O par de sapatos da foto tem 15 anos de idade.
Acabo de trazê-lo do sapateiro. Ganhou sola, salto, foi escovado e ainda vai render belas caminhadas.
Tenho certeza de que esta não é uma novidade para a maioria dos leitores aqui do blog. Recuperar coisas em vez de trocá-las por novas já deve fazer parte da rotina de quem se preocupa com o estado atual das coisas.
Mas estou trazendo aqui por dois motivos: primeiro, porque fiquei super feliz com o meu par de sapatos renovado. É confortável, bonito, e se eu fosse comprar agora um semelhante, pagaria no mínimo três vezes mais do que paguei pelo conserto. Check!
O segundo motivo é que, no caminho de volta para casa, com meu par de sapatos renovado na bolsa, minha memória buscou uma reportagem que fizemos para o caderno “Razão Social” (do qual fui editora e que se acabou em 2012, como sabem os que aqui me acompanham). A reportagem saiu publicada em outubro de 2011 com o título “Ainda tem conserto”, e tratava do nosso consumo, ou melhor, consumismo.
Tenho insistido muito no pensamento de que, para agirmos verdadeiramente com respeito ao ambiente que nos cerca, o ideal é reduzir produção e consumo. E sei que isto não é fácil, que há implicações sérias na proposta. Vamos imaginar, por exemplo, que a grande maioria das pessoas fizesse o mesmo que fiz. Como resultado, nesta ficção que estou me dando o direito de criar, as fábricas de calçados teriam uma baixa em sua produção. Teríamos desemprego? Como sair desse imbróglio?
Para escrever a reportagem, a jornalista Camila Nóbrega visitou, à época, algumas lojas no Centro do Rio de Janeiro que ainda se mantinham com o conserto de objetos. Como já se passaram 14 anos, e tivemos uma pandemia no meio desse caminho, penso que hoje, infelizmente, muitas delas já devem ter fechado as portas.
Há dados interessantes na reportagem, cuja foto de capa, linda, foi feito pelo nosso repórter fotográfico Carlos Ivan. Vale a pena revisitar alguns desses dados, e fazer uma análise comparativa com o momento que estamos vivendo hoje. Sempre com a ideia de refletir sobre o que estamos falando, de verdade, em um momento em que a sustentabilidade vai voltar aos holofotes com a COP30, em Belém.
A população do Brasil em 2011 era de 195.3 milhões de pessoas e em 2024 éramos 212 milhões.
Em 2010, segundo a Anatel, os brasileiros compraram 29 milhões de celulares. Em 2024, segundo dados da Consultoria IDC, foram 40 milhões de celulares adquiridos.
Em 2011 o e-commerce (comércio digital) não era ainda muito relevante, já que a prática de fazer compras pelo celular ou computador ganhou espaço por conta da pandemia. Segundo o site Agora Deu Lucro, o Brasil é o décimo país que mais faz compras via internet do mundo. E o maior da América Latina. A média, até agora, é de 94 milhões de compradores.
Quando a reportagem foi publicada, a Política Nacional de Resíduos Sólidos tinha acabado de ser regulamentada (2010). Na época, os brasileiros geravam 170 mil toneladas de resíduos por dia, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Esta associação se juntou a outras e se tornou a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), que lançou um relatório no ano passado, onde consta que cada brasileiro gerou, em média, 1,47 kg de resíduos urbanos por dia em 2023.
Quanto ao lixo eletrônico, ou seja, aparelhos de televisão, dvds, notebooks, câmeras e outros itens que passaram a fazer parte de nossas vidas neste século, a ONU aponta que o Brasil é o maior produtor desse tipo de resíduo na América Latina, gerando 2,4 bilhões de quilos anuais. No mundo, em 2010, segundo a ONU foram gerados 34 bilhões de quilos de resíduos eletrônicos. Em 2022, este número chegou a 62 bilhões de quilos. Não é pouca coisa.
Como era de praxe em nossas reportagens, ouvimos uma pessoa para debater sobre o tema. Maria Cecília Prattes, economista e doutora em administração, foi certeira. Comentou sobre os hábitos de consumo, e apresentou algumas soluções para o imbróglio que tanto nos preocupa: baixar o consumo vai reduzir também a empregabilidade?
Prattes apontou algumas soluções para gerar empregos, investindo em áreas cruciais para a população, como saúde, educação, turismo, hotelaria, restaurantes.
“A indústria não pode ser a única fonte de empregos”, vaticinou a pesquisadora em 2011.
E assim termino esse texto. Graças a um belo par de sapatos recuperado, pude fazer contato com informações e reflexões que enriqueceram meu dia. E, o que é melhor, compartilhar com vocês.

