Pensamentos soltos sobre a hora da verdade na COP da verdade. E atenção às capivaras

Desde o dia 6 de novembro estamos circulando por assuntos ligados ao meio ambiente por conta da COP 30. Quando eu escrevo “estamos”, estou querendo me referir a nós, jornalistas ligados ao tema. Sobretudo aqueles que estão lá, em Belém, onde tudo está acontecendo.

O manifesto da 350.org, em foto de Hugo Duchesne, gentilmente cedida pela instituição

Hoje sentei-me para ouvir, ler e escrever um texto com as novidades. E fui abduzida pela carta dos cientistas. Estava em outra vibração, mais positiva, achando bom até mesmo o simples fato de o tema estar na roda. Mas os cientistas – entre eles Carlos Nobre e Paulo Artaxo – puxaram minha cordinha. Já me explico.

Continuo achando bom uma reunião dessa magnitude estar acontecendo no coração da Floresta Amazônica. Continuo achando bom que os povos indígenas, os ribeirinhos, os pantaneiros, os povos da floresta, aqueles que realmente sentem os efeitos das mudanças climáticas em geral estejam sendo ouvidos, estejam ocupando lugares na Green Zone.

Achei bom aquele fundo para florestas tropicais para sempre (TFFF), que o presidente Lula apresentou de forma tão simples, dizendo: “Não é doação, é investimento”. Mas preciso confessar que, naquele momento, um certo desconforto me roçou o pensamento: “Ora, mas então o modelo continua o mesmo, ou seja, a ideia é ganhar mais dinheiro, acumular para consumir…” Logo uma amiga me disse, e eu repensei: “Mas é este o sistema capitalista, e é nele que vivemos”. Fazer o quê?

Estava indo por esse caminho. Usando lentes cor de rosa, na linha do “dos males, o melhor”.

Até que duas frases da carta que os renomados cientistas divulgaram ontem (19) pela manhã, conseguiram acender a luz da razão. E espanei as lentes otimistas.

“A proteção florestal não pode ser usada como compensação. Florestas em pé não podem ser uma desculpa para continuar queimando combustíveis fósseis”.

Juntei-me novamente àqueles que entendem que a raiz da crise climática está no modelo global de consumo, que esgota os recursos naturais e amplia as desigualdades. E na produção em massa, extração sem limite e desperdício em escala mundial. Essa nefasta combinação, que está também na essência de um sistema econômico baseado no acúmulo de riquezas, causa o desmatamento, a poluição e o aquecimento do planeta. E todos os eventos extremos que advém desse cenário.

Bem faz o pessoal da ONG 350.org, que lançou hoje mesmo a campanha “Mind the Gap-ybara”. Confesso que levei um tempo e precisei conversar com amiga(o)s jornalistas (já falei aqui, tenho um grupo que é de causar inveja) para perceber a mensagem.

Solange Noronha decifrou:

“No Metrô de Londres a expressão Mind the Gap é usada para alertar as pessoas sobre o espaço entre o trem e a plataforma. Os ambientalistas podem estar querendo chamar a atenção para o fosso que há entre intenção e gesto na questão climática”, disse ela.

Bingo!

Já escrevi aqui sobre a eterna sensação de estarmos vivendo uma era dos paradoxos. Acho mesmo que se Eric Hobsbawm estivesse vivo, poderia agregar esse livro à sua excelente série de “Eras”…

Faço um parêntese para dizer que as capivaras são animais maravilhosos. Não querem briga com ninguém, são amigas de todo mundo, até  mesmo de seus predadores. É um mamífero roedor, mas flutua bem nas águas, onde pode permanecer para se livrar do perigo, e dá um latido curto para avisar de perigo.  Vivem sua curta vida – chegam, no máximo, a 15 anos, como nossos pets – na boa, e até comem suas próprias fezes quando não tem outro jeito.

Não à tôa a capivara se tornou uma paixão nacional.  

Mas, voltando aqui aos paradoxos, hoje mesmo, penúltimo dia da COP30, a COP da Verdade, a COP da Implementação, ficamos sabendo que o Salão do Automóvel voltou ao Brasil depois de sete anos e que a Jeep apresentou detalhes do SUV que chegará ao Brasil no próximo ano.

Reproduzo um trecho do livro “A política da mudança climática”, de Anthony Giddens, quando ele apresenta o SUV – “É impossível que esses motoristas (de SUV) não saibam que estão contrivuindo para uma crise de proporções épicas no que tange ao clima mundial” – e se apressa em dizer: “Somos todos motoristas de SUV”.

“Pouquíssimos de nós estamos preparados estamos preparados para a gravidade das ameaças que temos pela frente”, escreveu Giddens em 2009.

Seguindo o pensamento de Giddens, eu pergunto: estaríamos preparados para dizer “não!” à disposição da empresa automobilística de querer produzir aqui seu novo carro? Mesmo sabendo que as fábricas de automóveis hoje são mecanizadas, ainda assim há empregos no entorno. E há toda uma entourage em defesa de tais lançamentos.

Eu respondo, trazendo aqui outro trecho de outra conversa com outra amiga: “Não, ainda não estamos preparados para a mudança necessária”.

Será que um dia estaremos?

Termino essa reflexão com um trecho do release da 350.org, com o pensamento de Brianna Fruean, Anciã do Conselho do Pacífico da 350.org:

“Essa discrepância entre ambição e ação não pode ser ignorada. Nossos povos do Pacífico estão lutando com unhas e dentes para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus e nossas ilhas acima do nível do mar. Por que precisamos ser constantemente a ponte entre o mundo e a sobrevivência? Nossos anciãos merecem descansar e nossos jovens merecem prosperar, livres da crise climática.”

Com o fogaréu que se espalhou hoje em Belém,  justamente na Blue Zone, área que a ONU administra na COP, vamos nos despedindo dessa mega COP, mega em todos os sentidos. Mas ainda volto aqui para falar dela porque falta o documento final.

A grande dúvida é: o texto escrito a 194 mãos (os países da ONU) vai dizer que é preciso baixar a produção e o consumo de combustíveis fósseis? E como garantir a prosperidade de nossos jovens sem lançamentos de SUVs, por exemplo? Ou sem pesquisar para descobrir novos locais de exploração de petróleo?

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Marcha e Declaração dos Povos: dois pontos fortes na COP30

Hoje cedo encontrei um amigo na caminhada, e ele está bem pouco otimista com a COP30. Não só ele, muita gente está. “Não vai solucionar nada”; “não se discute o que realmente importa”; “não tem assento para os mais vulneráveis, que são os primeiros a sofrer os impactos”; “o país mais poluidor, Estados Unidos, não está representado,  então do que adiantará fazer qualquer acordo?”.

São motivações justas, todas elas. Mas tem também o “outro lado”, que não responde a todas essas questões, mas que podem ser sementes de novas possibilidades de pensamento. Apego-me a tais sementes para ampliar minhas chances de analisar o grande imbróglio da civilização de hoje.

Por exemplo: acaba de sair a Declaração da Cúpula dos Povos Rumo à COP30. Como são muitos os momentos da Conferência, nem todo mundo se deu conta de uma enorme Marcha Mundial pelo Clima  que aconteceu pelas ruas de Belém neste domingo. Cerca de 70 mil pessoas desfilaram toda a sua diversidade pela cidade que hoje recebe líderes e negociadores de todo o mundo. Não é pouca coisa.

A foto é uma gentileza do Artyc Studio e mostra o funeral dos fósseis na Marcha pelo Clima de domingo

A marcha foi organizada por integrantes da Cúpula dos Povos e da COP das Baixadas, e teve a participação de representantes de organizações de todos os continentes, de povos tradicionais e das comunidades paraenses. E lá estavam a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas, endossando a caminhada da sociedade civil.

No texto da Declaração que se seguiu à marcha há pontos tão sensíveis quanto verdadeiros. Impossível deixar passar em branco, por exemplo,  que “o avanço da extrema direita, do fascismo e das guerras ao redor do mundo exacerba a crise climática e a exploração da natureza e dos povos”. Denominadas como “exigências”, há outras questões que também devem receber atenção dos negociadores.

É preciso olhar para o resultado dessa enorme organização. Se isso não for feito, há chance de aumentar o fosso entre a retórica dos gabinetes da COP e a fala do povo das ruas. O documento está aberto, pode ser acessado por quem tiver curiosidade. É um dos pontos positivos da Conferência. Mas tem outros. E nem é preciso botar as lentes cor de rosa para vê-los.

Na coletiva de imprensa do final do dia 12, com o presidente da COP30, André Corrêa do Lago e a CEO Ana Toni, o assunto principal foi sobre novos empregos e habilidade dos trabalhadores dentro da nova economia. Foi lançado um estudo  – “Jobs and skills for the New Economy” – desenvolvido em colaboração com a presidência da COP30 e parceiros internacionais, que mostra que a transição climática, focada nas pessoas, poderá criar 375 milhões de empregos na próxima década. Será um impacto significativo em quatro setores que foram analisados: energia, construção, manufatura e agricultura).

À mesa da coletiva de imprensa estava Nicholas Stern, economista britânico famoso por ter produzido, com equipe, o Relatório Stern sobre a Economia das Mudanças Climáticas, lançado em 2006. O professor está lançando agora “A história do crescimento do século XXI” (tradução literal), livro que está disponível gratuitamente no site LSE Press.

Stern fez várias autocríticas sobre seu primeiro Relatório, onde reconhecia que “o problema das alterações climáticas envolve uma falha fundamental dos mercados: aqueles que prejudicam outros emitindo gases com efeito de estufa geralmente não pagam”. E estava ali, na mesa, endossando a possibilidade de criação de empregos.

As iniciativas para a adaptação climática serão capazes de gerar alguns milhões de empregos, diz o relatório, sobretudo na gestão de riscos e saúde.

“A  partir de investimentos em construção, impulsionados por infraestrutura resiliente em regiões rurais, urbanas, costeiras e de baixa altitude. Outros 105 a 205 milhões de empregos poderiam ser criados nos setores de agricultura e uso da terra, impulsionados por intervenções como resiliência de culturas, pecuária e pesca; preservação de áreas de alta biodiversidade; e conservação e recuperação de ecossistemas terrestres, marinhos e de zonas úmidas.”

Para concretizar esse grande potencial de criação de novos empregos será preciso uma grande concertação entre governos, empresas e instituições financeiras. Se vamos conseguir, é outra história.

Fato é que a segunda semana da COP30 começou com um nível de tensão mais elevado, o que pode ser observado até pelo aumento da segurança nas imediações do centro onde tudo acontece. As negociações avançam do nível técnico para o político. E aí fica mais complicado. No site da COP, uma frase diz tudo: o jogo é jogado até o último minuto.

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Pesquisa Quaest mostra que 94% dos brasileiros já sentem os efeitos das mudanças climáticas

A Quaest, instituto de pesquisas que usualmente consolida dados para alimentar o debate público, decidiu se engajar (estou fazendo referência ao meu último post) às questões climáticas. Criou o  Índice de Percepção de Mudanças do Clima (IPM-Clima), e depois de entrevistar duas mil pessoas com 16 anos ou mais, em todo o território nacional, concluiu que 94% já sentiram alguma mudança do clima em sua região. Importante dizer que a pesquisa foi feita de 3 a 16 de julho, portanto quando as notícias sobre a COP 30 ainda não estavam ocupando a mídia de maneira tão intensa como agora.

Esta foto foi tirada por mim em um dia de muito calor aqui no bairro

No estudo, quando o entrevistado é instigado a responder sobre que tipo específico de mudança ele mais sentiu, as respostas se diversificam. Afinal, o Brasil é muito grande. A maioria, 69%, sentiram ondas de calor mais intensas do que o normal e 42% se queixam das secas mais prolongadas, enquanto 35% perceberam que algo está mudando nas estações do ano. Geadas, incêndios e chuvas mais intensos ocuparam 34 e 32% das respostas.

Com isso, 77% dos brasileiros estão preocupados, o que já é um grande primeiro passo para provocar mudança. E, a depender de 84% dos respondentes, o setor produtivo, ou seja, a indústria, precisa ser responsabilizadas pelas mudanças do clima. Logo abaixo, com 38%,  vem a mea culpa: a sociedade de consumo também precisa ser estimulada a fazer uma mudança em seus hábitos.

Esse dado remonta à “Encíclica Laudato Si”, escrita pelo Papa Francisco e publicada em 2015. O documento foi saudado pelos ambientalistas à época, justamente porque toca nos dois pontos mais sensíveis do problema: a produção e o consumo.

“Temos de nos convencer que reduzir um determinado ritmo de produção e consumo pode dar lugar a outra modalidade de progresso e desenvolvimento”, escreveu ele.

Sabia tudo o papa Francisco…

Hoje já temos alguns autores que oferecem como solução o decrescimento, o que faz muita gente torcer o nariz. Kohei Saito é um desses autores. Ele tem apenas 37 anos, portanto um legítimo representante da geração Y, e no livro “O Capital no Antropoceno” faz coro ao papa Francisco em sua Encíclica. Para ele, a atividade ilimitada do capitalismo é incompatível com os recursos naturais, que não são ilimitados.

Pelo que se percebe no IPM, já há um forte pensamento  neste sentido entre a parcela da população que foi entrevistada. E isso é bom. Dialoga, inclusive, com a proposta do governo do presidente Lula, de investir agora na pesquisa de petróleo para poder ter recursos e sair da era dos fósseis. É o que o papa Francisco chama de “outra modalidade de progresso e desenvolvimento”.

E como, de falta de dados e informações a gente não morre nesse período de COP30, acaba de sair outra pesquisa, realizada pelo Instituto Ethos em parceria com a GlobeScan, que dialoga com o que estamos refletindo aqui. Segundo o estudo, somente 41% das empresas produzem relatório formal sobre riscos climáticos, enquanto 65% não acessam financiamento climático. Apenas 31% afirmaram desenvolver ou apoiar iniciativas voltadas à transição justa, enquanto 16% disseram estar em fase de planejamento e 61% não sabem ou não contam com políticas que envolvem essa temática.

A pesquisa, na íntegra, só vai ser divulgada hoje à noite lá em Belém. Mas o teaser já nos leva a perceber que sim, o setor produtivo, apesar de muito barulho que faz em propagandas, ainda precisa trabalhar mais para enfrentar a mudança do clima. O próprio Caio Magri, presidente do Instituto Ethos, fala sobre isso no release que a organização distribuiu para os jornalistas:

“As empresas precisam se responsabilizar, pois são importantes não apenas em termos de adaptação técnica e operacional, mas também no que diz respeito à influência sobre políticas públicas, engajamento com a sociedade e inovação para enfrentar a mudança do clima. Por isso é tão necessário que o setor empresarial tenha metas nítidas de mitigação e adaptação climática”.

Vou continuar atenta para trazer notícias fresquinhas por aqui. Mas, gente… vocês não imaginam como é difícil fazer essa escolha. Tem muita notícia. E quem lê?

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Começa a COP30. Você está engajado(a)?

E eis que os riscos climáticos se fizeram sentir, de maneira trágica e novamente no Sul do país, dando materialidade às questões que começarão a ser debatidas na COP30, que começa hoje em Belém. Por conta de um tornado, seis pessoas morreram e mais de 600 ficaram feridas em Rio Bonito do Iguaçu, Centro-Sul do Paraná, segundo a reportagem publicada no G1. As imagens mostram casas destelhadas, imóveis danificados, árvores caídas, postes de energia no chão.

Era um ciclone, que ajudou a formar um tornado, e que assustou até o meteorologista Braun. Segundo ele, em 23 anos de profissão, esse foi o evento mais forte que presenciou. E está categorizado como EF3.

Neste post, que escrevi e publiquei no mês passado, eu conto que a carta de número 8 escrita pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago, divulgada no dia 24 de outubro, foca em adaptação. Ele defende que só assim será possível “aproximar o risco climático da vida cotidiana das pessoas”.

Adaptação pode ser mais uma dessa palavras que só ambientalistas entendem o significado quando aplicada às questões climáticas. Mas é muito mais fácil de entender do que se imagina. E tem a ver com justiça social e climática.

Vamos imaginar que muita gente que sofreu pelas famílias das vítimas da tragédia no Sul e pelas perdas materiais, não conecta o evento climático – que não é um desastre natural – às mudanças climáticas. Essa falta de conexão pode ser porque a pessoa não acredita mesmo no que diz a Ciência, e aí não há muito a fazer. Mas também pode ser porque o tema está – ainda! – distante do dia a dia, como alerta Corrêa do Lago.

Há tempos os ambientalistas se perguntam o motivo desse distanciamento. O pensador britânico Anthony Giddens, que em 2009 escreveu “A Política da Mudança Climática”, chegou a criar uma teoria que chamou de “Paradoxo de Giddens”, na qual sustenta que as pessoas têm dificuldade em agir contra perigos que não são imediatamente visíveis, como o aquecimento global.

Dá para entender. A vida já está difícil hoje, como ainda arranjar tempo para preocupações futuras? E, sobretudo, como se ocupar de questões cujas soluções dependem muito mais de líderes mundiais e empresas do que do cidadão comum?

Chegamos ao ponto. Adaptação é política pública, tem que ser vista assim, como diz também o relatório da Conferência das Partes (UNFCCC) que acabou de ser publicado elegendo o tema adaptação como primordial. E isso depende da vontade de quem está à frente da cidade, do estado, do país. E depende do meu, do seu, do nosso voto consciente.

Vou dar um exemplo bem próximo aos moradores do Rio de Janeiro. A cidade foi atingida pelo fim do tornado que assolou o Sul. Desde sábado (8), aqui está ventando bastante, chovendo muito. Nada que se compare ao problema que os gaúchos estão sofrendo, mas que também tem causado danos.

O maior estrago para os cariocas foi a queda de árvores. Isto é um assunto sério, e que tem tudo a ver com adaptação. As árvores urbanas não podem ser negligenciadas. Muitas foram plantadas de maneira totalmente equivocada, suas raízes se espalham pelo asfalto, pela calçada, ficam frágeis e caem com ventos fortes. A prefeitura precisa investir pesado, fortemente, com muito afinco, no cuidado com essas árvores. E mais: tirar uma e plantar outra! Porque precisamos das árvores também para nos adaptarmos a outro sério risco climático: as ondas de calor.

É apenas um exemplo. É preciso um olhar minucioso para cuidados com os territórios urbanos. Já somos 56% de moradores de cidades no mundo, e esse número tende a aumentar. Administrar cidades em condições de risco climático como vivemos, e viveremos cada vez mais, quer dizer investir prioritariamente em torná-las adaptadas a tais riscos.

Adaptar é fazer justiça social também. Deslocar pessoas que moram em locais de risco de enchente ou de queda de encosta, construir lugares seguros para essas pessoas. Cuidar do lixo para que as águas possam fluir, plantar muitas árvores para que o solo possa absorver parte dessas águas. Enfim, há um cabedal de iniciativas.

Contratar shows com artistas pop não faz parte desse programa. Não resisti à provocação.

Adaptar-se à vida sob risco climático é, com certeza, muito mais chato do que viver como se os perigos estivessem longe, lá no fim do século. Mas é a realidade, e os moradores da cidade vão acabar agradecendo, talvez nas urnas. Os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês) que se debruçam voluntariamente para pesquisar esse risco já fizeram sua parte. Não faltam alertas em seus relatórios, ano após ano. E não é raro ouvir deles uma expressão que deixa transparecer surpresa sempre que os dados mostram que os riscos climáticos estão acontecendo muito mais cedo do que se pensava.

A bola está com aqueles que elegemos. E, é claro, a responsabilidade também é nossa, no momento de eleger. Pensa bem: quantos candidatos apresentam plataformas nas quais as questões climáticas têm protagonismo?

A COP30 certamente vai chamar esse tema, já que adaptação está no radar.

Vamos acompanhar.

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Ser Sustentável traz o boletim da Cúpula do Clima de Belém

Não, não, esperem!

Talvez eu tenha induzido vocês a crer que eu esteja na capital do Brasil hoje, que é Belém. Na verdade, estou aqui mesmo, no lugar de sempre, em frente ao meu computador. Mas, graças à inovação tecnológica – essa mesma que precisa de minerais que saem das profundezas da Terra, o que ajuda a colapsar o clima – estou acompanhando o dia todo o que acontece na cúpula.

E a pedidos de alguns amigos, conto um pouco.

O dia começou com um discurso do Lula. Bem, vocês vão dizer que eu estou falando demais do presidente. Mas, gente, impossível não falar! O homem está em todas, ele realmente tomou para si a produção do evento. Hoje falou de manhã sobre transição energética e, como sempre, conseguiu levar o discurso para o que é seu foco principal: o combate à miséria.

A folhas tantas, depois de dizer que o Brasil não tem medo de discutir transição energética e que  “Já sabemos que não é preciso desligar máquinas e motores, nem fechar fábricas ao redor do mundo de um dia para o outro” – clara referência às críticas sobre a pesquisa de petróleo na Margem Equatorial – Lula lembrou que:

– 2 bilhões de pessoas não têm acesso a combustíveis adequados para cozinhar.

– 660 milhões de pessoas dependem de lamparinas ou de geradores a diesel nas periferias das grandes cidades e nas comunidades rurais da América Latina, da África e da Ásia.

– 200 milhões de crianças frequentam escolas sem acesso à luz elétrica.

Uma espécie de novo paradigma das conferências sobre o clima, este de incluir a pobreza nos debates.

Mais tarde, o presidente Lula falou de novo, dessa vez em outra reunião para lembrar os dez anos do Acordo de Paris. Aquele, que pouco ou nada adiantou. E fez um chamamento: “O Acordo se baseia no entendimento de que cada país fará o melhor que estiver a seu alcance para evitar um aquecimento de mais de um grau e meio. O que nos cabe perguntar hoje é: estamos realmente fazendo o melhor possível?”. Não sem inserir no discurso também o fato de as pessoas mais pobres do planeta serem também aquelas que mais são impactadas pelas mudanças do clima. E de dizer que “Omitir-se é sentenciar novamente aqueles que já são os condenados da Terra”. 

São meros discursos, dirão os menos otimistas. Sim, eu concordo. Mas ouvir retóricas inúteis em COPs já tem sido um hábito. Que, ao menos, seja uma retórica útil, que lembre o que é preciso lembrar. É o que penso.

E durante nove horas houve o discurso dos líderes. Tenho o hábito, nas COPS, de acompanhar esses discuros, de tentar imaginar detalhes sobre cada país que está ali sendo representado. O que faz Lesotho, por exemplo, um país com cerca de 3 milhões de habitantes, incrustrado em montanhas na África, regido por uma monarquia, estar ali no púlpito, falando para a Conferência do Clima? Basicamente, a necessidade de recursos para investir em hidrelétricas, já que há montanhas e água limpa à vontade no país.

A representante de Lesotho

O Iêmen foi representando por um general.  O país  mais pobre do mundo, que recentemente se mostrou guerreiro, apoiando a Palestina, estava ali, lembrando que os eventos extremos – seca e tempestades – estão dificultando sua agricultura.

A Palestina esteve presente, mas o discurso foi em árabe, não consegui captar nada do que foi dito. No site do país, na menção sobre a COP30, temos mais ou menos uma noção. A primeira exigência é que o Brasil pare de fornecer petróleo para  Israel.

Dos 198 países que fazem parte da Convenção Quadro das Nações Unidas, há 170 confirmados para participarem. No total, são 50 mil pessoas que vão agitar Belém, que hoje oferece um sol para cada um. Na foto de família feita hoje pela manhã, com árvores da maior floresta tropical do mundo ao fundo, dava para notar que o calorão tá bravo.

Antes mesmo de começar, no entanto, a COP30 já recebeu um torpedo de ninguém menos do que Bill Gates, o dono da Microsoft, um dos homens mais ricos do mundo. Sempre focado na saúde das crianças e do clima, o bilionário escreveu um livro em 2023, que tenho aqui na estante, com o título “Como evitar um desastre climático”. Mas, aparentemente, voltou atrás na preocupação. E resolveu escrever um artigo defendendo uma mudança de olhar sobre o aquecimento global. Obviamente, em comum acordo com o seu colega negacionista Donald Trump. Como se estivesse falando algo inédito, Gates diz que “é preciso colocar o bem-estar humano no centro de nossas estratégias climáticas”.

Sem comentários.  

Segunda-feira eu volto.

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A COP da verdade e da luta contra a fome e a miséria

Meus amigos são tudo de bom. Vira e mexe alguém me cutuca para ler e comentar, aqui no blog, esse ou aquele artigo. Dessa vez foi Lucila Soares, amiga-de-fé-irmã-camarada.

A foto foi tirada por mim em 2015, em viagem que fiz ao Arquipélago do Bailique. É a Floresta Amazônica, com toda sua força e potência. Será que conseguimos mantê-la?

“Já leu o artigo do Lula sobre a COP hoje?”

Eu não tinha lido. Mas, sou boba de não considerar um cutucão desses, vindo de pessoa tão antenada? Claro que ela tinha toda razão. Texto lúcido, explicativo, diferentemente de tantos outros, sobre o tema, que acabam se emaranhando em siglas e imbricando os leitores, com explicações muitas vezes que só interessam mesmo aos estudiosos do tema.

Lula foi certeiro. Falou sobre a posição do Brasil, que chega à COP com a desenvoltura de quem está fazendo a sua parte. Mesmo que, infelizmente segundo o último relatório do Pnuma (agência da ONU que cuida do meio ambiente), no total, o mundo não caminhe para o que se determina como gol de placa: aquecer não mais do que 2 graus até o fim do século. Se tudo continuar como está, dizem os pesquisadores, vamos aquecer até 2.8 graus. E isso não é pouco, gente. Tenho aqui na estante o livro de Mark Lynas – “Seis Graus”, ed. Zahar – que explica o que pode acontecer com cada bioma caso o mundo aqueça 1, 2, 3, até seis graus. Vamos tomar 2.8 por 3, certo? Vejam o que ele preconiza para a Amazônia, neste caso:

“A comparação mais próxima pode ser com os incêndios que se alastraram em 1998 por toda a Indonésia, encobrindo durante meses vários países com uma fumaça sufocante… Nascerá uma nova e irreconhecível paisagem. A poeira se aglomerará nos ocos dos restos carbonizados das árvores. Mais perto do chão, um suave silvado começará a se ouvir: são as dunas de areia erguendo-se. O deserto chegou”.

Mas o Brasil está derrotando um dos grandes males, o desmatamento, para tentar evitar chegar a esse caos. E isso é muito bom para nós, mas também para tentar manter a biodiversidade. Somos essenciais, os humanos, mas não podemos nos esquecer que não vivemos aqui sozinhos e precisamos da vida de outros seres para nos mantermos vivos.

E Lula segue, com a postura de quem está cumprindo o dever, como cutucador oficial. “A cada Conferência do Clima, ouvimos muitas promessas, mas poucos compromissos efetivos. A época das cartas de boas intenções se esgotou: é chegada a hora dos planos de ação.”

Por isso mesmo, ele dá à Conferência a alcunha de COP da verdade. Que seja.

Mas o momento mais sensível do artigo, para mim, é aquele em que Lula é Lula, ou seja, o líder que sempre põe na mesa para debate, seja em que canto do mundo for, uma questão crucial: o combate à fome e à miséria: Escreve Lula:

“Não podemos esquecer que 2 bilhões de pessoas não têm acesso à tecnologia e combustíveis limpos para cozinhar; 673 milhões de pessoas ainda vivem com fome no mundo. Em resposta a isso, lançaremos, em Belém, uma Declaração sobre Fome, Pobreza e Clima. É essencial que o compromisso da luta contra o aquecimento global esteja diretamente relacionado ao combate à fome.”

Pronto. Se me permitem, vou ampliar a alcunha: será a COP da Verdade, em combate à fome e aos miseráveis. Assim fica melhor.

Vou tentar trazer notícias aqui para o(a)s leitore(a)s durante esse tempo. Não estou em Belém, mas estou com as antenas todas ligadas no que acontece. E podem me cutucar!

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Adaptação é o “próximo passo da evolução humana”, diz presidente da COP30

Em priscas eras falavam-se, entre os que estudam desenvolvimento sustentável, sobre a necessidade de mitigação. Acompanho o movimento de empresas, líderes e sociedade civil desde o início do século, quando me tornei editora do “Razão Social”, caderno do Globo, praticamente o primeiro a se dedicar ao tema. Mitigar os impactos era a palavra de ordem, o que direcionava as instâncias para a necessidade de baixar a produção, já que se trata de reduzir os danos ao meio ambiente.

A segunda mesa do seminário cujo tema foi aumentar a resiliência dos vulneráveis. Foto: Amelia Gonzalez

O movimento se arrefeceu. Parece não ter soado bem a uma civilização que não está ainda inteiramente convencida de que é preciso uma grande concertação, uma mudança radical em nosso jeito de ser, de estar no mundo.

E agora estamos indo em frente com a adaptação.

O último relatório da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, também conhecida como UNFCCC, lançado no dia 21, ou seja, a 20 dias da COP30, mostrou que países estão acelerando a implementação dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs). Segundo o documento, até 30 de setembro de 2025, 144 países já haviam iniciado a elaboração de seus NAPs, e 67 nações em desenvolvimento — entre elas, 23 dos países mais pobres e 14 pequenos estados insulares — enviaram oficialmente seus planos à UNFCCC.

O que muda na vida prática dos cidadãos? O estudo mostra que os países apontam a equidade de gênero, a participação comunitária e a redução de vulnerabilidades como pontos fortes nesses planos. Soa interessante.

“O avanço dos sistemas multirriscos de alerta precoce — já presentes em 119 países — tem melhorado diretamente a segurança das populações. Ações locais nos setores de agricultura, saúde e planejamento urbano aproximam a resiliência climática das necessidades cotidianas, ajudando as pessoas a se preparar e se adaptar a um clima em rápida mudança”, diz o relatório.

E hoje mesmo, portanto a 18 dias da COP30, o presidente André Corrêa do Lago divulgou sua oitava carta à comunidade internacional. O tema é adaptação.

Tenho colecionado as missivas virtuais de André Corrêa do Lago. Gosto delas sobretudo porque têm um tom nada burocrático e convidam a refletir. Esta oitava carta não é das mais inspiradas – ele costuma filosofar mais – mas traz dados importantes, como do Índice Global de Pobreza Multidimensional de 2025, publicados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em 17 de outubro.

 O estudo revela a situação do mundo hoje, considerando o que importa, que são as pessoas. 1,1 bilhão de pessoas, de um total de 6,3 bilhões em 109 países, vivem em pobreza multidimensional aguda – mais da metade delas crianças. Desses 1,1 bilhão, 887 milhões vivem em regiões que já enfrentam ao menos um grande risco climático, e 309 milhões enfrentam três ou mais riscos simultaneamente.

Escreve o presidente da COP30 à comunidade:

“As pessoas não falam em siglas; falam de casas inundadas e colheitas perdidas, de economias locais em colapso após tempestades, de escolas e hospitais destruídos, de mulheres liderando as respostas comunitárias. Por trás de cada história está a mesma realidade: os impactos climáticos estão corroendo conquistas de desenvolvimento, ampliando desigualdades e empurrando milhões de pessoas de volta à pobreza”.

Ele defende a adaptação para, entre outras coisas, “aproximar o risco climático da vida cotidiana das pessoas”.

Andre Corrêa do Lago divulgou sua carta hoje às 11h, quando eu estava assistindo ao encontro “COP30 Amazônia – Resiliência Climática, o desafio da adaptação às mudanças do clima”, organizado pelos jornais O Globo e Valor Econômico e a rádio CBN, em um restaurante no bairro do Flamengo. Lá passamos pouco mais de duas horas refletindo sobre a adaptação.  As jornalistas Daniela Chiaretti e Ana Lúcia Azevedo fizeram a mediação em duas mesas, com alguns especialistas.

Afinal, o que é adaptação?

Adaptar é se preparar para o que vem por aí. Preparar escolas para que elas ofereçam conforto térmico aos seus alunos e professores. Preparar espaços públicos para que eles igualmente ofereçam conforto. Preparar cidades, plantando  muitas árvores, ajudando as pessoas a fazerem telhado verde, criar oásis para servir de descanso às pessoas em dias com ondas de calor.

Inamara Mélo, diretora do Departamento de Políticas de Adaptação e Resiliência da Secretaria Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, contou que Entre as medidas presentes nas agendas do Ministério do Meio Ambiente está o AdaptaCidades, que visa apoiar dois mil municípios até 2035 com a facilitação de acesso a financiamento climático.

“Precisamos virar a chave e ampliar o engajamento das pessoas em relação a essa temática no Brasil”, disse ela.

Quando saí de lá decidi caminhar pelo Aterro, pelas ruas até o Largo do Machado. Fui imaginando como seria o mundo adaptado às questões climáticas. Algumas coisas que me ocorreram:

. Ruas com menos carros porque as pessoas praticariam mais a mobilidade ativa – bicicleta ou a pé – para deslocamentos. E bons, excelentes, transportes públicos, seja veículo leve sobre trilhos, metrô, ônibus elétrico;

. As escolas têm que ser aclimatadas, mas isso não quer dizer uso de ar condicionado, senão adeus adaptação. É preciso fazer obras, alargar muito as janelas, tirar aquelas grades e plantar muitas árvores no entorno de cada escola;

. De tantos em tantos quarteirões, um oásis. Com direito a água de graça e a jatinhos de água fria para refrescar. Sob árvores, claro;

. Nas ruas, em dias de muito calor, as pessoas deveriam se vestir de roupas leves, de linho, nada de poliéster. E chapéus. Temos que voltar a usar chapéus;

. Se ainda existirem moradores em situação de rua, a eles deverá ser dado água constantemente.

Tomara que, como deseja o presidente da COP30, haja uma cooperação internacional neste sentido. Confesso que acho mais viável. Enquanto isso, vamos desmamando do petróleo, mas como uma grande concertação, não apontando o dedo uns para os outros, denunciando este ou aquele país, mas percebendo que, para que o petróleo suma de nossas vidas, nós também vamos ter que colaborar. Mudando radicalmente nosso modo de vida.

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Um exército para salvar as árvores urbanas

No meio da manhã chuvosa de domingo,  o barulho da motosserra aqui na vizinhança arranhou meus ouvidos. Pus minha indignação nas teclas do computador e a lancei nas minhas redes.

Como ousam, ainda a essa altura, retirar árvores urbanas? Que elas adoecem, envelhecem e morrem, todos sabemos. Mas a humanidade precisa das árvores, não só para sequestrar o carbono que continuamos emitindo como se não houvesse amanhã, como para amenizar um pouco o calorão. É direito de todos nós, portanto, saber os motivos que levam pessoas a retirá-las.

Árvores urbanas. Foto tirada por mim, andando por aí

Não tardou para que uma vizinha me alertasse, também pela rede:

“A motosserra está tirando os galhos de uma árvore que caiu ali na esquina e causou um grande estrago, derrubando dois postes”.

Sim, a árvore caiu, doente que estava. Era imensa, bem alta. Não aguentou a chuvarada e o vento da primavera.

Mas nem de longe a minha indginação se arrefeceu. Pelo contrário.

Alguns meses atrás, em conversa com o Sr. Luiz, porteiro há anos no prédio em frente à árvore que caiu, comentei sobre ela, que havia chamado a minha atenção. Ela chamava a atenção por estar sem folhas. Cheguei a pensar que, realmente, ela não resistiria muito tempo em pé. Na ocasião, Sr. Luiz comentou comigo:

“Vai cair, todo mundo está avisando. Só quem não vê é a Comlurb. Se fosse no tempo da Fundação Parques e Jardins, eles já teriam solucionado”, disse-me ele.

Eu tentei relativizar, em favor da árvore:

 ‘O que eu queria mesmo é que um técnico viesse vê-la. Não sei se devemos condená-la assim”.

Pois na primavera, pouco depois dessa conversa, a árvore reviveu! Encheu-se de folhas, de onde brotaram umas flores lindas, de cor roxa. Sem saber que aquele seria o último suspiro da árvore, comemorei. E, é claro, não deixei de comentar com o Sr. Luiz.

“Viu? Quem diria, heim? Está ela aí, olha só: linda e florida”.

Sr. Luiz não se fez de rogado. Com um muxoxo, comentou:

“É, pode ser… Mas ainda acho que ela vai dar problema”.

Ontem, quando vi que tinha sido aquela mesma árvore que havia caído, além de comemorar o fato de não ter machucado ninguém, confesso que fiquei um tempo grande a olhar suas raízes. Não conseguia entender. Os técnicos disseram que ela estava cheia de cupim. Que lástima. Ainda não encontrei Sr. Luiz, mas tenho certeza de que ele, com razão, vai se vangloriar de sua sabedoria.

Quanto a mim, continuo indignada. É só conversar no entorno para que os vizinhos – e em todos os bairros – apontem uma, duas, três árvores que estão “a ponto de cair”. E por que nada é feito? Outras árvores vão precisar cair? E se, um dia, acertar alguém? Vamos ter que engrossar o coro dos que acreditam que “é melhor ladrilhar?”. Não, eu me recuso.

Do alto da minha nenhuma experiência administrativa, julgo-me, porém, como cidadã, capaz de dar sugestões. Aí vai. Que a prefeitura crie um exército formado por pessoas capacitadas para inspecionar todas as árvores urbanas. Algumas podem precisar apenas de remédios, podas, para que continuem mais um tempo oferecendo sombra e frescor aos moradores. Outras, como a que caiu, talvez precisem mesmo ser retiradas para não provocarem danos maiores (os vizinhos ficaram sem internet um longo período por causa dos fios que se romperam com a queda).

Vou abusar e estender minha sugestão. Que se recrute, para este exército, pessoas em situação de rua que estejam dispostas a trabalhar. E jovens que se interessem pelo tema. Receberão capacitação, salário, crachá, uniforme. E serão sempre muito bem vindos em todos os logradouros.

Que a morte daquela linda árvore, que deu seu último suspiro de maneira tão sensível, oferecendo flores a todos nós, não seja em vão. Quem sabe se, medicada, ela poderia ficar livre dos cupins e viver por mais alguns anos?

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Recordando tempos difíceis

Nem sempre consigo tempo para escrever aqui no blog. Os amigos já sabem disso, relevam ou não Meus leitores também sabem que, quando eu tenho um trabalho, preciso abrir mão de fazer essa extensão de pensamento que faço aqui, sempre tentando trazer autores que eu visito para entender melhor o mundo.

Hoje, porém, fiz contato com um texto que escrevi num passado, em tempos bem difíceis, quando vivíamos uma pandemia no mundo.

E vou reproduzir porque fiquei feliz quando li. Dei a ele o título de Crônica da Diversidade. Foi publicado em 3 de julho de 2020, e fico boba quando penso que já lá se vão cinco anos!

Começo o texto contando o ambiente do prédio onde vivemos.

Segue:

Tem gato que se chama Mio.

Tem cachorra que se chama Mia.

Tem o Beto cachorro, tem o Beto que zela pelo prédio. Tem também a Maria, cachorrinha velhinha e bem pimpona, respeitada até pelos dois irmãos caninos do segundo andar, lindos, a turma do barulho. 

Ah! E tem também o Che, passarinho danado de abusado que não quer saber do perigo. Vem aqui na minha janela beber água e deixa Mio e Zuda, do muro ao lado, com os olhos estatelados, lambendo os beiços. Mas Che é esperto, voa rápido que só ele. E só bebe água fresca. Se eu me esqueço de trocar, ele vai beber na vizinhança.

Tem palhaço! E tem palhaçada no corredor, a sério. O Café Pequeno, na verdade o ator Richard Riguetti, que vive de fazer arte para muita gente na rua e nos palcos, criou assim seu jeito de enfrentar a pandemia, esta mesma que obrigou todo mundo a ficar isolado. E a manter distância. Não se junta mais gente. Cadê a arte de rua? A foto do post é de uma apresentação, foi clicada por Juliana Garçon.

As crianças do prédio adoraram a palhaçada.

Tem gente que escreve, gente que lê e escreve, gente que cuida de gente! Isto tem mais de um. Tem jornalistas, assim mesmo, no plural.

E músicos, também tem! À tarde, é só esperar para ouvir o clarinete, o oboé…

Tem gente que faz cristais da boa energia e sai pendurando, dando para quem mais gosta. Tem vitrais que mais parecem com igreja, lindos.

É assim o prédio onde eu moro.

Pequenino, fica no fim da rua tranquila. Quando veio a ordem de ficar todo mundo em casa, foi um tal de um ajudar o outro, fazer compras, emprestar coisas. Manteiga, livro, açúcar, dendê… já rolou de tudo. 

 Quem sai, como eu, fica no quarteirão. É só para respirar e andar com a cachorrada. Ou pegar um solzinho com as crianças.

Mas não estou dizendo que vivemos em total harmonia. Até porque, como já estamos cansados de saber, essa tal de harmonia é só para inglês ver, para vender margarina aos que acreditam que a paz mundial tem uma receita única. Ou para fazer falsas promessas, que delas já estamos cheios.

Ser humano é diverso, cada um é um. Somos todos, como diria Friedrick Nietzsche, filósofo e poeta,  humanos, demasiado humanos. Portanto…já rolou discussão, muxoxo, um vira a cara para o outro, o outro vira a cara para o um.

Se tem muito barulho no prédio, nossa! Eu mesma viro bicho. Se aparece barata, ah… o Beto que zela pelo território vai ouvir…

Hoje acordei pensando nisto, hoje acordei acreditando na diversidade. A natureza é diversa, toda gente é diversa. Respeitar o poder da diversidade é uma das chaves que pode abrir as portas para uma civilização diferente. 

 Peguei da estante “Morte e vida das grandes cidades”,  de Jane Jacobs, lançado aqui pela editora Martins Fontes. Um livro gostoso de ler, com tanta informação que é impossível não identificar, nos pés e nas patas do meu prédio, o balé urbano sobre o qual ela fala. Um livro que quero sugerir aos leitores – sobretudo aos que estão estudando urbanismo –  porque estamos num momento de perceber, de abrir os olhos, de ficarmos atentos a tudo. Estamos num momento de acreditar que é possível mudar, que não podemos nos agarrar a uma fajuta “volta à normalidade”. Não depois de tudo que estamos vivendo. 

Jane foi uma super ativista social canadense, morreu em 2006 aos 90 anos. “Morte e vida das grandes cidades” foi seu grande gol, lançado nos Estados Unidos em 1961, que chegou aqui só no início deste século. O tema central é Nova York, cidade onde Jane viveu. Jane usa uma linguagem bem atraente, conta histórias a partir de sua própria vivência. E é deste jeito que vai construindo uma narrativa de oposição ao estilo higienizado e asséptico criado pelos arquitetos dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam). O Ciam foi uma instituição lançada na Europa nos anos 20, depois da I Guerra, para defender e difundir um ideário de arquitetura e do urbanismo modernos. Na verdade, para recuperar grande parte das cidades que foram derrubadas com os bombardeios.

Quando Jane lançou o livro, Brasília estava sendo construída exatamente sob os moldes de Le Corbusier, arquiteto que escreveu “Carta de Atenas”, livro do qual também gosto muito. Le Corbusier foi membro dos Ciam.  Na verdade, fico bem em cima do muro, entre um e outro plano de urbanismo. E decido gostar dos dois. 

Para Jane, cidade tem que ser diversa, pobre misturado com rico, rico misturado com remediado, todo mundo experimentando a vida. E assim vai se ajeitando. Não adianta impor um padrão, porque nós, humanos, não somos padronizados.

Le Corbusier constrói cidades que se adaptariam melhor à pandemia. Para ele, é preciso ter espaço entre as casas, é preciso que as ruas sejam setorizadas: comércio com comércio, banco com banco, empresa com empresa, residências com residências. Organiza mais. Por outro lado, tira a riqueza da diversidade.  

Fiquei enfeitiçada pelo texto de Jane. Uma frase, em especial, chamou minha atenção e está me ajudando a alinhavar meu pensamento: 

“Há um aspecto ainda mais vil que a feiura ou a desordem patentes, que é a máscara ignóbil da pretensa ordem, estabelecida por meio do menosprezo ou da supressão da ordem verdadeira que luta para existir e ser atendida”.

Estamos vivendo um momento especial no mundo, no  Brasil. Ainda mais no Rio de Janeiro. O professor e escritor Luiz Marques descreve assim no artigo que escreveu para o site da Unicamp, onde leciona:

“A atual pandemia intervém num momento em que três crises estruturais na relação entre as sociedades hegemônicas contemporâneas e o sistema Terra se reforçam reciprocamente, convergindo em direção a uma regressão econômica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recuperação. Essas três crises são, como reiterado pela ciência, a emergência climática, a aniquilação em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela indústria química”.

Ou seja: é um momento danado de ruim para se ter uma crise de saúde. 

Mas, já que não há outro jeito, o meu desejo é que a gente consiga sair dela com valores diferentes. Nem melhores, nem piores, mas diferentes. Para que isto aconteça, precisamos conhecer mais, descobrir autores que nos possibilitem reflexões. Eis a minha contribuição de hoje.

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Sem rodeios

Não quero ser arauto de más notícias, mas quero, como sempre, trazer dados importantes para a nossa reflexão cotidiana pós senso comum, se me permitem a expressão quase neologista. Ou despertar outros sentimentos, ampliar pensamentos – “Pensar com uma mentalidade alargada significa treinar a imaginação para sair em visita”, diz Hannah Arendt.

 Ou, como disse certa vez o engenheiro de sistemas Brad Werner em um encontro da American Geophysical Union, em São Francisco, sobre o acelerado esgotamento de recursos naturais impetrado pelo nosso sistema de produção e consumo atual, “a única coisa científica a fazer é se revoltar”*.

Bem, mas vamos direto à notícia: um estudo divulgado no jornal britânico The Guardian, com análises de 25 anos, mostra que compensações de carbono, como as que vêm sendo feitas mundo afora, não conseguem reduzir o aquecimento global “devido a problemas sistêmicos intratáveis”. Leia-se: excesso de emissões de gases do efeito estufa provocadas pelo nosso sistema de produção e consumo “as usual”.

Os empresários, a indústria, os diplomatas e negociadores das COPs, os líderes (não todos, mas…) têm se esforçado bastante, e disso ninguém tem dúvida. Mas, segundo Stephen Lezak, coautor do estudo, não está sendo bastante eficaz, pelo menos não em larga escala.

“Precisamos parar de esperar que a compensação de carbono funcione em larga escala. Avaliamos 25 anos de evidências e quase tudo até agora falhou”, disse ele à reportagem do jornal.

Outra pesquisa publicada na revista Nature Communications, abrangendo 14 estudos sobre 2.346 projetos de mitigação de carbono e 51 estudos que investigaram intervenções de campo semelhantes implementadas sem a emissão de créditos de carbono, descobriu que menos de 16% dos créditos de carbono investigados mostraram reduções reais nas emissões de gases de efeito estufa.

“Os mecanismos de crédito de carbono precisam ser reformados fundamentalmente para contribuir significativamente para a mitigação das mudanças climáticas.”, conclui o estudo encabeçado por Bento S. Probst, mas que envolveu outros nove pesquisadores.

Na lista de problemas apontados pelos pesquisadores e que levam à inoperância dos sistemas de créditos de carbono, há construções irregulares de parques eólicos e plantio de árvores que, depois, são incendiadas para abrir mão para o progresso.  

Isto quer dizer que não devemos mais expandir nossos mecanismos de compensações? Não. Mas quer dizer que precisamos parar um pouco de fazer isso de maneira irrefletida, ampliada, para ganhar terreno nas tecnosoluções para o aquecimento.

Donna Haraway, Anna Tsing, o japonês Kohei Saito, são apenas alguns dos pensadores da atualidade que estão chamando atenção para a inocuidade de processos que não olham de frente para o problema. Enquanto continuarmos a produzir e consumir do mesmo jeito, vamos ter que explorar os bens naturais até que deles não reste mais nada.

*A informação está na página 96 do livro “Ficar com o problema”, de Donna Haraway (N-1 Edições)

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