Não, não, esperem!
Talvez eu tenha induzido vocês a crer que eu esteja na capital do Brasil hoje, que é Belém. Na verdade, estou aqui mesmo, no lugar de sempre, em frente ao meu computador. Mas, graças à inovação tecnológica – essa mesma que precisa de minerais que saem das profundezas da Terra, o que ajuda a colapsar o clima – estou acompanhando o dia todo o que acontece na cúpula.
E a pedidos de alguns amigos, conto um pouco.
O dia começou com um discurso do Lula. Bem, vocês vão dizer que eu estou falando demais do presidente. Mas, gente, impossível não falar! O homem está em todas, ele realmente tomou para si a produção do evento. Hoje falou de manhã sobre transição energética e, como sempre, conseguiu levar o discurso para o que é seu foco principal: o combate à miséria.
A folhas tantas, depois de dizer que o Brasil não tem medo de discutir transição energética e que “Já sabemos que não é preciso desligar máquinas e motores, nem fechar fábricas ao redor do mundo de um dia para o outro” – clara referência às críticas sobre a pesquisa de petróleo na Margem Equatorial – Lula lembrou que:
– 2 bilhões de pessoas não têm acesso a combustíveis adequados para cozinhar.
– 660 milhões de pessoas dependem de lamparinas ou de geradores a diesel nas periferias das grandes cidades e nas comunidades rurais da América Latina, da África e da Ásia.
– 200 milhões de crianças frequentam escolas sem acesso à luz elétrica.
Uma espécie de novo paradigma das conferências sobre o clima, este de incluir a pobreza nos debates.
Mais tarde, o presidente Lula falou de novo, dessa vez em outra reunião para lembrar os dez anos do Acordo de Paris. Aquele, que pouco ou nada adiantou. E fez um chamamento: “O Acordo se baseia no entendimento de que cada país fará o melhor que estiver a seu alcance para evitar um aquecimento de mais de um grau e meio. O que nos cabe perguntar hoje é: estamos realmente fazendo o melhor possível?”. Não sem inserir no discurso também o fato de as pessoas mais pobres do planeta serem também aquelas que mais são impactadas pelas mudanças do clima. E de dizer que “Omitir-se é sentenciar novamente aqueles que já são os condenados da Terra”.
São meros discursos, dirão os menos otimistas. Sim, eu concordo. Mas ouvir retóricas inúteis em COPs já tem sido um hábito. Que, ao menos, seja uma retórica útil, que lembre o que é preciso lembrar. É o que penso.
E durante nove horas houve o discurso dos líderes. Tenho o hábito, nas COPS, de acompanhar esses discuros, de tentar imaginar detalhes sobre cada país que está ali sendo representado. O que faz Lesotho, por exemplo, um país com cerca de 3 milhões de habitantes, incrustrado em montanhas na África, regido por uma monarquia, estar ali no púlpito, falando para a Conferência do Clima? Basicamente, a necessidade de recursos para investir em hidrelétricas, já que há montanhas e água limpa à vontade no país.
O Iêmen foi representando por um general. O país mais pobre do mundo, que recentemente se mostrou guerreiro, apoiando a Palestina, estava ali, lembrando que os eventos extremos – seca e tempestades – estão dificultando sua agricultura.
A Palestina esteve presente, mas o discurso foi em árabe, não consegui captar nada do que foi dito. No site do país, na menção sobre a COP30, temos mais ou menos uma noção. A primeira exigência é que o Brasil pare de fornecer petróleo para Israel.
Dos 198 países que fazem parte da Convenção Quadro das Nações Unidas, há 170 confirmados para participarem. No total, são 50 mil pessoas que vão agitar Belém, que hoje oferece um sol para cada um. Na foto de família feita hoje pela manhã, com árvores da maior floresta tropical do mundo ao fundo, dava para notar que o calorão tá bravo.
Antes mesmo de começar, no entanto, a COP30 já recebeu um torpedo de ninguém menos do que Bill Gates, o dono da Microsoft, um dos homens mais ricos do mundo. Sempre focado na saúde das crianças e do clima, o bilionário escreveu um livro em 2023, que tenho aqui na estante, com o título “Como evitar um desastre climático”. Mas, aparentemente, voltou atrás na preocupação. E resolveu escrever um artigo defendendo uma mudança de olhar sobre o aquecimento global. Obviamente, em comum acordo com o seu colega negacionista Donald Trump. Como se estivesse falando algo inédito, Gates diz que “é preciso colocar o bem-estar humano no centro de nossas estratégias climáticas”.
Sem comentários.
Segunda-feira eu volto.







