Cuidem de sua saúde! É este o último recado da OMS para o mundo

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O contato com a natureza é fundamental para garantir a saúde do corpo

Há duas leituras possíveis sobre o recado que a OMS mandou ontem. O etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da instituição – que é subordinada à ONU e foi criada três anos depois, em 1948 – disse em alto e bom som que a pandemia vai alterar a forma como vivemos. E que é responsabilidade de cada um ajudar a barrar a transmissão do vírus.

A primeira leitura é política. Fica bem claro que as promessas de um modelo único para cuidar da saúde de todos pode dar certo. Mas depende muito da vontade política de cada país, de cada governo. As falsas promessas, portanto, estão escancaradas.

Não significa muito investir monetariamente em saúde se aqueles que estão gerindo tais valores não têm boas intenções. Ou, não vêm saúde do mesmo jeito que você vê. Aqui no Brasil, a julgar pela atitude do presidente, que mesmo infectado deu a mão a um trabalhador na rua, o governo tem uma visão, no mínimo, esdrúxula sobre o que seja saúde. Temos sido, portanto, alvo direto e certeiro da mensagem da OMS: cada um cuide de si. Este será o ato mais solidário, porque pode pôr uma barreira na proliferação da doença.

A segunda leitura da mensagem da OMS envolve, pois, o autocuidado, tema recorrente quando se debate saúde sob o ponto de vista amplo. Claro que vai ajudar a não espalhar o vírus, mas sobretudo vai ajudar a que outras doenças não se instalem. E, se for possível ser ouvido sem barreiras, é um recado que vai, de verdade, provocar uma grande mudança no mundo.

Dia desses entreouvi uma conversa entre duas mulheres aqui na vizinhança. Uma delas estava feliz porque o teste feito na mãe, que mora no Norte, tinha dado negativo para o vírus Corona. Mas a senhora está enferma, com febre, taxas altíssimas de glicose, é obesa… A outra perguntou se ela estava cuidando dessas questões e a filha deu pouca importância. Sim, eram sintomas recorrentes, aos quais ela já se habituara (obesidade, diabetes). Tudo sob controle, desde que com a dosagem habitual dos remédios.  O grande problema era a febre.

A ideia é, justamente, perceber que não se precisa conviver com obesidade, diabetes, pressão alta, tomando remédios a vida toda. A pandemia pode ter vindo, justamente, para chacoalhar nossa noção de saúde.

E pode-se dizer que Ghebreyesus disse, praticamente: movam-se para buscar saúde, não fiquem à espera de alguém que venha ditar regras sobre seu corpo. Pelo menos, foi este o recado que chegou a mim.

A prevenção é o forte das pessoas que são educadas para sentir o que o corpo fala. Neste sentido entra a forte conexão entre saúde e o ambiente que nos cerca, meu foco de interesse, como sabem.

Há poluição demais no mundo – do ar, a urbana; na água e na terra.  Aqui no Brasil estamos consumindo produtos com uma carga exagerada de agrotóxicos – em maio, já durante a pandemia, o governo Bolsonaro liberou 118 tipos. Num cenário desses, fica difícil ser saudável. Mas não é impossível buscar saúde. Como também não é nada inviável abrir espaço para outras culturas em nossas vidas.

O conceito do Bem Viver dialoga bastante com esta proposta. Na verdade, é mais do que um conceito, é uma vivência. Foi formatado por Alberto Acosta, político, economista, ex-ministro, ex-presidente da Assembleia Constituinte do Equador. Alguns textos que podem levar a um entendimento do Bem Viver estão compilados no livro “O Bem Viver” (Ed. Elefante), do qual recomendo muito a leitura.

A base da saúde, segundo esta vivência, é mesmo o contato com a natureza. Já há cinco anos, quando decidiu escrever o livro, Acosta lembrava que “o mundo precisa de mudanças profundas, radicais, para superar as visões simplistas que transformaram o economicismo em eixo da sociedade”. Mas não é só isto. A cultura indígena está incrustrada em cada uma das propostas dos “bons conviveres”, como prefere Acosta.

Resumindo: uma nutrição que não use produtos processados (de preferência, nenhum, mas, se for preciso, poucos); um sono que não seja interrompido por luzes e sons; tempo para meditar; tempo para caminhar; menos remédios e químicas que  E maior conexão com a natureza, consigo mesmo.

Dito assim, de forma corrida, pode parecer que tudo é muito fácil. Ou que tudo é muito difícil. Talvez não seja uma coisa, nem outra. Mas é possível. E, se prestarmos bem atenção, as sugestões independem de ter ou não dinheiro. Mas requerem educação desde a base, para que as crianças comecem cedo a sentir que têm potência de produzir saúde e de ajudar o sistema imunológico, que é a rede de segurança mais competente.

Assim sendo, vemos que Saúde, Educação e Meio Ambiente deveriam andar de mãos dadas e ter muito peso num programa de governo. É de vida que estamos falando, no fim das contas.

 

 

 

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Quem sabe faz a hora

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Tirei esta foto quando assisti a palestra de Yunus no Rio em 2013

Acredito que o acaso é um produto de forças, de cruzamentos acidentais. É assim que venho sentindo, em meu dia a dia que hoje se mostra às vezes mais monótono, feito de uma nota só.

As lives se tornaram o diamante que risca a pedra e dá a luz necessária para a sobrevivência do pensamento criativo. Longe do convívio pele a pele, perto daquilo que as pessoas têm para compartilhar, o conhecimento. E eu, na minha legítima função de espalhar informações, vou me municiando também. E vou me enriquecendo assim.

Hoje pela manhã, uma das primeiras de uma infinidade de mensagens que recebi pelas redes falava sobre os Despatronados, uma Cooperativa de entregadores(as) que decidiram se organizar numa alternativa de trabalho que consideram mais justa. Foi a oportunidade no risco. Isolados por conta do vírus, muitos de nós lançamos mão do serviço de quem se arrisca e vai para as ruas. Num país pobre como o nosso, em que o governo atual não atua na parceria, essas pessoas resolveram romper o código perverso de quem os emprega a troco de migalhas. E parece que está dando certo.

Ontem à noite, assisti no programa Papo com Favela (instagram), do jornalista Andre Balocco, a entrevista com Jessé Andrilho, da Favela de Antares. É um escritor que também conseguiu, obviamente depois de muito persistir e de encontrar parceiros certos, vencer o muro de exclusão que a cultura impõe a quem mora em comunidades. Lançou um, outro e outro livro, já foi chamado para auxiliar como roteirista e se sente, assim, incluído. Mas não largou a retórica e o sentimento de quem sempre foi posto à margem.

Eu precisava de uma linha que conseguisse unir estas peças que já formavam um mosaico na minha cabeça. E, como disse lá em cima, não por acaso, atendi o convite de Rita Afonso para assistir a uma live chamada “Tecnologias do Comum: Tendências da Inovação Social” (. sobre Inovação Social.

Rita é fonte das antigas, daquelas que se transformam em amizade, e os jornalistas que me leem sabem bem o que é isto. Professora da UFRJ na Faculdade de Administração e pesquisadora associada do Laboratório de Tecnologia, Diálogos e Sítios e outros. Eu a conheço desde o início do século, quando a entrevistei para o caderno Razão Social, que editei no O Globo durante nove anos. Rita é uma pessoa que me ajuda a espalhar notícias que têm a ver com o que acredito.

Se você, caro leitor que me prestigia, percebeu que seu “mesmiçômetro” foi às alturas quando ouviu a expressão Inovação Social, saiba que não está sozinho. Eu também faço críticas, sobretudo à quantidade de siglas e sínteses deste pensamento, a um engessamento na hora de captar dinheiro para os projetos. Quantos passos os Despatronados teriam que dar para pôr no ar e fazer andar sua criação se tivessem que impor o programa a uma banca de especialistas?

De outro modo, dentro do esquema que vivemos e que ainda não conseguimos transformar, a Inovação Social tem a vantagem de ajudar. Talvez num universo muito menor do que seria necessário, mas é positivo. Sobretudo quando se fala em relações, na verdade, em novos padrões relacionais.

Gostei muito quando Rita Afonso falou, do jeito claro e cristalino que a caracteriza (ela virou minha fonte, né?), que quando se fala em Inovação Social não se está falando só em APPs. Lavou minha alma esta informação.

“Estamos falando de novos padrões relacionais. De caminhos para soluções da vida cotidiana, das comunidades. São instáveis e se espalham por contágio”.

Mais do que tudo, Rita conseguiu dizer a frase que fez meu “mesmiçômetro” se acalmar: “Não precisa de escala”.

Sim, os programas de Inovação Social podem se adensar, podem fazer diferença. Querem um exemplo? O Papo Reto, no Morro do Alemão, surgiu da ideia de Raul Santiago que pensou em traçar um caminho para os moradores da comunidade poderem entrar e sair da favela com segurança.

Gostei tanto que continuei na live. E ouvi Cindy Lessa, uma das primeiras diretoras da Ashoka Brasil. A Ashoka é  considerada a quinta ONG de maior impacto social do mundo, e também conheci enquanto editora do Razão Social.

Cindy me trouxe a memória de Muhammad Yunus, fui correndo à estante e achei o livro “O Banqueiro dos Pobres” (Ed. Ática). Está bem velhinho, foi escrito em 1997 e conta a experiência de Yunus, que começou em 1976, quando ele decidiu emprestar 27 dólares a uma comunidade de 42 pessoas no seu país, Bangladesh, que atravessa a pior crise de fome de toda a história. Hoje ele tem uma instituição privada auto-sustentável, o Grameen Bank, com 2185 agências. Já emprestou o equivalente a 5,72 bilhões de dólares para 6,61 milhões de mutuários, 97% dos quais são mulheres.

Mas Bangladesh continua a ser um país pobre, muito pobre. Está em 142º lugar no último ranking de desenvolvimento humano feito pelo Pnud. Isto é só uma informação? Sim. E serve para alimentar minhas caraminholas matinais que compartilho aqui com vocês.

Uma das questões levantadas na live da UFRJ foi o empobrecimento de uma sociedade quando ela se baseia no individualismo. E eu me pergunto se não é exatamente esta grande “escala do humanismo” que tem estragado tudo. O que é a pobreza de Bangladesh? Como estará hoje aquela comunidade de Jobra, onde Yunus começou sua empreitada? Não será por aí, focando no desenvolvimento de cada cidadão, de cada bairro, que se vai conseguir enfrentar o mundo com ou sem pandemia?

 

 

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Resolução de segunda-feira: continuar a morar em cidade

transito_no_rio_1Segunda-feira é dia de dar início a novos planos. Muita gente começa uma dieta, muda os móveis de lugar ou mesmo transforma em ação projetos outros que estão guardados no fundo da memória. Pode ser que no final da semana tudo tenha estagnado. Mas, não importa. Sigamos o calendário gregoriano – promulgado pelo Papa Gregório XIII, em fevereiro de 1582 – e as segundas-feiras serão os dias sagrados de mudança.

Pensei sobre isto quando assisti ao documentário “Que estranha forma de vida”, dirigido por Pedro Serra, que a amiga Martha Neiva me mandou, sob a inscrição “Você já viu este doc? Nada que você não saiba. Acho que a negação da importância da nossa ligação com a natura nos trouxe aqui”.

Como não ver, depois de um comentário desses?

O filme é sobre mudança de vida radical. Pessoas que largaram cidade, trabalho, ganho de renda fixo e foram buscar saúde no contato com a natureza, em uma nova organização social. É inspirador quando eu penso na calma do local, na leveza da água, na pureza dos legumes plantados e colhidos ali mesmo. É assustador quando me imagino sem os pequenos símbolos da civilização que gosto – um bom colchão, banho quente, livro e mesinha de cabeceira fazem parte do meu arsenal de modernidade – e cercada por alguns perigos que só conseguiria combater se usasse ao menos parte da tecnologia que nos cerca. Mosquitos e seres peçonhentos estão entre eles.

É inspirador quando ouço que um grupo na Espanha criou uma comunidade com moeda própria e vive sob os critérios do movimento “Smart Village”. São cidadãos preocupados com os 3,4 bilhões de pessoas rurais no mundo e incentivam seu empreendedorismo. Mas não abrem mão da ajuda de governos, empresas grandes e pequenas, o que pode acabar sendo um leopardismo a mais dentre tantos os que nos cercam hoje.

E por falar em leopardismo, em dias e datas, lá vamos nós caminhando céleres para uma nova Conferência  de Cúpula conclamada pela ONU para tentar debater ações em prol de uma qualidade de vida para o mundo. Em maio do ano que vem vai acontecer, na China (nenhuma surpresa, já que este país tem aumentado sua participação nas Nações Unidas) a COP 15, ou seja, Conferência das Nações Unidas sobre a Biodiversidade.

Como viram, um tema se liga ao outro, já que nas cooperativas e comunidades documentadas no filme a relação com os seres vivos – animais e plantas – que os rondam é de respeito. O tempo todo. Até mesmo quando uma moça se dedica a ensinar cavalos. Ela usa um pequeno chicote, o que me impressionou, mas se explicou, para meu alívio, dizendo que o usa somente como símbolo de poder. Somente para fazer o animal segui-la.

Como se sabe, o vírus Corona que hoje nos ameaça pode ser fruto da relação abusiva e predatória que temos com a natura. “Não devemos temer os mísseis, e sim os vírus”, disse Bill Gates há cinco anos, numa palestra. A jornalista Soledad Barruti reproduz este sentimento num belo artigo publicado no site da Editora Elefante: “Nuggets e morcegos: como cozinhamos as pandemias”.

Desde muito vimos sendo levados a crer que somos mais poderosos e potentes porque temos inteligência racional. Isto nos levou a subjugar, matar e comer os bichos, esquecendo-nos das outras tantas matérias – vivas também, mas que não sentem dor, como os animais – que podem nos servir de alimento.

Não sei se a Conferência de Cúpula da Biodiversidade conclamada pela ONU vai expor este tipo de debate. Desde que o presidente Donald Trump assumiu o comando dos Estados Unidos (ex principal mantenedor da ONU) e abriu a possibilidade de se considerar o negacionismo climático uma hipótese viável, tais reuniões têm sido, em geral, uma tremenda oportunidade de se pôr holofotes sobre tal descalabro. É possível que, se não tivéssemos assinado um Acordo de Paris em 2015, comprometendo-nos a baixar emissões de carbono, a fala do ministro Salles sobre “deixar a boiada passar” passasse despercebida.

Criar uma consciência mais ampla do que os limites dos ativistas ambientais, portanto, é uma função importante. E que faz com que as Conferências do Clima e da Biodiversidade sejam mais do que uma reunião de retórica inútil. Uma semana atrás, na 4ª Sessão da Conferência Ministerial sobre a Ação Climática, a secretária executiva da ONU, Patrícia Espinosa, deu o tom quando falou aos ministros dos países aliados:

“Peço-lhes que considerem a possibilidade de que, longe de estarmos à beira do apocalipse, estaremos à beira de um momento de transformação na história humana … um momento que as gerações futuras identificarão como crucial; marco para uma nova era. Vamos escolher ‘voltar ao normal’? O normal em que o aumento da temperatura global chega a mais do dobro até o final deste século? O normal em que nossos oceanos se acidificam a um ritmo alarmante? O normal que faz desertos de terra desmatada e solo sobrecarregado?”

Foi uma senhora puxada de orelhas, né? Sinto dizer a vocês, porém, que não foi a primeira. E, provavelmente, não será a última. Essas belas falas engrossam a parte da retórica inútil. Mas é bom para puxar manchetes, acender os holofotes e chamar mais pessoas para a causa.

Conversa que vai, conversa que vem. Sem perder o fio da meada, volto à questão da mudança radical de vida. E devo dizer que, já que é segunda-feira, decido… continuar morando em cidade. Gosto das cidades. Não gosto é do que fizeram delas. No excelente “A cidade no século XXI” (Ed. Consequência), de Álvaro Ferreira, li pela primeira vez a expressão “cidade vitrine”. E descobri a raiz do (meu) problema.

É bom poder andar num bairro que eu conheço, conversar com vizinhos. É bom poder visitar a livraria, a biblioteca, ir ao cinema, pensar em criar uma horta comunitária, descobrir alguém que está vendendo um produto orgânico, um artesanato. Não é bom ver tanta gente sem teto, numa clara demonstração de incompetência do sistema que nos rege e exclui. As “cidades vitrines” (moro numa) são aquelas que se tornam produtos à venda. Com o dinheiro dessa venda, faz-se… mais eventos para vender. Não se pensa em acomodar os cidadãos, em dar qualidade de vida a todos.

Não é uma questão de superpopulação, portanto. É questão de como esta população está distribuída.

Pensando assim, o documentário “Que estranha forma de vida”, que me inspirou este texto, pode ser também ideia para se viver em cidades. Buscar mais contato com a natureza, cuidar da nutrição, são atitudes que se consegue num bairro. O problema é o barulho. Bem, mas para isto a tecnologia criou os fones de ouvido…

 

 

 

 

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É preciso estar atento. E forte

beto-e-maria-lindosFui derramar um pouco de mim fora do gueto dos isolados, dos homeofficers. Ando fazendo essas caminhadas quinzenalmente, tempo que me parece na medida para não ficar doente de tanta falta de poder ter a liberdade de outrora, quando eu ia até onde os meus pés me levavam. Naquela época eu seguia sem culpa, sem esta máscara que me tolhe bastante a respiração. Mais feliz.

Desta vez, rumei ao Largo do Machado. E, diferentemente do cenário devastador e quase desértico (comparativamente a dois anos atrás) que encontrei no Largo da Carioca, fui recebida por ruas cheias, engarrafamento, de um jeito quase igual ao que era antes da pandemia. Estranho dizer isto, “antes da pandemia”, porque pode parecer que ela já passou. E não passou. Vi muitas pessoas usando máscaras, o que dá o tom de novidade ao nosso tempo atual.

Na Rua do Catete, num entroncamento bem movimentado, um jovem pregava a palavra de Deus aos berros. Parei para ouvi-lo durante um tempo, impressionada com o tom e a perseverança do rapaz, que falava, literalmente, para o vento, o sol. Ninguém, além de mim, parou para ouvir.

A vendedora de livros me viu parada e não segurou o comentário:

“Deve ser ex-presidiário. Eles saem do presídio e muitos logo entram numa igreja. E ficam assim, loucos. Coitado. Vai perder a voz, de tanto que grita”.

Não concordei nem discordei. Sei lá o que ela quer dizer quando usa a expressão “louco”.

Do outro lado da rua, ao lado de uma lojinha que vende bugingangas orientais foi aberta… outra lojinha que vende bugingangas orientais. Ora, numa crise dessas, alguém abrir uma loja para vender produtos importados que estão longe de poderem ser chamados de gêneros de primeira qualidade é, realmente, para refletir. Ainda por cima, do lado de outra!

Se a loja foi aberta é porque há público. E, se há público, como se pode explicar o fato de haver quem, no meio do desmonte econômico que presenciamos e do qual temos notícia diariamente, se sente à vontade para gastar dinheiro com coisas inúteis? Não tenho esta resposta, mas fiquei com a reflexão.

Próxima parada: farmácia. Levei junto a minha indignação de sempre, que se agrega a uma preocupação crescente. As farmácias estão cada vez mais cheias. E os preços dos remédios estão cada vez mais caros. Pude constatar que o suplemento vitamínico do qual faço uso está 15% mais caro do que quando começou a pandemia.

Os laboratórios fazem de tudo para mostrar que se preocupam com a falta de saúde dos cidadãos. Embalam os remédios em cores vibrantes e gastam bastante dinheiro com propaganda, com mensagens que mostram para que se consiga viver sem dor, sem febre, sem mal estar, sem indigestão… E a farmácia fica parecendo supermercado. Que coisa.

Passei pela Petshop e pude constatar que o suplemento  que minha cachorra idosa precisa tomar também subiu de preço. Paguei R$ 20,00 a mais do que no mês passado. Mostrei minha indignação para a menina que me atendeu, mas logo me arrependi de tê-lo feito.

A moça lançou-me um olhar/paisagem que me deixou com a constatação de que estamos impotentes diante de corporações que decidiram ganhar dinheiro com a crise. Possivelmente demitiram alguns funcionários, deram uma enxugada na produção e elevaram os preços para não perder. Para mim, é gênero de primeira necessidade porque cuido muito bem dos meus bichos (na foto acima, Maria e Beto), já que foi minha opção ter a companhia deles. Sendo assim, não me resta outra alternativa senão pagar o preço que estão me cobrando. E reclamar ao bispo.

Já de volta, lancei um olhar rápido para os preços do supermercado e descobri uma super promoção: a caixinha da pizza pronta estava sendo vendida a R$ 7. Uma razoável dose de gordura, massa e conservantes com um sabor forte e, para muitos, agradável. Certamente meu corpo reagiria com uma baita dor de cabeça se eu resolvesse comer. Fui adiante, pensando sempre.

O ciclo se fecha assim.  A má alimentação desencadeia problemas no corpo que serão “sanados” pelos remédios, alguns até em promoção. Leve duas, pague apenas uma caixinha de analgésico ou frasco de medicamento que resolve questões do fígado. Já os remédios não populares sobem de preço.

Ontem recebi um email da Editora Elefante com um artigo que faz parte da reflexão contida no livro “Capitalismo em quarentena: notas sobre a crise global”. A reflexão é interessante:

“A quarentena autoimposta do capitalismo foi, para este, um mal necessário para continuar existindo. Mas esse remédio amargo pode ter um perigoso efeito colateral, tendo aumentado exponencialmente a montanha de dívidas impagáveis que ameaça desabar a qualquer instante”.

Se estamos falando que precisamos viver uma mudança de paradigma nos tempos incertos que começam a se abrir para nós, a primeira coisa é perceber a nossa própria atuação em toda esta história. Indispensável a percepção de que é preciso pegar com a mão a batuta e reger nossas vidas.

Rendo homenagem aqui aos mestres da música Gilberto Gil e Caetano Veloso que, em 1969, lançaram “Divino Maravilhoso”, lindamente cantada por Gal Costa. “É preciso estar atento e forte/Pro palavrão, para a palavra de ordem”.

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Como organizo meu dia entre lives, livros, cuidados com casa e redes sociais

livro para blogAndo dividindo meu tempo, neste já saturado isolamento que se arrasta em nossos dias, da seguinte maneira: pré-escolho e me inscrevo para assistir a uma live pela manhã, outra à tarde/noite. Entre uma e outra, eu leio, pesquiso nas redes e escrevo aqui para o blog e para o livro que estou produzindo.

Fora isto eu cuido da casa, dos cachorros, cozinho e me cuido. De hora em hora, no computador, eu paro, respiro, ponho um chá de camomila no olho que está ressecado. E quando percebo que estou saturada de informações, calço o tênis, boto a máscara, um vidrinho de álcool no bolso e vou lá embaixo. Vejo a rua, carros, o balé urbano que me ronda. Inspiro e expiro vendo a pedra que abraça as ruas da comunidade onde moro. E isto me acalma.

Vocês devem estar me achando um exemplo de organização. Até ficaria feliz com isto, mas… preciso confessar que nem sempre eu consigo cumprir o planejado comigo mesma. Sendo mais honesta: passo mais tempo do que eu gostaria nas redes sociais, por exemplo. E às vezes fico bem irritada, quando me vejo assistindo a um vídeo que não vai me ajudar em nada.

É esta nossa realidade: no fim de 2011, o número de sites e blogs no mundo tinha chegado a 550 milhões, mais do que o dobro da base, e as assinaturas de banda larga eram quase 600 milhões. São dados do livro “Tempo Orgânico”, de Álvaro Esteves, lançado pela Sinergia em 2012. Recomendo a leitura.

E o meu espaço virtual está colaborando para engrossar a estatística que põe o Brasil em quarto lugar do mundo em número de blogueiros. Cada um querendo a sua atenção, caro leitor. Eu também.

Sendo assim, vou me esmerar para trazer a vocês informações interessantes.

Ontem à noite e hoje pela manhã me dediquei a assistir e ouvir notícias frescas sobre o meio ambiente. Lembro sempre a vocês que, para mim, este é um tema que permeia. Não tem como falar de política, economia, de conjuntura urbana, social, nem mesmo de dinâmica psicossocial sem levar em conta onde estamos. Sem considerar a água que bebemos, o ar que respiramos, os caminhos que trilhamos.

Neste sentido, fico bem preocupada quando a gente entrega aos homens e mulheres que se postam oficialmente como interlocutores de nossa organização social e quase não pisam em chão. Digo chão mesmo, sabe, a calçada. A sensação que eu tenho é que muitos executivos saem de jatinhos direto para um carro, direto para o elevador, direto para sua suíte e lá ficam pouco tempo antes da próxima reunião, antes de pegar outro jatinho, outro carro, outro elevador…

Mas isto é só uma reflexão que compartilho com vocês.

Ontem à noite assisti a live da Agência Envolverde. O jornalista Dal Marcondes, parceiro de cobertura ambiental há mais de uma década, a jornalista Lucia Chayb, que edita a competente revista “Eco-21” e o também coleguinha Reinaldo Canto entrevistaram Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente e atual co-presidente de um painel de Alto Nível da ONU. Dizer para vocês que fiquei com uma certa sensação de nostalgia ao perceber a competência da ex-ministra e comparar com nossa situação atual pode provocar polarização política, coisa da qual ando fugindo. Mas… já disse, né?

Izabella se coloca o tempo todo como uma profissional de carreira, e isto explica muita coisa. Ela respira leis, artigos, situações sobre meio ambiente desde que começou a trabalhar. Teve uma participação preponderante na COP-15, em 2009, que ajudou muito para se fechar o Acordo de Paris em 2015, este já tão desprezado pelos líderes que se seguiram ao presidente Obama e à presidente Dilma.

A live, que ainda está na web para quem quiser assistir (só acessar o site da Envolverde), tem a marca dos bons jornalistas: deixar o entrevistado falar. Assim, Izabella discorreu sobre grande parte da história ambiental do país. E me fez lembrar muitas coisas, entre elas que a agenda ambiental brasileira começou, na verdade, com a disputa por quem conseguiria tirar Cubatão da saga de tanta poluição industrial. Isto aconteceu nos anos 80.

De lá para cá tudo está do jeito que se vê… mas alguma coisa mudou para melhor.

Hoje pela manhã, outra live. Fui ao Museu do Amanhã, infelizmente só virtualmente, porque é um local que adoro visitar. O convite foi para ouvir a entrevista que o jornalista Emanuel Alencar fez com Andre Trigueiro (dois queridos colegas) sobre a questão do novo marco regulatório do saneamento básico que acaba de ser sancionado pelo presidente Bolsonaro.

Concordo com Trigueiro quando ele diz que a questão nem é mais se queremos ou não que privatize um serviço que está precisando ser… um serviço. A questão é que não pode continuar como está. Só para resumir, nossos rios recebem cinco a seis mil piscinas olímpicas de esgoto. E esta é a água que recebemos. Nós, que temos direito à água com (algum) tratamento.

Concordo também com alguns espectadores da live, que lembraram o possível sucateamento. Do jeito que está, a Cedae, por exemplo, pode ser arrematada por poucos tostões. E lá se vai um jeito de o Estado poder arrecadar mais. Nas mãos de empresa privada, o serviço pode melhorar… ou não.

Foi outra ótima live, também cheia de informações importantes. Recomendo. E deixo com os leitores uma observação minha, da qual Trigueiro discordou amorosamente, e que acredito ser pano para mangas de reflexões. A consciência ambiental, para mim, só está sendo ampliada na classe abastada, na elite. Falo do Brasil, que é a realidade que mais conheço. Não sei como se pode situar isto no mundo.

Na verdade, eu havia dito que a “elite brasileira” tem mais chance de ter consciência ambiental, mas quero consertar minha fala: uma elite das grandes metrópoles brasileiras, digo. Os trabalhadores de estados onde os recursos naturais fazem parte da sobrevivência (Pará, Amazonas, Tocantins, Acre), sim, já têm hábitos e preocupações concernentes.

Mas aqui no Rio, por exemplo, infelizmente não consigo imaginar um jovem carente, que precisa ir e voltar para o trabalho diariamente num ônibus lotado, sonhando em ter uma bicicleta em vez de um carro. Abro espaço para o diálogo e aceito contribuições para ampliar pensamento.

 

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Como eu consegui provocar a mudança necessária

salada de trigo

Esta salada é uma delícia: trigo, avelã e tomilho. Quem quiser a receita, pode pedir

Quem lê tanta notícia?

Ando me perguntando isto. Sobretudo no período de isolamento, é inacreditável a quantidade de informações que me chega pela web. Nem sempre são notícias que merecem minha atenção total, mas por todas elas eu passo os olhos. Eu e muita gente. Passar os olhos não significa fazer contato.

Hoje, por exemplo, temos a história da quase fritura do ministro Salles, do Meio Ambiente, aquele que disse para aproveitar a doença instalada e fazer passar a boiada. Pegou mal. Deixou o jogo muito explícito, já que não sabia que estava sendo gravado o que dizia.

Além disso, como o presidente Bolsonaro não está podendo circular e produzir notícias escabrosas, nós leitores vamos seguindo passo a passo a desmobilização contra o isolamento Brasil afora. Nosso país está entre os primeiros em casos confirmados da doença, mas já nos consideramos livres da pandemia.

Agora estamos em outra fase, viramos fiscais de quem não segue as regras. Fiscalizamos uso de máscaras, notamos se as pessoas estão nas ruas, nos bares, nas praias. E virou julgamento. Está um julgando o outro porque acredita, ou porque não acredita no vírus. Quem sai e se expõe se sente mais guerreiro do que nós, aqueles que acreditamos na ciência e na necessidade de se praticar o isolamento social para não haver uma mortandade mais acelerada ainda.

Enquanto isto, os comerciantes vão sendo multados porque os clientes burlam a lei. A fiscalização vai em cima dos donos dos bares, não em cima de quem está além do que os governantes comandaram como possível.

Prefiro virar a página.  Recebo muitos vídeos também, como todos vocês devem estar recebendo. Um, em especial, feito pela Nasa e que só agora chegou às redes, chamou minha atenção porque mostra a devastação que a humanidade já causou no planeta. Não é notícia fácil de ler, mas necessária. Talvez alguém esteja precisando só disso para ter um insight, para apertar o botãozinho da transformação dentro de si.

Embora sejamos já 7,6 bilhões de pessoas no planeta, isto representa apenas 0,01% de toda a vida que nos cerca. Na verdade, seria melhor dizer que os humanos cercam outras vidas. E já destruímos 83% da vida animal e 50% da biomassa do planeta.  Metade de toda a terra habitável já está sendo usada pela agricultura. Nos países pobres, estima-se que 120 milhões de hectares de habitats naturais serão convertidos em fazendas até 2050. Eu disse, nos países pobres. Porque seremos, com certeza, aqueles que continuarão a ser usados como recursos.

A pandemia vai mudar este tipo de comportamento?

Não temos bola de cristal para responder a esta pergunta, e os especialistas vão, apenas, especulando. Prefiro contar como eu fiz a minha transformação e que me levou a diminuir minha pegada ecológica. Quem sabe também ajuda a quem precisa só tocar no botãozinho interno para provocar mudança.

Eu tinha engordado. Como já falei no post anterior, ser dona de um restaurante à porta da falência faz a gente buscar compensação. O açúcar, a farinha e algum álcool (não sou alcoólatra, mas adorava tomar uma ou duas tacinhas de vinho à noite… que às vezes viravam três) dão a sensação de bem-estar instantâneo, e na medida. Mas a conta chegou para mim: dores de cabeça constantes, mal-estar digestivo, mau humor…

Meu médico não me poupou.

“Quer melhorar? Precisa mudar de vida. Tire açúcar, farinha e álcool. Ponha água e chá. E passe a comer em prato de sobremesa para diminuir a quantidade”.

Saí do consultório sem vontade de “tentar” a mudança. Quem apenas tenta, pode não conseguir. O que me guiou foi a certeza de que eu iria provocar a mudança. Como ainda não estávamos no meio da pandemia, fui ao supermercado mais perto, comprei frutas, queijo, algum frio. Já não comia carne vermelha há uma década, mas sabia que eu precisaria de algum novo sabor.

Uma amiga esperta em cozinha deu-me a receita de uma panqueca fácil de fazer pela manhã, para substituir os dois (às vezes três, dependendo do nível de angústia) pães que eu comia lambuzados na manteiga. Ovos, castanha do Pará moída, causando a sensação que eu precisava, de estar saciada.

O primeiro dia da mudança era uma sexta-feira e eu tinha o hábito de me encontrar com amigas, cachorreiras como eu, no bar aqui perto de casa. Bebia uma ou duas cervejas. Naquele dia faltei ao encontro. Mas, na sexta-feira seguinte, eu fui. E levei minha própria bebida: um chá de hibisco quentinho numa pequena garrafa térmica.

Mês que vem fará um ano de mudança. E, de lá para cá, decidi tirar totalmente qualquer tipo de carne da dieta. Como ovos, como queijos e muitas oleaginosas. Invisto nas sementes, nos temperos indianos para dar sabor diferente aos legumes (todos os tipos de páprica ou curry), descobri que outra amiga, vizinha, sabe tudo de receitas maravilhosas sem usar nenhum tipo de produto animal. E vou compondo, assim, minha nutrição.

Reduzi dez quilos, estou mais serelepe, durmo melhor, respiro melhor. De quebra, pus em prática aquilo que venho aprendendo na teoria: consumimos muito menos produtos do que a natureza nos oferece. Estamos (mal)  acostumados com o processo de industrialização, que vem facilitando a vida de quem precisa comer rápido, praticamente sem mastigar, com sabores que não surpreendam muito. Portanto, com os produtos de sempre.

Difícil não foi. Passei a usar a expressão “eu mereço”, não diante de um doce cheio de cremes ou de um espumante (adoro até hoje), nem mesmo à frente de pães deliciosos. Eu mereço é viver sem azia, má digestão ou tendo que me entupir de remédios para tirar dor de cabeça.

Esta é a minha história. Singular, única. O fato de estar contando num espaço onde tenho o hábito de escrever notícias, faz parte de minha crença. Penso que estamos, verdadeiramente, num momento de provocar mudanças. Para isto, a rede de informações precisa se ampliar, se diversificar com exemplos e casos de quem conseguiu, de quem tentou e não conseguiu, de quem desistiu ou de quem continua tentando.

Esta troca é saudável.  E nos tira do lugar de meros receptadores de notícias.

 

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No Centro do Rio, um caminho de abandono

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Por quase dois anos era esta a minha rotina: empurrada pela turba, descia do Metrô na Estação Carioca na hora do rush da manhã. Ainda a passos pequenos, espremida, seguia em busca da escada que mais espaço tivesse. Quando estava de salto alto, enfrentava a maior fila, a da escada rolante. Uma, depois outra. Era sempre meio mágico observar a diferença de nuance, entre o pálido claro das luzes de dentro da estação e a claridade da manhã que se impunha, natural, quando o rolar das escadas ia chegando à rua.

O burburinho que as pessoas faziam na estação também ia cedendo, aos poucos, para a barulhada da rua, para o som dos camelôs oferecendo, aos gritos, os seus produtos. Lembro-me bem de um, que vendia raquete para matar mosquitos e não parava de fazer um estalinho, roçando algo metálico na rede de fios emaranhados da raquete. Custava R$ 40,00. Sempre ficava na dúvida, se comprava ou não. Nunca comprei.

Descia os dois degraus laterais da estação, passava pela loja que expunha doces cremosos, atraentes. Eu consiga passar por eles sem ceder à tentação, embora nos quase três anos em que me vi dona de um restaurante popular na Sete de Setembro eu tenha conseguido aumentar a minha circunferência abdominal em quase dez centímetros. Felizmente, já recuperei a forma.

Seguia pelo Largo adiante. Eu e muita, muita gente. No verão, o sol chegava cedo, e eu sempre me arrependia da roupa que estava usando. Não é fácil encarar o calor urbano dentro de um restaurante cheio.

Os camelôs ocupavam toda a praça. Às vezes tinha uma feirinha de artesanato, em outras eram só poucas pessoas a vender seus produtos sobre um plástico preto jogado no chão. Nenhuma fiscalização, é claro. Quando apareciam os guardas, era fácil levantar tudo, fazer uma trouxa e ir para outra esquina. Como sempre, desde muito.

Em 2018, último ano de minha falida empreitada como negociante, a crise econômica avançava com tudo e foi  mudando a paisagem. Dia após dia eu observava mais pedintes, menos vendedores. Famílias de pessoas que haviam perdido seus tetos, por conta dos desmandos daqueles que regem o sistema, iam trazendo para a rua os restos daquilo a que chamavam lar. Colchões, roupas, brinquedos, cães de estimação, iam encontrando guarida nas beiradas das entradas e saídas laterais da Estação do Metrô.

E o barulho foi mudando. A turba de pessoas que saía da Estação, muitas ainda incluídas no sistema, se calava diante do quadro de miséria que se alastrava debaixo dos nossos olhos. A angústia crescendo. Em alguns dias, para aplacar a aflição, eu me virava ao contrário, seguia a caminho da Avenida Rio Branco, onde sempre encontrava a vendedora de livros usados. Tenho até hoje pilhas de Agatha Christie, George Simenon, autores que me ajudavam a dormir em meio aos pensamentos acelerados que teimavam em se fixar num futuro sem cor.

Ontem fiz este mesmo trajeto.

Saí do meu gueto dos isolados e fui comprar um tanque no Palácio das Ferramentas, na Rua da Carioca, em frente à porta de ferro do meu restaurante, hoje já cerrada definitivamente. Podia ter feito outro caminho, podia ter comprado pela internet. Mas, na parte da manhã, enquanto lia a reportagem do “O Globo”, em que especialistas em urbanismo apontam um caminho para o Centro do Rio, fiquei com vontade de voltar lá.

O Metrô estava quase vazio, mas fui num horário alternativo, portanto não posso dizer que haveria a mesma turba de outrora a me empurrar vagão afora. Tive medo do contágio o tempo todo. Passei álcool gel não sei quantas vezes nas mãos, reforcei a máscara. E desci na mesma Estação Carioca, quase cem dias depois de me trancar. Cem dias sem dar um passo além do quadrado onde moro e caminho diariamente para pegar um pouco de sol e levar os cachorros à rua.

As laterais da Estação estão fechadas. Não vi moradores de rua. Mas, no centro de um dos largos mais famosos da cidade que ainda é o segundo centro econômico mais potente do país que é a oitava economia do mundo, um pequeno entulho chamou minha atenção. Eram as tralhas de um morador de rua, que deixou para trás o cobertor que o aquecera à noite, junto com outros tantos panos. Nós, humanos, e nossa mania de ir juntando tralhas.

Segui pela Rua da Carioca. Lojas de instrumentos musicais abertas, uma outra que vende produtos eletroeletrônicos com meia porta aberta e uma sinistra fita amarela impedindo a entrada. Se quiser, tem que pedir e esperar. Pouca gente, muito pouca gente circulando. Na pequena travessa que liga a Carioca à Sete de Setembro, além do restaurante de prato feito que ainda mantém portas abertas, todas as outras lojas estão fechadas.

Lembrei-me de uma loja onde eu comprei certa vez uma malha de ginástica, e era bem legal. Tinha a escola de música, que sempre me animava os passos, mesmo quando, já percebendo que o fim do negócio se anunciava em letras garrafais e megafone, eu me arrastava, triste e angustiada como meu redor.

O Teatro Saara do Largo de São Francisco! Atores e atrizes encenavam peças ali, a preços populares. Um dia bateram lá no restaurante, pedindo permuta, eu concordei. Era uma alegria vê-los entrar, em bando, para almoçar quando terminavam o espetáculo. O Teatro Saara, hoje, tem um plástico preto cobrindo seu nome. Virou um  estacionamento.

Aliás, uma coisa me chamou a atenção: a quantidade de carros parados no Largo de São Francisco não condiz com a quantidade de gente na rua. De onde virão?

Comprei o tanque, dei uma espichada no pescoço para olhar mais uma vez. Os prédios são os mesmos, o trenzinho do VLT continua passando. Ele não cumpriu a promessa de transformar a rua num boulevard. E os imóveis do entorno estão mais velhos, carcomidos, sem manutenção.

Voltei para casa de táxi. Na volta, reparei que o sapateiro que um dia consertou meus sapatos permanece ali, na calçada do Teatro Carlos Gomes. Ocupa as mesmas pedras que, um dia, foram pisadas por artistas maravilhosos. Assisti lá Bibi Ferreira encenando “Gota D`Água”.

Ontem, um vento soprava no início da tarde. Já dentro do táxi, de máscara e totalmente isolada do motorista, vim pensando no livro que estou escrevendo, onde conto a história do meu empreendimento fracassado. Do dia em que decidi ampliar minha expertise e empregar num pequeno negócio tudo o que eu vinha aprendendo sobre desenvolvimento inclusivo.

Pedi ao motorista para passar devagarinho pela Praça Tiradentes e fui me lembrando de quando aguardava ali meu sócio, aos sábados de madrugada, para irmos ao Ceasa. No verão, ainda pegávamos os bares abertos com os frequentadores da noite anterior.

O vento levantava algumas folhas e ia colorindo de cinza o cenário de cidade abandonada. Abandono causado primeiro pela crise econômica e realçado pela crise sanitária. Precisamos mudar este astral.

 

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O recado das empresas ao governo brasileiro

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Foto por Andreas Wohlfahrt em Pexels.com

“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis/Elas desejam ser olhadas de azul/Que nem uma criança que você olha de ave”.

E assim, o poeta e mestre das palavras desconcertantes, Manoel de Barros, vai me ajudando a construir o texto de hoje. E a pintar de azul – seria a cor da esperança? – por exemplo, a notícia de que 40 empresas de grande porte  decidiram cobrar do governo atitudes mais responsáveis com relação ao meio ambiente.

O Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável enviou-me o e-mail com o teor da carta endereçada aos corredores do poder executivo. Particularmente, diz o texto, “esse grupo acompanha com maior atenção e preocupação o impacto nos negócios da atual percepção negativa da imagem do Brasil no exterior em relação às questões socioambientais na Amazônia. Essa percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o país”.

Já estava eu comemorando, achando que dessa vez vai dar certo, quando a notícia de que o chefe do executivo mandou cortar os cuidados básicos – água potável, cestas básicas, produtos de higiene e cuidados  médicos – que estavam sendo dados aos indígenas(https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-sanciona-com-varios-vetos-lei-de-protecao-a-indigenas-na-pandemia,70003357556) me fez acreditar que o trabalho dos empresários vai ser bem árduo. Sobretudo “do ponto de vista reputacional”, um país que nega aos povos tradicionais o direito de receberem tratamento adequado, como cidadãos que são, não está nada bem na foto. E, desse jeito, esta imagem só tende a piorar.

Felizmente – vejam que insisto em olhar as coisas “de azul” – a nova ordem mundial que começa a surgir, colore de estranheza essa atitude do presidente Bolsonaro. Neste sentido, os empresários e as instituições que assinam a carta estão milhas à frente, mais conectados com as propostas de um olhar diferente, mais inclusivo e menos extrativista, sobre o futuro. Economia circular é uma expressão usada mais de uma vez na carta (pode ser lida aqui: https://www.google.com/url?q=https://cebds.org/wp-content/uploads/2020/07/cebds.org-setor-empresarial-cobra-agenda-sustentavel-do-governo-brasileiro-0707-)comunicadosetorempresarial.pdf&source=gmail&ust=1594307065676000&usg=AFQjCNHe-S4_leaSjbB9zFlzkqsX9YbKPA).

Acaba de ser lançado o livro “Economia do Bem Comum”, escrito pelo francês Jean Tirole, que vem prometendo ocupar o pódio de pensador econômico da atualidade ao lado, por exemplo, de Thomas Piketty, autor de “O Capital no Século XXI”, em 2013. Legitimamente, Piketty ocupou espaço na mídia e foi alçado, então, à categoria de “rock star da economia”. Seu nome já não ocupa mais tanto espaço, característica perversa dos nossos tempos digitais, que amam e desprezam com a mesma intensidade.

Tirole se dispõe, em mais de 500 páginas e dezesseis capítulos – que ainda não li inteiras porque acabo de adquirir por internet – a dar valores e eliminar a arbitrariedade que modela o exercício de definição do bem comum. É preciso. O objetivo é nobre: que se consiga delinear uma existência possível, que respeite não só as empresas que têm ferramental para extrair lucro dos recursos naturais, como as pessoas físicas, incluindo certamente os indígenas, os quilombolas e ribeirinhos, que precisam preservar as florestas para sua própria existência.

Impossível? Não. Mas vai ter que mudar muita coisa. A começar pela política ambiental, aquela que fala em “passar a boiada” sem respeitar limites.

Reputação, meus caros, é algo que se constrói devagar, pintando de azul os pensamentos, obedecendo  o sagrado direito de todos existirem. As empresas brasileiras – que bom! – já perceberam isto.

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A era dos desafios

Há uma necessidade imperiosa no ar: redefinição.

Este é o mote da palestra TED de George Monbiot, que acabo de ouvir e gostaria de compartilhar com vocês. Monbiot assina uma coluna no jornal britânico “The Guardian” sobre meio ambiente e ecodesenvolvimento. A fala dele me envolveu, precisamente porque tem muito a ver com o que penso sobre o que há por vir.

Temos sido enganados e explorados há décadas, adverte Monbiot. Quer seja por quem trouxe a ideia de que era preciso fortalecer o Estado, quer seja por quem trouxe a ideia de que o Estado mínimo é o que há de melhor para nosso desenvolvimento. Chegou a hora de redefinir estratégias, de “recuperar a democracia das mãos das pessoas que tomaram posse dela”. Provocação instigante.

Monbiot não se restringe à retórica reflexiva, ele apresenta uma proposta que gira em torno dos bens comuns. Consistem de três elementos principais, diz ele: “Um recurso específico; uma comunidade específica que administre este recurso; regras e negociações que a comunidade desenvolve para gerenciá-lo”.

A proposta de Monbiot não é novidade, já tem sido debatida, mas não está “nas redes”, este novo normal de captar informações. Ando pensando que as redes sociais  substituem as velhas e boas livrarias, com quem se tinha uma relação direta com o livreiro para saber das últimas publicações. Ou a boa e velha banca de jornal, lembram-se? No tempo em que banca de jornal vendia jornais, não balas, biscoitos e refrigerantes. Como era bom entrar num boteco antes de entrar para o trabalho, pedir um café perder o olhar na banca, destrinchando as notícias, comentando ora com um, ora com outro que passava e adotava a mesma postura. Daí que Caetano cunhou: “Quem lê tanta notícia?”

Mas, sigamos com nossa informação, e tomara que ela alcance “as redes”, que hoje bombam com a história de uma mulher que defende seu parceiro contra o inimigo – um agente sanitário pedindo que ele use máscara – dizendo que ele é um “engenheiro”, não um “cidadão”. Sinceramente? Eu poderia muito bem ficar sem ver esta cena.

Prefiro voltar minha atenção para pensamentos que podem ajudar a compor, não a destruir. Vejam o que diz Monbiot: “Um bem comum não pode ser vendido, nem doado, e seus benefícios são compartilhados igualmente entre os membros da comunidade”.

O colunista britânico fez surgir duas memórias bem distintas do meu HD particular.

A primeira memória vem de cinco anos atrás, quando fiz minha primeira viagem ao Arquipélago do Bailique, no Amapá, ali no cocuruto do Brasil, pertinho das Guianas. O Bailique 50 ilhas, perto de onze mil moradores, e para lá fui convidada quando eles estavam no processo de definir um Protocolo Comunitário. Este título é difícil, não cabe em manchete nem atrai os distraídos. Mas, resumidamente, trata-se, justamente, de estabelecer regras locais para compartilhar bens comuns de uma comunidade. Sem interferência de ninguém que não tenha nascido ali.

Minha viagem ao Bailique foi das experiências mais incríveis de minha vida de repórter. De barco, meio de transporte possível para aquelas pessoas, elas se deslocaram quilômetros para se sentarem juntas, no galpão alugado pelo Grupo de Trabalhos Amazônicos (GTA), na época dirigido por um mobilizador social de respeito, o Rubens Gomes (infelizmente já falecido). Ali foram costurando, passo a passo, as normas de convivência de sua comunidade. O encontro durou uma semana inteira. Fiquei até o final, não me afastei um só dia.

Um exemplo pode ilustrar bem o detalhamento que foi necessário para escrever o Protocolo (o Bailique foi a primeira comunidade brasileira a ter um). Lá a carne do bicho preguiça é muito usada. Os próprios moradores vão à caça. Ocorre que estava acontecendo uma sobrecaça, e já se davam conta de fêmeas grávidas sendo abatidas, o que resultaria, sem dúvida, na extinção dos animais. Consequentemente, na falta desta proteína na mesa dos bailiquenses.

Pois o Protocolo Comunitário, feito por cada um dos habitantes, fez constar esta regra: é preciso caçar preguiça com responsabilidade. Obrigatório deixar as fêmeas prenhes seguirem o curso de sua natureza, respeitando um período para que elas possam se reproduzir. Durante este período – poderíamos chamar de defeso do bicho preguiça? –  a comunidade se alimentaria de outros produtos. Assim foi feito, escrito e documentado.

A outra lembrança que Monbiot despertou em mim foi o livro “O negócio é ser pequeno”, do economista alemão, já morto, E. F. Schumacher. Ele o escreveu em 1976, e logo depois sofreu um infarto fatal. Se estivesse vivo, certamente estaria sendo revisitado para contar o que conta em seu livro: é preciso valorizar o desenvolvimento local. Antes de a expressão “mais é menos” ser adotada pelo universo digital e ser viralizada, Schumacher já escrevia, baseado em pesquisas e estudos, como as escolhas devem feitas localmente são mais legítimas e têm mais sentido.

Monbiot termina sua palestra de forma otimista, conclamando a que se use novas regras e novos métodos de eleições para garantir que o “poder financeiro nunca supere o democrático novamente”. E lembra um detalhe importante. Sim, o mundo está polarizado, mas há duas expressões que são universais, que são percebidas tanto pela esquerda quanto pela direita: pertencimento e comunidade.

Assim sendo, é hora de redefinir a democracia representativa, por uma democracia participativa. E refinar nossas escolhas políticas. Em nome de melhor qualidade de vida, que inclui o cuidado e o respeito com o ambiente que nos cerca.

 

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Crônica da diversidade

image1Tem gato que se chama Mio.

Tem cachorra que se chama Mia.

Tem o Beto cachorro, tem o Beto que zela pelo prédio. Tem também a Maria, cachorrinha velhinha e bem pimpona, respeitada até pelos dois irmãos caninos do segundo andar, lindos, a turma do barulho. 

Ah! E tem também o Che, passarinho danado de abusado que não quer saber do perigo. Vem aqui na minha janela beber água e deixa Mio e Zuda, do muro ao lado, com os olhos estatelados, lambendo os beiços. Mas Che é esperto, voa rápido que só ele. E só bebe água fresca. Se eu me esqueço de trocar, ele vai beber na vizinhança.

Tem palhaço! E tem palhaçada no corredor, a sério. O Café Pequeno, na verdade o ator Richard Riguetti, que vive de fazer arte para muita gente na rua e nos palcos, criou assim seu jeito de enfrentar a pandemia, esta mesma que obrigou todo mundo a ficar isolado. E a manter distância. Não se junta mais gente. Cadê a arte de rua? A foto do post é de uma apresentação, foi clicada por Juliana Garçon.

As crianças do prédio adoraram a palhaçada.

Tem gente que escreve, gente que lê e escreve, gente que cuida de gente! Isto tem mais de um. Tem jornalistas, assim mesmo, no plural.

E músicos, também tem! À tarde, é só esperar para ouvir o clarinete, o oboé…

Tem gente que faz cristais da boa energia e sai pendurando, dando para quem mais gosta. Tem vitrais que mais parecem com igreja, lindos.

É assim o prédio onde eu moro.

Pequenino, fica no fim da rua tranquila. Quando veio a ordem de ficar todo mundo em casa, foi um tal de um ajudar o outro, fazer compras, emprestar coisas. Manteiga, livro, açúcar, dendê… já rolou de tudo. 

 Quem sai, como eu, fica no quarteirão. É só para respirar e andar com a cachorrada. Ou pegar um solzinho com as crianças.

Mas não estou dizendo que vivemos em total harmonia. Até porque, como já estamos cansados de saber, essa tal de harmonia é só para inglês ver, para vender margarina aos que acreditam que a paz mundial tem uma receita única. Ou para fazer falsas promessas, que delas já estamos cheios.

Ser humano é diverso, cada um é um. Somos todos, como diria Friedrick Nietzsche, filósofo e poeta,  humanos, demasiado humanos. Portanto…já rolou discussão, muxoxo, um vira a cara para o outro, o outro vira a cara para o um.

Se tem muito barulho no prédio, nossa! Eu mesma viro bicho. Se aparece barata, ah… o Beto que zela pelo território vai ouvir…

Hoje acordei pensando nisto, hoje acordei acreditando na diversidade. A natureza é diversa, toda gente é diversa. Respeitar o poder da diversidade é uma das chaves que pode abrir as portas para uma civilização diferente. 

 Peguei da estante “Morte e vida das grandes cidades”,  de Jane Jacobs, lançado aqui pela editora Martins Fontes. Um livro gostoso de ler, com tanta informação que é impossível não identificar, nos pés e nas patas do meu prédio, o balé urbano sobre o qual ela fala. Um livro que quero sugerir aos leitores – sobretudo aos que estão estudando urbanismo –  porque estamos num momento de perceber, de abrir os olhos, de ficarmos atentos a tudo. Estamos num momento de acreditar que é possível mudar, que não podemos nos agarrar a uma fajuta “volta à normalidade”. Não depois de tudo que estamos vivendo. 

Jane foi uma super ativista social canadense, morreu em 2006 aos 90 anos. “Morte e vida das grandes cidades” foi seu grande gol, lançado nos Estados Unidos em 1961, que chegou aqui só no início deste século. O tema central é Nova York, cidade onde Jane viveu. Jane usa uma linguagem bem atraente, conta histórias a partir de sua própria vivência. E é deste jeito que vai construindo uma narrativa de oposição ao estilo higienizado e asséptico criado pelos arquitetos dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam). O Ciam foi uma instituição lançada na Europa nos anos 20, depois da I Guerra, para defender e difundir um ideário de arquitetura e do urbanismo modernos. Na verdade, para recuperar grande parte das cidades que foram derrubadas com os bombardeios.

Quando Jane lançou o livro, Brasília estava sendo construída exatamente sob os moldes de Le Corbusier, arquiteto que escreveu “Carta de Atenas”, livro do qual também gosto muito. Le Corbusier foi membro dos Ciam.  Na verdade, fico bem em cima do muro, entre um e outro plano de urbanismo. E decido gostar dos dois. 

Para Jane, cidade tem que ser diversa, pobre misturado com rico, rico misturado com remediado, todo mundo experimentando a vida. E assim vai se ajeitando. Não adianta impor um padrão, porque nós, humanos, não somos padronizados.

Le Corbusier constrói cidades que se adaptariam melhor à pandemia. Para ele, é preciso ter espaço entre as casas, é preciso que as ruas sejam setorizadas: comércio com comércio, banco com banco, empresa com empresa, residências com residências. Organiza mais. Por outro lado, tira a riqueza da diversidade.  

Fiquei enfeitiçada pelo texto de Jane. Uma frase, em especial, chamou minha atenção e está me ajudando a alinhavar meu pensamento: 

“Há um aspecto ainda mais vil que a feiura ou a desordem patentes, que é a máscara ignóbil da pretensa ordem, estabelecida por meio do menosprezo ou da supressão da ordem verdadeira que luta para existir e ser atendida”.

Estamos vivendo um momento especial no mundo, no  Brasil. Ainda mais no Rio de Janeiro. O professor e escritor Luiz Marques descreve assim no artigo que escreveu para o site da Unicamp, onde leciona:

“A atual pandemia intervém num momento em que três crises estruturais na relação entre as sociedades hegemônicas contemporâneas e o sistema Terra se reforçam reciprocamente, convergindo em direção a uma regressão econômica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recuperação. Essas três crises são, como reiterado pela ciência, a emergência climática, a aniquilação em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela indústria química”.

Ou seja: é um momento danado de ruim para se ter uma crise de saúde. 

Mas, já que não há outro jeito, o meu desejo é que a gente consiga sair dela com valores diferentes. Nem melhores, nem piores, mas diferentes. Para que isto aconteça, precisamos conhecer mais, descobrir autores que nos possibilitem reflexões. Eis a minha contribuição de hoje.

 

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