A importância de se ter um marco legal para a biodiversidade, na visão do presidente do Instituto Ethos

O presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão, escreve sobre a importância de se ter um novo marco legal para a biodiversidade. O artigo, na íntegra, está abaixo.

 

“Um novo marco legal para a biodiversidade

 

“Nosso caro leitor sabe do que é feito o xampu que usa diariamente? Esse
produto muito provavelmente contém algum princípio ativo extraído da
flora brasileira, como o jenipapo, do Cerrado, o mandacaru ou o juá,
da Caatinga, e o guaraná ou o jaborandi, da Amazônia. Aliás, vários
desses produtos são usados também como alimento e na produção de
medicamentos. O jaborandi, por exemplo, contém a pilocarpina, uma
substância que é usada na produção de colírios para o tratamento de
glaucoma.

“Todos esses produtos naturais estão à nossa disposição graças à imensa
biodiversidade do nosso país, ou seja, a enorme riqueza da flora e da
fauna brasileiras – a maior do mundo –, distribuída em biomas tão
variados quanto a Floresta Amazônica, a Caatinga, o Pantanal, a Mata
Atlântica, os Pampas e a área costeira.

“Mas a mera existência desses produtos de nada adiantaria se não fossem
os conhecimentos sobre a sua utilização prática que os povos tradicionais,
como os indígenas, os caiçaras e os quilombolas, vêm acumulando e
preservando ao longo de séculos sobre as mais variadas aplicações da
flora e da fauna do país. No entanto, a remuneração sobre isso não vai
para os indígenas ou para as comunidades locais, que são os verdadeiros
detentores do conhecimento sobre o potencial de determinadas plantas,
mas sim para as indústrias que registraram o princípio ativo delas como
sua propriedade.

“Um exemplo clássico de apropriação de um produto da flora brasileira
foi o caso do cupuaçu, no começo da década passada. Uma empresa
japonesa simplesmente registrou e patenteou como sua propriedade
o nome dessa fruta tipicamente amazônica, em escritórios de marcas
do Japão, dos Estados Unidos e da Europa. O governo brasileiro reagiu
duramente, com o argumento de que “cupuaçu” é o nome próprio de uma
fruta amazônica, assim chamada há milênios por índios do Brasil e do
Peru. Ainda assim, a batalha contra esse registro levou cinco anos, até ele
que acabou cassado em todas as praças em que vigorava.

“Uma das formas de corrigir essa imensa injustiça em relação aos
povos tradicionais é garantir uma repartição justa e equilibrada dos
benefícios recebidos por meio do nosso patrimônio genético. E esse é
um dos objetivos de um anteprojeto de lei que deve ser encaminhado ao
Congresso pela Presidência da República com o propósito de estabelecer uma nova legislação para a exploração da biodiversidade no país, isto é, um novo marco legal.

Outro objetivo dessa nova legislação é facilitar o acesso a esse patrimônio e ao conhecimento tradicional sobre ele, reduzindo as barreiras impostas pela legislação atual ao seu uso em produtos comerciais. O marco legal em vigor foi criado em 2001, quando a grande preocupação do país era se proteger da biopirataria (a exploração de nossos recursos naturais sem autorização). Por isso, ele colocou tantos obstáculos que o acesso ao patrimônio genético brasileiro foi dificultado até mesmo para os pesquisadores das universidades.

“Daí a importância se voltar a levantar a questão da ratificação do
Protocolo de Nagoya, que trata exatamente do acesso a recursos
genéticos e repartição justa e equitativa dos benefícios advindos de
sua utilização. No ano passado, a presidente Dilma Rousseff enviou ao
Congresso uma mensagem solicitando essa medida, mas até agora não
houve nenhuma resposta. Espera-se que o tema volte à pauta quando for
debatido o texto do novo marco regulatório.

“É importante salientar que, para a construção da proposta de uma nova
legislação, o governo vem mantendo um amplo diálogo com empresas de
medicamentos, cosméticos e produtos alimentícios , com as comunidades
tradicionais e também com cientistas, envolvendo os ministérios do Meio
Ambiente e da Ciência e Tecnologia.

“Nós, do Instituto Ethos e do Movimento Empresarial pela Biodiversidade
– Brasil (MEBB) sempre fomos favoráveis ao estabelecimento de um novo
marco legal e por isso apoiamos a iniciativa do governo. No entanto,
não foi estipulada uma data para o envio desse anteprojeto de lei ao
Congresso, o que nos parece preocupante.

“A criação de um novo sistema de acesso aos recursos genéticos do
Brasil e de repartição de seus benefícios é também um dos grandes
objetivos do MEBB, que foi lançado em 2010 para mobilizar empresários
e ONGs brasileiras em favor do estabelecimento de uma cultura de uso
sustentável da biodiversidade no âmbito dos negócios. Em 2012, o MEBB
se reuniu com um grupo mais amplo de associações empresariais a fim
de construir uma proposta para esse novo marco legal, um texto que não
trouxesse insegurança jurídica para as empresas, estimulando assim o
desenvolvimento tecnológico com base na biodiversidade brasileira.

“Durante o VI Seminário do Fórum Amazônia Sustentável, no final do ano
passado, o MEBB abriu um diálogo com as comunidades tradicionais ali
representadas. Todos se comprometeram a continuar com o processo
de diálogo na busca por um consenso entre o setor empresarial e as comunidades e colaborar para que o novo marco legal seja aprovado o mais rápido possível.

“É por essa razão que, embora achemos louvável a iniciativa da Presidência
da República de enviar esse anteprojeto ao Congresso, insistimos para
que sejam estabelecidos prazos concretos para a discussão e aprovação
dessa legislação, que será de suma importância para as comunidades
locais, para as empresas e para a preservação da nossa biodiversidade.

 

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Os bastidores em Túnis, capital do Fórum Social Mundial

O Fórum Social Mundial terminou sábado. Com a participação de 35 mil pessoas em cerca de mil oficinas e debates, fica difícil mesmo que se consiga ter uma única notícia nova, fresquinha, para divulgar. O próprio site oficial do Fórum está meio desaquecido.  É sabido que a análise da situação econômica mundial, que deu origem às primaveras árabes, foi o tom das discussões. No final do evento houve uma manifestação de solidariedade com a Palestina e o encontro rendeu uma Declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais que, de verdade, não contém nenhuma grande novidade, nenhuma grande manchete.  É que ali as decisões não são tomadas como no Fórum Econômico, onde persiste a bilateralidade.

O FSM se comporta como a sociedade: é múltiplo, é diverso. Abraça várias correntes, dá voz a cada uma delas. No texto da Declaração final,  consegue-se extrair alguns consensos:

“Pela justiça climática e a soberania alimentar”

 “Contra a violência contra as mulheres”,

 “Pela paz e contra a guerra, o colonialismo, as ocupações e a militarização dos nossos territórios.”

São  reivindicações  tão  óbvias, tão antigas e, ao mesmo tempo,  ainda tão necessárias. O FSM, hoje, é quase uma espécie de arena que deveria abrigar a multiplicidade. Uma espécie de arena que deveria funcionar para que uns pudessem contar para outros suas experiências, como conseguiram  escapar do laço, fazer diferente, criar nova moeda, novo jeito de gerir uma empresa, de medir as riquezas de um país, de respeitar a potência não das armas, mas das pessoas.

Usei o verbo no modo condicional porque, de verdade, segundo os próprios organizadores, o FSM nunca  conseguiu ter tanta agilidade na hora de facilitar o acesso a quem não pôde, por exemplo, pagar passagem ou hospedagem.  Assim, fica comprometida a proposta de ser um espaço de todos para todos. Mas a mensagem – “Um outro mundo é possível” – veiculada desde o primeiro Fórum (realizado em Porto Alegre em 2001), também continua, assim como todas as lutas.

Uma equipe brasileira, do Instituto Brasileiro de Análise Social e Econômica (Ibase), esteve em Túnis e a  coordenadora de comunicação do Instituto e ex-repórter do Razão Social, Martha Neiva Moreira, estava junto.  Com o olhar sensível de repórter que respeita e enxerga as singularidades, Martha fez praticamente um diário de bordo em sua rede social, com detalhes super interessantes e relevantes sobre o local.  Peço licença então à Martha, que a esta altura ainda deve estar sob o céu mediterrâneo, para juntar todas as informações numa espécie de entrevista virtual aqui no blog. As perguntas, feitas por mim mas ainda não lidas por ela,  se encaixarão nas respostas.  E as fotos, é claro, também são dela.

Qual foi sua impressão inicial sobre Túnis?

Martha Neiva Moreira –– Túnis tem onze milhões de habitantes. É grande. Tirando a Medina (cidade antiga) não tem uma arquitetura árabe tradicional. Vive do turismo e de doações anuais de tunisinos que moram especialmente na Europa. Depois da Primavera Árabe, o Henade — partido formado por muçulmanos que durante a luta pela libertação do domínio francês (na década de 40) estiveram na prisão —  tomou o poder. Não são radicais. Mulheres usam véu se quiserem. Aborto é legalizado. E o nível de escolaridade é bem alto. A União Geral dos Trabalhadores é bem atuante aqui. São eles que estão garantindo a expressão da sociedade civil neste “dia seguinte” da Primavera Árabe e, por isso, estão na organização do Fórum Social Mundial. A Tunísia é um país muçulmano. Portanto bebida alcóolica não circula com essa facilidade. Os homens reunem-se em cafés para beber chá, ou outra bebida quente, e fumar uma espécie de narguilê.  A medina, ou cidade velha, é bem interessante com suas ruelas estreitas. O mercado é o legítimo Saara. Com milhões de lojinhas, com objetos lindos de prata, bronze, tapetes, tecidos maravilhosos e temperos. As ruas são agradáveis de se andar, com uma arquitetura afrancesada mesmo – prédios claros, com sacadas em ferro. Em algumas há trilhos para um veículo elétrico que circula pela cidade. Um delícia para se andar. Túnis é azul e branca.tunis3

Como estava o clima em Túnis por conta do FSM?

Martha Neiva Moreira — O FSM deste ano reuniu 35 mil pessoas, segundo jornal local. O clima de esperança e otimismo entre os participantes está parecido com o primeiro Fórum, em Porto Alegre. A cidade estava cheia e, na universidade El Manar, onde aconteceram as atividades, havia muita música. As mulheres africanas deram show onde foram, com os cantos de trabalho que entoam. Elas costumam dizer que, na África, política se faz cantando. Aliás, neste Fórum, as atividades que tratam das questões femininas tiveram um espaço próprio (vou contar sobre isso em uma matéria do Canal Ibase – http://www.ibase.org.br). Numa Tunísia pós-revolução, direito das mulheres é um tema importante. Na assembleia das mulheres, que abriu as atividades em El Manar, cerca de 800 moças, muitas em seus trajes típicos, denunciaram especialmente a violência contra mulher. Na Tunísia, os casos aumentaram depois da revolução. O estado ainda é de transição e não há, por aqui, mecanismos de controle. A constituição do país está sendo reescrita e o artigo que trata de direitos das mulheres é um dos mais polêmicos. Em Túnis há poucas mulheres circulando nas ruas, gentileza de homens com o sexo feminino é inexistente e o assédio de homens às estrangeiras é descarado. Para se ter uma ideia da discriminação, no interior do país, muitos restaurantes não têm sequer banheiros femininos. Só masculinos. E as associações de mulheres aqui estão começando a se organizar para sair da clandestinidade.

O FSM começou com uma marcha das mulheres. Depois da Primavera Árabe elas foram desobrigadas a usarem o véu. Ou seja: a questão de gêneros aí é um ponto realmente sensível, pelo que se observa…

Martha Neiva Moreira — Vi muito mais homens que mulheres nas ruas daqui. Mas quando precisei usar o Metro para me locomover tive uma noção breve da questão de gênero por aqui. Eu estava com uma tremenda  dor nas costas porque tinha andado muito durante o dia e quis me sentar. Não havia lugar. Quando me dei conta vi que, naquele vagão, todas as mulheres estavam em pé. Os homens é que estavam sentados (e outros de pé, porque estava cheio o vagão). Simples assim.

A falta de obrigação do uso do véu então foi só um passo pequeno numa luta gigante, é isso?

Martha Neiva Moreira – Em nossa visão ocidental, sim. Mas tive a oportunidade de entrevistar, por exemplo, uma menina de 21 anos chamada Aya Bouchmila (na foto).tunis1Ela  estuda Engenharia Industrial na Universidade de El Manar, em Túnis. Usa o nikab porque quer, embora as mulheres na Tunísia não sejam mais obrigadas, desde a Primavera Árabe, a usar o hejab (o véu) muito menos esta espécie de burca. Aya usa por questões religiosas. Ao acordar veste o traje e só tira na hora de dormir. Em casa pode ficar sem, se quiser. Aproveitou a ocasião do FSM para protestar, junto com mais vinte mulheres estudantes da universidade que também usam o manto, contra a universidade que quer proibí-las de fazerem as provas porque usam a roupa. Ela diz que quer ser respeitada na sua crença. Viva a diferença, sem dúvida, mas para nós, mulheres ocidentais, é muito opressor vê-las cobrindo o corpo desta forma. É uma sensação bem estranha. Até as mãos são cobertas com luvas.

Agora, conta como são os costumes gastronômicos daí..

Martha Neiva Moreira — Cuscus é o prato nacional. Vem acompanhado de grão de bico, carne (carneiro, peixe ou frango) e legumes. Custa, em média, seis dinares (mais ou menos  R& 6). Em todos os  lugares há, também, locais vendendo frutas secas. Tâmaras, passas, figos, damasco, banana, pera, castanhas, nozes, grão de bico etc. Custa pouco mais de dois reais 100gr.

Para quem quer ainda mais detalhes, basta ir ao Canal Ibase (www.ibase.org.br) que lá estarão as reportagens não só de Martha como de outras pessoas do Ibase sobre o FSM.

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Um país e um encontro movidos a dignidade

Embora pouco se comente por aqui, o Forum Social Mundial, com previsão de mais de 70 mil participantes, continua acontecendo em Tunis, capital da Tunísia. Uma equipe do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) está por lá, mandando notícias  que vão para o site (www.ibase.org.br). O último texto, de Maria Luiza Franco Busse, conta como são recebidos os visitantes no campus da universidade onde acontecem a maioria das atividades. É assim: “Bem vindos à Tunísia, país da revolução”.

A repórter conta que liberdade é a palavra-chave que encanta os tunisinos e que, mesmo em péssimas condições econômicas, a luta maior do país é por dignidade.  “ O forte sentimento de liberdade demonstra ter ainda muito fôlego para pagar o preço da retração de investimentos que se mudaram para Marrocos e Argélia, da gasolina que teve aumento de mais de 50% e do desemprego que saltou de 18 para 30%.”, diz o texto.

Lá, todo mundo privilegia a liberdade porque ainda se lembram, de memória muito recente, como é viver sem.  E é nesse cenário de palavras tão bonitas que acontece o FSM. Vejam abaixo as últimas notícias de lá:

“O Brasil, pais de origem do Fórum, está presente com pelos menos 35 organizações, entre elas, Primatas da Montanha, ONG ligada à Escola de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto, Fábrica de Imagens, Ações Educativas (Ceará), Confederação Nacional das Associações de Moradores, Rede Brasileira de Pesquisa em Nanotecnologia, Casa Macunaíma de Fóruns e Ações dos movimentos sociais, Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Sul, Instituto Paulo Freire, Departamento de Regularização do Solo da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Aripuanã(AM), Sindicato Nacional dos Aeroviários, Central Sindical e Popular onlutas, Teatro do Oprimido, Advogados Sem Fronteiras, Fundação Perseu Abramo e Fundação Mauricio Grabois.

O destino do FSM também é tema de atividade. Desde o racha em 2003, quando alguns fundadores saíram por quererem mais ação politica, a cada ano o Fórum vem se firmando como evento missionário de troca de experiências e debates sobre alternativas ao modelo capitalista – que tem a guerra e o dinheiro como princípio. Mas há vozes dissonantes. Entretanto, pelo que se pode perceber em Tunis, a revolução deu fôlego à proposta que vem prevalescendo. Todos tem algo a dizer, querem se ouvir e estão dispostos a garantir e preserver esse espaço de encontro, apesar de todas as críticas.”

 

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Sustentabilidade e empresas. O que é real, o que é só para inglês ver…

Meu dia de terça-feira teve dois momentos muito interessantes e proveitosos para o tema que me afeta, a sustentabilidade. Quero compartilhar aqui.

Na hora do almoço aceitei o convite feito pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social para a imprensa carioca. De uma conversa informal com o vice-presidente da entidade, Paulo Itacarambi, colhi bons frutos para reflexão e futuros debates. Atuando desde 1998 com a missão de apresentar às empresas o caminho de uma atuação responsável e sustentável, o Ethos está, neste momento, sentindo falta da presença mais forte do governo para que se possa falar, verdadeiramente, numa agenda sustentável para o país.

— O Brasil tem condições, tem recursos naturais, poderia construir uma marca – made in Brazil – sustentável. Para isso é preciso criar uma massa crítica política e empresarial nessa direção – disse Itacarambi.

De minha parte, penso que essa agenda sustentável depende, sim, de uma atuação mais forte do governo, mas não de ações isoladas como foi o Contratações Públicas Sustentáveis, programa lançado em 2010 pelo governo Dilma Roussef, que ganhou um reforço ano passado por conta da Rio+20.  O programa criou uma lista de 550 produtos  sustentáveis que devem constar das compras do governo e tem meta de ampliar essa lista. É uma grande iniciativa, mas não pode ser solitária.

Itacarambi foi além e disse que o governo deveria criar uma Agenda Nacional de Sustentabilidade.  Lembrei-me, no entanto, de buscar exemplos internacionais. Como seria isso em outros países? De verdade, cada um acaba assegurando seu próprio canto, de acordo com as privações que mais assustam. Os Países Baixos, por exemplo, criaram um Fundo de 1 bihão de euros para se adaptar às mudanças climáticas. Mas o pavor deles se justifica: como já ficam abaixo da linha do mar, o descongelamento das geleiras do Ártico, ali pertinho, pode realmente aumentar o nível das águas e deixá-los numa situação bem precária. É bom se prevenir. Já com relação a dar ajuda aos países ilhas do Oceano Pacífico que ficarão na mesma situação… bem, isso ainda está fora de cogitação.

Ou seja: o céu é de todos, a natureza é de todos, mas as questões ambientais e sociais vão sendo resolvidas caso a caso. Com certeza não é o que se quer quando se pensa num mundo sustentável.

Mas, se por enquanto o possível é agir localmente, que bom que existem bons casos, exemplos legais que podem deveriam  ser replicados para se alcançar parte de tal agenda. Itacarambi lembrou-se do recém-lançado Guia de Construções Sustentáveis da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, uma  entidade sem fins lucrativos com 64 sindicatos e associações do setor da Construção Civil, um dos mais sensíveis no tema  sustentabilidade, não só por ser poluente como porque há muitas questões trabalhistas nas empresas.

Fui ao site da Cbic (www.cbic.org.br) conferir o Guia e fiquei bastante entusiasmada com o que li. Sobretudo porque justamente hoje se está lidando, aqui no Rio, com uma questão delicada envolvendo o fechamento do estádio Engenhão. Construído há seis anos, o estádio já apresenta deslocamento 50% maior do que o previsto no projeto e, segundo reportagem do site do Globo, custou bem caro, R$ 380 milhões à época. Não sei em que condições ele foi construído, mas com certeza, agora, as empresas que vão assumir a restauração já têm um guia para norteá-las com relação às melhores práticas que evitarão uso abusivo de recursos naturais e o uso desrespeitoso dos recursos humanos, o que pode acabar redundando em economia.

O Guia da Cbic pretende ser uma espécie de plataforma para ser usada pelas associações, sindicatos e empresas ligados a eles. Só para ter uma ideia do que estou falando, o texto elege temas prioritários para o setor: água; desenvolvimento humano; energia; materiais e sistemas; meio ambiente, infraestrutura e desenvolvimento  urbano; mudanças climáticas; e resíduos.  Em outro texto, a Cbic  diz que “entende que condições dignas de moradia e infraestrutura são premissas para garantir o acesso pleno da população a direitos fundamentais, como saúde, educação, trabalho, mobilidade, segurança, água, energia, entre outros.” Não é uma coisa boa de ler?

Assinado por Paulo Safady Simão, presidente da Cbic, o documento  reúne propostas e diz que elas são fundamentadas em experiências concretas “que mostram que é possível viabilizar no Brasil uma indústria da construção sintonizada com os conceitos mais avançados já em prática em todo o mundo.”

Se você, caro leitor, já está pensando que tudo isso não passa de boas intenções , da série “muito bom para ser verdade”, deveria ter ido ao meu segundo encontro, em Copacabana, no Teatro Sesc Rio, para o lançamento do livro “Diálogos Sociais”, excelente iniciativa do Sesc junto com a ONG Cieds (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável).  Numa espécie de ágora, com as cadeiras expostas em círculo, passamos duas horas bastante produtivas discutindo questões como a sustentabilidade das empresas, a função das mídias sociais, o mundo dos negócios, o mundo social. Fui convidada para atuar como uma espécie de incentivadora do diálogo, e para a tarefa tive a companhia do professor da UFRJ especialista em sustentabilidade, Cid Alledy. Na plateia, representantes de ONGs e associações (veja na foto).sesc

O resultado do encontro vai ser reproduzido numa publicação que será lançada ano que vem, portanto não vou me estender muito para que vocês possam ficar curiosos e acompanhar o processo de produção. Mas não consigo deixar de compartilhar a linha mestra do nosso debate. Foi bem rico. E a questão do real envolvimento das empresas em prol de um mundo melhor, sustentável, foi um dos pontos.

Alledi lembrou de casos recentes, bem cabeludos, onde empresas foram flagradas em situações que causaram impacto negativo nas redes sociais. E o quanto isso poderá custar a sua imagem (como Unilever e Nestlé, denunciadas pelo Greenpeace). Eu fui um pouco mais atrás, trazendo da memória a história da Nike, que foi denunciada, em 1996, por um repórter da revista americana Life, por manter trabalho infantil em sua cadeia produtiva. Na reportagem, um menino com cerca de 6 anos costurava uma bola com o símbolo da Nike. Detalhe: ele ganhava 0,6 centavos de dólar por hora de trabalho.

Até que ponto essas denúncias realmente mancharam (mancham) e verdadeiramente prejudicaram (prejudicam) a imagem das empresas? Não dá para responder. O que se tem, hoje, é uma ferramenta mais poderosa nas mãos (blogs, facebook) que faz com que a denúncia chegue muito mais rápido. Mas, será que o dano também não se desfaz rapidamente?

São questões interessantes, que animam a vida e enchem de reflexões  uma blogueira que escreve sobre questões sustentáveis. Divido com vocês. É minha arte e é meu prazer.

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Assembleia de mulheres marca hoje o início do Forum Social Mundial em Tunis

A partir de hoje e até o dia 30 de março, a capital da Tunisia, Tunis, recebe gente do mundo inteiro para  o décimo segundo Forum Social Mundial. Este ano, além das inúmeras atividades que caracterizam o Forum como um espaço aberto a múltiplas iniciativas e debates sobre temas importantes para a humanidade, haverá um movimento chamado Espaço do Clima. Vai ser uma espécie de Forum permanente, dentro do FSM, para discutir as causas, os impactos e estratégias para tratar das mudanças climáticas, sobretudo com relação aos países pobres.  Segundo o site do Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo (Grap), os organizadores desse espaço, as mudanças climáticas são responsáveis por cerca de 400 mil mortes por ano em todo o mundo.

A escolha da cidade onde começou a Primavera Árabe, espalhando para outros países da região um movimento pró-democracia, não foi à toa. Segundo Chico Whitaker, um dos fundadores do FSM, “o grande desafio de Tunis, hoje,  é não abandonar a democracia”.  É preciso lembrar que no mês passado o assassinato do líder de oposição, Chukri Belaïd, fez com que a cidade revivesse movimentos de intensa mobilização social.

—- Os integrantes do  Comitê de Organização do FSM imediatamente se mobilizaram para condenar esse crtime. Um comunicado assinado por mais de uma centena dos membros do Conselho Internacional do Forum assinala que esse crime não poderá frear o processo iniciado pelos democratas tunesinos a quem somos solidários. Estamos convencidos  de que as forças democráticas saberão manter a convicção profunda de preferir a resolução pacífica dos conflitos como caminho para se avançar no processo democrático. E, mais do que nunca, estamos convencidos da necessidade da mobilização internacional para assegurar o sucesso do FSM 2013 — disse Whitaker em entrevista para o site do Grap.

Whitaker acredita ainda que o Forum será uma excelente oportunidade para se conseguir encontrar com pessoas que virão de todos os cantos do país e, assim, saber detalhes sobre a Primavera Árabe.

Fundamentais na Primavera Árabe, as mulheres terão uma forte atuação também no FSM. Hoje, desde as 10h elas estarão reunidas em Assembleia no Campus Universitário de Tunis.  Será um espaço para dividir experiências e para falar sobre as diferentes formas de luta e resistência contra as violações dos direitos das mulheres em todo o mundo.

Depois desta Assembleia, espera-se uma caminhada dos 30 mil participantes e representantes de organizações , redes e movimentos de todo o mundo que sairão da Praça 14 de janeiro. Até ontem, segundo o site do FSM, 4.578 organizações de 127 países se registraram para participar das atividades do Forum. Haverá mil organizaciones se han registrado para participar en las actividades del FSM, además de 30.000 participantes de 127 países repartidos por los cinco continentes. Haverá mais de mil oficinas, 70 espetáculos musicais do mundo todo, cem filmes, 50 exposições e outras atividades.

O encerramento oficial, no dia 30 de março, será marcado por uma marcha de apoio ao povo palestino no Dia da Terra.

Á medida do possível, pretendo ir dando notícias sobre o FSM aqui no blog.

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Diante dos desafios, o melhor a fazer é ouvir

Fabián Echegaray, a quem vocês já foram apresentados neste post (https://ameliagonzalez848.com/2013/03/15/incoerencia-tambem-vem-de-empresas-e-governo-diz-echegaray/), mandou-me esse texto, de autoria dele, escrito há cerca de um ano. Tem o sugestivo título de “A hora da escuta” e pode ser mais uma excelente chance de se pensar a sustentabilidade empresarial como um processo complexo, que tem muitas possibilidades e que ainda está em andamento, assim mesmo, no gerúndio.

É importante perceber que pensar em sustentabilidade, pelo menos da forma que eu acredito, é também deixar de lado o discurso maniqueísta que tanto nos invade o dia a dia. Não existem empresas boas nem más, vilões ou mocinhas. Existem empresas que querem se estabelecer de maneira diferente num planeta que cada vez mais se apresenta também diferente e novo a cada instante, com desafios no campo ambiental, social e econômico. terra-small (1)

Transcrevo, na íntegra, o texto de Echegaray:

“Algumas empresas têm a sustentabilidade “no seu DNA”. Outras, “nasceram sustentáveis”; e ainda há aquelas que anunciam a sustentabilidade como seu leitmotiv existencial. Provavelmente exista sinceridade entre os muitos porta-vozes que assim se expressam. Ou, pelo menos, essas declarações revelem sinceras expectativas de que isso se torne realidade.

“Há problema em confundir expectativas de atuação sustentável com atuação sustentável propriamente? Com certeza. Mas um problema ainda maior é a vociferação dessas expectativas sem nenhum questionamento sobre sua origem ou relação com a agenda dos diversos públicos envolvidos e atingidos pela pauta de sustentabilidade empresarial.

“O que para alguns pode ser liderança inspirada em sustentabilidade, para muitos, principalmente os stakeholders das empresas que anseiam rumar para a gestão sustentável, soa como decisão unilateral, pouco representativa e menos ainda eficaz. Eis o risco por trás da fascinação por um ideal de atuação sustentável nascido apenas da imaginação dos líderes da empresa, com pouco ou nenhum esforço para escutar as partes interessadas ou concretizá-lo como proposta de comunicação e deliberação com os públicos relevantes.

“O problema de declarar sem escutar – e implementar ações sem deliberar antes – não é fácil de identificar. Não existe nenhuma pesquisa que indique quão presente se faz na percepção das empresas ou do público. O caminho para detectar quanto isso compromete a qualidade do engajamento empresarial é bem mais sutil. Em alguns casos, exige consultar registros que são públicos. Por exemplo, existem 466 empresas brasileiras signatárias do Pacto Global das Nações Unidas, mas o número de comprometidas com o padrão GRI para a produção de relatórios de sustentabilidade é 3,4 vezes inferior (139 empresas).

“Por que existe esse abismo? Ora, para o Pacto Global, basta o discurso – a idealização da sustentabilidade como ato declaratório. Já para fazer um relatório nos moldes da GRI é preciso ter ações para contar, apostar em quadros técnicos com capacidade para fazê-lo, em métricas de monitoramento, rotinas e indicadores objetivos de legitimação interna (cadeia de valor) e externa (influenciadores alheios à cadeia). Afinal, sem ação não há comunicação que se sustente.

”Em outros casos, o caminho passa por um exercício quase socrático, de levantar perguntas relativamente retóricas, sem ter respostas completas; porém, muitas vezes essas mesmas perguntas nos perfilam possíveis respostas. Foquemos as indústrias que, por excelência, revelam a inclinação do mundo empresarial para a construção e divulgação de relatos e a assimilação e interpretação das vozes do entorno – as da publicidade e da pesquisa de mercado.

‘”Dos R$ 88,3 bilhões gastos em publicidade por anunciantes no Brasil, por exemplo, quantos reais buscaram estimular estilos de vida e práticas mais sustentáveis, relatar conquistas na reversão de danos sociais ou ambientais resultantes da produção ou mobilizar consumidores para atentar e aderir a marcas e produtos verdes? Infelizmente não existe um estudo explicitamente voltado a responder essa questão (atenção docentes e pós-graduandos em Comunicação – eis aqui um ótimo tema para pesquisar!). Mas temos, sim, uma pista indireta.

“Sabemos que o número de anúncios sobre responsabilidade socioambiental cresceu: pesquisa da Market Analysis, entre 2003 e 2010, indicou aumento de 51%, o qual muito provavelmente signifique que o volume investido nesse tipo de propaganda também aumentou – no mínimo na mesma proporção. Entretanto, o aumento acumulado em publicidade geral para o mesmo período atingiu quase 330%! Cerca de 6,5 vezes mais! A brecha indica uma prioridade clara no foco sobre o que comunicar e para que comunicar e certamente não parece ser a sustentabilidade.

”E o que acontece em matéria de compromisso com a sustentabilidade quando seguimos a trilha do investimento em propaganda? Dentre os 10 maiores anunciantes no país em 2011, três (um em cada três!) ainda não aderiram ao padrão GRI, comunicando seus desempenhos em sustentabilidade de modo sistemático. O que essa brecha sugere? Que entre os grandes players que movimentam o consumo no mercado brasileiro ainda existe uma fatia considerável que almeja: a) difundir o consumo, mas não comunicar de forma transparente como está trabalhando para compensar o impacto resultante disso; b) preencher seus produtos e serviços de sentido, mas sem conectá-los com o que realmente faz sentido para o interesse coletivo como um todo (isto é, uma sociedade mais saudável e menos desigual, foco no bem-estar antes que na acumulação, meio ambiente e qualidade de vida preservados).

“Um olhar mais detido no perfil das empresas menos preocupadas com uma proposta de comunicação ética e sustentável revela que dois segmentos se destacam: fabricantes de veículos e operadoras de telecomunicações, ambos setores que, não coincidentemente, têm sido extremamente questionados quanto aos objetivos dos seus negócios e benefícios para a sociedade.

“Se o perfil da publicidade revela as escolhas feitas em matéria de disseminação, o retrato dos investimentos em pesquisa fornece uma boa dica sobre a disposição de escutar a sociedade nos tópicos mais urgentes e antenados com um modelo de economia sustentável. Dos R$ 1,37 bilhões faturados pelos institutos e agências do setor, quantos você diria que foram em função de solicitações vinculadas a avaliar o andamento de projetos de responsabilidade socioambiental, conhecer as expectativas e prioridades dosstakeholders visando a engajá-los ativamente na produção de propostas sustentáveis, alimentar estratégias sustentáveis corporativas na cadeia de valor ou levantar as necessidades das comunidades onde as empresas operam? Novamente, não existe um dado claro e objetivo para o setor como um todo.

‘”Entretanto, temos como fazer algumas inferências. Por exemplo, esse tipo de projeto costuma ser rotulado como pesquisa de opinião ou reputação. Levando em conta o percentual faturado pelas gigantes do setor, menos de 2% das receitas em pesquisa de mercado foram obtidas de projetos vinculados com ações de sustentabilidade. O leitor pode estar se perguntando: onde estão exatamente os estudos sobre sustentabilidade corporativa? Pois bem, eles representam apenas fatias irrisórias dentro de fatias minoritárias deste mercado bilionário.

”Um último dado que ajuda a ilustrar parcialmente o atual paradoxo entre disseminação em excesso, de um lado, e escuta e deliberação em falta, de outro, surge de um levantamento informal realizado pelo instituto Market Analysis, com 10 empresas líderes em seus segmentos. Entre essas companhias, que faturaram aproximadamente 200 bilhões de reais no ano passado, quatro figuram entre as 30 maiores anunciantes de 2011, e só seis publicam relatórios de sustentabilidade segundo os critérios da GRI.

”A consulta visou, entre outras coisas, entender a importância, frequência e o procedimento de escuta dos seus diversos públicos de relacionamento. Ficamos surpresos. Constatamos que apenas três delas (metade das que seguem o padrão GRI) possuem, de fato, um método formalizado, regular e – portanto – estratégico de consulta aos seus stakeholderssobre a sua atuação sustentável e sobre como relatá-la. Mais uma lição aprendida: seguir à risca os exigentes critérios de comunicação da GRI é bom, mas está longe de ser sinônimo de uma escuta atenta e sistemática ou de engajamento deliberativo com as partes interessadas.

“Em seu conjunto, esses sinais apontam para uma conclusão bastante clara. Uma parte substancial das grandes empresas brasileiras não entendeu ainda o que já é óbvio para as que ocupam a liderança em sustentabilidade: a busca por atuação sustentável requer, muito antes do que declarar, escutar; muito antes do que um assalto comunicador, a preocupação por construir consensos sobre as prioridades de ação, debater os enfoques conceituais e perscrutar os resultados atingidos com os públicos de interesse.

”E mais, como exemplifica meu caro amigo Ricardo Voltolini em seu artigo Líderes sustentáveis, intuitivos e emocionais: “Não se trata aqui de ouvir por ouvir, como muitas empresas fazem nos seus protocolares painéis de stakeholders. Mas ouvir com respeito.”

”A chamada não fica apenas num apelo moral à sinceridade e transparência, mas – especialmente – convoca a uma gestão da sustentabilidade mais inteligente, que emule o mesmo senso de excelência que inspira a gestão de marketing da organização, uma gestão que não tome decisões às cegas, mas ancoradas em informação e feedback substantivo sobre o que os públicos centrais ao negócio da empresa esperam, entendem e avaliam de uma atuação sustentável.

”Negligenciar esses desafios implica três consequências na busca da sustentabilidade empresarial: 1) investimentos nas frentes de atuação erradas; 2) sensação de exclusão pelos stakeholders e opacidade sobre os processos decisórios da empresa; 3)greenwashingou socialwashing.

“Uma alternativa para esses problemas que temos apresentado e trabalhado com alguns dos nossos clientes é o estudo Sustentabilidade 360, um método de pesquisa capaz de garantir precisão e profundidade na escuta das percepções e expectativas dos diversosstakeholders. Compartilho aqui três cases de uso deste tipo de ferramenta: o primeiro, de uma empresa de entretenimento; o segundo, de uma do setor energético; e o terceiro, de uma companhia de TI.

”A cliente do setor de entretenimento planejava ampliar a sua política de sustentabilidade de modo a contemplar as demandas dos stakeholders de países emergentes. Trata-se de uma empresa global que tem sido cada vez mais pressionada para agregar valor sustentável aos seus produtos e serviços em escala mundial. A consulta aos seus principais públicos de interesse revelou que a companhia deveria primeiramente comunicar o seu engajamento com o desenvolvimento sustentável de forma mais assertiva e objetiva. Grande parte dos stakeholders brasileiros, por exemplo, sequer sabia como a organização tem buscado ser referência em responsabilidade corporativa.

”Os públicos revelaram discursos genéricos, desprovidos de evidências concretas de desempenho sustentável e pautados na ideia de que toda empresa de entretenimento busca, naturalmente, fazer o bem comum. Esse resultado surpreendeu os gestores, que pensavam já estar um passo à frente em termos de licença para operar nos mercados emergentes. O estudo contribuiu para a elaboração de uma hierarquia de prioridades de ação mais sensível ao contexto atual da empresa e para um plano de comunicação mais tangível aos stakeholders.

”A cliente do setor energético planejava sua entrada no Brasil e precisava descobrir qual era o principal desafio do governo brasileiro nos próximos 10 anos, na visão dos seus stakeholders. A empresa sabia, de antemão, que alguns dos seus grupos de interesse entendiam que o rol de boas práticas de sustentabilidade das corporações deveria conter muitas das atribuições do poder público, tido como ineficaz. A principal brecha de atuação descoberta estava no campo da educação, especialmente por meio da melhoria da infraestrutura das escolas públicas. A pesquisa possibilitou elencar as políticas de atuação e definir uma diretriz de sustentabilidade para os stakeholders.

”Já a cliente do setor de tecnologia havia compreendido a sua principal missão em prol da sociedade: a melhoria da infraestrutura no país. A dúvida era sobre qual problema focar o maior volume de investimentos: no que a empresa considerava o mais importante e estava acostumada (infraestrutura da comunicação) ou em algum outro ainda não mapeado e advindo dos stakeholders, até então consultados de forma genérica.

”Os resultados mostraram uma alta demanda por investimentos em transporte urbano, mostrando certo desalinhamento entre planejamento estratégico e expectativas dos públicos de interesse. O estudo agregou ao identificar o real nível de materialidade da atuação sustentável da companhia, indicando frentes mais promissoras em sustentabilidade empresarial.

”Os exemplos mostram como os gestores podem se antecipar a esta megatendência da sustentabilidade empresarial: implementar rotinas de inteligência mercadológica para desenvolver decisões e modelos de gestão e comunicação que contem com a legitimidade dos seus stakeholders. E a sua empresa, o que ela prioriza? A corrida por mais e mais declarações sobre ações feitas ou por fazer, ou a estratégia de escutar antes e melhor seus públicos de interesse na construção da política de sustentabilidade?”

Fabián Echegaray é Ph.D em Ciência Política pela Universidade de Connecticut (EUA) e diretor-geral da Market Analysis, instituto de pesquisas especializado em sustentabilidade e responsabilidade social.

Publicado no site Idea Sustentável

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Ambev e TNC fazem parceria para preservar Bacia e abrem chance de se pensar sobre as relações sustentáveis

Sob uma chuva insistente, mais morna do que fria, os jornalistas  foram chegando e se instalando numa espécie de balcão preparado para eventos. Era manhã de quarta-feira (dia 20) e estávamos na fábrica da Ambev em Jaguariúna, pequeno município da região metropolitana de Campinas. Fomos convidados para ouvir o anúncio de uma nova parceria que a empresa fez com o Terceiro Setor – desta vez com a ONG The Nature Conservancy (TNC). A TNC nasceu em 1951 como um desdobramento da The Ecological Society of America e tem como missão “conservar as terras e águas das quais dependemos”. Para isso, como é possível perceber em seu site (www.nature.org), conta com o apoio de grandes empresas, de 550 cientistas, está em mais de 35 países e em todos os estados dos Estados Unidos.

Juntos, Ambev e TNC vão dar um passo importante para preservar a Bacia Hidrográfica dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que fica na região onde a Ambev instalou sua fábrica. Para isso, uma das principais medidas será pagar por serviços ambientais  a produtores agrícolas da região que se comprometerem a adotar práticas de conservação em suas propriedades.

ONG, empresa, um projeto…  Você, leitor, está sentindo falta de mais uma perna para dar ao programa o atributo sustentável? Não falta mais. Pois o prefeito de Jaguariúna, Tarcisio Chiavegato — que está no quinto mandato e já teve problemas com a justiça eleitoral local, em 2007, por falta de transparência em contas — está na parceria.  Temos aí, portanto, sociedade civil, empresa e poder público juntos em prol de um mundo melhor, no caso, com água suficiente para a Ambev fabricar seus produtos e os moradores conseguirem utilizá-la. O diretor de relações socioambientais da empresa, Ricardo Rolim, delicadamente cedeu o espaço para o prefeito dar as boas-vindas à imprensa no evento:

—- Vi o rio Jaguari morrendo e agora estou vendo que ele está se recuperando. Já posso até pescar dourado na minha chácara, que fica à beira do rio – disse Chiavegato, que foi um dos criadores, em 1989, de um consórcio com outros dez prefeitos para salvar aquela Bacia que ainda está precisando de ajuda.

Na época, só 3% do esgoto das 44 cidades que a circundam eram tratados.  Hoje, segundo o prefeito, que em 2011 foi denunciado por relações pouco transparentes com outra empresa local, esse percentual cresceu para 70%.  Agora, com o aporte de R$ 2 milhões que a Ambev deu, a chance de esses 70% crescerem talvez seja grande. A meta é atingir 100% em 2016.

A gentileza de Ricardo Rolim com o prefeito tem razão de ser. Para estimular a fábrica a se instalar na região, em 1991, Chiavegato anunciou que mandou construir até uma ponte para ajudar seus 2.500 empregados a chegarem à unidade.

Essa relação — empresa com poder público — tão importante para qualquer projeto ser realmente sustentável, é mesmo delicada.  Poder público precisa de investimentos em seu território e faz concessões. A empresa, por sua vez, precisa que seu negócio cresça num ambiente sadio, seguro, e para isso, além de pagar impostos, precisa atuar como cidadã. O molho dessa história é o capital. Molho que, às vezes, colabora para apimentar a relação.

ambev arvoreNa foto, um momento em que a empresa atua como cidadã e se rende aos apelos políticos: o diretor Rolim e o prefeito Chiavegato contracenam a plantação de uma árvore apenas para mostrar o que vai acontecer no futuro, porque este não é nem o terreno que será realmente beneficiado com o projeto.

Mas Rolim aproveitou o evento para fazer um balanço e anunciar também as metas ambientais da empresa. Há três anos o grupo Anheuser Busch InBev, do qual a Ambev faz parte, divulgou metas ambientais a serem atingidas até 2012. Mundialmente, a meta era atingir 3,5 litros de água por cada litro de cerveja. Parece que não, mas já é uma brutal economia. Segundo a empresa, em 2002 eram gastos 5,36 litros de água para produzir um litro de bebida. Em 2008, foram 4,11, em 2010, 3.95.

Aqui no Brasil, a Ambev atingiu uma meta ainda mais ousada do que a holding: gasta 3,4 litros de água para fazer um litro de cerveja. Outra meta, também alcançada, era atingir 99% de reciclagem para resíduos sólidos e subprodutos. O consumo de energia também caiu 12% e a emissão de CO2, 15,7%.

Como não há marco regulatório para esse tipo de iniciativa, ficamos com a possibilidade de comparar ações de umas e outras empresas. E a Ambev, de fato, está fazendo a parte dela, um tom recorrente da indústria brasileira, segundo informou o repórter Claudio Motta no caderno “Amanhã”, de O Globo. A reportagem dá conta de que é o agronegócio, e não a indústria, o grande sorvedouro de água no Brasil: 70% contra 20%. A população, que indiretamente contribui para  este gasto, tem uma responsabilidade menor, de 10% , na hora de consumir água para uso próprio.

Mas ali, naquele evento, na manhã de chuva morna, ao olhar de um observador mais atento não escapava a fragilidade das relações nascidas sob o signo da sustentabilidade.  Se o  jornalista, numa cobertura qualquer, precisa sempre apurar olhos e ouvidos para tentar desvendar algo mais do que está sendo mostrado, o jornalista especializado em sustentabilidade precisa aprender a desprezar o óbvio e ir além. Se não fizer isso, acaba trazendo para o leitor a infundada certeza de que o mundo, finalmente, tomou jeito. É que as empresas ficam tão excitadas com o anúncio de seus bons projetos (o que é legítimo, por sinal) que acabam evitando falar nos contratempos para alcançar este objetivo. Ou, bater a meta, como elas preferem dizer. Mas dividir alguns contratempos também pode ser interessante para espraiar a iniciativa, como todos nós desejamos.

Como acredito que são as relações humanas que mais interessam a um mundo verdadeiramente sustentável, gosto de poder destrinchá-las. Sabe-se, por exemplo, quão frágeis e delicadas podem ser as relações entre empresas e ONGs, que têm entre si um enorme muro de preconceito. Há cerca de três anos ouvi da coordenadora da ONG chilena Ciudad Viva, Lake Sagaris, uma espécie de histórico sobre a fragilidade dessa relação. Segundo ela,  a urgência das questões sociais tornou-se premente e inaugurou uma temporada de mudanças nas relações entre empresas e sociedade civil. Mais do que tudo, disse-me ela, tornou-se obrigatório fazer alianças. Mas Sagaris, que esteve à frente de um protesto vitorioso contra a construção de uma estrada em Santiago, não esconde a dificuldade de se achar parceiros no mundo corporativo dispostos a desenvolver uma relação de igual para igual.

Se houve qualquer  obstáculo desse tipo entre Ambev e TNC, nós não ficamos sabendo. Muito antes pelo contrário. Anita Diederichsen, representante da ONG que vai ajudar a Ambev a preservar a Bacia, foi a terceira pessoa a falar no evento e mostrou-se o tempo todo satisfeita com o desenrolar dos acontecimentos. Mas, de novo, para um olhar atento deixou transparecer o perigo dessa relação  porque adotou um discurso muito mais próximo ao da corporação do que da sociedade civil.  O pagamento por serviços ambientais, carro chefe dessa parceria, foi anunciado antes do tempo, ainda em fase de “geração de informação”, prejudicando a transparência necessária para um projeto desse porte. Para Anita, os jornalistas, sempre ávidos por números, é que seriam lesados. Não seria a população que a ONG representa?:

— Já identificamos  todos os que fazem parte desse projeto, mas não falaremos hoje sobre quantia de pagamento porque queremos entender o uso do solo na região. Estamos em fase de geração de informação.

São firulas que podem ser consertadas numa próxima edição, quando a TNC, hoje uma megainstituição, de fato mais próxima do perfil corporativo do que de uma ONG, conseguir afinar mais seu discurso com o da população. Ou, quando as ONGs não precisarem se travestir de empresas para atuar num sistema que, realmente, lhes cobra metas e planilhas. Sonhando com o mundo ideal? É, pode ser…

Na visão macro do programa de pagamento por serviços ambientais, no entanto, a discussão fica sobre seus resultados reais. Segundo alguns especialistas, essa iniciativa pode criar um sistema perverso de geração de renda sem produção atrelada. Anita, no entanto, lembrou que não é assim:

—- Evitar que a floresta pegue fogo, conter a caça, plantar matas ciliares, isso tudo exige muito trabalho. O cálculo do pagamento será feito em função de cada propriedade – disse ela.

A Ambev não declara quanto vai investir nesse programa, uma nova etapa do Projeto Bacias, ação do “Movimento Cyan- Quem vê água enxerga o seu valor”, lançado pela empresa em 2010.

— Com essa expansão do Projeto Bacias vamos trazer o que há de mais moderno entre as práticas de conservação ambiental para ajudar a garantir que não falte água nas principais cidades do estado de São Paulo – disse Rolim, aplaudido por Anita.

Insisti em buscar um obstáculo, um empecilho, algo que vá fazer essa excelente rede se mexer, voltar atrás, refazer alguns cálculos, agregar outros.  Isso porque acredito mais na turbulência que faz pensar em soluções, do que numa serenidade religiosa. Consegui, mas sobrou para o produtor agrícola. É que, segundo a TNC, vai depender de uma mudança de cultura, de paradigma, para que o produtor se convença de que é um provedor de serviços ambientais. Se isso não acontecer… bem, não sei. Vamos esperar que o programa realmente comece. Por ora, que essa boa parceria, ainda no sétimo mês de vida, perdure e atinja seus objetivos é o que todos desejamos.

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O circuito curto dos alimentos pode ser uma saída

Uma combinação de safra recorde, rodovias deficientes e a nova regra que limita o tempo do caminhoneiro no volante, segundo reportagem de domingo no jornal “Estado de São Paulo” , está sendo responsável pela saturação dos portos brasileiros. Sem ter rotas alternativas para escoar a safra agrícola, ainda segundo a reportagem, quase dois terços dos grãos exportados acabam indo para Santos e Paranaguá e o resto é dividido entre 16 terminais espalhados pela costa. Em situação normal essa dependência de dois portos já não é saudável. Mas como há uma produção recorde de grãos, os problemas dobram. O resultado são filas imensas de caminhões de um lado esperando para conseguir chegar ao terminal e, de outro, navios parados no mar esperando para levarem a produção Brasil e mundo afora.

Fiquei imaginando a cena. Fiquei imaginando, ainda, o que pode acontecer com a tal safra recorde acondicionada em caminhões, esperando dias para chegar ao destino final, ou seja, a mesa, a boca, o estômago de pessoas que precisam do alimento. Constato a insustentabilidade desse processo, o que vai ser desperdiçado. Levando em conta que ainda há, aqui mesmo no Brasil, muita gente que nem tem como ter acesso  ao pão de cada dia, esse desperdício incomoda bastante.

Em 2008, um estudo divulgado no site do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica (Ipea) dava conta de que o Brasil estava entre os dez países que mais desperdiçam comida no mundo.  No estudo foi divulgado ainda um dado do Serviço Social do Comércio (Sesc): R$ 12 bilhões em alimentos eram jogados fora diariamente, uma quantidade suficiente para garantir café da manhã, almoço e jantar para 39 milhões de pessoas.

O site da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) confirma a tal safra recorde que a reportagem de domingo anunciou:

“A área cultivada com as principais culturas no país (algodão, amendoim, arroz, feijão, girassol, mamona, milho, soja, sorgo, aveia, canola, centeio, cevada, trigo e triticale), estimada em 52,99 milhões de hectares, equivale a um acréscimo de 2,11 milhões de hectares, ou seja, 4,1% superior à plantada em 2011/12. A produção atualmente estimada em 183,58 milhões de toneladas é de 10,5%, ou seja, 17,41 milhões de toneladas superior ao volume de 166,17 milhões de toneladas produzidos em 2011/12. Este crescimento se deve ao aumento da área plantada, e principalmente à recuperação da produtividade, sobretudo, do milho e da soja, que na safra anterior foram severamente prejudicadas pelas chuvas irregulares e estiagens prolongadas, principalmente nos estados da Região Sul do país e parte do Centro-Oeste. Destaque para a cultura da soja que registra crescimento de 23,6%, isto é, 15,68 milhões de toneladas superior à produção da safra anterior, passando de 66,38 para 82,06 milhões de toneladas.”

Mas, para que este seja um desenvolvimento com alguma sustentabilidade,  entende-se que toda esta safra deveria funcionar, de fato, para alimentar pessoas, não para ficar perambulando em estradas, estocada em engarrafamentos ou mesmo em longas viagens alto-mar.

Em agosto do ano passado escrevi um artigo para o caderno “Amanhã”, do Globo, chamada “A viagem da pimenta vermelha”. Chama-se assim porque conta a história de um feirante que batia no peito de orgulho porque vendia pimenta vinda de São Paulo.  Possivelmente a especiaria saía de lá muito, muito tempo antes de poder ser vendida. Passando por engarrafamento no Porto, em alto-mar, na estrada… Ora, qual o sentido disso?

Ex-presidente do Conselho de Segurança Alimentar (Consea), o professor Renato Maluf ajudou-me, à época, a destrinchar esse processo e tentar encontrar uma saída sustentável para a questão dos alimentos. Seria o  circuito curto dos alimentos:

—- O sistema alimentar mundial afastou a produção do consumo e a tendência é do circuito longo, das grandes corporações. O circuito local usa a produção de pequeno porte diversificada e promove uma circulação regional, promove a agricultura familiar — disse Maluf.

A raiz do problema, em parte, é o surgimento das grandes cidades, cujos moradores têm, sempre, muita pressa. Para eles, os grandes supermercados, que oferecem produtos empacotados, “prontos para consumo”, são necessidade básica. Para fazer diferente, seria necessário voltar ao tempo das pequenas quitandas que compravam de produtores locais, de agricultura familiar. Renato Maluf lembra que tanto o governo Lula como o governo de Dilma Roussef representam um esforço no sentido de ajudar as famílias de pequenos agricultores a se manterem, entre outras coisas, com doação de sementes:

— O maior desafio para o país, desde os tempos de Brasil colônia, é romper com a característica de grande produtor agrícola com base na grande propriedade – conta o professor.

Quando se fala em sustentabilidade está se falando em mudança de paradigma, em um modelo econômico diferente, que seja bom para o meio ambiente e para as pessoas que nele habitam. É tarefa difícil, exige esforço e, sobretudo, vontade de mudar. Pensar na questão alimentar como parte importante desse processo de mudança é fundamental.

Pensar na questão alimentar como uma forma de desenvolvimento local pode ser uma tarefa para quem acredita em mudanças de paradigmas. É possível envolver as empresas nessa tarefa. Algumas redes de supermercado já sinalizam com uma compreensão aproximada do que pode ser essa ajuda. Por isso já se vê, em algumas gôndolas, produtos chamados de agricultura orgânica. Ainda é um pouco, muito pouco, do que pode ser feito, mas já é um bom primeiro passo.

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Incoerência também vem de empresas e governo, diz Echegaray

No último texto (http://https://ameliagonzalez848.com/2013/03/13/alguma-coisa-esta-fora-da-ordem-na-comunicacao-das-empresas-com-o-publico/) eu analisei, com ajuda de especialistas, a pesquisa realizada pelo Idec e Market Analysis  onde fica claro o divórcio entre o que diz a opinião pública brasileira sobre degradação ambiental, mudanças climáticas, papel das empresas e a maneira como essas mesmas pessoas absolutamente ignoram tudo isso na hora de analisar um rótulo antes de comprar qualquer produto — ou mesmo deixar de comprar —  de empresas social ou ambientalmente irresponsáveis. É um tremendo paradoxo.

fabiánOntem conversei com um dos coordenadores do estudo  e diretor da Market Analysis, Fabián Echegaray,  empresa que há 16 anos vem fazendo pesquisas de opinião pública e que, pelo menos na última década, foca suas perguntas em questões de sustentabilidade. Echegaray admite o paradoxo, percebe que isso vem acontecendo há muito tempo, e agrega informações importantes. Segundo ele,  entre os mais de 30 países dos cinco continentes onde foram feitas as perguntas, o Brasil é o país que mais se preocupa com o meio ambiente e as mudanças climáticas, e essa preocupação vem aumentando.  A contrapartida é cruel, já que o comportamento dos brasileiros na hora de consumir ainda é o mesmo de cinco, seis anos atrás. Abaixo, Echegaray, que está estreando como colunista na seção de meio ambiente do jornal britânico “The Guardian”,  analisa a questão.

Quando uma pesquisa como esta é divulgada, a primeira reação é de lamento, já que não se consegue um nível de cidadania participativa como seria necessário para mudar o modelo. É essa a leitura?

Fabián  Echegaray — Não, o cidadão não inventa nada. Basta pegar a atuação do governo ou das empresas, de 2005 para cá, que se vai encontrar também um monte de contradições.  Quer ver? Temos um governo que ao mesmo tempo que faz uma lei de resíduos sólidos avançadíssima, no Código Florestal abre as portas para a degradação ambiental. Quanto às empresas, ficamos muitas vezes congelados com os mesmos exemplos de empresas sustentáveis, tipo Natura, o extinto Banco Real, a Coca Cola, que está fazendo bons projetos, mas continuamos  tendo algumas empresas que fazem parte do dia a dia das pessoas tão fortemente como essas que mencionei, que também são paradoxais.  Como uma  distribuidora de gasolina que, ao mesmo tempo que tem todo um discurso vinculado com sustentabilidade muto forte, continua empregando um produto que é muito mais poluente que a própria legislação obriga ou toda  a indústria automobilística que reluta em fazer algum tipo de mudança para controlar emissões de carbono. Algumas até tomam umas ações positivas que são canceladas por ações erradas de outro grupo de indústria. Essa situação de impasse é a questão da liderança. Fizemos um estudo com a rede Globescan, com formadores de opinião, para saber quais os principais entraves para o progresso de uma agenda sustentável. Divulgamos na Rio+20. O resultado foi a falta de uma liderança política não estatal, mas no sentido de conseguir articular consensos.

Então o problema não é falta de informação…

Fabián Echegaray – De jeito nenhum. Informação tem de sobra,  tem mensagem demais sobre a importância do verde, a presença de algum atributo sustentável no produto que está exposto. Acontece é que essas mensagens nem sempre são informação, muitas vezes são muito herméticas, não formam opinião. Além disso,  muitas delas são mentirosas: a criação de selos por parte da própria empresa, por exemplo, que são atributos decorativos típico de greenwashing e que não passa despercebido pela população. Na pesquisa agora com o Idec aparece fortemente tanto a desconfiança quanto  o fato de haver muitos selos ambientais. Quando perguntamos “Com quais selos você se depara no dia a dia?”, entre aqueles que diziam que menos conheciam selos, metade falou que tem a ver com questões ambientais. Quando perguntamos sobre a confiança nos tais selos, é nestes selos que as pessoas menos confiam.

Mas, será que as pessoas que respondem a esse tipo de pesquisa estão verdadeiramente conectadas com o tema?

Fabián Echegaray – O que você quer saber é como as pessoas formam opiniões.  Na verdade, ninguém consegue ter tempo para coletar todas as informações, validá-las e chegar a um momento racional. Quando se defrontam com uma situação meio inesperada — tipo alguém batendo na porta pedindo uma entrevista — as pessoas buscam na sua memória temas que estejam vinculados com a pergunta. A maioria responde em função da última notícia que tem na memória, sobre o que ouviu e que ficou de fato impregnado no cérebro como dado que se emparelha com o estímulo que está sendo invocado. Isso não significa que as opiniões são pouco confiáveis porque todo mundo faz isso, eventuais desvios numa direção são cancelados por uma pessoa que tem desvio em outra direção.

Bem, já que falamos em notícia, como você acha que tem sido o papel da mídia na hora de informar sobre a agenda sustentável?

Fabián Echegaray — Não tenho muito tempo de acompanhar diariamente jornais e revistas, mas o ponto principal desse tipo de cobertura é que   durante muito tempo entre a mídia especiailzada existia a persuasão de que era preciso apavorar, chocar as pessoas para se conseguir mobilizar a população, criar uma coalizão política pro sustentabilidade que gerasse uma pressão no mercado.  Acompanhei o impacto disso nas pesquisas e o que percebi é que num primeiro momento – estou falando de 2007, 2008 — foi efetivo houve realmente uma tomada de consciência na população. Mas depois o que gerou foi fadiga nas pessoas. As curvas nas pesquisas mostram que de 2010 e 2011 para cá as pessoas tiraram de suas prioridades questões ambientais, climáticas, mesmo com a calamidade que está acontecendo, e passam a se preocupar com outras coisas. Não estou dizendo que a prioridade passa a ser econômica, por causa dos tempos de crise, não é isso. Estou falando de uma certa paralisia. Passaram a ter mais peso para os cidadãos as contradições e o descaso do governo, a falta de liderança política e o fato de as mesmas empresas por um lado aparecerem como inovadoras em termos de sustentabilidade e continuarem, por outro lado,  tendo comportamento insustentável.

Uma das queixas das empresas é com relação à sua cadeia produtiva.  Elas não gostam de serem responsáveis por atitudes de fornecedores com os quais têm, às vezes, uma relação pouco próxima. Como você vê isso?

Fabián Echegaray – De novo, acho que falta um estado mais forte aí, para garantir o bem estar mínimo que a população precisa.

Mas, na verdade, desde a década de 80, sobretudo por iniciativa de Margareth Tatcher e Ronald Reagan, o estado começou a se afastar e deixar as empresas e os cidadãos cada vez mais por si…

Fabián Echegaray – É, na verdade também, se formos ver, vinte anos atrás nem havia esse tipo de debate, sobre a participação das empresas transnacionais na cadeia produtiva.  E precisamos ver que houve também outro fenômeno importante, da globalização, que expõe muito mais agora as atitudes das empresas do que antigamente. Portanto, estamos realmente num processo ainda.

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Alguma coisa está fora da ordem na comunicação das empresas com o público

O estudo da percepção do consumidor sobre os apelos de embalagens realizado pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e Market Analysis, em que ficou claro que somente 1 em cada 4 consumidores (24%) percebe ativamente as mensagens que dizem respeito à responsabilidade socioambiental das empresas pode ser bastante explorado.  Sobretudo se, a este estudo, juntarmos um outro, feito em 2006 pela mesma empresa, em que 27% do público em geral diziam que a melhor indicação de que uma empresa é socialmente responsável é uma etiqueta nos produtos (acima de certificação do governo, parceria com ONGs ou produção do relatório de sustentabilidade). Assim, se nem à etiqueta é dada muita importância, é hora de parar para pensar.

Antes de mais nada, é preciso dar conta de que a pesquisa — feita em 11 capitais, das cinco regiões do país, com amostra de 900 consumidores — foi realizada menos de um ano depois da Conferência Rio+20, em que esse assunto foi amplamente discutido no Brasil e no mundo. Portanto, a pergunta que fica, sobretudo para quem lida com comunicação e informação, mas também para quem se interessa sobre o tema, é: o que impede que os cidadãos (vamos deixar de lado essa alcunha “consumidores”?) levem a sério o papel  das empresas na tão desejada mudança para um mundo melhor?

Não precisamos ser Sherlock Holmes para encontrar a primeira pista: as empresas não conseguem ter credibilidade junto às pessoas comuns.  Por mais que este cenário tenha melhorado na última década, a verdade é que, historicamente, sempre houve uma batalha surda entre pessoas físicas e jurídicas. O fato de que empresas são, no fim das contas, um aglomerado de pessoas físicas, não é levado em conta quando entram em cena capital e relações trabalhistas.

Vamos longe buscar um exemplo:  no século XVI, a posse de ouro e prata era o índice de riqueza e poder de uma nação.  Os dois elementos eram considerados “duráveis, que podem ser transformados de qualquer modo sem prejuízo e que têm grande valor em proporção ao volume”, conta-nos Leo Huberman na “História da Riqueza do Homem”. Pois bem. Por isso, baixaram-se leis para proibir a saída desses metais dos países, já que todos queriam acumulá-los o máximo possível. (A foto eu achei no site guiky.com). Ouro

Assim, todos os cidadãos foram proibidos d elevar ouro e prata para fora de seu país, menos… a Companhia Inglesa das Índias Orientais, que tinha em seus estatutos uma cláusula que lhe dava o direito de exportar ouro. Já foi o suficiente para se começar ali uma guerra contra a empresa, que precisou ser defendida por Thomas Mun, um de seus diretores.

O argumento de Mun era forte: embora a companhia realmente enviasse ouro e prata ao Oriente para a aquisição de mercadorias, essas mercadorias eram reexportadas da Inglaterra para outros países, ou nela trabalhadas e mais tarde revendidas além-mar. Era o esqueleto da balança de comércio favorável, mas não é isso que nos importa aqui. Embora, nesse caso, o governo tenha agido com a melhor das intenções – o enriquecimento da nação – a permissividade soou mal aos ouvidos do povo. E gerou muita confusão. Qualquer semelhança com fatos recentes de indignação popular por supostos favorecimentos governamentais a empresas, não terá sido mera semelhança. É assim mesmo, desde que mundo é mundo. Ou melhor, desde que o homem descobriu o absurdo que há no acúmulo da riqueza, mas esse é outro assunto.

O que importa aqui é que a relação entre empresas e pessoas físicas, no fim das contas, é mesmo de amor e ódio.  Joel Bakan lembra, no livro “The Corporation”, que  nos últimos 150 anos a corporação tem saído de uma relativa obscuridade para se tornar a  instituição econômica mais dominante do mundo. “Hoje, as corporações governam nossas vidas. Elas determinam o que comemos, o que assistimos, o que vestimos, onde trabalhamos e o que fazemos”.

Assim mesmo, pelo que vimos na pesquisa atual, na hora de verificar se elas têm atitudes conscientes, falhamos.  Se a questão não está na falta de credibilidade dos rótulos, pelo que vimos na pesquisa do passado, o que leva a este comportamento passivo? De novo, a falta de credibilidade nas próprias empresas. A tal caixinha preta, que toda corporação tem, e que se dá o direito, legítimo, de ter, para não abrir informações demais para a concorrência, talvez seja um inimigo.

Para o doutor em ciências econômicas Ladislau Dowbor, formado em economia política pela Universidade de Lausanne , o fato é que não se conhece muito das corporações. “ O maior poder organizado atualmente no planeta – a corporação transnacional – é também o menos conhecido na sua estrutura, mecanismos de gestão, relacionamentos com poder político e midiático, impactos ambientais e assim por diante.”, diz ele em seu blog (dowbor.org) no comentário ao filme “The Corporation”.

E assim, quando vêm à tona notícias dando conta de falcatruas empresariais, ajudam a corroborar sentimentos pouco amigáveis. O resultado de outra pesquisa feita pela Market Analysis em 2006 mostra isso: 80% das pessoas ouvidas achavam que as corporações tentam ser socialmente responsáveis apenas para melhorar sua imagem, não por quererem dar uma contribuição positiva para a sociedade.  Ao mesmo tempo, no mesmo ano,  outro estudo da mesma organização, desta vez feito em parceria com o Instituto Ethos e o Akatu, mostrava que 88% das pessoas concordavam que é responsabilidade das empresas ajudar a resolver problemas sociais, tais como criminalidade, pobreza e baixa educação.

Sim, mas como aferir se elas fazem isso num rótulo de embalagem? E mais: como acreditar que o que o rótulo da embalagem diz condiz com a realidade?

Para se informar sobre as ações das empresas, os cidadãos têm outro instrumento, o balanço social, ou relatório de sustentabilidade, ou relatório de ações sociais. Há ainda a chance de buscar o que quer saber através do site da corporação. Assim mesmo, a maioria, ainda em cima da pesquisa feita pela Market Analysis em 2006, prefere ser informada pela mídia.

A pergunta é: as reportagens que falam sobre os projetos apoiados pelas empresas são levadas a sério pelos leitores? Sem resposta.

Bem, mas tem também algum componente que dá conta de uma quase desconexão dos cidadãos com notícias relacionadas às questões de sustentabilidade. A pesquisa do Idec,  por exemplo, mostra que 46% da população nunca viram e não conhecem as mensagens de apelo às compras nas embalagens dos produtos, e um pouco menos de um terço da população (30%), pouco sabem sobre a existência dessas mensagens.

Mas o que não falta, hoje, é meio para que essas informações possam circular. E organizações que ajudem a propagá-las. Vejam, por exemplo, a pesquisa que a britânica Oxfam, conceituada associação de organizações que trabalham pelo fim da pobreza e da desigualdade no mundo, lançou junto com a campanha “Cresça: abra a boca para acabar com a fome” que foi divulgada ontem pela revista “Amanhã”, de O Globo.  Segundo os estudos,  49% das pessoas entrevistadas no Brasil discordaram da informação  “eu realmente não tenho interesse em saber como os alimentos que compro são produzidos”.  Ou seja: 51%, no mínimo, concordaram com a frase.

No site da organização (oxfam.org) há informações sobre um estudo feito sobre a forma como as dez maiores empresas dos setores de alimentos e bebidas do mundo – que movimentam anualmente cerca de US$ 800 bilhões – lidam com aspectos importantes como apoio a pequenos agricultores, mão de obra feminina no campo e direito à terra. E há também uma petição endereçada à Nestlé para que a empresa passe a ter mais respeito sobre o trabalho das mulheres no campo. Pode ser assinada por quem quiser.

E vamos tentando propagar informações. Pode acessá-las  aqui ou em qualquer outro veículo de sua preferência.

 

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