Que fim levou a COP-15? E o novo livro do autor de “O colapso”

Nunca se falou tanto em meio ambiente, no mundo todo,  quanto em 2009. No fim daquele ano, jornais, televisões, rádios, internet, revistas, estavam com suas manchetes voltadas para Copenhague, a capital da Dinamarca, onde aconteceu a Conferência do Clima da ONU. Esperava-se que os representantes dos 193 países das Nações Unidas acertassem um novo acordo climático para suceder o Protocolo de Kioto, que expirou no ano passado (sem acordos).  Mas, mesmo antes de dezembro, quando houve o encontro que a mídia chamou de “fiasco” por não ter tido um resultado favorável à questão das emissões, líderes, empresários, acadêmicos, escritores, aproveitaram a luz sobre o tema para, cada um ao seu jeito, tecer comentários ou noticiar decisões.

Na onda das decisões, o primeiro ministro japonês, Yukio Hatoyama, convocou uma mega entrevista coletiva, em setembro de 2009, para jornalistas do mundo todo, e avisou que pretendia reduzir em25% as emissões de CO2. Ganhou espaço, foi louvado, elogiado pela ONU, mas deixou claro também que estava condicionando o plano à implementação de medidas semelhantes de outros países durante a COP-15 (como foi chamada a Conferência realizada em Copenhague). Como não houve acordo, ninguém cobrou do primeiro ministro. E, pelo que se sabe até agora, quem ajudou mesmo a baixar as emissões de carbono no mundo todo foi a crise financeira internacional. Segundo o  Global Carbon Project, um grupo internacional de cientistas que analisa dados sobre emissões no planeta,  a crise levou a uma redução de 1,3% na produção de CO2.

Voltando àqueles que, legitimamente, aproveitaram o momento para lançar também seus bons frutos de pensamento e reflexões: dou conta de, no mínimo, três bons livros lançados  naquele ano aqui no Brasil. Um inconveniente  alerta sobre a catástrofe que será para o mundo quando a Terra aquecer, o que os cientistas dão como certo por conta do aumento das emissões, no entanto,  acabou caindo no esquecimento da mídia. Foi-se, assim como o Protocolo de Kyoto, que não conseguiu apoio nem na Rio+20.

O primeiro deles foi “Seis graus” (Editora Zahar), de Mark Lynas, que recebeu o Prêmio da Royal Society. Jornalista e ativista ambiental, ele traçou no livro uma espécie de guia sobre o que é possível esperar a cada aumento de temperatura. Como diz o título, ele parou nos seis graus acima do que é hoje, quando bolas de fogo atingirão o planeta e haverá uma extinção em massa da humanidade. Ou, de quem sobrar para contar a história. Porque, mesmo que o aquecimento seja apenas de 1 grau (o que já está descartado pelos cientistas do IPCC), já haverá uma seca enorme nos Estados Unidos, o que mexerá com toda a economia mundial. Com 2 graus a mais, a população de várias cidades da China sofreria com a falta de água e a Grande Barreira de Corais da Austrália correria o risco de extinção. O ecossistema do Rio Amazonas entraria em colapso se a Terra aquecer mais 3 graus do que é hoje. Em todos os cenários, além das mudanças climáticas e da degradação do meio ambiente e dos ecossistemas, a humanidade também sofreria com a falta de alimentos e de locais seguros para viver.

“Gaia: alerta final”, de James Lovelock, considerado um dos pais do movimento verde por ter sido o primeiro a constatar o acúmulo de CFCs e de outros gases no ar, lançava o que o físico chamou de um último aviso. Para ele, o derretimento das calotas polares está acontecendo de modo mais acelerado do que ele próprio havia anunciado no século XX, em seu primeiro livro “A vingança de Gaia”.  Segundo reportagem de Camila Nóbrega na Revista Amanhã, de O Globo, em 2012 foi registrado o recorde de derretimento da cobertura de gelo no Oceano Ártico desde que as medições começaram a ser feitas, em 1979. No entanto, no ano passado Lovelock veio a público declarar que havia exagerado em suas predições. E fez questão de dizer que até o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, que ganhara o prêmio Nobel em 2007 com o filme “Verdades inconvenientes”, também tinha sido um alarmista.

— Teremos o aquecimento global. Mas ele foi adiado – declarou Lovelock.

Outro que lançou um livro muito comentado foi o geógrafo norteamericano  Jared Diamond. Autor de “O Colapso”, com 690 páginas, ele falou também sobre o meio ambiente em seu livro, mas atacou ainda os hábitos insustentáveis, como consumismo e excessos no setor financeiro.  Um dos capítulos de “O Colapso” lembra a extinção da civilização que morava na Ilha de Páscoa, onde hoje ninguém mora e onde há, espalhadas  tanto no interior quanto no exterior de uma cratera vulcânica, 397 estátuas de pedra, a maioria com 4,5 a 6 metros de altura e pesando de 10 a 270 toneladas.  Num rigoroso exame do que pode ter acontecido, Diamond conclui, com base em estudos e depoimentos, que os habitantes da Ilha de Páscoa consumiram mais do que aquilo que a terra podia dar (algo semelhante ao que estaríamos vivendo hoje).  As árvores foram cortadas para fazer as rodas e cordas para transportarem as grandes estátuas de pedra ou canoas para a pesca.  Os peixes e moluscos eram consumidos sem respeitar o ciclo de vida. A população morreu de fome, houve até canibalismo.

‘Os chefes e sacerdotes de Páscoa justificavam seu status de elite alegando relacionamento com os deuses e prometendo trazer prosperidade e colheitas abundantes”.

Diamond descreveu também o colapso de outras civilizações, como a dos Maia. E faz, é claro, algum link com a nossa sociedade: “A comunidade mundial está atualmente em um curso de não-sustentabilidade e qualquer um dos problemas de não-sustentabilidade seria suficiente para limitar nosso estilo de vida nas próximas décadas”, alerta ele.

Diferentemente de Lovelock, Diamond não considerou a si próprio um alarmista.  Ele ratifica sua preocupação com a sociedade e acaba de lançar um novo livro – “The World Until Yesterday – What Can We Learn from Traditional Societies?” , que ainda não chegou ao Brasil – onde mostra que a civilização atual ainda pode aprender com o comportamento das sociedades tradicionais. O novo livro de Diamond tem 499 páginas e está disponível no Amazon.com.

Segundo uma reportagem da revista “The Economist”, Diamond  passou um tempo morando em Papua Nova Guiné (conjunto de ilhas da Oceania) e aprendeu muito com as tribos locais.  Ele aponta, por exemplo, no livro, que as sociedades tradicionais  sempre mantiveram uma religião como forma de sossegar os angustiados. E diz que na Papua Guiné o Estado só entra como mediador em caso de conflito entre tribos.

A era paleolítica, afirma Diamond em seu novo livro, poderia  também ser o exemplo de boa alimentação, já que suas sociedades não têm nem traços estatísticos das doenças  modernas como câncer, diabetes, ataques cardíacos. Possivelmente por conta de comidas com baixo teor de sódio.

Outro ponto que chamou a atenção de Diamond e que ele relata em seu livro é a educação das crianças:

“Criar os filhos era um assunto comum em que os idosos estavam  profundamente envolvidos, ao contrário do que acontece na maioria dos países ocidentais”.

Segundo a reportagem da revista britânica, Diamond não vende a ideia de que todos deveríamos voltar a viver como os antigos, até porque, obviamente, ele vê muito mais benefícios na atualidade.  “O livro de Diamond é, principalmente, uma pesquisa fascinante sobre um mundo que já se extinguiu”.

Levando em conta que em “O Colapso”, Diamond diagnosticou um padrão de catástrofe do mundo atual, é possível, sim, que ele esteja querendo mandar um recado sobre a possibilidade de um exemplo a ser seguido para quem acredita que é preciso mudar o modelo de civilização em que vivemos. Voltar ao que já fomos antes de conseguirmos, sobretudo, a cura para tantas doenças, não é razoável. Mas estudar essa genealogia é importante, sim, para tentarmos entender uma estrutura tão fissurada como a que temos hoje.

O filósofo francês Gilles Deleuze, no volume 5 do livro “Mil platôs”, recorre às eras neolítica e paleolítica para  estudar a formação do Estado atual. Bem, mas isso já é assunto para outro post.

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Remoções, o problema da modernidade

Emília Mendes é viúva e tinha 84 anos quando estive em sua casa, em Porto Velho (capital de Rondônia), no fim de 2011. Só dorme em rede, só anda descalça, fala baixinho  mas escuta e entende muito bem tudo o que a cerca. Por isso mesmo, não gostou nada quando recebeu a visita de uma equipe da Usina Santo Antônio  – uma das quatro maiores hidrelétricas do Brasil, com 2.218 MW de energia assegurada – que foi ali para avisá-la sobre uma grande mudança na sua vida.  Emilia –  assim como outros 1.735 moradores da região – teria que sair de sua casa para dar lugar ao empreendimento, um dos que dá ao Brasil destaque tanto no plano nacional quanto internacional.

Acontece que Emilia morava ali desde que nasceu. E tinha uma rotina, sabe-se lá desde quando, de acordar todos os dias à mesma hora, antes mesmo do dia clarear, fazer seu café e recostar-se no umbral da porta da frente para observar  a árvore plantada em seu quintal.  Nas duas casas ao lado moravam seus filhos, o que também lhe dava segurança e tranquilidade. Assim, quando os técnicos treinados em recursos humanos  disseram-lhe, de um jeito bem explicadinho,  que ela podia escolher entre receber um dinheiro de indenização ou ir morar numa vila de casas novinhas não muito longe dali, ela ouviu com atenção e depois de algum tempo disse, com voz baixa mas nem um pouco hesitante:

— Daqui eu só saio morta.

Quem há de tirar a razão de Dona Emília? Em que livro está escrito, qual a lei criada pelos homens que regula o direito de uma pessoa morar para sempre num só lugar? O progresso, e só o progresso, tem dessas coisas. Perverso por um lado, necessário por outro. E, se em mãos e governos que não respeitam os outros, vai servir como mote de injustiças sem fim. Não foi o caso. Dona Emília foi ouvida, teve direito a réplica e tréplica. E quando os homens e mulheres da Santo Antônio Energia viram que não teria jeito, arrumaram um: deslocaram a casa dela alguns metros, o necessário para tirá-la da área de risco. A árvore continuaria ali, a rede onde se deitava, o umbral seria outro, de madeira mais nova. Mas Dona Emilia exigiu: queria a madeira velha de sua casa velha no jardim. Assim foi feito.

Fui encontrá-la numa tarde quente, quando fiz a reportagem sobre os reassentados da Santo Antônio. Perguntei se ela estava feliz e a resposta veio clara:

— Estou não, minha filha. Mas, que jeito?

Pois é, que jeito? No livro “Cidade Febril” (Ed. Companhia das Letras, de 1996), o autor Sidney Chalhoub conta a triste história do fim de um dos cortiços mais famosos do Rio de Janeiro, o Cabeça de Porco. Foi em 1893 e os moradores – os dados variam, entre 400 e duas mil pessoas – tinham recebido apenas três dias antes o aviso de que teriam que sair dali. Houve resistência, emprego de força armada e, no final, o prefeito Barata Ribeiro parece que concedeu aos ex-moradores a possibilidade de levarem consigo as madeiras que lhes restaram. Foi assim, garantem os historiadores, que nasceu o primeiro morro, ali atrás, para onde os sem-teto correram a construir barracos com as madeiras.

Barata Ribeiro, segundo Chalhoub, acobertado pelo poderoso Floriano Peixoto, teria – ah, quem garante? – o desejo de fazer uma limpa naquela parte da  cidade que havia sido habitada por moradores pobres, muitos ex-escravos, pessoas consideradas perigosas para o resto da sociedade não só por seus hábitos barulhentos e desordeiros como porque “passaram a representar perigo de contágio no sentido literal mesmo… porque as habitações coletivas seriam focos de irradiação de epidemias, além de, naturalmente, terrenos férteis para a propagação de vícios de todos os tipos”.

O único link possível entre os moradores de Porto Velho e esses, dos cortiços, é claro que é o fato de estarem no caminho do progresso. Felizmente hoje temos  a Declaração dos Direitos Humanos  (texto escrito a muitas mãos depois da II Guerra) que nos afasta de atitudes  tão radicais quanto a do prefeito Barata Ribeiro. E vivemos também numa sociedade mais sensível, que não permitiria nunca fazer escárnio com a desgraça dos desabrigados quanto, na época, foi feito pela imprensa local. No livro de Chalhoub há a reprodução de uns versinhos publicados no jornal “Gazeta”, exaltando a atitude do prefeito,  que são de revoltar o estômago. Vou poupar os leitores…

Há outro ponto de convergência, lá como cá, que não é a maneira como as pessoas são excluídas. O que se repete é a exclusão. Em nome de quê? Depende do momento.

Em agosto do ano passado tive a chance de fazer um tour pelo Morro da Providência em companhia de pessoas muito especiais. Eram acadêmicos, do Núcleo de Favela e Cidadania da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que todos os anos fazem um colóquio internacional. O tema do ano passado, que acabo de saber que vai virar um livro e que terá na contracapa uma parte da coluna que escrevi sobre a visita ao Morro, foi Remoções Urbanas. Como se sabe, a Providência está no meio do caminho do Morar Carioca, obras que o Prefeito Eduardo Paes está fazendo no local e que incluem, segundo a Prefeitura,  “um teleférico, um plano inclinado, alargamento e pavimentação de ruas, urbanização da Praça Américo Brum.”

Ebenezer de Souza e Márcia Regina, ambos moradores do local há mais de 50 anos, ciceronearam o grupo que subiu por becos, vielas, ruas largas e apertadas, para conhecer in loco o que as obras estão causando na vida das pessoas. A previsão é de remover mais de 800 casas que são marcadas com  a inscrição SMH (Secretaria Municipal de Habitação) e um número.

— O que essa sigla quer dizer é Saia do Morro Hoje – dizia, irritada, Márcia Regina.

Foi formado um grupo de resistência às remoções. E, obviamente, nem todo mundo é contra. Há quem prefira sair dali, ir para uma casa mais nova, mesmo longe do local onde morou a vida inteira. Mas muitos, legitimamente, gostariam de permanecer em suas casas. Como Dona Emilia, como os moradores do Cabeça de Porco, como tantos outros que tiveram que ceder seu espaço. De novo: em nome de quê?  Insisto nesse ponto porque é aqui que vejo uma grande chance de reflexão sobre um novo modelo de civilização que, para alguns, pode ser chamado de sustentável.

Prefeito do Rio no início do século passado, Pereira Passos não mediu consequências  para transformar uma cidade que ele e a sociedade da época reconheciam como insalubre  e exposta a toda sorte de doenças e epidemias. Saiu marretando tudo o que via pela frente, expulsando muita gente do caminho. Em grande parte, foi o responsável, dizem os especialistas, pelo surgimento dos morros, já que não é possível imaginar que pessoas se deterioram de uma hora para outra. Elas precisam morar. E, quando são excluídas da paisagem, fatalmente vão criar derivas, buscar uma forma de continuar sobrevivendo,  mesmo à margem.

No caso do Morro da Providência, a solução encontrada pela Prefeitura foi construir uns apartamentos à beira da ferrovia para abrigar os desabrigados. Problema número um: a decisão foi tomada de maneira vertical, de cima para baixo, a população não se sentiu ouvida. Problema número dois: o lugar dessas novas construções é mesmo muito pouco agradável, principalmente levando em conta que o Morro da Providência, depois da pacificação, ficou bom de se morar, com uma paisagem de dar inveja. Sair dali para viver com barulho de trem nos ouvidos é uma decisão difícil.

É claro que todo mundo quer a cidade mais bonita. Mas, será que não dá para começar, por exemplo, deixando-a mais limpa?  Cadê a coleta seletiva, o transporte mais eficiente? Como deixar ruas alagáveis a qualquer gota de chuva? Onde estão as árvores, que a cada dia que passa são mais cortadas, também excluídas da paisagem? A iluminação das ruas pode ser melhor, inclusive nas ruas da Zona Norte.  E as praças? Já repararam como estão cada vez mais cimentadas? São decisões administrativas  que exigem cuidado, dinheiro, e dão pouca visibilidade, que pena…

Remover pessoas de suas casas, de sua cultura, é o nó que o progresso nos deixa. E sempre cai para o lado dos mais pobres, já repararam? São eles que estão sempre no meio do caminho da estrada, da hidrelétrica, do teleférico…  Empresas que  têm que desmatar  e minerar para garantir seus investimentos, sabem disso. Nem sempre acertam, às vezes erram muito. Nos últimos tempos, pela demanda social mais intensa, pelo fortalecimento dos movimentos sociais, têm que prestar mais contas.  Mas parece que os governantes  se intimidam pouco com isso quando o resultado será entrar para a história como prefeito de grandes obras.

 

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Brasil: de necessitado a fornecedor

Houve uma época, não muito distante de hoje… em que o Brasil era um país que encabeçava a lista dos que precisavam muito da ajuda internacional. A mudança de perfil foi aos poucos, e nós fomos dando conta não só pelos índices econômicos como pelas opiniões dos especialistas. No fim do ano passado, porém, tive essa constatação de um jeito mais próximo, quando entrevistei o diretor executivo da ONG Médicos Sem Fronteira,  Tyler Fainstat. A conversa – que durou quase duas horas – aconteceu num simpático sobrado da Rua do Catete, recém reformado pela ONG para instalar ali sua sede brasileira. Com uma campanha envolvente, que até o fim de ano estava sendo veiculado por canais a cabo, a Médicos sem Fronteira espera superar a já vitoriosa marca de 82 mil doadores no país. Tyler, que é economista, conta que antes de começarem a captar dinheiro aqui foi feita uma pesquisa cujo resultado foi bem claro: os brasileiros estavam, sim, dispostos a fazer doações.  ‘ É óbvio que existe algo muito novo no seu país’ , revelou o canadense durante a entrevista que reproduzo abaixo.

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Há quanto tempo vocês estão aqui no Brasil? Desde quando começou a perceber que há algo novo no nosso perfil?

Tyler Fainstat – A MSF está no Brasil há mais de 20 anos, mas de uns cinco anos para cá deixamos de fazer prioritariamente projetos e passamos a fazer campanha de captação de recursos também. O Brasil passou de um país que só recebia assistência internacional para um país que dá e manda assistência para outros países. Se vocês antigamente só recebiam ajuda, agora também ajudam para causas internacionais além, é claro, de continuarem recebendo. Acho interessante porque acompanha também a tendência da imagem do Brasil no exterior e dos próprios brasileiros, de olharem também para fora do país e cada vez mais buscarem conhecer outros lugares. Nossos resultados estão comprovando isso: já temos 82 mil doadores brasileiros.

A maioria é de pequenos doadores?

Tyler Fainstat – Tem uma mistura, mas a maioria dos nossos doares são pessoas que doam espontaneamente ou mensalmente, mesmo que não seja um valor muito grande. Mas esse dinheiro que vem todo mês é absolutamente essencial para nossas operações. A grande maioria de nosso dinheiro vem de pessoas físicas, estamos começando a desenvolver captação junto a empresas mas a maioria delas está focada aqui no Brasil e quando captamos recursos é para qualquer país do mundo.

Em que outros países vocês estão?

Tyler Fainstat – Estamos em mais de 60 países, a maioria na África, mas também na Ásia, na Europa, na América Latina. Também temos 20 escritórios como esse aqui no Brasil que fazem captação tanto de recursos financeiros como de recursos humanos. Aqui no Brasil temos uma fonte de competência, de conhecimento médico, que para nós é muito importante. Tem institutos como a Fiocruz que são incríveis, de alto nível médico.

Como vocês atuam aqui no Brasil?

Tyler Fainstat – Nós não temos projetos de longo prazo aqui, fazemos intervenções curtas em resposta a emergências, como foi em janeiro de 2011 na Região Serrana e em Alagoas. Mas, veja bem: é importante frisar que nosso papel não é o de substituir o estado na hora do desastre.

Qualquer pessoa pode acionar os Médicos Sem Fronteira?

Tyler Fainstat –  Há vezes em que somos acionados pela população, sim, mas na verdade, na maioria das vezes, já estamos presentes normalmente em desastres, conflitos, epidemias, porque somos a maior organização médico humanitária do mundo. Temos mais de 34 mil funcionários em nível mundial e a grande maioria não são médicos, tem o pessoal do apoio, de logística, de transporte, de fornecimento, de enfermeiras. Quando houve o terremoto no Haiti, por exemplo, já havia equipes do MSF lá e começamos a agir imediatamente.

Aqui na Região Serrana, como aconteceu? Vocês foram chamados ou já estavam lá?

Tyler Fainstat – Já estávamos lá. Vou lhe contar como acontece o processo: temos equipes de emergência que são de resposta rápida, prontas para agir em qualquer canto do mundo, sempre com a mala na mão e prontas para embarcarem. Eles fazem a primeira avaliação, sobre quais são as necessidades mais urgentes e nós podemos mandar em 48 horas os nossos kits.  Nós temos grandes armazéns na Europa, no Panamá onde há tudo o que é preciso, organizado em kits. O kit é um conjunto de material necessário para qualquer tipo de intervenção, por exemplo, temos o kit terremoto, o kit enchentes, o kit ebola, o kit cirurgia.

Vocês têm acesso livre a qualquer aeroporto? Como conseguem rapidez?

Tyler Fainstat – Temos acordos com empresas de aviação, aeronaves especiais. É verdade que cada contexto precisa de um determinado tipo de negociação.

Todos os governos aceitam vocês sem problemas? E quando há guerra?

Tyler Fainstat – Nosso acesso é baseado nos princípios de neutralidade, imparcialidade, independência. Nosso maior argumento é que nosso dinheiro não vem de governos, é um dinheiro independente (por isso é importante ter essa base grande de doadores). Seria impossível acessar Afeganistão com dinheiro dos Estados Unidos, por exemplo. É esta a primeira pergunta que grupos em guerra nos fazem.  Além do mais, não temos mandato político para apoiar um lado ou outro lado, estamos ali para prestar atendimento médico.

Qual a diferença entre vocês e a Cruz Vermelha?

Tyler Fainstat – Existe a Cruz Vermelha nacional, que trabalha mais em resposta a emergências. E tem a Convenção Cruz Vermelha Internacional, cujo mandato legal vem de Genebra, além da Comissão Cruz Vermelha Internacional Direito Humanitária que tem o mandato de monitorar se as leis internacionais estão sendo respeitadas.

O MSF tem uma aura romântica, não tem? Quando aparece em filmes ou minisséries, são sempre pessoas que vão para o outro lado do mundo como heróis para salvar vidas. É esse o perfil dos médicos?

Tyler Fainstat – Não! Foi muito bom você me perguntar sobre isso porque estamos mesmo tomando cuidado com as pessoas que têm essa percepção romântica. Muitas vezes nós fazemos um processo de seleção que é bastante rigoroso e queremos passar qual a realidade do trabalho. Porque, na verdade, sim, conseguimos salvar vidas, reduzir as taxas de mortalidade, reduzir o sofrimento, mas tudo isso é feito em condições muito difíceis, não só de alojamento como também de segurança. Muitas vezes temos muitas dificuldades de acessar as populações que precisam de nossa ajuda. É um trabalho que pode ser frustrante também, desgastante. Não queremos assustar as pessoas, mas também não queremos que alguém chegue em campo com uma visão completamente diferente do que é.

Vocês contratam? Ou são voluntários?

Tyler Fainstat – O MSF não é um conjunto de voluntários, queremos ter o espírito de voluntariado mas as pessoas são pagas, têm todos os benefícios trabalhistas. Não queremos que essa ajuda de custo seja o atrativo para a pessoa trabalhar conosco, mas também não queremos que alguém não possa trabalhar para a organização por questões financeiras.

Como a ONG começou?

Tyler Fainstat – O MSF foi criado na França, por um grupo de jovens médicos e jornalistas franceses que estavam trabalhando para a Cruz Vermelha. Eles romperam para criar essa organização com missão dupla: prestar atendimento médico e tornar pública a realidade que testemunhamos em nosso trabalho. Porque nós acreditamos que o trabalho humanitário também gera uma obrigação de sensibilizar o mundo sobre a realidade que está a nossa volta. Na época, em 1971, eles estavam trabalhando em Biafra e achavam que a Cruz Vermelha, por ter uma mobilização muito política, não lhes permitia falar abertamente sobre aquilo que viam.

O site da ONG é o msf.org.br

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O vídeo do vagão superlotado e um pensamento sobre trabalhadores

Era um dia de semana comum no meio do mês de maio do ano passado. Estávamos criando  uma edição especial do Razão Social, com o foco em pessoas, quando decidi fazer aquilo que mais sei e gosto de fazer na vida profissional: apurar, conversar com pessoas. Meu mote seria a vida dos trabalhadores numa cidade grande como o Rio de Janeiro.  Queria mostrar que a vida dessas pessoas, seja no escritório ou nas ruas, muitas vezes é dura, muito dura. Comparar com os trabalhadores escravos da região rural, aqueles que ficam trancados numa fazenda trabalhando de sol a sol para não ganhar um tostão no fim do mês é demais, claro. Por outro lado, como denominar  uma jornada que começa duas, três horas antes do horário em que se bate o cartão e só vai terminar duas ou três horas depois, sem deixar um tempo mínimo para a pessoa fazer outra coisa na vida que não seja trabalhar?

Lembrei-me desse dia, da conversa que tive com essas pessoas, porque a maior queixa da maioria delas era com relação à precariedade do transporte público para poderem se locomover. E ontem circulou pelas redes sociais um vídeo absolutamente assustador,  mostrando como as pessoas penavam para entrar num dos carros do Metrô aqui no Rio, na Estação Presidente Vargas, às 18h30m.  O vídeo é assustador porque nos põe frente a frente com uma realidade cruel. Mas essa realidade cruel faz parte da rotina de milhares de trabalhadores, não só no Rio como em outras cidades grandes. A empresa Metrô Rio veio a público se justificar, disse que tinha havido um incidente e por isso o vagão estava tão cheio. Mas o resultado da minha apuração, naquele Razão Social especial, além de alguma experiência pessoal em momentos em que precisei pegar Metrô na hora do rush, provam que a superlotação dos carros nesse momento crucial para o ir e vir dos trabalhadores é rotina, não é nenhuma grande novidade. A diferença é que, daquela vez, tinha uma câmera para registrar.

Vânia Nascimento, secretária do Instituto Anthropos, em Botafogo, mora em São João de Meriti e foi uma de nossas personagens no Razão Social que foi para as bancas no dia 22 de maio do ano passado. Ela tinha acabado de conseguir que seus patrões mudassem seu horário de trabalho porque andava muito desanimada com o fato de ficar duas horas e meia a três dentro de um ônibus para ir e voltar de seu trabalho:

—- Tinha a opção do Metrô, mas uma vez eu cheguei a ter uma crise nervosa, tamanho o sufoco dentro daqueles carros cheios — disse ela.

Kelly Jesus Soares, trocadora de ônibus, mora em Campo Grande, pega no batente às 5h e, para isso, tem que sair de casa às 2h30m.  O gari Leandro Ferreira mora em Vila da Penha e, como tem que chegar às 6h no Largo do Machado, acorda às 4h30m. Celio Elias, padeiro, sai de casa às 6h30m para conseguir chegar em Laranjeiras às 8h. Todo mundo tem, no máximo, uma hora de almoço, com exceção de Kelly, que precisa comer um sanduíche rápido na frente dos passageiros porque trocador e motorista não têm hora de almoço.

Tempo para cuidar do corpo, ler, estudar, é coisa de quem tem mais sorte, por exemplo aqueles que trabalham em escritórios no Centro da cidade e só precisam tomar um ônibus. Que vai e vem cheio, sem dúvida. Mas, ao menos, é um só. Nos comentários postados sobre o vídeo no Metrô (veja abaixo) há quem se exaspere com a passividade das pessoas em se deixar serem empurradas e amassadas daquele jeito. Para mim, é óbvio que aquilo é mesmo desespero de saber que se não pegar aquele trem vai demorar muito mais para chegar em casa e diminuir muito mais o tempo de sono antes de acordar no dia seguinte e começar tudo de novo.

Meu interesse pela sustentabilidade, que entendo como um movimento que pretende pôr em discussão um novo modelo de civilização, é justamente a possibilidade de não ficar na queixa, na denúncia. Está cada vez mais difícil viver em grandes cidades, e isso é fato. Mas é fato também que, segundo dados da ONU divulgados ano passado, cresce assustadoramente o número de pessoas que buscam os grandes centros para viver. Assim, se não há como escapar dessa superpopulação, é importante tentar pensar em criar soluções. Lembrando sempre que há cidades grandes – Paris, por que não?- em que se vive melhor. Em que os investimentos são voltados para melhorar a vida das pessoas, não só em trazer eventos internacionais para engordar os cofres.

Para isso, os moradores precisam saber cobrar de seus prefeitos. No último Encontros O Globo/Revista Amanhã do ano passado, que mediei, discutiu-se exatamente isso. Convidado para mostrar seu trabalho à frente do movimento Nossa São Paulo, o empresário Oded Grajew chamou a atenção da plateia para o fato de que pouca gente sabe que desde 2009 a Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro obriga os governantes a elaborarem um Plano Estratégico com metas e, semestralmente, apresentar um balanço das propostas cumpridas. O prefeito Eduardo Paes tem até o fim deste mês para publicar o balanço de seu primeiro mandato. Alguém aí sabia disso?

O vídeo do Metrô pode suscitar ainda um outro debate. Empresas que se põem na esteira da sustentabilidade, ou mesmo da responsabilidade social corporativa, precisam cuidar para que seus funcionários tenham uma vida melhor. Portanto, poderia vir delas o protagonismo de uma mudança de horários em seus escritórios para evitar o gargalo de hora de chegada e hora de saída. Como se vê nos casos dos nossos entrevistados, que saem de madrugada de casa e ainda assim levam muito tempo no trânsito, isso pode ser que não dê em nada. Mas não custaria tentar.

Por último, e para não perdermos o bom costume de tentar, pelo menos quase sempre, trazer referências teóricas à nossa prática, vale uma visita à obra de Hannah Arendt, que em “A condição humana” faz uma análise preciosa sobre o mundo no qual estamos inseridos, de que maneira somos impactados por essa ou aquela situação e sobre o que são as atividades humanas e como se diferenciam. Numa conferência que deu certa vez, sobre o conceito do homem como trabalhador, a pensadora prevê a vitória do “animal laborans” na era moderna, que se manifesta, por exemplo, ‘na transformação da obra em trabalho e dos objetos de uso em objetos de consumo”.

Arendt faz um minucioso estudo sobre o trabalho na condição humana que hoje, nas grandes cidades e sob as condições em que vivemos, mereceria outro tanto de observação e detalhamento, embora o pensamento dela – escrito em meados dos anos 50 –  esteja ainda vivo e atual.  Ela se preocupa com a perda de identidade do indivíduo que é obrigado a seguir horários e a trabalhar e viver em conjunto com os outros o tempo todo.  Para ela, “é inteiramente correto afirmar que, para o animal laborans, o sentido e o valor do trabalho dependem inteiramente das condições sociais”. Mas as condições sociais para o trabalho ‘são aquelas nas quais o indivíduo pode perder a sua identidade”.

O exercício é tentar criar uma deriva para o pensamento de Arendt, preocupando-se e tentando salvar algo próximo à singularidade de cada um,  tendo como pano de fundo a rotina já descrita (e observada pelas câmeras) do cotidiano dos trabalhadores de nosso cotidiano.  Está lançado o desafio.

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A cisma com o conceito de sustentabilidade

Acabo de ler no site Ideia Sustentável uma ótima entrevista com Domenico di Masi, o filósofo italiano, onde ele extravasa sua cisma com o conceito de sustentabilidade. Vejam só:

Domenico-de-Masi-reprodução

Sustentabilidade é traduzida de modo errado para o português. Desenvolvimento sustentável, literalmente, significa um desenvolvimento duradouro, que possa ser prolongado. Como se pode ter desenvolvimento sustentável numa cidade de 18 milhões de pessoas que poluem? Na avenida Paulista, sobretudo, estão os bancos. Para fazer uma economia criativa e sustentável é necessário que os bancos não roubem! Isso já é economia sustentável. Neste momento, o mundo está numa crise horrível, criada pelos bancos. As grandes instituições financeiras não são vítimas; representam uma carnificina. Há um ditado que diz: “Não se pode curar um dedo se todo o corpo está doente”.

O que podemos fazer, então, é criar um modelo positivo de desenvolvimento sustentável para ser demonstrado, por exemplo, na avenida Paulista, uma avenida-star, símbolo, como é Veneza, na Itália, ou a 5° Avenida de Nova Iorque. Nesse sentido, seria importante se conseguíssemos propor um modelo de desenvolvimento duradouro. Mas, hoje, green economyna Paulista é contrassenso, não funciona. Tem de ser feita na Amazônia! Se esse novo modelo urbano compreender a energia solar, por exemplo, aí sim! Porém, eu não chamaria isso de green economy, ou sustentabilidade, mas de uma economia baseada na produção autônoma de energia.”

Vale a pena ler na íntegra: http://www.ideiasustentavel.com.br/2013/01/replicas-domenico-de-masi/

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O eterno nó na relação entre empresas e comunidades na Amazônia.

Comparada com qualquer cidade da região amazônica,  Oslo, capital da Noruega, é muito mais rica e organizada, mas muito mais pobre em recursos naturais.  O paradoxo é até simplório, diante de tantos outros com os quais a gente se depara nesse mundo da sustentabilidade.  O interessante aqui é como três moradores de Barcarena, cidade paraense carente de tudo e com minério de sobra explorado por uma rede de empresas norueguesa, em visita oficial a Oslo, setembro do ano passado, puderam constatar in loco essa diferença. Pararam em frente a um belíssimo rio no centro da cidade e coçaram a cabeça:

— Ora, mas essa água daqui desse rio é mais limpa do que a que sai da torneira de nossas casas… E tudo isso eles conseguem com o minério que sai de nossas terras.

A história dessa longa viagem começou em 2009 e ainda está em curso. É  um exemplo vivo de como são difíceis  as relações entre o mundo corporativo e o dos habitantes de cidades pobres, carentes de tudo, cujo solo tem recursos de sobra para engordar o orçamento das empresas. Depois de receber uma denúncia de que a Norsk Hydro, empresa norueguesa, estava contaminando o rio Murucupi, em Barcarena, com os dejetos de suas atividades minerais, a ONG Ajuda das Igrejas da Noruega entrou em contato com o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) pedindo que avaliasse a situação . A preocupação da ONG norueguesa era que a empresa de seu país estivesse driblando as leis ambientais que, por lá, são bem severas. O fato em si, a denúncia de vazamento,  ainda não foi resolvido.  Existem duas a três mil ações correndo na Justiça do Pará, de pescadores locais exigindo indenização porque tiveram que parar de trabalhar. Os peixes estavam todos contaminados.

Na época, a empresa era a Alunorte e tinha 56% de participação da Vale, o resto era da Norsk Hydro.  O Razão Social deu a notícia , a Vale respondeu. Em parte, eximiu-se de culpa. Em parte, ratificou o que estava patente: a comunidade de Barcarena não tinha dado licença para a empresa operar ali. Ou seja: ninguém se entendia.  Provavelmente não por esse motivo, em especial, logo depois a Vale saiu da parceria e deixou toda a operação por conta da norueguesa.

Vida que segue. O Ibase, que tinha uma atuação forte na questão dos balanços sociais e da responsabilidade social das empresas, fez reformulações internas e o assunto Barcarena acabou deixando de ser focado pela ONG. Mas a situação na cidade continuava em pé de guerra.

Até que outra instituição entrou para fazer a ponte, o  Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB). Beneficiados  por um Termo de Ajustamento de Conduta que outra empresa, a Imerys, que atua na cidade e foi multada também por avançar o sinal na questão ambiental, precisou pagar, o IEB decidiu pôr um pouco de lado as ações jurídicas, que essas a Justiça há de tocar, para  apostar numa questão mais profunda: ensinar aos habitantes  de Barcarena  os direitos que eles têm e como podem  fazer para  defendê-los. Vocês entendem agora como é importante a constatação dos paraenses à beira do rio de Oslo?

A história toda ganha um (ainda leve) sabor de vitória  quando, na sequencia de tais cursos, nos ganhos de capital social da comunidade, a empresa norueguesa passou a entender que  tem interlocutores capazes de ouvir e de se fazerem ouvir. Foi assim que se marcou essa histórica reunião em Oslo. Presentes estavam, além dos três moradores de comunidades  de Barcarena, uma representante do Ministério Público,  o diretor brasileiro da Norsk Hydro e Maura Moraes, assistente social e  coordenadora do projeto pelo IEB. Foi com ela que conversei longamente há pouco pelo telefone.  Maura não está eufórica com a reunião porque, até agora, nada está resolvido. Mas acha que foi um importante passo. E conta que no dia 11 agora, ou seja, sexta-feira, haverá outra reunião, dessa vez na quente Barcarena, quando se pretende que, de uma vez por todas, o estado entre como mediador dessa relação:

— O que acontece é que as empresas (são 4 do grupo Hydro que atuam em Barcarena) têm sempre o mesmo discurso: já pagam impostos, não podem fazer o papel do estado, não podem ficar resolvendo questões como esgotamento sanitário, saúde, mais escolas e tal. Mas nós também, da sociedade civil, não podemos pagar a conta pelo fato de elas serem obrigadas a minerar ali. Então, temos que chamar o estado para resolver isso. Não pode é deixar as coisas como estão. A cidade tem carência de tudo, quase 90% das ruas não têm esgoto, falta escola, postos de saúde… e nosso minério serve para enriquecer outros lugares.

Maura garante que a comunidade não quer partir para o enfrentamento, o conflito. Pelo vídeo produzido pela IEB (ver abaixo), com vários depoimentos dos moradores, é possível perceber isso. Mas, de fato, se até agora os pescadores não podem pescar e se a situação na cidade continua precária, é claro que em algum momento essa panela de pressão vai estourar.

Não foram poucas as vezes em que, a convite de empresas ou de instituições, estive na Amazônia durante os nove anos em que editei o Razão Social. A beleza natural daquela terra, misturada ao desconforto causado pelo calor excessivo ou umidade excessiva, dependendo da época do ano, sempre me deixou uma sensação estranha, de querer voltar. Parece que ali, mais do que em qualquer outro lugar, o Brasil é Brasil.  E seus moradores guardam uma espécie de humildade misturada a uma segurança de saber que, seja de onde o cidadão visitante vier, ele terá menos ferramentas para sobreviver na selva do que quem nasceu e vive ali.

Que eles não precisam ser ‘salvos”, como se acreditava na época da ditadura, isso fica claro em todos os cantos por onde se anda. Quem mora na Amazônia (estou falando da parte brasileira, que conheço mais) gosta de lá, se orgulha de lá. Mas… vejam que contrasenso… nem sempre sabe como se defender dos impactos causados pela estupendo e rápido descobrimento, que começou por volta dos anos 80, de que aquele lugar é um manancial de recursos.

Aqui é importante dizer que o tempo de estudos e reportagens sobre responsabilidade social corporativa, que fica no chapéu da sustentabilidade,  me deu uma espécie de armadura contra  o vício midiático de se escolher vilões e mocinhos. Não acho que todas as empresas que lucram com recursos naturais sejam crueis, insensíveis e desumanas .  Mas também não creio cegamente na boa vontade de distribuir lucros, muitas vezes com projetos que vão beneficiar pouquíssima gente e onde elas gastam mais em propaganda do que no projeto em si.

Por outro lado, não acho que todas as comunidades que ficam no caminho dessas empresas são constituídas de pessoas boazinhas e vítimas infelizes. Tem gente de má fé entre ribeirinhos também, e por que não teria? Mas entre o mar e a pedra, sabemos bem que o molusco é que sempre acaba se dando mal.

Dito isso, volto ao meu ponto de observadora,  de leitora, e de entrevistadora, para concluir: há um grande, um imenso nó nessa relação entre empresas e comunidades na Amazônia. Mais, talvez, do que em qualquer outro lugar. Uns não escutam os outros e acabam  precisando de uma espécie de “atravessadores da escuta”, pessoas que, por conhecerem bem a região e por terem tido mais acesso ao mundo corporativo, fazem esse link. Isso não é ruim, mas às vezes pode ajudar a mascarar uma situação. O bom mesmo seria que o contato fosse direto, olho no olho. Mesmo que, para isso, fosse preciso suar muito a camisa, bronzear mais a pele, levar muita picada de mosquitos.

Vou esperar o dia 11 para voltar ao assunto sobre Barcarena porque Maura ficou de me dar notícias sobre essa próxima reunião. Mas quero contar aqui  uma história que pode ilustrar a minha tese do “olho no olho’. A primeira vez que estive na Amazônia, sobrevoando com um monomotor a selva, fui levada por uma empresa que fornecia tecido de revestimento interno de carros para a Volkswagen.  A empresa se chamava Pematec-Triangel e recebeu da gigante de automóveis a tarefa de passar a produzir o tecido de forma a proporcionar desenvolvimento local a alguma comunidade do norte do país.

O CEO da Pematec à época, Alberico Pasquetto Jr, paulistano  de pele bem clara por conta da ascendência italiana,  de um jeito bem executivo,  pegou o telefone e começou a procurar quem poderia ajudá-lo na tarefa. Descobriu um engenheiro agrônomo da Embrapa, Christovam Senna, que tinha descoberto que o curauá, uma planta muito comum na Amazônia, podia servir para fazer manta de fibra natural, em substituição à malva, sempre usada para isso, que costumava causar problemas a quem tinha que ficar horas com meia perna dentro de água para catá-la. Com o curauá,  planta que dá o ano todo, seria possível ajudar várias famílias que tinham a planta em seu território. Pasquetto adorou a ideia e logo fez a encomenda:

— Então vamos combinar o preço direitinho, você me manda  por malote e ficamos assim combinados.

Ao que o engenheiro Senna, caboclo  de boas histórias e pé no chão, retrucou:

— Não, senhor. Se quiser curauá, tem que vir aqui, ajudar a plantar, conhecer as pessoas, botar o pé na terra e construir uma fábrica aqui para dar emprego.

Assim foi feito. Fui encontrar Alberico Pasquetto em 2006, para fazer a reportagem para o Razão Social, já bastante integrado à terra que o acolhera.  Posso dizer que a pele clara já tinha ganhado tons bastante bronzeados. Ele conhecia o restaurante de Santarém (onde foi construída a fábrica para 150 funcionários) que vendia a melhor pizza.  E já tinha hábitos bem locais, como o de saborear um belo sorvete de açaí à tardinha, quando o sol está se pondo e o calor fica mais brando.

Na nossa despedida, por sinal ali mesmo, na sorveteria, Pasquetto me confidenciou que nunca tinha ouvido falar em sustentabilidade, não estava alinhado com questões de responsabilidade social corporativa. Agiu por impulso, sensibilidade, apurou a escuta e botou a mão na massa. Dei-lhe algumas dicas, mas talvez nem fosse preciso…

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Dia sim, dia não…

Muita gente está me perguntando qual a periodicidade do blog. No primeiro post eu digo, mas ficou lá embaixo, acho que a informação se perdeu.

Então, lá vai: o blog vai ser devidamente “alimentado” dia sim, dia não, por enquanto. É que pretendo fazer muito mais uma reflexão do que anda acontecendo no tema da sustentabilidade do que, propriamente, noticiar coisas novas. E, como uma reflexão exige referências e muito estudo, não tenho como fazer isso diariamente.

Mas digo “por enquanto” porque também estou pensando em criar, pelo menos uma vez por semana ( e aí seria um dia diferente) para postar notícias de atitudes que estão dando certo por aí. Projetos, não só de empresas como de organizações não governamentais ou mesmo de pessoas físicas, que possam contribuir de alguma forma – não vou usar o clichê básico, “para salvar o planeta”, porque nisso não acredito – mas para melhorar a vida de si próprio ou de uma comunidade.  Só estou esperando chegarem mais algumas dessas iniciativas para inaugurar esse dia.

Mais uma coisa: sei que o blog não está tão perfeitinho em termos de estrutura e imagem como poderá ficar. Já estou providenciando isso também. Pedi uma ajuda para uma profissional que virá aqui me ajudar e farei todos os ajustes necessários. Vai ficar tinindo!

Aqui eu quero fazer uma homenagem justíssima ao fotógrafo Carlos Ivan Siqueira, parceiríssimo do blog, parceiríssimo do extinto Razão Social, que trabalhou comigo também na Revista da TV e que me doou com o maior carinho este lindo nascer do sol que está enfeitando a capa do blog. Carinhosamente, a equipe do Razão sempre o chamou de “neguinho”, mas é um apelido que veio lá dos tempos da Revista da TV, com o pessoal da Patrícia Kogut. Portanto, nosso neguinho querido, muito obrigada pela foto!

Até amanhã, portanto, com mais um texto reflexivo!

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O crescimento é um espetáculo?

‘O maior fenômeno das próximas décadas será o crescimento da classe média em todo o mundo”, diz um artigo da “The Economist” da semana passada. A informação da revista britânica, que não traz exatamente uma grande novidade, virou notícia porque é a principal conclusão  do relatório da agência National Intelligence,  dos Estados Unidos, divulgado nos últimos dias do ano passado. Foi um trabalho intenso, encomendado a vários profissionais, com o objetivo de tentar entender como as mudanças mundiais impactam (e impactarão) os Estados Unidos. Uma dessas mudanças é o crescimento da classe média, sobretudo na China e na Índia.

Em 2005, o economista e consultor indiano  C. K. Prahalad  escreveu um livro  —  “A riqueza na base da pirâmide”,  disponível em português pela Bookman – que dava uma orientação segura para as  empresas sobre o lucro que elas  poderiam ter se investissem em mercados de pessoas pobres.  Quando o indiano — que morreu aos 68 anos  em 2010 —  começou a traçar sua teoria, em 1995, o mundo tinha mais de 4 bilhões de pessoas que viviam com menos de 2 dólares por dia. Hoje, segundo os últimos dados do Banco Mundial, esse número baixou para  1,29 bilhão de pessoas. Ainda assim,  um público e tanto para as empresas que gostam de ouvir o tilintar de moedas, mesmo que em conta-gotas.

O indiano tinha boas intenções. Ele queria demonstrar que se as empresas diferenciassem seus produtos e serviços com foco nas populações de baixa renda e baixassem seus preços ou facilitassem o crédito, elas estariam contribuindo para criar um capitalismo inclusivo. Para demonstrar sua tese, ouviu várias experiências bem sucedidas daquilo que os especialistas do mercado dito sustentável chamam de “ganha-ganha”. Uma subsidiária da Unilever, por exemplo,  citada no livro, concentrou-se em fabricar e vender sabonetes para regiões rurais e muito pobres da Índia. É que nesses locais registrava-se um índice altíssimo de mortes por diarreia porque ninguém tinha o hábito de lavar as mãos. A empresa investiu pesado numa campanha nacional linkando o uso do sabonete à saúde  e baixou os preços de seus produtos para que todos pudessem comprá-los. O índice de diarreia também baixou. E a conclusão do economista e guru de vários empresários é que, dessa forma, todos saíram ganhando.

A brasileira Casas Bahia mereceu mais de 20 páginas no livro de Prahalad com o subtítulo  “Realizando um sonho”. O sonho é o de possibilitar aos pobres  consumirem produtos que antes eles nem podiam imaginar em ter. Na época em que o livro de Prahalad foi escrito, ou mesmo lançado, os cientistas ainda não tinham vindo a público demonstrar como o desenvolvimento industrial desenfreado impacta nosso ecossistema. A preocupação, portanto, era  com a inserção de mais pessoas no mercado.

Assim que saiu o livro aqui no Brasil, fui a São Bernardo entrevistar Michel Klein, diretor das Casas Bahia, para o Razão Social. Num escritório de decoração austera, Klein conversou comigo durante quase duas horas, explicando porque se tornara um “case” para o indiano. Seu pai Samuel, o fundador da rede de lojas, preferiu não se juntar à conversa embora tenha ficado a maior parte do tempo de longe, observando.

Não era sobre sustentabilidade que se falava. E o consumo, passando longe das preocupações ambientais, era comemorado de um jeito muito peculiar: “Dar crédito é ajudar uma pessoa a ter mais cidadania e auto-estima”.  Para ele, se o Brasil tem muitos pobres, é claro que eles precisarão de seu crédito para conseguirem viver com mais dignidade, foi esse pensamento que atraiu Prahalad.  E ficamos assim combinados.  Sem espaço para controvérsias.

Como se sabe, no entanto, há controvérsias. A discussão mais básica é sobre essa “falsa inclusão” via consumo; passa pela questão do meio ambiente, pois segundo os ambientalistas já estamos consumindo mais do que a Terra pode fornecer. E, é claro, vai desaguar na economia. O relatório da agência norteamericana fez um estudo e  descobriu que a   Inglaterra, onde aconteceu a Revolução Industrial, levou 150 anos para dobrar a sua renda per capita. Nos Estados Unidos, isso começou a acontecer 30 anos depois. China e Índia estão fazendo isso em tempo recorde.

Se as empresas descobertas por Prahalad estavam querendo atingir o pé da pirâmide, a história agora é outra. Quem decidiu investir nesse mercado emergente está de olho nas pessoas que já conseguiram seu lugar ao sol no mundo do consumo. A reportagem da “The Economist” conta o caso da PepsiCo, por exemplo, que apimentou um salgadinho para se adaptar ao gosto dos indianos.  A Kraft pôs menos açúcar em seus biscoitos e lançou um chá verde enquanto  o dono da Louis Vitton fez parceria com uma empresa de agronegócios para produzir um espumante chinês. Tudo para agradar o gosto do freguês.

E o que não vai faltar é freguês. A agência norteamericana não é a única a apostar que a classe média é o futuro. O Boston Consulting Group prevê que até 2020 haverá cerca de 1 bilhão de chineses e indianos querendo consumir. Dizer “não” para eles,  invocando um certeiro desastre ambiental global, parece uma tarefa fadada ao insucesso. E, até certo ponto, injusta. Para alguns estudiosos do assunto,  resta ao  Estado, que desde os anos 80 tem deixado as rédeas das corporações bem soltas, retomar esse controle. Será que é por aí a solução?

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As chuvas virão. Tragédias também. E ninguém fala em adaptação

O noticiário de hoje sobre as chuvas já consegue causar irritação, sentimento bem próximo  à consternação e impotência pelos prejuízos causados a tanta gente. Não é possível que se continue não cobrando do governador Sergio Cabral uma atitude madura, consciente e responsável sobre a adaptação do estado às chuvas. Tive o cuidado de rever a última entrevista que ele deu para falar da questão dos royalties que tem chance de perder, e em nenhum momento o governador disse que este dinheiro poderia ser usado para tirar as famílias das áreas de risco e construir outras casas para elas. Não. Ele diz que sem os royalties não terá condições de fazer os eventos internacionais que todos esperam ávidamente. Diz ainda que não terá dinheiro para pagar os servidores. E ponto. Nenhuma menção ao que deveria ser uma das prioridades de seu governo, já que ele administra um estado onde chove muito e vai passar a chover mais intensamente por causa dos efeitos causados pelas mudanças climáticas. Isso é real, não é ficção. Mas Sergio Cabral não vai aos jornais e televisões dizer que sem o dinheiro dos roylaties ele não terá como levar adiante seu plano de adaptação aos desastres naturais porque esse plano, se existe, não é prioridade. Tampouco a mídia se lembra de cobrar isso dele, a menos que esteja sob o impacto da tragédia que vem sempre, entra ano, sai ano.

Estive na Holanda em 2011, a convite do governo, que queria mostrar ao mundo o que está fazendo como adaptação às mudanças climáticas e, para isso, chamou representantes da imprensa de vários países. Não, eu não estou comparando alhos com bugalhos. Sei perfeitamente que a Holanda é um país muito menor e com muito mais dinheiro do que o nosso, e que a realidade é outra.  Mas a consciência, não só dos governantes como da população, de que é preciso fazer algo para enfrentar as águas do Mar do Norte, que certamente subirão a ponto de causar alagamentos quanto maior for o degelo do Ártico, é de dar inveja. Já que não dá para ter tanto dinheiro, me dou o direito de sonhar em perceber por aqui,  pelo menos, esta noção de cuidado que eles têm.

Só para se ter uma ideia: numa pequena cidade chamada Arnhem há 50 casas lindas, daquelas que parecem casinhas de boneca, que quando estive lá estavam prestes a serem demolidas para ampliar o leito do rio iJssel quando suas águas aumentarem por causa do degelo. E mais: uma barreira gigante, com dois portões em forma de arco com 22 metros de altura por 220 de comprimento foi construída desde 1997 para se fechar diante de qualquer ameaça de enchente  à cidade e ao Porto de Roterdã. Custou US$ 700 milhões e exige uma equipe de dez pessoas que ficam ali, em turnos, apenas para fazer a manutenção e tomar todas as providências porque o único que consegue fechar o portão é o computador. Alguém terá que telefonar para o prefeito se acontecer.

Vejam bem: isso não quer dizer que a Holanda seja o país padrão exemplar no tema das mudanças climáticas. Não é. A própria Roterdã é uma das cidades que mais emite carbono do mundo. O que está acontecendo ali é que eles estão cuidando muito bem do quintal deles. O convite à imprensa mundial para conhecer as iniciativas que estavam sendo tomadas veio justamente numa época em que estava para ser aprovada no Parlamento uma lei permitindo a criação de um fundo – de cerca de 1 bilhão de euros por ano – para as obras de adaptação. Não consegui saber se foi ou não aprovada a tal lei.

Voltando à nossa realidade, o que fica claro é que depois que a chuva passa, literalmente, os assuntos prioritários passam a ser outros.  Os candidatos ao governo também não tocam no assunto. Sustentabilidade, mudanças climáticas, desastres naturais, são temas que não dão voto. E isso é impressionante porque mostra uma desconexão com a realidade não só dos candidatos como dos eleitores, que não se acostumaram a cobrar isso deles.

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A sustentabilidade é um mito?

Quem já passou por uma redacao de jornal na hora do fechamento sabe como é. Um momento unico, indizível. Em questáo de minutos, os jornalistas têm que fazer o melhor titulo, uma legenda criativa, não cometer erros ortograficos. E o tempo correndo, o editor avisando que está na hora, que o prazo está se esgotando. Às vezes alguém empaca em uma palavra e grita:
— Fórum tem acento?
A criatura nem espera resposta, até porque sabe que  ninguém está conseguindo, de fato, dar atenção naquele momento. Mas o  simples  falar alto já  ajuda a descobrir o caminho das pedras.
Pois foi nesse ambiente solidário, isolacionista, inquietante, caótico, criativo, ensandecedor,  que resolvi passar grande parte da minha existência. E foi também nesse cenário que comecei a me aprofundar no tema da sustentabilidade, como editora do caderno Razáo Social, suplemento do Globo extinto em julho do ano passado. Lembro-me perfeitamente quando, num dia de fechamento, resolvi pedir à diagramadora (profissional de importancia relevantissima dentro de uma redação, pois é quem vê e desenha o jornal na tela do computador), pela primeira vez, para `fazer caber` a palavra sustentabilidade no título da matéria que eu estava escrevendo. Para quem nao está familiarizado com o termo, `fazer caber` significa usar as ferramentas disponíveis na internet para espremer uma palavra. E ela retrucou:
— Ah, Amelia, nem pensar, nao cabe. E depois, cá entre nós, né? Quem vai ler uma materia com um nome complicado desses no título?
Estávamos em meados de 2005, eu já editava o Razão Social desde 2003 e, de fato, eu mesma não estava lá muito convencida de que deveria usar sustentabilidade no título. Afinal, fora `educada` desde o primeiro número do Razão a usar o termo responsabilidade social, talvez um pouco mais palatável. Assim, disse `ok, você venceu` e troquei o título.
 A diagramadora exultou, eu encasquetei. Como é que poderia falar sobre um movimento sem usar o nome dele? Será que um jornal diário não comportaria esse tipo de reflexão?
Seis anos se passaram, e veio a Rio+20. Evento glamuroso, cheio de pompa, com a presença de 120 chefes de estado, convocado pela ONU para se discutir a transição do mundo para uma Economia Verde 40 anos depois de Conferencia de Estocolmo em 1972.  Fiz parte do time que cobriu a Conferëncia e uma noite, na Redação,  enquanto tentava o tal título criativo, percebi que estava vivendo um momento totalmente diferente daquele lá atrás, no in[icio do Razao Social. Ali, naquele momento,  o dificil  era driblar o uso das expressões  sustentabilidade ou verde.  Todo mundo falava nisso o tempo todo.
O que aconteceu nesse período de tempo para provocar uma mudança tão significativa?
 Aqui vale um registro histórico que pode ajudar a refletir. Em junho de 2006 fui chamada pela entáo diretora da Philips, Flavia Moraes, para uma entrevista coletiva em Manaus em que a empresa reuniu jornalistas para contar que a partir daquele momento estava se colocando num outro patamar, que não o de somente uma corporação socialmente responsável. Percebendo o
 esgotamento desse modelo, a Philips queria passar a ser inserida na lista de empresas sustentáveis. Ela entendia que, assim, estaria envolvendo toda a corporaçáo num caminho sem volta, atenta aos pilares econmico, social e ambiental.
Ato contínuo à publicação da reportagem, o então presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (ao qual a Philips se mantinha como sócia) Oded Grajew, enviou-me uma carta pedindo que publicasse. Era uma dura resposta a polêmica surgida em torno do conceito responsabilidade social por causa da atitude da Philips: `Nào é importante saber se o nome mais adequado é responsabilidade social, sustentabilidade, boa governança corporativa ou outra denominação qualquer. O mais importante é entender que estamos falando de absolutamente todas as ações da empresa e mais importante ainda é praticar este conceito`.
A discussão ainda está em aberto. E este blog pretende  acompanhar passo a passo, atualizando o tema,  sem verdades, n em certezas, mas convidando à reflexão.
 No livro `Corporação 2020` (ainda sem tradução no Brasil), recentemente lançado pelo economista indiano Pavan Sukhdev ,  ele chama atenção para uma questão importante: pressionadas pela opiniao pública, que foi sendo alimentada desde a primeira Conferencia  em 1972, as empresas passaram a desenhar para si próprias um cenário bem cuidadoso onde todos ganhariam se tomadas algumas iniciativas sustentáveis.
Segundo a resenha do livro publicada no jornal `Valor Econômico` do dia 18 de dezembro passado pelo jornalista Ricardo Abramovay, `a grande virtude do novo livro de Sukhdev  é que ele se distancia da visão complacente e apologética de que a resposta empresarial aos grandes  desafios socioambientais de nosso tempo é sempre ganha-ganha. Ele reconhece, é  claro, a conquista de riqueza, a melhoria da formação dos trabalhadores e a própria ampliação dos horizontes de circulação dos bens, dos serviços e das pessoas, como resultados do funcionamento das empresas modernas. Mas o traço central das atividades corporativas dominantes a partir de 1920 (em oposição ao que deve ocorrer com a “Corporação 2020”) é a obtenção de ganhos cada vez mais apoiados em perdas, tanto para os ecossistemas como para o próprio mundo social.`
O nosso desafio, portanto, como cidadãos comuns, é enorme. Pensar num novo modelo civilizatório que envolva as empresas, com cuidado para que elas, acostumadas que são a tomar sempre atitudes estrategicas, nao transformem tudo em  preço. Que envolva os movimentos sociais sem esquecer que a cultura é importante. Que envolva os movimentos ambientalistas sem descolar da realidade, ja que não existe  meio ambiente sem gente.
Não existe fórmula mágica, mas acredito que a filosofia pode ajudar. Sobretudo os filósofos franceses da decada de 60, como Felix Guattari (que criou o termo Ecosofia) e Gilles Deleuze. Juntos, eles pensaram e criticaram  um sistema construído com base no pensamento aristotélico do julgamento, do bem e do mal, dos viloes e mocinhos. Entender a sustentabilidade exige, sobretudo, que se abandone um pouco visões tão rígidas.
Para terminar esse `post de apresentação`, convido os leitores a `visitarem` o reino da Kakania, idealizado por outro filosofo, Robert Musil, menos conhecido porque so escreveu uma obra – O Homem sem Qualidades – publicada post mortem nos anos 50. Em poucas palavras ele consegue por o dedo na ferida de uma civilização da abundância, da ganância. Pois não são eles, notoriamente, os dois males que mais nos enlaçam em direção a uma vida insustentável, seja lá qual for o significado deste conceito?  Reparem nesse trecho:
`Na Kakania, esse pais desaparecido, incompreendido, em tantas coisas exemplar mas não reconhecido, havia dinamismo, mas não demais. Naturalmente também corriam automóveis nessas estradas, mas não muitos.  Também ali se preparavam para conquistar os ares, mas não com muita ênfase… Não se tinham ambições de economia mundial, nem potencia mundial… Gastavam-se imensas somas com o exército, mas só o suficiente para continuar sendo a penultima das grandes potencias. Tamb-em a capital era um pouquinho menor do que todas as demais maiores cidades do mundo, mas um pouquinho maior do que são as meras grandes cidades`. E agora, a cereja do bolo que Musil nos oferece, com a qual eu termino esse post, prometendo que os próximos não serão tao longos: `E na Kakania so se tomava um genio por patife, nunca se tomava um patife por genio, como acontecia em outros paises`.
Pretendo postar dia sim, dia nao. Ou a qualquer momento, em edição extraordinária. Portanto, até sexta-feira! E obrigada pela visita.
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