Recordando tempos difíceis

Nem sempre consigo tempo para escrever aqui no blog. Os amigos já sabem disso, relevam ou não Meus leitores também sabem que, quando eu tenho um trabalho, preciso abrir mão de fazer essa extensão de pensamento que faço aqui, sempre tentando trazer autores que eu visito para entender melhor o mundo.

Hoje, porém, fiz contato com um texto que escrevi num passado, em tempos bem difíceis, quando vivíamos uma pandemia no mundo.

E vou reproduzir porque fiquei feliz quando li. Dei a ele o título de Crônica da Diversidade. Foi publicado em 3 de julho de 2020, e fico boba quando penso que já lá se vão cinco anos!

Começo o texto contando o ambiente do prédio onde vivemos.

Segue:

Tem gato que se chama Mio.

Tem cachorra que se chama Mia.

Tem o Beto cachorro, tem o Beto que zela pelo prédio. Tem também a Maria, cachorrinha velhinha e bem pimpona, respeitada até pelos dois irmãos caninos do segundo andar, lindos, a turma do barulho. 

Ah! E tem também o Che, passarinho danado de abusado que não quer saber do perigo. Vem aqui na minha janela beber água e deixa Mio e Zuda, do muro ao lado, com os olhos estatelados, lambendo os beiços. Mas Che é esperto, voa rápido que só ele. E só bebe água fresca. Se eu me esqueço de trocar, ele vai beber na vizinhança.

Tem palhaço! E tem palhaçada no corredor, a sério. O Café Pequeno, na verdade o ator Richard Riguetti, que vive de fazer arte para muita gente na rua e nos palcos, criou assim seu jeito de enfrentar a pandemia, esta mesma que obrigou todo mundo a ficar isolado. E a manter distância. Não se junta mais gente. Cadê a arte de rua? A foto do post é de uma apresentação, foi clicada por Juliana Garçon.

As crianças do prédio adoraram a palhaçada.

Tem gente que escreve, gente que lê e escreve, gente que cuida de gente! Isto tem mais de um. Tem jornalistas, assim mesmo, no plural.

E músicos, também tem! À tarde, é só esperar para ouvir o clarinete, o oboé…

Tem gente que faz cristais da boa energia e sai pendurando, dando para quem mais gosta. Tem vitrais que mais parecem com igreja, lindos.

É assim o prédio onde eu moro.

Pequenino, fica no fim da rua tranquila. Quando veio a ordem de ficar todo mundo em casa, foi um tal de um ajudar o outro, fazer compras, emprestar coisas. Manteiga, livro, açúcar, dendê… já rolou de tudo. 

 Quem sai, como eu, fica no quarteirão. É só para respirar e andar com a cachorrada. Ou pegar um solzinho com as crianças.

Mas não estou dizendo que vivemos em total harmonia. Até porque, como já estamos cansados de saber, essa tal de harmonia é só para inglês ver, para vender margarina aos que acreditam que a paz mundial tem uma receita única. Ou para fazer falsas promessas, que delas já estamos cheios.

Ser humano é diverso, cada um é um. Somos todos, como diria Friedrick Nietzsche, filósofo e poeta,  humanos, demasiado humanos. Portanto…já rolou discussão, muxoxo, um vira a cara para o outro, o outro vira a cara para o um.

Se tem muito barulho no prédio, nossa! Eu mesma viro bicho. Se aparece barata, ah… o Beto que zela pelo território vai ouvir…

Hoje acordei pensando nisto, hoje acordei acreditando na diversidade. A natureza é diversa, toda gente é diversa. Respeitar o poder da diversidade é uma das chaves que pode abrir as portas para uma civilização diferente. 

 Peguei da estante “Morte e vida das grandes cidades”,  de Jane Jacobs, lançado aqui pela editora Martins Fontes. Um livro gostoso de ler, com tanta informação que é impossível não identificar, nos pés e nas patas do meu prédio, o balé urbano sobre o qual ela fala. Um livro que quero sugerir aos leitores – sobretudo aos que estão estudando urbanismo –  porque estamos num momento de perceber, de abrir os olhos, de ficarmos atentos a tudo. Estamos num momento de acreditar que é possível mudar, que não podemos nos agarrar a uma fajuta “volta à normalidade”. Não depois de tudo que estamos vivendo. 

Jane foi uma super ativista social canadense, morreu em 2006 aos 90 anos. “Morte e vida das grandes cidades” foi seu grande gol, lançado nos Estados Unidos em 1961, que chegou aqui só no início deste século. O tema central é Nova York, cidade onde Jane viveu. Jane usa uma linguagem bem atraente, conta histórias a partir de sua própria vivência. E é deste jeito que vai construindo uma narrativa de oposição ao estilo higienizado e asséptico criado pelos arquitetos dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam). O Ciam foi uma instituição lançada na Europa nos anos 20, depois da I Guerra, para defender e difundir um ideário de arquitetura e do urbanismo modernos. Na verdade, para recuperar grande parte das cidades que foram derrubadas com os bombardeios.

Quando Jane lançou o livro, Brasília estava sendo construída exatamente sob os moldes de Le Corbusier, arquiteto que escreveu “Carta de Atenas”, livro do qual também gosto muito. Le Corbusier foi membro dos Ciam.  Na verdade, fico bem em cima do muro, entre um e outro plano de urbanismo. E decido gostar dos dois. 

Para Jane, cidade tem que ser diversa, pobre misturado com rico, rico misturado com remediado, todo mundo experimentando a vida. E assim vai se ajeitando. Não adianta impor um padrão, porque nós, humanos, não somos padronizados.

Le Corbusier constrói cidades que se adaptariam melhor à pandemia. Para ele, é preciso ter espaço entre as casas, é preciso que as ruas sejam setorizadas: comércio com comércio, banco com banco, empresa com empresa, residências com residências. Organiza mais. Por outro lado, tira a riqueza da diversidade.  

Fiquei enfeitiçada pelo texto de Jane. Uma frase, em especial, chamou minha atenção e está me ajudando a alinhavar meu pensamento: 

“Há um aspecto ainda mais vil que a feiura ou a desordem patentes, que é a máscara ignóbil da pretensa ordem, estabelecida por meio do menosprezo ou da supressão da ordem verdadeira que luta para existir e ser atendida”.

Estamos vivendo um momento especial no mundo, no  Brasil. Ainda mais no Rio de Janeiro. O professor e escritor Luiz Marques descreve assim no artigo que escreveu para o site da Unicamp, onde leciona:

“A atual pandemia intervém num momento em que três crises estruturais na relação entre as sociedades hegemônicas contemporâneas e o sistema Terra se reforçam reciprocamente, convergindo em direção a uma regressão econômica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recuperação. Essas três crises são, como reiterado pela ciência, a emergência climática, a aniquilação em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela indústria química”.

Ou seja: é um momento danado de ruim para se ter uma crise de saúde. 

Mas, já que não há outro jeito, o meu desejo é que a gente consiga sair dela com valores diferentes. Nem melhores, nem piores, mas diferentes. Para que isto aconteça, precisamos conhecer mais, descobrir autores que nos possibilitem reflexões. Eis a minha contribuição de hoje.

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Sem rodeios

Não quero ser arauto de más notícias, mas quero, como sempre, trazer dados importantes para a nossa reflexão cotidiana pós senso comum, se me permitem a expressão quase neologista. Ou despertar outros sentimentos, ampliar pensamentos – “Pensar com uma mentalidade alargada significa treinar a imaginação para sair em visita”, diz Hannah Arendt.

 Ou, como disse certa vez o engenheiro de sistemas Brad Werner em um encontro da American Geophysical Union, em São Francisco, sobre o acelerado esgotamento de recursos naturais impetrado pelo nosso sistema de produção e consumo atual, “a única coisa científica a fazer é se revoltar”*.

Bem, mas vamos direto à notícia: um estudo divulgado no jornal britânico The Guardian, com análises de 25 anos, mostra que compensações de carbono, como as que vêm sendo feitas mundo afora, não conseguem reduzir o aquecimento global “devido a problemas sistêmicos intratáveis”. Leia-se: excesso de emissões de gases do efeito estufa provocadas pelo nosso sistema de produção e consumo “as usual”.

Os empresários, a indústria, os diplomatas e negociadores das COPs, os líderes (não todos, mas…) têm se esforçado bastante, e disso ninguém tem dúvida. Mas, segundo Stephen Lezak, coautor do estudo, não está sendo bastante eficaz, pelo menos não em larga escala.

“Precisamos parar de esperar que a compensação de carbono funcione em larga escala. Avaliamos 25 anos de evidências e quase tudo até agora falhou”, disse ele à reportagem do jornal.

Outra pesquisa publicada na revista Nature Communications, abrangendo 14 estudos sobre 2.346 projetos de mitigação de carbono e 51 estudos que investigaram intervenções de campo semelhantes implementadas sem a emissão de créditos de carbono, descobriu que menos de 16% dos créditos de carbono investigados mostraram reduções reais nas emissões de gases de efeito estufa.

“Os mecanismos de crédito de carbono precisam ser reformados fundamentalmente para contribuir significativamente para a mitigação das mudanças climáticas.”, conclui o estudo encabeçado por Bento S. Probst, mas que envolveu outros nove pesquisadores.

Na lista de problemas apontados pelos pesquisadores e que levam à inoperância dos sistemas de créditos de carbono, há construções irregulares de parques eólicos e plantio de árvores que, depois, são incendiadas para abrir mão para o progresso.  

Isto quer dizer que não devemos mais expandir nossos mecanismos de compensações? Não. Mas quer dizer que precisamos parar um pouco de fazer isso de maneira irrefletida, ampliada, para ganhar terreno nas tecnosoluções para o aquecimento.

Donna Haraway, Anna Tsing, o japonês Kohei Saito, são apenas alguns dos pensadores da atualidade que estão chamando atenção para a inocuidade de processos que não olham de frente para o problema. Enquanto continuarmos a produzir e consumir do mesmo jeito, vamos ter que explorar os bens naturais até que deles não reste mais nada.

*A informação está na página 96 do livro “Ficar com o problema”, de Donna Haraway (N-1 Edições)

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Jose Eli da Veiga e o suspense da COP30

Vale a pena ler o artigo do professor José Eli no jornal Valor de hoje.

Acesse aqui: https://www.zeeli.pro.br/o-maior-suspense-da-cop30/

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Pensamentos curtinhos para embalar o domingo

Conheço o pequeno Cícero desde que ele ocupava um lugar tranquilo e seguro, na barriga da mãe, há cerca de 1 ano e meio. O casal tem também a Zabé, uma linda vira-latas. Como somos todos cachorreiros, portanto, passamos a nos cumprimentar. Acenos tímidos, saudações quase murmuradas, mas sempre algum contato.

Até que um dia o casal passou a caminhar com Zabé e um sling amarrado ao corpo, ora dele, ora dela. Lá dentro estava o feliz filhote, que eu ainda não sabia o nome.  Digo que ele é feliz porque os considero pessoas tranquilas. Não os conheço em profundidade, não compartilho de suas vidas, mas me parece que sonhamos sonhos bem parecidos para o futuro daquele pequeno.

Pois Cícero, hoje em dia, já é uma criaturinha que anda por aí cambaleante feito um patinho, a apontar tudo e todos.  Zabé e Beto foram o elo de ligação entre nós. E ele aprendeu a falar nossos nomes. Coisa mais linda e emocionante.

Na manhã de hoje, um domingo de sol frio e ventinho gelado, saí bem cedo a caminhar com Beto. Gosto quando a rua está vazia e adoro esse tempo. Vira uma esquina, vira outra, até que nos vimos. E Cícero, em seu carrinho empurrado pelo pai, apontou o dedinho, revirou a cabeça, chamando meu nome e de Beto. Atravessei, é claro, convocada por aquela delícia, e nos aproximamos.

Ofereci-lhe a guia de Beto e ele topou, na hora, ser o condutor.  Caminhamos assim, um pé depois do outro pé, sem pressa nenhuma.  

Até que Beto e Cícero estancaram. Nenhuma palavra ou latido, simplesmente ficaram parados, cada um olhando para um lado, acompanhando algo, um movimento, que só alguns instantes depois eu percebi: foi uma lufada de vento.

Paramos também, os adultos, e conseguimos respeitar aquele momento. O vento, o menino e o cachorro. Simplesmente contemplamos, por um tempo que não sei precisar porque, ali, era a última coisa que me importava.

O passeio acabou, Cícero foi para a padaria com os pais e eu segui para casa. Corri à estante. Queria preencher o momento com pensamentos nutritivos. ‘Sociedade do cansaço”, do coreano Byung-Chul Han (2015) foi o ideal. Excesso de positividade, de produção, empreendedorismo, dispõe nossa sociedade atual, que não é mais a sociedade do controle, cunhada assim por Foucault, mas a sociedade do desempenho.

Excesso também de informações, impulsos. E falta de tempo para a contemplação.

“Habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-de-si”, segundo Nietzsche. Capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.

Tudo o que não conseguimos mais fazer nessa sociedade do cansaço.

“O cansaço dá o compasso ao indivíduo disperso”, escreve o coreano. E como é bom poder sentir a  leveza de Cícero, Beto, e o vento a nos lembrar que a vida é muito valiosa e tem muito a nos oferecer. É só respeitar.

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Um artigo publicado na primeira página do vetusto The New York Times deste sábado (27) chamou minha atenção por causa do título: “Um adulto na sala sobre o clima”. Escrito por Li Shuo, diretor do Instituto de Políticas da Sociedade Asiática no setor de Mudanças Climáticas, o texto convence porque só traz fatos reais.

Shuo começa contando a visita que o então presidente Barack Obama fez à China, em 2017, para tentar pressionar o gigante asiático a acelerar seu processo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. No mesmo ano, assumiu a presidência Donald Trump que, como se sabe, é um negacionista do clima e minimiza constantemente todas as ações em prol da redução das emissões.

“A questão era que, ao contrário do Ocidente, onde os ciclos eleitorais restringiram ações climáticas consistentes, a China joga um jogo longo — planejando décadas para o futuro. E não gosta de fazer promessas que não pode cumprir”, escreve o especialista.

Acabamos de assistir, estarrecidos, ao discurso de mr. Trump nas Nações Unidas, no qual ele repetiu a bateria de declarações desacreditando a Ciência, o IPCC, o Acordo de Paris, e mandando um recado direto aos seus seguidores: “Cavem, cavem, cavem”.

A China, por sua vez, mostrou ao mundo que planeja reduzir as emissões de gases de efeito estufa de 7 a 10% até 2035. Os analistas acharam uma meta pífia. Shuo concorda:

“A China é o maior poluidor do mundo e, sozinha, queima mais da metade do carvão do mundo, o combustível fóssil mais poluente. De acordo com a pesquisa da minha organização, a China precisaria reduzir suas emissões em pelo menos 30% em relação aos níveis máximos até 2035 para se alinhar à meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global médio a 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais. O novo compromisso de Pequim claramente erra esse alvo”.

No entanto, diz ainda Li Shuo, a China se tornou uma superpotência mundial em tecnologia limpa. Seu domínio nas indústrias de energia solar, baterias e veículos elétricos deve permitir deve permitir que ela avance mais rapidamente. Diferentemente do Ocidente, onde as metas climáticas são mais ambiciosas, mas frequentemente vulneráveis a ciclos políticos, a China alinhou sua descarbonização com sua estratégia de crescimento econômico.

“Na prática, isso significa construir uma infraestrutura sistematicamente, cadeias de suprimentos sofisticadas e um mercado interno previsível para energia limpa”.

Ou seja: é preciso ter políticas que não sejam vulneráveis a crenças de tal ou qual político. Políticas de estado, não de governo. Globalmente a decisão foi tomada em 2015, quando os países assinaram um tratado internacional, o Acordo de Paris, para limitar o aquecimento a 1.5 grau e fortalecer a capacidade de os países lidarem com os impactos das alterações climáticas.

Para levar a sério, é preciso mesmo ter um adulto na sala.

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A era dos paradoxos mostra sua cara

Talvez por coincidência, ou por decisão editorial, fato é que duas notícias ocuparam o espaço nobre no alto do portal G1 hoje. E são o retrato mais fiel do mundo dos paradoxos que estamos vivendo.

Em cima, a morte trágica do chinês Kongjian Yu, um dos arquitetos mais famosos do mundo, que pensou as “cidades esponja”, um conceito absolutamente revolucionário. Nada muito sofisticado, apenas o  aproveitamento da própria natureza para diminuir os impactos causados pelos eventos extremos em centros urbanos. Ele criou 70 cidades assim em todo o mundo. Se mais tempo tivesse de vida, mais seria capaz de fazer.

Logo abaixo da notícia de morte tão precoce e infeliz, uma reportagem mostrava o planejamento de construção de mais cinco data centers nos Estados Unidos.  Investimento de 500 bilhões de dólares para acelerar o ChatGPT que, sim, se por um lado tem um peso grande em inovações capazes de ajudar a Medicina, por outro amplia muito as emissões de GEE na atmosfera e, consequentemente, ajudará a intensificar os eventos extremos. Noves fora: estão ganhando dinheiro demais e, como é de praxe, vão querer acelerar ao infinito esses data centers, a despeito de a ciência já ter demonstrado que eles são poluentes.

Na mesma home, pouco mais abaixo, a notícia do relatório do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK) dá conta de que a Terra já rompeu com sete dos seus nove limites planetários. Trocando em miúdos: mais um estudo científico demonstrando aquilo que o presidente Trump, em seu discurso monocórdico na ONU ontem,  fez questão de dizer que é mentira: o aquecimento global vai causar ainda mais eventos extremos, que acontecerão com mais intensidade.

E já que estou falando o tempo todo sobre paradoxos, vale a pena fechar este mini texto com boa notícia. O presidente Lula, que está orgulhando o país com suas manifestações nos Estados Unidos – belíssimo discurso na ONU – , ontem mesmo anunciou um aporte de 1 bilhão de dólares  para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês). Já o nome do fundo achei simpático. A ideia, então, melhor ainda: ajudar países que têm florestas tropicais a mantê-las.

O presidente Lula, que está com uma verve particularmente iluminada nesses dias, resumiu assim o propósito do Fundo, segundo a Agência Brasil:

“É um mecanismo para preservar a própria vida na Terra. As florestas tropicais prestam serviços ecossistêmicos essenciais para regulação do clima. Abrigam as maiores reservas de água doce do mundo, protegem o solo, armazenam oxigênio e absorvem gás carbônico”.

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Brasil é o país que mais consome produtos via internet da América Latina

O par de sapatos da foto tem 15 anos de idade.

Acabo de trazê-lo do sapateiro. Ganhou sola, salto, foi escovado e ainda vai render belas caminhadas.

Tenho certeza de que esta não é uma novidade para a maioria dos leitores aqui do blog. Recuperar coisas em vez de trocá-las por novas já deve fazer parte da rotina de quem se preocupa com o estado atual das coisas.

Mas estou trazendo aqui por dois motivos: primeiro, porque fiquei super feliz com o meu par de sapatos renovado. É confortável, bonito, e se eu fosse comprar agora um semelhante, pagaria no mínimo três vezes mais do que paguei pelo conserto. Check!

O segundo motivo é que, no caminho de volta para casa, com meu par de sapatos renovado na bolsa, minha memória buscou uma reportagem que fizemos para o caderno “Razão Social” (do qual fui editora e que se acabou em 2012, como sabem os que aqui me acompanham). A reportagem saiu publicada em outubro de 2011 com o título “Ainda tem conserto”, e tratava do nosso consumo, ou melhor, consumismo.

Tenho insistido muito no pensamento de que, para agirmos verdadeiramente com respeito ao ambiente que nos cerca, o ideal é reduzir produção e consumo. E sei que isto não é fácil, que há implicações sérias na proposta. Vamos imaginar, por exemplo, que a grande maioria das pessoas fizesse o mesmo que fiz. Como resultado, nesta ficção que estou me dando o direito de criar, as fábricas de calçados teriam uma baixa em sua produção. Teríamos desemprego? Como sair desse imbróglio?

Para escrever a reportagem, a jornalista Camila Nóbrega visitou, à época, algumas lojas no Centro do Rio de Janeiro que ainda se mantinham com o conserto de objetos. Como já se passaram 14 anos, e tivemos uma pandemia no meio desse caminho, penso que hoje, infelizmente, muitas delas já devem ter fechado as portas.

Há dados interessantes na reportagem, cuja foto de capa, linda, foi feito pelo nosso repórter fotográfico Carlos Ivan. Vale a pena revisitar alguns desses dados, e fazer uma análise comparativa com o momento que estamos vivendo hoje. Sempre com a ideia de refletir sobre o que estamos falando, de verdade, em um momento em que a sustentabilidade vai voltar aos holofotes com a COP30, em Belém.

A população do Brasil em 2011 era de 195.3 milhões de pessoas e em 2024 éramos 212 milhões.

Em 2010, segundo a Anatel, os brasileiros compraram 29 milhões de celulares. Em 2024, segundo dados da Consultoria IDC, foram 40 milhões de celulares adquiridos.

Em 2011 o e-commerce (comércio digital) não era ainda muito relevante, já que a prática de fazer compras pelo celular ou computador ganhou espaço por conta da pandemia. Segundo o site Agora Deu Lucro, o Brasil é o décimo país que mais faz compras via internet do mundo. E o maior da América Latina. A média, até agora, é de 94 milhões de compradores.

Quando a reportagem foi publicada, a Política Nacional de Resíduos Sólidos tinha acabado de ser regulamentada (2010). Na época, os brasileiros geravam 170 mil toneladas de resíduos por dia, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Esta associação se juntou a outras e se tornou a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), que lançou um relatório no ano passado, onde consta que cada brasileiro gerou, em média, 1,47 kg de resíduos urbanos por dia em 2023.

Quanto ao lixo eletrônico, ou seja, aparelhos de televisão, dvds, notebooks, câmeras e outros itens que passaram a fazer parte de nossas vidas neste século, a ONU  aponta que o Brasil é o maior produtor desse tipo de resíduo na América Latina, gerando 2,4 bilhões de quilos anuais. No mundo, em 2010, segundo a ONU foram gerados 34 bilhões de quilos de resíduos eletrônicos. Em 2022, este número chegou a 62 bilhões de quilos. Não é pouca coisa.

Como era de praxe em nossas reportagens, ouvimos uma pessoa para debater sobre o tema. Maria Cecília Prattes, economista e doutora em administração, foi certeira. Comentou sobre os hábitos de consumo, e apresentou algumas soluções para o imbróglio que tanto nos preocupa: baixar o consumo vai reduzir também a empregabilidade?

Prattes apontou algumas soluções para gerar empregos, investindo em áreas cruciais para a população, como saúde, educação, turismo, hotelaria, restaurantes.

“A indústria não pode ser a única fonte de empregos”, vaticinou a pesquisadora em 2011.

E assim termino esse texto. Graças a um belo par de sapatos recuperado, pude fazer contato com informações e reflexões que enriqueceram meu dia. E, o que é melhor, compartilhar com vocês.

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A força que nos traz as coisas belas

Ganhei este pé de Manacá de um porteiro vizinho há cerca de três, quatro anos.

Cuidei bem dele. Comprei um vaso grande, pus manta, terra boa.

De vez em quando ele flora, mas só um pouquinho. Passo pelos outros pés de manacá que tem aqui no entorno e fico bolada. Mas, tudo certo, direito dele não querer florir tanto.

Até que um dia um jardineiro que cuida do jardim decidiu podar meu pé de manacá. Ele estava grande, de fato, e meio desconjuntado, de fato. E continuava sem florir. Mas eu gostava dele assim mesmo. Podado, foi controlado. Submetido às regras de nossa estética. ‘Planta é bonita e deve enfeitar o ambiente, por isso precisamos dar um jeitinho sempre”. Ora bolas, eu acho planta bonita de qualquer jeito. Para falar a verdade, nem gosto muito dessa nova onda, de amarrar orquídeas em troncos de árvore. Mas, enfim….

Vida que segue.

Fato é que o manacá não gostou nada de ser podado. E começou a minguar, a minguar. Além de não florir, ele minguou. Comprei uma vitamina natural, passava diariamente para conversar um pouco com ele. E nada. Ele continuava minguando.

Há cerca de dois meses, eu achei que estava morto. Muito triste, diariamente o visitava, mas os galhos quase inteiramente secos só me desanimavam. Nada a fazer, pensava eu.

Até que ontem, alvíssaras!!! Um dia antes de entrar setembro, comecei a ver pequenos brotinhos da planta. Hoje tirei fotos, e corri aqui para compartilhar. Feliz da vida. E fui à estante reler um pouco de “Nação das plantas”, escrito pelo italiano Stefano Mancuso, uma autoridade mundial e neurobiologia vegetal.

Mancuso faz uma espécie de Constituição dos seres da flora, o que chama de “Carta dos Direitos das Plantas”, com oito artigos. O primeiro deles, que dialoga especificamente com o tempo que estamos vivendo no país, é:

“A Terra é casa comum da vida.

A soberania pertence a cada um dos seres vivos”

Soberanamente, meu pé de manacá decidiu que vai florir sempre quando desejar. E me mostrou, claramente, que não quer intervenção em seu processo de crescimento. Muito bem. E eu ouvi. Assim vamos seguir, respeitando mutuamente um ao outro.

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Quem vai colar os caquinhos?

Orieta e seu trio no Esperança Eco em Laranjeiras

Antes que as imagens e histórias das redes sociais me capturem, quero dividir com vocês momentos sensíveis que vivi ontem, tarde de sabadão, um tempo que fiquei – como dizer, para vocês se lembrarem? – vivendo, sentindo, me deslocando.. longe do celular. Lembram-se como era?

Começou em Botafogo, no Cinearte de Viver, que meu filho Pablo organiza na Casa Anthropos, uma das sedes do Instituto Anthropos de Psicomotricidade. O filme da vez – é sempre um por mês – foi “Anselm”, de Win Wenders. A proposta de assistir ao filme e depois debater o tema em roda de conversa é muito boa. Porque não se sai matutando sozinha ou em par.  O encontro faz com que os pensamentos fluam, se distanciem, se aproximem, e vira uma grande troca, não um debate. Como diria Hannah Arendt, debates cerceam o pensamento, o bom é ampliá-los.

“Anselm Kiefer”, o artista muito bem documentado por Wenders, transformou a tristeza e os horrores da guerra em arte. O filme é sensível, bonito, retratando o sofrimento dos judeus na época do nazismo.

Na época do nazismo? Na época da guerra? E não estamos nesta época? Não vivemos eternamente numa época de guerra? Israel hoje impõe aos palestinos um sofrimento que, se difere do passado, é porque podemos assisti-lo ao vivo e em cores. Outro povo em sofrimento hoje é o da Ucrânia. Quantos horrores, quando dinheiro gasto para matar pessoas, quantos patifes crueis que se tomam por líderes. Acaso isto é novo?

Que se consiga transformar este horror em arte. Criar é o que vai poder nos salvar no cotidiano, espanando o que “está dado”, fazendo contato com o entorno, com o que está próximo. Pintando, bordando, cantando…

E por falar em cantar. Vinha eu alimentada com esses pensamentos a me embalar o caminho de volta para casa, eu e Beto, meu shih tzu, quando fui arrebatada por uma música deliciosamente cantada. Aqui mesmo, quase na esquina, no Esperança Eco, um dos restaurantes charmosos que floreiam nosso entorno, a cantora uruguaia Orieta e seu trio coloriam a noite.

E o cenário mudou completamente. Já era eu, a dançante, adorando ouvir os acordes românticos de Orieta, muito bem acompanhada pelos seus músicos. E Orieta dança, se move, chama as pessoas para curtirem a música. Eu e Beto nos metemos. Comprei uma cerveja, estava gelada e desceu muito bem, ajudando a tornar meus movimentos mais elásticos, a fazer fluir ainda mais meus pensamentos.

E Orieta cantou “Bella Ciao”, com toda a seriedade que a canção merece. Originalmente, foi uma música cantada pelas trabalhadoras rurais quando seguiam para o campo na Itália, muito peso e dor. Na Primeira Grande Guerra, virou canção de protesto, e assim seguiu, como símbolo da resistência italiana contra o fascismo na Segunda Guerra.

Mas ali, na esquina iluminadinha do meu bairro, cercada por pessoas alegres, o canto evocava o momento que estamos vivendo. E foi muito bem-vindo, aplaudido e dançado. Por todos nós.

Foram poucos minutos, porque Veronica, a dona do Esperança, faz questão de terminar cedinho a música, a fim de não incomodar a vizinhança que, legitimamente, quer descansar. Mas eu curti cada minuto. Segui caminho de volta, caminhando com Beto e ainda dançando um pouco pela rua. Estava solta, nutrida com arte.

E, bem de levinho, engatei mentalmente outra canção, talvez dedicada a engravatado(a)s que rendem louvor ao deus mercado e que hoje estão começando a ter que prestar contas à Justiça no Brasil. “Quem vai colar os tais caquinhos?” (música “Pra começar”, de Marina e Antônio Cícero).

Foi um bom sábado.

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Quando a ação pelo clima envolve e engaja pessoas

A foto foi tirada por mim em 2014, quando estive em viagem ao Arquipélago do Bailique, na Foz do Amazonas

Aqui, ali, acolá, pelas calçadas do bairro, ainda ouço a repercussão da reunião que coroou o lançamento do meu livro “Ser Sustentável” (veja no post anterior). Foi bom porque uniu as pessoas, me dizem, em torno de um tema que a todos afeta. Cada dia mais e mais se preocupam com as mudanças climáticas e se informam sobre suas causas e consequências.

Prova disso é o monitoramento de dados nas redes  feito pela empresa Quaest, de inteligência de dados, tendo como mote a Lei Geral de Licenciamento Ambiental que foi sancionada no dia 8 de agosto com 63 vetos do presidente Lula. Minha amiga e jornalista Lucila Soares, que esteve na reunião do meu livro, mandou-me a dica, comemorando a repercussão: “As pessoas estão mais atentas ao tema”, disse-me.

Foram 84 mil pessoas que, segundo os dados levantados pela Quaest, fizeram menção ao tema nas redes no período em que o PL da Devastação, como é conhecido (e eu aprovo) esteve em tramitação entre o Senado e a Câmara dos Deputados. À medida que o debate ganhava as redes, o engajamento ia avançando.  O alcance médio diário foi de 58 milhões de pessoas.

As redes sociais são boas para juntar esses movimentos, agregar opiniões. Só não são boas para o contato que se quer e se precisa na hora de efetivar ações. De qualquer maneira… sim, há um número maior de interessados. Eu comemoro também.

Mas é claro que nem todas as opiniões apuradas pela equipe de pesquisadores eram críticas ao projeto de lei que, resumindo, entrega a chave do galinheiro para as raposas. É o que poderá acontecer caso avance o que querem os que protegem o PL: favorecer apenas o desenvolvimento. Os que o defendem – na marca de 12% – acham que o PL destrava a burocracia, um jeito meio hipócrita de dizer que elimina as “travas” que protegem o meio ambiente. Ora, já não aprendemos bastante com a quantidade de mortes por eventos extremos causados pelas mudanças do clima?

Temo que me tomem por decrescimentista. Nada disso. Apoio muito tudo o que já fizemos e que colaborou para o desenvolvimento humano. Para ficar apenas nas necessidades, é só pensar, por exemplo, no tanto que se morria de febres e infecções antes do antibiótico. Ou em como se consegue, hoje, armazenar produtos que nos alimentam. O problema é que perdemos a mão, sobretudo quando entramos na seara das comodidades.

Vou deixar que fale por mim um de muitos autores cujas teorias eu prezo. Trata-se de  E.F. Schumacher, pensador e economista britânico que escreveu “O negócio é ser pequeno” – aqui editado pela Zahar, – livro que mexeu com as convicções nos anos 1970 e que traz no subtítulo o famoso dedo na ferida: “Um estudo de Economia que leva em conta as pessoas”. Infelizmente, o professor Schumacher faleceu de ataque cardíaco em 1977, aos 66 anos, e por isso não deu continuidade aos seus estudos. Mas, globalmente, o pensamento dele foi expandido e se proliferou.

Basicamente, Schumacher chama atenção, em 1972 – ano de publicação de seu livro – para um fato ainda muito pouco consciente à época: não resolvemos o problema de produção, mas ampliamos o impacto ao capital natural, que erroneamente tratamos como se fosse rendimento. Escreve  ele:

“Cumpre-nos entender perfeitamente o problema e começar a ver a possibilidade de criar um novo estilo de vida, dotado de novos métodos de produção e novos padrões de consumo; um estilo de vida planejado para ser permanente. Um homem de negócios não consideraria que uma firma resolveu seus problemas de produção e se tornou viável se a visse rapidamente consumindo seu capital.”

Mas não ficou só na teoria. Na prática, Schumacher dá três soluções: na agricultura, incrementar a fertilidade do solo; na indústria, investir em tecnologia em pequena escala, baseada no que chamou de “fisionomia humana para que as pessoas tenham prazer no trabalho que realizam em vez de trabalharem exclusivamente pelo salário”. Por último, Schumacher sugere implementar parcerias, também na indústria, entre administração e empregados, em alguma forma de propriedade comunal.

O livro de Schumacher é de uma beleza e sensibilidade abissais. Ao lê-lo, fica-se com aquela estranha sensação de que perdemos muito ao qualificar como platitudes mensagens tão sérias.

É mais ou menos o que pensei hoje, quando acabei  de ler a quinta carta do presidente da COP30, André Corrêa do Lago. De forma legítima, meus parceiros de profissão estão buscando denúncias, apontando falhas, prevendo a continuidade de uma retórica inútil ao fim da Conferência das Partes sobre o Clima que vai acontecer, pela primeira vez, no Brasil. Eu, porém, embora de acordo com todas as questões, prefiro acompanhar com lupa as cartas do presidente. Textos que muitos podem ter como banais, contemplativos, mas que trazem mensagens que seria muito bom atentarmos.

Corrêa do Lago dialoga bastante com os pensamentos de Schumacher. Mas também encosta nas teorias de Donna Haraway, Kohei Saito, Anna Tsing, para citar apenas alguns dos autores da atualidade que prescrevem uma revisão de modelo para garantirmos o mínimo de dignidade à vida, com foco, sobretudo, naqueles que estão no pé da pirâmide social.

Diz Corrêa do Lago:

“Esta é uma carta para as pessoas – para experiências vividas, agência e liderança das pessoas na linha de frente da mudança do clima, especialmente aquelas em situações de vulnerabilidade. Não são vítimas passivas da mudança do clima, mas líderes vivos do cuidado, da resiliência e da regeneração. Seu papel de guardiãs da terra, da cultura, do conhecimento e da solidariedade não é um legado do passado, mas um exemplo de formas de relação mais harmônicas com a Natureza como modelo para um futuro comum.”

Com legitimidade, os indígenas tomaram para si a mensagem, já que são os guardiães das florestas. E, para romper de vez com o tecnicismo, que afasta mesmo, até com expressões, cálculos e metas, a adesão popular contra os flagelos provocados pelas mudanças do clima, Corrêa do Lago se apressa em digitar palavras humanas em sua missiva:

“Por tempo demais a ação climática foi enquadrada como uma questão tecnológica, de métricas e cronogramas. Mas, em sua essência, é uma história sobre quem somos, o que lembramos, como cuidamos e o que queremos preservar e criar. Precisamos resgatar a ação climática como um ato humano, como um ato de profunda responsabilidade, reciprocidade e solidariedade”.

E assim termino. Não há o que fazer para trazer ao diálogo aqueles que pensam que estou descrevendo platitudes. Mas, cá no íntimo, penso que mensagens assim podem contribuir para aumentar o tal engajamento nas redes, descoberta dos pesquisadores da Quaest.

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‘Ser Sustentável’ furou a bolha e promoveu um encontro cheio de afeto e bons pensamentos

Sabem o que foi melhor na roda de conversa que marcou o lançamento do meu livro – “Ser Sustentável”, editado pela Pirilampo?

Tudo.

Sério, não consigo elencar um melhor momento. E já me explico.

Começou com uma fala generosa da amiga Samyra Crespo, ambientalista de longas décadas, ex secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira (2002). Ela tinha me pedido uns highlights sobre mim. Mandei-lhe algumas dicas, que ela transformou numa biografia linda.

E Samyra olhou em volta e se apresentou.

Lembrei-me dos tantos encontros, seminários, conferências, dos quais participamos, onde Samira não precisava se apresentar. Todos nos conhecíamos. Mas ali, naquele pequeno e acolhedor espaço da Casa 11 (livraria que abraçou o projeto), porém, eram outros olhares atentos, de pessoas que não necessariamente estão envolvidas com o tema da sustentabilidade, Portanto, estávamos furando uma bolha! (Para usar a linguagem do momento).

E toca de chegar gente.

Eu, que tinha o maior medo de não ir ninguém, já começava a me preocupar porque o espaço não seria suficiente. Vejam só!

Aqui, vale uma explicação. Quando me formei, e logo depois comecei a trabalhar com jornalismo, eram poucos os colegas que assinavam suas reportagens. Só os especiais. Passado um tempo (ok, um longo tempo), chega-se ao momento presente, quando as reportagens, muitas vezes, só são lidas a depender de quem as escreve.

Não estou fazendo uma crítica, só revelando a mudança. E pontuo a mudança também para dizer que não fui acostumada a estar à frente das câmeras. Com meu caderninho de notas, minha caneta e curiosidade, colho as informações e as transformo em notícias. Hoje, já é diferente. Preciso da audiência, quero me firmar como uma pessoa que consegue fazer isso e mais: juntar as informações com a leitura de alguns autores e costurar uma análise.

Voltando à tarde/noite do lançamento, eis-me ali, toda prosa porque sentia, em cada olhar, o interesse pelas informações que eu espalhava. Dizem que Baruch Spinoza, o filósofo do século XVII, afirmava que conhecimento é o único bem que se pode transmitir sem perder. Não é?

E, claro, quanto mais pimpona eu me sentia, mais vontade de contar minhas histórias eu tinha. E falava, falava, falava. Havia vizinhos à minha volta, pessoas com quem esbarro diariamente nessa taba que é meu bairro. E amigos jornalistas, com quem dividi muitos espaços de trabalho. Aquilo tudo ia me deixando quase tonta de tanta alegria. Senti calor, pedi à Ana, uma das sócias da Casa 11, para ligar o ar condicionado. Fazia frio lá fora, mas ali dentro havia calor humano. Que delícia.

Emanuel Alencar, outro jornalista, agora também um militante das causas ambientais, lançou-me uma provocação. “Por que Ser Sustentável, se a sustentabilidade virou uma palavra quase vulgar?”. Ele tem toda razão! Vulgarizaram o sentido da palavra. Foi uma deixa para eu contar mais uma história: quando eu era editora do caderno Razão Social, talvez o primeiro sobre o tema a sair como suplemento em um grande veículo – o jornal O Globo – a palavra sustentabilidade não cabia em título. Uma vez levei uma bronca do profissional que desenha as páginas dos jornais – na época se chamava diagramador, hoje é designer – que me disse: “Amelia, se você escrever sustentabilidade no título ninguém vai querer ler a matéria. Ninguém sabe o que é isso!”.

Pois é. Duas décadas depois, e cá estamos debatendo sobre a vulgaridade do termo. O tempo passa rápido demais, e tem carregado com ele, como ondas de tsunami, nossa capacidade de fazer hiato. De pensar antes de responder, de sentir o entorno, as nuances.

“Quando pensei no nome Ser Sustentável eu quis contrapor, em parte, ao nome ‘Razão’. Hoje sou mais uma pessoa que aposta nos sentidos. Quero Ser, muito mais do que Ter coisas”.

Foi assim que respondi.

E não é que a minha resposta ficou reverberando em Ana Maria, a vizinha bacana, fonoaudióloga das boas? No dia seguinte ela me ligou logo pela manhã, dizendo que não parava de pensar sobre tudo o que foi dito e conversado. E quer abrir grupos para conversar mais sobre Ser e Ter.

Adivinhem se eu não estou até agora pulando de alegria?

Mas teve momentos também de defender a COP30. Ora bolas, se as COPs têm sido espaços onde imperam a retórica inútil, sem resultados práticos para quem sofre com os eventos extremos causados pelas mudanças do clima, não será justamente quando ela acontece no Brasil que vai merecer tantas críticas. Ah, não! Mesmo que sejam críticas embasadas, como faz o professor José Eli da Veiga em suas colunas no jornal “Valor Econômico”.

Também acho que o modelo encontrado pelas Nações Unidas há 30 anos para pôr em debate as mudanças do clima precisa ser revisto. Mas vamos começar a fazer isso no ano que vem, combinado?

E, por favor, chega dessa conversa fiada sobre falta de alojamentos em Belém, cidade que está sendo preparada para abrigar a COP. Muitas comitivas querem um quarto para cada negociador! Por mais que estejam levando, ás vezes, um número muito superior ao necessário para os trabalhos. Ninguém pode dividir quarto?

Nessa hora, a competente jornalista, amiga de sempre, Denise Assis, lembrou-se de uma entrevista que fizera para o site Brasil 247, do qual é colunista. Ela convidou Valter Correia,  secretário extraordinário da COP-30, que afirmou apostar no sucesso do evento e garantiu que as obras estão em andamento. Tudo certo, portanto.

Fico pensando se a atitude dos negociadores já não explica parte do imbróglio que estamos vivendo.

Nessa esteira do pensamento, lembrei-me do Papa Francisco e sua encíclica Laudato Si, lançada em 2015. Com todas as letras, em 246 aforismos, o pontífice recomendou: “É preciso diminuir produção e consumo”.

E teve também o momento quase tenso, em que se falou sobre responsabilidades. Ou respons-habilidades, como prefere uma das minhas autoras preferidas da atualidade, a Donna Haraway, que escreveu “Ficar com o problema”. A amiga jornalista Olga de Mello – que graciosamente fez a primeira revisão do meu livro, embora por uma trágica distração seu nome não tenha constado do expediente –  lembrou bem que, embora seja uma pessoa ligada às questões climáticas e uma cidadã consciente a ponto de diminuir seu tempo de banho, tem críticas quanto ao abuso dos recursos naturais por parte da indústria.

Lembra Donna Haraway, corroborando o que disse Olga de Mello, que “precisamos uns dos outros em colaborações e combinações inesperadas, e amontoados quentes de composto”. Um jeito um pouco rebuscado de dizer que todo mundo precisa entrar na grande concertação mundial convocada por Papa Francisco: precisamos baixar produção e consumo. Globalmente.

Pode ser ruim para a economia mundial? Pode. Merece, portanto, mais conversa e mais especialistas que ofereçam modelos melhores.

Já caminhando para o final por conta da hora, eu sentia ainda o pulsar da curiosidade em cada um dos que ali estavam. Mas aprendi que a gente precisa guardar um pouco o gostinho de quero mais. E, tentando não ser imperativa – não, principalmente nesses tempos de imperadores patifes e fascínoras! – declarei:

“Hora de brindarmos com um vinhozinho branco que eu trouxe!”

Eu não bebo mais vinho porque essa bebida anda me afastando da alegria e do vigor, por menos que eu a consuma. Mas gostei de ver as pequenas taças com um tanto da bebida dos deuses, consagrando nosso momento tão mágico. E depois, é claro, teve a saideira no Esperança Eco, restaurante simpático aqui das vizinhanças que tem um samba excelente às sextas-feiras. Nossa resistência que acabou em arte, em música. Foi bom demais.

Quero de novo! E de novo, e de novo. Agora me empolguei de verdade.

Quem quiser adquirir o livro, é só ir ao site da Editora Pirilampo, do também generoso amigo e vizinho José Mario Carvão, sem o qual não seria possível editar o livro. Ele se empenhou de todas as formas, com oficinas e diagramadores, fez o desenho da capa, e voilá! Ei-lo: https://www.editorapirilampo.com.br/produtos/ser-sustentavel-amelia-gonzalez/?srsltid=AfmBOoq3hMuceZWRGs8oowJi7dKj_0bTV4pl7c724IkjRT1_jrOQMCn-

Até nosso próximo encontro! Fiquem com as fotos, tiradas pelo amigo Custodio Coimbra. Os arquivos de outras fotos lindas tiradas pelo vizinho e amigo Jomar Carvalho Filho não couberam aqui, mas estou resolvendo isto. As fotos mostram um pouco o ambiente aconchegante que descrevi aqui.

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