Ser Sustentável traz o boletim da Cúpula do Clima de Belém

Não, não, esperem!

Talvez eu tenha induzido vocês a crer que eu esteja na capital do Brasil hoje, que é Belém. Na verdade, estou aqui mesmo, no lugar de sempre, em frente ao meu computador. Mas, graças à inovação tecnológica – essa mesma que precisa de minerais que saem das profundezas da Terra, o que ajuda a colapsar o clima – estou acompanhando o dia todo o que acontece na cúpula.

E a pedidos de alguns amigos, conto um pouco.

O dia começou com um discurso do Lula. Bem, vocês vão dizer que eu estou falando demais do presidente. Mas, gente, impossível não falar! O homem está em todas, ele realmente tomou para si a produção do evento. Hoje falou de manhã sobre transição energética e, como sempre, conseguiu levar o discurso para o que é seu foco principal: o combate à miséria.

A folhas tantas, depois de dizer que o Brasil não tem medo de discutir transição energética e que  “Já sabemos que não é preciso desligar máquinas e motores, nem fechar fábricas ao redor do mundo de um dia para o outro” – clara referência às críticas sobre a pesquisa de petróleo na Margem Equatorial – Lula lembrou que:

– 2 bilhões de pessoas não têm acesso a combustíveis adequados para cozinhar.

– 660 milhões de pessoas dependem de lamparinas ou de geradores a diesel nas periferias das grandes cidades e nas comunidades rurais da América Latina, da África e da Ásia.

– 200 milhões de crianças frequentam escolas sem acesso à luz elétrica.

Uma espécie de novo paradigma das conferências sobre o clima, este de incluir a pobreza nos debates.

Mais tarde, o presidente Lula falou de novo, dessa vez em outra reunião para lembrar os dez anos do Acordo de Paris. Aquele, que pouco ou nada adiantou. E fez um chamamento: “O Acordo se baseia no entendimento de que cada país fará o melhor que estiver a seu alcance para evitar um aquecimento de mais de um grau e meio. O que nos cabe perguntar hoje é: estamos realmente fazendo o melhor possível?”. Não sem inserir no discurso também o fato de as pessoas mais pobres do planeta serem também aquelas que mais são impactadas pelas mudanças do clima. E de dizer que “Omitir-se é sentenciar novamente aqueles que já são os condenados da Terra”. 

São meros discursos, dirão os menos otimistas. Sim, eu concordo. Mas ouvir retóricas inúteis em COPs já tem sido um hábito. Que, ao menos, seja uma retórica útil, que lembre o que é preciso lembrar. É o que penso.

E durante nove horas houve o discurso dos líderes. Tenho o hábito, nas COPS, de acompanhar esses discuros, de tentar imaginar detalhes sobre cada país que está ali sendo representado. O que faz Lesotho, por exemplo, um país com cerca de 3 milhões de habitantes, incrustrado em montanhas na África, regido por uma monarquia, estar ali no púlpito, falando para a Conferência do Clima? Basicamente, a necessidade de recursos para investir em hidrelétricas, já que há montanhas e água limpa à vontade no país.

A representante de Lesotho

O Iêmen foi representando por um general.  O país  mais pobre do mundo, que recentemente se mostrou guerreiro, apoiando a Palestina, estava ali, lembrando que os eventos extremos – seca e tempestades – estão dificultando sua agricultura.

A Palestina esteve presente, mas o discurso foi em árabe, não consegui captar nada do que foi dito. No site do país, na menção sobre a COP30, temos mais ou menos uma noção. A primeira exigência é que o Brasil pare de fornecer petróleo para  Israel.

Dos 198 países que fazem parte da Convenção Quadro das Nações Unidas, há 170 confirmados para participarem. No total, são 50 mil pessoas que vão agitar Belém, que hoje oferece um sol para cada um. Na foto de família feita hoje pela manhã, com árvores da maior floresta tropical do mundo ao fundo, dava para notar que o calorão tá bravo.

Antes mesmo de começar, no entanto, a COP30 já recebeu um torpedo de ninguém menos do que Bill Gates, o dono da Microsoft, um dos homens mais ricos do mundo. Sempre focado na saúde das crianças e do clima, o bilionário escreveu um livro em 2023, que tenho aqui na estante, com o título “Como evitar um desastre climático”. Mas, aparentemente, voltou atrás na preocupação. E resolveu escrever um artigo defendendo uma mudança de olhar sobre o aquecimento global. Obviamente, em comum acordo com o seu colega negacionista Donald Trump. Como se estivesse falando algo inédito, Gates diz que “é preciso colocar o bem-estar humano no centro de nossas estratégias climáticas”.

Sem comentários.  

Segunda-feira eu volto.

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A COP da verdade e da luta contra a fome e a miséria

Meus amigos são tudo de bom. Vira e mexe alguém me cutuca para ler e comentar, aqui no blog, esse ou aquele artigo. Dessa vez foi Lucila Soares, amiga-de-fé-irmã-camarada.

A foto foi tirada por mim em 2015, em viagem que fiz ao Arquipélago do Bailique. É a Floresta Amazônica, com toda sua força e potência. Será que conseguimos mantê-la?

“Já leu o artigo do Lula sobre a COP hoje?”

Eu não tinha lido. Mas, sou boba de não considerar um cutucão desses, vindo de pessoa tão antenada? Claro que ela tinha toda razão. Texto lúcido, explicativo, diferentemente de tantos outros, sobre o tema, que acabam se emaranhando em siglas e imbricando os leitores, com explicações muitas vezes que só interessam mesmo aos estudiosos do tema.

Lula foi certeiro. Falou sobre a posição do Brasil, que chega à COP com a desenvoltura de quem está fazendo a sua parte. Mesmo que, infelizmente segundo o último relatório do Pnuma (agência da ONU que cuida do meio ambiente), no total, o mundo não caminhe para o que se determina como gol de placa: aquecer não mais do que 2 graus até o fim do século. Se tudo continuar como está, dizem os pesquisadores, vamos aquecer até 2.8 graus. E isso não é pouco, gente. Tenho aqui na estante o livro de Mark Lynas – “Seis Graus”, ed. Zahar – que explica o que pode acontecer com cada bioma caso o mundo aqueça 1, 2, 3, até seis graus. Vamos tomar 2.8 por 3, certo? Vejam o que ele preconiza para a Amazônia, neste caso:

“A comparação mais próxima pode ser com os incêndios que se alastraram em 1998 por toda a Indonésia, encobrindo durante meses vários países com uma fumaça sufocante… Nascerá uma nova e irreconhecível paisagem. A poeira se aglomerará nos ocos dos restos carbonizados das árvores. Mais perto do chão, um suave silvado começará a se ouvir: são as dunas de areia erguendo-se. O deserto chegou”.

Mas o Brasil está derrotando um dos grandes males, o desmatamento, para tentar evitar chegar a esse caos. E isso é muito bom para nós, mas também para tentar manter a biodiversidade. Somos essenciais, os humanos, mas não podemos nos esquecer que não vivemos aqui sozinhos e precisamos da vida de outros seres para nos mantermos vivos.

E Lula segue, com a postura de quem está cumprindo o dever, como cutucador oficial. “A cada Conferência do Clima, ouvimos muitas promessas, mas poucos compromissos efetivos. A época das cartas de boas intenções se esgotou: é chegada a hora dos planos de ação.”

Por isso mesmo, ele dá à Conferência a alcunha de COP da verdade. Que seja.

Mas o momento mais sensível do artigo, para mim, é aquele em que Lula é Lula, ou seja, o líder que sempre põe na mesa para debate, seja em que canto do mundo for, uma questão crucial: o combate à fome e à miséria: Escreve Lula:

“Não podemos esquecer que 2 bilhões de pessoas não têm acesso à tecnologia e combustíveis limpos para cozinhar; 673 milhões de pessoas ainda vivem com fome no mundo. Em resposta a isso, lançaremos, em Belém, uma Declaração sobre Fome, Pobreza e Clima. É essencial que o compromisso da luta contra o aquecimento global esteja diretamente relacionado ao combate à fome.”

Pronto. Se me permitem, vou ampliar a alcunha: será a COP da Verdade, em combate à fome e aos miseráveis. Assim fica melhor.

Vou tentar trazer notícias aqui para o(a)s leitore(a)s durante esse tempo. Não estou em Belém, mas estou com as antenas todas ligadas no que acontece. E podem me cutucar!

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Adaptação é o “próximo passo da evolução humana”, diz presidente da COP30

Em priscas eras falavam-se, entre os que estudam desenvolvimento sustentável, sobre a necessidade de mitigação. Acompanho o movimento de empresas, líderes e sociedade civil desde o início do século, quando me tornei editora do “Razão Social”, caderno do Globo, praticamente o primeiro a se dedicar ao tema. Mitigar os impactos era a palavra de ordem, o que direcionava as instâncias para a necessidade de baixar a produção, já que se trata de reduzir os danos ao meio ambiente.

A segunda mesa do seminário cujo tema foi aumentar a resiliência dos vulneráveis. Foto: Amelia Gonzalez

O movimento se arrefeceu. Parece não ter soado bem a uma civilização que não está ainda inteiramente convencida de que é preciso uma grande concertação, uma mudança radical em nosso jeito de ser, de estar no mundo.

E agora estamos indo em frente com a adaptação.

O último relatório da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, também conhecida como UNFCCC, lançado no dia 21, ou seja, a 20 dias da COP30, mostrou que países estão acelerando a implementação dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs). Segundo o documento, até 30 de setembro de 2025, 144 países já haviam iniciado a elaboração de seus NAPs, e 67 nações em desenvolvimento — entre elas, 23 dos países mais pobres e 14 pequenos estados insulares — enviaram oficialmente seus planos à UNFCCC.

O que muda na vida prática dos cidadãos? O estudo mostra que os países apontam a equidade de gênero, a participação comunitária e a redução de vulnerabilidades como pontos fortes nesses planos. Soa interessante.

“O avanço dos sistemas multirriscos de alerta precoce — já presentes em 119 países — tem melhorado diretamente a segurança das populações. Ações locais nos setores de agricultura, saúde e planejamento urbano aproximam a resiliência climática das necessidades cotidianas, ajudando as pessoas a se preparar e se adaptar a um clima em rápida mudança”, diz o relatório.

E hoje mesmo, portanto a 18 dias da COP30, o presidente André Corrêa do Lago divulgou sua oitava carta à comunidade internacional. O tema é adaptação.

Tenho colecionado as missivas virtuais de André Corrêa do Lago. Gosto delas sobretudo porque têm um tom nada burocrático e convidam a refletir. Esta oitava carta não é das mais inspiradas – ele costuma filosofar mais – mas traz dados importantes, como do Índice Global de Pobreza Multidimensional de 2025, publicados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em 17 de outubro.

 O estudo revela a situação do mundo hoje, considerando o que importa, que são as pessoas. 1,1 bilhão de pessoas, de um total de 6,3 bilhões em 109 países, vivem em pobreza multidimensional aguda – mais da metade delas crianças. Desses 1,1 bilhão, 887 milhões vivem em regiões que já enfrentam ao menos um grande risco climático, e 309 milhões enfrentam três ou mais riscos simultaneamente.

Escreve o presidente da COP30 à comunidade:

“As pessoas não falam em siglas; falam de casas inundadas e colheitas perdidas, de economias locais em colapso após tempestades, de escolas e hospitais destruídos, de mulheres liderando as respostas comunitárias. Por trás de cada história está a mesma realidade: os impactos climáticos estão corroendo conquistas de desenvolvimento, ampliando desigualdades e empurrando milhões de pessoas de volta à pobreza”.

Ele defende a adaptação para, entre outras coisas, “aproximar o risco climático da vida cotidiana das pessoas”.

Andre Corrêa do Lago divulgou sua carta hoje às 11h, quando eu estava assistindo ao encontro “COP30 Amazônia – Resiliência Climática, o desafio da adaptação às mudanças do clima”, organizado pelos jornais O Globo e Valor Econômico e a rádio CBN, em um restaurante no bairro do Flamengo. Lá passamos pouco mais de duas horas refletindo sobre a adaptação.  As jornalistas Daniela Chiaretti e Ana Lúcia Azevedo fizeram a mediação em duas mesas, com alguns especialistas.

Afinal, o que é adaptação?

Adaptar é se preparar para o que vem por aí. Preparar escolas para que elas ofereçam conforto térmico aos seus alunos e professores. Preparar espaços públicos para que eles igualmente ofereçam conforto. Preparar cidades, plantando  muitas árvores, ajudando as pessoas a fazerem telhado verde, criar oásis para servir de descanso às pessoas em dias com ondas de calor.

Inamara Mélo, diretora do Departamento de Políticas de Adaptação e Resiliência da Secretaria Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, contou que Entre as medidas presentes nas agendas do Ministério do Meio Ambiente está o AdaptaCidades, que visa apoiar dois mil municípios até 2035 com a facilitação de acesso a financiamento climático.

“Precisamos virar a chave e ampliar o engajamento das pessoas em relação a essa temática no Brasil”, disse ela.

Quando saí de lá decidi caminhar pelo Aterro, pelas ruas até o Largo do Machado. Fui imaginando como seria o mundo adaptado às questões climáticas. Algumas coisas que me ocorreram:

. Ruas com menos carros porque as pessoas praticariam mais a mobilidade ativa – bicicleta ou a pé – para deslocamentos. E bons, excelentes, transportes públicos, seja veículo leve sobre trilhos, metrô, ônibus elétrico;

. As escolas têm que ser aclimatadas, mas isso não quer dizer uso de ar condicionado, senão adeus adaptação. É preciso fazer obras, alargar muito as janelas, tirar aquelas grades e plantar muitas árvores no entorno de cada escola;

. De tantos em tantos quarteirões, um oásis. Com direito a água de graça e a jatinhos de água fria para refrescar. Sob árvores, claro;

. Nas ruas, em dias de muito calor, as pessoas deveriam se vestir de roupas leves, de linho, nada de poliéster. E chapéus. Temos que voltar a usar chapéus;

. Se ainda existirem moradores em situação de rua, a eles deverá ser dado água constantemente.

Tomara que, como deseja o presidente da COP30, haja uma cooperação internacional neste sentido. Confesso que acho mais viável. Enquanto isso, vamos desmamando do petróleo, mas como uma grande concertação, não apontando o dedo uns para os outros, denunciando este ou aquele país, mas percebendo que, para que o petróleo suma de nossas vidas, nós também vamos ter que colaborar. Mudando radicalmente nosso modo de vida.

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Um exército para salvar as árvores urbanas

No meio da manhã chuvosa de domingo,  o barulho da motosserra aqui na vizinhança arranhou meus ouvidos. Pus minha indignação nas teclas do computador e a lancei nas minhas redes.

Como ousam, ainda a essa altura, retirar árvores urbanas? Que elas adoecem, envelhecem e morrem, todos sabemos. Mas a humanidade precisa das árvores, não só para sequestrar o carbono que continuamos emitindo como se não houvesse amanhã, como para amenizar um pouco o calorão. É direito de todos nós, portanto, saber os motivos que levam pessoas a retirá-las.

Árvores urbanas. Foto tirada por mim, andando por aí

Não tardou para que uma vizinha me alertasse, também pela rede:

“A motosserra está tirando os galhos de uma árvore que caiu ali na esquina e causou um grande estrago, derrubando dois postes”.

Sim, a árvore caiu, doente que estava. Era imensa, bem alta. Não aguentou a chuvarada e o vento da primavera.

Mas nem de longe a minha indginação se arrefeceu. Pelo contrário.

Alguns meses atrás, em conversa com o Sr. Luiz, porteiro há anos no prédio em frente à árvore que caiu, comentei sobre ela, que havia chamado a minha atenção. Ela chamava a atenção por estar sem folhas. Cheguei a pensar que, realmente, ela não resistiria muito tempo em pé. Na ocasião, Sr. Luiz comentou comigo:

“Vai cair, todo mundo está avisando. Só quem não vê é a Comlurb. Se fosse no tempo da Fundação Parques e Jardins, eles já teriam solucionado”, disse-me ele.

Eu tentei relativizar, em favor da árvore:

 ‘O que eu queria mesmo é que um técnico viesse vê-la. Não sei se devemos condená-la assim”.

Pois na primavera, pouco depois dessa conversa, a árvore reviveu! Encheu-se de folhas, de onde brotaram umas flores lindas, de cor roxa. Sem saber que aquele seria o último suspiro da árvore, comemorei. E, é claro, não deixei de comentar com o Sr. Luiz.

“Viu? Quem diria, heim? Está ela aí, olha só: linda e florida”.

Sr. Luiz não se fez de rogado. Com um muxoxo, comentou:

“É, pode ser… Mas ainda acho que ela vai dar problema”.

Ontem, quando vi que tinha sido aquela mesma árvore que havia caído, além de comemorar o fato de não ter machucado ninguém, confesso que fiquei um tempo grande a olhar suas raízes. Não conseguia entender. Os técnicos disseram que ela estava cheia de cupim. Que lástima. Ainda não encontrei Sr. Luiz, mas tenho certeza de que ele, com razão, vai se vangloriar de sua sabedoria.

Quanto a mim, continuo indignada. É só conversar no entorno para que os vizinhos – e em todos os bairros – apontem uma, duas, três árvores que estão “a ponto de cair”. E por que nada é feito? Outras árvores vão precisar cair? E se, um dia, acertar alguém? Vamos ter que engrossar o coro dos que acreditam que “é melhor ladrilhar?”. Não, eu me recuso.

Do alto da minha nenhuma experiência administrativa, julgo-me, porém, como cidadã, capaz de dar sugestões. Aí vai. Que a prefeitura crie um exército formado por pessoas capacitadas para inspecionar todas as árvores urbanas. Algumas podem precisar apenas de remédios, podas, para que continuem mais um tempo oferecendo sombra e frescor aos moradores. Outras, como a que caiu, talvez precisem mesmo ser retiradas para não provocarem danos maiores (os vizinhos ficaram sem internet um longo período por causa dos fios que se romperam com a queda).

Vou abusar e estender minha sugestão. Que se recrute, para este exército, pessoas em situação de rua que estejam dispostas a trabalhar. E jovens que se interessem pelo tema. Receberão capacitação, salário, crachá, uniforme. E serão sempre muito bem vindos em todos os logradouros.

Que a morte daquela linda árvore, que deu seu último suspiro de maneira tão sensível, oferecendo flores a todos nós, não seja em vão. Quem sabe se, medicada, ela poderia ficar livre dos cupins e viver por mais alguns anos?

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Recordando tempos difíceis

Nem sempre consigo tempo para escrever aqui no blog. Os amigos já sabem disso, relevam ou não Meus leitores também sabem que, quando eu tenho um trabalho, preciso abrir mão de fazer essa extensão de pensamento que faço aqui, sempre tentando trazer autores que eu visito para entender melhor o mundo.

Hoje, porém, fiz contato com um texto que escrevi num passado, em tempos bem difíceis, quando vivíamos uma pandemia no mundo.

E vou reproduzir porque fiquei feliz quando li. Dei a ele o título de Crônica da Diversidade. Foi publicado em 3 de julho de 2020, e fico boba quando penso que já lá se vão cinco anos!

Começo o texto contando o ambiente do prédio onde vivemos.

Segue:

Tem gato que se chama Mio.

Tem cachorra que se chama Mia.

Tem o Beto cachorro, tem o Beto que zela pelo prédio. Tem também a Maria, cachorrinha velhinha e bem pimpona, respeitada até pelos dois irmãos caninos do segundo andar, lindos, a turma do barulho. 

Ah! E tem também o Che, passarinho danado de abusado que não quer saber do perigo. Vem aqui na minha janela beber água e deixa Mio e Zuda, do muro ao lado, com os olhos estatelados, lambendo os beiços. Mas Che é esperto, voa rápido que só ele. E só bebe água fresca. Se eu me esqueço de trocar, ele vai beber na vizinhança.

Tem palhaço! E tem palhaçada no corredor, a sério. O Café Pequeno, na verdade o ator Richard Riguetti, que vive de fazer arte para muita gente na rua e nos palcos, criou assim seu jeito de enfrentar a pandemia, esta mesma que obrigou todo mundo a ficar isolado. E a manter distância. Não se junta mais gente. Cadê a arte de rua? A foto do post é de uma apresentação, foi clicada por Juliana Garçon.

As crianças do prédio adoraram a palhaçada.

Tem gente que escreve, gente que lê e escreve, gente que cuida de gente! Isto tem mais de um. Tem jornalistas, assim mesmo, no plural.

E músicos, também tem! À tarde, é só esperar para ouvir o clarinete, o oboé…

Tem gente que faz cristais da boa energia e sai pendurando, dando para quem mais gosta. Tem vitrais que mais parecem com igreja, lindos.

É assim o prédio onde eu moro.

Pequenino, fica no fim da rua tranquila. Quando veio a ordem de ficar todo mundo em casa, foi um tal de um ajudar o outro, fazer compras, emprestar coisas. Manteiga, livro, açúcar, dendê… já rolou de tudo. 

 Quem sai, como eu, fica no quarteirão. É só para respirar e andar com a cachorrada. Ou pegar um solzinho com as crianças.

Mas não estou dizendo que vivemos em total harmonia. Até porque, como já estamos cansados de saber, essa tal de harmonia é só para inglês ver, para vender margarina aos que acreditam que a paz mundial tem uma receita única. Ou para fazer falsas promessas, que delas já estamos cheios.

Ser humano é diverso, cada um é um. Somos todos, como diria Friedrick Nietzsche, filósofo e poeta,  humanos, demasiado humanos. Portanto…já rolou discussão, muxoxo, um vira a cara para o outro, o outro vira a cara para o um.

Se tem muito barulho no prédio, nossa! Eu mesma viro bicho. Se aparece barata, ah… o Beto que zela pelo território vai ouvir…

Hoje acordei pensando nisto, hoje acordei acreditando na diversidade. A natureza é diversa, toda gente é diversa. Respeitar o poder da diversidade é uma das chaves que pode abrir as portas para uma civilização diferente. 

 Peguei da estante “Morte e vida das grandes cidades”,  de Jane Jacobs, lançado aqui pela editora Martins Fontes. Um livro gostoso de ler, com tanta informação que é impossível não identificar, nos pés e nas patas do meu prédio, o balé urbano sobre o qual ela fala. Um livro que quero sugerir aos leitores – sobretudo aos que estão estudando urbanismo –  porque estamos num momento de perceber, de abrir os olhos, de ficarmos atentos a tudo. Estamos num momento de acreditar que é possível mudar, que não podemos nos agarrar a uma fajuta “volta à normalidade”. Não depois de tudo que estamos vivendo. 

Jane foi uma super ativista social canadense, morreu em 2006 aos 90 anos. “Morte e vida das grandes cidades” foi seu grande gol, lançado nos Estados Unidos em 1961, que chegou aqui só no início deste século. O tema central é Nova York, cidade onde Jane viveu. Jane usa uma linguagem bem atraente, conta histórias a partir de sua própria vivência. E é deste jeito que vai construindo uma narrativa de oposição ao estilo higienizado e asséptico criado pelos arquitetos dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam). O Ciam foi uma instituição lançada na Europa nos anos 20, depois da I Guerra, para defender e difundir um ideário de arquitetura e do urbanismo modernos. Na verdade, para recuperar grande parte das cidades que foram derrubadas com os bombardeios.

Quando Jane lançou o livro, Brasília estava sendo construída exatamente sob os moldes de Le Corbusier, arquiteto que escreveu “Carta de Atenas”, livro do qual também gosto muito. Le Corbusier foi membro dos Ciam.  Na verdade, fico bem em cima do muro, entre um e outro plano de urbanismo. E decido gostar dos dois. 

Para Jane, cidade tem que ser diversa, pobre misturado com rico, rico misturado com remediado, todo mundo experimentando a vida. E assim vai se ajeitando. Não adianta impor um padrão, porque nós, humanos, não somos padronizados.

Le Corbusier constrói cidades que se adaptariam melhor à pandemia. Para ele, é preciso ter espaço entre as casas, é preciso que as ruas sejam setorizadas: comércio com comércio, banco com banco, empresa com empresa, residências com residências. Organiza mais. Por outro lado, tira a riqueza da diversidade.  

Fiquei enfeitiçada pelo texto de Jane. Uma frase, em especial, chamou minha atenção e está me ajudando a alinhavar meu pensamento: 

“Há um aspecto ainda mais vil que a feiura ou a desordem patentes, que é a máscara ignóbil da pretensa ordem, estabelecida por meio do menosprezo ou da supressão da ordem verdadeira que luta para existir e ser atendida”.

Estamos vivendo um momento especial no mundo, no  Brasil. Ainda mais no Rio de Janeiro. O professor e escritor Luiz Marques descreve assim no artigo que escreveu para o site da Unicamp, onde leciona:

“A atual pandemia intervém num momento em que três crises estruturais na relação entre as sociedades hegemônicas contemporâneas e o sistema Terra se reforçam reciprocamente, convergindo em direção a uma regressão econômica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recuperação. Essas três crises são, como reiterado pela ciência, a emergência climática, a aniquilação em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela indústria química”.

Ou seja: é um momento danado de ruim para se ter uma crise de saúde. 

Mas, já que não há outro jeito, o meu desejo é que a gente consiga sair dela com valores diferentes. Nem melhores, nem piores, mas diferentes. Para que isto aconteça, precisamos conhecer mais, descobrir autores que nos possibilitem reflexões. Eis a minha contribuição de hoje.

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Sem rodeios

Não quero ser arauto de más notícias, mas quero, como sempre, trazer dados importantes para a nossa reflexão cotidiana pós senso comum, se me permitem a expressão quase neologista. Ou despertar outros sentimentos, ampliar pensamentos – “Pensar com uma mentalidade alargada significa treinar a imaginação para sair em visita”, diz Hannah Arendt.

 Ou, como disse certa vez o engenheiro de sistemas Brad Werner em um encontro da American Geophysical Union, em São Francisco, sobre o acelerado esgotamento de recursos naturais impetrado pelo nosso sistema de produção e consumo atual, “a única coisa científica a fazer é se revoltar”*.

Bem, mas vamos direto à notícia: um estudo divulgado no jornal britânico The Guardian, com análises de 25 anos, mostra que compensações de carbono, como as que vêm sendo feitas mundo afora, não conseguem reduzir o aquecimento global “devido a problemas sistêmicos intratáveis”. Leia-se: excesso de emissões de gases do efeito estufa provocadas pelo nosso sistema de produção e consumo “as usual”.

Os empresários, a indústria, os diplomatas e negociadores das COPs, os líderes (não todos, mas…) têm se esforçado bastante, e disso ninguém tem dúvida. Mas, segundo Stephen Lezak, coautor do estudo, não está sendo bastante eficaz, pelo menos não em larga escala.

“Precisamos parar de esperar que a compensação de carbono funcione em larga escala. Avaliamos 25 anos de evidências e quase tudo até agora falhou”, disse ele à reportagem do jornal.

Outra pesquisa publicada na revista Nature Communications, abrangendo 14 estudos sobre 2.346 projetos de mitigação de carbono e 51 estudos que investigaram intervenções de campo semelhantes implementadas sem a emissão de créditos de carbono, descobriu que menos de 16% dos créditos de carbono investigados mostraram reduções reais nas emissões de gases de efeito estufa.

“Os mecanismos de crédito de carbono precisam ser reformados fundamentalmente para contribuir significativamente para a mitigação das mudanças climáticas.”, conclui o estudo encabeçado por Bento S. Probst, mas que envolveu outros nove pesquisadores.

Na lista de problemas apontados pelos pesquisadores e que levam à inoperância dos sistemas de créditos de carbono, há construções irregulares de parques eólicos e plantio de árvores que, depois, são incendiadas para abrir mão para o progresso.  

Isto quer dizer que não devemos mais expandir nossos mecanismos de compensações? Não. Mas quer dizer que precisamos parar um pouco de fazer isso de maneira irrefletida, ampliada, para ganhar terreno nas tecnosoluções para o aquecimento.

Donna Haraway, Anna Tsing, o japonês Kohei Saito, são apenas alguns dos pensadores da atualidade que estão chamando atenção para a inocuidade de processos que não olham de frente para o problema. Enquanto continuarmos a produzir e consumir do mesmo jeito, vamos ter que explorar os bens naturais até que deles não reste mais nada.

*A informação está na página 96 do livro “Ficar com o problema”, de Donna Haraway (N-1 Edições)

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Jose Eli da Veiga e o suspense da COP30

Vale a pena ler o artigo do professor José Eli no jornal Valor de hoje.

Acesse aqui: https://www.zeeli.pro.br/o-maior-suspense-da-cop30/

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Pensamentos curtinhos para embalar o domingo

Conheço o pequeno Cícero desde que ele ocupava um lugar tranquilo e seguro, na barriga da mãe, há cerca de 1 ano e meio. O casal tem também a Zabé, uma linda vira-latas. Como somos todos cachorreiros, portanto, passamos a nos cumprimentar. Acenos tímidos, saudações quase murmuradas, mas sempre algum contato.

Até que um dia o casal passou a caminhar com Zabé e um sling amarrado ao corpo, ora dele, ora dela. Lá dentro estava o feliz filhote, que eu ainda não sabia o nome.  Digo que ele é feliz porque os considero pessoas tranquilas. Não os conheço em profundidade, não compartilho de suas vidas, mas me parece que sonhamos sonhos bem parecidos para o futuro daquele pequeno.

Pois Cícero, hoje em dia, já é uma criaturinha que anda por aí cambaleante feito um patinho, a apontar tudo e todos.  Zabé e Beto foram o elo de ligação entre nós. E ele aprendeu a falar nossos nomes. Coisa mais linda e emocionante.

Na manhã de hoje, um domingo de sol frio e ventinho gelado, saí bem cedo a caminhar com Beto. Gosto quando a rua está vazia e adoro esse tempo. Vira uma esquina, vira outra, até que nos vimos. E Cícero, em seu carrinho empurrado pelo pai, apontou o dedinho, revirou a cabeça, chamando meu nome e de Beto. Atravessei, é claro, convocada por aquela delícia, e nos aproximamos.

Ofereci-lhe a guia de Beto e ele topou, na hora, ser o condutor.  Caminhamos assim, um pé depois do outro pé, sem pressa nenhuma.  

Até que Beto e Cícero estancaram. Nenhuma palavra ou latido, simplesmente ficaram parados, cada um olhando para um lado, acompanhando algo, um movimento, que só alguns instantes depois eu percebi: foi uma lufada de vento.

Paramos também, os adultos, e conseguimos respeitar aquele momento. O vento, o menino e o cachorro. Simplesmente contemplamos, por um tempo que não sei precisar porque, ali, era a última coisa que me importava.

O passeio acabou, Cícero foi para a padaria com os pais e eu segui para casa. Corri à estante. Queria preencher o momento com pensamentos nutritivos. ‘Sociedade do cansaço”, do coreano Byung-Chul Han (2015) foi o ideal. Excesso de positividade, de produção, empreendedorismo, dispõe nossa sociedade atual, que não é mais a sociedade do controle, cunhada assim por Foucault, mas a sociedade do desempenho.

Excesso também de informações, impulsos. E falta de tempo para a contemplação.

“Habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-de-si”, segundo Nietzsche. Capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.

Tudo o que não conseguimos mais fazer nessa sociedade do cansaço.

“O cansaço dá o compasso ao indivíduo disperso”, escreve o coreano. E como é bom poder sentir a  leveza de Cícero, Beto, e o vento a nos lembrar que a vida é muito valiosa e tem muito a nos oferecer. É só respeitar.

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Um artigo publicado na primeira página do vetusto The New York Times deste sábado (27) chamou minha atenção por causa do título: “Um adulto na sala sobre o clima”. Escrito por Li Shuo, diretor do Instituto de Políticas da Sociedade Asiática no setor de Mudanças Climáticas, o texto convence porque só traz fatos reais.

Shuo começa contando a visita que o então presidente Barack Obama fez à China, em 2017, para tentar pressionar o gigante asiático a acelerar seu processo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. No mesmo ano, assumiu a presidência Donald Trump que, como se sabe, é um negacionista do clima e minimiza constantemente todas as ações em prol da redução das emissões.

“A questão era que, ao contrário do Ocidente, onde os ciclos eleitorais restringiram ações climáticas consistentes, a China joga um jogo longo — planejando décadas para o futuro. E não gosta de fazer promessas que não pode cumprir”, escreve o especialista.

Acabamos de assistir, estarrecidos, ao discurso de mr. Trump nas Nações Unidas, no qual ele repetiu a bateria de declarações desacreditando a Ciência, o IPCC, o Acordo de Paris, e mandando um recado direto aos seus seguidores: “Cavem, cavem, cavem”.

A China, por sua vez, mostrou ao mundo que planeja reduzir as emissões de gases de efeito estufa de 7 a 10% até 2035. Os analistas acharam uma meta pífia. Shuo concorda:

“A China é o maior poluidor do mundo e, sozinha, queima mais da metade do carvão do mundo, o combustível fóssil mais poluente. De acordo com a pesquisa da minha organização, a China precisaria reduzir suas emissões em pelo menos 30% em relação aos níveis máximos até 2035 para se alinhar à meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global médio a 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais. O novo compromisso de Pequim claramente erra esse alvo”.

No entanto, diz ainda Li Shuo, a China se tornou uma superpotência mundial em tecnologia limpa. Seu domínio nas indústrias de energia solar, baterias e veículos elétricos deve permitir deve permitir que ela avance mais rapidamente. Diferentemente do Ocidente, onde as metas climáticas são mais ambiciosas, mas frequentemente vulneráveis a ciclos políticos, a China alinhou sua descarbonização com sua estratégia de crescimento econômico.

“Na prática, isso significa construir uma infraestrutura sistematicamente, cadeias de suprimentos sofisticadas e um mercado interno previsível para energia limpa”.

Ou seja: é preciso ter políticas que não sejam vulneráveis a crenças de tal ou qual político. Políticas de estado, não de governo. Globalmente a decisão foi tomada em 2015, quando os países assinaram um tratado internacional, o Acordo de Paris, para limitar o aquecimento a 1.5 grau e fortalecer a capacidade de os países lidarem com os impactos das alterações climáticas.

Para levar a sério, é preciso mesmo ter um adulto na sala.

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A era dos paradoxos mostra sua cara

Talvez por coincidência, ou por decisão editorial, fato é que duas notícias ocuparam o espaço nobre no alto do portal G1 hoje. E são o retrato mais fiel do mundo dos paradoxos que estamos vivendo.

Em cima, a morte trágica do chinês Kongjian Yu, um dos arquitetos mais famosos do mundo, que pensou as “cidades esponja”, um conceito absolutamente revolucionário. Nada muito sofisticado, apenas o  aproveitamento da própria natureza para diminuir os impactos causados pelos eventos extremos em centros urbanos. Ele criou 70 cidades assim em todo o mundo. Se mais tempo tivesse de vida, mais seria capaz de fazer.

Logo abaixo da notícia de morte tão precoce e infeliz, uma reportagem mostrava o planejamento de construção de mais cinco data centers nos Estados Unidos.  Investimento de 500 bilhões de dólares para acelerar o ChatGPT que, sim, se por um lado tem um peso grande em inovações capazes de ajudar a Medicina, por outro amplia muito as emissões de GEE na atmosfera e, consequentemente, ajudará a intensificar os eventos extremos. Noves fora: estão ganhando dinheiro demais e, como é de praxe, vão querer acelerar ao infinito esses data centers, a despeito de a ciência já ter demonstrado que eles são poluentes.

Na mesma home, pouco mais abaixo, a notícia do relatório do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK) dá conta de que a Terra já rompeu com sete dos seus nove limites planetários. Trocando em miúdos: mais um estudo científico demonstrando aquilo que o presidente Trump, em seu discurso monocórdico na ONU ontem,  fez questão de dizer que é mentira: o aquecimento global vai causar ainda mais eventos extremos, que acontecerão com mais intensidade.

E já que estou falando o tempo todo sobre paradoxos, vale a pena fechar este mini texto com boa notícia. O presidente Lula, que está orgulhando o país com suas manifestações nos Estados Unidos – belíssimo discurso na ONU – , ontem mesmo anunciou um aporte de 1 bilhão de dólares  para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês). Já o nome do fundo achei simpático. A ideia, então, melhor ainda: ajudar países que têm florestas tropicais a mantê-las.

O presidente Lula, que está com uma verve particularmente iluminada nesses dias, resumiu assim o propósito do Fundo, segundo a Agência Brasil:

“É um mecanismo para preservar a própria vida na Terra. As florestas tropicais prestam serviços ecossistêmicos essenciais para regulação do clima. Abrigam as maiores reservas de água doce do mundo, protegem o solo, armazenam oxigênio e absorvem gás carbônico”.

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Brasil é o país que mais consome produtos via internet da América Latina

O par de sapatos da foto tem 15 anos de idade.

Acabo de trazê-lo do sapateiro. Ganhou sola, salto, foi escovado e ainda vai render belas caminhadas.

Tenho certeza de que esta não é uma novidade para a maioria dos leitores aqui do blog. Recuperar coisas em vez de trocá-las por novas já deve fazer parte da rotina de quem se preocupa com o estado atual das coisas.

Mas estou trazendo aqui por dois motivos: primeiro, porque fiquei super feliz com o meu par de sapatos renovado. É confortável, bonito, e se eu fosse comprar agora um semelhante, pagaria no mínimo três vezes mais do que paguei pelo conserto. Check!

O segundo motivo é que, no caminho de volta para casa, com meu par de sapatos renovado na bolsa, minha memória buscou uma reportagem que fizemos para o caderno “Razão Social” (do qual fui editora e que se acabou em 2012, como sabem os que aqui me acompanham). A reportagem saiu publicada em outubro de 2011 com o título “Ainda tem conserto”, e tratava do nosso consumo, ou melhor, consumismo.

Tenho insistido muito no pensamento de que, para agirmos verdadeiramente com respeito ao ambiente que nos cerca, o ideal é reduzir produção e consumo. E sei que isto não é fácil, que há implicações sérias na proposta. Vamos imaginar, por exemplo, que a grande maioria das pessoas fizesse o mesmo que fiz. Como resultado, nesta ficção que estou me dando o direito de criar, as fábricas de calçados teriam uma baixa em sua produção. Teríamos desemprego? Como sair desse imbróglio?

Para escrever a reportagem, a jornalista Camila Nóbrega visitou, à época, algumas lojas no Centro do Rio de Janeiro que ainda se mantinham com o conserto de objetos. Como já se passaram 14 anos, e tivemos uma pandemia no meio desse caminho, penso que hoje, infelizmente, muitas delas já devem ter fechado as portas.

Há dados interessantes na reportagem, cuja foto de capa, linda, foi feito pelo nosso repórter fotográfico Carlos Ivan. Vale a pena revisitar alguns desses dados, e fazer uma análise comparativa com o momento que estamos vivendo hoje. Sempre com a ideia de refletir sobre o que estamos falando, de verdade, em um momento em que a sustentabilidade vai voltar aos holofotes com a COP30, em Belém.

A população do Brasil em 2011 era de 195.3 milhões de pessoas e em 2024 éramos 212 milhões.

Em 2010, segundo a Anatel, os brasileiros compraram 29 milhões de celulares. Em 2024, segundo dados da Consultoria IDC, foram 40 milhões de celulares adquiridos.

Em 2011 o e-commerce (comércio digital) não era ainda muito relevante, já que a prática de fazer compras pelo celular ou computador ganhou espaço por conta da pandemia. Segundo o site Agora Deu Lucro, o Brasil é o décimo país que mais faz compras via internet do mundo. E o maior da América Latina. A média, até agora, é de 94 milhões de compradores.

Quando a reportagem foi publicada, a Política Nacional de Resíduos Sólidos tinha acabado de ser regulamentada (2010). Na época, os brasileiros geravam 170 mil toneladas de resíduos por dia, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Esta associação se juntou a outras e se tornou a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), que lançou um relatório no ano passado, onde consta que cada brasileiro gerou, em média, 1,47 kg de resíduos urbanos por dia em 2023.

Quanto ao lixo eletrônico, ou seja, aparelhos de televisão, dvds, notebooks, câmeras e outros itens que passaram a fazer parte de nossas vidas neste século, a ONU  aponta que o Brasil é o maior produtor desse tipo de resíduo na América Latina, gerando 2,4 bilhões de quilos anuais. No mundo, em 2010, segundo a ONU foram gerados 34 bilhões de quilos de resíduos eletrônicos. Em 2022, este número chegou a 62 bilhões de quilos. Não é pouca coisa.

Como era de praxe em nossas reportagens, ouvimos uma pessoa para debater sobre o tema. Maria Cecília Prattes, economista e doutora em administração, foi certeira. Comentou sobre os hábitos de consumo, e apresentou algumas soluções para o imbróglio que tanto nos preocupa: baixar o consumo vai reduzir também a empregabilidade?

Prattes apontou algumas soluções para gerar empregos, investindo em áreas cruciais para a população, como saúde, educação, turismo, hotelaria, restaurantes.

“A indústria não pode ser a única fonte de empregos”, vaticinou a pesquisadora em 2011.

E assim termino esse texto. Graças a um belo par de sapatos recuperado, pude fazer contato com informações e reflexões que enriqueceram meu dia. E, o que é melhor, compartilhar com vocês.

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