Diante dos desafios, o melhor a fazer é ouvir

Fabián Echegaray, a quem vocês já foram apresentados neste post (https://ameliagonzalez848.com/2013/03/15/incoerencia-tambem-vem-de-empresas-e-governo-diz-echegaray/), mandou-me esse texto, de autoria dele, escrito há cerca de um ano. Tem o sugestivo título de “A hora da escuta” e pode ser mais uma excelente chance de se pensar a sustentabilidade empresarial como um processo complexo, que tem muitas possibilidades e que ainda está em andamento, assim mesmo, no gerúndio.

É importante perceber que pensar em sustentabilidade, pelo menos da forma que eu acredito, é também deixar de lado o discurso maniqueísta que tanto nos invade o dia a dia. Não existem empresas boas nem más, vilões ou mocinhas. Existem empresas que querem se estabelecer de maneira diferente num planeta que cada vez mais se apresenta também diferente e novo a cada instante, com desafios no campo ambiental, social e econômico. terra-small (1)

Transcrevo, na íntegra, o texto de Echegaray:

“Algumas empresas têm a sustentabilidade “no seu DNA”. Outras, “nasceram sustentáveis”; e ainda há aquelas que anunciam a sustentabilidade como seu leitmotiv existencial. Provavelmente exista sinceridade entre os muitos porta-vozes que assim se expressam. Ou, pelo menos, essas declarações revelem sinceras expectativas de que isso se torne realidade.

“Há problema em confundir expectativas de atuação sustentável com atuação sustentável propriamente? Com certeza. Mas um problema ainda maior é a vociferação dessas expectativas sem nenhum questionamento sobre sua origem ou relação com a agenda dos diversos públicos envolvidos e atingidos pela pauta de sustentabilidade empresarial.

“O que para alguns pode ser liderança inspirada em sustentabilidade, para muitos, principalmente os stakeholders das empresas que anseiam rumar para a gestão sustentável, soa como decisão unilateral, pouco representativa e menos ainda eficaz. Eis o risco por trás da fascinação por um ideal de atuação sustentável nascido apenas da imaginação dos líderes da empresa, com pouco ou nenhum esforço para escutar as partes interessadas ou concretizá-lo como proposta de comunicação e deliberação com os públicos relevantes.

“O problema de declarar sem escutar – e implementar ações sem deliberar antes – não é fácil de identificar. Não existe nenhuma pesquisa que indique quão presente se faz na percepção das empresas ou do público. O caminho para detectar quanto isso compromete a qualidade do engajamento empresarial é bem mais sutil. Em alguns casos, exige consultar registros que são públicos. Por exemplo, existem 466 empresas brasileiras signatárias do Pacto Global das Nações Unidas, mas o número de comprometidas com o padrão GRI para a produção de relatórios de sustentabilidade é 3,4 vezes inferior (139 empresas).

“Por que existe esse abismo? Ora, para o Pacto Global, basta o discurso – a idealização da sustentabilidade como ato declaratório. Já para fazer um relatório nos moldes da GRI é preciso ter ações para contar, apostar em quadros técnicos com capacidade para fazê-lo, em métricas de monitoramento, rotinas e indicadores objetivos de legitimação interna (cadeia de valor) e externa (influenciadores alheios à cadeia). Afinal, sem ação não há comunicação que se sustente.

”Em outros casos, o caminho passa por um exercício quase socrático, de levantar perguntas relativamente retóricas, sem ter respostas completas; porém, muitas vezes essas mesmas perguntas nos perfilam possíveis respostas. Foquemos as indústrias que, por excelência, revelam a inclinação do mundo empresarial para a construção e divulgação de relatos e a assimilação e interpretação das vozes do entorno – as da publicidade e da pesquisa de mercado.

‘”Dos R$ 88,3 bilhões gastos em publicidade por anunciantes no Brasil, por exemplo, quantos reais buscaram estimular estilos de vida e práticas mais sustentáveis, relatar conquistas na reversão de danos sociais ou ambientais resultantes da produção ou mobilizar consumidores para atentar e aderir a marcas e produtos verdes? Infelizmente não existe um estudo explicitamente voltado a responder essa questão (atenção docentes e pós-graduandos em Comunicação – eis aqui um ótimo tema para pesquisar!). Mas temos, sim, uma pista indireta.

“Sabemos que o número de anúncios sobre responsabilidade socioambiental cresceu: pesquisa da Market Analysis, entre 2003 e 2010, indicou aumento de 51%, o qual muito provavelmente signifique que o volume investido nesse tipo de propaganda também aumentou – no mínimo na mesma proporção. Entretanto, o aumento acumulado em publicidade geral para o mesmo período atingiu quase 330%! Cerca de 6,5 vezes mais! A brecha indica uma prioridade clara no foco sobre o que comunicar e para que comunicar e certamente não parece ser a sustentabilidade.

”E o que acontece em matéria de compromisso com a sustentabilidade quando seguimos a trilha do investimento em propaganda? Dentre os 10 maiores anunciantes no país em 2011, três (um em cada três!) ainda não aderiram ao padrão GRI, comunicando seus desempenhos em sustentabilidade de modo sistemático. O que essa brecha sugere? Que entre os grandes players que movimentam o consumo no mercado brasileiro ainda existe uma fatia considerável que almeja: a) difundir o consumo, mas não comunicar de forma transparente como está trabalhando para compensar o impacto resultante disso; b) preencher seus produtos e serviços de sentido, mas sem conectá-los com o que realmente faz sentido para o interesse coletivo como um todo (isto é, uma sociedade mais saudável e menos desigual, foco no bem-estar antes que na acumulação, meio ambiente e qualidade de vida preservados).

“Um olhar mais detido no perfil das empresas menos preocupadas com uma proposta de comunicação ética e sustentável revela que dois segmentos se destacam: fabricantes de veículos e operadoras de telecomunicações, ambos setores que, não coincidentemente, têm sido extremamente questionados quanto aos objetivos dos seus negócios e benefícios para a sociedade.

“Se o perfil da publicidade revela as escolhas feitas em matéria de disseminação, o retrato dos investimentos em pesquisa fornece uma boa dica sobre a disposição de escutar a sociedade nos tópicos mais urgentes e antenados com um modelo de economia sustentável. Dos R$ 1,37 bilhões faturados pelos institutos e agências do setor, quantos você diria que foram em função de solicitações vinculadas a avaliar o andamento de projetos de responsabilidade socioambiental, conhecer as expectativas e prioridades dosstakeholders visando a engajá-los ativamente na produção de propostas sustentáveis, alimentar estratégias sustentáveis corporativas na cadeia de valor ou levantar as necessidades das comunidades onde as empresas operam? Novamente, não existe um dado claro e objetivo para o setor como um todo.

‘”Entretanto, temos como fazer algumas inferências. Por exemplo, esse tipo de projeto costuma ser rotulado como pesquisa de opinião ou reputação. Levando em conta o percentual faturado pelas gigantes do setor, menos de 2% das receitas em pesquisa de mercado foram obtidas de projetos vinculados com ações de sustentabilidade. O leitor pode estar se perguntando: onde estão exatamente os estudos sobre sustentabilidade corporativa? Pois bem, eles representam apenas fatias irrisórias dentro de fatias minoritárias deste mercado bilionário.

”Um último dado que ajuda a ilustrar parcialmente o atual paradoxo entre disseminação em excesso, de um lado, e escuta e deliberação em falta, de outro, surge de um levantamento informal realizado pelo instituto Market Analysis, com 10 empresas líderes em seus segmentos. Entre essas companhias, que faturaram aproximadamente 200 bilhões de reais no ano passado, quatro figuram entre as 30 maiores anunciantes de 2011, e só seis publicam relatórios de sustentabilidade segundo os critérios da GRI.

”A consulta visou, entre outras coisas, entender a importância, frequência e o procedimento de escuta dos seus diversos públicos de relacionamento. Ficamos surpresos. Constatamos que apenas três delas (metade das que seguem o padrão GRI) possuem, de fato, um método formalizado, regular e – portanto – estratégico de consulta aos seus stakeholderssobre a sua atuação sustentável e sobre como relatá-la. Mais uma lição aprendida: seguir à risca os exigentes critérios de comunicação da GRI é bom, mas está longe de ser sinônimo de uma escuta atenta e sistemática ou de engajamento deliberativo com as partes interessadas.

“Em seu conjunto, esses sinais apontam para uma conclusão bastante clara. Uma parte substancial das grandes empresas brasileiras não entendeu ainda o que já é óbvio para as que ocupam a liderança em sustentabilidade: a busca por atuação sustentável requer, muito antes do que declarar, escutar; muito antes do que um assalto comunicador, a preocupação por construir consensos sobre as prioridades de ação, debater os enfoques conceituais e perscrutar os resultados atingidos com os públicos de interesse.

”E mais, como exemplifica meu caro amigo Ricardo Voltolini em seu artigo Líderes sustentáveis, intuitivos e emocionais: “Não se trata aqui de ouvir por ouvir, como muitas empresas fazem nos seus protocolares painéis de stakeholders. Mas ouvir com respeito.”

”A chamada não fica apenas num apelo moral à sinceridade e transparência, mas – especialmente – convoca a uma gestão da sustentabilidade mais inteligente, que emule o mesmo senso de excelência que inspira a gestão de marketing da organização, uma gestão que não tome decisões às cegas, mas ancoradas em informação e feedback substantivo sobre o que os públicos centrais ao negócio da empresa esperam, entendem e avaliam de uma atuação sustentável.

”Negligenciar esses desafios implica três consequências na busca da sustentabilidade empresarial: 1) investimentos nas frentes de atuação erradas; 2) sensação de exclusão pelos stakeholders e opacidade sobre os processos decisórios da empresa; 3)greenwashingou socialwashing.

“Uma alternativa para esses problemas que temos apresentado e trabalhado com alguns dos nossos clientes é o estudo Sustentabilidade 360, um método de pesquisa capaz de garantir precisão e profundidade na escuta das percepções e expectativas dos diversosstakeholders. Compartilho aqui três cases de uso deste tipo de ferramenta: o primeiro, de uma empresa de entretenimento; o segundo, de uma do setor energético; e o terceiro, de uma companhia de TI.

”A cliente do setor de entretenimento planejava ampliar a sua política de sustentabilidade de modo a contemplar as demandas dos stakeholders de países emergentes. Trata-se de uma empresa global que tem sido cada vez mais pressionada para agregar valor sustentável aos seus produtos e serviços em escala mundial. A consulta aos seus principais públicos de interesse revelou que a companhia deveria primeiramente comunicar o seu engajamento com o desenvolvimento sustentável de forma mais assertiva e objetiva. Grande parte dos stakeholders brasileiros, por exemplo, sequer sabia como a organização tem buscado ser referência em responsabilidade corporativa.

”Os públicos revelaram discursos genéricos, desprovidos de evidências concretas de desempenho sustentável e pautados na ideia de que toda empresa de entretenimento busca, naturalmente, fazer o bem comum. Esse resultado surpreendeu os gestores, que pensavam já estar um passo à frente em termos de licença para operar nos mercados emergentes. O estudo contribuiu para a elaboração de uma hierarquia de prioridades de ação mais sensível ao contexto atual da empresa e para um plano de comunicação mais tangível aos stakeholders.

”A cliente do setor energético planejava sua entrada no Brasil e precisava descobrir qual era o principal desafio do governo brasileiro nos próximos 10 anos, na visão dos seus stakeholders. A empresa sabia, de antemão, que alguns dos seus grupos de interesse entendiam que o rol de boas práticas de sustentabilidade das corporações deveria conter muitas das atribuições do poder público, tido como ineficaz. A principal brecha de atuação descoberta estava no campo da educação, especialmente por meio da melhoria da infraestrutura das escolas públicas. A pesquisa possibilitou elencar as políticas de atuação e definir uma diretriz de sustentabilidade para os stakeholders.

”Já a cliente do setor de tecnologia havia compreendido a sua principal missão em prol da sociedade: a melhoria da infraestrutura no país. A dúvida era sobre qual problema focar o maior volume de investimentos: no que a empresa considerava o mais importante e estava acostumada (infraestrutura da comunicação) ou em algum outro ainda não mapeado e advindo dos stakeholders, até então consultados de forma genérica.

”Os resultados mostraram uma alta demanda por investimentos em transporte urbano, mostrando certo desalinhamento entre planejamento estratégico e expectativas dos públicos de interesse. O estudo agregou ao identificar o real nível de materialidade da atuação sustentável da companhia, indicando frentes mais promissoras em sustentabilidade empresarial.

”Os exemplos mostram como os gestores podem se antecipar a esta megatendência da sustentabilidade empresarial: implementar rotinas de inteligência mercadológica para desenvolver decisões e modelos de gestão e comunicação que contem com a legitimidade dos seus stakeholders. E a sua empresa, o que ela prioriza? A corrida por mais e mais declarações sobre ações feitas ou por fazer, ou a estratégia de escutar antes e melhor seus públicos de interesse na construção da política de sustentabilidade?”

Fabián Echegaray é Ph.D em Ciência Política pela Universidade de Connecticut (EUA) e diretor-geral da Market Analysis, instituto de pesquisas especializado em sustentabilidade e responsabilidade social.

Publicado no site Idea Sustentável

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Ambev e TNC fazem parceria para preservar Bacia e abrem chance de se pensar sobre as relações sustentáveis

Sob uma chuva insistente, mais morna do que fria, os jornalistas  foram chegando e se instalando numa espécie de balcão preparado para eventos. Era manhã de quarta-feira (dia 20) e estávamos na fábrica da Ambev em Jaguariúna, pequeno município da região metropolitana de Campinas. Fomos convidados para ouvir o anúncio de uma nova parceria que a empresa fez com o Terceiro Setor – desta vez com a ONG The Nature Conservancy (TNC). A TNC nasceu em 1951 como um desdobramento da The Ecological Society of America e tem como missão “conservar as terras e águas das quais dependemos”. Para isso, como é possível perceber em seu site (www.nature.org), conta com o apoio de grandes empresas, de 550 cientistas, está em mais de 35 países e em todos os estados dos Estados Unidos.

Juntos, Ambev e TNC vão dar um passo importante para preservar a Bacia Hidrográfica dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que fica na região onde a Ambev instalou sua fábrica. Para isso, uma das principais medidas será pagar por serviços ambientais  a produtores agrícolas da região que se comprometerem a adotar práticas de conservação em suas propriedades.

ONG, empresa, um projeto…  Você, leitor, está sentindo falta de mais uma perna para dar ao programa o atributo sustentável? Não falta mais. Pois o prefeito de Jaguariúna, Tarcisio Chiavegato — que está no quinto mandato e já teve problemas com a justiça eleitoral local, em 2007, por falta de transparência em contas — está na parceria.  Temos aí, portanto, sociedade civil, empresa e poder público juntos em prol de um mundo melhor, no caso, com água suficiente para a Ambev fabricar seus produtos e os moradores conseguirem utilizá-la. O diretor de relações socioambientais da empresa, Ricardo Rolim, delicadamente cedeu o espaço para o prefeito dar as boas-vindas à imprensa no evento:

—- Vi o rio Jaguari morrendo e agora estou vendo que ele está se recuperando. Já posso até pescar dourado na minha chácara, que fica à beira do rio – disse Chiavegato, que foi um dos criadores, em 1989, de um consórcio com outros dez prefeitos para salvar aquela Bacia que ainda está precisando de ajuda.

Na época, só 3% do esgoto das 44 cidades que a circundam eram tratados.  Hoje, segundo o prefeito, que em 2011 foi denunciado por relações pouco transparentes com outra empresa local, esse percentual cresceu para 70%.  Agora, com o aporte de R$ 2 milhões que a Ambev deu, a chance de esses 70% crescerem talvez seja grande. A meta é atingir 100% em 2016.

A gentileza de Ricardo Rolim com o prefeito tem razão de ser. Para estimular a fábrica a se instalar na região, em 1991, Chiavegato anunciou que mandou construir até uma ponte para ajudar seus 2.500 empregados a chegarem à unidade.

Essa relação — empresa com poder público — tão importante para qualquer projeto ser realmente sustentável, é mesmo delicada.  Poder público precisa de investimentos em seu território e faz concessões. A empresa, por sua vez, precisa que seu negócio cresça num ambiente sadio, seguro, e para isso, além de pagar impostos, precisa atuar como cidadã. O molho dessa história é o capital. Molho que, às vezes, colabora para apimentar a relação.

ambev arvoreNa foto, um momento em que a empresa atua como cidadã e se rende aos apelos políticos: o diretor Rolim e o prefeito Chiavegato contracenam a plantação de uma árvore apenas para mostrar o que vai acontecer no futuro, porque este não é nem o terreno que será realmente beneficiado com o projeto.

Mas Rolim aproveitou o evento para fazer um balanço e anunciar também as metas ambientais da empresa. Há três anos o grupo Anheuser Busch InBev, do qual a Ambev faz parte, divulgou metas ambientais a serem atingidas até 2012. Mundialmente, a meta era atingir 3,5 litros de água por cada litro de cerveja. Parece que não, mas já é uma brutal economia. Segundo a empresa, em 2002 eram gastos 5,36 litros de água para produzir um litro de bebida. Em 2008, foram 4,11, em 2010, 3.95.

Aqui no Brasil, a Ambev atingiu uma meta ainda mais ousada do que a holding: gasta 3,4 litros de água para fazer um litro de cerveja. Outra meta, também alcançada, era atingir 99% de reciclagem para resíduos sólidos e subprodutos. O consumo de energia também caiu 12% e a emissão de CO2, 15,7%.

Como não há marco regulatório para esse tipo de iniciativa, ficamos com a possibilidade de comparar ações de umas e outras empresas. E a Ambev, de fato, está fazendo a parte dela, um tom recorrente da indústria brasileira, segundo informou o repórter Claudio Motta no caderno “Amanhã”, de O Globo. A reportagem dá conta de que é o agronegócio, e não a indústria, o grande sorvedouro de água no Brasil: 70% contra 20%. A população, que indiretamente contribui para  este gasto, tem uma responsabilidade menor, de 10% , na hora de consumir água para uso próprio.

Mas ali, naquele evento, na manhã de chuva morna, ao olhar de um observador mais atento não escapava a fragilidade das relações nascidas sob o signo da sustentabilidade.  Se o  jornalista, numa cobertura qualquer, precisa sempre apurar olhos e ouvidos para tentar desvendar algo mais do que está sendo mostrado, o jornalista especializado em sustentabilidade precisa aprender a desprezar o óbvio e ir além. Se não fizer isso, acaba trazendo para o leitor a infundada certeza de que o mundo, finalmente, tomou jeito. É que as empresas ficam tão excitadas com o anúncio de seus bons projetos (o que é legítimo, por sinal) que acabam evitando falar nos contratempos para alcançar este objetivo. Ou, bater a meta, como elas preferem dizer. Mas dividir alguns contratempos também pode ser interessante para espraiar a iniciativa, como todos nós desejamos.

Como acredito que são as relações humanas que mais interessam a um mundo verdadeiramente sustentável, gosto de poder destrinchá-las. Sabe-se, por exemplo, quão frágeis e delicadas podem ser as relações entre empresas e ONGs, que têm entre si um enorme muro de preconceito. Há cerca de três anos ouvi da coordenadora da ONG chilena Ciudad Viva, Lake Sagaris, uma espécie de histórico sobre a fragilidade dessa relação. Segundo ela,  a urgência das questões sociais tornou-se premente e inaugurou uma temporada de mudanças nas relações entre empresas e sociedade civil. Mais do que tudo, disse-me ela, tornou-se obrigatório fazer alianças. Mas Sagaris, que esteve à frente de um protesto vitorioso contra a construção de uma estrada em Santiago, não esconde a dificuldade de se achar parceiros no mundo corporativo dispostos a desenvolver uma relação de igual para igual.

Se houve qualquer  obstáculo desse tipo entre Ambev e TNC, nós não ficamos sabendo. Muito antes pelo contrário. Anita Diederichsen, representante da ONG que vai ajudar a Ambev a preservar a Bacia, foi a terceira pessoa a falar no evento e mostrou-se o tempo todo satisfeita com o desenrolar dos acontecimentos. Mas, de novo, para um olhar atento deixou transparecer o perigo dessa relação  porque adotou um discurso muito mais próximo ao da corporação do que da sociedade civil.  O pagamento por serviços ambientais, carro chefe dessa parceria, foi anunciado antes do tempo, ainda em fase de “geração de informação”, prejudicando a transparência necessária para um projeto desse porte. Para Anita, os jornalistas, sempre ávidos por números, é que seriam lesados. Não seria a população que a ONG representa?:

— Já identificamos  todos os que fazem parte desse projeto, mas não falaremos hoje sobre quantia de pagamento porque queremos entender o uso do solo na região. Estamos em fase de geração de informação.

São firulas que podem ser consertadas numa próxima edição, quando a TNC, hoje uma megainstituição, de fato mais próxima do perfil corporativo do que de uma ONG, conseguir afinar mais seu discurso com o da população. Ou, quando as ONGs não precisarem se travestir de empresas para atuar num sistema que, realmente, lhes cobra metas e planilhas. Sonhando com o mundo ideal? É, pode ser…

Na visão macro do programa de pagamento por serviços ambientais, no entanto, a discussão fica sobre seus resultados reais. Segundo alguns especialistas, essa iniciativa pode criar um sistema perverso de geração de renda sem produção atrelada. Anita, no entanto, lembrou que não é assim:

—- Evitar que a floresta pegue fogo, conter a caça, plantar matas ciliares, isso tudo exige muito trabalho. O cálculo do pagamento será feito em função de cada propriedade – disse ela.

A Ambev não declara quanto vai investir nesse programa, uma nova etapa do Projeto Bacias, ação do “Movimento Cyan- Quem vê água enxerga o seu valor”, lançado pela empresa em 2010.

— Com essa expansão do Projeto Bacias vamos trazer o que há de mais moderno entre as práticas de conservação ambiental para ajudar a garantir que não falte água nas principais cidades do estado de São Paulo – disse Rolim, aplaudido por Anita.

Insisti em buscar um obstáculo, um empecilho, algo que vá fazer essa excelente rede se mexer, voltar atrás, refazer alguns cálculos, agregar outros.  Isso porque acredito mais na turbulência que faz pensar em soluções, do que numa serenidade religiosa. Consegui, mas sobrou para o produtor agrícola. É que, segundo a TNC, vai depender de uma mudança de cultura, de paradigma, para que o produtor se convença de que é um provedor de serviços ambientais. Se isso não acontecer… bem, não sei. Vamos esperar que o programa realmente comece. Por ora, que essa boa parceria, ainda no sétimo mês de vida, perdure e atinja seus objetivos é o que todos desejamos.

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O circuito curto dos alimentos pode ser uma saída

Uma combinação de safra recorde, rodovias deficientes e a nova regra que limita o tempo do caminhoneiro no volante, segundo reportagem de domingo no jornal “Estado de São Paulo” , está sendo responsável pela saturação dos portos brasileiros. Sem ter rotas alternativas para escoar a safra agrícola, ainda segundo a reportagem, quase dois terços dos grãos exportados acabam indo para Santos e Paranaguá e o resto é dividido entre 16 terminais espalhados pela costa. Em situação normal essa dependência de dois portos já não é saudável. Mas como há uma produção recorde de grãos, os problemas dobram. O resultado são filas imensas de caminhões de um lado esperando para conseguir chegar ao terminal e, de outro, navios parados no mar esperando para levarem a produção Brasil e mundo afora.

Fiquei imaginando a cena. Fiquei imaginando, ainda, o que pode acontecer com a tal safra recorde acondicionada em caminhões, esperando dias para chegar ao destino final, ou seja, a mesa, a boca, o estômago de pessoas que precisam do alimento. Constato a insustentabilidade desse processo, o que vai ser desperdiçado. Levando em conta que ainda há, aqui mesmo no Brasil, muita gente que nem tem como ter acesso  ao pão de cada dia, esse desperdício incomoda bastante.

Em 2008, um estudo divulgado no site do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica (Ipea) dava conta de que o Brasil estava entre os dez países que mais desperdiçam comida no mundo.  No estudo foi divulgado ainda um dado do Serviço Social do Comércio (Sesc): R$ 12 bilhões em alimentos eram jogados fora diariamente, uma quantidade suficiente para garantir café da manhã, almoço e jantar para 39 milhões de pessoas.

O site da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) confirma a tal safra recorde que a reportagem de domingo anunciou:

“A área cultivada com as principais culturas no país (algodão, amendoim, arroz, feijão, girassol, mamona, milho, soja, sorgo, aveia, canola, centeio, cevada, trigo e triticale), estimada em 52,99 milhões de hectares, equivale a um acréscimo de 2,11 milhões de hectares, ou seja, 4,1% superior à plantada em 2011/12. A produção atualmente estimada em 183,58 milhões de toneladas é de 10,5%, ou seja, 17,41 milhões de toneladas superior ao volume de 166,17 milhões de toneladas produzidos em 2011/12. Este crescimento se deve ao aumento da área plantada, e principalmente à recuperação da produtividade, sobretudo, do milho e da soja, que na safra anterior foram severamente prejudicadas pelas chuvas irregulares e estiagens prolongadas, principalmente nos estados da Região Sul do país e parte do Centro-Oeste. Destaque para a cultura da soja que registra crescimento de 23,6%, isto é, 15,68 milhões de toneladas superior à produção da safra anterior, passando de 66,38 para 82,06 milhões de toneladas.”

Mas, para que este seja um desenvolvimento com alguma sustentabilidade,  entende-se que toda esta safra deveria funcionar, de fato, para alimentar pessoas, não para ficar perambulando em estradas, estocada em engarrafamentos ou mesmo em longas viagens alto-mar.

Em agosto do ano passado escrevi um artigo para o caderno “Amanhã”, do Globo, chamada “A viagem da pimenta vermelha”. Chama-se assim porque conta a história de um feirante que batia no peito de orgulho porque vendia pimenta vinda de São Paulo.  Possivelmente a especiaria saía de lá muito, muito tempo antes de poder ser vendida. Passando por engarrafamento no Porto, em alto-mar, na estrada… Ora, qual o sentido disso?

Ex-presidente do Conselho de Segurança Alimentar (Consea), o professor Renato Maluf ajudou-me, à época, a destrinchar esse processo e tentar encontrar uma saída sustentável para a questão dos alimentos. Seria o  circuito curto dos alimentos:

—- O sistema alimentar mundial afastou a produção do consumo e a tendência é do circuito longo, das grandes corporações. O circuito local usa a produção de pequeno porte diversificada e promove uma circulação regional, promove a agricultura familiar — disse Maluf.

A raiz do problema, em parte, é o surgimento das grandes cidades, cujos moradores têm, sempre, muita pressa. Para eles, os grandes supermercados, que oferecem produtos empacotados, “prontos para consumo”, são necessidade básica. Para fazer diferente, seria necessário voltar ao tempo das pequenas quitandas que compravam de produtores locais, de agricultura familiar. Renato Maluf lembra que tanto o governo Lula como o governo de Dilma Roussef representam um esforço no sentido de ajudar as famílias de pequenos agricultores a se manterem, entre outras coisas, com doação de sementes:

— O maior desafio para o país, desde os tempos de Brasil colônia, é romper com a característica de grande produtor agrícola com base na grande propriedade – conta o professor.

Quando se fala em sustentabilidade está se falando em mudança de paradigma, em um modelo econômico diferente, que seja bom para o meio ambiente e para as pessoas que nele habitam. É tarefa difícil, exige esforço e, sobretudo, vontade de mudar. Pensar na questão alimentar como parte importante desse processo de mudança é fundamental.

Pensar na questão alimentar como uma forma de desenvolvimento local pode ser uma tarefa para quem acredita em mudanças de paradigmas. É possível envolver as empresas nessa tarefa. Algumas redes de supermercado já sinalizam com uma compreensão aproximada do que pode ser essa ajuda. Por isso já se vê, em algumas gôndolas, produtos chamados de agricultura orgânica. Ainda é um pouco, muito pouco, do que pode ser feito, mas já é um bom primeiro passo.

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Incoerência também vem de empresas e governo, diz Echegaray

No último texto (http://https://ameliagonzalez848.com/2013/03/13/alguma-coisa-esta-fora-da-ordem-na-comunicacao-das-empresas-com-o-publico/) eu analisei, com ajuda de especialistas, a pesquisa realizada pelo Idec e Market Analysis  onde fica claro o divórcio entre o que diz a opinião pública brasileira sobre degradação ambiental, mudanças climáticas, papel das empresas e a maneira como essas mesmas pessoas absolutamente ignoram tudo isso na hora de analisar um rótulo antes de comprar qualquer produto — ou mesmo deixar de comprar —  de empresas social ou ambientalmente irresponsáveis. É um tremendo paradoxo.

fabiánOntem conversei com um dos coordenadores do estudo  e diretor da Market Analysis, Fabián Echegaray,  empresa que há 16 anos vem fazendo pesquisas de opinião pública e que, pelo menos na última década, foca suas perguntas em questões de sustentabilidade. Echegaray admite o paradoxo, percebe que isso vem acontecendo há muito tempo, e agrega informações importantes. Segundo ele,  entre os mais de 30 países dos cinco continentes onde foram feitas as perguntas, o Brasil é o país que mais se preocupa com o meio ambiente e as mudanças climáticas, e essa preocupação vem aumentando.  A contrapartida é cruel, já que o comportamento dos brasileiros na hora de consumir ainda é o mesmo de cinco, seis anos atrás. Abaixo, Echegaray, que está estreando como colunista na seção de meio ambiente do jornal britânico “The Guardian”,  analisa a questão.

Quando uma pesquisa como esta é divulgada, a primeira reação é de lamento, já que não se consegue um nível de cidadania participativa como seria necessário para mudar o modelo. É essa a leitura?

Fabián  Echegaray — Não, o cidadão não inventa nada. Basta pegar a atuação do governo ou das empresas, de 2005 para cá, que se vai encontrar também um monte de contradições.  Quer ver? Temos um governo que ao mesmo tempo que faz uma lei de resíduos sólidos avançadíssima, no Código Florestal abre as portas para a degradação ambiental. Quanto às empresas, ficamos muitas vezes congelados com os mesmos exemplos de empresas sustentáveis, tipo Natura, o extinto Banco Real, a Coca Cola, que está fazendo bons projetos, mas continuamos  tendo algumas empresas que fazem parte do dia a dia das pessoas tão fortemente como essas que mencionei, que também são paradoxais.  Como uma  distribuidora de gasolina que, ao mesmo tempo que tem todo um discurso vinculado com sustentabilidade muto forte, continua empregando um produto que é muito mais poluente que a própria legislação obriga ou toda  a indústria automobilística que reluta em fazer algum tipo de mudança para controlar emissões de carbono. Algumas até tomam umas ações positivas que são canceladas por ações erradas de outro grupo de indústria. Essa situação de impasse é a questão da liderança. Fizemos um estudo com a rede Globescan, com formadores de opinião, para saber quais os principais entraves para o progresso de uma agenda sustentável. Divulgamos na Rio+20. O resultado foi a falta de uma liderança política não estatal, mas no sentido de conseguir articular consensos.

Então o problema não é falta de informação…

Fabián Echegaray – De jeito nenhum. Informação tem de sobra,  tem mensagem demais sobre a importância do verde, a presença de algum atributo sustentável no produto que está exposto. Acontece é que essas mensagens nem sempre são informação, muitas vezes são muito herméticas, não formam opinião. Além disso,  muitas delas são mentirosas: a criação de selos por parte da própria empresa, por exemplo, que são atributos decorativos típico de greenwashing e que não passa despercebido pela população. Na pesquisa agora com o Idec aparece fortemente tanto a desconfiança quanto  o fato de haver muitos selos ambientais. Quando perguntamos “Com quais selos você se depara no dia a dia?”, entre aqueles que diziam que menos conheciam selos, metade falou que tem a ver com questões ambientais. Quando perguntamos sobre a confiança nos tais selos, é nestes selos que as pessoas menos confiam.

Mas, será que as pessoas que respondem a esse tipo de pesquisa estão verdadeiramente conectadas com o tema?

Fabián Echegaray – O que você quer saber é como as pessoas formam opiniões.  Na verdade, ninguém consegue ter tempo para coletar todas as informações, validá-las e chegar a um momento racional. Quando se defrontam com uma situação meio inesperada — tipo alguém batendo na porta pedindo uma entrevista — as pessoas buscam na sua memória temas que estejam vinculados com a pergunta. A maioria responde em função da última notícia que tem na memória, sobre o que ouviu e que ficou de fato impregnado no cérebro como dado que se emparelha com o estímulo que está sendo invocado. Isso não significa que as opiniões são pouco confiáveis porque todo mundo faz isso, eventuais desvios numa direção são cancelados por uma pessoa que tem desvio em outra direção.

Bem, já que falamos em notícia, como você acha que tem sido o papel da mídia na hora de informar sobre a agenda sustentável?

Fabián Echegaray — Não tenho muito tempo de acompanhar diariamente jornais e revistas, mas o ponto principal desse tipo de cobertura é que   durante muito tempo entre a mídia especiailzada existia a persuasão de que era preciso apavorar, chocar as pessoas para se conseguir mobilizar a população, criar uma coalizão política pro sustentabilidade que gerasse uma pressão no mercado.  Acompanhei o impacto disso nas pesquisas e o que percebi é que num primeiro momento – estou falando de 2007, 2008 — foi efetivo houve realmente uma tomada de consciência na população. Mas depois o que gerou foi fadiga nas pessoas. As curvas nas pesquisas mostram que de 2010 e 2011 para cá as pessoas tiraram de suas prioridades questões ambientais, climáticas, mesmo com a calamidade que está acontecendo, e passam a se preocupar com outras coisas. Não estou dizendo que a prioridade passa a ser econômica, por causa dos tempos de crise, não é isso. Estou falando de uma certa paralisia. Passaram a ter mais peso para os cidadãos as contradições e o descaso do governo, a falta de liderança política e o fato de as mesmas empresas por um lado aparecerem como inovadoras em termos de sustentabilidade e continuarem, por outro lado,  tendo comportamento insustentável.

Uma das queixas das empresas é com relação à sua cadeia produtiva.  Elas não gostam de serem responsáveis por atitudes de fornecedores com os quais têm, às vezes, uma relação pouco próxima. Como você vê isso?

Fabián Echegaray – De novo, acho que falta um estado mais forte aí, para garantir o bem estar mínimo que a população precisa.

Mas, na verdade, desde a década de 80, sobretudo por iniciativa de Margareth Tatcher e Ronald Reagan, o estado começou a se afastar e deixar as empresas e os cidadãos cada vez mais por si…

Fabián Echegaray – É, na verdade também, se formos ver, vinte anos atrás nem havia esse tipo de debate, sobre a participação das empresas transnacionais na cadeia produtiva.  E precisamos ver que houve também outro fenômeno importante, da globalização, que expõe muito mais agora as atitudes das empresas do que antigamente. Portanto, estamos realmente num processo ainda.

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Alguma coisa está fora da ordem na comunicação das empresas com o público

O estudo da percepção do consumidor sobre os apelos de embalagens realizado pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e Market Analysis, em que ficou claro que somente 1 em cada 4 consumidores (24%) percebe ativamente as mensagens que dizem respeito à responsabilidade socioambiental das empresas pode ser bastante explorado.  Sobretudo se, a este estudo, juntarmos um outro, feito em 2006 pela mesma empresa, em que 27% do público em geral diziam que a melhor indicação de que uma empresa é socialmente responsável é uma etiqueta nos produtos (acima de certificação do governo, parceria com ONGs ou produção do relatório de sustentabilidade). Assim, se nem à etiqueta é dada muita importância, é hora de parar para pensar.

Antes de mais nada, é preciso dar conta de que a pesquisa — feita em 11 capitais, das cinco regiões do país, com amostra de 900 consumidores — foi realizada menos de um ano depois da Conferência Rio+20, em que esse assunto foi amplamente discutido no Brasil e no mundo. Portanto, a pergunta que fica, sobretudo para quem lida com comunicação e informação, mas também para quem se interessa sobre o tema, é: o que impede que os cidadãos (vamos deixar de lado essa alcunha “consumidores”?) levem a sério o papel  das empresas na tão desejada mudança para um mundo melhor?

Não precisamos ser Sherlock Holmes para encontrar a primeira pista: as empresas não conseguem ter credibilidade junto às pessoas comuns.  Por mais que este cenário tenha melhorado na última década, a verdade é que, historicamente, sempre houve uma batalha surda entre pessoas físicas e jurídicas. O fato de que empresas são, no fim das contas, um aglomerado de pessoas físicas, não é levado em conta quando entram em cena capital e relações trabalhistas.

Vamos longe buscar um exemplo:  no século XVI, a posse de ouro e prata era o índice de riqueza e poder de uma nação.  Os dois elementos eram considerados “duráveis, que podem ser transformados de qualquer modo sem prejuízo e que têm grande valor em proporção ao volume”, conta-nos Leo Huberman na “História da Riqueza do Homem”. Pois bem. Por isso, baixaram-se leis para proibir a saída desses metais dos países, já que todos queriam acumulá-los o máximo possível. (A foto eu achei no site guiky.com). Ouro

Assim, todos os cidadãos foram proibidos d elevar ouro e prata para fora de seu país, menos… a Companhia Inglesa das Índias Orientais, que tinha em seus estatutos uma cláusula que lhe dava o direito de exportar ouro. Já foi o suficiente para se começar ali uma guerra contra a empresa, que precisou ser defendida por Thomas Mun, um de seus diretores.

O argumento de Mun era forte: embora a companhia realmente enviasse ouro e prata ao Oriente para a aquisição de mercadorias, essas mercadorias eram reexportadas da Inglaterra para outros países, ou nela trabalhadas e mais tarde revendidas além-mar. Era o esqueleto da balança de comércio favorável, mas não é isso que nos importa aqui. Embora, nesse caso, o governo tenha agido com a melhor das intenções – o enriquecimento da nação – a permissividade soou mal aos ouvidos do povo. E gerou muita confusão. Qualquer semelhança com fatos recentes de indignação popular por supostos favorecimentos governamentais a empresas, não terá sido mera semelhança. É assim mesmo, desde que mundo é mundo. Ou melhor, desde que o homem descobriu o absurdo que há no acúmulo da riqueza, mas esse é outro assunto.

O que importa aqui é que a relação entre empresas e pessoas físicas, no fim das contas, é mesmo de amor e ódio.  Joel Bakan lembra, no livro “The Corporation”, que  nos últimos 150 anos a corporação tem saído de uma relativa obscuridade para se tornar a  instituição econômica mais dominante do mundo. “Hoje, as corporações governam nossas vidas. Elas determinam o que comemos, o que assistimos, o que vestimos, onde trabalhamos e o que fazemos”.

Assim mesmo, pelo que vimos na pesquisa atual, na hora de verificar se elas têm atitudes conscientes, falhamos.  Se a questão não está na falta de credibilidade dos rótulos, pelo que vimos na pesquisa do passado, o que leva a este comportamento passivo? De novo, a falta de credibilidade nas próprias empresas. A tal caixinha preta, que toda corporação tem, e que se dá o direito, legítimo, de ter, para não abrir informações demais para a concorrência, talvez seja um inimigo.

Para o doutor em ciências econômicas Ladislau Dowbor, formado em economia política pela Universidade de Lausanne , o fato é que não se conhece muito das corporações. “ O maior poder organizado atualmente no planeta – a corporação transnacional – é também o menos conhecido na sua estrutura, mecanismos de gestão, relacionamentos com poder político e midiático, impactos ambientais e assim por diante.”, diz ele em seu blog (dowbor.org) no comentário ao filme “The Corporation”.

E assim, quando vêm à tona notícias dando conta de falcatruas empresariais, ajudam a corroborar sentimentos pouco amigáveis. O resultado de outra pesquisa feita pela Market Analysis em 2006 mostra isso: 80% das pessoas ouvidas achavam que as corporações tentam ser socialmente responsáveis apenas para melhorar sua imagem, não por quererem dar uma contribuição positiva para a sociedade.  Ao mesmo tempo, no mesmo ano,  outro estudo da mesma organização, desta vez feito em parceria com o Instituto Ethos e o Akatu, mostrava que 88% das pessoas concordavam que é responsabilidade das empresas ajudar a resolver problemas sociais, tais como criminalidade, pobreza e baixa educação.

Sim, mas como aferir se elas fazem isso num rótulo de embalagem? E mais: como acreditar que o que o rótulo da embalagem diz condiz com a realidade?

Para se informar sobre as ações das empresas, os cidadãos têm outro instrumento, o balanço social, ou relatório de sustentabilidade, ou relatório de ações sociais. Há ainda a chance de buscar o que quer saber através do site da corporação. Assim mesmo, a maioria, ainda em cima da pesquisa feita pela Market Analysis em 2006, prefere ser informada pela mídia.

A pergunta é: as reportagens que falam sobre os projetos apoiados pelas empresas são levadas a sério pelos leitores? Sem resposta.

Bem, mas tem também algum componente que dá conta de uma quase desconexão dos cidadãos com notícias relacionadas às questões de sustentabilidade. A pesquisa do Idec,  por exemplo, mostra que 46% da população nunca viram e não conhecem as mensagens de apelo às compras nas embalagens dos produtos, e um pouco menos de um terço da população (30%), pouco sabem sobre a existência dessas mensagens.

Mas o que não falta, hoje, é meio para que essas informações possam circular. E organizações que ajudem a propagá-las. Vejam, por exemplo, a pesquisa que a britânica Oxfam, conceituada associação de organizações que trabalham pelo fim da pobreza e da desigualdade no mundo, lançou junto com a campanha “Cresça: abra a boca para acabar com a fome” que foi divulgada ontem pela revista “Amanhã”, de O Globo.  Segundo os estudos,  49% das pessoas entrevistadas no Brasil discordaram da informação  “eu realmente não tenho interesse em saber como os alimentos que compro são produzidos”.  Ou seja: 51%, no mínimo, concordaram com a frase.

No site da organização (oxfam.org) há informações sobre um estudo feito sobre a forma como as dez maiores empresas dos setores de alimentos e bebidas do mundo – que movimentam anualmente cerca de US$ 800 bilhões – lidam com aspectos importantes como apoio a pequenos agricultores, mão de obra feminina no campo e direito à terra. E há também uma petição endereçada à Nestlé para que a empresa passe a ter mais respeito sobre o trabalho das mulheres no campo. Pode ser assinada por quem quiser.

E vamos tentando propagar informações. Pode acessá-las  aqui ou em qualquer outro veículo de sua preferência.

 

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Projeto no Babilônia sem guerra de concorrentes

Que as Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro mudam para melhor a vida dos moradores das comunidades pacificadas, ninguém parece ter mais dúvidas. Por mais que persistam alguns gargalos neste processo, como a dúvida sobre o destino dos traficantes – que desaparecem de hora para outra sem deixar vestígios, pelo menos aparentemente – a verdade é que hoje esses territórios são mais atraentes. Não só para cariocas e turistas, que redescobrem pontos que já pareciam esquecidos da cidade, como para quem sabe que o pé da pirâmide (expressão usada pelo economista indiano D. H. Prahalad para caracterizar a população de baixa renda) é um público com muita  vontade de entrar no mercado de consumidores.

Não teria sido outro o motivo que levou dois grandes nomes da rede bancária – Bradesco e Itaú – a assinarem lado a lado e junto com outras 14 empresas, um projeto para os morros Babilônia e Chapéu Mangueira, no Leme (pacificados em 2011), capitaneado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). O projeto, chamado “Rio Cidade Sustentável”, seguiu direitinho as regras dos programas que desejam ser sustentáveis: ouviu a comunidade, capacitou pessoas, fez parceria com o poder público, desenvolveu ações em frentes diversas. Ao todo, 40% das cerca de 1.200 casas dos dois morros foram ouvidas e 93 alunos receberam cursos de capacitação para pedreiro, eletricista, bombeiro hidráulico e serralheiro.

Mas foi nessa parceria entre concorrentes, inédita até onde eu posso me recordar, que está a inovação maior do projeto. Estive no local sábado retrasado, quando o Cebds fez uma espécie de festa de encerramento do programa (  que começou em 2011 e agora parte para Belo Horizonte)   e conversei com Marina Grossi, presidente executiva do Cebds.  Segundo ela (na foto, tirada por mim lá no Morro da Babilônia) ter duas empresas concorrentes assinando o mesmo projeto é uma tendência:cebds no babilonia 003

— Na minha argumentação aos dois bancos, eu coloquei para eles que tudo o que se faz hoje em busca da sustentabilidade exige parceria, não competição.  A ideia não é brigar por um mercado do jeito que ele hoje está desenhado,  mas investir num mercado que ainda não existe. É para mudar, mesmo, um padrão. Não estamos falando só de agora, este aqui foi um projeto piloto. Estamos falando sobre essa classe de pessoas que está crescendo e se tornando potenciais consumidores, com tudo o que eles têm de direito — disse ela.

Marina acredita que o projeto-piloto serviu também como um aprendizado para as empresas que o assinaram.  E cita  como exemplo a Votorantim, que neste ano e meio de Rio Cidade Sustentável decidiu criar uma segunda opção para seus sacos de cimento, que antes pesavam 20 quilos: agora há também os de cinco quilos:

—- Os moradores do morro tinham que pagar um frete para carregar os 20 quilos ladeira acima, e acabava encarecendo o produto para eles. Além disso, na primeira chuva o cimento que ainda não tinha sido usado, mas já com o saco aberto, ia todo embora. Então eles decidiram criar este saco de cinco quilos porque fez sentido como um negócio para a empresa deles — disse Marina.

Vejo, dessa forma, a teoria se transformando em prática. No livro “The Fortune at the Bottom of the Pyramid”, que já citei aqui no blog, Prahalad conta a história da Unilever, que criou uma barra menor do sabonete Lifebuoy para consumidores indianos que não podiam pagar pela barra maior.  Isso aconteceu nos anos 80, e a iniciativa da empresa fabricante de bens de consumo parece ter aberto, assim, a possibilidade de outras corporações fazerem o mesmo. Seria um sistema ganha-ganha, onde o consumidor sai como vitorioso por conseguir comprar o que antes lhe era negado?

Os economistas divergem sobre isso. Há uma turma que apoia a iniciativa das empresas, tornada legítima pela necessidade dos consumidores, pelo desejo que eles têm, pela transparência de todo o processo.  Diminuindo sacos de cimento ou barras de sabonete, as corporações estariam, dessa forma, contribuindo para a entrada de mais pessoas no mercado, elevando sua autoestima e ajudando a manter a economia aquecida.

Uma outra linha de pensamento econômico, no entanto, vê aí uma forma de o sistema gerar novos desejos e insatisfações, apenas para mantê-lo forte, sem mexer na estrutura. Os primeiros são considerados economistas radicais, preocupados apenas com números e estatísticas pelo grupo que criou uma dissidência em nome de uma nova economia. As propostas vão desde substituir o PIB como única medição de riqueza até sugerir mudanças no ensino de economia, contra o uso indiscriminado da matemática como o fim em si mesma.

Alheia a essas discussões está, por exemplo,  Rosalina dos Santos Moura (na foto tirada por mim), de 45 anos, a quem encontro festejando o programa lá na base do Morro da Babilônia. Mãe de dois filhos de 25 e 26 anos, Rosalina nasceu no Mato Grosso do Sul e veio para o Rio como doméstica, acompanhando um casal de médicos que só ficaria por cinco meses na cidade:cebds no babilonia 002

—- Eles foram embora e eu fiquei porque, nesse meio tempo, encontrei meu ex-marido, que me convidou para subir o morro com ele. Daqui não saí mais. Nosso casamento acabou, mas continuamos amigos para cuidar dos filhos – disse, sorridente.

Do projeto Rio Cidade Sustentável Rosalinda  ganhou a capacitação  como pedreira, que a permitiu pôr janelas e portas em seu barraco. Fez um empréstimo num dos  bancos parceiros do programa – coisa que não conseguiria fazer antigamente – comprou os produtos mais barato, fez aulas e agora pensa até em fazer uma varandinha para a casa, de tanto que está curtindo o lugar onde mora. Segundo Marina Grossi, na pesquisa feita antes de o programa entrar em atividade, as mulheres chefes de família foram entrevistadas e um dos desejos que apareceu mais forte foi, justamente, o de arrumar a casa:

— Faz sentido, porque elas moram num ponto turístico, que vai começar a aparecer cada vez mais na mídia. E quando os turistas chegam, quebra o visual se os barracos estiverem sem portas e janelas. Isso também ajuda a elevar a autoestima de quem mora ali.

Além disso, contou Marina, engenheiros também foram chamados para apontar soluções que tornassem o local mais seguro em termos de saúde.

—- Ouvi muitos deles sugerirem para o morador abrir uma janela num lugar onde o mofo estava muito forte – disse ela.

Numa outra ação, de Agricultura Urbana Orgânica, 16 moradores foram capacitados para instalar e manter hortas em produção contínua em quintais e lajes, além de terem recebido aulas sobre alimentação saudável.  Adelina dos Santos, de 57 anos, e Luis Alberto de Jesus, 52 anos (foto), moradores do Babilônia desde sempre, foram escolhidos para falar sobre o tema, já que conseguiram hortas bem sucedidas. Adelina tomou a dianteira e contou sobre sua horta — nunca foi muito fã de plantar e depois que fez o curso descobriu como é gostoso —  mas aproveitou para falar também de um desconforto com o morro que habita atualmente:

cebds no babilonia 004— Mudou tudo por aqui. Esse tal de Morar Carioca mexeu com o tamanho das ruas, agora os carros precisam fazer pirueta quando descem para não bater nos postes, de tanto que as ruas ficaram estreitas. Eu nunca tive bandido batendo na minha porta, então não sei o que era a tal violência.  Mas agora vejo um bando de turistas pelas ruas, não é o mesmo morro onde cresci e vivi minha vida inteira – lamenta.

Mas é justamente toda essa movimentação, que desagrada Adelina, o mote para o sucesso de Regina Tchelly, que fez um buffet bem diferente para o encerramento do projeto no Babilônia:  de resíduos orgânicos. E é muito gostoso. Provei uma empada feita com casca de abóbora e adorei. A paraibana Tchelly, 31 anos, mora no Rio desde os 15 e criou o Favela Orgânica, segundo ela, pensando em juntar o útil ao agradável ao ver, na comunidade, tanta comida sendo desperdiçada:

cebds no babilonia 001— Lá na Paraíba eu comia chuchu com casca e quando cheguei aqui vi que todo mundo tira um naco do alimento junto com a casca. Meu foco é reduzir o desperdício, o que fui aprendendo com as oficinas que fiz no Sebrae — conta ela, que consegue hoje ganhar cerca de R$ 60 mil por ano como empreendedora individual no Sebrae.

O discurso da sustentabilidade ganha, assim, cores vivas, fala emocionada, teoria transformada em prática. Marina Grossi, à frente de um corpo de empresários que atendeu ao chamado feito em 1992 por Stephan Schmidheiny, industrial suíço fundador do World Business Council for Sustainable Development, que aqui no Brasil é chamado de Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), garante que as empresas aprenderam que têm que incorporar o impacto social e ambiental em seus lucros:

— Esse é o nosso trabalho.  Não é filantropia, embora eu não tenha nada contra a filantropia. Mas o caso é aqui é negócio: a empresa do futuro precisa saber que deve incorporar esses elementos — disse ela.

Para dar certo, porém, é preciso combinar com outra perna importante na engrenagem: o estado.  No caso da Prefeitura do Rio, segundo Marina, poderia ter havido mais engajamento. A receita para dar certo é a transparência:

— Dependemos de transparência total. O que não conseguimos fazer, não fizemos. Não estamos negociando nada.  O processo foi com o aceite e o conhecimento das comunidades, das empresas, do governo. Essa foi, aliás, a nossa arma para vencer os desafios.  Sem a transparecia não conseguiríamos pactuar. Porque é claro que os agentes percebem se há um gargalo. É claro que tinha que ter um número muito maior de empresas, muito mais engajamento com a prefeitura, mas foi isso que nós conseguimos por enquanto — conclui Marina Grossi.

O projeto teve o apoio da empresa Axia Sustentabilidade e tem como objetivo principal dar um estilo de vida melhor para milhões de pessoas, considerando que, segundo dados da UM-Habitat, já há um bilhão de moradores em comunidades em todo o mundo. E a previsão é de que esse número triplique até 2050, já que o número de pessoas que se mudam para as cidades é cada vez maior.

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Paulo Itacarambi pergunta: “Qual o impacto na economia se o feminino for assumido como valor?

A comemoração pelo Dia Internacional da Mulher suscita várias homenagens, sobretudo de homens que se apressam em oferecer flores e presentes. Sinceramente, a mim pouco ou nada diz essa data. Como se costuma dizer, se tem que ter dia das mulheres, dia das árvores, dos negros ou dos índios é porque a sociedade, de fato, ainda não está acostumada a lidar com as diferenças. Mas, deixando de lado a casmurrice, é bom ter esse dia para lembrar de coisas importantes. Como é bom ter dia da árvore para lembrar sobre o desmatamento, dia do índio para lembrar que as etnias são tratadas com imensa desigualdade etc, etc.

Acabo de receber do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social o comentário que o vice-presidente executivo da organização, Paulo Itacarambi, vai fazer daqui a pouco, às 15h, pela rádio CBN. O título,  “O feminino e a sustentabilidade”, já chama a atenção. O conteúdo, como vocês poderão ler abaixo, é pura informação e reflexão das boas. Do jeito que nós, aqui do blog, gostamos muito. Reproduzo na íntegra por achar desnecessário qualquer tipo de observação ou aparte. E me sinto devidamente homenageada:

“O feminino e a sustentabilidade (Paulo Itacarambi)

 “Não vou comentar o avanço da participação feminina do mercado de trabalho como tenho feito aqui mesmo na CBN, ressaltando que a participação da mulher nos quadros executivos das 500 maiores empresas ainda está muito abaixo da equidade desejada. Como mostra a pesquisa Ethos-Ibope 2010 sobre o perfil dessas empresas, as mulheres ainda estão sub-representadas em todos os níveis hierárquicos.

“Também não vou me alongar a respeito do fato de que o programa Bolsa Família está sendo bem-sucedido no seu objetivo de reduzir a pobreza porque escolheu como estratégia dar à mulher a titularidade do cartão. A própria ONU já verificara, em pesquisas feitas nos anos 1990, que a mulher gasta o dinheiro que possui primordialmente com os filhos e a família, o homem, não.

“Quero comemorar o Dia Internacional da Mulher deixando uma mensagem aos homens.

 “Homens e mulheres são seres diferentes, mas essas diferenças não podem e não devem ser consideradas uma representação  da superioridade de um gênero sobre outro.

“A ideia de que o homem é superior à mulher no mundo do trabalho surgiu junto com a revolução industrial e a profunda transformação nos costumes e comportamentos que ela trouxe.

“Até o advento da indústria e da produção em escala de bens de consumo, as pessoas viviam em aldeias comunitárias, onde todos se conheciam e se cuidavam.  A vida podia ser difícil, mas os velhos não eram abandonados, as crianças sempre tinham teto e alimento, e os adultos trabalhavam para contribuir com uma riqueza comunitária. Cada um tinha o que necessitava. Os chefes tinham autoridade pela sabedoria e influência sobre as pessoas, não pelos bens acumulados.  Homens e mulheres possuíam tarefas diferentes, mas igualmente importantes para o equilíbrio da sociedade e para a continuidade da vida.

“A civilização industrial foi destruindo esse modo de vida comunitário em favor de um sistema baseado no individualismo, no acúmulo de riquezas e na supremacia da ciência sobre a natureza. Com isso, a ética do cuidado, tão relevante para a vida comunitária, e desde os primórdios associada à figura feminina, foi relegada ao segundo plano.

“O significado central da sustentabilidade é a preservação ou a melhoria das condições que dão suporte à continuidade das atividades humanas e principalmente da própria vida. É incompatível, portanto, com  padrões estabelecidos pela civilização da era industrial, de consumo desenfreado, de competição feroz, em que coisas e relações sociais viram mercadorias descartáveis, gerando desperdício, insignificância, indignidade.  Esses padrões são insustentáveis.

“Está ficando cada vez mais forte a consciência de que precisamos consumir menos, recuperar, reutilizar, reciclar, e quem faz isso “cuida” da vida, porque garante o equilíbrio entre sociedade e natureza.

“Nenhuma civilização passada fez tão pouco caso do “cuidar” como a atual, tão orgulhosa de seu progresso.

“O cuidado é uma ética que, ao estabelecer consensos sobre certo e errado, orientando a distribuição de tarefas em uma comunidade, ajudou a garantir a sobrevivência e o progresso da humanidade.

“O cuidado exige respeito pelo outro, pois seus desejos e demandas são tão legítimos quanto as de qualquer um de nós. O desdobramento desse respeito é a cooperação. Por meio dela, construímos uma sociedade mais equânime, em que todos têm possibilidades de suprir suas necessidades.

“A visão feminina do mundo  é o meio de expressão desse cuidado. O feminino faz lembrar que a vida é finita, que precisa ser acolhida, protegida e alimentada para poder florescer e dar frutos.  A vida precisa ser preservada. Se adoece, precisa ser tratada e curada. O feminino pede cooperação, em vez de competição, não é agressivo e, quando intervém na realidade, leva em consideração as consequências desse ato e isto é responsabilidade.

O feminino não é exclusividade das mulheres e hoje, é um imperativo.

“O ser humano, o meio ambiente, o planeta pedem cuidado e responsabilidade.  O cuidado não invalida outras éticas ou maneiras de ser e agir. Mas, a causa  maior a que todos devem se vincular é a salvaguarda e a preservação da vida.

“Uma das maneiras de tornar prevalecente na sociedade a ética do cuidado é valorizar o feminino e o que ele representa: maior afetividade nas relações. Com isso, vamos valorizar também a participação das mulheres em todos os campos da vida social. E combater a violência contra elas.

“Valorizar o feminino significa engajar homens e mulheres na construção de um novo padrão de civilização, com um novo modo de pensar e de se relacionar, mais igualitário, sem apego a hierarquias de dominação e controle, mais afeito à colaboração e parceria.

Qual o impacto na economia se o feminino for assumido como valor?

 ‘Em primeiro lugar, teremos um dilema a resolver: como reconhecer o trabalho materno e paterno de cuidado com as crianças? Nosso  modo de produção atual não está preparado e não tem condições de assimilar essa vertente. Precisamos inventar soluções que permitam aos planejadores da economia levar em conta que esse cuidado é “trabalho” e gera “riqueza” porque garante a formação dos cidadãos de amanhã que vão dar continuidade aos negócios privados e às políticas do Estado.

“O trabalho de proteção ao meio ambiente também precisa ser considerado, pois, sem a natureza e seus recursos, não existe possibilidade de o ser humano sobreviver nesse planeta.

“Outro aspecto importante no rumo de uma economia de parceria e colaboração é encontrar outra maneira de medir a produtividade. Hoje, diversas atividades nocivas ao  meio ambiente são contabilizadas no PIB como produtivas, enquanto que diversas outras atividades que contribuem para o bem estar da sociedade não são contabilizadas, como, por exemplo, o trabalho doméstico.  ainda realizado majoritariamente por mulheres.

“O que o PIB não contabiliza dificilmente vira política pública. Portanto, para que essa ética do cuidado, esse feminino que já perpassa invisível as nossas vidas, ganhe relevância na economia,  precisamos que as lideranças, masculinas e femininas  deem visibilidade a esse trabalho.

“Faz parte da responsabilidade dos homens favorecer, no ambiente de trabalho e na sociedade, o desenvolvimento desse “feminino” , incorporando-o em suas ações e criando condições para a valorização da mulher na empresa e na sociedade.

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Rio, a capital da bicicleta. Mas, não tinha que ser dos ciclistas?

Sem querer botar areia na festa de ninguém, não dá para deixar de comentar o prêmio que a cidade do Rio de Janeiro ganhou, de Capital da Bicicleta, segundo a ótima reportagem de Camila Nóbrega na revista Amanhã, do Globo que está nas bancas. A primeira coisa que me chamou a atenção foi justamente o instituto de pesquisa que deu o prêmio. O Transport Research Board fica nos Estados Unidos e, segundo o site da organização, dá prêmios em reconhecimento “ao excelente desempenho e serviços”. É uma proposta vaga demais, considerando o desempenho e os serviços que a cidade do Rio de Janeiro oferece aos ciclistas. E isso quem está dizendo não sou eu, mas os próprios usuários de bike, como se vê própria reportagem.

Se o prêmio for dado pela paisagem ou  pela beleza natural oferecidas aos ciclistas, ok. Está merecido. Mas isso não tem nada a ver com desempenho e serviços. A impressão que eu tenho é que a gestão municipal tem um excelente grupo de profissionais que se esmeram à cata de possibilidades para pôr o Rio de Janeiro na mídia e com boa imagem. Excelente mesmo, porque o resultado é muito bom, como se viu pelo prêmio. Salvo as críticas feitas pelo povo que realmente se aventura a pedalar pelas  ciclovias. E não é de hoje que essas críticas são feitas, como várias reportagens têm mostrado.

Bem, mas vamos deixar as críticas de lado, porque seria chover no molhado, e vamos tentar dar uma ajuda para a equipe da prefeitura que realmente está trabalhando em prol de manter um nível de coerência entre imagem e  realidade. É aí que me lembro de uma visita que fiz à cidade de Copenhague em outubro do ano passado, a convite do governo dinamarquês, para fazer reportagem, também para a revista Amanhã, sobre a cidade. Se você, meu caríssimo leitor, já está dizendo… “ora, não vale  comparar Copenhague com o Rio porque nós não temos o dinheiro, a organização e o tamanho dos países nórdicos”, eu replico: se a cidade quer ocupar um lugar de destaque no âmbito internacional, a ponto de buscar uma premiação do nível que recebeu, então está apta a comparações. E ponto.

Em Copenhague, portanto, estive conversando longamente, para uma entrevista, com Charlotte Korsgaard, uma espécie de secretária municipal de meio ambiente da cidade.  Na cidade de Copenhague, hoje, há 37% das pessoas que usam bicicleta em vez de carro e a meta, oficial, que a gestão municipal abraça seriamente, é alcançar 50% em 2025. Já que estamos no perigoso terreno das comparações, vale registrar que, segundo uma estimativa da ONG Transporte Vivo, o deslocamento por bicicletas hoje na Região Metropolitana do Rio alcança cerca de 5% do total, comparando com os outros meios de transporte. É pouco, mas está aumentando:  nos últimos oito anos, houve um aumento de 89%, ainda segundo a ONG.

Copenhague quer se tornar a “cidade dos ciclistas”. Só aí já vai uma grande diferença para o nome do prêmio que ganhamos:  “Capital da Bicicleta”. Lá, a real preocupação é investir em infraestrutura, ciclovias mais largas e seguras, para dar mais segurança a quem precisa usar a bicicleta. Posso exagerar um pouco? Não seria um olhar mais humano, menos coisificado, do que dar à capital o nome de… bicicleta? Pronto, acabou o “momento exagero”.

Vamos continuar a dar sugestões, já que o intuito aqui é ajudar.  Uma das iniciativas tomada pela administração municipal de Copenhague foi ampliar as ciclovias no horário de rush, diminuindo nesse período a largura das calçadas.  E saibam que, com todo esse movimento e cuidado, a última pesquisa feita com os usuários das ciclovias, em 2010, mostrou que somente três em cada dez ciclistas achavam que os estacionamentos para as bicicletas eram satisfatórios e que apenas cinco em cada dez estavam satisfeitos com a manutenção das ciclovias.  Adivinhem um item que foi mais apontado como negativo na pesquisa? O roubo das bicicletas. Outra coisa que incomoda:  pessoas que largam a bike de qualquer jeito nos bicicletários, a ponto de deixá-la cair sobre outras, causando estragos.

A meta mais ousada, para 2025, é que as ciclovias sejam tão seguras e planas que um ciclista possa pedalar com um copo de café numa das mãos sem deixar cair o líquido. Podem imaginar algo assim nas nossas ciclovias esburacadas e estreitas? Bem, mas lá eles não têm o Pão de Açúcar e o Corcovado para acompanhá-los na viagem. Tudo bem… mas continuo acreditando que é possível ter tanta beleza e uma organização maior.

Vejam como funciona, por lá, a parceria: o comitê encarregado de construir mais ciclovias fez parceria com várias lojas e empresas (não é uma corporação só, como aqui, que chega a confundir sua marca com a da prefeitura), prevendo a construção de caminhos curtos só para ciclistas, como pequenas pontes sobre a água e atalhos em áreas verdes. Haverá ainda uma rede nacional de estradas para quem anda de bicicleta, com sensores no asfalto que vão registrar o número de ciclistas e luzes que ajustarão o sinal de tráfego para que fiquem abertos quando houver um grande número de bicicletas esperando. Aliás, esta sinalização que mostra o número de ciclistas eu vi em Odense, cidade que fica a 164 quilômetros de Copenhague e é bem pequena (tem cerca de 185 mil moradores).

Copenhague está num período de expansão, de grandes obras, e nisso se assemelha bastante ao Rio. A primeira providência tomada pela equipe que cuida das ciclovias foi ampliá-las, alargá-las, no sentido de incentivar ainda mais as pessoas a largarem os carros em casa na hora de se deslocar.

Bem, mas tem uma questão que faz o Rio perder de longe para Copenhague e que não há como mudar, nem com uma administração muito focada. É o clima. Uma coisa é sair de casa com frio, mas com roupas adequadas, e pegar uma bike. Outra coisa é enfrentar o calor que estamos enfrentando agora, por exemplo, e pegar uma bicicleta. Não tem quem aguente. Logo, o Rio pode ser a Capital da Bicicleta de abril a setembro, no máximo outubro. Mesmo assim, nesses seis meses, vai ter veranico expulsando os ciclistas da rua.

Logo… é importante, sim, valorizar o uso das bicicletas por aqui, mas não vamos tirar de um outro foco, este muito mais abrangente, que envolve o pessoal que mora longe e precisa trabalhar cedinho: o transporte público. Sair da Penha ao Centro de bicicleta num dia de verão 40 graus, vamos combinar, é tarefa para Hércules. Mas, se tiver ônibus em quantidade suficiente e que possa levar as pessoas em condições dignas (leia-se, sem estarem amassadas num calor infernal), vai ser mais atraente do que pegar o carro. Fica a dica, fica a reflexão.

fotos da máquina 221Por último, vale comentar que em Copenhague tem outro tipo de veículo sobre duas rodas que se chama Segway e é bem interessante. Funciona a motor, tem que ter combustível, mas a força maior quem faz é o próprio corpo. Se não fosse tão caro, como bem me lembrou o editor do Carro e Etc Jason Vogel, poderia ser ótima ideia para substituir as bicicletas em dias muito quentes. Mas é caro, portanto, ficamos só na vontade. Na foto, estou  num  Segway fazendo uma espécie de city tour. Chovia muito, fazia muito frio, mas eu adorei andar naquela geringoncinha…

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Atitudes que podem ajudar

crescereviverO picadeiro do circo Crescer e Viver é hoje a casa de centenas de  crianças e jovens entre 7 e 24 anos que participam  dos diferentes projetos executados pela instituição.  Fica ali na Praça Onze, Cidade Nova, Centro do Rio de Janeiro.   A ideia da ONG é trabalhar com a democracia, com a diversidade cultural e com diversas referências de educação popular. As crianças são levadas a pensar sobre o contexto comunitário onde estão inseridas, a escola, a família. Segundo Vinícius Daumas, um dos coordenadores do Circo, a ideia é poder enfrentar, na lona do circo, desafios como os que se precisa enfrentar no cotidiano. E valorizar a vida humana enquanto patrimônio:

— O circo coloca o ser humano sempre superando seus desafios. São as metáforas da vida: a gente faz malabarismo para pagar as contas, volta e meia estamos na corda bamba. O circo nos coloca uma nova forma de ver o mundo, e é isso que passamos para as crianças. Todas têm que estar inseridas em escola pública, as que não estão nós nos encarregamos de encaminhar – disse ele.

O projeto quer  construir conhecimento, se colocar como um espaço também lúdico. As turmas de iniciação são abertas para crianças que estão fazendo o primeiro contato com malabares, contorção, perna de pau. As oficinas de aprimoramento já têm o desafio de risco e passam a ser até monitores.

Bem, ocorre que a lona do circo já está gasta e precisa ser  trocada. Para isso é preciso R$ 85 mil que o pessoal da ONG pretende angariar num sistema de financiamento colaborativo. Quem quiser participar ou saber mais, é só acessar o http://bit.ly/crescerevivernobenfeitoria.

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Como se sabe, as araras azuis, aquelas aves simpáticas que já foram até fonte de inspiração para filmes, estão em extinção, desapareceram da natureza há cerca de dez anos, justamente por serem bonitas. É que o ser humano não suporta deixar seres tão bonitos soltos na natureza. Precisa aprisionar, precisa matar para arrancar-lhes as penas. Enfim… Mas, felizmente, alguma coisa vai ser feita, pelo menos para tentar salvar essa espécie.ararinha

Na terça-feira dia 26 chegaram a São Paulo, vindas da Alemanha onde foram criadas em cativeiro, duas ararinhas azuis (a foto mostra uma delas no momento do desembarque no Aeroporto). Elas serão levadas para quarentena e depois vão se juntar a outras que estão em cativeiro para começarem a se reproduzir. Tudo obedecendo as normas do Ministério de Agricultura, acompanhado pelo ICMBio, que que coordena o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul (PAN), e pela Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE-Brasil). “O objetivo é ter indivíduos suficientes em cativeiro para efetuar a reintrodução em seu habitat natural daqui a alguns anos”, explica Camile Lugarini, coordenadora do PAN. A Vale  é parceira da iniciativa.

Vida longa para as ararinhas. Que fiquem livres das garras do maior predador, o ser humano.

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Já não é de hoje que se aprimoram os requisitos para se construir de maneira sustentável. Isso quer dizer: utilizando material que possa ser reciclado, fazendo prédios que possam usar mais a luz do dia e gastar menos energia, com sistema de água eficiente etc. Não é nada que vá salvar definitivamente o planeta do aquecimento global, é bom que se diga. Mas é, com certeza, um jeito mais consciente de se construir, o que deixa a vida da gente melhor.

Tem uma empresa, a SustentaX, que se especializou em ajudar construtoras a mitigarem os riscos de seus negócios, levando em conta que a construção civil é um dos setores que mais impactam o meio ambiente, sobretudo por causa do cimento. Mas é, também, um setor que gera muito emprego e, afinal, bastante necessário num mundo em que cada vez mais pessoas querem morar em cidades.

Levando em conta tudo isso, a SustentaX decidiu dar prêmios para construtoras que se enquadrem nas medidas  certas para construções ditas sustentáveis. É tipo assim:  não só as ações ambientais nas obras, mas também questões relativas à qualidade e segurança, combate ao desperdício, medidas para aumento de produtividade e seleção de fornecedores socioambientalmente responsáveis, entre outros.

O prêmio já foi realizado dois anos, está no terceiro. Para Guillermo Guirao, que preside a iniciativa, distinguir as mais sustentáveis entre as 100 maiores construtoras é importante também para disseminar as boas práticas de gestão e de campo para toda a cadeia construtiva. “Será um guia também para os investidores, financiadores e também para os que procuram imóveis”, afirma.

Em 2012, as mais sustentáveis foram Ladeira Miranda, no nível Platina (por ter cumprido 89% dos itens analisados, nas categorias Residencial e Comercial)  e Rio Verde, no nível Ouro, com 71% dos itens de acordo, na categoria Industrial.

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Mais uma na área ambiental:  a Alcoa plantou 55.775 árvores nas localidades em que atua na América Latina e Caribe em 2012.  A iniciativa integra o programa Dez Milhões de Árvores, que foi lançado pela Alcoa Inc. no Dia Mundial do Meio Ambiente em 2003. O objetivo da ação é plantar dez milhões de mudas até 2020, o que equivale à absorção de 250.000 toneladas métricas de dióxido de carbono. Para o Brasil, a meta a ser alcançada é de 2.534.000 mudas.  Não é nada, não é nada… tem mesmo é que pôr vigias para que essa quantidade de mudas não seja abandonada e morra sem cuidados.

 

 

 

 

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Ainda há 21 milhões de escravos na nossa era. E então, o que fazer?

A notícia:  o escritório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) no Brasil assinou anteontem um Memorando de Entendimento com a Secretaria de Trabalho e Assistência Social do Estado de Tocantins, que será o próximo a ter sua própria Agenda de Trabalho Decente. Entende-se por Trabalho Decente, segundo cartilha que será distribuída a todos os trabalhadores do estado, como um trabalho “adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna”. (A foto é da ONG Cáritas Brasileira, cedida pela OIT. Pessoas libertadas em carvoarias).escravos_carvoaria_600x235

Outra notícia: o governo federal divulgou, em dezembro do ano passado, a atualização semestral da lista suja do trabalho escravo. Trata-se de uma lista de empresas que mantém em seus domínios pessoas em regime análogo à escravidão.  A atual versão traz 56 empresas que não estavam na versão anterior, de julho de 2012. Por outro lado,  31 empregadores conseguiram retirar seus nomes da lista, quer seja pagando multa, quer seja cumprindo várias obrigações.  O saldo são 410 empregadores que, atualmente, descumprem aquilo que se entende por trabalho decente.  A lista inteira pode ser vista no site da ONG Repórter Brasil.

Mais uma notícia:  no ano passado, a empresa de roupas Zara, que pertence ao Grupo Inditex, foi suspensa do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.  Em 2011, a Zara  havia sido denunciada por manter na sua cadeia produtiva oficinas que tinham pessoas trabalhando  muito mais do que deveriam e ganhando muito menos do que seria legal. Depois de dizer que não tinha nada a ver com o ocorrido, já que o problema tinha acontecido num de seus fornecedores, a Zara foi cobrada pela sociedade civil e tomou algumas providências, entre elas a assinatura no Pacto. Mas agora declarou que acha a tal lista suja inconstitucional e foi expulsa.  O Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, lançado em 2005, reúne empresas brasileiras e multinacionais que assumiram o compromisso de não negociar com quem explora o trabalho escravo. A gestão do Pacto é realizada pelo Comitê de Coordenação e Monitoramento composto pelo Instituto Ethos, o Instituto Observatório Social (IOS), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a ONG Repórter Brasil.

Não param aí as notícias sobre trabalho degradante, análogo à escravidão, forçado ou qualquer outro nome que se queira dar ao crime.  São cerca de 21 milhões de pessoas, segundo estimativa recente da OIT, que ainda hoje trabalham em péssimas condições em todo o mundo.  Aqui no Brasil, o estado atua timidamente, como se vê na primeira notícia. As organizações não governamentais ajudam . A criação da tal lista suja de empregadores, divulgada pelo governo federal, é disponibilizada também no site da ONG Repórter Brasil que, em parceria com a OIT e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social , desenvolveu um sistema de busca aos dados que são sempre atualizados.

Mas, com tudo isso, sobram pessoas submetendo outras pessoas a situações degradantes. Quando acontece de envolver uma empresa muito conhecida, como no caso da Zara, a movimentação é grande. A mídia se interessa, as redes sociais julgam e a imagem da infratora fica chamuscada. Ato seguinte, a empresa trata de pôr em marcha toda sua estratégia para apagar o incêndio, e quase sempre consegue.

Um caso emblemático é o da reportagem na revista “Life” de 1996, que mostrou a imagem de um garoto de 12 anos costurando uma bola de futebol da Nike numa oficina asiática. Para fazer este trabalho ele ganhava  0,6 centavos de dólar por hora. Não tão rapidamente quanto acontece agora (porque não havia redes sociais na época), o mundo ficou sabendo disso. E a Nike teve que investir seriamente em programas para desfazer  a mancha que ficou em sua marca. Não é nada, não é nada, alguns dólares foram gastos para isso. Portanto, manter trabalho escravo na sua cadeia produtiva dá prejuízo não só à imagem mas também aos cofres da empresa.

Seja como for, a onda vem e vai embora. O que fica é uma questão antiga, debatida por alguns bons autores.  Os portugueses começaram  o comércio de escravos negros no século XVI e as outras nações da Europa cristã seguiram o exemplo rapidamente, como conta Leo Huberman em “História da Riqueza do Homem” (Editora Guanabara). O primeiro escravo negro levado para os Estados Unidos chegou num navio holandês em 1619 e John Hawkins foi o primeiro inglês a ter a ideia de capturar africanos para vendê-los como matéria-prima para o Novo Mundo. A partir daí, seguem-se as atrocidades que conhecemos hoje mas que, na época, eram defendidas  por muitos que consideravam este comércio importante para o desenvolvimento do mundo, um suprimento de capital que chegou a encher os olhos da Rainha Elisabeth, que deu até um navio para Hawkins. O navio recebeu o nome de Jesus.

À filósofa e pensadora política  Hannah Arendt afetava especificamente  a “surpreendente ausência de rebeliões sérias por parte dos escravos antigos e modernos”, como escreveu em “A Condição Humana”, ensaio publicado em 1958.

“O fator decisivo é que as rebeliões e revoluções  (trabalhistas) modernas sempre reclamaram liberdade e justiça para todos, ao passo que, na Antiguidade, os escravos jamais reivindicaram a liberdade como direito inalienável de todos os homens, e nunca houve tentativa de abolir a escravidão como tal por meio de ação conjunta.”

Portanto os trabalhadores, desde que em condições físicas e morais para isso,  desempenharam um movimento extremamente produtivo na política moderna, assegura a pensadora. Outro autor, Eric Hobsbawm, em “Os Trabalhadores” lembra que “em certos momentos corpos tais como os Internacionais da classe trabalhadora conseguiram até imprimir um selo comum em explosões simultâneas em diferentes países”.

O poder de abolir a escravidão vem de outras mãos, acredita Alexis de Tocqueville, um cientista político da primeira metade do século XIX que estudou especificamente o tema, no que resultou o livro “A emancipação dos escravos”. “Acabamos de assistir a algo absolutamente  inédito na história, pois a escravidão é abolida não pelo esforço desesperado dos escravos, mas pela vontade esclarecida do senhor… de uma vez por todas”. O francês Tocqueville pontuou em seu ensaio várias respostas a questões colocadas na época pelos contrários à abolição dos escravos. E concluiu: “Um milhão de homens romperam seus grilhões num único dia, sem que se tenha vertido uma gota de sangue… A Inglaterra continua exportando para as suas colônias exatamente a mesma quantidade de mercadorias… A produção do açúcar não caiu pela metade, ela apenas diminuiu um terço e as colônias inglesas não estão cada vez mais arruinadas.”

Como se percebe diante das respostas de Tocqueville, a questão econômica falava mais alto. A força de trabalho escrava era considerada uma fonte de riqueza. Huberman descreve em seu livro uma petição encaminhada à Câmara dos Comuns pelos comerciantes de Liverpool em 1788: “Os suplicantes veem com real preocupação as tentativas que estão sendo feitas atualmente para obter a abolição total do comércio de escravos da África, que há muitos anos vem constituindo e ainda continua a formar um ramo bem grande do comércio de Liverpool…. Os suplicantes pedem humildemente que sejam ouvidos… contra a abolição dessa fonte de riqueza”.

Mão de obra sendo explorada num ambiente físico miserável … não há muita diferença para alguns dos cenários que se vê reproduzidos  nas reportagens que acompanham os fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego sobretudo em fazendas que vão parar na lista suja nos dias atuais.  Como também muita gente já ouviu falar nas péssimas condições das fábricas chinesas cujas operárias, a maioria mulheres, ajudam a fabricar as traquitanas eletrônicas que nos auxiliam a estar conectados.

A maioria das fazendas brasileiras que estão na lista suja é do setor pecuário. Mas tem também construção civil, siderurgias…  A descrição dos que conseguem ser liberados  da vida  de escravo é quase sempre a mesma: um homem (chamado de gato) aborda o trabalhador, oferece emprego com casa e comida, mas a realidade é outra. A casa é uma pocilga (muitas vezes literalmente ao lado de porcos) e a comida precisa ser comprada em pequenas vendas que pertencem aos donos das fazendas. Como o preço da comida é absurdo, o trabalhador  vai se endividando até o momento de não ter mais como pagar. Torna-se então um escravo daquela dívida e de lá não pode mais sair, sob pena de ser morto.

Logo, o que torna as pessoas escravizáveis é estar à margem do sistema financeiro.  Foi assim no passado, é assim hoje. A diferença para melhor dos nossos tempos é que não se escalpelam mais aqueles que não querem se deixar escravizar, como acontecia no passado segundo José Damião de Lima Trindade conta em “História social dos direitos humanos”.

Se o estado já atua em várias frentes, se a sociedade civil se organiza em pactos e divulga os nomes dos infratores, o que resta a fazer, se não é possível pensar em igualdade social num futuro próximo, é manter os vulneráveis bem informados.  Para isso a OIT fez a cartilha que será distribuída em Tocantins e em outros lugares.  É pouco para o tamanho do problema, mas é melhor do que nada.

E gosto sempre de lembrar que nem sempre instituir é a solução.  Afinal, o humano é um ser singular e, mesmo em condições precárias, isso deve ser levado em conta. Lembro-me bem que, quando entrevistei a equipe do Instituto Carvão Cidadão (uma iniciativa de siderúrgicas do Pará que não deve ter ido à frente, já que não existe mais o endereço do site na internet), fiquei impressionada com a descrição que me fizeram do trabalhador vulnerável à escravidão: uma pessoa nômade, analfabeta, sem endereço fixo, sem família, que trabalha por um prato de comida e que não vê futuro à frente.

Conclusão?  Deixo por conta de vocês, leitores…

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