A força que nos traz as coisas belas

Ganhei este pé de Manacá de um porteiro vizinho há cerca de três, quatro anos.

Cuidei bem dele. Comprei um vaso grande, pus manta, terra boa.

De vez em quando ele flora, mas só um pouquinho. Passo pelos outros pés de manacá que tem aqui no entorno e fico bolada. Mas, tudo certo, direito dele não querer florir tanto.

Até que um dia um jardineiro que cuida do jardim decidiu podar meu pé de manacá. Ele estava grande, de fato, e meio desconjuntado, de fato. E continuava sem florir. Mas eu gostava dele assim mesmo. Podado, foi controlado. Submetido às regras de nossa estética. ‘Planta é bonita e deve enfeitar o ambiente, por isso precisamos dar um jeitinho sempre”. Ora bolas, eu acho planta bonita de qualquer jeito. Para falar a verdade, nem gosto muito dessa nova onda, de amarrar orquídeas em troncos de árvore. Mas, enfim….

Vida que segue.

Fato é que o manacá não gostou nada de ser podado. E começou a minguar, a minguar. Além de não florir, ele minguou. Comprei uma vitamina natural, passava diariamente para conversar um pouco com ele. E nada. Ele continuava minguando.

Há cerca de dois meses, eu achei que estava morto. Muito triste, diariamente o visitava, mas os galhos quase inteiramente secos só me desanimavam. Nada a fazer, pensava eu.

Até que ontem, alvíssaras!!! Um dia antes de entrar setembro, comecei a ver pequenos brotinhos da planta. Hoje tirei fotos, e corri aqui para compartilhar. Feliz da vida. E fui à estante reler um pouco de “Nação das plantas”, escrito pelo italiano Stefano Mancuso, uma autoridade mundial e neurobiologia vegetal.

Mancuso faz uma espécie de Constituição dos seres da flora, o que chama de “Carta dos Direitos das Plantas”, com oito artigos. O primeiro deles, que dialoga especificamente com o tempo que estamos vivendo no país, é:

“A Terra é casa comum da vida.

A soberania pertence a cada um dos seres vivos”

Soberanamente, meu pé de manacá decidiu que vai florir sempre quando desejar. E me mostrou, claramente, que não quer intervenção em seu processo de crescimento. Muito bem. E eu ouvi. Assim vamos seguir, respeitando mutuamente um ao outro.

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Quem vai colar os caquinhos?

Orieta e seu trio no Esperança Eco em Laranjeiras

Antes que as imagens e histórias das redes sociais me capturem, quero dividir com vocês momentos sensíveis que vivi ontem, tarde de sabadão, um tempo que fiquei – como dizer, para vocês se lembrarem? – vivendo, sentindo, me deslocando.. longe do celular. Lembram-se como era?

Começou em Botafogo, no Cinearte de Viver, que meu filho Pablo organiza na Casa Anthropos, uma das sedes do Instituto Anthropos de Psicomotricidade. O filme da vez – é sempre um por mês – foi “Anselm”, de Win Wenders. A proposta de assistir ao filme e depois debater o tema em roda de conversa é muito boa. Porque não se sai matutando sozinha ou em par.  O encontro faz com que os pensamentos fluam, se distanciem, se aproximem, e vira uma grande troca, não um debate. Como diria Hannah Arendt, debates cerceam o pensamento, o bom é ampliá-los.

“Anselm Kiefer”, o artista muito bem documentado por Wenders, transformou a tristeza e os horrores da guerra em arte. O filme é sensível, bonito, retratando o sofrimento dos judeus na época do nazismo.

Na época do nazismo? Na época da guerra? E não estamos nesta época? Não vivemos eternamente numa época de guerra? Israel hoje impõe aos palestinos um sofrimento que, se difere do passado, é porque podemos assisti-lo ao vivo e em cores. Outro povo em sofrimento hoje é o da Ucrânia. Quantos horrores, quando dinheiro gasto para matar pessoas, quantos patifes crueis que se tomam por líderes. Acaso isto é novo?

Que se consiga transformar este horror em arte. Criar é o que vai poder nos salvar no cotidiano, espanando o que “está dado”, fazendo contato com o entorno, com o que está próximo. Pintando, bordando, cantando…

E por falar em cantar. Vinha eu alimentada com esses pensamentos a me embalar o caminho de volta para casa, eu e Beto, meu shih tzu, quando fui arrebatada por uma música deliciosamente cantada. Aqui mesmo, quase na esquina, no Esperança Eco, um dos restaurantes charmosos que floreiam nosso entorno, a cantora uruguaia Orieta e seu trio coloriam a noite.

E o cenário mudou completamente. Já era eu, a dançante, adorando ouvir os acordes românticos de Orieta, muito bem acompanhada pelos seus músicos. E Orieta dança, se move, chama as pessoas para curtirem a música. Eu e Beto nos metemos. Comprei uma cerveja, estava gelada e desceu muito bem, ajudando a tornar meus movimentos mais elásticos, a fazer fluir ainda mais meus pensamentos.

E Orieta cantou “Bella Ciao”, com toda a seriedade que a canção merece. Originalmente, foi uma música cantada pelas trabalhadoras rurais quando seguiam para o campo na Itália, muito peso e dor. Na Primeira Grande Guerra, virou canção de protesto, e assim seguiu, como símbolo da resistência italiana contra o fascismo na Segunda Guerra.

Mas ali, na esquina iluminadinha do meu bairro, cercada por pessoas alegres, o canto evocava o momento que estamos vivendo. E foi muito bem-vindo, aplaudido e dançado. Por todos nós.

Foram poucos minutos, porque Veronica, a dona do Esperança, faz questão de terminar cedinho a música, a fim de não incomodar a vizinhança que, legitimamente, quer descansar. Mas eu curti cada minuto. Segui caminho de volta, caminhando com Beto e ainda dançando um pouco pela rua. Estava solta, nutrida com arte.

E, bem de levinho, engatei mentalmente outra canção, talvez dedicada a engravatado(a)s que rendem louvor ao deus mercado e que hoje estão começando a ter que prestar contas à Justiça no Brasil. “Quem vai colar os tais caquinhos?” (música “Pra começar”, de Marina e Antônio Cícero).

Foi um bom sábado.

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Quando a ação pelo clima envolve e engaja pessoas

A foto foi tirada por mim em 2014, quando estive em viagem ao Arquipélago do Bailique, na Foz do Amazonas

Aqui, ali, acolá, pelas calçadas do bairro, ainda ouço a repercussão da reunião que coroou o lançamento do meu livro “Ser Sustentável” (veja no post anterior). Foi bom porque uniu as pessoas, me dizem, em torno de um tema que a todos afeta. Cada dia mais e mais se preocupam com as mudanças climáticas e se informam sobre suas causas e consequências.

Prova disso é o monitoramento de dados nas redes  feito pela empresa Quaest, de inteligência de dados, tendo como mote a Lei Geral de Licenciamento Ambiental que foi sancionada no dia 8 de agosto com 63 vetos do presidente Lula. Minha amiga e jornalista Lucila Soares, que esteve na reunião do meu livro, mandou-me a dica, comemorando a repercussão: “As pessoas estão mais atentas ao tema”, disse-me.

Foram 84 mil pessoas que, segundo os dados levantados pela Quaest, fizeram menção ao tema nas redes no período em que o PL da Devastação, como é conhecido (e eu aprovo) esteve em tramitação entre o Senado e a Câmara dos Deputados. À medida que o debate ganhava as redes, o engajamento ia avançando.  O alcance médio diário foi de 58 milhões de pessoas.

As redes sociais são boas para juntar esses movimentos, agregar opiniões. Só não são boas para o contato que se quer e se precisa na hora de efetivar ações. De qualquer maneira… sim, há um número maior de interessados. Eu comemoro também.

Mas é claro que nem todas as opiniões apuradas pela equipe de pesquisadores eram críticas ao projeto de lei que, resumindo, entrega a chave do galinheiro para as raposas. É o que poderá acontecer caso avance o que querem os que protegem o PL: favorecer apenas o desenvolvimento. Os que o defendem – na marca de 12% – acham que o PL destrava a burocracia, um jeito meio hipócrita de dizer que elimina as “travas” que protegem o meio ambiente. Ora, já não aprendemos bastante com a quantidade de mortes por eventos extremos causados pelas mudanças do clima?

Temo que me tomem por decrescimentista. Nada disso. Apoio muito tudo o que já fizemos e que colaborou para o desenvolvimento humano. Para ficar apenas nas necessidades, é só pensar, por exemplo, no tanto que se morria de febres e infecções antes do antibiótico. Ou em como se consegue, hoje, armazenar produtos que nos alimentam. O problema é que perdemos a mão, sobretudo quando entramos na seara das comodidades.

Vou deixar que fale por mim um de muitos autores cujas teorias eu prezo. Trata-se de  E.F. Schumacher, pensador e economista britânico que escreveu “O negócio é ser pequeno” – aqui editado pela Zahar, – livro que mexeu com as convicções nos anos 1970 e que traz no subtítulo o famoso dedo na ferida: “Um estudo de Economia que leva em conta as pessoas”. Infelizmente, o professor Schumacher faleceu de ataque cardíaco em 1977, aos 66 anos, e por isso não deu continuidade aos seus estudos. Mas, globalmente, o pensamento dele foi expandido e se proliferou.

Basicamente, Schumacher chama atenção, em 1972 – ano de publicação de seu livro – para um fato ainda muito pouco consciente à época: não resolvemos o problema de produção, mas ampliamos o impacto ao capital natural, que erroneamente tratamos como se fosse rendimento. Escreve  ele:

“Cumpre-nos entender perfeitamente o problema e começar a ver a possibilidade de criar um novo estilo de vida, dotado de novos métodos de produção e novos padrões de consumo; um estilo de vida planejado para ser permanente. Um homem de negócios não consideraria que uma firma resolveu seus problemas de produção e se tornou viável se a visse rapidamente consumindo seu capital.”

Mas não ficou só na teoria. Na prática, Schumacher dá três soluções: na agricultura, incrementar a fertilidade do solo; na indústria, investir em tecnologia em pequena escala, baseada no que chamou de “fisionomia humana para que as pessoas tenham prazer no trabalho que realizam em vez de trabalharem exclusivamente pelo salário”. Por último, Schumacher sugere implementar parcerias, também na indústria, entre administração e empregados, em alguma forma de propriedade comunal.

O livro de Schumacher é de uma beleza e sensibilidade abissais. Ao lê-lo, fica-se com aquela estranha sensação de que perdemos muito ao qualificar como platitudes mensagens tão sérias.

É mais ou menos o que pensei hoje, quando acabei  de ler a quinta carta do presidente da COP30, André Corrêa do Lago. De forma legítima, meus parceiros de profissão estão buscando denúncias, apontando falhas, prevendo a continuidade de uma retórica inútil ao fim da Conferência das Partes sobre o Clima que vai acontecer, pela primeira vez, no Brasil. Eu, porém, embora de acordo com todas as questões, prefiro acompanhar com lupa as cartas do presidente. Textos que muitos podem ter como banais, contemplativos, mas que trazem mensagens que seria muito bom atentarmos.

Corrêa do Lago dialoga bastante com os pensamentos de Schumacher. Mas também encosta nas teorias de Donna Haraway, Kohei Saito, Anna Tsing, para citar apenas alguns dos autores da atualidade que prescrevem uma revisão de modelo para garantirmos o mínimo de dignidade à vida, com foco, sobretudo, naqueles que estão no pé da pirâmide social.

Diz Corrêa do Lago:

“Esta é uma carta para as pessoas – para experiências vividas, agência e liderança das pessoas na linha de frente da mudança do clima, especialmente aquelas em situações de vulnerabilidade. Não são vítimas passivas da mudança do clima, mas líderes vivos do cuidado, da resiliência e da regeneração. Seu papel de guardiãs da terra, da cultura, do conhecimento e da solidariedade não é um legado do passado, mas um exemplo de formas de relação mais harmônicas com a Natureza como modelo para um futuro comum.”

Com legitimidade, os indígenas tomaram para si a mensagem, já que são os guardiães das florestas. E, para romper de vez com o tecnicismo, que afasta mesmo, até com expressões, cálculos e metas, a adesão popular contra os flagelos provocados pelas mudanças do clima, Corrêa do Lago se apressa em digitar palavras humanas em sua missiva:

“Por tempo demais a ação climática foi enquadrada como uma questão tecnológica, de métricas e cronogramas. Mas, em sua essência, é uma história sobre quem somos, o que lembramos, como cuidamos e o que queremos preservar e criar. Precisamos resgatar a ação climática como um ato humano, como um ato de profunda responsabilidade, reciprocidade e solidariedade”.

E assim termino. Não há o que fazer para trazer ao diálogo aqueles que pensam que estou descrevendo platitudes. Mas, cá no íntimo, penso que mensagens assim podem contribuir para aumentar o tal engajamento nas redes, descoberta dos pesquisadores da Quaest.

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‘Ser Sustentável’ furou a bolha e promoveu um encontro cheio de afeto e bons pensamentos

Sabem o que foi melhor na roda de conversa que marcou o lançamento do meu livro – “Ser Sustentável”, editado pela Pirilampo?

Tudo.

Sério, não consigo elencar um melhor momento. E já me explico.

Começou com uma fala generosa da amiga Samyra Crespo, ambientalista de longas décadas, ex secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira (2002). Ela tinha me pedido uns highlights sobre mim. Mandei-lhe algumas dicas, que ela transformou numa biografia linda.

E Samyra olhou em volta e se apresentou.

Lembrei-me dos tantos encontros, seminários, conferências, dos quais participamos, onde Samira não precisava se apresentar. Todos nos conhecíamos. Mas ali, naquele pequeno e acolhedor espaço da Casa 11 (livraria que abraçou o projeto), porém, eram outros olhares atentos, de pessoas que não necessariamente estão envolvidas com o tema da sustentabilidade, Portanto, estávamos furando uma bolha! (Para usar a linguagem do momento).

E toca de chegar gente.

Eu, que tinha o maior medo de não ir ninguém, já começava a me preocupar porque o espaço não seria suficiente. Vejam só!

Aqui, vale uma explicação. Quando me formei, e logo depois comecei a trabalhar com jornalismo, eram poucos os colegas que assinavam suas reportagens. Só os especiais. Passado um tempo (ok, um longo tempo), chega-se ao momento presente, quando as reportagens, muitas vezes, só são lidas a depender de quem as escreve.

Não estou fazendo uma crítica, só revelando a mudança. E pontuo a mudança também para dizer que não fui acostumada a estar à frente das câmeras. Com meu caderninho de notas, minha caneta e curiosidade, colho as informações e as transformo em notícias. Hoje, já é diferente. Preciso da audiência, quero me firmar como uma pessoa que consegue fazer isso e mais: juntar as informações com a leitura de alguns autores e costurar uma análise.

Voltando à tarde/noite do lançamento, eis-me ali, toda prosa porque sentia, em cada olhar, o interesse pelas informações que eu espalhava. Dizem que Baruch Spinoza, o filósofo do século XVII, afirmava que conhecimento é o único bem que se pode transmitir sem perder. Não é?

E, claro, quanto mais pimpona eu me sentia, mais vontade de contar minhas histórias eu tinha. E falava, falava, falava. Havia vizinhos à minha volta, pessoas com quem esbarro diariamente nessa taba que é meu bairro. E amigos jornalistas, com quem dividi muitos espaços de trabalho. Aquilo tudo ia me deixando quase tonta de tanta alegria. Senti calor, pedi à Ana, uma das sócias da Casa 11, para ligar o ar condicionado. Fazia frio lá fora, mas ali dentro havia calor humano. Que delícia.

Emanuel Alencar, outro jornalista, agora também um militante das causas ambientais, lançou-me uma provocação. “Por que Ser Sustentável, se a sustentabilidade virou uma palavra quase vulgar?”. Ele tem toda razão! Vulgarizaram o sentido da palavra. Foi uma deixa para eu contar mais uma história: quando eu era editora do caderno Razão Social, talvez o primeiro sobre o tema a sair como suplemento em um grande veículo – o jornal O Globo – a palavra sustentabilidade não cabia em título. Uma vez levei uma bronca do profissional que desenha as páginas dos jornais – na época se chamava diagramador, hoje é designer – que me disse: “Amelia, se você escrever sustentabilidade no título ninguém vai querer ler a matéria. Ninguém sabe o que é isso!”.

Pois é. Duas décadas depois, e cá estamos debatendo sobre a vulgaridade do termo. O tempo passa rápido demais, e tem carregado com ele, como ondas de tsunami, nossa capacidade de fazer hiato. De pensar antes de responder, de sentir o entorno, as nuances.

“Quando pensei no nome Ser Sustentável eu quis contrapor, em parte, ao nome ‘Razão’. Hoje sou mais uma pessoa que aposta nos sentidos. Quero Ser, muito mais do que Ter coisas”.

Foi assim que respondi.

E não é que a minha resposta ficou reverberando em Ana Maria, a vizinha bacana, fonoaudióloga das boas? No dia seguinte ela me ligou logo pela manhã, dizendo que não parava de pensar sobre tudo o que foi dito e conversado. E quer abrir grupos para conversar mais sobre Ser e Ter.

Adivinhem se eu não estou até agora pulando de alegria?

Mas teve momentos também de defender a COP30. Ora bolas, se as COPs têm sido espaços onde imperam a retórica inútil, sem resultados práticos para quem sofre com os eventos extremos causados pelas mudanças do clima, não será justamente quando ela acontece no Brasil que vai merecer tantas críticas. Ah, não! Mesmo que sejam críticas embasadas, como faz o professor José Eli da Veiga em suas colunas no jornal “Valor Econômico”.

Também acho que o modelo encontrado pelas Nações Unidas há 30 anos para pôr em debate as mudanças do clima precisa ser revisto. Mas vamos começar a fazer isso no ano que vem, combinado?

E, por favor, chega dessa conversa fiada sobre falta de alojamentos em Belém, cidade que está sendo preparada para abrigar a COP. Muitas comitivas querem um quarto para cada negociador! Por mais que estejam levando, ás vezes, um número muito superior ao necessário para os trabalhos. Ninguém pode dividir quarto?

Nessa hora, a competente jornalista, amiga de sempre, Denise Assis, lembrou-se de uma entrevista que fizera para o site Brasil 247, do qual é colunista. Ela convidou Valter Correia,  secretário extraordinário da COP-30, que afirmou apostar no sucesso do evento e garantiu que as obras estão em andamento. Tudo certo, portanto.

Fico pensando se a atitude dos negociadores já não explica parte do imbróglio que estamos vivendo.

Nessa esteira do pensamento, lembrei-me do Papa Francisco e sua encíclica Laudato Si, lançada em 2015. Com todas as letras, em 246 aforismos, o pontífice recomendou: “É preciso diminuir produção e consumo”.

E teve também o momento quase tenso, em que se falou sobre responsabilidades. Ou respons-habilidades, como prefere uma das minhas autoras preferidas da atualidade, a Donna Haraway, que escreveu “Ficar com o problema”. A amiga jornalista Olga de Mello – que graciosamente fez a primeira revisão do meu livro, embora por uma trágica distração seu nome não tenha constado do expediente –  lembrou bem que, embora seja uma pessoa ligada às questões climáticas e uma cidadã consciente a ponto de diminuir seu tempo de banho, tem críticas quanto ao abuso dos recursos naturais por parte da indústria.

Lembra Donna Haraway, corroborando o que disse Olga de Mello, que “precisamos uns dos outros em colaborações e combinações inesperadas, e amontoados quentes de composto”. Um jeito um pouco rebuscado de dizer que todo mundo precisa entrar na grande concertação mundial convocada por Papa Francisco: precisamos baixar produção e consumo. Globalmente.

Pode ser ruim para a economia mundial? Pode. Merece, portanto, mais conversa e mais especialistas que ofereçam modelos melhores.

Já caminhando para o final por conta da hora, eu sentia ainda o pulsar da curiosidade em cada um dos que ali estavam. Mas aprendi que a gente precisa guardar um pouco o gostinho de quero mais. E, tentando não ser imperativa – não, principalmente nesses tempos de imperadores patifes e fascínoras! – declarei:

“Hora de brindarmos com um vinhozinho branco que eu trouxe!”

Eu não bebo mais vinho porque essa bebida anda me afastando da alegria e do vigor, por menos que eu a consuma. Mas gostei de ver as pequenas taças com um tanto da bebida dos deuses, consagrando nosso momento tão mágico. E depois, é claro, teve a saideira no Esperança Eco, restaurante simpático aqui das vizinhanças que tem um samba excelente às sextas-feiras. Nossa resistência que acabou em arte, em música. Foi bom demais.

Quero de novo! E de novo, e de novo. Agora me empolguei de verdade.

Quem quiser adquirir o livro, é só ir ao site da Editora Pirilampo, do também generoso amigo e vizinho José Mario Carvão, sem o qual não seria possível editar o livro. Ele se empenhou de todas as formas, com oficinas e diagramadores, fez o desenho da capa, e voilá! Ei-lo: https://www.editorapirilampo.com.br/produtos/ser-sustentavel-amelia-gonzalez/?srsltid=AfmBOoq3hMuceZWRGs8oowJi7dKj_0bTV4pl7c724IkjRT1_jrOQMCn-

Até nosso próximo encontro! Fiquem com as fotos, tiradas pelo amigo Custodio Coimbra. Os arquivos de outras fotos lindas tiradas pelo vizinho e amigo Jomar Carvalho Filho não couberam aqui, mas estou resolvendo isto. As fotos mostram um pouco o ambiente aconchegante que descrevi aqui.

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Ordem unida em torno dos vaga-lumes. Resistir é preciso

A foto é do biólogo Andre Alves e mostra um vaga-lume em todo o seu esplendor

“Amelia, você tem que entrar na campanha para salvar os vaga-lumes!”

Esses meus amigos são tudo de bom. Dão pitaco, sugerem pautas, e eu – sortuda que sou –  vou só aproveitando.

Mas hesitei diante da mensagem da amiga  sobre os vaga-lumes. Lembrei-me das convocações muito populares no fim dos anos 1990, como “salvem as baleias”, “salvem os micos leões dourados”, que escalaram para “vamos salvar o planeta”. Foram importantes naquela época, mas será que agora seriam, com tanta emergência e horrores vitimizando nossa própria espécie? Respondi rapidamente a mensagem, com um emoji sorridente, e fui para a rua,  andar para cima e para baixo, comprar isso e aquilo no supermercado.

Não tem coisa melhor, para mim, do que caminhar quando quero expandir meus pensamentos. Vou espalhando minhas ponderações pelo espaço, alcançando árvores, pássaros, cachorros, gatos, minhocas e pedras, seres viventes, humanos ou não. Sim, os vaga-lumes merecem todo o nosso apoio e empenho, mas…

“É um paradoxo!” Como tentar salvar insetos que não chegam a medir dois centímetros, em um mundo de tantos absurdos? No Oriente Médio, crianças e mulheres são alvos do sujeito que se julga dono da terra e quer eliminar todo um povo. Na Europa, outro conflito que submete pessoas a dias tensos, convivendo com a morte, a fome, a destruição total de casas, bairros inteiros. E o presidente do país mais rico do mundo se julga dono e senhor de todos os países, impondo sanções que vão provocar desempregos, mais fome e tensão. Um horror atrás do outro.

Mas… será mesmo inútil o esforço dos biólogos para mapearem as áreas de extinção, estudarem a fundo os hábitos desses bichinhos e tentarem, assim, salvá-los?

“É quase uma arte!”, pensei, enquanto pagava as compras no caixa do supermercado.  E arte é resistência!

Pronto. Estava ali a costura necessária para me convencer. Cheguei em casa já pronta para atender a convocação da amiga. Sim, vamos colaborar para estancar a extinção dos vaga-lumes. Porque resistir é preciso.

Toda essa história começou com a reportagem do “Jornal Nacional” de terça-feira (5) sobre a diminuição drástica de espécies de vaga-lumes no mundo, inclusive no Brasil. A entrevistada foi a bióloga Stephanie Vaz, do Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (Lece/Uerj) e coordenadora regional da América do Sul para a conservação dos vaga-lumes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês), que se tornou uma espécie de embaixadora pela causa dos vaga-lumes.  

Mesmo com todos esses títulos, a simpática Stephanie Vaz é uma jovem de 33 anos, com quem conversei ontem pela manhã, buscando mais informações. Aliás, vale dizer que, depois da reportagem, os vaga-lumes viralizaram nas redes, fenômeno de nossos tempos, tornando Stephanie Vaz praticamente uma celebridade. O campo de estudo da equipe do Lece à qual Stephanie faz parte é a Mata Atlântica.

Perguntei-lhe sobre os motivos da extinção anunciada – daqui a trinta anos é possível que não haja mais vaga-lumes entre nós – e não me surpreendi com a resposta:

“A poluição luminosa causada por luzes artificiais, o desmatamento, a poluição causada por inseticidas”, disse-me ela, confirmando o que eu já imaginara. Ações do homem.

Avançamos na conversa, até que Stephanie Vaz contou-me um detalhe da vida dos vaga-lumes que me levou a fazer um link direto com os seres ctônicos. Aprendi o conceito com Donna Haraway em “Ficar com o problema” (N-1 edições), livro que, como sabem os que me seguem no blog, está na minha mesa de cabeceira.

Os vaga-lumes nascem larvas, e assim permanecem por um ou dois anos. Só depois desse tempo é que saem do casulo, ganham asas, órgãos bioluminescentes, e vêm para fora, ao encontro da humanidade. Concluí, portanto, que na maior parte de sua existência os vaga-lumes são seres ctônicos. Diz Donna Haraway:

“Os ctônicos são seres da terra, antigos e totalmente atuais ao mesmo tempo. Eu os imagino cheios de tentáculos, antenas, dedos, cordões, caudas de lagarto e patas de aranha, com cabelos bem rebeldes. Os ctônicos fazem estrepolias num humus multibichos, mas não querem nada com o Homo que contempla o céu”.

Donna Haraway é filósofa e zoóloga estadunidense. Ela denuncia a matança desses seres, expõe a vulnerabilidade também de nossa espécie diante de tantas dores e alegria, e se permite fabular um mundo em que seja possível criar “parentes estranhos”.

“Os ctônicos não são seguros e não estão em segurança, eles não têm nada a ver com ideólogos e não pertencem a ninguém”, escreve ela.

A sugestão é “aprender a estar verdadeiramente presente”, e quem sabe ajudar a florescer até mesmo “um florescimento multiespécie”, incluindo seres humanos e alteridades não humanas em parentesco”.

Bem… iremos longe demais assim, não? Mas não custa tirar daí alguma reflexão.

Vaga-lumes são insetos que realizam a metamorfose completa, ou seja, passam pela fase de ovo, larva, pupa e adulto. Enquanto larvas, eles têm poucos predadores, já que são tóxicos e seu gosto não agrada nem mesmo às aranhas. Por outro lado, alimentam-se de outros vaga-lumes e de  larvas, muitas delas responsáveis por doenças humanas.

A bioluminescência acontece nas fases de larva e adultos, e serve também como sinal sexual. Durante sua breve vida, os vaga-lumes adultos não se alimentam, pois utilizam toda a reserva genética que consumiram quando larvas.

“A poluição por conta dos pesticidas está causando problemas à espécie porque afetam as larvas. E se as larvas morrem, não teremos mais os adultos”, disse Stephanie Vaz.

E por que devemos nos preocupar com os vaga-lumes?, pergunto à Stephanie Vaz.  A resposta é múltipla.

“A espécie é importante para regular a cadeia alimentar onde está inserida. Ela também é capaz de controlar algumas doenças que são vetores para os seres humanas. O estudo da bioluminescência, que é o brilho que ele tem na cauda, serve também para receptar doenças ou exames de PCR na biomedicina. Saindo do campo da medicina, há também os aspectos culturais, pois os vaga-lumes são pensados em muitas obras artísticas. Eles causam o que chamamos de conforto mental, porque são capazes de relaxar as pessoas”, disse Stephanie Vaz.

Resumindo: a existência dos vaga-lumes só faz bem à humanidade. Em resposta, o que fazemos é restringir sua vida. É o que está dando errado. Como diz Anna Tsing, em “O cogumelo no fim do mundo”, também da N-1 Edições, “Os humanos não podem sobreviver tripudiando sobre todos os outros seres. O espectro que muitos tentam ignorar é uma realidade muito simples – o mundo não será ‘salvo’. Se não acreditamos em um futuro revolucionário global, devemos viver no presente (como sempre foi o caso).”

Viver no presente é a sugestão das duas autoras, e uma das soluções que me conforta. A arte dos estudos dos biólogos da equipe da qual Stephanie Vaz faz parte, colabora para isso. Mesmo que os vaga-lumes não sejam salvos, eles estão sendo olhados como seres que prestam. Como, de resto, todas as outras vidas.

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Das empresas regenerativas ao Ano das Cooperativas

Fato é que a vida nos ensina e a natureza exige mais.

“Amelia, seu blog tem dois problemas: você não publica com regularidade e escreve textos muito longos”.

O que fazer, senão concordar com o amigo que me fez este alerta?

Mas… concordar não significa ter condições de fazer mudanças. O blog é errático porque quando eu tenho compromisso com trabalhos free lancers (necessários para pagar contas) eu não tenho condições de me dedicar. E os textos são longos porque são tantos e tão bons assuntos, que não dá para reduzir, simples assim.

Hoje, porém, vou tentar um novo modelo. Escreverei três pequenos textos sobre notícias que me chegaram e que podem ajudar a engrossar nosso caldo de reflexões sobre o tipo de desenvolvimento e civilização que queremos:

O primeiro tema me fez viajar no tempo. Em junho de 2006, fui convocada para uma entrevista coletiva, em Manaus, em que a empresa Phillips lançaria seu primeiro relatório de sustentabilidade. A convocação fazia sentido porque, até então, a empresa seguia o conceito de responsabilidade social corporativa, que passava a abandonar por ter percebido o esgotamento dele.

Desce o pano, e vamos para julho de 2025.  A notícia agora é que a Natura, empresa que sempre teve sua marca atrelada às questões socioambientais, apresenta seu relatório que chama de Visão 2050. No documento, ela expressa seu desejo de não querer ser mais uma empresa sustentável, e cria um novo emblema: “empresa regenerativa”.

O que isso quer dizer? Quer dizer que, em vez de repor ao meio ambiente os recursos que dele retira, a ideia é investir em práticas que contribuam para a resiliência do solo, das florestas, recuperar os recursos naturais que utiliza na produção de seu produto. “Empresa regenerativa” é, sim, um conceito criado especialmente para a Natura, mas o modelo não é tão novo.

Em 2022 o ex-CEO da Unilever Paul Pollman, lançou o livro “Impacto Positivo”,  juntamente com Andrew Winston. As empresas de impacto positivo, segundo o executivo, são aquelas que operam dentro de limites naturais para respeitar o planeta.

“Parte disso parecerá familiar aos defensores da sustentabilidade, mas uma coisa é falar, outra é agir”, escreve Paul Pollman.

A distância entre intenção e gesto parece que tem sido a marca de nossa era. E são boas intenções, na maioria das vezes, que produzem algum bem estar, talvez maior do que o impacto negativo que as produções causam.

Mas é preciso mais para provocar mudanças reais. 80% dos estragos no meio ambiente estão sendo feitos por 57 empresas, que operam em apenas 34 nações, segundo o Dados Carbon Majors. E, em maio deste ano, um estudo publicado pela Nature Communications mostrou que as metas atuais de aquecimento que os países estão debatendo nas COPs não impediriam o colapso das camadas de gelo na Groenlândia e na Antártida, o que pode afetar milhões de pessoas em áreas costeiras.

Seja a mudança de emblema de vinte anos atrás, seja a de agora, fato é que a vida nos ensina e a natureza exige mais.

SEGUNDO TEMA

Os indígenas não têm assento nem voto na COP30, apesar de, em 2018, a relatora da ONU para os Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, ter declarado serem eles os verdadeiros guardiães das florestas. Mas, aqui e ali, há meios de contornar e dar voz a eles, por formas indiretas. “Diálogos pelo Clima”, do Programa Copaíbas, faz este papel ao lançar o livro “Comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas: impactos e soluções na agenda climática”.

Este é o segundo tema do nosso post.

 Na publicação, o artigo “A voz dos povos indígenas e a (in)justiça climática”, escrito por Suliete Gervásio Monteiro, lembra os efeitos causados pelos eventos extremos e explicita o papel importante dos povos indígenas para tentar conter o desastre:

“A seca que ocorreu em 2023 (no estado do Amazonas) atingiu 633 mil pessoas. Segundo boletim divulgado pela Defesa Civil, das 62 cidades do estado, 59 ficaram em situação de emergência por causa da estiagem. Ainda de acordo com a Defesa Civil, 158 mil famílias foram afetadas pela seca. Devido a essa situação, o governo do estado decretou situação de emergência em 55 dos 62 municípios. Em Manaus, a seca é a pior registrada em 121 anos: a cota do Rio Negro foi 12,89 metros, a menor registrada desde 1902, quando começaram as medições do volume do rio. As populações indígenas ribeirinhas sentiram e sofreram os impactos da seca nos rios Solimões e Negro, influenciando as dinâmicas socioculturais do povo. Nesse contexto entra em cena a (in)justiça ambiental. Sendo os povos indígenas os responsáveis pela conservação das florestas por meio de seus territórios e seus saberes milenares, são os que sofrem diretamente os impactos das mudanças climáticas”.

É bom quando se consegue mostrar, em números, que é sobre vidas – humanas ou não – que se está falando. O aquecimento global – que já superou o teto de 1.5 grau acordado em 2015, na COP21 – tem efeitos diretos na qualidade de vida e na vida. Por isso ser tão urgente ter um fundo para ajudar os países pobres, os indígenas, os ribeirinhos, para enfrentarem os desastres que estão cada vez mais fortes e frequentes.

“Os apoios e financiamentos climáticos contribuem diretamente para o sucesso e a ampliação da atuação das comunidades tradicionais no enfrentamento às mudanças climáticas”, escrevem Luiz Eloy Terena e Caíque Ribeiro Galícia no artigo “Construção do bem-viver dos povos indígenas no Brasil” .

A publicação, inteiramente dedicada a destacar o protagonismo de comunidades tradicionaos, quilombolas e indígenas no uso sustentável da sociobiodiversidade, no combate ao desmatamento e na resposta às mudanças climáticas, pode ser acessada, gratuitamente, na biblioteca virtual no site da COPAÍBAS.

TERCEIRO TEMA

Por último, achei bastante interessante a notícia de que a ONU criou o Dia Internacional das Cooperativas, que comemorou em 8 de julho com uma celebração de alto nível em sua sede em Nova York. A instituição não anda colaborando para o que se propôs quando foi criada – manter a paz e a segurança globalmente – mas funciona, muitas das vezes, para criar formas de propor temas que são importantes para a humanidade.

É o que parece ser o caso. Com a criação da efeméride sobre as cooperativas, que vem na sequência da criação do Ano Internacional das Cooperativas 2025, sob patrocínio da Mongólia e do Quênia, a ONU reconhece o papel delas na construção de uma civilização diferente. E uma sociedade que tem tudo para ser mais inclusiva, já que embute o sentido de socialização.

O tema do ano é “Cooperativas constroem um mundo melhor”, segundo destaca o impacto global duradouro das cooperativas, posicionando-as como soluções essenciais para os desafios globais da atualidade. Antonio Guterres, secretário da ONU, acredita que as cooperativas contribuem  “para o desenvolvimento sustentável em dimensões sociais, econômicas e ambientais, mostrando como as cooperativas são motores essenciais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU até 2030”. O tema também enfatiza a capacidade única das cooperativas de promover o crescimento inclusivo e fortalecer a resiliência comunitária.

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Uma praça, um banco, sem tela. Instantes de alívio

Dia desses, eu me sentei na pracinha aqui do bairro.Não levei relógio, nem celular.

Esta foto foi tirada por mim, do décimo andar de um prédio. É a praça Carioca, no Centro. Uma praça

Éramos só eu, Beto, as pedras, algumas moscas, poucas folhas de poucos arbustos.

Rodeados pelo mundo ctônico, como diria Donna Haraway (“Ficar com o problema”) invisível aos meus olhos.

E muitos seres humanos que passavam, iam e vinham. Uns com pressa, outros nem tanto.

O que me levou a me sentar na pracinha foi o frio que comecei a sentir aqui em casa. Moro numa casa onde o sol não chega.

 Aqui somos eu, Beto, o computador e minhas lembranças, algumas sob a forma de móveis, outras sob a forma de retratos, muitas sob a forma de livros e muitos enfeites que vou guardando pela vida afora.

Sabe aquelas coisinhas que a gente não consegue jogar fora? Pois é disso que estou falando.

Mas, voltamos à pracinha.

O sol foi me aquecendo, tirei as meias. Senti que o pescoço estava duro, fiz um movimento para soltar. Não sabia muito bem o que fazer com as pernas, ergui-as e fiz pose de Buda.

Sem tela para absorver minha atenção, passei a ouvir minha respiração, a me dar conta dos meus movimentos.

Fiquei assim até que veio uma certa moleza.

 Não me deitei no banco da praça porque a pequena comunidade que dividia comigo aquele território, naquele instante, optou por se sentar. Não quis ser revolucionária.

As bombas, os mísseis, as ogivas que estraçalham pessoas, aves, flora, comunidades, interferem no poderoso submundo ctônico, a mando de seres impensáveis… ficaram longe de mim naqueles pequenos e deliciosos instantes, minutos, que eu me dediquei.

Uma hora e meia, não mais do que isso. Mas um tempo investido no excepcional encontro de células vivas, sentindo cada instante de mim e de meu entorno. Sem interface.

 Com respeito – palavra em desuso – a cada um dos seres vivos com quem eu habito o planeta que os experts do capital estão destruindo.

Estou me referindo à destruição provocada pelas guerras em curso, é bom que eu deixe claro. Porque a outra, aquela que há tempos vimos engendrando para que possamos nos desenvolver… esta fica até distante num momento em que indivíduos limitados, empossados, tomam as rédeas do mundo para destruí-lo. O que pensam? O que querem? O que sentem?  Não ouso responder.

Mas ali, naquele  mundo que me rodeava na pracinha do bairro, eu me dei conta de quão distante de mim estão esses seres do mal. E tive um lampejo de saúde, o ar fluiu melhor.

 Aquela comunidade da pracinha do meu bairro estava unida em prol dos sentidos. Querendo pegar um solzinho para aquecer.

Cheguei em casa, tinha um recado. Solange, a vizinha artista que faz trabalhos lindos, estava fazendo um bolo! E me convidava, a mim e a outra vizinha, para nos reunirmos em volta dele, mais tarde. Beto, meu cachorro, estava convidado. Ele encontraria um par, o Bonitinho, cachorro de Solange e Jomar, seu companheiro.

Prometi levar hibisco seco para o chá. Acertamos o melhor horário. E lá fui eu, completar o dia me nutrindo de Ser. Meus neurônios deram uma festa, as proteínas dançaram, as células se animaram. Longe das telas um dia inteiro!

Lá a conversa foi sobre tudo o que importa. Sobre a vida. Pressão alta, pressão baixa, insônia ou não, quanto se dorme, quanto se pensa, é bom levar celular para o quarto? Sugeri a leitura de “24/7 O capital quer roubar seu sono”, de Johnathan Crary, e fui alimentada com outras tantas dicas.

Quando urbanistas defendem as cidades, eles falam sobre trocas. Os humanos só enriquecem – a riqueza que mais interessa – quando trocam com outros.

Dia desses, eu me sentei na pracinha aqui do bairro.

Não levei relógio, nem celular.

Éramos só eu, Beto, as pedras, algumas moscas, poucas folhas de poucos arbustos.

Rodeados pelo mundo ctônico, como diria Donna Haraway (“Ficar com o problema”) invisível aos meus olhos.

E muitos seres humanos que passavam, iam e vinham. Uns com pressa, outros nem tanto.

O que me levou a me sentar na pracinha foi o frio que comecei a sentir aqui em casa. Moro numa casa onde o sol não chega.

 Aqui somos eu, Beto, o computador e minhas lembranças, algumas sob a forma de móveis, outras sob a forma de retratos, muitas sob a forma de livros e muitos enfeites que vou guardando pela vida afora.

Sabe aquelas coisinhas que a gente não consegue jogar fora? Pois é disso que estou falando.

Mas, voltamos à pracinha.

O sol foi me aquecendo, tirei as meias. Senti que o pescoço estava duro, fiz um movimento para soltar. Não sabia muito bem o que fazer com as pernas, ergui-as e fiz pose de Buda.

Sem tela para absorver minha atenção, passei a ouvir minha respiração, a me dar conta dos meus movimentos.

Fiquei assim até que veio uma certa moleza.

 Não me deitei no banco da praça porque a pequena comunidade que dividia comigo aquele território, naquele instante, optou por se sentar. Não quis ser revolucionária.

As bombas, os mísseis, as ogivas que estraçalham pessoas, aves, flora, comunidades, interferem no poderoso submundo ctônico, a mando de seres impensáveis… ficaram longe de mim naqueles pequenos e deliciosos instantes, minutos, que eu me dediquei.

Uma hora e meia, não mais do que isso. Mas um tempo investido no excepcional encontro de células vivas, sentindo cada instante de mim e de meu entorno. Sem interface.

 Com respeito – palavra em desuso – a cada um dos seres vivos com quem eu habito o planeta que os experts do capital estão destruindo.

Estou me referindo à destruição provocada pelas guerras em curso, é bom que eu deixe claro. Porque a outra, aquela que há tempos vimos engendrando para que possamos nos desenvolver… esta fica até distante num momento em que indivíduos limitados, empossados, tomam as rédeas do mundo para destruí-lo. O que pensam? O que querem? O que sentem?  Não ouso responder.

Mas ali, naquele  mundo que me rodeava na pracinha do bairro, eu me dei conta de quão distante de mim estão esses seres do mal. E tive um lampejo de saúde, o ar fluiu melhor.

 Aquela comunidade da pracinha do meu bairro estava unida em prol dos sentidos. Querendo pegar um solzinho para aquecer.

Cheguei em casa, tinha um recado. Solange, a vizinha artista que faz trabalhos lindos, estava fazendo um bolo! E me convidava, a mim e a outra vizinha, para nos reunirmos em volta dele, mais tarde. Beto, meu cachorro, estava convidado. Ele encontraria um par, o Bonitinho, cachorro de Solange e Jomar, seu companheiro.

Prometi levar hibisco seco para o chá. Acertamos o melhor horário. E lá fui eu, completar o dia me nutrindo de Ser. Meus neurônios deram uma festa, as proteínas dançaram, as células se animaram. Longe das telas um dia inteiro!

Lá a conversa foi sobre tudo o que importa. Sobre a vida. Pressão alta, pressão baixa, insônia ou não, quanto se dorme, quanto se pensa, é bom levar celular para o quarto? Sugeri a leitura de “24/7 O capital quer roubar seu sono”, de Johnathan Crary, e fui alimentada com outras tantas dicas.

Quando urbanistas defendem as cidades, eles falam sobre trocas. Os humanos só enriquecem – a riqueza que mais interessa – quando trocam com outros.

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Muros contra o mar. Quem vai conter a humanidade?

Acabo de assistir, no portal G1, à reportagem do “Fantástico” deste domingo (4) sobre a muralha que o Japão está construindo para conter tsunamis. A reportagem lembra o terrível desastre de Fukushima após o terremoto em 2011, conta sobre a triste história de uma cidade que nunca mais se reergueu. E fala sobre a pressão que alguns países – Estados Unidos entre eles – fazem em prol da energia nuclear. Será preciso ter fontes para aumentar a energia num mundo que só faz criar formas – IA, por exemplo – que demandarão cada vez mais.

Enquanto assistia à reportagem, lembrei-me da história de Fudai, que reportei no próprio G1 quando fui colunista do site – Nova Ética Social era o nome da coluna. Dando o devido crédito, achei importante resgatar aqui essa história para os meus leitores. Segue abaixo:

“Era uma vez um prefeito de uma cidade japonesa com cerca de 30 mil habitantes chamada Fudai. Quando foi eleito, na década de 70, Kotaku Wamurapôs uma ideia na cabeça: no seu mandato, ele iria construir um muro tão alto que protegeria sua cidade de qualquer tsunami. Wamura não conseguia parar de pensar nos horrores causados pelas ondas enormes que varreram seu município em duas ocasiões distintas: 1893 e 1933. A cidade, que basicamente vive do turismo e das algas que os pescadores buscam no mar, ficou praticamente soterrada pelas águas e muita gente morreu. O prefeito, que era um jovem idealista quando ocorreu a segunda tragédia, não queria que isso acontecesse enquanto fosse ele a administrar Fudai. E o muro foi erguido.

O povo de Fudai, que fica a cerca de 500 km de Tóquio,não ficou muito contente durante a obra, que durou cerca de 12 anos e gastou 20 milhões de libras. Muita gente criticou, dizendo que era dinheiro gasto à toa, que não iria resolver o problema, questionaram valores e intenção.Wamura não quis só um muro, mas construiu também imensos painéis que podem ser levantados para permitir que o Rio Fudai esvazie para deixar mais espaço para o mar e, assim, bloqueie as ondas. Os proprietários das terras que tiveram que ser realocados para a construção protestaram. Mas Wamura estava tão seguro de si que conseguiu convencer a todos. E a estrutura de concreto terminou de ser construída em 1984, por um valor que chegou perto de 4 bilhões de ienes.

Wamura morreu em 1997, aos 88 anos. Mais de uma década depois, em 2011, quando um imenso tsunami varreu o Japão, matando quase 18 mil pessoas em todo o país, os ventos e as ondas golpearam fortemente a praia de Fudai, na enseada na cidade, e barcos foram destruídos no porto. Mas na aldeia nenhuma casa foi destruída, não houve uma morte. Passada a tormenta, a cidade em romaria foi ao túmulo de Wamura agradecer e deixar flores para o ex-prefeito.

Talvez esta história tenha inspirado a construção dos atuais muros que estão sendo construídos no Japão, como uma forma de tentar evitar que outro tsunami aterrorize a região como aconteceu há sete anos. As paredes têm 12,5 metros de altura e substituíram os quebra-mares, que com o tsunami mostraram-se ineficazes. Em toda a costa japonesa há agora cerca de 395 quilômetros de muros de concreto, construídos por 6,8 bilhões de dólares, para tentar barrar as águas do mar do Japão caso elas, de novo, sejam insufladas pelos ventos a ponto de se tornarem perigosas aos humanos.

Em 2011, algumas ondas chegaram a 30 metros de altura. Será, então, que muros de “apenas” 12 metros vão conseguir barrar o fenômeno? Segundo Hiroyasu Kawai, pesquisador do Instituto de Pesquisa do Porto e do Aeroporto em Yokosuka, disse ao jornal britânico “The Guardian”, mesmo que o tsunami seja maior em altura, o muro terá o efeito de atrasar as inundações, talvez garantindo também mais tempo para a evacuação das pessoas.

Assim como aconteceu no tempo de Wamura, agora também tem muita gente contra a construção das paredes. Quer seja porque enfeia espaços que têm vocação turística, quer seja porque o governo deixou de reconstruir algumas edificações importantes pós-tsunami e priorizou a verba para erguer os muros, o fato é que há cidadãos tristes com tantas edificações anacrônicas na paisagem japonesa. Há quem diga que os muros se parecem com uma prisão, e eu não posso discordar.

Em Fudai, cidade de Wamura, muitos ainda se lamuriam.

“Todos aqui viveram com o mar e do mar, através de gerações. O muro nos mantém separados dele, e isso é insuportável” , disse Sotaro Usui, chefe de uma empresa de abastecimento de atum, à reportagem do “The Guardian”.

O risco, dizem especialistas que se opõem ao projeto, é que os muros podem acabar dando às pessoas uma falsa sensação de segurança. Outros discutem o impacto ambiental que tanto concreto já trouxe ao país. Em Iwanuma, por exemplo, o prefeito da cidade preferiu substituir o muro cinza por uma barreira feita com uma espécie de cerca viva, ou seja, florestas plantadas ao longo da costa em locais altos que poderiam barrar as águas.

Em outros lugares do mundo os humanos também precisam se proteger contra a fúria das águas do mar quando ventos as deixam violentas. E, como os cientistas já se cansam de provar, o abuso do uso dos combustíveis fósseis pela humanidade deixa uma chance enorme de que mais e mais eventos como esse aconteçam.

Na Holanda, em Roterdã, o Maeslant é um imenso portão que foi instalado em 1997 na via fluvial que conecta a cidade ao Porto, no Mar do Norte. Pode se fechar se as ondas começarem a se elevar muito. A expectativa é que só se feche de dez em dez anos. Até agora, funcionou em 1997 e 2007.

A barreira está conectada a um sistema de computadores que funciona da seguinte maneira: com ondas no Mar do Norte acima de três metros de altura ela se fecha automaticamente. Mas todo o processo é acompanhado por funcionários vigilantes, que avisam aos navios com quatro horas de antecipação. Estive em Roterdã em 2010  e pude visitar o local onde fica a grande barreira. Conversei também com os funcionários responsáveis por avisar aos navios. O que observei foi um senso tremendamente responsável e de seriedade no trabalho de todos.

Não é para menos. Trata-se de um processo de adaptação necessário para se viver em grandes cidades costeiras. Mas, sabem o que destoa totalmente desse tipo de atitude? Construções feitas à beira-mar, como a Ciclovia Tim Maia, por exemplo. Ou o que as autoridades do Principado de Mônaco, país onde há a maior concentração de bilionários por centímetro quadrado, pensa em fazer: permitir a construção de ilhas artificiais no mar para caber mais bilionários no território. Todos querem Mônaco, sobretudo porque lá se paga poucos impostos. O príncipe Albert 2º é contra a construção, o que nos deixa uma dose de esperança de que tal aberração não seja levada adiante.

E assim caminhamos.”

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Papa Francisco e sua corajosa Encíclica ‘Laudato Si´’

Fui criada em uma família eclética. Mãe mineira católica (às vezes fervorosa, às vezes não) e pai paraguaio ateu e anarquista. Passada a primeira infância, tombei para o lado do pai. E assim sigo a vida. Respeito a fé, tenho alguma cisma com religiões que tiram a potência do humano, mas nunca discuto as preferências. Cada um sabe de si.

Papa Francisco abençoa lideranças indígenas da Amazônia. Foto Mídia Vaticano publicada no site #Colabora

Mas aqui na estante, em lugar nobre, tem um exemplar impresso da “Carta Encíclica ‘Laudato Si´ – Sobre o cuidado da casa comum”, adquirido por mim em 2015. Foi neste ano que o católico argentino Jorge Mario Bergoglio, que se tornara Papa Francisco em 2013, arrebatou-me com seus pensamentos e ideias. Não cheguei a me tornar religiosa, mas passei a respeitar muito o Chefe de Estado do Vaticano.

 “Laudato Si´” é um texto corajoso, abrangente, diverso, que foca em assuntos atuais, meu objeto de estudo desde o início do século. A economia real, a proteção ambiental versus o desenvolvimento, a biodiversidade, a  injustiça climática e tantos outros destaques que, num amarrado efêmero chamamos de desenvolvimento sustentável, estão ali muito bem contextualizados.

Na época de divulgação da Encíclica eu tinha uma coluna no Portal G1, e escrevi um texto pormenorizando a substancial ajuda que o tema tinha acabado de ganhar.

São 246 aforismos, e vou destacar aqui o meu  trecho favorito:

Habitualmente, a bolha financeira é também uma bolha produtiva. Em suma, o que não se enfrenta com energia é o problema da economia real, aquela que torna possível, por exemplo, que se diversifique e melhore a produção, que as empresas funcionem adequadamente, que as pequenas e médias empresas se desenvolvam e criem postos de trabalho”.

E aqui, a cereja do bolo, a resposta para o eterno, e talvez falso problema da nossa atualidade, que o escritor japonês marxista Kohei Saito prefere  chamar de “capitaloceno”.

Quando se colocam estas questões, alguns reagem acusando os outros de pretender parar, irracionalmente, o progresso e o desenvolvimento humano. Mas temos de nos convencer que, reduzir em determinado ritmo de produção e consumo, pode dar lugar à outra modalidade de progresso e desenvolvimento. Os esforços para um uso sustentável dos recursos naturais não são gasto inútil, mas um investimento que poderá proporcionar outros benefícios econômicos a médio prazo. Se não te3mos vista curta, podemos descobrir que pode ser muito rentável a diversificação de uma produção mais inovadora e com menor impacto ambiental. Trata-se de abrir caminho e oportunidades diferentes, que não implicam frenar a criatividade humana nem o seu sonho de progresso, mas orientar esta energia por novos canais.”

Papa Francisco não se limitou a lançar a Encíclica.  O Sumo Pontífice estava empenhadíssimo em organizar uma conferência, na cidade italiana de Assis, que se chamaria “Economia de Francisco” e reuniria jovens do mundo todo para debater sobre o desenvolvimento que se quer. Durante a etapa de organização, o Vaticano lançou o documentário “A carta”, produzido pela equipe Off the Fence – a mesma do filme “Professor Polvo”,  em outubro de 2022, com parte do conteúdo da Encíclica, mas com foco nas vítimas das mudanças do clima.

Para os católicos este período, entre a morte de um papa e a escolha de outro é conhecido como sede vacante. Sete cardeais brasileiros com menos de 80 anos estão aptos a votar no Conclave, segundo lista oficial divulgada pelo Vaticano. E entre os 14 que estão na lista de onde pode sair o próximo papa, há um, em especial, o cardeal francês Jean-Marc Aveline – França, citado por alguns especialistas como o favorito de Francisco. Pela sua linha humanitária, de ampla visão, dedicado às questões dos imigrantes  e ao diálogo inter-religioso, ele seria o preferido pelo lado mais progressista da Igreja Católica.

Pode ser. Fica a torcida para que o próximo Chefe do Estado de Vaticano tenha uma visão tão ampla quanto a do Papa que se foi. Francisco deixará uma lacuna.

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Pensamentos florescentes do xamã Kopenawa, agora em documentário inédito

A câmera desliza devagar, num ritmo diferente daquele no qual nos acostumamos em tempos tão rápidos. Assim, sem pressa, as imagens vão  mostrando para o telespectador um mundo diferente, uma rotina distante da nossa, mas que faz parte de nossa essência. Estamos vendo de perto, quase como invasores, uma das aldeias da Terra Indígena Yanomami – que se estende por Roraima e Amazonas, no Brasil e na Venezuela. Se a tela exalasse cheiro, certamente estaríamos sentindo o odor humano que sobe das muitas redes instaladas na imensa casa coletiva de Watoriki.

O xamã Davi Kopenawa no documentário com seus pensamentos. Foto de divulgação

O som é local, difuso, de pássaros misturados ao vozerio da criançada brincando. O documentário “Watoriki – Conversa com David Kopenawa”, de  Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, presenteia a audiência com essas imagens da aldeia antes da primeira fala do xamã David Kopenawa. É inédito e vai estrear amanhã (18) no Canal Curta!. A minha primeira vontade, quando comecei a assistir, foi quase  pedir desculpas pela invasão, tamanha a intimidade que se passa a ter com a rotina dos indígenas ianomami.

Quem já leu “A Queda do Céu – palavras de um xamã yanomami”, escrito por Kopenawa e Bruce Albert, vai ter a sensação de que puseram imagem no livro. De certa forma, é isto mesmo. Kopenawa fala todo o tempo, contando, como fez com Bruce Albert, muitas da sua história rica de vida. O muito interessante, no caso do documentário, é que o xamã, que quase nunca se comunica na língua dos brancos, de vez em quando fala em português, misturando um pouco as palavras.

A casa coletiva da aldeia Yanomami de Watariki. Foro de divulgação

Logo de cara, a pergunta feita por Kopenawa, sentado em seu habitat, no meio de uma natureza pujante que o recebe bem mas que a nós, urbanos, repele,  faz a gente se mexer na cadeira: “Por que os brancos querem nos maltratar?”

Em vista do que estamos assistindo, dos eventos climáticos cada vez mais intensos associados às atividades humanas, na verdade eu penso que nós também estamos sendo maltratados. No caso dos Yanomami, porém, como de resto de todos os povos indígenas, os efeitos são sentidos na base. Não vamos nos esquecer que a própria ONU os considera guardiães da floresta.

Como tal, é muito difícil estarem lutando contra garimpeiros ilegais, por exemplo, ou com estradas que cortam suas terras. Sem falar na luta que foi para a homologação de sua terra, conseguida apenas em 1992.

Kopenawa é um líder que sempre defendeu a floresta, e ele explica: “Foi por minha mãe e pelo meu pai que eu defendo a floresta”. O pensamento do xamã vai florescendo em todo o documentário, com sua voz doce e enérgica. Ao fundo, imagens que nos conectam com o mundo entremeado de natureza, com crianças vivendo livremente. Mas sem romance ou glamour: é uma vida plena, em conexão direta com o que pode machucar, ferir.

A câmera vai nos levando por trilhas no meio da floresta, acompanhando crianças que usam facões e com eles se safam de perigos. A não alienação de humanos com todos os outros seres vivos fica assim escancarada. O respeito, a certeza de que dali vem a sobrevivência. E Kopenawa avisa:

“Yanomami é gente; yanomami é povo; yanomami tem família; yanomami tem filho; yanomami tem criança; sente fome, chora, fica triste, preocupado. Pensando como resolver os problemas”.

E ele lista os problemas, que não são poucos:

“O   que vai acontecer? Onde vamos viver? Onde vamos beber água?”

Dá para entender, profundamente, esse grito pela sobrevivência. Assim como se percebe na fala de Kopenawa o misto de desconfiança e menosprezo que os indígenas têm pelos brancos. Foram eles, afinal, que levaram para seu mundo as doenças que os matam. E são eles também que destroem a floresta que é sua vida.

O Governo Federal tem ajudado os Yanomami com doação de cestas básicas, o que é muito bem vindo. Daqui a alguns dias, será entregue a cesta de número 160 mil.  Por outro lado, dá uma tristeza danada perceber que essa iniciativa só é necessária porque a verdadeira fonte de alimentos deles está sendo dilapidada pela ação humana.

Já no fim do documentário, Kopenawa descreve como tem sido sua vida de viajante, levando mundo afora a história de sua aldeia. Tornou-se um xamã mundial, desconcertando a gente com ilações tão férteis quanto evidentes. Quando viajou ao Reino Unido, deparou-se com crianças comendo lixo e se perguntou:

“Por que os brancos não compartilham a sua comida e deixam criança comer lixo?”

A outra indignação do xamã é com relação ao tempo. “Por que os brancos seguem o horário com tanta pressa?”. Lúcido, ele mesmo explica, novamente de maneira perturbadora e definitiva, a dificuldade que tem em se fazer ouvir pelos brancos:

“Palavra não é mercadoria. Por isso eles (os brancos) não param para ouvir os yanomamis”.

Vale a pena assistir. O Curta! vai transmitir também em horários alternativos: 19 de abril, sábado, às 2h10 e às 16h15; 20 de abril, domingo, às 21h20; 21 de abril, segunda-feira, às 16h10; 22 de abril, terça-feira, às 10h10.

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