Por que não transformar palácios em hotéis?

Comecei meu dia com uma notícia. Bem, na verdade, para jornalistas isso não é novidade, portanto nem deveria estar na primeira linha do meu texto. Vou escrever, então, de outra forma: comecei meu dia com uma notícia que me chamou a atenção. Assim fica melhor, embora nesse momento que vivemos, em que é preciso sempre tomar algum lado – um e outro – também não seja, exatamente, um início de texto que atraia os leitores.

Vou direto ao ponto, portanto: uma amiga, num grupo de amigos jornalistas, mandou-me um “zap” com um tópico da coluna do Lauro Jardim, no Globo, em que se lê que o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, quer transformar o Museu do Jardim Botânico em hotel-boutique.

Pronto. A notícia veio endereçada a mim, no grupo, e eu imediatamente me senti na obrigação de opinar. Essa é outra das reações recorrentes de nossa era pandêmica, do gueto dos isolados com máscaras. Em vez de cafezinho no corredor, debatemos online. Se antes já era difícil criar um hiato, uma hesitação, um tempo para resposta, agora ficou muito mais. Ansiosa como sou, vou logo respondendo, buscando uma posição contra ou a favor, para não ficar fora da onda. Nesse caso, lembrei-me de quão predatório pode ser o turismo, pensei naquelas lindas plantas do Jardim Botânico sendo pisoteadas por crianças, adultos e jovens em férias. Fui além, fantasiei até as toalhas de piquenique com quadradinhos vermelhos e brancos sobre a grama de um território criado no início do século XIX.

Aqui vale contar rapidamente que o Jardim foi fundado em 1808 com uma decisão de D. João XVI: ele quis erguer naquele território uma fábrica de pólvora (?) e um “jardim para aclimatação de espécies vegetais originárias de outras partes do mundo”. Esta última citação que pus entre aspas está no site do próprio Jardim Botânico. E o ponto de interrogação é meu, porque realmente não consigo entender o que se passou pela cabeça do regente, ao misturar pólvora e plantas. Logo, logo, ficou claro que o que ele queria, obviamente, era lucrar. Trouxe chineses para ajudá-lo e começou a plantar chá… numa terra dos trópicos, quentíssima. Ninguém gostou, e o plano foi abortado.

O Jardim Botânico de hoje é um território cuidado, um oásis no barulho da cidade, local de lazer de famílias, mas um lazer que tem regras. O Museu do Meio Ambiente, que corre risco de virar boutique, é um espaço para exposições e já foi muito usado para programas educativos. No tempo em que Samyra Crespo era diretora do Jardim, fui a várias palestras sobre o Rio de Janeiro, aprendi muito sobre urbanização, sobre memória urbana, sobre a história da cidade.

São valores intangíveis. Não será transformado em dólar, não vai atrair divisas como um hotel, mas ajuda a ampliar o hábito de pensar, instiga a curiosidade. É como um alimento. Não custa lembrar, sobretudo num momento como o que estamos vivendo. Entendo que é preciso lucrar, mas gosto da provocação que o célebre Noam Chomsky faz num de seus livros: vamos privilegiar o lucro ou as pessoas? O que seria de um sem o outro?

Sou contra, portanto, trocar um museu por um hotel.

Mas, no próprio “cafezinho online” da minha turma, alguém lembrou que um bom hotel traria muitas divisas. E não é disso que essa nossa tão combalida cidade anda precisando nesse instante? Não importa muito se estamos à míngua por conta de tantos maus feitos, não importa muito, nesse debate, que já se prendeu o sexto governador do estado. O que importa é o hoje.

Pois, justamente! Não é que me deu uma ideia que pode acomodar a real necessidade de lucro com a revitalização do Centro – proposta da nova prefeitura, descrita numa bela reportagem do repórter Luiz Ernesto Magalhães no Globo de hoje? Darei aqui, assim, minha modesta colaboração ao novo prefeito e sua equipe.

Em vez de trocar um Museu por um Hotel, e considerando que o propósito do ministro seria oferecer aos turistas um lugar bucólico e arborizado para passar alguns dias na cidade praiana, por que não lhes dar mais do que isso? Por que não presentear os turistas com dois palácios?

O primeiro deles é o local de trabalho do prefeito, fica ali na Rua São Clemente, coração da Zona Sul da cidade, chama-se Palácio da Cidade. É bem mais novo do que o Jardim Botânico, por isso pode aguentar mais os trancos da turistada. Pertence à Prefeitura mesmo, a quem foi vendido em 1974.

Agora, o melhor da história: para revitalizar o Centro, o prefeito Eduardo Paes pode ocupar um dos prédios que hoje estão praticamente às moscas. Dia desses, li uma nota dizendo que a Vale estaria devolvendo o prédio que ocupava, na Avenida Graça Aranha, já que seus funcionários continuarão trabalhando em casa. Acabou-se a hora do cafezinho na mega empresa, e isso não é nada bom, mas é conversa para outro post.

O outro local que seria excelente para abrigar turistas em busca de uma paisagem bucólica, é o Palácio Guanabara, na Rua Pinheiro Machado, hoje ocupado pelo governo do Estado. O local já foi até residência da Princesa Isabel, mas recebeu várias reformas antes de ter sido definitivamente doado pela União ao governo do Estado.

 Já que o prefeito Paes chegou com discurso de conciliação e diálogo, não custaria nada tentar convencer o ministro Salles a renunciar a um museu para ocupar dois palácios. A troca parece até mais lucrativa.

O governo do Estado também poderia ser transferido para outro prédio no Centro. Já imagino aquelas ruas, hoje fantasmas, depois da vacina, pulsando novamente, com funcionários procurando restaurantes à hora do almoço, com bares e seus happy hour, com o Metrô funcionando a contento… Como em qualquer grande cidade que não tenha virado fantasma.

Fica a sugestão. Não é nada, não é nada, mas, como diria Hannah Arendt, nunca se deve jogar fora um pensamento.  

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Boa série na TV ajuda a refletir sobre a cidade que queremos

Um cheiro forte que remonta a coisas úmidas andava me incomodando  sempre que eu abria a porta do apartamento que alugo. Construído sobre uma pedra, o prédio já tem mais de seis décadas, e parece que a tubulação ainda é original. O cheiro aumentou e a causa dele começou a aparecer, fisicamente, na parede da minha sala que é contígua ao banheiro.

Para minha sorte, tenho uma ótima relação com a locadora. Chamei o técnico, quebrou-se a parede, trocou-se piso, e o custo dessa imensa obra vai ser descontado do aluguel. O custo monetizado, quero dizer. Porque ficar sob uma torrente de poeira e barulho durante quase quinze dias custou-me um pouco mais.

Estou contando tudo isso para explicar parte do motivo que me fez estar afastada aqui do blog. Mas estou de volta. Noves fora, ficou um alívio e tanto. O cheiro forte acabou, a mancha de umidade se foi. Pedi para o Sr. Luis, empreiteiro que tocou a obra, botar manta no piso do box e envolvendo o barbará.  Em conversa com meu médico homeopata, ainda por cima fiquei feliz por ter tido a coragem de me submeter ao atravancamento e desconforto. É que a umidade pode ser causa de inúmeros problemas de saúde, dos quais posso ter me livrado… ou não. Estou com uma questão nos olhos que pode ser resultado da umidade, sob investigação.

E, com isso, ainda ganho panos para mangas compridas de reflexão. Andamos tão preocupados com saúde por causa da pandemia que a gente talvez se esqueça de que este é um tema que exige uma visão ampla, integrada. Por isso estou trazendo o assunto saúde num texto que começa falando sobre… moradia.

Lembro-me bem de uma reportagem de dezembro de 2011 feita pela repórter Martha Neiva Moreira para o caderno “Razão Social”, que eu editava no jornal “O Globo”, em que focamos a questão das moradias contíguas, em becos, ruelas, porões na Rocinha e em tantas outras comunidades, e o mal que isso faz à saúde dos moradores. Martha visitou a favela para fazer a reportagem, e voltou de lá impactada.

“A grande quantidade de gente dividindo um pequeno espaço, somada à sujeira, falta de sol nos becos estreitos e umidade nas paredes é receita infalível para a proliferação de várias doenças que têm seu vetor na relação entre adensamento demográfico e falta de infraestrutura sanitária”, escreveu ela. Na época dessa reportagem havia 425 pessoas em tratamento contra a tuberculose e 75 novos casos haviam surgido.

Como nada acontece por acaso, enquanto refletia sobre as manchas de umidade no pequeno apartamento que ocupo, lembrando-me da situação extremamente mais vulnerável que acomete aquelas pessoas, recebi mensagens de duas amigas sobre a série “Cidades Possíveis”, dirigida por Eduardo Goldenstein, que vai estrear no canal Curta! a partir do dia 5. Martha Ferraris, a diretora de produção da série, contou-me, tempos atrás, como ficou emocionada com a proposta de trabalhar no projeto. Anteontem lembrou-me disso, e me convidou para assistir o resultado.

Outra amiga, Katia Carneiro, mandou-me por email três episódios. Um deles, especificamente, tem a ver com a reflexão que estou propondo aqui. “Cidades possíveis” é um processo, que se propõe a dar uma visão sobre como algumas cidades conseguem vencer alguns dos enormes desafios que enfrentamos nas megalópoles. A equipe percorreu o Brasil de Mossoró à Foz de Iguaçu, do Alto Paraíso a Salvador, das grandes metrópoles  como São Paulo, Rio e Belo Horizonte a pequenas cidades como Entre Rios do  Oeste e Piranhas.

 No episódio “Habitação Digna”, Goldenstein mostra como é necessário fazer oposição a um plano habitacional que não contempla a todos.

A urbanista Erminia Maricato, uma das entrevistadas, dá a visão histórica e lembra o grande nó do imbróglio em que nos metemos, nós, a atual civilização que prefere potencialmente viver nos centros urbanos e não no campo. No início do século XX, apenas dez por cento moravam nas cidades aqui no Brasil. Um século depois, já somos 84%, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicíio (Pnad), de 2015.

“Nós praticamente nos urbanizamos no século XX. Vivemos mais de 350 anos como escravos, é muito tempo para a história de um povo e é muito tempo para deixar de ter uma marca fortíssima que temos até hoje.  Até 1850 as terras eram da Coroa e a discussão da apropriação das terras tem uma simbiose com a libertação dos escravos. A elite se apropriou de terras para aceitar a libertação. Essa marca é central na história do Brasil”.

Erminia se pergunta: “O que é prioritário nas nossas cidades?” O mercado residencial brasileiro não chega nem a 50% da população, lembra a urbanista, e a maior parte das habitações é construída pela própria população, sem lei e sem acompanhamento técnico.

Resultado direto dessa ocupação desordenada é a incidência de doenças respiratórias e alergias em crianças de favelas. A reportagem que editei em 2011 mostrou isso. Quatro anos depois, uma equipe de repórter do jornal El País esteve no mesmo local e retratou situação semelhante (https://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/01/politica/1441120198_053979.html). Nada mudou.

Henrique Silveira, coordenador executivo da Casa Fluminense, é outro entrevistado de “Cidades Possíveis”, que irá ao ar sempre às 19h. Silveira lembra que o futuro das cidades tem que passar pelo Centro, um lugar importante e que deveria ser prioritário para a construção de novas habitações, já que tem muita oferta de trabalho. Seria, basicamente, uma lição de casa para todos os candidatos que estão tentando ocupar a vaga da prefeitura das cidades a partir de janeiro do ano que vem.

Pensando bem, “Cidades possíveis” bem poderia ser um documentário de cabeceira para os candidatos. Não só porque toca nos temas sensíveis, quanto porque mostra soluções viáveis. A série terá 13 episódios, cada um com um assunto relevante. Vou focar no da Habitação, que me afeta bastante. E vocês já devem estar se perguntando qual a solução que ele aponta para uma situação que nos parece cada vez mais complexa, sobretudo quando caminhamos pelas ruas pandêmicas e vemos a quantidade triste de pessoas que são obrigadas a dormir ao relento porque não têm casa para morar.

Sim, é possível mudar isto. E a solução não passa por “unidades de moradia”, aquelas que são construídas distante de tudo.

A história do edifício Dandara, no Centro de São Paulo, contada por Evaniza Lopes Rodrigues, militante da União Nacional por Moradia Popular, é prova de que as pessoas conseguem ser protagonistas. Basta organização. O prédio estava abandonado, como tantos outros estão também aqui, no Centro do RIO. Pessoas que necessitavam de um teto, baseando-se sobretudo no que diz a Constituição do país, que garante o direito de os cidadãos terem moradia, foram à Justiça e reivindicaram o benefício. Não foi fácil, mas hoje está tudo funcionando e os 120 apartamentos estão ocupados por pessoas que, no passado, poderiam estar engrossando a fila de tuberculosos nos corredores do Sistema Único de Saúde.

“Não faltam planos, não faltam leis e não falta conhecimento técnico. Falta justiça”, arremata a urbanista Erminia Maricato.

Tem muito mais chances de reflexões em outros episódios, como o que versa sobre agricultura urbana ou sobre a importância da água em nossas vidas de citadinos. Vale a pena assistir e debater.

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O valor da vida, o valor da liberdade

O que você traz sobre os ombros que lhe pesa tanto?

A vida? Mas ela é leve quando se sente, quando se intui.

O que faz sua coluna se arquear tanto, em busca do chão?

Os cabelos raros e brancos estão se movendo à mercê do vento gostoso, fresco, que está soprando no instante. Mas você anda tão carrancudo, que é capaz de nem ter sentido a brisa no rosto.

 Desarme esta postura caída, encha a barriga de ar, solte o ar também pela barriga. Tire a máscara um instante, um instante só não vai te fazer mal. Veja: não há ninguém ao seu lado que possa lhe transmitir o vírus.

Na úmida manhã de domingo, primavera de 2020, ele passou por mim. E quase fui, abusada, trocar com ele alguns pensamentos. Teria dito tudo isto aí em cima. Teria desejado, ao final de nossa conversa imaginária, que ele abandonasse as representações e apenas vivesse. Um homem idoso e um peso enorme sobre os ombros.

Ando pensando sobre o valor da vida. Não pode ser menor do que a indignação com o salário, o desemprego, a desigualdade, os políticos. Não pode ser menor do que os credos. Não pode ser menor do que a raiva, do que as desavenças de opiniões. A vida é mais! E, quando ela acaba, é num sopro.

Adoro ouvir boas notícias, sobretudo nesses tempos sombrios. Tantas pessoas carregando na rua o peso de seus pensamentos não bons…

Pois M., cujo nome não tenho liberdade para revelar, ligou-me esta semana e me encheu de alegria. Nos falamos com alguma frequência desde que tudo começou, o isolamento, a pandemia, tudo. Desde que tudo virou pelo avesso aquilo que considerávamos normal. M. vinha aqui em casa uma vez a cada quinze dias e me ajudava a manter limpo o meu espaço.

“Dona Amelia, está tudo bem comigo, com minha família. Mas acho que, se um dia a senhora voltar a precisar de minha ajuda, não vou poder lhe atender. Porque estamos vendendo bolos, empadas, pão de queijo, numa barraca aqui perto de casa. Foi o jeito que conseguimos de continuar pagando contas, comendo. E está dando muito certo! Eu trabalho muito, viu? Não vou lhe enganar não. Meu marido, meus filhos, todo mundo na luta. Fazemos entrega, eu cozinho até de madrugada e abrimos a barraca às nove. Fechamos às oito. Mas o que importa é que está indo bem. Eu indico alguém, se a senhora precisar, viu? E um dia, quem sabe, consigo ir aí levar um bolo de pote que faço. Todo mundo gosta.”

M. não me parecia, exatamente, feliz. Mas, aliviada, isto sim. Foi um sopro de vida a ideia de fazer coisas para vender. E está dando certo!

Olhem a coincidência: dia desses, no “Papo com Favela”, programa que o jornalista Andre Balocco apresenta às terças e sextas às 19h no seu Instagram, ele entrevistou Rita Afonso. Professora da UFRJ, uma pessoa única, inteligente e cheia de energia, ela se tornou minha fonte quando eu editava o “Razão Social”. Daí se tornou amiga. Ela foi apresentar o programa de extensão da UFRJ chamado Manamano. É bem sugestivo: a universidade juntou-se a algumas organizações da sociedade civil para criar um Fundo e, assim, ajudar pessoas da periferia, de comunidades, como aquela em que M. vive, a empreenderem. Quem quiser, pode doar, é só entrar no site http://www.manamano.org.br . A meta é arrecadar R$ 2,6 milhões no primeiro ano, beneficiando 700 empreendedores.

  Empreender quer dizer pôr em execução, realizar, tentar.

Rita Afonso está tentando e está conseguindo. Também foi uma boa notícia. No dia 22 de setembro, o projeto reuniu algumas pessoas numa live, para apresentá-lo.  Uma das futuras beneficiadas foi entrevistada. E contou uma história tão parecida com a história de M. que me fez refletir.

Primeira reflexão: a pandemia está mudando o rumo dos acontecimentos para muita gente. Deu um sacode, como num trem cheio, e juntou as pessoas, que bom. Solidariedade, no dicionário, é descrita como um “compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras”. Não sei se concordo com uma definição assim tão rígida. Ou… posso preferir outra palavra: contato. É, a pandemia isolou muito mas, ao mesmo tempo, tem convidado a fazer contato, mesmo que seja por este meio esdrúxulo, o virtual. As pessoas estão contando suas histórias, e quem sabe pôr a mão na massa, vai à luta, anda conseguindo.

Há outras tantas nuances socioeconômicas da Covid nada positivas, claro. Como, por exemplo, o fato de ela deixar transparente também um dos maiores males que assola os homens hoje, a desigualdade.

Segunda reflexão, e aqui eu vou fazer o link com o personagem que me inspirou a começar este texto. A doença escancarou a necessidade de rever nossos valores. Em outras palavras: a doença escancarou a necessidade de darmos mais valor à vida do que a qualquer, eu disse qualquer, outra coisa.

Estou falando de todas essas coisas que andam nos deixando de ombros caídos, coluna mais curva, quer seja aos 80 (idade próxima do meu personagem), aos 60, aos 20. Na semana que acabou, no meu grupo de estudos (agora virtual), o professor Gustavo Vasconcellos falou-nos em Vida Zoé. Busquei descobrir: é a palavra original, grega, para designar Vida, mas uma vida que pertence a Deus. Eu quero a vida que vem da arte, da filosofia, e que me pertence. Eu quero refletir com informações variadas. Eu quero ler muito, ouvir muito, falar muito.

Sobretudo, quero a vida que possa ser vivida, que não esteja amarrada em assuntos dos quais eu não posso dar conta. Quero vida para respirar, para refletir, para caminhar. E preciso de capital para isto. Precisamos todos. Criamos um mundo que não nos deixa outra opção. Mas, gente, viver é SER. Viver não é TER. Quero fazer acordos com minhas necessidades, cortar alguns desejos, compor com o tempo para viver.

Li, dia desses, uma notícia sobre o resultado do estudo “Covid, Classes Econômicas e o Caminho do Meio: Crônica da Crise até Agosto de 2020”, da FGV Social, dando conta de que a pobreza no Brasil alcançou o nível mais baixo de toda a série. Neste estudo, entende-se como indicativo de pobreza uma renda mensal de até R$ 522,00. Como o parlamento decidiu instituir um auxílio emergencial para os cidadãos brasileiros de R$ 600,00, essas famílias dobraram de renda. E começaram a comprar, o que “ajuda a aquecer a economia”. E passaram para a classe C.

“O trabalhador (…) é reconhecido como membro útil à sociedade e pode criar uma narrativa de sucesso relativo pela sua trajetória pessoal…. Destrói-se a grande fábrica fordista e transforma-se o mundo inteiro numa grande fábrica, com filiais em cada esquina, sem lutas de classe, sem sindicatos, sem garantias trabalhistas, sem greve, sem limite de horas de trabalho e com ganho máximo ao capital. Esse é o admirável mundo novo do capitalismo financeiro”.

Tirei o trecho acima do livro “Batalhadores brasileiros” (Ed. Humanitas), obra escrita pelo professor, sociólogo e  ex-presidente do Ipea Jessé Souza (com colaboradores), em 2010. É um livro fundamental para se entender o processo de vida versus trabalho. Ou, de como o trabalho passa a ser o mote da vida. E mostra também como o fenômeno não é novo, não é só na pandemia que tem acontecido. Hoje, na verdade, tais situações têm sido mais vistas e estão arrebanhando ajuda, o que é muito bom.

O que mais gostei nos relatos que descrevi lá em cima foi da união das pessoas. Fiquei imaginando, e minha imaginação é fértil, todo mundo feliz com o sucesso, dando-se conta de que precisavam tirar um dia, ao menos, da semana, para usufruir disto como quisessem. No meu cenário ideal, eles iriam para um parque bonito, devidamente protegidos, e ali passariam o dia a fazer um bom piquenique, a ver patos em lagos e crianças brincando em terra.

Temo que não seja isto. Temo mais: que parte do capital conseguido a partir de tanto esforço fique na farmácia do bairro, com remédios para suprimir dores e alterações orgânicas por conta do excesso de tensão.

Antes que me condenem por estar fora da realidade do país e do mundo, ou por focar numa “agenda de esquerda”, gostaria de citar aqui um trecho da fala do ex-presidente Pepe Mujica, que já recebeu a alcunha de “o presidente mais pobre do mundo”:

“A única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é miserável gastar a vida para perder a liberdade” (Pepe Mujica em 18 de setembro de 2015).

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Conversa sobre o mundo caótico que nos cerca

Não tenho Jamil Chade e Ruth Manus em minhas algo descuidadas listas de contato em redes sociais. Mas, neste fim de semana, foi como se eu estivesse conversando com os dois em longos e proveitosos e ricos diálogos por WhatsApp. Recebi da Editora Sextante o livro “10 Histórias para tentar entender um mundo caótico”, escrito pelos dois, e só despreguei os olhos do texto para dar conta de afazeres domésticos de fim de semana e para assistir a live do Festival Livmundi (https://www.youtube.com/watch?v=AIuNr3SU_FU ) com a imperdível conversa entre Pepe Mujica e Noam Chomski. Ou seja: foram dois dias em que mergulhei fundo na proposta que o título do livro apresenta.

Chade e Manus não têm pretensão alguma de encerrar o complexo tema ao qual dedicaram seu livro. Vê-se isto pelo título: eles vão “tentar” entender um mundo assombroso como o nosso. Para isso, partem de conversas entre os dois, que foram atravessadas pela pandemia. Ela mora em Portugal e é advogada, escritora, professora e mestra em Direito do Trabalho.  Ele mora na Suíça, é jornalista que já cobriu eventos internacionais de causar inveja a qualquer colega (a viagem do Papa Francisco ao Brasil entre eles). Em comum têm o olhar que vê além e muita, muita estrada.

Na entrevista que deram ao sociólogo, escritor e professor Jessé Souza em seu canal (https://www.youtube.com/watch?v=38ebuElnscs) (que, aliás, também recomendo), explicaram o método de criação. A ideia foi elencar dez temas sensíveis e, a partir de histórias vividas por cada um, ampliar pensamentos num diálogo possível por conta da internet.

Não é fácil apontar trechos prediletos do livro para fazer uma resenha porque são todos muito ricos e com muitos dados. Sério: é um livro imprescindível à estante de qualquer um que não queira passar por este momento a ver navios ou colhendo amoras fictícias num jardim florido artificialmente. Considerando o momento tenso que estamos vivendo por conta da pandemia, o diálogo sobre Saúde que os dois descrevem no livro deixou-me verdadeiramente impressionada.

A capa do livro, editado pela Sextante

 A pandemia do coronavírus, que paralisou o mundo por um tempo e continua deixando em pânico os habitantes da base da pirâmide social, já era prevista pela Organização Mundial de Saúde (OMS), conta Jamil Chade.  Mas não era uma previsão assim, sem substância. Os membros da instituição, cuja sede fica em Genebra, cidade que Chade escolheu para morar, já temia, há anos, “o desembarque de uma doença que poderia ter um impacto devastador”. Fato é que o alerta foi dado. Fato é que ninguém escutou, que não chegou, por exemplo, aos meus ouvidos.

Seria diferente se eu soubesse, em 2018, que dois anos depois o país e o mundo enfrentariam uma crise deste tamanho? Talvez eu pudesse ter feito outras opções, guardado algum dinheiro. De qualquer forma, como lembra Ruth Manus, “Nós tínhamos o direito de saber”.

Chade conta que existem 1,6 milhão de vírus desconhecidos no planeta, dos quais até 800 mil poderiam atingir as pessoas. Este afinco jornalístico por dados é o que mais me orgulha da profissão que escolhi. E sabem quanto os cientistas conhecem desses vírus plenamente? Apenas 0,4%.  Por causa disso, para tentar ampliar um pouco este portfólio de conhecimento científico, a OMS decidiu reunir uma elite de profissionais  em volta de uma mesa com a nobre função de encontrar caminhos que possam livrar a humanidade de tantos males.

Um dos cientistas que fez parte da reunião foi Peter Daszak, que se tornou fonte de Chade e contou-lhe que aquele debate levou à escolha de áreas prioritárias de pesquisa e à definição de uma lista das maiores ameaças ao planeta. Febre Hemorrágica Crimea-Congo, Ebola, Lassa (vírus que causa febre na Nigéria), Mers-CoV, Sars e até o Zika.

“Mas havia ainda outra ameaça: a de uma pandemia a partir de um agente desconhecido. Ao final de uma das reuniões em Genebra, um dos membros do grupo sugeriu um nome para essa ameaça: ‘Doença X’”, relata Chade.

E no dia 7 de fevereiro de 2018, o alerta foi dado a todos (eu disse todos) os governos do mundo. A ideia era que houvesse uma grande estratégia, assim como fazem os países que se sentem ameaçados por guerras, mas desta vez em torno da vida dos habitantes do planeta. Afinal, no cenário desenhado pelos cientistas, a Doença X seria letal para uma parcela da população. E proliferaria justamente pelo fato de não ser tão violenta e rápida como o Ebola. Muita gente, sem sintomas ou com um leve mal-estar, continuaria trabalhando e contaminando outros que, por terem um sistema imunológico menos forte, poderiam ser fatalmente infectados.

Como se sabe, a mobilização internacional jamais ocorreu. Num outro encontro com Daszak, já com a pandemia instalada, Jamil Chade puxou o assunto e ficou sabendo que a Covid-19 não é a Doença X:

“Ela é apenas a primeira Doença X. Outras virão. Será que desta vez vamos dar ouvidos à ciência?”, pergunta-se ele.

Já que me senti conversando por zap com os dois, ouso dar um pitaco neste diálogo. Minha resposta é não. Afinal, há uma onda, entre os governos populistas, de negação da ciência. Como lembra o professor Luiz Marques, de “Capitalismo e Colapso Ambiental” , a ciência só é ouvida quando traz boas notícias, quando anuncia uma nova droga ou leva o homem ao espaço.

 O negacionismo se estende também às questões climáticas, outro tema elencado no livro. Mas, como lembra Chade neste quesito, “o negacionismo não é só daqueles que não acreditam na ciência. Há quem recorra a ele para sobreviver economicamente”.

Aqui, deixo-me levar pelos pensamentos de Noam Chomski e Pepe Mujica, na live que assisti no sábado, como já contei a vocês. Para o ex-presidente uruguaio, a doença maior se chama “o sucesso do capitalismo”. Temos que mudar o conceito de felicidade, lembra ele. O diálogo é perfeito também com a definição de felicidade no capítulo cuja história principal é contada por Ruth Manus.

Numa viagem a Tam Coc, no Vietnã, Manus contrata um remador para levá-la num passeio pelo rio sob uma paisagem deslumbrante. O nome dele é Lam. Com um único dente na boca, possivelmente Lam passou grande parte dos seus quase 70 anos no mesmo local, remando rio abaixo, rio acima. E quando Manus decide, com a ajuda do tradutor do Google, perguntar se ele é feliz, sua resposta foi com um simples e significativo gesto: “Levantou o braço direito e, com ele, percorreu a paisagem”. E como não ser feliz ali?

O livro não desconstrói, mas compõe dados e a vivência dos autores a uma necessidade de romper com a narrativa presente e criar outra. Mais ampla, que considera, inclusive, a individualidade, as diferenças, como parte desse mundo caótico. Corrupção, violência, desigualdade, racismo, também compõem a narrativa, que inclui o amor. Não o sentimento hollywoodiano, tampouco aquele que é cooptado pelos populistas – amor à Pátria, lealdade a identidades construídas! Mas a sensação necessária para se ter o desejo de defender direitos básicos. Nossos e dos outros.

Poderia escrever telas e telas sobre o livro, trazer dados que chocam, analisar algumas falas. Mas prefiro sugerir que comprem. E termino o texto com outra provocação de Pepe Mujica na linha que nos leva a cumprir esta nova caminhada que a pandemia está exigindo. Com um olhar mais humano do que financeiro, mais solidário do que isolacionista:

“Temos que mudar o conceito de felicidade. Ser feliz é ter tempo livre para você usar como quiser”.

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Um abc para o Grande Reinício da humanidade

Uma rua tranquila que merece continuar sendo tranquila

Era  uma vez uma rua tranquila que fica num bairro outrora muito nobre, numa cidade outrora maravilhosa. A rua tranquila era tão calma que afastava pessoas mais elétricas, executivos e executivas plugadas o tempo todo em dois ou três celulares, aqueles que trabalham 24/7, que caminham com um dispositivo no ouvido para ouvir o de sempre, sem se abrir ao novo. Porque na rua tranquila, se você andasse prestando atenção, podia ouvir passarinhos ao monte, latidos, miados, até mesmo a brisa tocando de leve as folhas. E não passava um quarteirão sem se dar um tchau para alguém do outro lado, sem se desejar bom dia, boa tarde, boa noite. A rua tranquila era uma uma rua que convidava ao contato real. Não virtual.

Aos sábados, porém, a rua tranquila se transformava por causa da feira livre. Tinha gente que gostava, tinha gente que não gostava. Aqueles que faziam contato achavam que a feira dava uma chance a mais de afeto. E de escolher seus produtos como se estivessem escolhendo na horta de casa. Os mais ansiosos viam sujeira e bagunça, se incomodavam até com o grupo de chorinho que enchia a praça de som e gente.

A feira foi ficando famosa. E atraindo pessoas que vinham de outros bairros até. Em vez de a rua ser ocupada só por comerciantes de banana, maçã, laranja, outras frutas e legumes, vieram também os vendedores de produtos prontos, feitos artesanalmente. Afinal, aquele era um espaço privilegiado por pessoas mais sensíveis, que sabem muito bem distinguir o gosto de um produto feito por mãos daquele outro, feito por máquinas. E a feira foi ficando mais e mais cheia.

Até que um dia, estacionou ali um caminhão, desses que recebem o nome estrangeirado de food truck, mas que não passa de um velho e bom ambulante sobre quatro rodas. Assim que parou, abriu a lateral e se transformou numa lanchonete, vendendo comida japonesa. O povo, no início, se espantou. Mas, como a rua é ocupada por uma maioria de democratas, todo mundo pensou: “Ora, é mais um a tentar se safar como pode dessa crise financeira que assola o mundo, o país, o estado, a cidade”. E teve quem até gostou, indicou para amigos. E a feira foi ficando ainda mais cheia.

O caminhão ambulante que vende comida costumava chegar cedo e ir embora às 15h, quando a feira precisa acabar, segundo as leis que buscam dar alguma organização aos espaços urbanos que são de todos. 

E veio a pandemia. Nos primeiros dias, todo mundo ficou com muito medo, a rua se vestiu de cinza. Usando máscaras fica difícil desejar bom dia, boa tarde, boa noite. E era preciso respeitar o que diziam os cientistas, os médicos: “Vamos ficar isolados porque assim a doença não se alastra de uma vez só. Não temos camas em hospitais para atender todo mundo”. Mesmo achando um absurdo que os impostos pagos não tenham sido empregados como deveriam, todo mundo na rua obedeceu. E, pela primeira vez em décadas, houve um sábado sem feira na rua. 

Mas o tempo foi passando, a pandemia não. O dirigente maior do país decidiu não acreditar na Ciência e mandou todo mundo ir para a rua, ordenou que o comércio se abrisse, que os ambulantes vendessem porque senão o país ia quebrar economicamente. Como se, antes, a gente já não estivesse numa crise de causar insônia em toda gente que não pertence à classe mais rica.

E, pouco a pouco, a rua tranquila foi se enchendo de novo. Aqui e ali soubemos de casos de vizinhos que se foram, levados pela Covid. Lamentávamos, sacudindo a cabeça, tristonhos, sem graça ou jeito de continuar, mas a vida quer passar, fazer o quê? Uns e outros retomaram suas rotinas e a pandemia virou assim um dente quebrado na boca, que a gente só se lembra quando passa a língua sobre ele.

O desemprego aumentou e mais pessoas precisaram vir para a rua tentar ganhar algum dinheiro vendendo coisas. Bolos, tortas, brigadeiros, pães, plantas, roupas velhas, artesanatos, de tudo tinha um pouco na feira dos sábados. Os moradores da ruazinha outrora tranquila iam se acostumando, afinal era um dia só, mas sem muito jeito de gostar. Até porque, mesmo com tantos avisos de que era preciso evitar aglomerações por causa da pandemia, não tinha como botar na cabeça dos feirantes que era preciso usar máscaras, mandar fazer fila, nada disso. A feira voltou a ser como antes, só que mais cheia e bagunçada.

E o caminhão que vende comida, ah este aí exagerou na dose do desrespeito a todos os avisos. Sem obedecer a nenhuma regra, espalhou cadeiras, mesas, vendeu bebidas a toda gente. E, como se sabe, muita gente decidiu aderir ao negativismo ignorante do mandatário mor, e mandou às favas até o uso de máscaras. O caminhão ambulante, assim, começou a fazer tanto sucesso que seus clientes vinham de longe. Pouca gente da ruazinha tranquila frequentava.

Em vez de fechar as portas e recolher tudo às 15h, como manda a lei, o dono do caminhão encheu os olhos com a chance de ganhar mais e mais. E passou a fechar tarde da tarde, só lá pelas 18h! E a paciência dos moradores foi se acabando, todo mundo passou a olhar com raiva o caminhão ambulante que só quer acumular mais e mais dinheiro, sem ter respeito pelos outros. Quando se vai, deixa ainda um cheiro horrível de peixe cru na ruazinha outrora tranquila. 

Esta história ainda não acabou, mas serviu para me ajudar a pensar sobre o tal “mundo que queremos”, slogan adotado, no momento, por dez entre dez economistas, financistas, chefes de nação e empresários. Tanto que já está tudo pronto para a macro reunião que acontece todos os anos na cidade suíça de Davos, na Suíça, e que se chama World Economic Forum (WEF). O tema da reunião de janeiro de 2021, que vai acontecer online, será: “O grande reinício”, ou “The Great Reset”.

Fico animada com a possibilidade de se pensar em virar a chave, em recomeçar tudo sob novos parâmetros, novos pensamentos. Um refresh no mundo, é do que precisamos. Estamos quase tão machucados e feridos quanto estava toda gente no fim da II Guerra, tempo em que as nações ricas lideraram outro movimento parecido, chamado Breton Woods, que definiu as regras para a economia global na época.

Mas… se o dono do caminhão ambulante que vende comida não conseguir pensar de outro jeito. Se os clientes dele não olharem para longe do próprio umbigo, vai ser difícil pensar num outro recomeço. O ideal? Ah… o ideal seria que o caminhão ambulante chegasse cedo, saísse cedo, obrigasse toda gente a usar máscaras e não pusesse mais do que duas ou três mesas para aqueles que quisessem descansar o esqueleto por poucos minutos ao beber sua cerveja.

O ideal também seria que o caminhão ambulante, mesmo sem ser obrigado pela Prefeitura, trouxesse pás, desinfetantes, rodos e se pusesse a esfregar o chão que lhe possibilitou ganhar tostões. E olhasse o entorno, e pensasse de forma educada e gentil naquela gente que ali mora há décadas e décadas, gostando de poder dividir seu espaço com pessoas que o respeitam. Simples assim.

Isto, simples. Estou simplificando algo muito, muito maior. Estou usando uma metáfora, é claro. Mas, no fundo, o micro exemplo que dei pode ser pensado no macro. Se os líderes em Davos começarem a escrever seu novo tratado de convivência humana com a palavra respeito, já podemos nos sentir contemplados.

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Reflexões errantes sobre a Primavera de 2020, o ano que se quer esquecer

Um pé de açaí na região do Bailique, arquipélado do Amapá. Foto tirada em viagem que fiz em 2015 ao local

Tem uma linda erva daninha crescendo e tirando a força da amendoeira aqui perto de casa. Cada vez que passo por ela tenho sentimentos diversos, que vão desde um profundo contentamento pela beleza de suas pequenas folhas até indignação: como podemos deixar matar uma árvore tão linda?

Nada como falar sobre plantas e árvores e natureza no dia em que a Primavera de 2020 desponta, trazendo uma enxurrada de água dos céus aqui no Rio. O isolamento social que venho respeitando de forma mais comedida me fez desenvolver um olhar mais acurado ao meu entorno. Minha rua virou meu mundo. Talvez esteja sendo um pouco dramática, mas a ocasião exige.

Por coincidência, encontro nas páginas de “Revolução das plantas”, de Stephano Mancuso – livro que, como já comentei aqui no post anterior, não tem saído de minha cabeceira – uma bela menção às ervas daninhas.

“Sempre amei ervas daninhas; sua capacidade de sobreviver onde não são desejadas sempre me fascinou, assim como sua inteligência e adaptabilidade”, escreve o autor.

Na mesma obra, descubro que o centeio, um cereal, uma gramínea, tido como menos nobre do que o trigo e usado hoje basicamente para alimentar gado, já foi erva daninha, vejam só! Mas isto foi há onze mil anos, quando o homem saiu da condição de nômade para ser sedentário. Em outras palavras, quando o homem preferiu se entregar ao conforto de poder plantar e colher num só lugar, perto de casa, sem ter que suar para correr atrás de sementes e de alimentos. Pensando bem, talvez tenha sido ali o começo de todos os nossos problemas. Até porque, alguns muitos anos depois, a humanidade percebeu também que poderia… ganhar dinheiro com os alimentos. E mais: que poderia investir em alimentos, transformá-los em capital fictício.

Daí para o discurso do presidente Bolsonaro hoje na ONU, quando ele diz que o mundo nunca precisou tanto do Brasil para se alimentar, são alguns muitos saltos. Não, como se sabe, saltos em direção ao bem estar, à saúde dos humanos, a um mundo mais justo e igualitário.

Mas, sigamos pensando em plantas, porque hoje é o dia delas. Ainda na leitura do doce e instigante livro de Mancuso, descubro que o centeio, que hoje pode ser comprado direto do produtor a R$ 2,30 o quilo, e no mercado a R$ 15,90, só se expandiu quando o cultivo de trigo e cevada alcançou regiões mais distantes do Crescente Fértil. Foi nesta região, que hoje é Palestina, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano e Chipre –  países que, juntos, têm o formato de uma lua Crescente –  que o homem passou a domesticar as plantas.

O centeio, portanto, de erva daninha passou a ser usado pelo homem como um grão comestível. Na sequência desta história, Mancuso resgata a história de uma praga atual, também comestível, mas esta bem perigosa: a Amaranthus Palmeri.

Vou chamá-la de Palmeri, se me permitem a intimidade. A espécime corrobora a tese de Mancuso, sobre a inteligência sem cérebro das plantas, porque conseguiu desenvolver uma resistência aos herbicidas impressionante. O perigo é este. Diferentemente do centeio, que se mimetizou com o trigo e a cevada, a Palmeri, fruto de solos pródigos em agrotóxicos, tornou-se uma resiliente aos venenos. Ou seja: comer uma Palmeri é ingerir, por exemplo, doses elevadas de glifosato.

 A Palmeri é invasora, mas já chegou ao Brasil, em 2015, e vem sendo bombardeada de todas as formas, até com herbicidas consorciados. Aqui, Mancuso mostra sua semelhança ao discurso de Rachel Carson, bióloga precursora em alertar a humanidade para os perigos dos inseticidas em seu livro “Primavera Silenciosa”, que hoje também vale a pena ser retirado da estante. Tanto um quanto outro têm textos quase poéticos. E é dessa forma que mostram para a humanidade que administrar herbicidas em excesso destrói qualquer possibilidade de salvar nossos ecossistemas agrícolas.

Quanto à Palmeri, Mancuso escreveu: “Também seria bom lembrar que os danos causados ao meio ambiente enquanto tentamos detê-Ias são muito maiores do que os benefícios que podemos eventualmente obter nas colheitas. Supondo que essas colheitas continuem existindo…”, escreve ele.

Já que falei em Rachel Carson, vale lembrar também um pouco de sua luta contra o que ela chama de “biocidas”. A bióloga estudou a fundo e alertou as autoridades – na época dos Estados Unidos era John Kennedy – que não se brinca com venenos em plantas comestíveis.  

Quando ainda era adolescente, morava na pequena cidade de Springdale, entre duas grandes usinas elétricas alimentadas a carvão. E foi percebendo como aquele pequeno lugarejo se tornou alvo de estranha praga que atacou as galinhas, adoeceu o gado, os carneiros, os homens. E silenciou os passarinhos. Uma praga criada pelo próprio homem, que somente no século XX conseguiu o poder de alterar a natureza do seu mundo.

“As substâncias químicas às quais se exige que a vida se ajuste não são mais somente o cálcio, a sílica, o cobre e todos os demais minerais lavados das rochas e carregados pelos rios até o mar: são as criações sintéticas da mente inventiva do ser humano, preparadas em seus laboratórios e sem equivalentes na natureza”, escreve Carson.

Dedico, portanto, essas reflexões errantes, a todos que, como Mancuso, Carson, colaboram para uma visão diferenciada do mundo. Em que há respeito pelo entorno, em que os humanos não se sintam superiores a bichos e plantas, mas se curvem ao bem estar que a convivência com esses elementos pode nos causar. Falo em bem estar, não em lucro, não em desenvolvimento. Porque se algum benefício esta maldita pandemia nos traz será provocar uma mudança de paradigma.

Entre esses pensadores, vou incluir Eça de Queiróz. Talvez não por acaso, o último romance que o escritor português do século XIX escreveu, chamado “A cidade e as Serras”, anda disputando com “Revolução das plantas” espaço na minha mesinha de quarto. Foi com muito grata surpresa que descobri no estilo deste autor, a quem sempre apreciei, um inusitado – para a época – amor à vida no campo.

 O personagem principal se chama Jacinto, um nobre rico e enfadado de viver em Paris. Ele descobre que tem uma propriedade na pequena cidade serrana de Tormes, em Portugal. Empreende uma viagem longa e cansativa até lá e, em pouco tempo, o mau humor e impaciência dele se esvaem pelo encanto com as árvores, os rios e os pássaros. Sua saúde e alegria vão denunciando a potência da vida longe da cidade.

Reparem, por favor, que estamos falando de um romance escrito no século XIX. E olhem que, naquele tempo, ainda não havia conferências de cúpula globais sobre o clima para alertar as pessoas.

É sobre sensibilidade e contato com a natureza que estamos falando. Nada mais próprio para se refletir no início da Primavera do ano que todos nós gostaríamos de esquecer.

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O fantástico mundo das plantas

Entre 400 milhões e 1bilhão de anos atrás, diferentemente dos animais, que escolheram se mexer para encontrar alimento, algo indispensável, as plantas tomaram uma decisão oposta no aspecto evolutivo. Elas preferiram não se mover, obtendo do Sol toda a energia necessária para sobreviver e adaptando o próprio corpo à predação e a inúmeras outras restrições decorrentes do fato de estarem enraizadas no solo. Isso não é nada fácil. Tentem pensar como é complicado permanecer vivo em um ambiente hostil, incapaz de se mover. Imaginem que vocês sejam uma planta, cercada por insetos, animais herbívoros e predadores de todas as espécies, e não podem fugir. A única maneira de sobreviver é ser indestrutível: ser constituída de forma inteiramente diferente de um animal. Ser, com efeito, uma planta”.

O trecho acima faz parte do livro “Revolução das Plantas”, escrito pelo italiano Stefano Mancuso.  Editado no ano passado pela Pergaminho, o livro anda frequentando intensamente meus pensamentos, não sai da minha cabeceira. É uma obra linda, ao mesmo tempo poética, didática, filosófica e que informa o leitor com uma quantidade considerável de dados.

 Há uma imensidão no mundo vegetal que não é conhecida por nós, diz Mancuso. Hoje, o que se tem notícia é de que existem 31 mil plantas documentadas, das quais 18 mil são usadas para fins medicinais, seis mil para alimentação e 2.500 para venenos. Mas as plantas, como organismos, mostraram ao pesquisador e seus colegas, que as estudaram minuciosamente, que elas têm inteligência. Mesmo sem cérebro!

Para resumir o que Mancuso nos ensina: as plantas percebem coisas que nós nem podemos imaginar. Um experimento feito pelo seu Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença com as dormideiras – sabem quais são? Aquelas plantinhas minúsculas que se encolhem ao toque – mostrou que elas reagem a mudanças. Além disso, entre si, protegem as mais fracas.

E o texto segue por esta linha, provocando no leitor uma emoção gigante, sobretudo quando Mancuso foca na vida comunitária das plantas. Não quero usar clichê, mas aqui é inescapável: precisamos aprender com elas.

Enquanto me transporto para o mundo vegetal, porém, não consigo ficar imune às notícias da devastação que está acontecendo no Pantanal. Também na Califórnia, mas aqui é mais perto, nos afeta muito.  É duro ler um livro tão sensível e ficar imaginando, depois de tantas informações sobre plantas e árvores, qual será a reação delas diante do fogo. Mancuso escreve que elas são “capazes de exercer pressão e romper até mesmo a rocha mais sólida, graças à divisão e expansão celular”.

Imagino, porém, que a mão do homem seja penosa demais, até para o mundo vegetal que se abre diante dos nossos olhos depois da leitura de Mancuso.

 Fato é que estamos perdendo feio a batalha pela conservação. Recebi por email a notícia de uma pesquisa recém lançada e publicada na revista Nature do dia 9, que alerta para o fato de que é impossível reverter a perda da biodiversidade até 2050 se não houver uma união de esforços de conservação, restauração e uma transformação verdadeira na maneira de produzir e consumir alimentos.

O estudo se chama “Dobrando a curva da perda de biodiversidade” e teve a participação de um pesquisador brasileiro, Bernardo Strassburg, do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). O objetivo dos pesquisadores foi tentar entender como desacelerar, globalmente, o ritmo de desaparecimento das espécies vegetais e animais.

 Um dos caminhos para se conseguir isto está bem claro diante dos nossos olhos: acabar com os incêndios criminosos. Aqui é importante pontuar a diferença entre queimadas, que podem ser feitas de maneira criteriosa para preparar a terra para receber novas plantações, e o incêndio, que destrói tudo por onde passa, indiscriminadamente. As queimadas são usadas até por indígenas que, como se sabe, entendem muito bem de terras, de plantações e de conservação. Não fosse assim, não estariam há muito mais tempo do que os não brancos em seus territórios.

O incêndio mais recente a inquietar a alma de quem tem um olhar cuidadoso para o ambiente que nos cerca é o que está queimando o Pantanal. Já destruiu 2,3 milhões de hectares, segundo a Prevfogo em reportagem do G1. São cerca de duas mil espécies de plantas; 582 espécies de aves; 132 de mamíferos; 113 de répteis e 41 de anfíbios.

Sim, o desafio é imenso, e o pesquisador Strassburg não nega isto. Mas o estudo quis olhar para a frente.

“Ao inverter o milenar processo de degradação da natureza, seríamos a primeira geração humana a deixar o planeta mais sustentável do que encontramos, com enormes benefícios para nós e para as gerações futuras”, disse ele.

Para isto acontecer, porém, é preciso que o Brasil seja conduzido a um reposicionamento estratégico e se empenhe para aproveitar o fato de ser o maior em biodiversidade. Com esta virada, conseguiríamos, na opinião dos pesquisadores, ser o “produtor mais limpo do planeta”. Isto é um belo sonho. O que vivemos, por ora, é um tremendo pesadelo.

Como é de praxe, o estudo aponta dois eixos prioritários de ação para que a mortandade de bichos e plantas seja estancada. O limite é 2050. Um dos eixos é intensificar os esforços de restauração de terras. Um relatório recente feito pela FAO (Food and Agricultural Organization) mostrou que 33% dos solos do mundo estão degradados. Só para trazer mais para perto do leitor, terras degradadas são aquelas abandonadas pelo agronegócio depois que serviram ao propósito de dar lucro às empresas.

 O segundo eixo é a transformação do sistema alimentar. É preciso pensar na redução do desperdício de alimentos, em dietas com menor impacto ambiental – não precisa comer carne de animais! – e em ter mais respeito na hora de comercializar os alimentos, de forma a tornar sustentável este processo.

São ações que dependem, é claro, de vontade política. Aí é que emperra tudo. Voltemos, portanto, ao mundo das plantas, vamos aprender com elas!

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Crise inspira debates, e todos falam em urgência

Ando em busca de perguntas. Pode parecer estranha posição para uma jornalista, mas os tempos andam exigindo mudanças de paradigma. Em busca de perguntas, me arrisco mais a ampliar pensamento, não me prendo a respostas prontas. Sou instigada a pesquisar, ler, estudar.

Há, no ar, um movimento que inspira a pensar em novas variantes para a peleja em que a humanidade está inserida. Oitocentas milhões de pessoas com fome; mais de 30% de terras no mundo estão degradadas; eventos extremos causados pelas mudanças do clima causadas pelo uso excessivo de combustíveis fósseis solapam territórios e atingem, sobretudo, os mais pobres são alguns pontos que demonstram nossa vulnerabilidade. Tudo isto, mais uma pandemia que já infectou mais de 27 milhões de pessoas.

Se é verdade que os riscos oferecem oportunidade, estamos então no momento ideal para ouvir quem pode, verdadeiramente, promover as mudanças necessárias. E há um movimento forte neste sentido. Semana passada os três donos dos maiores bancos brasileiros se reuniram numa live com a jornalista Miriam Leitão. Pincei duas chances para ficar otimista: a preocupação deles com as terras degradadas e o desejo de investir na recuperação delas. E a menção direta aos indígenas, entendendo-os como pessoas que precisam ser ouvidas e ajudadas. Alvíssaras!

Também há poucos dias empresários se juntaram, uma grande força para declarar ajuda à emergência climática, sobretudo na Amazônia.

Hoje estive, neste novo modo online, em outro encontro, chamado Action4Climate, que reuniu empresários também preocupados e interessados em mudar o cenário. Falou-se numa nova Lei do Carbono. Na verdade, ideia antiga, que ainda não pegou mas que, ao que parece, tem se tornado frequente nas rodas de conversas entre os empresários. Quer seja por conta da expansão do Corona vírus, quer seja porque, no fim das contas, está mesmo na hora de rever posições.

 À tsunami de impactos causados pela nossa civilização segue-se, então, uma onda de encontros, fóruns, para descobrir a saída, ou melhor, as saídas, porque são várias e precisam mesmo elencar vários pontos. Tenho visto pouca parceria com as ONGs, fundamental neste processo.

Em busca de perguntas, conversei com Ricardo Gravina porque a organização da qual ele é membro efetivo, o Sistema B, enviou-me uma mensagem comentando sobre o Dia da Sobrecarga da Terra, que aconteceu em 22 de agosto. O Sistema B trabalha em rede, certifica empresas que se inspiram por propostas que vão promover uma organização econômica diferente, com mais respeito pela natureza, pelos humanos, com vistas a um mundo mais igualitário. Enfim, tudo isto que se quer e que, nos tempos atuais, se tornou uma “urgência”.

Gravina aceitou minha provocação, de fazer praticamente uma revisão histórica. Há tempos vimos falando sobre esta tal “urgência”.

“Nos anos 80, 90, começamos a perceber que o caminho do desenvolvimento não podia ser aquele que se tinha imaginado. Houve um processo de conscientização social que aumentou muito com a internet. Agora temos uma consciência grande nossa interdependência, aquela frase do Bob Marley que gosto de repetir: ‘Se tem injustiça no mundo, a gente não está no lugar certo ainda’. A pandemia provocada pelo Corona Vírus, parece que tem provocado um grande despertar e, sim, cria um sentido de urgência muito maior. À consciência de que é preciso uma mudança drástica de comportamento, se juntam os questionamentos sobre impactos ambientais. O Corona vírus é, assim, um grande acelerador. Precisamos falar sobre isto”.

Perguntei a Gravina se ele acredita que as empresas estão, realmente, preparadas para enfrentar este debate. Do Papa Francisco e outros grandes pensadores, como o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, o discurso sobre a necessidade de baixar produção para pavimentar este novo mundo possível parece utópico para uns e necessário para outros. Sendo assim, nas mesas de debate onde estão pessoas que se afetam por esta proposta, ela ganha um peso. Em outras situações, porém, não se faz nem menção ao conselho dos que professam esta ideia.

Minha pergunta é: será que as empresas podem mudar seu ritmo, sua quantidade de produção, será que elas estão preparadas para pensar a respeito?

“As empresas estão desenhadas dentro de um modelo de geração e governança feito para evitar qualquer ruído sobre produção. O negócio da empresa é produzir o máximo possível, e ela cria toda uma estrutura para garantir que isto aconteça. Ela é amarrada para preservar o acionista, os donos do capital. Mas o que ando percebendo é uma mudança clara nos atores que trabalham nesta engrenagem. Converso com líderes empresariais, altos executivos, e percebo neles uma clara intenção de um diálogo mais profundo       . Mas há muitos desafios. É preciso redesenhar o sistema para que ele abrace este nível de complexidade”.

Perfeitamente. Entendo que os grandes líderes também estão em perspectiva de ter mais perguntas do que respostas, e isto é bom. Considerando, portanto, que o desafio está, pelo menos, na mesa de debate, o sentido de urgência precisa atuar no que está posto agora. Gravina me apresentou, com alguns detalhes, o caminho de criação do Sistema B, em 2006, nos Estados Unidos.  

“Ele nasceu tentando ser um movimento, considerando que a realidade é como ela é. A pergunta foi: como o processo de desenvolvimento pode deixar de gerar tantos malefícios? O Sistema B está tentando respondê-la. E começa com um viés muito grande para os pequenos negócios, mas acaba abraçando também os grandes. Ele busca criar este espaço de diálogo e experimentação sobre o que pode ser o futuro. É uma discussão que precisa ser feita de forma adulta, coerente, alinhada com a perspectiva de que é preciso andar para a frente. Sim, precisamos ter lucro, mas a que custo? Quais são os impactos disto?”

A conversa girou sobre a precificação de carbono, o que Gravina entende como necessário. A pergunta que fica a respeito, especificamente, deste tema, é: como se vai mensurar este preço?

E tantas outras perguntas podem entrar nesta espécie de catálogo sobre o desenvolvimento, ou sobre o ecodesenvolvimento, ou sobre o ecosociodesenvolvimento. Seja lá o nome que se dê, o que importa é juntar mais pessoas para fomentar o debate e, claro, para que não se fique só no debate. Hoje à tarde assistirei a outra live, organizada por ONGs ambientalistas, onde será debatida a Riqueza da Floresta em Pé.

Vou contar para vocês o que foi discutido lá, em outro post aqui. Como estamos vendo, o momento está bem rico. Que bom.

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Na pandemia, a ética de fazer escolhas a favor da vida

Imagem de travelphotographer por Pixabay

Vamos aos fatos internacionais, já que no nosso território o que temos de notícias sobre meio ambiente é a situação já vista, muito analisada e, aparentemente, sem solução a curto prazo. O desmatamento de sempre sendo, como sempre, contestado pelas autoridades governamentais de Brasília. E o eterno imbróglio entre preservação e desenvolvimento.

Internacionalmente, porém, o que mais me chamou a atenção no noticiário da semana passada foi a informação, incluída no meio de uma reportagem no site Climate Home News, contando que existem 64 milhões de indianos sem acesso à energia elétrica. Aqui no Brasil, há quase um milhão de pessoas nesta situação*, o que nos põe, proporcionalmente, numa situação bem melhor: enquanto, na Índia, são 4,92%, no Brasil são 0,45% da população vivendo sem energia elétrica.

Mas vou me focar no número absoluto, que foi o que mais me impactou: 64 milhões!!! São muitos indianos vivendo como se estivessem ainda no século XIX! Levando em conta que aquele país tem um “Vale do Silício” em Bangalore, ao Sul do território, com 250 empresas globais de tecnologia e informática, dá para perceber o tamanho do fosso de desigualdade por lá. Este é apenas um dos problemas.

Os dados vieram à tona porque o secretário-geral da ONU, António Guterres, mandou um recado direto, semana passada, ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Para Guterres, se Modi aumentar o investimento em painéis de energia solar em seu país – a Índia está fornecendo sete vez mais subsídios a combustíveis fósseis do que a energia limpa –  vai conseguir resolver duas das principais prioridades de desenvolvimento da Índia: aliviar a pobreza e levar energia para os indianos que ainda não têm acesso a ela.

Mas Modi está raciocinando numa linha diferente daquela proposta por Guterres. O político acabou de liberar 41 blocos de mineração de carvão no país para investidores privados e declarou estar certo de que, com esta atitude, vai ajudar a criar centenas de milhares de empregos num momento de tanta sensibilidade econômica para seu país. Durante a pandemia – a Índia registrou, até ontem, quase três milhões e setecentos mil casos de pessoas infectadas pelo Corona vírus – o PIB do país caiu 23,9% e teve o pior desempenho global no segundo semestre.

As estimativas dão conta de que 500 mil mineiros de carvão ficariam sem emprego se o primeiro-ministro seguisse a recomendação da ONU. Não há plano B para essas pessoas, simples assim. E, mesmo tendo em conta que seria necessário também muita gente para ajudar a implementar a energia solar, como a capacidade local continua limitada,  não seria possível absorver tanta gente, segundo a consultora de energia Swati Dsouza disse ao site.

O que fazer?

“Devemos abandonar a economia da ganância e do crescimento sem limites que nos levou a esta crise existencial. Devemos perceber que somos membros de uma família terrestre e que a verdadeira economia é a economia do cuidado, para a Terra e para cada um de nós”.

Reproduzi acima um trecho de um artigo de Vandana Shiva, física, ecofeminista, ativista ambiental indiana. Não responde à pergunta, mas aponta um caminho que está sendo pensado nesta época de tantos e tão intensos desafios. Na verdade, não há resposta pronta para o imbróglio que se impõe: salvar os empregos dos mineiros ou salvar a saúde de todos ao não poluir o meio ambiente com carvão?

A única certeza é que algo precisa ser feito. E com base em valores diferentes do que aqueles que vêm norteando nosso sistema até aqui. Escolhas precisam levar em conta a vida humana, não apenas o lucro. Este caso, da Índia, serve como um emblema para se repensar o modelo. E para se repensar, também, sobre as prontas respostas.

Será que a Índia, ao optar pela energia solar,   conseguiria realmente levar luz para os 64 milhões, e em tempo hábil?  O que poderia ser feito para incluir essas pessoas num prazo mais curto do que será necessário para que todo o sistema de fonte de energia seja trocado?

Nunca se falou tanto em ética, palavra que vem acompanhando as atitudes ESG (Environmental, Social and Governance) das empresas. Nunca se falou tanto  também em bem viver, em qualidade de vida, em felicidade. São valores intangíveis, com os quais o duro mundo do mercado financeiro e do trabalho não têm o hábito de lidar. Pois um pequeno vírus, que vem matando tanta gente, talvez possa nos ajudar a refletir nosso sistema sob outros parâmetros, acredita Vandana Shiva:

“Um pequeno vírus pode nos ajudar a dar um grande passo à frente para fundar uma nova civilização planetária ecologista, baseada na harmonia com a natureza. Ou, então, podemos continuar vivendo a fantasia do domínio sobre o planeta e continuar avançando até a próxima pandemia. E, por último, até a extinção”.

Fui à estante buscar subsídios sobre ética. Tenho o “Tratado sobre Ética”, de Baruch Spinoza, em tradução de Tomaz Tadeu (Ed. Autêntica). Revisitei a história de Spinoza, filósofo que viveu na Holanda de 1632 a 1677 e foi ousado o bastante para contestar o Deus que “está” em todas as coisas. Para ele, Deus “é” todas as coisas. Esta é uma diferença fundamental para quem quer pensar sobre o poder “acima de tudo”. Spinoza não explicou a ética, ele demonstrou a ética, quase geometricamente. Peguei ao acaso um Axioma da quinta parte do livro, à qual ele deu o título “A potência do intelecto ou a liberdade humana”.

Termino este texto com as palavras de Spinoza, que talvez se prestem a reflexões nesta era em que a gente precisa se fazer mais perguntas do que ter as respostas prontamente:

“Se, em um mesmo sujeito, são suscitadas duas ações contrárias, deverá, necessariamente, dar-se uma mudança, em ambas, ou em apenas uma delas, até que deixem de ser contrárias.

A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, à medida que sua essência é explicada ou definida pela essência de sua causa”.

*Informação obtida no site da revista Página 22

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Oded Grajew: ‘Para reduzir a desigualdade tem que dar poder às pessoas, não mantê-las sob domínio’

Oded Grajew é um empresário que acredita que não há como ter negócios lucrativos numa sociedade doente. Há mais de três décadas vem puxando este tipo de reflexão entre seus pares. Criou, em 1987, o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE), esteve com Betinho no combate à Fome e à Miséria, foi um dos fundadores, em 1998, do Instituto Ethos, esteve nos primeiros meses do governo Lula, em 2002, como assessor especial. Em 2007 esteve à frente também da criação da Rede Nossa São Paulo, e ontem engajou-se no lançamento da Associação Brasileira do Combate à Desigualdade (ABCDbr.org).

Oded

Oded Grajew: ‘As empresas nunca vão estar na vanguarda desta ação… Mas é importante que elas estejam junto porque têm um peso político’ (Foto de Arquivo Pessoal)

“Para um país dar certo é essencial que haja harmonia entre as pessoas. E a principal causa da desarmonia é a sensação de injustiça”, disse-me ele por telefone ontem mesmo, pouco antes da live de lançamento da ABCD. Trata-se de uma rede que, por enquanto, tem 37 organizações da sociedade civil. O objetivo é ir além do que “ser uma rede a mais”. O que se quer é juntar forças e poder de influência para fazer andar ações que possam mudar o cenário de desigualdade social no país. Vem daí a sensação de injustiça, vem daí a raiva contida entre pessoas, acreditam os formadores da rede.

Abaixo, reproduzo minha conversa com Grajew:

No dia 16 de agosto, uma reportagem de O Globo mostrou um estudo feito pelo sociólogo Rogério Barbosa, que mostrava uma redução no nível de desigualdade no país. Difícil de acreditar, quando se anda pelas ruas e vê a quantidade de pessoas que estendem a mão em busca de esmola. Como o senhor analisa o resultado desta pesquisa?

Oded Grajew – O Brasil é um dos campeões mundiais de desigualdades, e eu falo no plural porque se trata de desigualdade de gênero, de raça, de educação, política, econômica, não só de renda. Mesmo que tenha caído esta desigualdade de renda, é mais ou menos como se você estivesse doente, com uma febre de 41 graus, e sua febre baixasse para 40.8 graus. As desigualdades no Brasil precisam cair dramaticamente, não é pouca coisa. Na desigualdade territorial, por exemplo, a Rede Nossa São Paulo mostrou recentemente que, numa mesma cidade, você tem a diferença de expectativa de vida de 25 anos entre um bairro pobre e um bairro rico. É importante dar Bolsa Família, Renda Brasil, mas só isto não se mantém ao longo do tempo porque você mantém as pessoas sob domínio. Não as empodera.

Como empoderá-las?

Oded Grajew – Com educação, o caminho da cidadania. O problema desses auxílios financeiros é que eles tiram, justamente, a verba da educação para poder distribuir o dinheiro. Valoriza-se a parte financeira, do capital, faz-se uma filantropia, uma caridade. Mas as pessoas continuam sob domínio. Veja a situação dos países escandinavos: não existe, nesses lugares, praticamente, escola privada. Eles dão educação pública de boa qualidade para todos.

O senhor esteve no governo Lula por poucos meses, saiu para poder participar ativamente como sociedade civil, no Instituto Ethos. Como analisa o país daquele tempo e o de agora?

Oded Grajew – Aquele país tinha esperança de que novos tempos poderiam chegar. Havia pessoas – como Marina Silva no Meio Ambiente, Christovam Buarque na Educação – com longa história na área social, havia um programa de engajamento na sociedade, tudo na direção da redução da pobreza, da miséria e da desigualdade. Muita coisa foi feita neste sentido, houve avanços importantes, mas deixou-se de mexer em questões fundamentais no setor fiscal e tributário. Não se fez também uma reforma política para criar uma representação política mais de acordo com a composição da sociedade. Houve a valorização do consumidor, o povo passou a ter dinheiro para adquirir coisas. É importante isto, também. Mas não passou por uma mudança estrutural. Hoje o país está na contramão, muito preocupante.

Há um discurso, por parte do governo e de pessoas que estão engajadas nele, de que o país vai crescer economicamente. O senhor acredita nisto?

Oded Grajew – A maioria dos brasileiros é pobre e os ricos estão ficando cada vez mais ricos.  Como o país vai crescer economicamente deste jeito? O Brasil não tem chance de crescer se não distribuir a renda. Nas sociedades que conseguiram reduzir a desigualdade, criaram-se laços de solidariedade entre as pessoas.

O senhor acha a Renda Mínima importante no sentido de diminuir a desigualdade?

Oded Grajew – É importante porque as pessoas pegam o dinheiro para comprar comida e remédios. Elas estão vivendo no limite da sobrevivência. Mas isto tem que ser combinado com outras políticas, tem que ser transitório, para ajudar as pessoas a andarem com as próprias pernas.

Na rede recém criada há representantes de empresas. Qual o papel delas, verdadeiramente, na redução de desigualdade do país?

Oded Grajew – As empresas nunca vão estar na vanguarda desta ação. A gente se decepciona quando espera delas o que elas não podem dar porque estão submetidas a uma lógica de mercado do resultado, do lucro a curto prazo. Mas é importante que elas estejam junto porque têm um peso político. Como foi agora, na cobrança pelo desmatamento na Amazônia. Elas atuam quando percebem que a situação, como está, pode danificar seu negócio. Eu estou incluindo aí as empresas de mídia.

É assim também nos países escandinavos, que o senhor cita como exemplo de nações igualitárias?

Oded Grajew – Sim, virou um consenso nacional. As empresas, internamente, também têm uma preocupação com a desigualdade, estabelecem limites entre o menor e o maior salário, criam relações de confiança e transparência, todo mundo sabe o salário dos outros. A gestão é feita conjuntamente entre empresários e patrões.

Este é o melhor dos  mundos…

Oded Grajew – Sim! E é atual, há exemplos concretos, podemos copiar. Não podemos esquecer que na nossa Constituição, um dos princípios fundamentais, no primeiro parágrafo, é a redução das desigualdades. Portanto, é inconstitucional haver tanta desigualdade.

 

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