praticando, justamente, a ecologia dos saberes ao dar um nome de órgão humano à protuberância da rocha.

Vejam o que diz Krenak:

“A ecologia dos saberes deveria também integrar nossa experiência cotidiana, inspirar nossas escolhas sobre o lugar em que queremos viver, nossa experiência como comunidade”.

Tomara que Fernanda siga assim, nessa importante integração.

Para isso, precisa sse sentir mais à vontade, quase íntima, com o lugar onde vive.

Uma ideia puxa a outra, e volto ao meu post anterior, onde resenhei “O Capital no Antropoceno”. O livro do japonês Kohei Saito tem referências muito boas, ideias boas, talvez para adiar o fim do mundo.

Uma das ideias apontadas como bem-sucedidas é o “Fearless Cities”, um movimento global informal de ativistas, organizações, vereadores e prefeitos. Segundo o site da associação, envelopado no site da Fundação Sentit Comú, que em tradução literal quer dizer “Sentir-se comum”, o movimento Fearless Cities trabalha para “radicalizar a democracia, feminizar a política e impulsionar a transição para uma economia que se preocupa com as pessoas e com o meio ambiente”.

As propostas são interessantes, há espaço para muitos debates, mas o movimento ainda chegou ao Brasil. Quem sabe a geração da Fernanda consegue trazê-lo?

O movimento fala sobre municipalização, conceito expandido a partir de uma conferência realizada em Barcelona em 2017 que de define “por sua vontade de transformar, e de acabar com o medo”. Para isso, sugerem dar nomes aos medos e pensar, coletivamente, como fazer frente a eles.

Lendo sobre a definição das cidades sem medo, lembrei-me de uma viagem que fiz à China em 2008 para participar, como ouvinte, de um seminário que se chamava Cidades Sustentáveis. Um dos palestrantes foi Enrique Peñalosa, economista e urbanista colombiano, que foi prefeito de Bogotá entre 1998 e 2001, revolucionando políticas urbanas e transportes de tal forma a conseguir tirar a cidade do triste ranking de ser a mais violenta do mundo. Pois bem, após a palestra eu me aproximei de Peñalosa e perguntei: “Prefeito, o que é uma cidade sustentável?’

“A cidade que não provoca medo em seus habitantes”, respondeu-me ele.

Percebam que Peñalosa não estava se referindo a bandidos ou policiais violentos que transtornam a vida das cidades. Ele estava se referindo, naquele instante e para aquela resposta, aos prédios enormes, calçadas pequenas, carros em alta velocidade, bicicletas que podem atropelar, à falta de espaços verdes.

 Em resumo, ele falava sobre uma cidade que possibilitaria a todas as meninas Fernandas um espaço para criar figuras como a barriga da pedra. Sem medo e dando asas a uma imaginação que, se desenvolvida de maneira livre, pode agregar muito ao ambiente urbano  no futuro.

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Livro ‘O Capital no Antropoceno’ põe em debate as questões climáticas e oferece solução: o decrescimento

Aos 37 anos, portanto um representante legitimo da geração Y, o professor de economia politica na Universidade de Osaka e escritor japonês Kohei Saito, membro do conselho editorial  internacional  do projeto Marx-Engels-Gesamtausgabe, parece ter sentido que sua geração, e a de seus filhos e netos, terão mesmo uma dura vida por conta dos eventos extremos causados pela crise climática. E resolveu pesquisar, em estudos e publicações heterodoxas, respostas para uma instigante pergunta: “Não é muito cedo para desistir, quando ainda temos tantas possibilidades?”

Pesquiso o tema há mais de vinte anos, e não vou me poupar de dar aqui um depoimento enfático: o livro que Saito escreveu após suas pesquisas –  “O Capital no Antropoceno”, editado pela Boitempo – respondeu a muitas de minhas perguntas. Mais do que isso, a leitura de Kohei Saito foi me oferecendo a chance de fazer um mergulho também nas obras de filósofos que nos mostram o caminho para que a diferença se manifeste, quebrando o campo da representação.

O ex vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore ganhou o Prêmio Nobel em 2006 revelando ao mundo uma “verdade inconveniente”. Àquela época, a mídia publicava o tema a página dois, dedicada aos assuntos importantes mas anódinos. Num estilo quase apocalíptico, Al Gore desfilou por corações e mentes um cenário triste, de fim do mundo como nós o conhecemos, embasando uma concepção que se tornou quase um mantra: se as emissões de carbono continuarem, o fim do século será muito quente. A humanidade precisava salvar o planeta.

Dezessete anos depois, Kohei Saito lança um livro com muitas verdades muito mais inconvenientes, e certamente não será protagonista de um documentário, tampouco talvez laureado com a premiação tão almejada. Possivelmente porque, diferentemente de Gore, o asiático não traz respostas que nos deixem tranquilos. Nossa participação não pode ser a compra de ecobags ou trocando o carro para um elétrico. É preciso agir em associações.

“O Capital no Antropoceno” analisa o entrelaçamento do capital, da sociedade e da natureza no Antropoceno e aponta falhas nas instituições até agora pensadas pelo main stream para dar solução à crise climática. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o Mercado de Carbono, a Tecnologia Verde, a Economia Verde, o Green New Deal são, para o autor, escapismos vendidos, cada qual à sua maneira, como deuses ex-machina. O asiático aponta fatos que endossam o que diz e que nem sempre ficam expostos para o público.

A transição total para veículos elétricos pode parecer sedutora, por exemplo. Mas, quando se olha o processo de produção desses carros, eles são feitos com produtos que impactam, destroem o ambiente. Quanto ao combustível, se for à base de etanol, quanta terra será desmatada? E, para as baterias, será preciso minerar cada vez mais e mais para conseguir o lítio necessário.

Nesse ponto, Saito traz uma conclusão que parece óbvia e  que leva à proposição fundamental de seu livro:

“ Não tem nada de sustentável no fato de uma família ter mais de um carro, mesmo que todos sejam elétricos”.

O marxista Kohei Saito se junta, então, ao Papa Francisco que, em sua Encíclica editada em 2015 – “Laudato Si” – provoca os fieis a pensarem em um outro tipo de civilização, onde produção e consumo sejam rebaixados. Escreve Saito:

“O objetivo deste livro é mostrar que a grande mudança que precisa ser gerada é, justamente, desafiar o próprio sistema capítalista”.

Rufem os tambores porque entramos num terreno fértil para o pensamento dialético. E polêmico.  A partir da metade, Saito desvela o título de seu livro. Ele localiza Marx no Antropoceno e convida os leitores para uma nova interpretação da teoria marxista com base em estudos e pesquisas no projeto Marx-Engels-Gesamtausgabe (Mega) – a maior coleção de escritos de Marx e Engels em qualquer idioma – do qual faz parte como membro do conselho editorial internacional. O pensador alemão, segundo textos descobertos dos últimos 14 anos de sua vida, preocupou-se  com a pegada humana sobre os bens comuns (atenção: não são recursos naturais).  E rompeu com o produtivismo.

“A chave aqui é a teoria do metabolismo material que Marx desenvolveu em O Capital. O ser humano vive sua vida neste planeta interagindo constantemente com a natureza, produzindo, consumindo e descartando diversas coisas. Marx chamou essa interação cíclica com a natureza de ‘o metabolismo material dos humanos com a natureza’”, escreve Saito.

Ocorre que o capital “causa uma grande perturbação no metabolismo dos seres humanos e da natureza”. Ele faz uso “completo dos seres humanos e da natureza” e, como se pode observar, a “atividade ilimitada do capitalismo é incompatível com a natureza”. Sendo assim, “a consequência disso é o Antropoceno, e essa é também a raiz da crise climática atual”.

Kohei Saito passa a descrever parte de sua pesquisa  no Mega, pincelando aqui e ali trechos importantes, fazendo links com o momento que vivemos, apresentando soluções para além da retórica inútil. Para que dê certo o “comunismo do decrescimento”, teoria marxista, é necessário, sobretudo, um forte sentimento de comuna.

“Após catorze anos de estudo, Marx concluiu que a sustentabilidade e a igualdade baseadas numa economia estacionária serviriam como resistência ao capital e se tornariam a base da sociedade futura”, escreve Saito.

Não às “tecnologias fechadas”, que priorizam os países desenvolvidos em detrimento das pessoas “de fora”.  Sim às Assembleias de Cidadãos para o Clima, abertas a todos os cidadãos e cidadãs que queiram participar da elaboração de planos para o enfrentamento aos impactos do clima em seus municípios. Não ao “politicismo”, ou seja, eleger bons políticos e esperar que eles façam tudo – “A política parlamentar por si só não pode expandir o alcance da democracia”. Sim à municipalização. Não à subsunção do capital, ou seja, tornarmo-nos impotentes a ele.

Saito vai além: “Precisamos parar de ligar o crescimento econômico à riqueza e considerar seriamente a combinação entre decrescimento e riqueza”.

Consideremos não recursos naturais, mas bens comuns, como terra e água, já que “ter água em abundância é, ao mesmo tempo, desejável e necessário para as pessoas. Nessas condições, a água é gratuita. Essa é a forma ideal de ‘riqueza pública’”.

A juventude de Saito o auxilia a desenvolver estratégias, muitas delas com base no que já vem acontecendo em alguns cantos do mundo, dando aos cidadãos um poder de participação que ele chama de ‘cidadanização”, em uma brincadeira com a palavra privatização. Mas o autor não brinca quando descreve pilares do comunismo de decrescimento, entre eles a “transição para uma economia  do valor de uso”. E enfatiza que o comunismo de decrescimento vai ajudar a sociedade a enfatizar “as indústrias de mão de obra intensiva (valor de uso)”.

“O trabalho de cuidado é uma produção que prioriza o valor de uso (setores difíceis de mecanizar). Por exemplo, um cuidador não auxilia a alimentação, ajuda a se vestir e a tomar banho simplesmente seguindo um manual… O mesmo vale para pedagogos e cuidadores de crianças e bebês. “

São chamados de “trabalho emocional”, que “não se pode dobrar ou triplicar a produtividade aumentando o número de pessoas atendidas”.  O cuidado e a comunicação requerem tempo.

“Se perseguirmos a produtividade  para aumentar o lucro (valor de troca), a própria qualidade do serviço (valor de uso) acabará decaindo”.

Essa é uma tendência mundial, acrescenta Saito, citando alguns exemplos. “Podemos nos solidarizar com eles nesse momento? Ou iremos nos ater à bullshit economy, que desconsidera  o valor de uso e dá prioridade ao valor de troca?”

Não creio que seja preciso decifrar a expressão em inglês, tampouco acho necessário descrever a rotina de um trabalhador médio, sem tempo para mais nada que não seja cumprir suas funções para pagar boletos no fim do mês.

Caminhos concretos para além da crítica

Como eu disse no início do texto, o jovem Saito possivelmente faz as contas: em 2050, quando o cenário mundial estará modificado para pior por conta dos efeitos dos eventos climáticos, ele terá 62  anos.  Como será seu dia a dia, um senhor entrando na sexta década de vida, portanto com muito chão pela frente, num mundo com ar irrespirável, oceanos acidificados e dependendo de  alimentos cada vez mais processados por falta de terra para plantar?

Posso imaginar que, por tudo isso, Saito traça caminhos concretos, para além das críticas. Um deles é o decrescimento. Mas ele  sabe também que terá muitos críticos, até mesmo de ambientalistas que acreditam nas estratégias postas atualmente como soluções. Quase sempre postergadas, por falta de um entendimento global, como acontece com as COPs (quando termina uma, a mensagem é sempre que a próxima terá a tarefa de alinhavar acordos que não foram conseguidos).

Assistindo ao excelente encontro que reuniu três especialistas para debater o “Capital no Antropoceno”, ancorados pelo jornalista Bruno Torturra na TV Boitempo, eu encerro este texto com a pergunta que ficou no ar durante o programa:

“O crescimento econômico produz qualidade de vida? Onde esse crescimento se torna real na vida das pessoas?”.

Leiam o livro. Vale a pena.

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Trump culpa a luta pela preservação de um peixe pelos incêndios que devastam Los Angeles. É só o começo

Uma vez mais a nação mais rica do planeta entrega sua liderança ao negacionista Donald Trump. Assim como em 2016, são esperados retrocessos gigantes na área ambiental, e países que se inscrevem nas agendas do setor apenas para marcar presença nas conferências, vão se sentir à vontade para cair fora quando os Estados Unidos começarem a retroceder nos acordos. As consequências não vão demorar muito para surgir, como agora, nos incêndios que estão acabando com casas e pondo em risco vidas no estado da Califórnia.

Claro que não estou dizendo que o fogo já é culpa da política negacionista. Mas em declaração informal, Trump não perdeu tempo para pôr em evidência seu pensamento anti preservação e, como sói acontecer, sua fala é reverberada. Segundo ele, a política adotada pelo governador  Gavin Newsom, da California, para tentar salvar uma espécie de peixe chamada smelt, pequenino, que está sendo sugado pelo bombeamento de águas do delta da baía do norte da Califórnia para as fazendas locais, é a grande responsável pelo desastre.

Já os ambientalistas locais vêm alertando, desde há muito tempo, que o fato de os smelts estarem em extinção é um alerta importante para o colapso iminente do delta.

Mas Trump, nas redes sociais, chamou smelt de inútil e o governador de incompetente porque se recusara a assinar uma declaração permitindo que mais água fluísse, do delta, para o sul do estado.  Os jornais, no entanto, não apostam que a política implementada por Joe Biden, que permitiu que a água fluísse mas com esforços para proteger os peixes, tenha sido a causadora do desastre.

Os incêndios florestais na área de Los Angeles estão sendo provocados por ventos secos, temperaturas altas e oito meses de seca quase total. Responsabilizar os esforços para salvar um peixe de extinção é querer impulsionar suas ideias negacionistas e deixar claro que o ativismo em prol de politicas que possam considerar a possibilidade de baixar emissões de carbono, de preservar florestas em pé, de respeitar a biodiversidade terá, novamente, um inimigo poderoso.

E assim começamos 2025, ano em que o Brasil vai sediar a Conferência das Partes sobre o clima – COP30. Temo que, diante do cenário que vem do hemisfério Norte, a reunião seja esvaziada ou sirva apenas como palco para os movimentos  socioambientais se manifestarem. O que não é ruim, claro. Mas precisamos de muito mais do que isto.

Estava preparando um texto para inaugurar o blog em 2025 com alguns aforismos sobre a nossa civilização na era dos extremos climáticos.  Mas fui atropelada pela declaração de Trump.

Fico devendo a vocês, por exemplo, subsídios para reflexão sobre os gastos com guerras versus investimento em melhorar a qualidade de vida; sobre o papel de um dos países mais pobres do mundo, o Iêmen, que se tornou importante adversário no Oriente Médio, barrando navios. Andei pensando também sobre a nossa incrível capacidade de gerar lixo não orgânico, sobretudo em tempos de festas natalinas, onde o hábito de dar “lembrancinhas” grassa pelas famílias.

E terminaria pensando sobre a convocação do prefeito Eduardo Paes, que anunciou um choque de civilidade em seu quarto mandato. Será possível pensar em civilidade sem que os cidadãos consigam, prioritariamente, cuidar de si? De que maneira a administração municipal pode ajudar nesse importante movimento? Distribuição de água para os moradores de rua, por exemplo, pode ser um importante passo, assim como a revisão dos horários de ônibus, que muitas vezes nos deixam esperando muitos minutos. E plantar árvores, muitas árvores, pela cidade.

Mas aceitar a convocação do prefeito também passa por mudança de hábitos. Dos nossos hábitos.

Enfim… como sempre, um turbilhão de pensamentos, de notícias, mais vontade de escrever do que tempo para dedicar ao blog.

No rol das promessas que a gente sempre se faz nessa época, eu ponho essa tarefa, que tanto me faz bem. Escrever, espalhar informação.

Apesar dos pesares, estou com uma sensação de que 2025 vai ser um bom ano. E desejo a vocês saúde, trabalho e alegria.

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Uma grande novidade, envelhecer

“Se cada idade é nova, o envelhecimento é uma novidade”.

Ouvi essa frase numa aula de filosofia do professor Auterives Maciel, e estou ruminando esse pensamento desde então.

Hoje eu faço aniversário. Passo, portanto, a ter uma nova idade. E vou encarando, assim, a grande novidade que é o envelhecimento.

Hoje o dia amanheceu colorido, céu azul, muito calor. À tarde, porém, já estava cinzento. E menos quente.

Hoje trabalhei bastante, um frila benfazejo que me tirou de uma certa seca nos últimos tempos. O dia foi, portanto, produtivo. Que bom.

Hoje eu amanheci com meus dedos todos perfeitinhos, mas à tarde, quando cortei legumes, fiz um ferimento a faca no mindinho.

São acontecimentos, afetos instantâneos, vivo cada um com intensidade. Gosto disso.

Viver está difícil. Sobretudo quando a dor de pessoas, mesmo distante, nos afeta. O clima, os eventos extremos, as guerras…

Mas vou vivendo, assim mesmo, no gerúndio, o verde das árvores que recebe o amarelo do sol e forma um quadro incrível tendo o azul do céu como fundo. Ou o cinza, que se mescla ao verde mais escuro. E ouvindo os pássaros, tomando cuidado para não pisar nas formigas, lindas, trabalhadoras como eu.

Viver é difícil. Mas é bom.

E recebi tanta energia boa vindo de amigos, que sou só agradecimento. A cada um que reservou um instante do dia para me desejar coisas legais, o meu muito obrigado. Desejo em dobro.

Estou fechando agora o trabalho e vou abrir uma garrafa de Soju, bebida coreana que comprei num site. Nunca experimentei. É mais uma novidade. Tim-tim!

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“Somos viciados em combustíveis fósseis”, diz Gunter Pauli*

O Clube de Roma, um grupo de intelectuais e cientistas preocupados com o excesso de consumo e o inevitável desgaste que causa ao meio ambiente, reuniu-se pela primeira vez em 1968. Mas, a julgar pela tensão climática que vivemos atualmente, causada pelo abuso de combustíveis fósseis, a preocupação dos membros do Clube de Roma, que ainda hoje se reúnem, não diminui. Só para se ter uma ideia, dados do Serviço de Mudança Climática do Observatório Copernicus, divulgados hoje, dão conta de que o mês de outubro de 2024 ficou acima de 1,65 grau acima dos níveis pré-industriais.

Soluções são propostas. Um dos membros do Clube de Roma, o belga Gunter Pauli, tem viajado mundo afora, num barco-escola, apresentando a sua. A Economia Azul, promete ser um modelo de negócios que não impacta a natureza, gera empregos e dá qualidade de vida às pessoas. São boas falas, que têm conseguido afetar alguns países – China e Malásia entre eles – e que Gunter já apresentou aos governantes do Rio de Janeiro, onde foi criado o programa “Guanabara Azul” no ano passado. A aposta é  estruturar uma governança capaz de viabilizar simultaneamente crescimento econômico e preservação ambiental na Baía de Guanabara.

Gunter era aguardado no evento Green Rio, feira de negócios que aconteceu de 31 de outubro a 2 de novembro, mas por questões pessoais não conseguiu viajar. Nessa entrevista ao #Colabora, ele fala sobre seu projeto, critica a Economia Verde, diz que somos viciados em combustíveis fosseis.  Segundo ele, tanto o Brasil quanto o Rio de Janeiro são territórios que têm um “enorme potencial” de implantar a Economia Azul. Opinião validada por um relatório elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e lançado no Green Rio, que aponta oportunidades mas também riscos na implementação, por conta de “lacunas de governança”.

É, portanto, uma promessa que precisa sair do papel para realmente fazer parte do pacote de soluções imaginadas pelo Clube de Roma, que enfrentem os riscos de viver num planeta cada vez mais quente. Abaixo, a entrevista na íntegra:

O senhor criou a expressão Economia Azul no livro que lançou aqui no Brasil em 2012, durante a Rio+20. Com que objetivo? O que significa Economia Azul? O conceito se espalhou e já está sendo usado corretamente pelos países, ou ainda há lacunas, inclusive, de entendimento?

Gunter Pauli é o criador do conceito Economia Azul

Gunter Pauli – Sempre que um novo modelo econômico é proposto, há necessidade de explicar, e explicar, e explicar! Só então abrimos espaço para o diálogo. Afinal, minha proposta de Economia Azul não é oferecer uma nova teoria, mas um modelo pragmático de negócios que possa realmente fazer diferença. Como resultado, o modelo precisou ser adaptado às realidades de cada local, mas mantendo cinco princípios bem claros: use o que você tem; não tente ser o mais barato, foque em gerar valor; responda às necessidades de todos (não só pessoas como as cem milhões de espécies com as quais nós dividimos esse mundo) e recupere ecossistemas. Quando eu lancei meu livro – “A Economia Azul” – em 2009 (e em 2012 no Brasil, durante a Rio+20) eu quis fazer uma sólida contribuição para a erradicação da pobreza. Pobreza significa necessidade de água, nutrição, energia, saúde, mobilidade… Se não conseguimos resolver a pobreza depois de tantas décadas afirmando que isso é prioridade, entao nós precisamos urgentemente mudar o modelo de negócio.  E é isso que propomos!

Considerando que o sentido de preservar o meio ambiente é garantir saúde e bem estar às pessoas, a Economia Azul pode garantir bem estar econômico a quem vive de pesca e do turismo marítimo?

Gunter Pauli – O turismo e a pesca têm que passar por uma transição, tanto quanto a Economia Verde precisa ser repensada. Como podemos continuar a pescar peixes fêmeas cheios de ovos? Isso é loucura. Já imaginou abater uma vaca com um bezerro prestes a nascer? O fazendeiro provavelmente seria preso. Mas pescar peixes fêmeas, sem nem saber a diferença entre um macho e uma fêmea, é normal? Eu não considero isso normal!

 Precisamos ter uma estratégia clara de  proteção da vida, e peixes grávidos não devem ser capturados. Claro que isso implica que temos que desenvolver técnicas que nos permitam fazer isso, e as redes de pesca têm menos probabilidade de adotar as novas tecnologias que permitem essa abordagem.

 Na ilha de El Hierro, na Espanha, os pescadores decidiram criar uma biosfera especial de 5 km2 , onde as fêmeas põem ovos. Depois de alguns anos, o estoque de peixes se recuperou e agora há mais peixes do que nunca! Para ter mais no futuro, você precisa economizar hoje! Isso não é novidade, mas os pescadores estão sendo levados ao limite e precisamos garantir que haja uma abordagem pragmática, e a conservação das fêmeas é uma dessas maneiras óbvias de avançar.

O turismo tem limites, mas o exemplo de Bonaire é ótimo: lá temos três mil turistas por ano que se tornam voluntários para aprender como plantar corais em mergulhos. Hoje essa é a grande ferramenta para regenerar recifes de coral no Caribe. Ou seja: o turismo pode ser positivamente engajado. Nós só precisamos torná-lo atrativo e transparente. Um turismo que tenha propósito e seja transparente será, com certeza, uma parte das iniciativas da Economia Azul. Eu faço referência a essa opção no meu livro “Invigorating Rio” que publiquei em março de 2024.

Estamos vivendo um momento de grave tensão climática. Os eventos extremos causados pelo aquecimento global estão se intensificando numa velocidade ainda maior do que era previsto pelos cientistas do IPCC. De que maneira a Economia Azul pode colaborar para diminuir essa tensão?

Gunter Pauli – Em 1986 eu lancei o conceito de Emissões Zero. Na verdade, nossa fundação no Brasil se chama Zeri Brasil e tem 26 anos de atividades. Para mim, a Economia Azul é a filosofia de emissões zero em ação, na qual incluímos modelos novos de negócio não poluentes. Isso quer dizer que nós temos que ter uma abordagem coletiva, de grupo, e não podemos focar somente em um produto. Hoje precisamos agrupar atividades para que o resíduo de uma possa gerar rendimentos para outra, caso contrário tudo acabará em emissões e poluição. Concretamente: se eu tenho uma mina para processar minério, eu tenho lama. Isso não é apenas um resíduo, é um resíduo tóxico perigoso. A indústria da mineração acha que nada pode ser feito com isso. Bem… hoje nós temos quatro fábricas estabelecidas na China, onde o lodo fino, resíduo da mineração, é misturado com polímeros e transformado em stone paper (material semelhante ao papel).

A boa notícia é que esse papel pode ser usado para embalagens e não há necessidade de água nem fibras de árvores para produzi-lo. Além do mais, esse papel é reciclável e não necessita de água.

 Outro exemplo é a criação de enormes florestas de algas ao longo das costas. Essas algas podem ser colhidas duas vezes por ano para gerar biogás, e o lodo do gás é uma grande fonte de fosfatos, portanto, é um fertilizante. Esses conjuntos de atividades reduzem drasticamente as emissões. Na verdade, nossos projetos demonstram que é perfeitamente possível se tornar um sumidouro líquido de carbono!

Como está o Brasil no ranking de países que já empregam políticas públicas para consolidar a Economia Azul?

Gunter Pauli – Na última semana, a China, após muitos anos de hesitação, decidiu que a Economia Azul será o pilar para o seu desenvolvimento social e econômico. Há cerca de um  mês, a Malásia resolveu trilhar o mesmo caminho. Na Nigéria, o presidente Bola Tinubu decidiu, há um ano, que o país teria um ministério da Economia Azul. O Brasil está apenas começando a descobrir o potencial da Economia Azul.  

O estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a descobrir esse potencial e, para  mim, foi uma surpresa descobrir que o estado tem mais de 600 ilhas. Se considerar exclusivamente as 200 milhas de Zoneamento Ecológico Econômico e os 1.300 quilômetros de praias somente nas ilhas do Rio, dá para ver o enorme potencial.

Mas um potencial  permanece sendo apenas uma boa ideia se não houver infraestrutura. A primeira coisa que precisamos focar é em criar infraestrutura de água, energia, saúde e mobilidade. Eu chamo isso de “O Metrô do Mar”. E, é claro, será preciso operar uma frota de navios emissões zero, que transportem pessoas e mercadorias, com energia local que não seja combustível fóssil.

Na verdade, não há direito de ter pobreza ou favelas quando há tanto espaço disponível… apenas algumas ilhas de distância. E essas ilhas também podem gerar muita comida.

O desenvolvimento da Economia Azul requer uma estratégia de longo prazo, mas o potencial do Brasil é enorme!

O Brasil está no meio de uma polêmica a respeito da extração de petróleo na Margem Equatorial. O Ibama não recomenda, sobretudo por conta do impacto que essa produção causará na biodiversidade marinha. Por outro lado, o presidente Lula afirma que a exploração trará mais benefícios econômicos, e que estamos longe de abandonar a era do petróleo. O que o senhor pensa disso?

Gunter Pauli – Somos viciados em combustíveis fosseis porque consideramos mais fácil, a infraestrutura para entrega e uso é muito bem desenvolvida. Como podemos pôr um fim nisso quando não há alternativa? A energia solar e a eólica estão, lentamente, se tornando populares, mas não oferecem carga de base, ou seja, não podem operar 24 horas por dia.

Há, portanto, uma necessidade urgente de uma nova mistura de energias renováveis, incluindo pelo menos uma ou duas que sejam disponíveis, independentemente do clima e da hora do dia.

O biogás é, com toda certeza, amplamente negligenciado. O estado do Paraná é o único que teve uma política deliberada para promover a produção e o uso de biogás (a partir de dejetos de suínos, com mais de 80 instalações instaladas durante o governo de Jaime Lerner), mas isso é muito limitado.

A China já converte todos os resíduos biológicos em biogás (metano). E o biogás não tem as mesmas qualidades do gás liquefeito de petróleo, mas é gerado com muita facilidade. A mistura de resíduos sólidos urbanos orgânicos com água cinza e preta já está gerando biogás em sete cidades da Europa e da Ásia, tanto que a energia está gerando 10% dos orçamentos anuais das cidades, enquanto converte o custo do gerenciamento de resíduos em renda.

Em segundo lugar, há um avanço na energia eólica conhecido como High Altitude Wind. Os sistemas de pipa que precisam de apenas 10% dos materiais que um moinho de vento tradicional precisa hoje, capturam o vento 24/24 e 7/7 em altitudes entre 200 e 800 metros. Esse processo finalmente foi permitido na Alemanha, e as primeiras instalações estão sendo lançadas, oferecendo uma segunda fonte renovável de carga base.

 Quando esses dois forem combinados com a conversão do excesso de energia em hidrogênio, teremos uma chance real de reverter a dependência do petróleo.

A economia verde recebe críticas. A mais contundente é que se trata de um modelo que continua submetendo a natureza à lógica do mercado. Em que o senhor acha que a Economia Azul pode se diferenciar desse modelo?

Gunter Pauli – Eu também critico a Economia Verde. Como é possível que um produto bom para você e bom para o meio ambiente, custe mais caro? Isso quer dizer que são produtos para ricos? Como podemos ter uma transição para a sustentabilidade com produtos que somente os ricos podem usar? Para ser competitivo tem que ter subsídios do governo? Então quer dizer que precisamos pagar mais impostos para cobrir o orçament? Não faz nenhum sentido.

A Economia Azul, em vez disso, analisa as atividades em conjunto. Por exemplo, se a regeneração das florestas de algas no mar significa que teremos, ao mesmo tempo, biogas e fertilizantes. Melhor ainda, as algas marinhas absorvem microplásticos, portanto, uma quantidade dessas algas impedirá que os microplásticos invadam a costa.

Outro ponto é: quando o modelo competitivo determina que você precisa cobrar mais barato no mercado para competir, então provavelmente você será obrigado a pagar salários baixos aos seus trabalhadores, cortar custos para o meio ambiente e pagar impostos muito baixos. Como será possível ser mais barato do que Bangladesh?

A Economia Azul difere fundamentalmente desse modelo de mercado. A Economia Azul é um modelo de criação de mercado, o que significa que, em linha com as propostas de Joseph Schumpeter, implementamos modelos criativos destrutivos que nos permitem superar a concorrência gerando muito valor…

Essa é a única maneira de, finalmente, erradicar a pobreza.

A Economia Azul se refere aos mares e  oceanos, mas inclui também água doce?

Gunther Pauli – Na versão original da proposta da Economia Azul, eu salientei que precisamos usar aquilo que temos e gerar mais valor com ele. Usei o exemplo dos mares: 71% da superfície da Terra, 90% de espaços habitados e somente 5% do PIB. Está bem claro que não estamos gerando valor a partir do mar. Infelizmente, aqueles que discutem a Economia Azul pensam primeiro e acima de tudo em pesca, aquicultura e mineração no mar profundo. Se isso é tudo o que podemos imaginar, nunca vai haver uma Economia Azul próspera, recuperando os ecossistemas e assegurando que as necessidades básicas de todos sejam atendidas. Então, como podemos separar o mar da costa, a costa das baías e especialmente os deltas dos rios? Eu acabo de vir da  Malásia, onde estive a convite do Primeiro Ministro Anwar, e lá ficou decidido que, naquele país,  a Economia Azul deverá abranger todos os recursos hídricos.

Quais as iniciativas de proteção dos oceanos que têm dado resultado?

Gunter Pauli – Nossa organização tem focado há pelo menos vinte anos na regeneração dos recifes de coral. Isso está acontecendo em 15 países hoje. Em vez de lamentar a perda, nós focamos nas novas simbioses de microalgas e corais para que elas se tornem resistentes a altas temperaturas do mar. Isso começou na pequena ilha Bonaire, no Caribe, e já está se tornando um movimento. É uma das poucas luzes que vemos no fim do túnel.

Há também atividades de cultivo de algas marinhas que não são a melhor solução, mas quando isso é combinado com a restauração de manguezais, há uma boa combinação de ecossistemas que permitem uma regeneração completa da ecologia e com oportunidades para criar a economia. A Indonésia tem liderado neste campo, mas iniciativas nesse sentido estão avançando também na Tanzânia.

A mera declaração de proteção dos mares não é suficiente. Temos que limpá-los e regenerá-los. O drama dos microplásticos deve ser considerado um dos grandes desastres de todos os tempos, talvez mesmo pior do que as mudanças climáticas. Infelizmente essa poluição, tão pequena, entra nas células e muda completamente a vida como a conhecemos. É com isso que mais me preocupo.

Em agosto, o Japão anunciou a criação de um novo motor à base de algas microbianas. Esse tipo de extração pode impactar a vida marinha? Como a Economia Azul se posiciona nesse caso?

Gunter Pauli – Na verdade, o maior líder em microalgas é o Brasil! O professor e doutor Jorge Alberto Vieira Costa, da Universidade do Rio Grande do Sul, é um líder mundial. O Brasil também tém uma imensa biodiversidade em algas, e no Rio Grande do Sul há motores que funcionam à base de algas há vinte anos! Essas microalgas são cultivadas em tanques, e não em mar aberto.

O senhor tem um barco-escola. Como funciona esse projeto? De alguma forma ele se assemelha ao projeto pensado pelo economista Schumacher, que deu início ao Schumacher College?

Gunter Pauli – Um barco é quase como uma pequena ilha. E nós sabemos que as mudanças começam nas periferias, onde pequenas iniciativas podem ser incubadas. É um  mix de Schumacher com Schumpeter, que propôs a criatividade destrutiva. O modelo atual de economia precisa de alguma criatividade destrutiva, o que quer dizer que nós precisamos de um modelo de negócios muito melhor, que torne o modelo atual obsoleto.

Assim como não podemos criticar o petróleo e a energia nuclear, a menos que se tenha alternativas de industriaçização melhores, nós precisamos ter modelos melhores de mobilidade para o mar. Na verdade, nós precisamos muito mais do que mobilidade.

 Começamos (essa entrevista) dizendo que há pouca economia no mar com esses pobres 5% do PIB, mas há outra estatística que é ainda pior: 99,9% de todos os dados em todos os computadores falam de pessoas, terra e ar, e apenas 0,1% são relacionados ao mar. Então não há informações sobre o mar, portanto não há estratégia possível para o mar.

É por isso que nosso barco, que se chama “Porrima, a Deusa do Futuro”, não é apenas um instrumento de mobilidade usando energias renováveis. Esse barco é 20% navio e e 80% tecnologias. E 40% dessas tecnologias são para criar “dados de fazendas”, cada barco é uma fazenda, coletamos dados que ninguém está coletando. Isso fará a grande diferença, e o Brasil deveria decidir abraçar esses dados processados nesse barco fazenda, em vez de sofrer com os dados fornecidos por dez empresas que controlam 95% de todos os dados do mundo. Nossos navios serão apresentados na World Expo em Osaka em 2025! E a surpresa será que teremos nossos próprios sistemas de comunicação e processamento de dados.

Vai ser muito divertido!

*Originalmente, essa entrevista foi publicada no site Colabora

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Países não conseguem acordo para diminuir produção e consumo de plásticos

Não será por falta de reuniões, encontros e conferências globais que as próximas gerações vão poder nos culpar quando os efeitos das mudanças climáticas tornarem insuportável a existência de seres humanos no planeta. Já não dá para falar o mesmo sobre resultados de tais encontros. Os acordos, quando são conseguidos, nem sempre são levados a sério. Nesse ponto, vamos ficar devendo.

Assim que acbou a COP29, em Baku, capital do Azerbaijão, numa sessão nostálgica na madrugada de sábado(22) para domingo(23), jornalistas e negociadores só tiveram tempo de botar roupas de frio nas malas rumo a Busan, cidade portuária na Coreia do Sul  (antes do estado de sítio). De 29 de novembro até esse domingo (1), lá aconteceu a quinta sessão do Comitê Intergovernamental de Negociação (INC na sigla em inglês) com o objetivo principal de traçar um acordo vinculante sobre a produção e o consumo de plásticos no mundo. A reunião, também com o selo da ONU, via Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma) passou a se chamar INC5.

Se você, caro leitor, está se perguntando sobre a real importância de tal reunião, é bom saber alguns detalhes.  Há estudos que mostram que os microplásticos podem fazer muito mal à saúde humana e ao meio ambiente. Em 2021, um relatório do Pnuma,  alertou para o fato de que os produtos químicos nos microplásticos “estão associados a sérios impactos na saúde, especialmente nas mulheres”. Eles podem incluir alterações na genética humana, desenvolvimento cerebral e taxas de respiração, entre outros problemas de saúde.

 Na Revista ScienceDirect, um artigo publicado em novembro desse ano mostrou que “partículas micro-nanoplásticas (MNPs) são um contaminante ambiental onipresente”. Além disso, especialistas apontam para os riscos associados ao desenvolvimento de câncer, doenças cardíacas e demência, bem como problemas de fertilidade.

E, sim, os microplásticos estão onipresentes.

Uma reportagem publicada pelo jornal “The Guardian” no mês passado mostra que a Indonésia vende 5,5 milhões de sachês só de detergentes por dia; em Gana e no Quênia, o problema maior vem das roupas que são descartadas, sobretudo por países europeus. União Europeia. São de fibra sintética, ou seja, resíduos. Segundo a organização Changing Markets Foundation, a Shein é uma das marcas encontradas em imensas montanhas de roupa encontradas em aterros sanitários dos dois países.

No Caribe, o problema vem das garrafas PET. Estima-se que  dois mil itens plásticos sejam jogados no lixo a cada quilômetro. Segundo a International Union for Conservancy of Nature, o Banco Mundial estima que as costas do Caribe estejam contaminadas com uma média de 2.014 objetos por quilômetro, um quinto dos quais são garrafas plásticas.

Já no Reino Unido, ainda segundo a reportagem do “The Guardian”, são descartados 11 bilhões de lenços umedecidos por ano. Eles entopem canos, poluem as praias, e espalham os terríveis microplásticos.

Com tudo isso, esperava-se um pouco mais dos participantes da reunião em Busan. Foi divulgado um rascunho de texto, com 23 páginas, 31 artigos e algumas descrições mais do que minuciosas os microplásticos.

O capítulo dois do texto explica o que são microplásticos: partículas de plástico que têm menos de cinco milímetros de diâmetro; qualquer fragmento, partícula ou fibra sólida de plástico insolúvel em água com um diâmetro entre [1 micrômetro e 500 micrômetros], que foi formado como resultado da fragmentação de resíduos de produtos plásticos que já entraram no ambiente; pequenas partículas ou fragmentos ou pedaços de plástico com menos de [5 milímetros] de diâmetro, facilmente liberados no ambiente.

O que assusta mais é o tamanho (micro) do inimigo. Recentemente, numa entrevista que fiz com o  belga Gunther Pauli, criador do conceito Economia Azul, ele disse:

“O drama dos microplásticos deve ser considerado um dos grandes desastres de todos os tempos, talvez mesmo pior do que as mudanças climáticas. Infelizmente essa poluição, tão pequena, entra nas células e muda completamente a vida como a conhecemos. É com isso que mais me preocupo.”

Mas não vai ser dessa vez que o mundo conseguirá conter o problema. Até porque, para isso, é preciso mexer em duas pontas da cadeia: a produção e o consumo. O presidente do INC5, Luis Vayas Valdivieso, disse que houve progresso na reunião, mas que “também devemos reconhecer que algumas questões críticas ainda nos impedem de chegar a um acordo abrangente”.

Na verdade, o que houve na reunião foi um forte bloqueio a qualquer tipo de acordo por países que produzem petróleo. Mas, segundo Valdivieso informou ao “The Guardian”, “Há um acordo geral para retomar a sessão atual em uma data posterior para concluir nossas negociações.”

E assim vamos postergando ações que poderiam adiar o nosso desconforto ambiental.

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Uma voz dissonante desafina o coro dos contentes da COP29

Já era madrugada, mas o plenário da COP29 estava cheio. Nos bastidores, travava-se uma batalha que não é nova e se arrasta Conferência após Conferência, desde a primeira, em 1995: o valor que os países ricos devem repassar aos mais pobres para ajudá-los a enfrentar os traumas causados pelos eventos climáticos. Em 2009, na COP15, realizada em Copenhague, uma quantia foi acordada: US$100 bilhões por ano. Mas o repasse não aconteceu como esperado.

Como resultado da reunião que acabou sábado, dia 24, em Baku, capital do Azerbaijão, onde aconteceu a COP29, o que ficou decidido é que os países pobres receberão US$300 bilhões por ano até 2035. É uma promessa, não é uma obrigação.

Finalmente a última reunião da COP29 começou, com bastante atraso, o que causou muitos transtornos também para os delegados que precisavam pegar o avião de volta para casa. Eram cerca de 2h da manhã. Estavam ali representantes de quase 200 países.

O clima criado pelo presidente da Conferência,  Mukhtar Babayev, ao ler a última versão do texto final, era de vamos-acabar-logo-com-isso. Bateu o martelo, comemorou com os parceiros que estavam na mesa organizadora. Mas, aí, precisou chamar os delegados tinham se inscrito para fazer observações.

Foi quando uma voz poderosa encheu o espaço do estádio olímpico de Baku, sede da COP. A delegada Chandni Raina, da Índia, com seu bindi na testa, falou em alto e bom som:

“Não podemos aceitar isso. Este documento é só uma ilusão de ótica”.

Água fria no animado grupo que havia comemorado, no palco, junto ao presidente Babayev, ex-funcionário da empresa estatal de petróleo do Azerbaijão e atual ministro da Ecologia e Recursos Naturais. Eu estava assistindo aqui de casa, pelo site das Nações Unidas que trata das COPs, a UNFCCC , mas fiquei com muita vontade de estar lá para sentir o clima real.

Chandini Raina falou, falou e falou por cerca de dez minutos. Ora ela olhava para a câmera, ora voltava seu olhar para cima, já que o presidente estava numa espécie de palco, mais elevado do que a plateia.  Disse que sua delegação havia pedido para ser ouvida antes da batida do martelo, o que não aconteceu, declarou-se “extremamente irritada” e culpou o presidente e o secretário da COP por terem conduzido erradamente a reunião.

 Sobre o valor decidido para repasse aos países pobres, Raina foi contundente:

 “É uma quantia irrisória. Estamos extremamente decepcionados. A confiança é a base para todas as ações, e esse incidente é indicativo de uma falta de confiança. Isto também é uma falta de colaboração em uma questão que é encarada como um desafio global por todos nós, principalmente os países em desenvolvimento que não são responsáveis ​​por isso. Gostaríamos que vocês nos ouvissem e também ouvissem nossas objeções a esta adoção”, disse Chandni Raina, que é consultora do Ministério das Finanças da Índia.

Raina foi só a primeira. Seguiram-se outras vozes decepcionadas, tais como Bolívia, Peru, Nigéria, Paquistão, Maldivas, Ilhas Marshall, o representante da Associação das Nações-Ilhas do Pacífico…  A indiana destampou a caixinha de reclamações, incentivou os mais tímidos. E a COP29 não acabou em festa como queria o presidente e seus aliados.

Mas o texto que prevaleceu foi mesmo aquele que mereceu a aclamação dos que rodeavam o presidente. Daqui de casa, não consegui perceber exatamente se a maioria dos delegados também comemorou. Sei que China e Brasil ficaram mudos.  As falas dissonantes mereceram, apenas, menções. E a COP30, em Belém no ano que vem, vai ter que retomar o debate.

Nada disso é inteiramente novidade. Nem as cifras, que já em 2009 se mostravam desse porte, nem a má vontade dos países ricos em ajudar os mais pobres.  Basta dar uma volta para trás na roda do tempo. Reproduzo aqui um trecho da página 193 de “Uma Terra Somente”, livro que é uma espécie de ata da primeira Conferência Mundial para o Meio Ambiente que aconteceu em Estocolm o em 1972:

“Qualquer que seja sua boa vontade, a maioria dos países desenvolvidos ainda está afetada por certo tipo de visão bitolada. Embora não constituam mais do que um terço da população do mundo, consideram excepcionalmente difícil focalizar sua mente nos outros dois terços da Humanidade, com os quais compartilham a biosfera. Como os elefantes ao redor de uma poça dágua, eles não se dão conta de que há outros animais sedentos. É difícil fazer com que compreendam que poderão estar arruinando o solo que pisam”.

Eu aposto que hoje eles já têm essa compreensão, mas o sistema econômico de sempre está cada vez menos interessado na palavra solidariedade. Quer seja com a espécie humana, quer seja com outras espécies.

 Mas quero voltar a falar sobre a indiana Raina. Seu país, hoje a quinta economia do mundo, atualmente é a nação mais populosa do planeta, com 1,4 bilhão de pessoas (sim, um pouco mais do que a China). Raina levantou a voz, foi firme, e me lembrou a quimica ativista ambiental Vandana Shiva que, por sua vez, me apresentou, em seu livro “Terra Viva”, ao movimento Chipko.

Chipko aconteceu pela primeira vez em 1973, quando  um grupo de 27 mulheres se levantou em resistência pacífica ao desmatamento impiedoso de seus lares no estado de Uttar Pradesh.  A exploração madeireira comercial desenfreada estava destruindo suas vidas, incluindo o solo e a água dos quais dependiam. As mulheres decidiram enfrentar os madeireiros abraçando as árvores que elas não queriam que fosse desmatadas.

 Nos anos seguintes o Chipko se disseminou por vários locais, conquistando importantes vitórias, como o banimento do corte de árvores em várias províncias indianas. Uma jovem Vandana Shiva desempenhou um papel fundamental, comunicando em inglês o que estava acontecendo com o mundo exterior.

E conta, em seu livro, o cântico que as mulheres entoavam enquanto se mantinham abraçadas às árvores:

“O que as florestas produzem?

Solo, água e ar puro.

Solo, água e ar puro.

Sustentam a Terra e tudo o que ela produz”

Não sei se a famílila de Raina é ligada ao movimento Chipko, mas a força que ela demonstrou ter naquele espaço, também sugere uma comemoração especial. Afinal, vinte e oito COPs depois da primeira, com mais de metade da população mundial composta por mulheres e meninas, que representam 80% dos deslocados climáticos e suportam o peso dos impactos climáticos, as mulheres são muito pouco representadas nos lugares à mesa de discussão.

O documento final da COP29 diz que… “A síntese do trabalho futuro sobre gênero e mudança climática abrange propostas para um novo programa de trabalho sobre gênero e plano de ação de gênero, incluindo reflexões sobre sua estrutura, áreas prioritárias e atividades”.

Não é nada, não é nada… não é nada mesmo.

Mas fecho aqui a minha caixinha de reclamações. Vamos comemorar porque, mesmo num mundo em que há duas guerras em andamento, emitindo tanto carbono que nem sabemos, 198 países decidiram se reunir para falar sobre mudanças climáticas.

E lá em Busan, na Coreia do Sul, outra conferência mundial está em curso, debatendo um risco talvez ainda maior, para a humanidade, do que os eventos extremos: as micropartículas de plástico que estamos consumindo. Quanto terminar, eu conto para vocês aqui.

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Debates no U20, caminhada que acabou em samba e muito o que pensar e aprender por aí

Se eu não tivesse acabado de ler Donna Haraway em “Ficar com o problema”, e prestado atenção ao trecho em que a filósofa alerta: “Sozinhos, com nossos diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco, e então sucumbimos ao desespero ou à esperança”, talvez eu não tivesse percebido a moça que se balançava na rede de barbante. Era sábado, estava nublado, e eu estava nas Docas do Rio de Janeiro, aquele ponto da cidade que me sugere pensamentos de ida sem volta. E lá estava acontecendo, até ontem, o G20 Social, criação do governo Lula para dar ao menos um toque de realidade a uma reunião de líderes globais sempre tão distante do povo.

Eu estava só, mas pulsando com o ambiente ao redor.

A rede onde se balançava a moça fazia parte de um espaço, nas Docas, que funcionou como um ponto de descanso. Ela se ajeitou de um modo engraçado, pernas para cima, celular nas mãos, conectada ao espaço das nuvens e, talvez, desconectada do entorno. Assim somos, ultimamente, uma civilização quase digital. Eu disse quase, porque ainda há muitos pontos de resistência, graças!

Eu tinha acabado de assistir a um encontro de especialistas, dos muitos que aconteceram no Armazém da Utopia, na sexta (15) e sábado (16), no âmbito do Urban 20, braço do G20 Social. Em pouco mais de uma hora apresentaram uma pequena mostra do livro que foi lançado numa parceria entre algumas instituições. Quem me convidou foi o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), uma dessas instituições, e que promoveu a roda de conversas com oito dos autores do livro “G20 e desenvolvimento sustentável urbano: governança, finanças e políticas” editado por Pedro Vormitagg, Marianna Albuquerque e Eugénie L. Birch. Pode ser acessado aqui, gratuitamente, mas está em inglês.

O livro é um compilado de sugestões para adequar os espaços urbanos ao bem estar das pessoas.

Um dos palestrantes, e autor de um dos artigos do livro, foi Andrew J. Kruczkiewicz, professor na Universidade de Columbia, chamou minha atenção quando falou sobre interação. Sinônimo de convívio, contato, diálogo, tudo aquilo que nos simboliza, a nós humanos e a muitos outros seres vivos, como mostra Haraway.

 Em parceria com quatro alunos, o professor Krucziewicz  colheu dados junto ao Centro de Operações Rio (COR) para estudar até que ponto as atuais estratégias de redução do risco de desastres são eficazes, no contexto da cidade do Rio de Janeiro e em toda a área urbana interligada.

Krucziewicz confessou: “O Rio é um lugar de muitas complexidades”. Em seu artigo, ele diz que é preciso desenvolver uma agenda também focada em “assentamentos informais do Rio de Janeiro particularmente vulneráveis aos eventos extremos climáticos”. Enquanto isso, lá fora, moradores de favelas se faziam presente, atuantes, com reivindicações importantes por melhor qualidade de vida no G20 Favelas. Fizeram falta ali, no diálogo, interagindo.

O professor concluiu: “Quem eu posso convidar para ajudar a interagir e captar a dinâmica das populações que nós defendemos? As mais vulneráveis estão incluídas nos dados que coletamos?”

De novo Haraway visita meus pensamentos. Ela se mostra impaciente com o que chama de “futurismos”. E elenca um tipo de futurismo menos eficaz, aquele defendido por especialistas que acreditam que as coisas “só importam se funcionam”, ou pior, “que a única coisa que importa é que eu e meus colegas especialistas trabalhamos para encontrar uma solução”. Se o professor  pensava assim, deixou de pensar no momento exato em que conheceu o Rio, esse lugar que chamou de complexo, e é mesmo.  Aqui, muita coisa importa, e Krucziewicz parece ter percebido isso.

Tomara que os outros especialistas que dividiram o espaço de debates tenham tido tempo para fazer um passeio, como eu fiz. Andei bastante pelas Docas, até porque não tinha outro meio de sair dali, já que as duas estações VLT foram fechadas. E fui percebendo o que respiramos diariamente nessa complexa cidade, a cor da diversidade. Povos indígenas, povos das favelas, vendedores que conseguiram um espaço para mostrar seus produtos a uma plateia tão variada.

 E lá estava a moça se balançando na rede, provando e comprovando a complexidade, com ar de liberdade.

Megalópolis são diversas mesmo – não é privilégio do Rio –  e serão cada vez mais. Hoje a população urbana mundial é de 55%. A estimativa, segundo as Nações Unidas, é que serão 68% em 2050. Respeitar a diversidade e interagir com tanta gente não é um bordão de nossa era, mas um imperativo. O “fenômeno” do crescimento populacional (entre aspas porque, de fato, não é nenhum fenômeno) foi motivo de preocupação já em 1972, quando países se reuniram em Estocolmo para o primeiro encontro sobre meio ambiente.

“A taxa média atual de crescimento do mundo, que é de 2%, dar-nos-á 7 bilhões de habitantes no ano 2000 e o bilhão seguinte chegará em menos de sete anos”, diz um trecho do livro “Uma Terra Somente”, que descreve a ata da Conferência de 1972 e que está ocupando também lugar de destaque aqui na estante.

 Nada como conhecer o futurismo que preocupava a cabeça dos especialistas há meio século. Na época ainda não havia o IPCC (criado em 1988), grupo de cientistas que, de tempos em tempos, nos informa sobre a situação climática e alerta sobre os eventos extremos que vamos ter que suportar. E não sabiam  também, os estudiosos da época, que os Gases do Efeito Estufa (GEE) poderiam fazer a Terra se aquecer de tal forma a torná-la insuportável para os humanos.

A respeito do efeito dos gases, há apenas uma breve menção no texto do livro de meio século atrás – “A poeira e as partículas na atmosfera podem também alterar a temperatura da Terra de modos inimagináveis” – e eu me pergunto por que pouco foi feito para evitar? Hoje, 70% dos GEE são produzidos nas cidades, causando secas, tempestades e doenças. Não por acaso, os ambientes urbanos têm sido foco de interesse cada vez mais genuíno nos grandes eventos.

O Urban20 é uma prova dessa inquietação.

Volto ao encontro dos especialistas. Perdoem-me a ordem anárquica do texto, mas ela acompanha os pensamentos diversos que me açodaram, tomada por tantos estímulos, conversas, imagens.  Outro autor que dividiu seus pensamentos no espaço da Utopia foi H.E. Fahd Al-Rasheed, autoridade responsável pela capital do Reino da Arábia Saudita e com uma experiência de duas décadas em administrar cidades naquele continente longínquo.

Jovem, de fala dinâmica, Al-Rasheed criou um certo movimento entre os jovens da plateia. Chamado de “Sua Alteza” pela mediadora (por respeito diplomático), Al-Rasheed perguntou quantos ali sonhavam em trabalhar numa administração municipal. Ninguém levantou a mão.

Para “Sua Alteza”, que foi  CEO do Grupo King Abdullah Economic City, essa falta de empatia com um serviço tão fundamental é incômoda. Ele mesmo passou vinte anos administrando cidades sem ter sido treinado para isso, confessou.

“Não existe um mestrado em administração de cidades, mas existem os Mestrados em Administração de Negócios (MBA). Temos que pedir às universidades que desenvolvam esse programa”, disse Al-Rasheed.

É mesmo um assunto que merece toda a atenção, e por isso eu optei por acompanhar aquela conversa, entre as outras quatro que aconteciam ao mesmo tempo no espaço. Não me arrependi, foi útil, e tenho agora dados atuais e diversos que me ajudam a pensar sobre cidades sustentáveis.

“Aprender a partir do acontecimento e criar a partir dele”, como escreve Haraway. A filósofa e zoóloga estadunidense nos convida ainda a “criar, fabular, para não nos desesperarmos”. Assumo a tarefa para não me submeter a pensamentos pesados diante das guerras, da retomada de um presidente negacionista na nação mais rica do planeta, de tanta miséria espalhada. Vou criando.

E caminhando. E cultivando a “virtude selvagem da curiosidade”, como ensina Haraway. Nesse sentido, fico feliz com tantos eventos que estão acontecendo ao mesmo tempo (filhotes da COP29 em Baku e do  G20 aqui no Rio). Por todo lado tem-se feito o necessário link entre questões climáticas e pobreza.

Vi uma enorme fila que se formava em frente ao edifício A Noite, icônico da Praça Mauá. Pessoas estavam sendo revistadas – é legítimo, tem que ter segurança com tantas autoridades na cidade – para entrarem no espaço do G20 Social. Um enorme palco estampava em letras garrafais o compromisso que o presidente Lula vai exigir dos líderes que começam a chegar hoje à cidade. Uma aliança global contra a fome, a pobreza e a desigualdade, que pretende atingir milhões de humanos no mundo todo que hoje sofrem desse mal, enquanto apenas 2.781 pessoas acumularam uma fortuna incalculável e vergonhosa. A aliança é também pela justiça climática, porque quem sofre mais com os eventos extremos são os pobres.

Mas estamos no Rio de Janeiro, certo? Como não poderia deixar de ser, minha caminhada terminou justamente quando a banda que acompanharia Zeca Pagodinho no mega show noturno começou a ensaiar um belo samba. E fui me deixando levar por um batuque delicioso. Quando percebi, estava até ensaiando uns passinhos, como as ainda poucas pessoas que já se espalhavam por ali após serem revistadas.

Uma cidade onde há sempre uma bela surpresa à espera, onde as pessoas interagem, se tiver uma administração preocupada com os eventos climáticos, respeitando os limites impostos pela natureza, pode poupar vidas e estragos materiais. Mas precisa cuidar de muitos outros problemas, como a miséria que se espalha pelas ruas.

 Que venham mais pensadores em nosso auxílio, para alargar nossos pensamentos. Serão sempre muito bem vindos.

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