Um Vale do Silício no Morro do Alemão: é o sonho de Lucas Lima, jovem que criou uma impressora 3D com sucata

Ele tem 25 anos, mora no Complexo do Alemão e criou uma impressora 3D usando material de sucata. Ficou três meses indo a todos os ferro-velhos que conhecia, gastou apenas R$ 680,10. Assim, ajudou as cooperativas que vivem de vender ferro-velho, reciclou as peças. Seguidor de Paul Singer, o economista que criou a Economia Solidária, o jovem Lucas Lima ficou satisfeito com o resultado:

“Li muito Paul Singer. Trabalho dentro daqueles três pilares: o econômico, o social, o ambiental. Ele diz isto, que toda produção precisa respeitar esses três pilares para que ela seja sustentável”, diz Lucas Lima.

O jovem ainda estava na faculdade, estagiando em Engenharia Mecânica, quando criou a impressora. Foi assim, só mesmo por curiosidade e vontade de fazer algo diferente. Estudou tudo via internet e conseguiu. Ganhou mídia, muita gente falou a respeito.  Ele passou a lecionar, dá aula de robótica educacional, e engrandeceu o sonho: quer transformar a favela onde mora, com 70 mil habitantes, num Vale do Silício!

Conheci Lucas Lima quando ele participou do programa “Papo com Favela”, que o jornalista Andre Balocco põe no ar duas vezes por semana,  em suas redes sociais. O objetivo de Balocco é aproximar o asfalto das comunidades. Sobretudo agora, que estamos isolados, o fosso entre esses dois mundos ficou ainda maior.

A pandemia travou o sonho de Lucas Lima, mas não o desanima. Ele ainda quer retomar. Pensa em criar uma fab lab dentro da favela para aproveitar os inúmeros talentos jovens que ficam à toa por falta de ferramentas e de incentivo.

“A ideia é ajudá-los a desenvolver esta mentalidade criadora. A impressora 3D é a porta de entrada para outras tecnologias porque ela possibilita fazer qualquer coisa, desde jogos a pequenos bonecos. É mais do que um produto, é uma ferramenta de mudança. Quero que os jovens trabalhem comigo e construam as suas próprias, construam outras tecnologias, não só para o mercado externo, mas para o mercado interno também. Favela é uma cultura, não tem como fugir disso.”

Lucas Lima está agora, momento de pandemia, mais aferroado do que nunca aos seus equipamentos. Tem sete impressoras em sua casa, faz lives, participa de podcasts – “Nunca pensei que fosse depender 100% de internet”. Amigos tentam estimulá-lo a dar curso online, mas ele esbarra na questão prática: não são todos os jovens da favela que têm computador e internet. Uma realidade que os donos das grandes empresas que espraiam a tecnologia virtual certamente pretendem mudar em pouco tempo. Vão facilitar cada vez mais este acesso. E isto é bom?

“Tem um lado bom, mas pode ser um perigo. Os adolescentes se viciam, ficam o tempo todo quando têm chance. Eu mesmo fui um adolescente que ficava no computador de meio-dia, quando eu voltava da escola, até duas da madrugada. Direto! Mas amadureci, hoje não faço mais isto e passo para os jovens esta lição. Hora de almoçar, é hora de almoçar. Tem que ter uma boa noite de sono. A gente não pode deixar que as máquinas nos consumam”.

Lucas Lima se autointitula um empreendedor. No dicionário, esta palavrinha significa ativo, despachado, diligente, desembaraçado. Quando foi abraçada pelo mundo dos negócios, tornou-se atributo de todos aqueles que conseguem tocar um projeto à frente mesmo em condições pouco favoráveis.

“Costumo dizer que sou um empreendedor em constante fase de adaptação. Para mim, ser empreendedor é resolver situações usando o mínimo viável, causando o maior impacto social possível, gerando renda, sem degradar o meio ambiente”.

Lucas Lima tem sido bastante requisitado para falar de sua experiência, considerando-se inusitado o fato de um jovem da favela ter conseguido empreender. E já se encontrou até com Yuval Noah Harari, o historiador que escreveu “Sapiens – uma breve história da humanidade”,  quando ele esteve no Brasil para lançar seu livro.

“É uma pessoa tranquila, não tem nada de esnobe. Conversamos um bocado. Falamos sobre o fenômeno da máquina substituindo o homem. E sobre o desemprego que isto já está causando: até 2025 o mundo terá 26 a 30 milhões de desempregados porque as máquinas estarão fazendo o papel deles. O homem vai ter que se reinventar. Mas eu acredito nisto, o homem se atualiza, ele é mutável”.

Um dos últimos podcasts do qual Lucas Lima participou girou sobre o tema “Cyberpunk”, ficção científica conhecida por seu enfoque em alta tecnologia e baixa qualidade de vida.

“O ser humano cria as máquinas para fazer o serviço que ele não quer fazer. Ou para fazer uma coisa que dá trabalho. Mas ele tem que se readaptar, não deixar que elas avancem muito. Tem que aprender a como utilizar essas máquinas. Elas são programação, atuador e receptor. São variáveis que possibilitam qualquer tipo de programação. Por trás de cada máquina há um ser humano, e ele está no comando. Hoje em dia estamos totalmente dependentes da máquina, uso a internet 80% para estudar e 20% para diversão.”

Mesmo com tanta dependência, o jovem está consciente de que precisa dar limite para tanta tecnologia.

“Tem pessoas que viram escravas da tecnologia, que não olham mais para os olhos, acham uma tela de celular mais segura do que o olhar dos humanos. Desse jeito, volta duas casas para trás. O que é bom pode ficar ruim. Depois que eu amadureci, e passei a dar à internet o devido valor na vida, sem exagero, minha vida melhorou muito. Adoro tomar uma cervejinha no bar com os amigos, por exemplo, não tem papo virtual que substitua isto”.

Mas é um programa que precisa esperar a pandemia passar…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Pensamentos sobre campos de quinoa

Para pra pensar!

Não, eu simplesmente não consigo seguir este ensinamento tão antigo. Meus pensamentos são nômades, gosto de pensar enquanto caminho.

Hoje, por causa do isolamento, estou mais restrita. Assim mesmo, dia após dia consigo descobrir algo novo nas calçadas de sempre às quais o vírus me confinou. Meus pensamentos caminham comigo, “convido” autores e me entrego a debates imaginários.

O meu blog, finalmente, mostra as caras aos amigos, parentes, meus seguidores de antanho. Foi um processo esta criação, teve idas e vindas, mas cá está, em última versão e de nome novo: Ser Sustentável.  O mote é o mesmo.  Há muito que venho ocupando espaços na mídia espalhando informações e refletindo muito sobre desenvolvimento, tema que vem se ampliando, se inflamando, inquietando muitos, aquietando alguns.

E hoje, em meu caminho, fui pensando nos campos de plantação de quinoa, semente que vem fazendo parte do meu cardápio diário, sobretudo depois que abri mão de comer proteína animal.  Quinoa é uma semente linda, originária da América Central e de parte da América Latina. O campo de quinoa, quando está florido, se parece um pouco com o de lavanda, porque as folhinhas nascem no topo do caule. E é uma delícia!

A quinoa ocupou hoje os meus pensamentos porque, nesta sexta-feira (26), assisti uma coletiva de imprensa digital da L`Oréal. O evento durou o dia todo, mas eu foquei na sessão que explicou as novas ambições de sustentabilidade da empresa até 2030, cujas informações foram passadas pelo presidente da empresa, Jean-Paul Agon, e pela Vice-Presidente de Sustentabilidade, Alexandra Palt.

Foi Alexandra Palt quem falou sobre a quinoa. A empresa está usando a semente para fazer xampu, vejam só! E já está ajudando produtores da Bolívia, de onde vem a quinoa para sua indústria, no sentido de evitar que o terreno onde plantam a semente fique degradado por causa do uso intensivo.

O projeto de ajuda aos produtores bolivianos faz parte, segundo informou a executiva, do plano montado pela empresa, que pretende garantir que 100%  das matérias-primas empregadas em sua produção virão de fontes sustentáveis. Como as corporações gostam de apelidar seus programas, os compromissos de sustentabilidade apresentados pela L`Oréal para 2030 receberam o nome de “L´Oréal Para o Futuro”.

A empresa anunciou um valor – 100 milhões de euros, o que quer dizer cerca de R$ 930 milhões – em investimentos que vão gerar impacto social e ambiental. O dinheiro será distribuído nos próximos três anos. Este valor será dividido meio a meio, e vai priorizar as mulheres no aspecto social. A outra metade vai ser usada para financiar projetos de restauração de ecossistemas marinhos e florestais naturais danificados, por meio do Fundo L’Oréal para a Regeneração da Natureza.

Em vez de ela própria gerar projetos, a empresa vai distribuir esse dinheiro para organizações da sociedade civil, entendendo que esta é a forma adequada. E é mesmo. Desde que leio e estudo sobre o empenho corporativo em mitigar seus impactos socioambientais, uma das maiores queixas da sociedade civil organizada é quando as empresas decidem as coisas por conta própria. Parceria é tudo, sobretudo nesta hora de crise tão aguda.

Jean-Paul Agon falou sobre a pandemia, disse que entende que é um momento de urgência. A uma das perguntas da plateia digital, sobre os efeitos do vírus em seus negócios, ele lembrou que o E-commerce (compra via sites) está deixando claro que as pessoas não pararam de consumir seus produtos. Apenas mudaram o meio de fazê-lo.

Pensando a este respeito, fui puxando da memória os tantos momentos em que participei de apresentações como esta, da L`Oréal. Quando foi mesmo que as empresas se sentiram parte do processo, e não somente no lugar de extrativistas? Ah, sim, um nome veio à lembrança: Stephan Schmidheiny.

Cheguei em casa e busquei na estante o livro “Mudando o Rumo – Uma perspectiva global sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente”, escrito por Schmidheiny e editado em 1992, logo após a Conferência Internacional do Meio Ambiente que aconteceu aqui no Rio. Foram tempos gloriosos aqueles. Não foi a primeira conferência internacional sobre o tema, já que em 1972 houve a histórica Conferência de Estocolmo, mas 92 foi uma espécie de marco para uma tomada de consciência coletiva.

Schmidheiny é um empresário suíço bilionário que, àquele tempo, decidiu juntar seus pares numa declaração conjunta de respeito ao meio ambiente e à sociedade a partir daquela data. O livro é uma espécie de carta-declaração neste sentido, e foi assinada por 47 empresários.

Infelizmente o compromisso ali assinado, de “satisfazer as necessidades do presente sem comprometer o bem-estar das futuras gerações” não foi cumprido a contento. Outros compromissos e metas foram surgindo, ano após ano, reunião após reunião internacional.

Chegamos a 2020 e, no ano passado, um balanço dos progressos realizados em direção às metas de diminuição dos gases de efeito estufa estabelecidas, o Missão 2020, publicado pelo World Resources Institute, afirmou que “na maioria dos casos, a ação foi insuficiente ou o progresso foi nulo”.

“Nenhuma das metas, em suma, foi alcançada e, em dezembro passado, a COP25 em Madri varreu definitivamente, em grande parte por culpa dos governos dos EUA, Japão, Austrália e Brasil (Irfan 2019), as últimas esperanças de uma diminuição iminente das emissões globais de GEE”, escreve o professor Luiz Marques, do Departamento de História do IFCH /Unicamp, autor do excelente “Capitalismo e Colapso Ambiental”.

Portanto, por mais que a L´ Òréal e outras tantas empresas estejam fazendo o dever de casa, que inclui exigências rígidas para que seus fornecedores também imprimam rigor na mitigação dos efeitos de sua produção, ainda estamos devendo à natureza. Em meu caminho, penso em soluções. Não existe uma única, mas podem surgir várias.

Por isto convidei também, hoje, o economista E. F. Schumacher para caminhar comigo. O alemão morreu logo depois de ter escrito “Small is Beautiful”, que aqui no Brasil recebeu a tradução de “O negócio é ser pequeno” e foi editado pela Zahar. Pode ser encontrado em sebos.

Muito resumidamente, o que diz Schumacher é que é preciso evitar o gigantismo e focar em desenvolvimento local. Esta é a saída que ele apontava, quatro décadas atrás, para o imbróglio em que nos encontramos. E que não é só ambiental, tendo em vista que a desigualdade social atingiu um nível alarmante: os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial, segundo relatório da Oxfam.org publicado em janeiro deste ano.

No subtítulo, Schumacher diz: “um estudo de Economia que leva em conta as pessoas”.

Meus pensamentos foram me levando a outro personagem importante. Relator especial da ONU, Jean Ziegler comenta que as empresas, hoje, “têm um poder que jamais um imperador ou papa teve na história da humanidade”, já que 500 multinacionais privadas têm 52% do PIB do mundo.

Empresas são pessoas que, um dia, tiveram a chance de ter em mãos uma máquina para fazer coisas que as mãos do homem não conseguem fazer sozinhas. Somos nós, portanto, que temos também a chance de criar oportunidade neste grande risco dos nossos tempos. O vírus corona fez reduzir em quase 8% as emissões globais de CO2 (ainda segundo Luiz Marques), mas não abriu sequer um dente na curva cumulativa das concentrações atmosféricas desse gás, medidas em Mauna Loa (Havaí).

“Elas bateram mais um recorde em abril de 2020, atingindo 416,76 partes por milhão (ppm), 3,13 ppm acima de 2019, um dos maiores saltos desde o início de suas mensurações em 1958.”

Tudo bem. Mas abre caminho para que se possa vislumbrar soluções.

Os cuidados com as plantações de quinoa certamente começaram a ser alicerçados em 92, com a tomada de consciência de que os bens naturais são finitos. E hoje, em meio à crise que promete revirar muitos valores e mudar paradigmas, talvez seja possível imaginar que não seria necessário investir na mitigação deste dano se a empresa seguisse alguns dos principais pensadores, incluindo o Papa Francisco, que advertem para a necessidade de baixar os níveis de produção. E de consumo.

Eis o ponto mais sensível.

Vamos adiante, caminhando e pensando.

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Boas lembranças dão imunidade

IMG_4359Lá no cocuruto do caminho que às vezes uso para descansar a mente e os olhos, estava eu, justamente,  fazendo um exercício qualquer quando ouvi, ao fundo, uma voz feminina:

“Mas meu filho, espera um pouco. Estou aqui ainda desenrolando a linha. Eu não sei soltar pipa, estou aprendendo”.

Curiosa, virei a cabeça e vi a cena. Um menino de seus 8, talvez 9 anos, segurava impaciente a pipa enquanto a mãe, do outro lado da linha, tentava desfazer um nó bem robusto. Ia demorar…

Estava assim entretida com a cena quando um homem se aproxima. Um vizinho talvez, alguém que passava pelo cocuruto para voltar ou ir… Fato é que o homem se condoeu da situação, parou, pegou a pipa, começou a desfazer o nó. O menino se aproximou, ambos trocaram alguma informação.

Larguei meu exercício de alongamento, tomei meu caminho que, forçosamente, passaria pelo trio. Não me contive e comentei com a mãe:

“Nada como alguém experiente para resolver uma situação de crise, né?”, disse eu, rindo.

Ela entendeu, devolveu o sorriso, e me disse:

“É o que estou dizendo ao meu filho: não aprendi a soltar pipa, isto é coisa de menino… Mas ainda bem que estou aprendendo. E. se ele tiver uma filha, já combinou comigo que vai ensiná-la!”

Acenei para ela e segui rua afora, descendo, até meu destino. E, como não podia deixar de ser, caminhei pensando. Já que o “novo normal” está sendo condenado por conta de sua viralização, usarei aqui outra expressão: novo cotidiano. Sim, a cena faz parte do cotidiano de pandemia. Se não fosse o isolamento obrigatório, possivelmente aquela mãe estaria, àquela hora, em algum escritório, sala de aula, ateliê, redação, sei lá. E o filho estaria na escola.

Ou seja: ainda há o que se espremer de positivo no momento doloroso que estamos vivendo. A relação entre crianças e adultos está florescendo. E ambos estão tirando disso um bom proveito, como fui capaz de perceber naquela caminhada.

Para mim também foi muito bom porque ativou em mim um pensamento muito gostoso. Lembrei-me de um dia que, instigada pelos amigos, resolvi levar  meu filho Pablo ao Maracanã. Ele devia estar com 7, 8 anos, o pai (que não morava mais conosco) não gostava muito de futebol, eu não tinha esta formação. E Pablo, até aquela altura, nunca tinha visto um jogo ao vivo.

Escolhi uma partida bem pouco interessante, de jeito que só encontrássemos lá os aficionados. Meu medo era o tumulto. Lembro até hoje que o jogo era Bangu X Flamengo. Era um sábado cinza, à tarde,  e eu deve confessar que não estava, exatamente, muito confortável com o programa. Fui pela causa. Queria que meu filho conhecesse o Maraca e tivesse a chance de se interessar por futebol. Lá fomos nós.

Comprei lugar na arquibancada, afinal a ideia era fazer o programa genuíno. A partida começou logo assim que chegamos. Mas, como eu não entendia patavinas do que estava acontecendo em campo (confesso minha total ignorância, que continua até hoje), comecei a me sentir atraída pelo movimento das torcidas. Era lindo ver a Ola!

Quando dei por mim, Pablo e eu tínhamos largado o campo e estávamos, ambos, extasiados com o que acontecia nas arquibancadas. Houve um gol e quase comemoramos, instantes antes de percebermos que era do time que ocupava a outra arquibancada.

Foi bom e divertido demais. Mas não deixou no filho o gosto por futebol. Nem me deixou vontade de repetir o programa.

É bom demais quando a memória nos aviva sentimentos alegres. Ajuda a enfrentar a pandemia e, de quebra, segundo a Medicina Tradicional Chinesa, fortalece nosso sistema imunológico. Êita caminhada boa esta!

A foto foi tirada por Sergio Ramalho há décadas. Na cena, além de mim, o filho.

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O consumo de carne e a Covid

Anda provocando irritação a expressão “novo normal”. É assim mesmo que acontece em nossa era de viralizações. Depois de criar e espalhar uma ideia, enfada os ouvidos com repetições, a ponto de não se querer mais ouvir falar. Já, já outra expressão será criada, e o destino será o mesmo.

Mas, mesmo correndo risco de interpretações cansadas, vou insistir no “novo normal”. Na verdade, cansada estou eu quando ouço a expressão “volta à normalidade”. Em meio a uma pandemia que, em cinco meses, já infectou 3,5 milhões de pessoas e causou mais de 250 mil mortes, imaginar que tudo vai voltar a ser como antes é, no mínimo, preguiça de pensar.

E fiquei feliz quando recebi, da amiga Juliana Garçon, o relatório que acaba de sair do forno, feito pela Fairr (https://www.fairr.org/), grandes investidores que abordam questões de responsabilidade das empresas quando se trata de riscos e oportunidades materiais causados ​​pela produção intensiva de animais.

Não fiquei feliz com os dados publicados, vejam bem, mas fiquei bem otimista com a iniciativa da rede.

Vamos logo aos números, para não cansar os leitores: das 60 empresas globais que vendem carnes, 44 estão em alto risco pandêmico. O que isto quer dizer? Que se essas empresas não mudarem seus métodos de matar os bichos e processá-los antes de irem às gôndolas dos supermercados, elas podem ser vetoras de outras pandemias.

Não, a Covid-19 não veio do gado. Mas a próxima pandemia pode vir, dizem os resultados do estudo.  Simples assim. As chamadas doenças zoonóticas são aquelas que passam dos animais selvagens para os humanos.

“Ao substituir habitats selvagens por cidades e fazendas, entramos em contato com animais silvestres que abrigam vírus anteriormente desconhecidos. Globalmente, a agricultura animal é responsável por 70 a 80% do desmatamento”, diz o relatório.

E mais: o uso excessivo de antibióticos na agricultura animal ameaça a capacidade de tratar doenças infecciosas e não infecciosas. “Prevê-se que o aumento da resistência antimicrobiana (RAM) mate dez milhões de pessoas anualmente até 2050 se não for verificado”.

Mas, o que aconteceu no processo? Como a indústria pecuária permitiu que as coisas desandassem desse jeito? A resposta é simples: “O modelo industrializado de produção animal foi otimizado para priorizar os custos e a eficiência da produção, à custa de vários outros fatores, incluindo segurança do trabalhador, biossegurança e, finalmente, resiliência”.

Em outras palavras: para respeitar os mandamentos do sistema econômico, que exige acumulação de riqueza, as empresas ajustaram a produção para ampliar muito o número de consumidores. E os preços ficaram “acessíveis”.

É bom visitar também os dados históricos. Mundialmente, a partir do fim da II Guerra é que a proteína animal começou a entrar com força na mesa para servir como alimento. Antes disso, o foco estava nos grãos, nas sementes, no trigo e no milho.

Aqui no Brasil, segundo o trabalho “A alimentação e as principais transformações no século XX – uma breve revisão”, de Iracema Santos Veloso Maria do Carmo S. de Freitas, entre as décadas de 1960 e 1990 houve um aumento aproximado de 45% no consumo de carnes e embutidos (9,1 para 13,2%), de 60% para leite e derivados (5,1 para 8,2%) e uma estabilidade no consumo de ovos (1,0%).

Agora vem a parte mais polêmica: a ideia é que a carne custa muito barato (embora seja quase inviável o consumo para as classes menos favorecidas) e que, para que a produção encontre um caminho sustentável, é preciso que o valor cobrado seja maior. Na prática, isto já acontece. Não imagino os grandes chefs de cozinha usando acém, pá ou patinho para criarem seus pratos. O que quer dizer que a classe rica já paga mais caro por um produto muito mais refinado.

Basta acompanhar a série “Somebody Feed Phil”, para ver como isto acontece. Tem até gado de neve, coisa que eu nunca tinha ouvido falar. São carnes mais tenras e mais gostosas. Para um público também selecionado.

A mudança é possível, na visão dos autores do relatório da Fairr, se o consumo das proteínas vegetais, “mais eficientes e sustentáveis” passar a ser maior. Já existe o Hambúrguer do Futuro no supermercado onde eu faço compras. Provei, achei gostoso, é feito à base de grão de bico. Vamos ver se daqui a um tempo não teremos também plantações de grão de bico degradando áreas que poderiam estar servindo para outros produtos.

A questão é: precisa diversificar. Precisa também informar as pessoas sobre as múltiplas possibilidades que podem substituir a proteína animal. É possível.

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Quem são os bois?

Se me permitem, leitores, quero falar sobre os bois.
Quero ir além da fala do ministro Ricardo Salles, do meio ambiente, que, como todo mundo sabe, disse de forma clara e cristalina que usa uma estratégia para fazer avançar seu projeto de desenvolvimento para o país. A estratégia é forjar, durante a pandemia (ou seria um “fuzuê”?), uma cortina de fumaça para que a mídia amorteça suas atitudes infralegais. Em tradução livre, infralegal é tudo aquilo que “não se encontra perfeitamente de acordo com os mecanismos legais”. Então, vamos logo simplificar: atitudes ilegais. Mas há outra interpretação à luz do Direito, segundo me avisou

Rubens Harry Born,  não é algo contra a lei, refere-se às normas administrativas que devem atender o que está previsto em lei. O que o ministro Salles quer é se valer de meros atos administrativos para flexibilizar as normas e gestão ambiental. OK, não é ilegal, mas…
A questão, para mim, nem é saber o que esconde o ministro. Fica muito claro que o projeto dele de “progresso” para o país é acabar com qualquer floresta em pé. Árvores vão para madeireiros, territórios antes preservados vão para mineradores ou para a agropecuária. E o futuro a Deus pertence. Zero preocupação com aquecimento global, terras degradadas, incêndios… nada. Sabemos disso, não é de hoje. Mas, será que aqueles que são convidados para o tal projeto, estão de acordo?
Este é meu ponto.
Como sabem aqueles que acompanham meu trabalho, desde o início do século eu me dedico a ler, pesquisar, detalhar e, talvez, interpretar as ações globais e nacionais de quem se ocupa do que se chama de desenvolvimento. E eu gostaria muito de saber o que pensam as corporações, chamadas de boiadas, sobre a fala do ministro.
Se não foi outra estratégia, uma espécie de propaganda para avisar que o Brasil está à venda, o ministro já teria esta boiada pronta para passar e explodir tudo? Se sim, quem será?
Falamos tanto, há tanto tempo, sobre a responsabilidade das empresas. Por mais que muitas delas tenham mostrado que, no fim e ao cabo, na hora de fazer a escolha, a moeda fala mais alto, eu sou capaz de apostar que há líderes empresariais sérios no país e que eles estão bem pouco à vontade com a fala de Salles. Não será nada honroso para o perfil corporativo ser comparado a bois que passam e destroem tudo.
A Floresta Amazônica perdeu 254 quilômetros quadrados de área verde e o desmatamento cresceu 279% em março deste ano. Deste ano, gente! No meio da pandemia. A impunidade aos crimes ambientais e os retrocessos, aliados ao estímulo à grilagem, são os principais culpados. Mas, quem está por trás disso? Quem é conivente com as infralegalidades?
Aqui abre-se a chance de virem a público aqueles que não são boiada. Para se defender. Do contrário, toda a indústria pecuária, a quem o documentário “Sob a Pata do Boi’, de 2018, atribui 80% do desmatamento da Amazônia, estará nesta lista. E, vamos combinar: ninguém há de ter orgulho de ser chamado de boiada.
Para além da vergonha, há chances sérias de que outros países não comprem produtos da boiada. E aí lá se vai por água abaixo o projeto de desenvolvimento do país.
O efeito de ter sido chamado de boiada para abrir espaço às ações infralegais do setor de meio ambiente do governo, neste momento, pode ser praticamente o que a febre aftosa causa. Muita gente vai querer correr.
O país tem empresas sérias, que devem estar bastante preocupadas com este cenário. Assim espero.
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A importância de se ter um marco legal para a biodiversidade, na visão do presidente do Instituto Ethos

O presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão, escreve sobre a importância de se ter um novo marco legal para a biodiversidade. O artigo, na íntegra, está abaixo.

 

“Um novo marco legal para a biodiversidade

 

“Nosso caro leitor sabe do que é feito o xampu que usa diariamente? Esse
produto muito provavelmente contém algum princípio ativo extraído da
flora brasileira, como o jenipapo, do Cerrado, o mandacaru ou o juá,
da Caatinga, e o guaraná ou o jaborandi, da Amazônia. Aliás, vários
desses produtos são usados também como alimento e na produção de
medicamentos. O jaborandi, por exemplo, contém a pilocarpina, uma
substância que é usada na produção de colírios para o tratamento de
glaucoma.

“Todos esses produtos naturais estão à nossa disposição graças à imensa
biodiversidade do nosso país, ou seja, a enorme riqueza da flora e da
fauna brasileiras – a maior do mundo –, distribuída em biomas tão
variados quanto a Floresta Amazônica, a Caatinga, o Pantanal, a Mata
Atlântica, os Pampas e a área costeira.

“Mas a mera existência desses produtos de nada adiantaria se não fossem
os conhecimentos sobre a sua utilização prática que os povos tradicionais,
como os indígenas, os caiçaras e os quilombolas, vêm acumulando e
preservando ao longo de séculos sobre as mais variadas aplicações da
flora e da fauna do país. No entanto, a remuneração sobre isso não vai
para os indígenas ou para as comunidades locais, que são os verdadeiros
detentores do conhecimento sobre o potencial de determinadas plantas,
mas sim para as indústrias que registraram o princípio ativo delas como
sua propriedade.

“Um exemplo clássico de apropriação de um produto da flora brasileira
foi o caso do cupuaçu, no começo da década passada. Uma empresa
japonesa simplesmente registrou e patenteou como sua propriedade
o nome dessa fruta tipicamente amazônica, em escritórios de marcas
do Japão, dos Estados Unidos e da Europa. O governo brasileiro reagiu
duramente, com o argumento de que “cupuaçu” é o nome próprio de uma
fruta amazônica, assim chamada há milênios por índios do Brasil e do
Peru. Ainda assim, a batalha contra esse registro levou cinco anos, até ele
que acabou cassado em todas as praças em que vigorava.

“Uma das formas de corrigir essa imensa injustiça em relação aos
povos tradicionais é garantir uma repartição justa e equilibrada dos
benefícios recebidos por meio do nosso patrimônio genético. E esse é
um dos objetivos de um anteprojeto de lei que deve ser encaminhado ao
Congresso pela Presidência da República com o propósito de estabelecer uma nova legislação para a exploração da biodiversidade no país, isto é, um novo marco legal.

Outro objetivo dessa nova legislação é facilitar o acesso a esse patrimônio e ao conhecimento tradicional sobre ele, reduzindo as barreiras impostas pela legislação atual ao seu uso em produtos comerciais. O marco legal em vigor foi criado em 2001, quando a grande preocupação do país era se proteger da biopirataria (a exploração de nossos recursos naturais sem autorização). Por isso, ele colocou tantos obstáculos que o acesso ao patrimônio genético brasileiro foi dificultado até mesmo para os pesquisadores das universidades.

“Daí a importância se voltar a levantar a questão da ratificação do
Protocolo de Nagoya, que trata exatamente do acesso a recursos
genéticos e repartição justa e equitativa dos benefícios advindos de
sua utilização. No ano passado, a presidente Dilma Rousseff enviou ao
Congresso uma mensagem solicitando essa medida, mas até agora não
houve nenhuma resposta. Espera-se que o tema volte à pauta quando for
debatido o texto do novo marco regulatório.

“É importante salientar que, para a construção da proposta de uma nova
legislação, o governo vem mantendo um amplo diálogo com empresas de
medicamentos, cosméticos e produtos alimentícios , com as comunidades
tradicionais e também com cientistas, envolvendo os ministérios do Meio
Ambiente e da Ciência e Tecnologia.

“Nós, do Instituto Ethos e do Movimento Empresarial pela Biodiversidade
– Brasil (MEBB) sempre fomos favoráveis ao estabelecimento de um novo
marco legal e por isso apoiamos a iniciativa do governo. No entanto,
não foi estipulada uma data para o envio desse anteprojeto de lei ao
Congresso, o que nos parece preocupante.

“A criação de um novo sistema de acesso aos recursos genéticos do
Brasil e de repartição de seus benefícios é também um dos grandes
objetivos do MEBB, que foi lançado em 2010 para mobilizar empresários
e ONGs brasileiras em favor do estabelecimento de uma cultura de uso
sustentável da biodiversidade no âmbito dos negócios. Em 2012, o MEBB
se reuniu com um grupo mais amplo de associações empresariais a fim
de construir uma proposta para esse novo marco legal, um texto que não
trouxesse insegurança jurídica para as empresas, estimulando assim o
desenvolvimento tecnológico com base na biodiversidade brasileira.

“Durante o VI Seminário do Fórum Amazônia Sustentável, no final do ano
passado, o MEBB abriu um diálogo com as comunidades tradicionais ali
representadas. Todos se comprometeram a continuar com o processo
de diálogo na busca por um consenso entre o setor empresarial e as comunidades e colaborar para que o novo marco legal seja aprovado o mais rápido possível.

“É por essa razão que, embora achemos louvável a iniciativa da Presidência
da República de enviar esse anteprojeto ao Congresso, insistimos para
que sejam estabelecidos prazos concretos para a discussão e aprovação
dessa legislação, que será de suma importância para as comunidades
locais, para as empresas e para a preservação da nossa biodiversidade.

 

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Os bastidores em Túnis, capital do Fórum Social Mundial

O Fórum Social Mundial terminou sábado. Com a participação de 35 mil pessoas em cerca de mil oficinas e debates, fica difícil mesmo que se consiga ter uma única notícia nova, fresquinha, para divulgar. O próprio site oficial do Fórum está meio desaquecido.  É sabido que a análise da situação econômica mundial, que deu origem às primaveras árabes, foi o tom das discussões. No final do evento houve uma manifestação de solidariedade com a Palestina e o encontro rendeu uma Declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais que, de verdade, não contém nenhuma grande novidade, nenhuma grande manchete.  É que ali as decisões não são tomadas como no Fórum Econômico, onde persiste a bilateralidade.

O FSM se comporta como a sociedade: é múltiplo, é diverso. Abraça várias correntes, dá voz a cada uma delas. No texto da Declaração final,  consegue-se extrair alguns consensos:

“Pela justiça climática e a soberania alimentar”

 “Contra a violência contra as mulheres”,

 “Pela paz e contra a guerra, o colonialismo, as ocupações e a militarização dos nossos territórios.”

São  reivindicações  tão  óbvias, tão antigas e, ao mesmo tempo,  ainda tão necessárias. O FSM, hoje, é quase uma espécie de arena que deveria abrigar a multiplicidade. Uma espécie de arena que deveria funcionar para que uns pudessem contar para outros suas experiências, como conseguiram  escapar do laço, fazer diferente, criar nova moeda, novo jeito de gerir uma empresa, de medir as riquezas de um país, de respeitar a potência não das armas, mas das pessoas.

Usei o verbo no modo condicional porque, de verdade, segundo os próprios organizadores, o FSM nunca  conseguiu ter tanta agilidade na hora de facilitar o acesso a quem não pôde, por exemplo, pagar passagem ou hospedagem.  Assim, fica comprometida a proposta de ser um espaço de todos para todos. Mas a mensagem – “Um outro mundo é possível” – veiculada desde o primeiro Fórum (realizado em Porto Alegre em 2001), também continua, assim como todas as lutas.

Uma equipe brasileira, do Instituto Brasileiro de Análise Social e Econômica (Ibase), esteve em Túnis e a  coordenadora de comunicação do Instituto e ex-repórter do Razão Social, Martha Neiva Moreira, estava junto.  Com o olhar sensível de repórter que respeita e enxerga as singularidades, Martha fez praticamente um diário de bordo em sua rede social, com detalhes super interessantes e relevantes sobre o local.  Peço licença então à Martha, que a esta altura ainda deve estar sob o céu mediterrâneo, para juntar todas as informações numa espécie de entrevista virtual aqui no blog. As perguntas, feitas por mim mas ainda não lidas por ela,  se encaixarão nas respostas.  E as fotos, é claro, também são dela.

Qual foi sua impressão inicial sobre Túnis?

Martha Neiva Moreira –– Túnis tem onze milhões de habitantes. É grande. Tirando a Medina (cidade antiga) não tem uma arquitetura árabe tradicional. Vive do turismo e de doações anuais de tunisinos que moram especialmente na Europa. Depois da Primavera Árabe, o Henade — partido formado por muçulmanos que durante a luta pela libertação do domínio francês (na década de 40) estiveram na prisão —  tomou o poder. Não são radicais. Mulheres usam véu se quiserem. Aborto é legalizado. E o nível de escolaridade é bem alto. A União Geral dos Trabalhadores é bem atuante aqui. São eles que estão garantindo a expressão da sociedade civil neste “dia seguinte” da Primavera Árabe e, por isso, estão na organização do Fórum Social Mundial. A Tunísia é um país muçulmano. Portanto bebida alcóolica não circula com essa facilidade. Os homens reunem-se em cafés para beber chá, ou outra bebida quente, e fumar uma espécie de narguilê.  A medina, ou cidade velha, é bem interessante com suas ruelas estreitas. O mercado é o legítimo Saara. Com milhões de lojinhas, com objetos lindos de prata, bronze, tapetes, tecidos maravilhosos e temperos. As ruas são agradáveis de se andar, com uma arquitetura afrancesada mesmo – prédios claros, com sacadas em ferro. Em algumas há trilhos para um veículo elétrico que circula pela cidade. Um delícia para se andar. Túnis é azul e branca.tunis3

Como estava o clima em Túnis por conta do FSM?

Martha Neiva Moreira — O FSM deste ano reuniu 35 mil pessoas, segundo jornal local. O clima de esperança e otimismo entre os participantes está parecido com o primeiro Fórum, em Porto Alegre. A cidade estava cheia e, na universidade El Manar, onde aconteceram as atividades, havia muita música. As mulheres africanas deram show onde foram, com os cantos de trabalho que entoam. Elas costumam dizer que, na África, política se faz cantando. Aliás, neste Fórum, as atividades que tratam das questões femininas tiveram um espaço próprio (vou contar sobre isso em uma matéria do Canal Ibase – http://www.ibase.org.br). Numa Tunísia pós-revolução, direito das mulheres é um tema importante. Na assembleia das mulheres, que abriu as atividades em El Manar, cerca de 800 moças, muitas em seus trajes típicos, denunciaram especialmente a violência contra mulher. Na Tunísia, os casos aumentaram depois da revolução. O estado ainda é de transição e não há, por aqui, mecanismos de controle. A constituição do país está sendo reescrita e o artigo que trata de direitos das mulheres é um dos mais polêmicos. Em Túnis há poucas mulheres circulando nas ruas, gentileza de homens com o sexo feminino é inexistente e o assédio de homens às estrangeiras é descarado. Para se ter uma ideia da discriminação, no interior do país, muitos restaurantes não têm sequer banheiros femininos. Só masculinos. E as associações de mulheres aqui estão começando a se organizar para sair da clandestinidade.

O FSM começou com uma marcha das mulheres. Depois da Primavera Árabe elas foram desobrigadas a usarem o véu. Ou seja: a questão de gêneros aí é um ponto realmente sensível, pelo que se observa…

Martha Neiva Moreira — Vi muito mais homens que mulheres nas ruas daqui. Mas quando precisei usar o Metro para me locomover tive uma noção breve da questão de gênero por aqui. Eu estava com uma tremenda  dor nas costas porque tinha andado muito durante o dia e quis me sentar. Não havia lugar. Quando me dei conta vi que, naquele vagão, todas as mulheres estavam em pé. Os homens é que estavam sentados (e outros de pé, porque estava cheio o vagão). Simples assim.

A falta de obrigação do uso do véu então foi só um passo pequeno numa luta gigante, é isso?

Martha Neiva Moreira – Em nossa visão ocidental, sim. Mas tive a oportunidade de entrevistar, por exemplo, uma menina de 21 anos chamada Aya Bouchmila (na foto).tunis1Ela  estuda Engenharia Industrial na Universidade de El Manar, em Túnis. Usa o nikab porque quer, embora as mulheres na Tunísia não sejam mais obrigadas, desde a Primavera Árabe, a usar o hejab (o véu) muito menos esta espécie de burca. Aya usa por questões religiosas. Ao acordar veste o traje e só tira na hora de dormir. Em casa pode ficar sem, se quiser. Aproveitou a ocasião do FSM para protestar, junto com mais vinte mulheres estudantes da universidade que também usam o manto, contra a universidade que quer proibí-las de fazerem as provas porque usam a roupa. Ela diz que quer ser respeitada na sua crença. Viva a diferença, sem dúvida, mas para nós, mulheres ocidentais, é muito opressor vê-las cobrindo o corpo desta forma. É uma sensação bem estranha. Até as mãos são cobertas com luvas.

Agora, conta como são os costumes gastronômicos daí..

Martha Neiva Moreira — Cuscus é o prato nacional. Vem acompanhado de grão de bico, carne (carneiro, peixe ou frango) e legumes. Custa, em média, seis dinares (mais ou menos  R& 6). Em todos os  lugares há, também, locais vendendo frutas secas. Tâmaras, passas, figos, damasco, banana, pera, castanhas, nozes, grão de bico etc. Custa pouco mais de dois reais 100gr.

Para quem quer ainda mais detalhes, basta ir ao Canal Ibase (www.ibase.org.br) que lá estarão as reportagens não só de Martha como de outras pessoas do Ibase sobre o FSM.

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Um país e um encontro movidos a dignidade

Embora pouco se comente por aqui, o Forum Social Mundial, com previsão de mais de 70 mil participantes, continua acontecendo em Tunis, capital da Tunísia. Uma equipe do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) está por lá, mandando notícias  que vão para o site (www.ibase.org.br). O último texto, de Maria Luiza Franco Busse, conta como são recebidos os visitantes no campus da universidade onde acontecem a maioria das atividades. É assim: “Bem vindos à Tunísia, país da revolução”.

A repórter conta que liberdade é a palavra-chave que encanta os tunisinos e que, mesmo em péssimas condições econômicas, a luta maior do país é por dignidade.  “ O forte sentimento de liberdade demonstra ter ainda muito fôlego para pagar o preço da retração de investimentos que se mudaram para Marrocos e Argélia, da gasolina que teve aumento de mais de 50% e do desemprego que saltou de 18 para 30%.”, diz o texto.

Lá, todo mundo privilegia a liberdade porque ainda se lembram, de memória muito recente, como é viver sem.  E é nesse cenário de palavras tão bonitas que acontece o FSM. Vejam abaixo as últimas notícias de lá:

“O Brasil, pais de origem do Fórum, está presente com pelos menos 35 organizações, entre elas, Primatas da Montanha, ONG ligada à Escola de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto, Fábrica de Imagens, Ações Educativas (Ceará), Confederação Nacional das Associações de Moradores, Rede Brasileira de Pesquisa em Nanotecnologia, Casa Macunaíma de Fóruns e Ações dos movimentos sociais, Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Sul, Instituto Paulo Freire, Departamento de Regularização do Solo da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Aripuanã(AM), Sindicato Nacional dos Aeroviários, Central Sindical e Popular onlutas, Teatro do Oprimido, Advogados Sem Fronteiras, Fundação Perseu Abramo e Fundação Mauricio Grabois.

O destino do FSM também é tema de atividade. Desde o racha em 2003, quando alguns fundadores saíram por quererem mais ação politica, a cada ano o Fórum vem se firmando como evento missionário de troca de experiências e debates sobre alternativas ao modelo capitalista – que tem a guerra e o dinheiro como princípio. Mas há vozes dissonantes. Entretanto, pelo que se pode perceber em Tunis, a revolução deu fôlego à proposta que vem prevalescendo. Todos tem algo a dizer, querem se ouvir e estão dispostos a garantir e preserver esse espaço de encontro, apesar de todas as críticas.”

 

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Sustentabilidade e empresas. O que é real, o que é só para inglês ver…

Meu dia de terça-feira teve dois momentos muito interessantes e proveitosos para o tema que me afeta, a sustentabilidade. Quero compartilhar aqui.

Na hora do almoço aceitei o convite feito pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social para a imprensa carioca. De uma conversa informal com o vice-presidente da entidade, Paulo Itacarambi, colhi bons frutos para reflexão e futuros debates. Atuando desde 1998 com a missão de apresentar às empresas o caminho de uma atuação responsável e sustentável, o Ethos está, neste momento, sentindo falta da presença mais forte do governo para que se possa falar, verdadeiramente, numa agenda sustentável para o país.

— O Brasil tem condições, tem recursos naturais, poderia construir uma marca – made in Brazil – sustentável. Para isso é preciso criar uma massa crítica política e empresarial nessa direção – disse Itacarambi.

De minha parte, penso que essa agenda sustentável depende, sim, de uma atuação mais forte do governo, mas não de ações isoladas como foi o Contratações Públicas Sustentáveis, programa lançado em 2010 pelo governo Dilma Roussef, que ganhou um reforço ano passado por conta da Rio+20.  O programa criou uma lista de 550 produtos  sustentáveis que devem constar das compras do governo e tem meta de ampliar essa lista. É uma grande iniciativa, mas não pode ser solitária.

Itacarambi foi além e disse que o governo deveria criar uma Agenda Nacional de Sustentabilidade.  Lembrei-me, no entanto, de buscar exemplos internacionais. Como seria isso em outros países? De verdade, cada um acaba assegurando seu próprio canto, de acordo com as privações que mais assustam. Os Países Baixos, por exemplo, criaram um Fundo de 1 bihão de euros para se adaptar às mudanças climáticas. Mas o pavor deles se justifica: como já ficam abaixo da linha do mar, o descongelamento das geleiras do Ártico, ali pertinho, pode realmente aumentar o nível das águas e deixá-los numa situação bem precária. É bom se prevenir. Já com relação a dar ajuda aos países ilhas do Oceano Pacífico que ficarão na mesma situação… bem, isso ainda está fora de cogitação.

Ou seja: o céu é de todos, a natureza é de todos, mas as questões ambientais e sociais vão sendo resolvidas caso a caso. Com certeza não é o que se quer quando se pensa num mundo sustentável.

Mas, se por enquanto o possível é agir localmente, que bom que existem bons casos, exemplos legais que podem deveriam  ser replicados para se alcançar parte de tal agenda. Itacarambi lembrou-se do recém-lançado Guia de Construções Sustentáveis da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, uma  entidade sem fins lucrativos com 64 sindicatos e associações do setor da Construção Civil, um dos mais sensíveis no tema  sustentabilidade, não só por ser poluente como porque há muitas questões trabalhistas nas empresas.

Fui ao site da Cbic (www.cbic.org.br) conferir o Guia e fiquei bastante entusiasmada com o que li. Sobretudo porque justamente hoje se está lidando, aqui no Rio, com uma questão delicada envolvendo o fechamento do estádio Engenhão. Construído há seis anos, o estádio já apresenta deslocamento 50% maior do que o previsto no projeto e, segundo reportagem do site do Globo, custou bem caro, R$ 380 milhões à época. Não sei em que condições ele foi construído, mas com certeza, agora, as empresas que vão assumir a restauração já têm um guia para norteá-las com relação às melhores práticas que evitarão uso abusivo de recursos naturais e o uso desrespeitoso dos recursos humanos, o que pode acabar redundando em economia.

O Guia da Cbic pretende ser uma espécie de plataforma para ser usada pelas associações, sindicatos e empresas ligados a eles. Só para ter uma ideia do que estou falando, o texto elege temas prioritários para o setor: água; desenvolvimento humano; energia; materiais e sistemas; meio ambiente, infraestrutura e desenvolvimento  urbano; mudanças climáticas; e resíduos.  Em outro texto, a Cbic  diz que “entende que condições dignas de moradia e infraestrutura são premissas para garantir o acesso pleno da população a direitos fundamentais, como saúde, educação, trabalho, mobilidade, segurança, água, energia, entre outros.” Não é uma coisa boa de ler?

Assinado por Paulo Safady Simão, presidente da Cbic, o documento  reúne propostas e diz que elas são fundamentadas em experiências concretas “que mostram que é possível viabilizar no Brasil uma indústria da construção sintonizada com os conceitos mais avançados já em prática em todo o mundo.”

Se você, caro leitor, já está pensando que tudo isso não passa de boas intenções , da série “muito bom para ser verdade”, deveria ter ido ao meu segundo encontro, em Copacabana, no Teatro Sesc Rio, para o lançamento do livro “Diálogos Sociais”, excelente iniciativa do Sesc junto com a ONG Cieds (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável).  Numa espécie de ágora, com as cadeiras expostas em círculo, passamos duas horas bastante produtivas discutindo questões como a sustentabilidade das empresas, a função das mídias sociais, o mundo dos negócios, o mundo social. Fui convidada para atuar como uma espécie de incentivadora do diálogo, e para a tarefa tive a companhia do professor da UFRJ especialista em sustentabilidade, Cid Alledy. Na plateia, representantes de ONGs e associações (veja na foto).sesc

O resultado do encontro vai ser reproduzido numa publicação que será lançada ano que vem, portanto não vou me estender muito para que vocês possam ficar curiosos e acompanhar o processo de produção. Mas não consigo deixar de compartilhar a linha mestra do nosso debate. Foi bem rico. E a questão do real envolvimento das empresas em prol de um mundo melhor, sustentável, foi um dos pontos.

Alledi lembrou de casos recentes, bem cabeludos, onde empresas foram flagradas em situações que causaram impacto negativo nas redes sociais. E o quanto isso poderá custar a sua imagem (como Unilever e Nestlé, denunciadas pelo Greenpeace). Eu fui um pouco mais atrás, trazendo da memória a história da Nike, que foi denunciada, em 1996, por um repórter da revista americana Life, por manter trabalho infantil em sua cadeia produtiva. Na reportagem, um menino com cerca de 6 anos costurava uma bola com o símbolo da Nike. Detalhe: ele ganhava 0,6 centavos de dólar por hora de trabalho.

Até que ponto essas denúncias realmente mancharam (mancham) e verdadeiramente prejudicaram (prejudicam) a imagem das empresas? Não dá para responder. O que se tem, hoje, é uma ferramenta mais poderosa nas mãos (blogs, facebook) que faz com que a denúncia chegue muito mais rápido. Mas, será que o dano também não se desfaz rapidamente?

São questões interessantes, que animam a vida e enchem de reflexões  uma blogueira que escreve sobre questões sustentáveis. Divido com vocês. É minha arte e é meu prazer.

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Assembleia de mulheres marca hoje o início do Forum Social Mundial em Tunis

A partir de hoje e até o dia 30 de março, a capital da Tunisia, Tunis, recebe gente do mundo inteiro para  o décimo segundo Forum Social Mundial. Este ano, além das inúmeras atividades que caracterizam o Forum como um espaço aberto a múltiplas iniciativas e debates sobre temas importantes para a humanidade, haverá um movimento chamado Espaço do Clima. Vai ser uma espécie de Forum permanente, dentro do FSM, para discutir as causas, os impactos e estratégias para tratar das mudanças climáticas, sobretudo com relação aos países pobres.  Segundo o site do Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo (Grap), os organizadores desse espaço, as mudanças climáticas são responsáveis por cerca de 400 mil mortes por ano em todo o mundo.

A escolha da cidade onde começou a Primavera Árabe, espalhando para outros países da região um movimento pró-democracia, não foi à toa. Segundo Chico Whitaker, um dos fundadores do FSM, “o grande desafio de Tunis, hoje,  é não abandonar a democracia”.  É preciso lembrar que no mês passado o assassinato do líder de oposição, Chukri Belaïd, fez com que a cidade revivesse movimentos de intensa mobilização social.

—- Os integrantes do  Comitê de Organização do FSM imediatamente se mobilizaram para condenar esse crtime. Um comunicado assinado por mais de uma centena dos membros do Conselho Internacional do Forum assinala que esse crime não poderá frear o processo iniciado pelos democratas tunesinos a quem somos solidários. Estamos convencidos  de que as forças democráticas saberão manter a convicção profunda de preferir a resolução pacífica dos conflitos como caminho para se avançar no processo democrático. E, mais do que nunca, estamos convencidos da necessidade da mobilização internacional para assegurar o sucesso do FSM 2013 — disse Whitaker em entrevista para o site do Grap.

Whitaker acredita ainda que o Forum será uma excelente oportunidade para se conseguir encontrar com pessoas que virão de todos os cantos do país e, assim, saber detalhes sobre a Primavera Árabe.

Fundamentais na Primavera Árabe, as mulheres terão uma forte atuação também no FSM. Hoje, desde as 10h elas estarão reunidas em Assembleia no Campus Universitário de Tunis.  Será um espaço para dividir experiências e para falar sobre as diferentes formas de luta e resistência contra as violações dos direitos das mulheres em todo o mundo.

Depois desta Assembleia, espera-se uma caminhada dos 30 mil participantes e representantes de organizações , redes e movimentos de todo o mundo que sairão da Praça 14 de janeiro. Até ontem, segundo o site do FSM, 4.578 organizações de 127 países se registraram para participar das atividades do Forum. Haverá mil organizaciones se han registrado para participar en las actividades del FSM, además de 30.000 participantes de 127 países repartidos por los cinco continentes. Haverá mais de mil oficinas, 70 espetáculos musicais do mundo todo, cem filmes, 50 exposições e outras atividades.

O encerramento oficial, no dia 30 de março, será marcado por uma marcha de apoio ao povo palestino no Dia da Terra.

Á medida do possível, pretendo ir dando notícias sobre o FSM aqui no blog.

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