Documentário sobre Balanço Ético Global traz os povos e a visão do mundo mais-que-humano

Ella Adoo-Kissi-Debrah tinha 7 anos quando começou a ter crises fortíssimas de asma, a ponto de ser internada 27 vezes em hospitais. Dois anos depois, faleceu. O ano era 2013, e Ella foi a primeira pessoa do mundo a ter registrado “poluição do ar” como causa mortis em sua certidão de óbito.

O embaixador Corrêa do Lago e a ministra Marina assistem, ao lado de Michele Bachelet, a uma apresentação de dança dos povos da África. Foto de divulgação

A partir de então, sua mãe, a britânica Rosamund Adoo-Kissi-Debrah, tornou-se uma ativista ambiental, “pelo direito a um ar limpo”.

Ella morreu porque diariamente, quando ia e voltava da escola, precisava passar pela movimentada via urbana South Circular, no Sudeste de Londres, perto de sua casa. Como se pode imaginar, Ella respirava um ar carregado de gases poluentes, o que foi intensificando suas crises de asma. Se soubesse disso, diz hoje Rosamund, ela teria se mudado com a menina.

Rosamund entrou com um processo na Justiça contra o governo de seu país e conseguiu um acordo. Com o dinheiro que recebeu, criou a Fundação Ella Roberta. E anda pelo mundo contando sua história, alertando outras mães.

“Acreditamos em um mundo onde todos possam respirar ar livre de poluição tóxica, independentemente de onde vivam, de sua condição econômica ou de sua origem étnica”, diz Rosamund.

O depoimento da britânica é um dos pontos altos do documentário brasileiro “Vozes em Mutirão — Uma história do Balanço Ético Global” cuja estreia mundial será em Londres, com exibições nos dias 22 e 25 de junho durante a London Climate Action Week 2026. O filme, dirigido por Leonardo Menezes e Eduardo Carvalho, acompanha os bastidores dos encontros globais do Balanço Ético Global que aconteceram no caminho para a COP30, em Belém. A realização é dos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima e das Relações Exteriores. A produção é da Outra Onda Conteúdo com Marahu Filmes. Os brasileiros vão precisar esperar para assistir.

Um documentário como “Vozes em Mutirão” é necessário, sobretudo em um momento como o que estamos vivendo. Só para contextualizar nosso cenário atual: um presidente negacionista no país mais poluidor que acaba de pedir 1,5 trilhão de dólares ao seu congresso para investir em armamentos no ano que vem.  Em paralelo, os desastres climáticos afetaram diretamente mais de 336 mil pessoas no Brasil e causaram 4.200 mortes por inundações em todo o planeta em 2025.

 Por tudo isso, mesmo que pareça uma retórica inútil, vale a pena ouvir, por exemplo, a ex-presidente da Irlanda Mary Robinson, ativista do meio ambiente, hoje com 82 anos, dizendo que “Estamos enfentando a necessidade de sermos mais inteligentes e estarmos mais unidos no que estamos fazendo”.

Por outro lado, é  frustrante perceber o quanto andamos em tempo, não em ações que pudessem diminuir nosso problema, desde que começamos a nos reunir para debatê-lo. O documentário começa lembrando a primeira Conferência mundial do meio ambiente, realizada em Estocolmo em 1972.  O secretário-geral da ONU na época, Kurt Waldheim, de posições políticas bastante controversas, abriu a Conferência  com um discurso que falava sobre união, igualdade e sobre a ameaça que as atividades humanas impõem ao mundo. E vaticinou:

— Nenhum sistema político nos torna imunes a essa ameaça.

O filme elenca, a partir daí, os encontros mundiais mais importantes realizados com o intuito de tentar enfrentar essas ameaças. Rio-92, a primeira COP realizada em 1995 em Berlim, o Tratado de Quioto em 1997, a COP do Acordo de Paris em 2015… Um longo caminho.

Mas “Vozes em mutirão” não traz uma mensagem pessimista, não evidencia a estreiteza dos avanços. Ao contrário. As imagens de ontem e de hoje dão o tom dos avanços em termos de participação popular. E este é o diferenicial. Os povos começaram a entrar para valer nos debates, criando maneiras, usando não a tecnologia artificial, mas a humana, chamada sabedoria popular.  

Kurt Waldheim falou para uma fria plateia do prédio do Congresso sueco, chamado de  Folkets Hus (Casa do Povo), localizado na área central de Estocolmo. O contraste com a animação pujante dos participantes da Rio-92, incluindo a então menina Severn Suzuki, meio descabelada cobrando ações contundentes dos participantes, é patente. Sim, os povos tomaram conta do tema. Mas, e seu poder de ação? Ainda não, mas virá.

O Balanço Ético Global, apesar de ser um compromisso assumido pelas Nações Unidas com o governo do Brasil, traz esse frescor. Grupos heterogêneos, de raças, etnias, cores e religiões diferenciadas, se unem em círculos e mostram suas dores e feridas causadas pelo impacto do desenvolvimento.

Um dos exemplos mais fortes desse impacto é o das pequenas nações-ilha do Pacífico. Kiribati e Tuvalu costumam ser os exemplos  mais frequentes em tais reuniões. Sua mensagem é clara: o mar está avançando sobre seu território e condenando à morte seu povo. Terá que ser feita uma migração forçada, mas isso vai significar o fim de sua cultura. Sem contar com outros azares que poderão ocorrer a uma população vulnerável, submissa ao país que quiser abrir as portas para recebê-la.

O Balanço Ético Global não terá capacidade de resolver a vida desses povos. Mas dá voz a eles e abre espaço para outras pessoas incluírem palavras como ética, relação, engajamento, parentesco nos debates antes apenas tecnicistas. Nesse sentido, encerro o texto com um trecho da carta lida por Robin Wall Kimmerer, da nação Potawaton, para uma plateia reunida em torno do BEG, em uma ágora com várias autoridades, incluindo a ministra Marina Silva e o embaixador André Corrêa do Lago, personagens onipresentes no documentário:

“A transformação ética que eu acho que precisamos avançar no clima é engajar com a visão de mundo do parentesco, não a visão antropocêntrica mas a visão de respeito, relação e reciprocidade com o mundo mais-que-humano”.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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