Câmara dos Deputados pode decidir por Acordo que torna mais barato o custo do ar-condicionado

Kigali é a capital de Ruanda, pequeno país africano com cerca de 12 milhões de habitantes, sem costa marítima.  No relatório 2020 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Ruanda ganhou uma classificação de baixo desenvolvimento humano – ficou em 160º lugar.  A nação teve um importante papel na epidemia, contendo o vírus com ações severas de isolamento social desde o início.

Em 2016, Kigali foi sede de uma reunião, convocada pela ONU, que resultou no compromisso, assinado por 193 países, de reduzir o uso do gás hidrofluorcarbonetos (HFC), que causa mais danos à atmosfera do que o CO2. Assinado em outubro de 2016, o tratado passou a se chamar Acordo de Kigali, e propõe que o emprego de HFC, usado como fluido em equipamentos como geladeiras, freezers e aparelhos de ar-condicionado, seja reduzido entre 80% e 85% até meados do século.

Acordo feito, acordo apenas cumprido parcialmente, como sói acontecer nas questões climáticas. Até 2019, ou seja, três anos depois de terem firmado o compromisso, somente os países desenvolvidos tinham tomado providências para diminuir o uso de HFC. Com a entrada do negacionista Donald Trump em cena, até mesmo Estados Unidos, que chegou a assinar o Acordo de Kigali, não se movimentou neste sentido.

Mas, aparentemente, as coisas estão começando a mudar. Quando tomou posse, o novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assumiu, no discurso oficial, o compromisso de pôr seu país novamente à mesa das negociações para conter o aquecimento. E conclamou a parceria com outros países que tentam reverter as mudanças do clima para não se chegar ao fim do século com um aquecimento maior do que 1.5 a 2 graus.

Uma das primeiras providências de Biden foi colocar os Estados Unidos novamente no Acordo de Paris, conseguido a duras penas em 2015 justamente com esse objetivo. E um pouco depois, no dia 21 de janeiro, Biden deu ordens para que sua equipe recupere o papel dos Estados Unidos no Acordo de Kigali, até agora ratificado por 112 nações.

Nos países que já ratificaram o compromisso de Kigali – como Japão, Coreia do Sul, União Europeia, Austrália, Canadá, Reino Unido – estão algumas sedes das maiores empresas de refrigeração do planeta. Há também parceiros comerciais do Brasil entre os signatários, como Chile, Uruguai e Paraguai.

 Para adicionar uma informação, aqui faço um parêntese: o primeiro país que assinou a ratificação do Acordo de Kigali foi Marshall, uma das nações-ilha do Pacífico. Trata-se do lugar mais ameaçado do planeta pelos eventos extremos causados pelas mudanças climáticas.  Seus 62 mil habitantes já tiveram que conviver com o terror das bombas nucleares norte-americanas, pois os Estados Unidos fizeram do local uma espécie de laboratório para testar suas armas nucleares. Hoje os marshalleses ainda não estão livres desse pesadelo, já que há riscos de vazamento radioativo com a subida do nível do mar. E seu território pode desaparecer do Pacífico se a pequena faixa de terra que habitam for cada vez mais submersa pelo mar. Fecha o parêntese.

É óbvio que a atitude de Joe Biden, trazendo o resgate da agenda de mudanças climáticas no debate internacional, está sendo comemorada. Com a volta da nação mais poderosa às negociações, será possível a países como as Ilhas Marshall sonharem com subsídios para poderem enfrentar seu maior inimigo atual, a elevação do nível do mar. E o Acordo de Kigali está intrinsecamente ligado a essa questão.

Na esteira do resgate de Joe Biden, outros chefes de estado podem estar se mexendo para voltar a dar importância às negociações climáticas. É dessa forma que está voltando à cena o Acordo de Kigali, que aqui no Brasil está há um ano na pasta de projetos a serem analisados pelos deputados em Brasília.

Está nas mãos do presidente da Câmara, deputado Artur Lira, portanto, botar em votação a ratificação do Acordo de Kigali. Entre outras coisas, isso poderá liberar US$ 100 milhões – parte dos recursos do Fundo Multilateral para Implementação do Protocolo de Montreal para o período de 2021-2023 – destinados à adaptação de processos produtivos em favor de sistemas de refrigeração com uso reduzido de gases HFCs.  Esse dinheiro, que será tomado como empréstimo a fundo perdido, pode ser utilizado pela indústria para adaptar os aparelhos de ar-condicionado, o que também contribuirá para reduzir o consumo de energia. Um esquema win-win.

A nova tecnologia já está sendo usada na China, Estados Unidos e Inglaterra. Se ratificado o Acordo pelo Brasil, e se a indústria brasileira tiver acesso a esse dinheiro, é possível que o país possa dar alguns passos em direção a uma sinalização positiva aos investidores sobre seu compromisso com a economia de baixo carbono. Vamos combinar que estamos precisando disso.

Um detalhe também relevante: segundo um estudo feito pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS), em cooperação técnica com o Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL), aparelhos de ar condicionado mais eficientes produziriam um impacto de R$ 57 bilhões na economia nacional até 2035. Desse total, R$ 30 bilhões deixariam de ser gastos pelo governo na geração de energia elétrica. Outros R$ 27 bilhões seriam economizados pelos consumidores na conta de luz.

A ratificação da Emenda de Kigali – um acréscimo ao Protocolo de Montreal – já passou por todas as comissões da Câmara dos Deputados. Fica a torcida para que o  presidente da Casa perceba a importância do gesto. Que, como é obvio, não poderá vir sozinho. É preciso que o Brasil volte a ser protagonista na história do clima, como já foi.

Para conscientizar a população algumas entidades formaram a Rede Kigali, que lançou a campanha “Se liga na conta do ar-condicionado: bom para o seu bolso, bom para o planeta”.

Uma vista de Kigali, cidade sede do Acordo feito em 2016
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A entrevista com Chomsky na íntegra

Por falta de espaço, a entrevista que fiz com o pensador Noam Chomsky e que foi publicada na revista Época que está nas bancas, saiu sem a resenha do livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” (Ed. Roça Nova), mote da entrevista. É natural, coisas do jornalismo impresso.

Mas, como tenho este espaço virtual, vou compartilhar com vocês, recomendando muito o livro, que é excelente, cheio de dados incríveis, e que deve interessar muito, sobretudo quem se interessa pelo tema.

A foto de capa do livro é de divulgação da editora, e a foto de Chomsky foi gentilmente cedida pelo fotógrafo Leo Canabarro.

Abaixo, então, a resenha do livro e a entrevista na íntegra.

Conversa entre amigos sobre o clima

Resenha: “Crise Climática e o Green New Deal Global” (Ed. Roça Nova, 219 páginas, 2020).

                                                                      Amelia Gonzalez

“Crise Climática e o Green New Deal Global”, que a Editora Roça Nova acaba de lançar, é um livro fácil de ler, no formato de perguntas e respostas, e cheio de informações relevantes. O cientista político C. J. Polychroniou foi feliz ao reunir, para uma conversa virtual, como exige essa nossa era pandêmica, o principal intelectual público do mundo Noam Chomsky, ativista político e ambiental e Robert Pollin, economista progressista que tem atuado como líder em defesa de uma economia verde e igualitária, para compartilhar suas reflexões sobre essa era e os desafios que temos que enfrentar. As reflexões dos dois, imprescindíveis na agenda do mundo pós-pandemia, são o sumo do livro.

Chomsky costura o pensamento social, alinhava a forma como os líderes e as grandes empresas enfrentam o desafio de tentar baixar a zero as emissões de carbono até 2050 (proposta assinada pelos líderes no Acordo de Paris). Expõe a falta de responsabilidade com o que chama de “catástrofe ambiental” e localiza o fim da II Guerra como o ponto de inflexão para “uma segunda ameaça à nossa sobrevivência”.

 Robert Pollin se encarrega de traçar o cenário com informações mais técnicas, em detalhes. O economista se permite um traço de incerteza com relação ao conjunto de consequências que enfrentaremos caso a média de temperatura global suba mais que 1,5º C  até o fim do século, o que não quer dizer rechaçar os efeitos das mudanças climáticas ou negá-los. É que, segundo ele, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) “tem um histórico de mudar regularmente suas avaliações”.

“Está bem claro que existe um nível de incerteza com relação ao conjunto de consequências que enfrentaremos caso permitamos que a média de temperatura global suba mais que 1,5oC ou mesmo 2 graus em relação aos níveis pré-industriais (…) Em resumo, temos informações mais que suficientes  para tomar atitudes decisivas agora mesmo, sem deixar de reconhecer o grau de incerteza à nossa frente (…) Não é o equivalente a decidir se compraremos um seguro para o carro, mas a determinar quanto gastaremos e qual será nossa cobertura”, escreve Pollin.

Enquanto escreviam o livro, aconteceu a pandemia de Covid-19 e os dois autores foram obrigados ao isolamento social.  Refletiram assim, para nosso proveito, sobre as intersecções entre a crise climática e o alastramento do Corona vírus. A destruição dos habitats naturais como consequência do desmatamento e dos avanços das atividades humanas, as ondas de calor, secas e enchentes facilitam o contato próximo das espécies selvagens com os humanos… “e permitem que os micróbios que vivem em seus corpos migrem para os nossos, transformando micróbios animais benignos em mortíferos patógenos humanos”.

Como consequência, estamos obrigados a rever nossos hábitos para compor com a necessidade de progresso e não sermos lesados. A tarefa é árdua, e nem todos conseguem percebê-la com a urgência que se faz necessária. Apenas 25% dos republicanos, lembra Chomsky, ou 36% dos millenials mais bem informados, reconhecem que os humanos são responsáveis pelo aquecimento global. O filósofo se inquieta com esses dados e faz a pergunta que ronda há tempos as reflexões dos ambientalistas: afinal, por que a população vira o rosto e não reconhece a crise climática, se o que o que está em jogo é a sobrevivência da vida humana?

“O aquecimento global parece algo abstrato. Quem entende a gravidade da diferença entre 1,5º e 2º C, em comparação à diferença de colocar ou não comida na mesa de seus filhos no dia de amanhã? “

Chomsky traz a resposta.  A precarização do trabalho, a supressão dos sindicatos, em parte porque os líderes optaram pelo “corporativismo”, teve papel relevante no distanciamento dos trabalhadores da causa ambiental. Os anos de “globalização neoliberal’ serviram para sepultar a preocupação e o respeito com o meio ambiente. A meta a ser perseguida é usar “a militância trabalhista como força motriz dos movimentos ambientalistas”, afirma Chomsky. Para ele, não é um sonho ingênuo.

Já para Roberto Pollin, o Green New Deal, plataforma escrita por parlamentares norte-americanos com propostas econômicas para ajudar a combater a crise climática e social é um projeto realista e sustentável para baixar as emissões, conter o aquecimento global, gerar emprego e renda. Mesmo com alguns desafios técnicos a serem superados.

“Envolve questões como a extensão de terra necessária para a infraestrutura de painéis solares e turbinas eólicas a fim de satisfazer a demanda energética e outros problemas correlatos, como a intermitência, transmissão e armazenamento de energia”, escreve Pollin.

De qualquer maneira, garante o economista, esse será um desafio que só deverá ser enfrentado daqui a muitos anos, provavelmente não na próxima década. É que vai ser difícil reduzir o consumo de combustíveis fósseis e energia nuclear, que hoje respondem por 85% do fornecimento total de energia.

Como numa boa conversa entre amigos, o livro vai levando o leitor a refletir junto, sem temer opiniões contrárias ou diferentes. Pelo contrário, é daí que se vai extrair matéria prima para enfrentar o desafio da nossa era.

ENTREVISTA/

Noam Chomsky: ‘Gostem ou não, estamos juntos nessa crise climática’

                                                                       Amelia Gonzalez

Aos 93 anos recém completados, o linguista, sociólogo, filósofo e cientista cognitivo Noam Chomsky ainda está pleno em sua capacidade de se indignar e de apontar responsáveis pela crise climática. Nessa entrevista exclusiva, Chomsky não hesita em culpar o sistema neoliberal como responsável pela destruição ambiental do planeta. E alerta: não vamos conseguir soluções se não pensarmos de forma solidária, como uma grande comunidade global. 

O encontro de líderes e empresários que estiveram reunidos no World Economic Fórum, na cidade suíça de Davos, de 21 a 24 de janeiro deste ano, foi chamado de “The Great Reset”, que em tradução literal quer dizer “O Grande Reinício”. Por causa da pandemia, as mudanças climáticas estiveram no centro das conversas. O que o senhor espera dessa reunião? Podemos ter esperança de ações que resultem em políticas que levem pessoas (não o lucro) em conta?

Noam Chomsky – O aquecimento global é uma ameaça existencial. Se a crise não for superada logo, nada mais importa. Há medidas possíveis – as quais, na verdade, resultariam num mundo não somente bom para a humanidade, mas muito melhor do que ele é hoje. No entanto, só saber disso não é suficiente. As medidas têm que ser implementadas. Há ações encorajadoras em alguns lugares, mas elas precisam ser amplamente expandidas.

Há um grande esforço acontecendo agora para moldar a sociedade pós-pandêmica. O World Economic Forum pode ajudar a inclinar a balança no sentido de uma ordem social que se guie pelas necessidades humanas, não pelo lucro e poder para poucos.

Elon Musk, dono de uma montadora de carros elétricos, que investe também em tecnologia para energias limpas, foi considerado o segundo homem mais rico do mundo. Neste caso específico, a economia verde colaborou para o enriquecimento de um cidadão, não para a saúde de todos, já que ainda não há provas de que o uso de carros elétricos contribuiu para diminuir a poluição, segundo Robert Pollin fala em seu livro. Há um paradoxo nisso?

Noam Chomsky – Numa ordem social capitalista, não é um paradoxo. Mais do que isso, esta é a essência do capitalismo. Isso já foi delineado claramente por Adam Smith no seu clássico “Riqueza das Nações”. Como ele explicou, os “poderosos da humanidade” – no seu tempo, eram os comerciantes e os donos de fábricas da Inglaterra – são “os principais arquitetos da política”. Ainda segundo Smith, eles vão sempre assegurar que seus próprios interesses sejam atendidos, “sem se importar com os impactos disso sobre o povo da Inglaterra, perseguindo apenas sua máxima vil: ‘Tudo para nós, nada para mais ninguém’”.

Esse legado herdado do capitalismo pode ser inibido pela força popular. Mas, sem ela, ele vai permanecer.

Joe Biden venceu as eleições para a presidência dos Estados Unidos, eliminando da disputa o negacionista do clima Donald Trump. É motivo de comemoração para a causa ambientalista?

Noam Chomsky – É motivo para se ficar aliviado, não para celebração.

Sem a maldade de Trump no mundo – pelo menos temporariamente – ficamos com algum espaço para enfrentar a ameaça da catástrofe ambiental. Trump estava dedicado a acelerar a corrida para o abismo e, se ficasse no poder por mais quatro anos, eles nos conduziriam para bem perto de um ponto de ruptura.  Talvez, até mesmo, para além desse ponto.

Nunca houve tamanha perversidade na história humana. São palavras fortes, mas verdadeiras.

Teremos motivos para celebrar se Biden for capaz de dar os passos necessários para evitar o desastre. Isto vai requerer uma enorme pressão pública. Graças, principalmente, aos esforços corajosos de jovens ativistas, Biden apresentou um programa ambiental que é muito melhor do que o de qualquer de seus predecessores, embora ainda longe de ser suficiente.

Lamentavelmente, porém, é provável que o Partido Republicano continue no caminho que tem trilhado nos últimos anos, sobretudo sob a liderança de Mitch McConnell: quando eles não estão no poder, tentam fazer de tudo para que a administração falhe, sem se importarem se isto será cruel com a população. Quando estão no poder, servem primeiro ao seu principal eleitorado, os “poderosos da humanidade”.

As empresas têm sido convocadas a agir de maneira responsável, sócio e ambientalmente, desde a década de 60. Hoje o conceito ESG (Environmental, Social e Governance) tem tomado as discussões empresariais. Alguns chamam de retórica inútil. Como o senhor vê o papel das empresas na construção de um mundo melhor e mais igualitário?

Noam Chomsky – Na década de 1950, nós estávamos certos de que as empresas haviam entendido sua responsabilidade social e estavam se tornando “corporações com alma”. Mas comprovamos a “real generosidade” delas, particularmente quando começaram a ganhar enorme controle político sob o regime neoliberal dos últimos quarenta anos.

Adam Smith teve um olhar certeiro.

O guru econômico da era neoliberal, Milton Friedman, foi admiravelmente franco sobre isso. Friedman argumentou que as corporações não têm que ser responsáveis com a sociedade. Sua única responsabilidade, afirmou ele, é enriquecer os acionistas – que já estão muito ricos – e, naturalmente, enriquecer a si próprias. Em resumo, elas devem seguir, literalmente, a “vilania de Smith”.

Os patrões executaram a tarefa de maneira muito eficiente. Um estudo recente, de alto nível, estimou que houve uma transferência de riqueza, de 90% da camada mais pobre da população aos mais ricos, de cerca de US$ 50 trilhões. Os que receberam esse valor estão concentrados na camada dos super ricos. Ou seja; 0,1% da população aumentou em 20% do total sua participação na riqueza desde que os princípios de Friedman foram impostos, há 40 anos, sob a bandeira da “liberdade”.

Poucos anos atrás, o sistema corporativo começou a enfrentar o que chamou de “riscos de reputação”. Como se diz comumente, os camponeses estão chegando com suas forquilhas, o que pode começar uma luta de classes incessante, a partir do capital.

Passamos, então, a ouvir líderes corporativos reconhecerem erros cometidos em suas gestões e afirmarem sua intenção de transformar suas empresas para que elas se tornem “corporações com alma”, devotadas apenas ao bem estar da população. Dessa forma, os camponeses podem botar de lado suas forquilhas e empenhar sua esperança nos líderes corporativos humanos e generosos.

Acredite nisso por sua conta e risco.

No livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” (resenha abaixo), o senhor diz que o resgate do movimento sindical é tarefa essencial, inclusive por causa da crise climática, e lembra que um dos primeiros ecologistas foi um líder sindical, Tony Mazzocchi. Qual a importância de se trazer os trabalhadores para engrossar as fileiras do ativismo ambiental?

Noam Chomsky – Usar a palavra “importância” é um eufemismo. Em vez disso, eu digo que é essencial. O movimento trabalhista tem sido vanguarda, tanto na mudança social progressista, quanto na transformação social. Os poderosos, e aqueles que cumprem suas ordens, sabem disso muito bem.  Quando Reagan (presidente Ronald Reagan) e Thatcher (primeira-ministra da Inglaterra Margareth Thatcher) lançaram o ataque neoliberal sobre a população, seus primeiros atos foram no sentido de atacar os sindicatos. Para que o ataque tivesse sucesso, foi necessário destruir os meios primários que os trabalhadores usam para se defender e para defender a sociedade. Era isso que Mazzocchi estava fazendo. Foi isto também que os trabalhadores militantes fizeram quando eles atacaram o New Deal nos anos 1930, e em outras numerosas ocasiões. Os poderosos e seus agentes sabiam o que eles estavam fazendo.

Hoje, muitos dos mais respeitados economistas dizem que a destruição dos sindicatos é o principal fator que originou esta imensa desigualdade social criada nos últimos quarenta anos. Recentemente, isso foi dito até mesmo por Lawrence Summers (secretário do Tesouro dos Estados Unidos no governo de Bill Clinton).  

A desigualdade social global parece não perder força. De que maneira se pode juntar as duas lutas: contra a desigualdade e contra as mudanças climáticas?

Noam Chomsky – Definitivamente. O capitalismo descontrolado, quase por definição, produz duas crises: aumento da desigualdade e a destruição do meio ambiente. Não somente por causa de sua dinâmica operacional, mas também porque o aumento do poder econômico permite aos poderosos da economia que minem a democracia. Cada vez eles ficam mais poderosos e já se tornaram “os principais arquitetos da política” nos governos, usando o poder do estado a favor de seus próprios interesses. Levamos 250 anos de experiência para comprovarmos que Adam Smith estava certo. Extirpar as raízes dessas duas crises – uma destrutiva, a outra letal – é a tarefa do movimento para criar um futuro para o bem comum.

A jovem sueca Greta Thunberg arregimenta jovens do mundo todo na luta contra as mudanças climáticas. O “Extinction Rebellion” é outro movimento que também consegue atrair jovens nessa direção. O senhor vê diferença entre esses dois movimentos?

Noam Chomsky – É inspirador o que os jovens vêm fazendo, e suas ações deixam uma lição cruel. Quando Greta Thunberg se dirige a nós dizendo “Vocês nos traíram”, ela está certa. E nós deveríamos ouvi-la.

É vergonhoso que gerações mais velhas tenham tolerado este caminho para o colapso social e o suicídio das espécies, de fato até estimulando isto. É vergonhoso que os jovens tenham que liderar um movimento para superar os danos severos que nós causamos.

É importante frisar aqui: não se deve dizer “nós”. Não são os “humanos” que têm causado tantos horrores na era do Antropoceno. Os impactos devastadores têm sido causados, em sua esmagadora maioria, por algumas sociedades, não por todas as sociedade. E pela riqueza e privilégios dentro dessas sociedades, trabalhando dentro de estruturas institucionais com características profundamente perversas. Tais estruturas não foram implantadas pela grande massa da humanidade, ao contrário disso. Frequentemente houve objeções fortes e resistência superadas pela concentração de poder.

Nada disso deveria ser esquecido enquanto trabalhamos para criar um futuro melhor.

Os indígenas são apontados como os povos que mais ajudam a preservar terras, rios e mares. No entanto, são povos que não têm assento nas grandes decisões mundiais sobre o clima. Por quê?

Noam Chomsky – A isso se chama “poder”. Em todo o mundo, populações indígenas que têm sido submetidas a uma “injustiça selvagem” por parte dos europeus, estão na linha de frente dos esforços para salvar o planeta. Os que perpetraram essa violenta injustiça, que causou um extermínio colossal e expulsou-os violentamente de suas terras, agora falham em seguir seu exemplo. E, em alguns lugares, como por exemplo o Brasil de hoje, o poder concentrado está, literalmente, causando sua extinção.

O livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” destaca o Green New Deal, formato que pode estar entre as soluções para salvar o planeta. Kate Raworth, a economista britânica, sugere uma economia Donut, em que ninguém seria deixado de fora. Podemos imaginar que cada país, cada região, vai encontrar seu próprio modo para lidar com a crise climática?

Noam Chomsky – Regiões, e mesmo indivíduos, podem e deveriam encontrar seu próprio caminho para um futuro melhor. Mas os problemas são internacionais. Eles não têm fronteiras. Somente através de uma solidariedade internacional podemos pensar em ter alguma esperança de superar as crises que nos confrontam hoje e, assim, poderemos nos mover para um futuro melhor.

O que o senhor acha do “Small is beautiful”, modelo de economia local criado pelo economista alemão E. F. Schumacher nos anos 1970? Seria um dos caminhos para salvar o planeta e a humanidade?

Noam Chomsky – Pode ser parte da solução, mas somente parte. Economias locais não vão parar o degelo das capotas polares ou a próxima pandemia. Gostem ou não, nós estamos juntos nessa crise climática, e devemos trabalhar com verdadeira solidariedade, ajuda mútua e respeito pelo próximo se quisermos persistir e seguir em frente.

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Relatório da Oxfam alerta sobre o vírus da desigualdade: ricos ficam mais ricos e pobres ficam mais pobres

Quando não tira vidas, quando não deixa sequelas incômodas em todos que contraem a Covid-19, o vírus Corona, atualmente atuando em todo o globo, também consegue trazer uma inusitada situação:  os mais ricos viram sua riqueza aumentar em meio trilhão de dólares (alguém consegue imaginar isso?) desde o início da pandemia. E os mais pobres, aqueles que só ganham dinheiro com a força do seu trabalho, estão enfrentando a pior crise de desemprego em mais de 90 anos. São centenas de milhões de pessoas subempregadas ou desempregadas.

Terminou há pouco a coletiva de imprensa do World Economic Fórum (WEF), que está acontecendo desde 21 de janeiro na cidade suíça de Davos, em que a ONG Oxfam tradicionalmente apresenta seu Relatório anual sobre Desigualdade no mundo. Dessa vez o Relatório se chama “O vírus da desigualdade”.  A coletiva foi virtual, como todas as outras conferências do Fórum, justamente porque não foi possível, num ambiente pandêmico, criar tantos deslocamentos mundo afora para levar os painelistas à Suíça.

Um fato surpreendente foi o tempo dado aos painelistas que discutiram a desigualdade com base no relatório da Oxfam: muito curto. Tanto que foi visível a surpresa da colombiana Gabriela Bucher, diretora executiva da organização, quando a mediadora anunciou o encerramento da apresentação. Gabriela foi contundente ao anunciar uma prévia do relatório, que pode ser lido no site da Organização (www.oxfam.org.br):

“Assistimos ao maior aumento da desigualdade desde o início dos registros. A profunda divisão entre ricos e pobres está se mostrando tão mortal quanto o vírus”, disse ela.

Fato é que, segundo o relatório, o choque da Covid-19 foi desigual em seu impacto nas sociedades, mas foi sentido em todos os países do planeta ao mesmo tempo.  É provável que a Covid-19 aumente a desigualdade em praticamente todos os países do planeta simultaneamente. E esta será a primeira vez que isso acontecerá desde o início dos registros de desigualdade, há mais de um século.

Mas a Oxfam avisa: a pandemia já pegou um mundo extremamente desigual, onde um pequeno grupo de dois mil bilionários tinham mais riqueza do que poderiam gastar em mil vidas.

“Um mundo onde quase metade da humanidade foi forçada a sobreviver com menos de US $ 5,50 por dia, onde, pode quarenta anos, o 1% mais rico ganhava mais do que o dobro da renda da metade inferior da população global, onde o 1% mais rico consumiu duas vezes mais carbono do que os 50% mais pobres para o último quarto de século, levando à destruição do clima”, diz o relatório.

O número total de bilionários quase dobrou dez anos após a crise financeira de 2008 e, entre 2017-2018, um novo bilionário foi criado a cada dois dias. Neste cenário, as pessoas mais pobres não tinham nenhum recurso ou apoio para enfrentar a tempestade econômica e social que se instalou. Mais de três bilhões não tinham acesso à saúde; três quartos dos trabalhadores não tinham acesso a políticas de proteção social e, em países de renda baixa e média-baixa, mais da metade dos trabalhadores sobrevivia com trabalhos precários.

Nos primeiros seis meses de pandemia, no entanto, houve sim um revés para os mais ricos. Mas isso durou pouco. Em nove meses, segundo ainda o relatório da Oxfam, os mil maiores bilionários ganharam de volta o que haviam perdido porque os governos deram apoio ao mercado de ações.

O resultado foi que, em todo o mundo, a riqueza dos bilionários aumentou em impressionantes US$3,9 trilhões entre 18 de março e 31 de dezembro de 2020. Sua riqueza total agora é de US$ 11,95 trilhões.

“Os dez bilionários mais ricos do mundo viram sua riqueza aumentar coletivamente em US$540 bilhões durante este período. Mukesh Ambani, o homem mais rico da Índia, dono da empresa Reliance Industries, especializada em petróleo, varejo e telecomunicações, mais que dobrou sua riqueza entre março e outubro de 2020, fazendo-o ocupar a 6ª posição de pessoa mais rica do mundo, quando anteriormente ocupava a 21ª posição”, exemplifica o relatório.

Ao mesmo tempo, a pandemia começou a fazer estragos na vida dos mais pobres: centenas de milhões perderam seus empregos e enfrentam miséria e fome.

“Esse choque deve reverter o declínio da pobreza global que testemunhamos nas últimas duas décadas. Estima-se que o total de pessoas que vivem na pobreza pode ter aumentado entre 200 milhões e 500 milhões em 2020. O número de pessoas que vivem na pobreza pode não voltar ao nível anterior à crise por mais de uma década”, diz o relatório.

A Oxfam considera cedo ainda para se falar em aumento significativo da desigualdade, mas para aprontar o relatório a tempo de ser divulgado no Forum Econômico Mundial, como é de praxe, os pesquisadores da organização fizeram uma entrevista com 295 economistas de 79 países. Suas respostas puderam conduzir algumas reflexões: 87% dos entrevistados acreditam que a desigualdade de renda em seu país aumentará fortemente como resultado da pandemia, percepção de economistas de 77 dos 79 países participantes.

Mais da metade dos entrevistados também acredita que a desigualdade de gênero irá subir, e acima de dois terços pensam o mesmo para a desigualdade racial. Um exemplo dessa desigualdade entre raças vem dos Estados Unidos onde, segundo o relatório, enquanto as taxas de pobreza entre os brancos devem aumentar em 4,2 pontos percentuais devido à pandemia, os negros enfrentarão um aumento de 12,6 pontos percentuais e os latino-americanos um aumento de 9,4 pontos percentuais.

Dois terços dos entrevistados também avaliam que seus governos não têm um plano em vigor para combater a desigualdade.

Fato é que o vírus mexeu com a vida de todos, mas não de forma igual. Haverá aumento de desigualdade, e vai depender das escolhas feitas pelos governos do mundo todo se ela será muito extensa e com que velocidade isso se dará. A pandemia afetou muito mais os pobres do que os ricos, isto também é fato notório, e muito mais mulheres e negros do que os brancos. Aqui no Brasil, por exemplo, a população negra tem 40% mais chance de morrer pelo vírus do que os brancos.

Como sempre faz nos relatórios sobre a desigualdade social que apresenta anualmente, a Oxfam dá sugestões para os governos. Dessa vez, a organização não está sozinha: tem muita gente preocupada com o nível de desigualdade que o mundo pode atingir. Kristalina Georgieva, a diretora-geral do FMI, disse que “o impacto será profundo […] com a desigualdade crescente levando a agitações econômicas e sociais: uma geração perdida nos anos 2020 cujos efeitos serão sentidos nas décadas por vir”. Antônio Guterres, secretário-geral da ONU, afirmou: “Estamos todos flutuando no mesmo mar, mas é evidente que alguns estão em super iates, enquanto outros se agarram aos escombros à deriva.”

E por que se preocupar com a desigualdade num momento em que a crise é sanitária, de saúde? Porque não é só a doença que mata, mas também a injustiça social:

“A pandemia expôs os piores efeitos dos sistemas públicos de saúde cronicamente negligenciados, especialmente para pessoas que vivem na pobreza e comunidades marginalizadas”, conforme mostra o relatório da Oxfam.

É importante lembrar que a reunião do Fórum Econômico de Davos, este ano, tem um título bastante carregado de simbologia: “O Grande Reinício”. Se a turma que está lá, líderes empresariais e chefes de estado, realmente quiser levar a sério essa proposta, já tem por onde começar. Até porque, mesmo com a vacina, se não houver um olhar cuidadoso para a desigualdade, haverá um risco de que imunizantes eficazes sejam monopolizados por países e indivíduos ricos e poderosos. Um pequeno grupo de nações ricas, representando apenas 14% da população mundial, já comprou mais da metade do suprimento dos principais produtores da vacina. As farmacêuticas já obtiveram enormes lucros durante a pandemia e provavelmente serão as que mais ganharão com as vacinas eficazes, a menos que seja introduzido um limite de preço.

Vale a pena ler o relatório. E refletir.

Foto por Guduru Ajay bhargav em Pexels.com. Homem pobre na Índia
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Relatório mostra que máscaras descartáveis vão aumentar o lixo plástico no mundo

Estamos vivendo tempos bem complexos. O trabalho em casa, a falta de liberdade nas ruas, a necessidade de usar máscaras, de higienizar as mãos todo o tempo, de cuidar para não entrar em lugares aglomerados. São novos hábitos que precisam ser incorporados à rotina, e nem sempre é fácil.

Nesse lufa lufa, é normal que se procure o mais prático. No caso das máscaras, as descartáveis são a melhor opção, sobretudo para quem tem crianças. Mas… se você, caro(a) leitor(a), é uma pessoa que se incomoda com a quantidade de lixo que o mundo está produzindo além de sua capacidade, essa notícia vai lhe interessar:

Recém lançado, um relatório preparado pela Fundação Heinrich Böll,  chamado “Atlas do plástico” (aqui na íntegra: file:///C:/Users/Amelia/Downloads/Atlas%20do%20Pl%C3%A1stico%20-%20Funda%C3%A7%C3%A3o%20Heinrich%20B%C3%B6ll%20Brasil.pdf) , mostra que “Se todas as pessoas utilizarem máscaras faciais descartáveis, necessitaríamos, de acordo com estudos, de consumir 129 bilhões de máscaras faciais por mês para atender toda a população mundial. No Brasil, o consumo mensal de máscaras seria de 3,5 bilhões por mês. Levando em conta que cada máscara descartável pesa por volta de três gramas, isto levaria a uma dispersão de mais de 387 mil toneladas de plástico, o equivalente ao peso de 338 estátuas do Cristo Redentor por mês! Só no Brasil, seriam 10,5 mil toneladas de plástico, o equivalente ao peso de nove estátuas do Cristo Redentor”.

É claro que há soluções. As máscaras de pano são as que mais se adequam à ocasião. A situação é bem parecida com as fraldas de pano versus fraldas descartáveis. Não há mais condições de se convencer uma jovem mãe que trabalha fora, a gastar parte dos seus dias de licença maternidade em tanques cheios de fraldas, certo? Pois é. Mas as fraldas descartáveis que facilitam tanto a vida, quando não são devidamente descartadas, aumentam e muito o lixo plástico no mundo.

O mesmo vai acontecer com as máscaras. E, pelo que se tem observado no cenário global, certamente será um acessório que vai nos acompanhar por muito tempo ainda, infelizmente. De cepas em cepas de vírus.

Vale a pena destrinchar um pouco mais sobre o relatório da Fundação Böll, já que pode ajudar a tomar uma decisão a favor das máscaras de pano (na comparação com as fraldas, as máscaras ganham e muito, já que são muito mais fáceis de lavar).

Para começar, a informação de que os países que mais produzem lixo plástico, segundo o Atlas, são: em primeiro lugar, os Estados Unidos, com aproximadamente 70,782 milhões de toneladas ao ano; depois a China, com 54,740; em terceiro lugar a Índia, com 19,311 milhões. O quarto lugar, com 11,3 milhões de toneladas de plástico produzidas ao ano é do Brasil, que recicla apenas 1,28% de seu lixo. Nesse total ainda não estão contabilizadas as máscaras.

Elenquei alguns pontos do Atlas que reproduzo aqui, como informações importantes:

. Nos oceanos, o plástico vira micro plástico, que vai para a barriga dos peixes que consumimos;

. Se não mudarmos o jeito de produzir e consumir, a expectativa, segundo os pesquisadores, é adicionar 40% a mais de plástico no comércio até 2025;

. Entre 1950 e 2017 foram produzidas 92 bilhões de toneladas de plástico em todo o mundo. Desse total, menos de 10% foram reciclados;

. Nossa maior preocupação tem sido com a poluição que o plástico está causando nos oceanos, mas a poluição plástica do solo pode ser entre quatro e 23 vezes maior. A agricultura usa 6,5 milhões de toneladas de plástico em todo o mundo;

. Os quatro países mais exportadores de plástico são Estados Unidos, Japão, Alemanha e Reino Unidos.

Os pesquisadores da Fundação Böll traçaram a história do plástico, e é possível descobrir como as embalagens são as grandes vilãs do lixo plástico que se deixa no planeta.  E isso também aumentou em tempos de Covid, quando, em casa, fomos cada vez ficando mais dependentes de produtos que nos chegam pelo sistema delivery. Eles perceberam, também, como não podia deixar de ser, um aumento no consumo de plásticos de curta duração nesse período.

“Entre janeiro e maio deste ano houve um aumento de quase 95% no gasto com aplicativos de entrega comparado a 2019, de acordo com a startup de finanças Mobilis. Se, antes da pandemia, pouco mais de um terço do consumo de plásticos era daqueles com até um ano de vida útil, como embalagens plásticas, estima-se que este percentual aumentará significativamente”, diz o relatório.

Têm razão aqueles que se queixam de que muitas empresas continuam fazendo tudo como antes, produzindo as mesmas quantidades de plástico, e que acaba sobre os ombros dos cidadãos comuns a mudança necessária. Têm razão também, no entanto, aqueles que perceberam que não dá mais para manter os mesmos hábitos como se nada estivesse acontecendo ao nosso redor.

Vai ser preciso um grande esforço de mudança. A pandemia, o isolamento, nosso medo da morte, convidam a, finalmente, fazer contato com essa necessidade. A boa notícia é que, em grande medida, essa mudança depende de nós.

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Muvuca de sementes no jogo da urgência climática

Em entrevista à jornalista Daniela Chiaretti, no jornal “Valor Econômico” de sexta-feira passada (11/12/2020), o ex-primeiro ministro da França Laurent Fabius faz algumas considerações importantes para se entender a urgência climática. Fabius foi o principal articulador do Acordo de Paris, conseguido a duras penas em 2015. E agora está, claramente, e com apoio das Nações Unidas, tentando levar adiante o compromisso assumido por 194 países, ratificado por 147 e solenemente ignorado pelo atual e quase ex presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Com Trump fora do jogo, e considerando Joe Biden, democrata eleito no dia 3 de novembro, como parceiro na causa ambiental, é hora de tentar recuperar o que não foi feito nos últimos quatro anos. E às pressas, para se tentar chegar a algo próximo do que foi acordado em Paris há exatos cinco anos: baixar as emissões de carbono para que o aquecimento global fique, no máximo, entre 1.5 e 2 graus acima, tendo como base os níveis pré-industriais.  Para que isso seja factível, é preciso zerar as emissões antes de 2050. De preferência, até 2030.

Fabius deixa claro que todas as apostas para que o Acordo de Paris dê certo estão hoje com Estados Unidos, Europa e China. Aos países emergentes (pobres), entre eles o Brasil, restará se apegar às tecnologias, finanças e justiça para que não sejam vítimas de um vazamento de emissões, coisa bem possível de acontecer por causa do Mercado de Carbono. Como o próprio nome diz, essa ferramenta não inova muito, foca nos mesmos mecanismos que privilegia os méritos, os mais fortes.

O Mercado de Carbono é bem complexo, tem muitas firulas. Mas uma de suas faces é a seguinte: se uma empresa alemã, por exemplo, quiser contribuir para que seu país participe do esforço coletivo dos grandes blocos para zerar as emissões, ela pode produzir num país com legislação ambiental mais frouxa. Mais ou menos como acontecia quando a China tinha salários muito baixos e se tornou, assim, um bom mercado para muitas empresas que montavam lá suas fábricas. A China elevou os salários, ficando menos atraente. Os países que não quiserem ser quintal de vazamentos de emissões devem, então, fortalecer sua legislação ambiental.

Tanto Europa quanto China quanto Estados Unidos, no entanto, precisam se adequar aos novos tempos. De cinco anos para cá muita coisa mudou. Uma pandemia assola o mundo, e isso não é pouco.  A sociedade civil percebeu, à queima roupa, que nada será como antes. Até mesmo a vacina, embora muito bem vinda, não será a solução final para o problema, como bem se sabe. A pandemia mudou o mundo, descaracterizou os mercados, desmobilizou ainda mais os trabalhadores.

Quando Fabius fala em “sociologia da mudança do clima” talvez esteja se referindo a isso. A boa notícia é que, em seu discurso, há sempre a preocupação com os mais pobres, com a necessidade de os países ricos ajudarem a quem precisa, até mesmo, se adaptar a um clima mais quente.

“Precisamos de uma recuperação verde, de planos que sejam a favor, não contra o meio ambiente”, disse Fabius à jornalista. E conservar é a palavra mais usada. Conservar a floresta, que se chama de “sumidouro” de CO2, conservar os bichos, fundamentais para a existência da floresta. Mas… tenho uma dúvida crucial: será mesmo possível falar em conservação se o discurso continua sendo de “dinamizar as atividades econômicas”? É possível, verdadeiramente, esperar justiça nesse mundo das nações ricas, para com as mais pobres?

O ex-ministro, atual presidente do Conselho Constitucional, um dos cargos mais altos do judiciário francês, exerce muito bem seu papel diplomático quando alerta para a urgência das ações. Uma batalha que vem ganhando corpo, sobretudo nesse período já chamado de “pós-pandemia”. Para a ONU, começa agora a “Década da Restauração”. Para o World Economic Fórum, entraremos no período do “Grande Reinício”.

Fabius, assim como todos os executivos que refletem sobre um dos dois grandes desafios da humanidade atual (o outro é a desigualdade social que só faz aumentar), fala de um lugar distante do chão. Pisam sobre carpetes, defendem-se da temperatura quente ou fria com aparelhos, alimentam-se com comidas prontas, muitas vezes às pressas, como requer a vida de quem vive, praticamente, num mundo 24/7. E isso não é um julgamento de minha parte. Isso é assim, pronto.

Longe, muito longe dos escritórios aclimatados onde as decisões geopolíticas são tomadas, no chão, sob sol ou chuva, colhendo os alimentos na terra, há motivos para se acreditar que é possível.

 Aqui vai só um exemplo: distante da geopolítica e exercendo, na prática, a solidariedade que Laurent Fabius menciona ao falar sobre as nações, mulheres da etnia Yarang, no Xingu, saem de suas ocas diariamente, andando juntinho como formigas, descalças, para catar sementes. E vão felizes.  Elas participam de um projeto que tem por objetivo plantar 1 milhão de árvores em 27 milhões de Áreas de Preservação contínuas. Trata-se  da maior rede de sementes nativas no Brasil. E é uma prova de que há outras soluções possíveis para manter a floresta em pé, cuidar de nossos sumidouros de CO2.

Falo sobre a Rede de Sementes Xingu, projeto de geração de renda orquestrado pelo Instituto Socioambiental (ISA) na Amazônia. Carinhosamente a chamam de Muvuca de Sementes. O ISA é uma Oscip, tem 148 parceiros e atua com 24 povos indígenas em três biomas há mais de duas décadas. Rodrigo Junqueira, engenheiro agrônomo do ISA e um dos idealizadores da Rede, foi o último convidado a participar da Conferência Amazônia, evento online organizado pelo Itaú que terminou no dia 9 de dezembro.

Rodrigo mostrou um vídeo onde se vê a cena que descrevi acima, protagonizada pelas mulheres da etnia Yarang. Elas próprias se dão o nome de formigas cortadeiras, e já ajudaram o projeto a plantar 3,2 toneladas de sementes nos dez anos de existência da Rede de Sementes.

O mais interessante é que o projeto une as pontas da cadeia e faz dar certo um dos maiores desafios para se conseguir, verdadeiramente, capturar carbono da atmosfera. Simplesmente plantando árvores. Em vez de derrubá-las.

Representando o Grupo Agropecuário Fazenda Brasil, portanto a outra ponta da cadeia, Artemizia Moita foi convidada a dar seu depoimento no vídeo.  O grupo de Artemizia tinha um passivo ambiental: 800 hectares de áreas a serem recuperadas. Tentaram fazer a plantação com mudas, mas é um processo muito complicado, delicado, exige um acompanhamento constante. Depois do contato com o ISA, compraram as sementes da Rede e já têm 500 hectares completamente recuperados, com cerca de cinco mil árvores por hectare.

Quem quiser saber mais detalhes sobre a Rede de Sementes do Xingu pode acessar aqui:  https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-xingu/muvuca-que-vira-floresta. É um convite, também, para se refletir um outro mundo possível.

Preparando a muvuca de sementes. Foto de Tui Anandi/ISA. Em Canarana
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Por que não transformar palácios em hotéis?

Comecei meu dia com uma notícia. Bem, na verdade, para jornalistas isso não é novidade, portanto nem deveria estar na primeira linha do meu texto. Vou escrever, então, de outra forma: comecei meu dia com uma notícia que me chamou a atenção. Assim fica melhor, embora nesse momento que vivemos, em que é preciso sempre tomar algum lado – um e outro – também não seja, exatamente, um início de texto que atraia os leitores.

Vou direto ao ponto, portanto: uma amiga, num grupo de amigos jornalistas, mandou-me um “zap” com um tópico da coluna do Lauro Jardim, no Globo, em que se lê que o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, quer transformar o Museu do Jardim Botânico em hotel-boutique.

Pronto. A notícia veio endereçada a mim, no grupo, e eu imediatamente me senti na obrigação de opinar. Essa é outra das reações recorrentes de nossa era pandêmica, do gueto dos isolados com máscaras. Em vez de cafezinho no corredor, debatemos online. Se antes já era difícil criar um hiato, uma hesitação, um tempo para resposta, agora ficou muito mais. Ansiosa como sou, vou logo respondendo, buscando uma posição contra ou a favor, para não ficar fora da onda. Nesse caso, lembrei-me de quão predatório pode ser o turismo, pensei naquelas lindas plantas do Jardim Botânico sendo pisoteadas por crianças, adultos e jovens em férias. Fui além, fantasiei até as toalhas de piquenique com quadradinhos vermelhos e brancos sobre a grama de um território criado no início do século XIX.

Aqui vale contar rapidamente que o Jardim foi fundado em 1808 com uma decisão de D. João XVI: ele quis erguer naquele território uma fábrica de pólvora (?) e um “jardim para aclimatação de espécies vegetais originárias de outras partes do mundo”. Esta última citação que pus entre aspas está no site do próprio Jardim Botânico. E o ponto de interrogação é meu, porque realmente não consigo entender o que se passou pela cabeça do regente, ao misturar pólvora e plantas. Logo, logo, ficou claro que o que ele queria, obviamente, era lucrar. Trouxe chineses para ajudá-lo e começou a plantar chá… numa terra dos trópicos, quentíssima. Ninguém gostou, e o plano foi abortado.

O Jardim Botânico de hoje é um território cuidado, um oásis no barulho da cidade, local de lazer de famílias, mas um lazer que tem regras. O Museu do Meio Ambiente, que corre risco de virar boutique, é um espaço para exposições e já foi muito usado para programas educativos. No tempo em que Samyra Crespo era diretora do Jardim, fui a várias palestras sobre o Rio de Janeiro, aprendi muito sobre urbanização, sobre memória urbana, sobre a história da cidade.

São valores intangíveis. Não será transformado em dólar, não vai atrair divisas como um hotel, mas ajuda a ampliar o hábito de pensar, instiga a curiosidade. É como um alimento. Não custa lembrar, sobretudo num momento como o que estamos vivendo. Entendo que é preciso lucrar, mas gosto da provocação que o célebre Noam Chomsky faz num de seus livros: vamos privilegiar o lucro ou as pessoas? O que seria de um sem o outro?

Sou contra, portanto, trocar um museu por um hotel.

Mas, no próprio “cafezinho online” da minha turma, alguém lembrou que um bom hotel traria muitas divisas. E não é disso que essa nossa tão combalida cidade anda precisando nesse instante? Não importa muito se estamos à míngua por conta de tantos maus feitos, não importa muito, nesse debate, que já se prendeu o sexto governador do estado. O que importa é o hoje.

Pois, justamente! Não é que me deu uma ideia que pode acomodar a real necessidade de lucro com a revitalização do Centro – proposta da nova prefeitura, descrita numa bela reportagem do repórter Luiz Ernesto Magalhães no Globo de hoje? Darei aqui, assim, minha modesta colaboração ao novo prefeito e sua equipe.

Em vez de trocar um Museu por um Hotel, e considerando que o propósito do ministro seria oferecer aos turistas um lugar bucólico e arborizado para passar alguns dias na cidade praiana, por que não lhes dar mais do que isso? Por que não presentear os turistas com dois palácios?

O primeiro deles é o local de trabalho do prefeito, fica ali na Rua São Clemente, coração da Zona Sul da cidade, chama-se Palácio da Cidade. É bem mais novo do que o Jardim Botânico, por isso pode aguentar mais os trancos da turistada. Pertence à Prefeitura mesmo, a quem foi vendido em 1974.

Agora, o melhor da história: para revitalizar o Centro, o prefeito Eduardo Paes pode ocupar um dos prédios que hoje estão praticamente às moscas. Dia desses, li uma nota dizendo que a Vale estaria devolvendo o prédio que ocupava, na Avenida Graça Aranha, já que seus funcionários continuarão trabalhando em casa. Acabou-se a hora do cafezinho na mega empresa, e isso não é nada bom, mas é conversa para outro post.

O outro local que seria excelente para abrigar turistas em busca de uma paisagem bucólica, é o Palácio Guanabara, na Rua Pinheiro Machado, hoje ocupado pelo governo do Estado. O local já foi até residência da Princesa Isabel, mas recebeu várias reformas antes de ter sido definitivamente doado pela União ao governo do Estado.

 Já que o prefeito Paes chegou com discurso de conciliação e diálogo, não custaria nada tentar convencer o ministro Salles a renunciar a um museu para ocupar dois palácios. A troca parece até mais lucrativa.

O governo do Estado também poderia ser transferido para outro prédio no Centro. Já imagino aquelas ruas, hoje fantasmas, depois da vacina, pulsando novamente, com funcionários procurando restaurantes à hora do almoço, com bares e seus happy hour, com o Metrô funcionando a contento… Como em qualquer grande cidade que não tenha virado fantasma.

Fica a sugestão. Não é nada, não é nada, mas, como diria Hannah Arendt, nunca se deve jogar fora um pensamento.  

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Boa série na TV ajuda a refletir sobre a cidade que queremos

Um cheiro forte que remonta a coisas úmidas andava me incomodando  sempre que eu abria a porta do apartamento que alugo. Construído sobre uma pedra, o prédio já tem mais de seis décadas, e parece que a tubulação ainda é original. O cheiro aumentou e a causa dele começou a aparecer, fisicamente, na parede da minha sala que é contígua ao banheiro.

Para minha sorte, tenho uma ótima relação com a locadora. Chamei o técnico, quebrou-se a parede, trocou-se piso, e o custo dessa imensa obra vai ser descontado do aluguel. O custo monetizado, quero dizer. Porque ficar sob uma torrente de poeira e barulho durante quase quinze dias custou-me um pouco mais.

Estou contando tudo isso para explicar parte do motivo que me fez estar afastada aqui do blog. Mas estou de volta. Noves fora, ficou um alívio e tanto. O cheiro forte acabou, a mancha de umidade se foi. Pedi para o Sr. Luis, empreiteiro que tocou a obra, botar manta no piso do box e envolvendo o barbará.  Em conversa com meu médico homeopata, ainda por cima fiquei feliz por ter tido a coragem de me submeter ao atravancamento e desconforto. É que a umidade pode ser causa de inúmeros problemas de saúde, dos quais posso ter me livrado… ou não. Estou com uma questão nos olhos que pode ser resultado da umidade, sob investigação.

E, com isso, ainda ganho panos para mangas compridas de reflexão. Andamos tão preocupados com saúde por causa da pandemia que a gente talvez se esqueça de que este é um tema que exige uma visão ampla, integrada. Por isso estou trazendo o assunto saúde num texto que começa falando sobre… moradia.

Lembro-me bem de uma reportagem de dezembro de 2011 feita pela repórter Martha Neiva Moreira para o caderno “Razão Social”, que eu editava no jornal “O Globo”, em que focamos a questão das moradias contíguas, em becos, ruelas, porões na Rocinha e em tantas outras comunidades, e o mal que isso faz à saúde dos moradores. Martha visitou a favela para fazer a reportagem, e voltou de lá impactada.

“A grande quantidade de gente dividindo um pequeno espaço, somada à sujeira, falta de sol nos becos estreitos e umidade nas paredes é receita infalível para a proliferação de várias doenças que têm seu vetor na relação entre adensamento demográfico e falta de infraestrutura sanitária”, escreveu ela. Na época dessa reportagem havia 425 pessoas em tratamento contra a tuberculose e 75 novos casos haviam surgido.

Como nada acontece por acaso, enquanto refletia sobre as manchas de umidade no pequeno apartamento que ocupo, lembrando-me da situação extremamente mais vulnerável que acomete aquelas pessoas, recebi mensagens de duas amigas sobre a série “Cidades Possíveis”, dirigida por Eduardo Goldenstein, que vai estrear no canal Curta! a partir do dia 5. Martha Ferraris, a diretora de produção da série, contou-me, tempos atrás, como ficou emocionada com a proposta de trabalhar no projeto. Anteontem lembrou-me disso, e me convidou para assistir o resultado.

Outra amiga, Katia Carneiro, mandou-me por email três episódios. Um deles, especificamente, tem a ver com a reflexão que estou propondo aqui. “Cidades possíveis” é um processo, que se propõe a dar uma visão sobre como algumas cidades conseguem vencer alguns dos enormes desafios que enfrentamos nas megalópoles. A equipe percorreu o Brasil de Mossoró à Foz de Iguaçu, do Alto Paraíso a Salvador, das grandes metrópoles  como São Paulo, Rio e Belo Horizonte a pequenas cidades como Entre Rios do  Oeste e Piranhas.

 No episódio “Habitação Digna”, Goldenstein mostra como é necessário fazer oposição a um plano habitacional que não contempla a todos.

A urbanista Erminia Maricato, uma das entrevistadas, dá a visão histórica e lembra o grande nó do imbróglio em que nos metemos, nós, a atual civilização que prefere potencialmente viver nos centros urbanos e não no campo. No início do século XX, apenas dez por cento moravam nas cidades aqui no Brasil. Um século depois, já somos 84%, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicíio (Pnad), de 2015.

“Nós praticamente nos urbanizamos no século XX. Vivemos mais de 350 anos como escravos, é muito tempo para a história de um povo e é muito tempo para deixar de ter uma marca fortíssima que temos até hoje.  Até 1850 as terras eram da Coroa e a discussão da apropriação das terras tem uma simbiose com a libertação dos escravos. A elite se apropriou de terras para aceitar a libertação. Essa marca é central na história do Brasil”.

Erminia se pergunta: “O que é prioritário nas nossas cidades?” O mercado residencial brasileiro não chega nem a 50% da população, lembra a urbanista, e a maior parte das habitações é construída pela própria população, sem lei e sem acompanhamento técnico.

Resultado direto dessa ocupação desordenada é a incidência de doenças respiratórias e alergias em crianças de favelas. A reportagem que editei em 2011 mostrou isso. Quatro anos depois, uma equipe de repórter do jornal El País esteve no mesmo local e retratou situação semelhante (https://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/01/politica/1441120198_053979.html). Nada mudou.

Henrique Silveira, coordenador executivo da Casa Fluminense, é outro entrevistado de “Cidades Possíveis”, que irá ao ar sempre às 19h. Silveira lembra que o futuro das cidades tem que passar pelo Centro, um lugar importante e que deveria ser prioritário para a construção de novas habitações, já que tem muita oferta de trabalho. Seria, basicamente, uma lição de casa para todos os candidatos que estão tentando ocupar a vaga da prefeitura das cidades a partir de janeiro do ano que vem.

Pensando bem, “Cidades possíveis” bem poderia ser um documentário de cabeceira para os candidatos. Não só porque toca nos temas sensíveis, quanto porque mostra soluções viáveis. A série terá 13 episódios, cada um com um assunto relevante. Vou focar no da Habitação, que me afeta bastante. E vocês já devem estar se perguntando qual a solução que ele aponta para uma situação que nos parece cada vez mais complexa, sobretudo quando caminhamos pelas ruas pandêmicas e vemos a quantidade triste de pessoas que são obrigadas a dormir ao relento porque não têm casa para morar.

Sim, é possível mudar isto. E a solução não passa por “unidades de moradia”, aquelas que são construídas distante de tudo.

A história do edifício Dandara, no Centro de São Paulo, contada por Evaniza Lopes Rodrigues, militante da União Nacional por Moradia Popular, é prova de que as pessoas conseguem ser protagonistas. Basta organização. O prédio estava abandonado, como tantos outros estão também aqui, no Centro do RIO. Pessoas que necessitavam de um teto, baseando-se sobretudo no que diz a Constituição do país, que garante o direito de os cidadãos terem moradia, foram à Justiça e reivindicaram o benefício. Não foi fácil, mas hoje está tudo funcionando e os 120 apartamentos estão ocupados por pessoas que, no passado, poderiam estar engrossando a fila de tuberculosos nos corredores do Sistema Único de Saúde.

“Não faltam planos, não faltam leis e não falta conhecimento técnico. Falta justiça”, arremata a urbanista Erminia Maricato.

Tem muito mais chances de reflexões em outros episódios, como o que versa sobre agricultura urbana ou sobre a importância da água em nossas vidas de citadinos. Vale a pena assistir e debater.

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O valor da vida, o valor da liberdade

O que você traz sobre os ombros que lhe pesa tanto?

A vida? Mas ela é leve quando se sente, quando se intui.

O que faz sua coluna se arquear tanto, em busca do chão?

Os cabelos raros e brancos estão se movendo à mercê do vento gostoso, fresco, que está soprando no instante. Mas você anda tão carrancudo, que é capaz de nem ter sentido a brisa no rosto.

 Desarme esta postura caída, encha a barriga de ar, solte o ar também pela barriga. Tire a máscara um instante, um instante só não vai te fazer mal. Veja: não há ninguém ao seu lado que possa lhe transmitir o vírus.

Na úmida manhã de domingo, primavera de 2020, ele passou por mim. E quase fui, abusada, trocar com ele alguns pensamentos. Teria dito tudo isto aí em cima. Teria desejado, ao final de nossa conversa imaginária, que ele abandonasse as representações e apenas vivesse. Um homem idoso e um peso enorme sobre os ombros.

Ando pensando sobre o valor da vida. Não pode ser menor do que a indignação com o salário, o desemprego, a desigualdade, os políticos. Não pode ser menor do que os credos. Não pode ser menor do que a raiva, do que as desavenças de opiniões. A vida é mais! E, quando ela acaba, é num sopro.

Adoro ouvir boas notícias, sobretudo nesses tempos sombrios. Tantas pessoas carregando na rua o peso de seus pensamentos não bons…

Pois M., cujo nome não tenho liberdade para revelar, ligou-me esta semana e me encheu de alegria. Nos falamos com alguma frequência desde que tudo começou, o isolamento, a pandemia, tudo. Desde que tudo virou pelo avesso aquilo que considerávamos normal. M. vinha aqui em casa uma vez a cada quinze dias e me ajudava a manter limpo o meu espaço.

“Dona Amelia, está tudo bem comigo, com minha família. Mas acho que, se um dia a senhora voltar a precisar de minha ajuda, não vou poder lhe atender. Porque estamos vendendo bolos, empadas, pão de queijo, numa barraca aqui perto de casa. Foi o jeito que conseguimos de continuar pagando contas, comendo. E está dando muito certo! Eu trabalho muito, viu? Não vou lhe enganar não. Meu marido, meus filhos, todo mundo na luta. Fazemos entrega, eu cozinho até de madrugada e abrimos a barraca às nove. Fechamos às oito. Mas o que importa é que está indo bem. Eu indico alguém, se a senhora precisar, viu? E um dia, quem sabe, consigo ir aí levar um bolo de pote que faço. Todo mundo gosta.”

M. não me parecia, exatamente, feliz. Mas, aliviada, isto sim. Foi um sopro de vida a ideia de fazer coisas para vender. E está dando certo!

Olhem a coincidência: dia desses, no “Papo com Favela”, programa que o jornalista Andre Balocco apresenta às terças e sextas às 19h no seu Instagram, ele entrevistou Rita Afonso. Professora da UFRJ, uma pessoa única, inteligente e cheia de energia, ela se tornou minha fonte quando eu editava o “Razão Social”. Daí se tornou amiga. Ela foi apresentar o programa de extensão da UFRJ chamado Manamano. É bem sugestivo: a universidade juntou-se a algumas organizações da sociedade civil para criar um Fundo e, assim, ajudar pessoas da periferia, de comunidades, como aquela em que M. vive, a empreenderem. Quem quiser, pode doar, é só entrar no site http://www.manamano.org.br . A meta é arrecadar R$ 2,6 milhões no primeiro ano, beneficiando 700 empreendedores.

  Empreender quer dizer pôr em execução, realizar, tentar.

Rita Afonso está tentando e está conseguindo. Também foi uma boa notícia. No dia 22 de setembro, o projeto reuniu algumas pessoas numa live, para apresentá-lo.  Uma das futuras beneficiadas foi entrevistada. E contou uma história tão parecida com a história de M. que me fez refletir.

Primeira reflexão: a pandemia está mudando o rumo dos acontecimentos para muita gente. Deu um sacode, como num trem cheio, e juntou as pessoas, que bom. Solidariedade, no dicionário, é descrita como um “compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras”. Não sei se concordo com uma definição assim tão rígida. Ou… posso preferir outra palavra: contato. É, a pandemia isolou muito mas, ao mesmo tempo, tem convidado a fazer contato, mesmo que seja por este meio esdrúxulo, o virtual. As pessoas estão contando suas histórias, e quem sabe pôr a mão na massa, vai à luta, anda conseguindo.

Há outras tantas nuances socioeconômicas da Covid nada positivas, claro. Como, por exemplo, o fato de ela deixar transparente também um dos maiores males que assola os homens hoje, a desigualdade.

Segunda reflexão, e aqui eu vou fazer o link com o personagem que me inspirou a começar este texto. A doença escancarou a necessidade de rever nossos valores. Em outras palavras: a doença escancarou a necessidade de darmos mais valor à vida do que a qualquer, eu disse qualquer, outra coisa.

Estou falando de todas essas coisas que andam nos deixando de ombros caídos, coluna mais curva, quer seja aos 80 (idade próxima do meu personagem), aos 60, aos 20. Na semana que acabou, no meu grupo de estudos (agora virtual), o professor Gustavo Vasconcellos falou-nos em Vida Zoé. Busquei descobrir: é a palavra original, grega, para designar Vida, mas uma vida que pertence a Deus. Eu quero a vida que vem da arte, da filosofia, e que me pertence. Eu quero refletir com informações variadas. Eu quero ler muito, ouvir muito, falar muito.

Sobretudo, quero a vida que possa ser vivida, que não esteja amarrada em assuntos dos quais eu não posso dar conta. Quero vida para respirar, para refletir, para caminhar. E preciso de capital para isto. Precisamos todos. Criamos um mundo que não nos deixa outra opção. Mas, gente, viver é SER. Viver não é TER. Quero fazer acordos com minhas necessidades, cortar alguns desejos, compor com o tempo para viver.

Li, dia desses, uma notícia sobre o resultado do estudo “Covid, Classes Econômicas e o Caminho do Meio: Crônica da Crise até Agosto de 2020”, da FGV Social, dando conta de que a pobreza no Brasil alcançou o nível mais baixo de toda a série. Neste estudo, entende-se como indicativo de pobreza uma renda mensal de até R$ 522,00. Como o parlamento decidiu instituir um auxílio emergencial para os cidadãos brasileiros de R$ 600,00, essas famílias dobraram de renda. E começaram a comprar, o que “ajuda a aquecer a economia”. E passaram para a classe C.

“O trabalhador (…) é reconhecido como membro útil à sociedade e pode criar uma narrativa de sucesso relativo pela sua trajetória pessoal…. Destrói-se a grande fábrica fordista e transforma-se o mundo inteiro numa grande fábrica, com filiais em cada esquina, sem lutas de classe, sem sindicatos, sem garantias trabalhistas, sem greve, sem limite de horas de trabalho e com ganho máximo ao capital. Esse é o admirável mundo novo do capitalismo financeiro”.

Tirei o trecho acima do livro “Batalhadores brasileiros” (Ed. Humanitas), obra escrita pelo professor, sociólogo e  ex-presidente do Ipea Jessé Souza (com colaboradores), em 2010. É um livro fundamental para se entender o processo de vida versus trabalho. Ou, de como o trabalho passa a ser o mote da vida. E mostra também como o fenômeno não é novo, não é só na pandemia que tem acontecido. Hoje, na verdade, tais situações têm sido mais vistas e estão arrebanhando ajuda, o que é muito bom.

O que mais gostei nos relatos que descrevi lá em cima foi da união das pessoas. Fiquei imaginando, e minha imaginação é fértil, todo mundo feliz com o sucesso, dando-se conta de que precisavam tirar um dia, ao menos, da semana, para usufruir disto como quisessem. No meu cenário ideal, eles iriam para um parque bonito, devidamente protegidos, e ali passariam o dia a fazer um bom piquenique, a ver patos em lagos e crianças brincando em terra.

Temo que não seja isto. Temo mais: que parte do capital conseguido a partir de tanto esforço fique na farmácia do bairro, com remédios para suprimir dores e alterações orgânicas por conta do excesso de tensão.

Antes que me condenem por estar fora da realidade do país e do mundo, ou por focar numa “agenda de esquerda”, gostaria de citar aqui um trecho da fala do ex-presidente Pepe Mujica, que já recebeu a alcunha de “o presidente mais pobre do mundo”:

“A única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é miserável gastar a vida para perder a liberdade” (Pepe Mujica em 18 de setembro de 2015).

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Conversa sobre o mundo caótico que nos cerca

Não tenho Jamil Chade e Ruth Manus em minhas algo descuidadas listas de contato em redes sociais. Mas, neste fim de semana, foi como se eu estivesse conversando com os dois em longos e proveitosos e ricos diálogos por WhatsApp. Recebi da Editora Sextante o livro “10 Histórias para tentar entender um mundo caótico”, escrito pelos dois, e só despreguei os olhos do texto para dar conta de afazeres domésticos de fim de semana e para assistir a live do Festival Livmundi (https://www.youtube.com/watch?v=AIuNr3SU_FU ) com a imperdível conversa entre Pepe Mujica e Noam Chomski. Ou seja: foram dois dias em que mergulhei fundo na proposta que o título do livro apresenta.

Chade e Manus não têm pretensão alguma de encerrar o complexo tema ao qual dedicaram seu livro. Vê-se isto pelo título: eles vão “tentar” entender um mundo assombroso como o nosso. Para isso, partem de conversas entre os dois, que foram atravessadas pela pandemia. Ela mora em Portugal e é advogada, escritora, professora e mestra em Direito do Trabalho.  Ele mora na Suíça, é jornalista que já cobriu eventos internacionais de causar inveja a qualquer colega (a viagem do Papa Francisco ao Brasil entre eles). Em comum têm o olhar que vê além e muita, muita estrada.

Na entrevista que deram ao sociólogo, escritor e professor Jessé Souza em seu canal (https://www.youtube.com/watch?v=38ebuElnscs) (que, aliás, também recomendo), explicaram o método de criação. A ideia foi elencar dez temas sensíveis e, a partir de histórias vividas por cada um, ampliar pensamentos num diálogo possível por conta da internet.

Não é fácil apontar trechos prediletos do livro para fazer uma resenha porque são todos muito ricos e com muitos dados. Sério: é um livro imprescindível à estante de qualquer um que não queira passar por este momento a ver navios ou colhendo amoras fictícias num jardim florido artificialmente. Considerando o momento tenso que estamos vivendo por conta da pandemia, o diálogo sobre Saúde que os dois descrevem no livro deixou-me verdadeiramente impressionada.

A capa do livro, editado pela Sextante

 A pandemia do coronavírus, que paralisou o mundo por um tempo e continua deixando em pânico os habitantes da base da pirâmide social, já era prevista pela Organização Mundial de Saúde (OMS), conta Jamil Chade.  Mas não era uma previsão assim, sem substância. Os membros da instituição, cuja sede fica em Genebra, cidade que Chade escolheu para morar, já temia, há anos, “o desembarque de uma doença que poderia ter um impacto devastador”. Fato é que o alerta foi dado. Fato é que ninguém escutou, que não chegou, por exemplo, aos meus ouvidos.

Seria diferente se eu soubesse, em 2018, que dois anos depois o país e o mundo enfrentariam uma crise deste tamanho? Talvez eu pudesse ter feito outras opções, guardado algum dinheiro. De qualquer forma, como lembra Ruth Manus, “Nós tínhamos o direito de saber”.

Chade conta que existem 1,6 milhão de vírus desconhecidos no planeta, dos quais até 800 mil poderiam atingir as pessoas. Este afinco jornalístico por dados é o que mais me orgulha da profissão que escolhi. E sabem quanto os cientistas conhecem desses vírus plenamente? Apenas 0,4%.  Por causa disso, para tentar ampliar um pouco este portfólio de conhecimento científico, a OMS decidiu reunir uma elite de profissionais  em volta de uma mesa com a nobre função de encontrar caminhos que possam livrar a humanidade de tantos males.

Um dos cientistas que fez parte da reunião foi Peter Daszak, que se tornou fonte de Chade e contou-lhe que aquele debate levou à escolha de áreas prioritárias de pesquisa e à definição de uma lista das maiores ameaças ao planeta. Febre Hemorrágica Crimea-Congo, Ebola, Lassa (vírus que causa febre na Nigéria), Mers-CoV, Sars e até o Zika.

“Mas havia ainda outra ameaça: a de uma pandemia a partir de um agente desconhecido. Ao final de uma das reuniões em Genebra, um dos membros do grupo sugeriu um nome para essa ameaça: ‘Doença X’”, relata Chade.

E no dia 7 de fevereiro de 2018, o alerta foi dado a todos (eu disse todos) os governos do mundo. A ideia era que houvesse uma grande estratégia, assim como fazem os países que se sentem ameaçados por guerras, mas desta vez em torno da vida dos habitantes do planeta. Afinal, no cenário desenhado pelos cientistas, a Doença X seria letal para uma parcela da população. E proliferaria justamente pelo fato de não ser tão violenta e rápida como o Ebola. Muita gente, sem sintomas ou com um leve mal-estar, continuaria trabalhando e contaminando outros que, por terem um sistema imunológico menos forte, poderiam ser fatalmente infectados.

Como se sabe, a mobilização internacional jamais ocorreu. Num outro encontro com Daszak, já com a pandemia instalada, Jamil Chade puxou o assunto e ficou sabendo que a Covid-19 não é a Doença X:

“Ela é apenas a primeira Doença X. Outras virão. Será que desta vez vamos dar ouvidos à ciência?”, pergunta-se ele.

Já que me senti conversando por zap com os dois, ouso dar um pitaco neste diálogo. Minha resposta é não. Afinal, há uma onda, entre os governos populistas, de negação da ciência. Como lembra o professor Luiz Marques, de “Capitalismo e Colapso Ambiental” , a ciência só é ouvida quando traz boas notícias, quando anuncia uma nova droga ou leva o homem ao espaço.

 O negacionismo se estende também às questões climáticas, outro tema elencado no livro. Mas, como lembra Chade neste quesito, “o negacionismo não é só daqueles que não acreditam na ciência. Há quem recorra a ele para sobreviver economicamente”.

Aqui, deixo-me levar pelos pensamentos de Noam Chomski e Pepe Mujica, na live que assisti no sábado, como já contei a vocês. Para o ex-presidente uruguaio, a doença maior se chama “o sucesso do capitalismo”. Temos que mudar o conceito de felicidade, lembra ele. O diálogo é perfeito também com a definição de felicidade no capítulo cuja história principal é contada por Ruth Manus.

Numa viagem a Tam Coc, no Vietnã, Manus contrata um remador para levá-la num passeio pelo rio sob uma paisagem deslumbrante. O nome dele é Lam. Com um único dente na boca, possivelmente Lam passou grande parte dos seus quase 70 anos no mesmo local, remando rio abaixo, rio acima. E quando Manus decide, com a ajuda do tradutor do Google, perguntar se ele é feliz, sua resposta foi com um simples e significativo gesto: “Levantou o braço direito e, com ele, percorreu a paisagem”. E como não ser feliz ali?

O livro não desconstrói, mas compõe dados e a vivência dos autores a uma necessidade de romper com a narrativa presente e criar outra. Mais ampla, que considera, inclusive, a individualidade, as diferenças, como parte desse mundo caótico. Corrupção, violência, desigualdade, racismo, também compõem a narrativa, que inclui o amor. Não o sentimento hollywoodiano, tampouco aquele que é cooptado pelos populistas – amor à Pátria, lealdade a identidades construídas! Mas a sensação necessária para se ter o desejo de defender direitos básicos. Nossos e dos outros.

Poderia escrever telas e telas sobre o livro, trazer dados que chocam, analisar algumas falas. Mas prefiro sugerir que comprem. E termino o texto com outra provocação de Pepe Mujica na linha que nos leva a cumprir esta nova caminhada que a pandemia está exigindo. Com um olhar mais humano do que financeiro, mais solidário do que isolacionista:

“Temos que mudar o conceito de felicidade. Ser feliz é ter tempo livre para você usar como quiser”.

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Um abc para o Grande Reinício da humanidade

Uma rua tranquila que merece continuar sendo tranquila

Era  uma vez uma rua tranquila que fica num bairro outrora muito nobre, numa cidade outrora maravilhosa. A rua tranquila era tão calma que afastava pessoas mais elétricas, executivos e executivas plugadas o tempo todo em dois ou três celulares, aqueles que trabalham 24/7, que caminham com um dispositivo no ouvido para ouvir o de sempre, sem se abrir ao novo. Porque na rua tranquila, se você andasse prestando atenção, podia ouvir passarinhos ao monte, latidos, miados, até mesmo a brisa tocando de leve as folhas. E não passava um quarteirão sem se dar um tchau para alguém do outro lado, sem se desejar bom dia, boa tarde, boa noite. A rua tranquila era uma uma rua que convidava ao contato real. Não virtual.

Aos sábados, porém, a rua tranquila se transformava por causa da feira livre. Tinha gente que gostava, tinha gente que não gostava. Aqueles que faziam contato achavam que a feira dava uma chance a mais de afeto. E de escolher seus produtos como se estivessem escolhendo na horta de casa. Os mais ansiosos viam sujeira e bagunça, se incomodavam até com o grupo de chorinho que enchia a praça de som e gente.

A feira foi ficando famosa. E atraindo pessoas que vinham de outros bairros até. Em vez de a rua ser ocupada só por comerciantes de banana, maçã, laranja, outras frutas e legumes, vieram também os vendedores de produtos prontos, feitos artesanalmente. Afinal, aquele era um espaço privilegiado por pessoas mais sensíveis, que sabem muito bem distinguir o gosto de um produto feito por mãos daquele outro, feito por máquinas. E a feira foi ficando mais e mais cheia.

Até que um dia, estacionou ali um caminhão, desses que recebem o nome estrangeirado de food truck, mas que não passa de um velho e bom ambulante sobre quatro rodas. Assim que parou, abriu a lateral e se transformou numa lanchonete, vendendo comida japonesa. O povo, no início, se espantou. Mas, como a rua é ocupada por uma maioria de democratas, todo mundo pensou: “Ora, é mais um a tentar se safar como pode dessa crise financeira que assola o mundo, o país, o estado, a cidade”. E teve quem até gostou, indicou para amigos. E a feira foi ficando ainda mais cheia.

O caminhão ambulante que vende comida costumava chegar cedo e ir embora às 15h, quando a feira precisa acabar, segundo as leis que buscam dar alguma organização aos espaços urbanos que são de todos. 

E veio a pandemia. Nos primeiros dias, todo mundo ficou com muito medo, a rua se vestiu de cinza. Usando máscaras fica difícil desejar bom dia, boa tarde, boa noite. E era preciso respeitar o que diziam os cientistas, os médicos: “Vamos ficar isolados porque assim a doença não se alastra de uma vez só. Não temos camas em hospitais para atender todo mundo”. Mesmo achando um absurdo que os impostos pagos não tenham sido empregados como deveriam, todo mundo na rua obedeceu. E, pela primeira vez em décadas, houve um sábado sem feira na rua. 

Mas o tempo foi passando, a pandemia não. O dirigente maior do país decidiu não acreditar na Ciência e mandou todo mundo ir para a rua, ordenou que o comércio se abrisse, que os ambulantes vendessem porque senão o país ia quebrar economicamente. Como se, antes, a gente já não estivesse numa crise de causar insônia em toda gente que não pertence à classe mais rica.

E, pouco a pouco, a rua tranquila foi se enchendo de novo. Aqui e ali soubemos de casos de vizinhos que se foram, levados pela Covid. Lamentávamos, sacudindo a cabeça, tristonhos, sem graça ou jeito de continuar, mas a vida quer passar, fazer o quê? Uns e outros retomaram suas rotinas e a pandemia virou assim um dente quebrado na boca, que a gente só se lembra quando passa a língua sobre ele.

O desemprego aumentou e mais pessoas precisaram vir para a rua tentar ganhar algum dinheiro vendendo coisas. Bolos, tortas, brigadeiros, pães, plantas, roupas velhas, artesanatos, de tudo tinha um pouco na feira dos sábados. Os moradores da ruazinha outrora tranquila iam se acostumando, afinal era um dia só, mas sem muito jeito de gostar. Até porque, mesmo com tantos avisos de que era preciso evitar aglomerações por causa da pandemia, não tinha como botar na cabeça dos feirantes que era preciso usar máscaras, mandar fazer fila, nada disso. A feira voltou a ser como antes, só que mais cheia e bagunçada.

E o caminhão que vende comida, ah este aí exagerou na dose do desrespeito a todos os avisos. Sem obedecer a nenhuma regra, espalhou cadeiras, mesas, vendeu bebidas a toda gente. E, como se sabe, muita gente decidiu aderir ao negativismo ignorante do mandatário mor, e mandou às favas até o uso de máscaras. O caminhão ambulante, assim, começou a fazer tanto sucesso que seus clientes vinham de longe. Pouca gente da ruazinha tranquila frequentava.

Em vez de fechar as portas e recolher tudo às 15h, como manda a lei, o dono do caminhão encheu os olhos com a chance de ganhar mais e mais. E passou a fechar tarde da tarde, só lá pelas 18h! E a paciência dos moradores foi se acabando, todo mundo passou a olhar com raiva o caminhão ambulante que só quer acumular mais e mais dinheiro, sem ter respeito pelos outros. Quando se vai, deixa ainda um cheiro horrível de peixe cru na ruazinha outrora tranquila. 

Esta história ainda não acabou, mas serviu para me ajudar a pensar sobre o tal “mundo que queremos”, slogan adotado, no momento, por dez entre dez economistas, financistas, chefes de nação e empresários. Tanto que já está tudo pronto para a macro reunião que acontece todos os anos na cidade suíça de Davos, na Suíça, e que se chama World Economic Forum (WEF). O tema da reunião de janeiro de 2021, que vai acontecer online, será: “O grande reinício”, ou “The Great Reset”.

Fico animada com a possibilidade de se pensar em virar a chave, em recomeçar tudo sob novos parâmetros, novos pensamentos. Um refresh no mundo, é do que precisamos. Estamos quase tão machucados e feridos quanto estava toda gente no fim da II Guerra, tempo em que as nações ricas lideraram outro movimento parecido, chamado Breton Woods, que definiu as regras para a economia global na época.

Mas… se o dono do caminhão ambulante que vende comida não conseguir pensar de outro jeito. Se os clientes dele não olharem para longe do próprio umbigo, vai ser difícil pensar num outro recomeço. O ideal? Ah… o ideal seria que o caminhão ambulante chegasse cedo, saísse cedo, obrigasse toda gente a usar máscaras e não pusesse mais do que duas ou três mesas para aqueles que quisessem descansar o esqueleto por poucos minutos ao beber sua cerveja.

O ideal também seria que o caminhão ambulante, mesmo sem ser obrigado pela Prefeitura, trouxesse pás, desinfetantes, rodos e se pusesse a esfregar o chão que lhe possibilitou ganhar tostões. E olhasse o entorno, e pensasse de forma educada e gentil naquela gente que ali mora há décadas e décadas, gostando de poder dividir seu espaço com pessoas que o respeitam. Simples assim.

Isto, simples. Estou simplificando algo muito, muito maior. Estou usando uma metáfora, é claro. Mas, no fundo, o micro exemplo que dei pode ser pensado no macro. Se os líderes em Davos começarem a escrever seu novo tratado de convivência humana com a palavra respeito, já podemos nos sentir contemplados.

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