Reflexões errantes sobre a Primavera de 2020, o ano que se quer esquecer

Um pé de açaí na região do Bailique, arquipélado do Amapá. Foto tirada em viagem que fiz em 2015 ao local

Tem uma linda erva daninha crescendo e tirando a força da amendoeira aqui perto de casa. Cada vez que passo por ela tenho sentimentos diversos, que vão desde um profundo contentamento pela beleza de suas pequenas folhas até indignação: como podemos deixar matar uma árvore tão linda?

Nada como falar sobre plantas e árvores e natureza no dia em que a Primavera de 2020 desponta, trazendo uma enxurrada de água dos céus aqui no Rio. O isolamento social que venho respeitando de forma mais comedida me fez desenvolver um olhar mais acurado ao meu entorno. Minha rua virou meu mundo. Talvez esteja sendo um pouco dramática, mas a ocasião exige.

Por coincidência, encontro nas páginas de “Revolução das plantas”, de Stephano Mancuso – livro que, como já comentei aqui no post anterior, não tem saído de minha cabeceira – uma bela menção às ervas daninhas.

“Sempre amei ervas daninhas; sua capacidade de sobreviver onde não são desejadas sempre me fascinou, assim como sua inteligência e adaptabilidade”, escreve o autor.

Na mesma obra, descubro que o centeio, um cereal, uma gramínea, tido como menos nobre do que o trigo e usado hoje basicamente para alimentar gado, já foi erva daninha, vejam só! Mas isto foi há onze mil anos, quando o homem saiu da condição de nômade para ser sedentário. Em outras palavras, quando o homem preferiu se entregar ao conforto de poder plantar e colher num só lugar, perto de casa, sem ter que suar para correr atrás de sementes e de alimentos. Pensando bem, talvez tenha sido ali o começo de todos os nossos problemas. Até porque, alguns muitos anos depois, a humanidade percebeu também que poderia… ganhar dinheiro com os alimentos. E mais: que poderia investir em alimentos, transformá-los em capital fictício.

Daí para o discurso do presidente Bolsonaro hoje na ONU, quando ele diz que o mundo nunca precisou tanto do Brasil para se alimentar, são alguns muitos saltos. Não, como se sabe, saltos em direção ao bem estar, à saúde dos humanos, a um mundo mais justo e igualitário.

Mas, sigamos pensando em plantas, porque hoje é o dia delas. Ainda na leitura do doce e instigante livro de Mancuso, descubro que o centeio, que hoje pode ser comprado direto do produtor a R$ 2,30 o quilo, e no mercado a R$ 15,90, só se expandiu quando o cultivo de trigo e cevada alcançou regiões mais distantes do Crescente Fértil. Foi nesta região, que hoje é Palestina, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano e Chipre –  países que, juntos, têm o formato de uma lua Crescente –  que o homem passou a domesticar as plantas.

O centeio, portanto, de erva daninha passou a ser usado pelo homem como um grão comestível. Na sequência desta história, Mancuso resgata a história de uma praga atual, também comestível, mas esta bem perigosa: a Amaranthus Palmeri.

Vou chamá-la de Palmeri, se me permitem a intimidade. A espécime corrobora a tese de Mancuso, sobre a inteligência sem cérebro das plantas, porque conseguiu desenvolver uma resistência aos herbicidas impressionante. O perigo é este. Diferentemente do centeio, que se mimetizou com o trigo e a cevada, a Palmeri, fruto de solos pródigos em agrotóxicos, tornou-se uma resiliente aos venenos. Ou seja: comer uma Palmeri é ingerir, por exemplo, doses elevadas de glifosato.

 A Palmeri é invasora, mas já chegou ao Brasil, em 2015, e vem sendo bombardeada de todas as formas, até com herbicidas consorciados. Aqui, Mancuso mostra sua semelhança ao discurso de Rachel Carson, bióloga precursora em alertar a humanidade para os perigos dos inseticidas em seu livro “Primavera Silenciosa”, que hoje também vale a pena ser retirado da estante. Tanto um quanto outro têm textos quase poéticos. E é dessa forma que mostram para a humanidade que administrar herbicidas em excesso destrói qualquer possibilidade de salvar nossos ecossistemas agrícolas.

Quanto à Palmeri, Mancuso escreveu: “Também seria bom lembrar que os danos causados ao meio ambiente enquanto tentamos detê-Ias são muito maiores do que os benefícios que podemos eventualmente obter nas colheitas. Supondo que essas colheitas continuem existindo…”, escreve ele.

Já que falei em Rachel Carson, vale lembrar também um pouco de sua luta contra o que ela chama de “biocidas”. A bióloga estudou a fundo e alertou as autoridades – na época dos Estados Unidos era John Kennedy – que não se brinca com venenos em plantas comestíveis.  

Quando ainda era adolescente, morava na pequena cidade de Springdale, entre duas grandes usinas elétricas alimentadas a carvão. E foi percebendo como aquele pequeno lugarejo se tornou alvo de estranha praga que atacou as galinhas, adoeceu o gado, os carneiros, os homens. E silenciou os passarinhos. Uma praga criada pelo próprio homem, que somente no século XX conseguiu o poder de alterar a natureza do seu mundo.

“As substâncias químicas às quais se exige que a vida se ajuste não são mais somente o cálcio, a sílica, o cobre e todos os demais minerais lavados das rochas e carregados pelos rios até o mar: são as criações sintéticas da mente inventiva do ser humano, preparadas em seus laboratórios e sem equivalentes na natureza”, escreve Carson.

Dedico, portanto, essas reflexões errantes, a todos que, como Mancuso, Carson, colaboram para uma visão diferenciada do mundo. Em que há respeito pelo entorno, em que os humanos não se sintam superiores a bichos e plantas, mas se curvem ao bem estar que a convivência com esses elementos pode nos causar. Falo em bem estar, não em lucro, não em desenvolvimento. Porque se algum benefício esta maldita pandemia nos traz será provocar uma mudança de paradigma.

Entre esses pensadores, vou incluir Eça de Queiróz. Talvez não por acaso, o último romance que o escritor português do século XIX escreveu, chamado “A cidade e as Serras”, anda disputando com “Revolução das plantas” espaço na minha mesinha de quarto. Foi com muito grata surpresa que descobri no estilo deste autor, a quem sempre apreciei, um inusitado – para a época – amor à vida no campo.

 O personagem principal se chama Jacinto, um nobre rico e enfadado de viver em Paris. Ele descobre que tem uma propriedade na pequena cidade serrana de Tormes, em Portugal. Empreende uma viagem longa e cansativa até lá e, em pouco tempo, o mau humor e impaciência dele se esvaem pelo encanto com as árvores, os rios e os pássaros. Sua saúde e alegria vão denunciando a potência da vida longe da cidade.

Reparem, por favor, que estamos falando de um romance escrito no século XIX. E olhem que, naquele tempo, ainda não havia conferências de cúpula globais sobre o clima para alertar as pessoas.

É sobre sensibilidade e contato com a natureza que estamos falando. Nada mais próprio para se refletir no início da Primavera do ano que todos nós gostaríamos de esquecer.

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O fantástico mundo das plantas

Entre 400 milhões e 1bilhão de anos atrás, diferentemente dos animais, que escolheram se mexer para encontrar alimento, algo indispensável, as plantas tomaram uma decisão oposta no aspecto evolutivo. Elas preferiram não se mover, obtendo do Sol toda a energia necessária para sobreviver e adaptando o próprio corpo à predação e a inúmeras outras restrições decorrentes do fato de estarem enraizadas no solo. Isso não é nada fácil. Tentem pensar como é complicado permanecer vivo em um ambiente hostil, incapaz de se mover. Imaginem que vocês sejam uma planta, cercada por insetos, animais herbívoros e predadores de todas as espécies, e não podem fugir. A única maneira de sobreviver é ser indestrutível: ser constituída de forma inteiramente diferente de um animal. Ser, com efeito, uma planta”.

O trecho acima faz parte do livro “Revolução das Plantas”, escrito pelo italiano Stefano Mancuso.  Editado no ano passado pela Pergaminho, o livro anda frequentando intensamente meus pensamentos, não sai da minha cabeceira. É uma obra linda, ao mesmo tempo poética, didática, filosófica e que informa o leitor com uma quantidade considerável de dados.

 Há uma imensidão no mundo vegetal que não é conhecida por nós, diz Mancuso. Hoje, o que se tem notícia é de que existem 31 mil plantas documentadas, das quais 18 mil são usadas para fins medicinais, seis mil para alimentação e 2.500 para venenos. Mas as plantas, como organismos, mostraram ao pesquisador e seus colegas, que as estudaram minuciosamente, que elas têm inteligência. Mesmo sem cérebro!

Para resumir o que Mancuso nos ensina: as plantas percebem coisas que nós nem podemos imaginar. Um experimento feito pelo seu Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença com as dormideiras – sabem quais são? Aquelas plantinhas minúsculas que se encolhem ao toque – mostrou que elas reagem a mudanças. Além disso, entre si, protegem as mais fracas.

E o texto segue por esta linha, provocando no leitor uma emoção gigante, sobretudo quando Mancuso foca na vida comunitária das plantas. Não quero usar clichê, mas aqui é inescapável: precisamos aprender com elas.

Enquanto me transporto para o mundo vegetal, porém, não consigo ficar imune às notícias da devastação que está acontecendo no Pantanal. Também na Califórnia, mas aqui é mais perto, nos afeta muito.  É duro ler um livro tão sensível e ficar imaginando, depois de tantas informações sobre plantas e árvores, qual será a reação delas diante do fogo. Mancuso escreve que elas são “capazes de exercer pressão e romper até mesmo a rocha mais sólida, graças à divisão e expansão celular”.

Imagino, porém, que a mão do homem seja penosa demais, até para o mundo vegetal que se abre diante dos nossos olhos depois da leitura de Mancuso.

 Fato é que estamos perdendo feio a batalha pela conservação. Recebi por email a notícia de uma pesquisa recém lançada e publicada na revista Nature do dia 9, que alerta para o fato de que é impossível reverter a perda da biodiversidade até 2050 se não houver uma união de esforços de conservação, restauração e uma transformação verdadeira na maneira de produzir e consumir alimentos.

O estudo se chama “Dobrando a curva da perda de biodiversidade” e teve a participação de um pesquisador brasileiro, Bernardo Strassburg, do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). O objetivo dos pesquisadores foi tentar entender como desacelerar, globalmente, o ritmo de desaparecimento das espécies vegetais e animais.

 Um dos caminhos para se conseguir isto está bem claro diante dos nossos olhos: acabar com os incêndios criminosos. Aqui é importante pontuar a diferença entre queimadas, que podem ser feitas de maneira criteriosa para preparar a terra para receber novas plantações, e o incêndio, que destrói tudo por onde passa, indiscriminadamente. As queimadas são usadas até por indígenas que, como se sabe, entendem muito bem de terras, de plantações e de conservação. Não fosse assim, não estariam há muito mais tempo do que os não brancos em seus territórios.

O incêndio mais recente a inquietar a alma de quem tem um olhar cuidadoso para o ambiente que nos cerca é o que está queimando o Pantanal. Já destruiu 2,3 milhões de hectares, segundo a Prevfogo em reportagem do G1. São cerca de duas mil espécies de plantas; 582 espécies de aves; 132 de mamíferos; 113 de répteis e 41 de anfíbios.

Sim, o desafio é imenso, e o pesquisador Strassburg não nega isto. Mas o estudo quis olhar para a frente.

“Ao inverter o milenar processo de degradação da natureza, seríamos a primeira geração humana a deixar o planeta mais sustentável do que encontramos, com enormes benefícios para nós e para as gerações futuras”, disse ele.

Para isto acontecer, porém, é preciso que o Brasil seja conduzido a um reposicionamento estratégico e se empenhe para aproveitar o fato de ser o maior em biodiversidade. Com esta virada, conseguiríamos, na opinião dos pesquisadores, ser o “produtor mais limpo do planeta”. Isto é um belo sonho. O que vivemos, por ora, é um tremendo pesadelo.

Como é de praxe, o estudo aponta dois eixos prioritários de ação para que a mortandade de bichos e plantas seja estancada. O limite é 2050. Um dos eixos é intensificar os esforços de restauração de terras. Um relatório recente feito pela FAO (Food and Agricultural Organization) mostrou que 33% dos solos do mundo estão degradados. Só para trazer mais para perto do leitor, terras degradadas são aquelas abandonadas pelo agronegócio depois que serviram ao propósito de dar lucro às empresas.

 O segundo eixo é a transformação do sistema alimentar. É preciso pensar na redução do desperdício de alimentos, em dietas com menor impacto ambiental – não precisa comer carne de animais! – e em ter mais respeito na hora de comercializar os alimentos, de forma a tornar sustentável este processo.

São ações que dependem, é claro, de vontade política. Aí é que emperra tudo. Voltemos, portanto, ao mundo das plantas, vamos aprender com elas!

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Crise inspira debates, e todos falam em urgência

Ando em busca de perguntas. Pode parecer estranha posição para uma jornalista, mas os tempos andam exigindo mudanças de paradigma. Em busca de perguntas, me arrisco mais a ampliar pensamento, não me prendo a respostas prontas. Sou instigada a pesquisar, ler, estudar.

Há, no ar, um movimento que inspira a pensar em novas variantes para a peleja em que a humanidade está inserida. Oitocentas milhões de pessoas com fome; mais de 30% de terras no mundo estão degradadas; eventos extremos causados pelas mudanças do clima causadas pelo uso excessivo de combustíveis fósseis solapam territórios e atingem, sobretudo, os mais pobres são alguns pontos que demonstram nossa vulnerabilidade. Tudo isto, mais uma pandemia que já infectou mais de 27 milhões de pessoas.

Se é verdade que os riscos oferecem oportunidade, estamos então no momento ideal para ouvir quem pode, verdadeiramente, promover as mudanças necessárias. E há um movimento forte neste sentido. Semana passada os três donos dos maiores bancos brasileiros se reuniram numa live com a jornalista Miriam Leitão. Pincei duas chances para ficar otimista: a preocupação deles com as terras degradadas e o desejo de investir na recuperação delas. E a menção direta aos indígenas, entendendo-os como pessoas que precisam ser ouvidas e ajudadas. Alvíssaras!

Também há poucos dias empresários se juntaram, uma grande força para declarar ajuda à emergência climática, sobretudo na Amazônia.

Hoje estive, neste novo modo online, em outro encontro, chamado Action4Climate, que reuniu empresários também preocupados e interessados em mudar o cenário. Falou-se numa nova Lei do Carbono. Na verdade, ideia antiga, que ainda não pegou mas que, ao que parece, tem se tornado frequente nas rodas de conversas entre os empresários. Quer seja por conta da expansão do Corona vírus, quer seja porque, no fim das contas, está mesmo na hora de rever posições.

 À tsunami de impactos causados pela nossa civilização segue-se, então, uma onda de encontros, fóruns, para descobrir a saída, ou melhor, as saídas, porque são várias e precisam mesmo elencar vários pontos. Tenho visto pouca parceria com as ONGs, fundamental neste processo.

Em busca de perguntas, conversei com Ricardo Gravina porque a organização da qual ele é membro efetivo, o Sistema B, enviou-me uma mensagem comentando sobre o Dia da Sobrecarga da Terra, que aconteceu em 22 de agosto. O Sistema B trabalha em rede, certifica empresas que se inspiram por propostas que vão promover uma organização econômica diferente, com mais respeito pela natureza, pelos humanos, com vistas a um mundo mais igualitário. Enfim, tudo isto que se quer e que, nos tempos atuais, se tornou uma “urgência”.

Gravina aceitou minha provocação, de fazer praticamente uma revisão histórica. Há tempos vimos falando sobre esta tal “urgência”.

“Nos anos 80, 90, começamos a perceber que o caminho do desenvolvimento não podia ser aquele que se tinha imaginado. Houve um processo de conscientização social que aumentou muito com a internet. Agora temos uma consciência grande nossa interdependência, aquela frase do Bob Marley que gosto de repetir: ‘Se tem injustiça no mundo, a gente não está no lugar certo ainda’. A pandemia provocada pelo Corona Vírus, parece que tem provocado um grande despertar e, sim, cria um sentido de urgência muito maior. À consciência de que é preciso uma mudança drástica de comportamento, se juntam os questionamentos sobre impactos ambientais. O Corona vírus é, assim, um grande acelerador. Precisamos falar sobre isto”.

Perguntei a Gravina se ele acredita que as empresas estão, realmente, preparadas para enfrentar este debate. Do Papa Francisco e outros grandes pensadores, como o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, o discurso sobre a necessidade de baixar produção para pavimentar este novo mundo possível parece utópico para uns e necessário para outros. Sendo assim, nas mesas de debate onde estão pessoas que se afetam por esta proposta, ela ganha um peso. Em outras situações, porém, não se faz nem menção ao conselho dos que professam esta ideia.

Minha pergunta é: será que as empresas podem mudar seu ritmo, sua quantidade de produção, será que elas estão preparadas para pensar a respeito?

“As empresas estão desenhadas dentro de um modelo de geração e governança feito para evitar qualquer ruído sobre produção. O negócio da empresa é produzir o máximo possível, e ela cria toda uma estrutura para garantir que isto aconteça. Ela é amarrada para preservar o acionista, os donos do capital. Mas o que ando percebendo é uma mudança clara nos atores que trabalham nesta engrenagem. Converso com líderes empresariais, altos executivos, e percebo neles uma clara intenção de um diálogo mais profundo       . Mas há muitos desafios. É preciso redesenhar o sistema para que ele abrace este nível de complexidade”.

Perfeitamente. Entendo que os grandes líderes também estão em perspectiva de ter mais perguntas do que respostas, e isto é bom. Considerando, portanto, que o desafio está, pelo menos, na mesa de debate, o sentido de urgência precisa atuar no que está posto agora. Gravina me apresentou, com alguns detalhes, o caminho de criação do Sistema B, em 2006, nos Estados Unidos.  

“Ele nasceu tentando ser um movimento, considerando que a realidade é como ela é. A pergunta foi: como o processo de desenvolvimento pode deixar de gerar tantos malefícios? O Sistema B está tentando respondê-la. E começa com um viés muito grande para os pequenos negócios, mas acaba abraçando também os grandes. Ele busca criar este espaço de diálogo e experimentação sobre o que pode ser o futuro. É uma discussão que precisa ser feita de forma adulta, coerente, alinhada com a perspectiva de que é preciso andar para a frente. Sim, precisamos ter lucro, mas a que custo? Quais são os impactos disto?”

A conversa girou sobre a precificação de carbono, o que Gravina entende como necessário. A pergunta que fica a respeito, especificamente, deste tema, é: como se vai mensurar este preço?

E tantas outras perguntas podem entrar nesta espécie de catálogo sobre o desenvolvimento, ou sobre o ecodesenvolvimento, ou sobre o ecosociodesenvolvimento. Seja lá o nome que se dê, o que importa é juntar mais pessoas para fomentar o debate e, claro, para que não se fique só no debate. Hoje à tarde assistirei a outra live, organizada por ONGs ambientalistas, onde será debatida a Riqueza da Floresta em Pé.

Vou contar para vocês o que foi discutido lá, em outro post aqui. Como estamos vendo, o momento está bem rico. Que bom.

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Na pandemia, a ética de fazer escolhas a favor da vida

Imagem de travelphotographer por Pixabay

Vamos aos fatos internacionais, já que no nosso território o que temos de notícias sobre meio ambiente é a situação já vista, muito analisada e, aparentemente, sem solução a curto prazo. O desmatamento de sempre sendo, como sempre, contestado pelas autoridades governamentais de Brasília. E o eterno imbróglio entre preservação e desenvolvimento.

Internacionalmente, porém, o que mais me chamou a atenção no noticiário da semana passada foi a informação, incluída no meio de uma reportagem no site Climate Home News, contando que existem 64 milhões de indianos sem acesso à energia elétrica. Aqui no Brasil, há quase um milhão de pessoas nesta situação*, o que nos põe, proporcionalmente, numa situação bem melhor: enquanto, na Índia, são 4,92%, no Brasil são 0,45% da população vivendo sem energia elétrica.

Mas vou me focar no número absoluto, que foi o que mais me impactou: 64 milhões!!! São muitos indianos vivendo como se estivessem ainda no século XIX! Levando em conta que aquele país tem um “Vale do Silício” em Bangalore, ao Sul do território, com 250 empresas globais de tecnologia e informática, dá para perceber o tamanho do fosso de desigualdade por lá. Este é apenas um dos problemas.

Os dados vieram à tona porque o secretário-geral da ONU, António Guterres, mandou um recado direto, semana passada, ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Para Guterres, se Modi aumentar o investimento em painéis de energia solar em seu país – a Índia está fornecendo sete vez mais subsídios a combustíveis fósseis do que a energia limpa –  vai conseguir resolver duas das principais prioridades de desenvolvimento da Índia: aliviar a pobreza e levar energia para os indianos que ainda não têm acesso a ela.

Mas Modi está raciocinando numa linha diferente daquela proposta por Guterres. O político acabou de liberar 41 blocos de mineração de carvão no país para investidores privados e declarou estar certo de que, com esta atitude, vai ajudar a criar centenas de milhares de empregos num momento de tanta sensibilidade econômica para seu país. Durante a pandemia – a Índia registrou, até ontem, quase três milhões e setecentos mil casos de pessoas infectadas pelo Corona vírus – o PIB do país caiu 23,9% e teve o pior desempenho global no segundo semestre.

As estimativas dão conta de que 500 mil mineiros de carvão ficariam sem emprego se o primeiro-ministro seguisse a recomendação da ONU. Não há plano B para essas pessoas, simples assim. E, mesmo tendo em conta que seria necessário também muita gente para ajudar a implementar a energia solar, como a capacidade local continua limitada,  não seria possível absorver tanta gente, segundo a consultora de energia Swati Dsouza disse ao site.

O que fazer?

“Devemos abandonar a economia da ganância e do crescimento sem limites que nos levou a esta crise existencial. Devemos perceber que somos membros de uma família terrestre e que a verdadeira economia é a economia do cuidado, para a Terra e para cada um de nós”.

Reproduzi acima um trecho de um artigo de Vandana Shiva, física, ecofeminista, ativista ambiental indiana. Não responde à pergunta, mas aponta um caminho que está sendo pensado nesta época de tantos e tão intensos desafios. Na verdade, não há resposta pronta para o imbróglio que se impõe: salvar os empregos dos mineiros ou salvar a saúde de todos ao não poluir o meio ambiente com carvão?

A única certeza é que algo precisa ser feito. E com base em valores diferentes do que aqueles que vêm norteando nosso sistema até aqui. Escolhas precisam levar em conta a vida humana, não apenas o lucro. Este caso, da Índia, serve como um emblema para se repensar o modelo. E para se repensar, também, sobre as prontas respostas.

Será que a Índia, ao optar pela energia solar,   conseguiria realmente levar luz para os 64 milhões, e em tempo hábil?  O que poderia ser feito para incluir essas pessoas num prazo mais curto do que será necessário para que todo o sistema de fonte de energia seja trocado?

Nunca se falou tanto em ética, palavra que vem acompanhando as atitudes ESG (Environmental, Social and Governance) das empresas. Nunca se falou tanto  também em bem viver, em qualidade de vida, em felicidade. São valores intangíveis, com os quais o duro mundo do mercado financeiro e do trabalho não têm o hábito de lidar. Pois um pequeno vírus, que vem matando tanta gente, talvez possa nos ajudar a refletir nosso sistema sob outros parâmetros, acredita Vandana Shiva:

“Um pequeno vírus pode nos ajudar a dar um grande passo à frente para fundar uma nova civilização planetária ecologista, baseada na harmonia com a natureza. Ou, então, podemos continuar vivendo a fantasia do domínio sobre o planeta e continuar avançando até a próxima pandemia. E, por último, até a extinção”.

Fui à estante buscar subsídios sobre ética. Tenho o “Tratado sobre Ética”, de Baruch Spinoza, em tradução de Tomaz Tadeu (Ed. Autêntica). Revisitei a história de Spinoza, filósofo que viveu na Holanda de 1632 a 1677 e foi ousado o bastante para contestar o Deus que “está” em todas as coisas. Para ele, Deus “é” todas as coisas. Esta é uma diferença fundamental para quem quer pensar sobre o poder “acima de tudo”. Spinoza não explicou a ética, ele demonstrou a ética, quase geometricamente. Peguei ao acaso um Axioma da quinta parte do livro, à qual ele deu o título “A potência do intelecto ou a liberdade humana”.

Termino este texto com as palavras de Spinoza, que talvez se prestem a reflexões nesta era em que a gente precisa se fazer mais perguntas do que ter as respostas prontamente:

“Se, em um mesmo sujeito, são suscitadas duas ações contrárias, deverá, necessariamente, dar-se uma mudança, em ambas, ou em apenas uma delas, até que deixem de ser contrárias.

A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, à medida que sua essência é explicada ou definida pela essência de sua causa”.

*Informação obtida no site da revista Página 22

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Oded Grajew: ‘Para reduzir a desigualdade tem que dar poder às pessoas, não mantê-las sob domínio’

Oded Grajew é um empresário que acredita que não há como ter negócios lucrativos numa sociedade doente. Há mais de três décadas vem puxando este tipo de reflexão entre seus pares. Criou, em 1987, o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE), esteve com Betinho no combate à Fome e à Miséria, foi um dos fundadores, em 1998, do Instituto Ethos, esteve nos primeiros meses do governo Lula, em 2002, como assessor especial. Em 2007 esteve à frente também da criação da Rede Nossa São Paulo, e ontem engajou-se no lançamento da Associação Brasileira do Combate à Desigualdade (ABCDbr.org).

Oded

Oded Grajew: ‘As empresas nunca vão estar na vanguarda desta ação… Mas é importante que elas estejam junto porque têm um peso político’ (Foto de Arquivo Pessoal)

“Para um país dar certo é essencial que haja harmonia entre as pessoas. E a principal causa da desarmonia é a sensação de injustiça”, disse-me ele por telefone ontem mesmo, pouco antes da live de lançamento da ABCD. Trata-se de uma rede que, por enquanto, tem 37 organizações da sociedade civil. O objetivo é ir além do que “ser uma rede a mais”. O que se quer é juntar forças e poder de influência para fazer andar ações que possam mudar o cenário de desigualdade social no país. Vem daí a sensação de injustiça, vem daí a raiva contida entre pessoas, acreditam os formadores da rede.

Abaixo, reproduzo minha conversa com Grajew:

No dia 16 de agosto, uma reportagem de O Globo mostrou um estudo feito pelo sociólogo Rogério Barbosa, que mostrava uma redução no nível de desigualdade no país. Difícil de acreditar, quando se anda pelas ruas e vê a quantidade de pessoas que estendem a mão em busca de esmola. Como o senhor analisa o resultado desta pesquisa?

Oded Grajew – O Brasil é um dos campeões mundiais de desigualdades, e eu falo no plural porque se trata de desigualdade de gênero, de raça, de educação, política, econômica, não só de renda. Mesmo que tenha caído esta desigualdade de renda, é mais ou menos como se você estivesse doente, com uma febre de 41 graus, e sua febre baixasse para 40.8 graus. As desigualdades no Brasil precisam cair dramaticamente, não é pouca coisa. Na desigualdade territorial, por exemplo, a Rede Nossa São Paulo mostrou recentemente que, numa mesma cidade, você tem a diferença de expectativa de vida de 25 anos entre um bairro pobre e um bairro rico. É importante dar Bolsa Família, Renda Brasil, mas só isto não se mantém ao longo do tempo porque você mantém as pessoas sob domínio. Não as empodera.

Como empoderá-las?

Oded Grajew – Com educação, o caminho da cidadania. O problema desses auxílios financeiros é que eles tiram, justamente, a verba da educação para poder distribuir o dinheiro. Valoriza-se a parte financeira, do capital, faz-se uma filantropia, uma caridade. Mas as pessoas continuam sob domínio. Veja a situação dos países escandinavos: não existe, nesses lugares, praticamente, escola privada. Eles dão educação pública de boa qualidade para todos.

O senhor esteve no governo Lula por poucos meses, saiu para poder participar ativamente como sociedade civil, no Instituto Ethos. Como analisa o país daquele tempo e o de agora?

Oded Grajew – Aquele país tinha esperança de que novos tempos poderiam chegar. Havia pessoas – como Marina Silva no Meio Ambiente, Christovam Buarque na Educação – com longa história na área social, havia um programa de engajamento na sociedade, tudo na direção da redução da pobreza, da miséria e da desigualdade. Muita coisa foi feita neste sentido, houve avanços importantes, mas deixou-se de mexer em questões fundamentais no setor fiscal e tributário. Não se fez também uma reforma política para criar uma representação política mais de acordo com a composição da sociedade. Houve a valorização do consumidor, o povo passou a ter dinheiro para adquirir coisas. É importante isto, também. Mas não passou por uma mudança estrutural. Hoje o país está na contramão, muito preocupante.

Há um discurso, por parte do governo e de pessoas que estão engajadas nele, de que o país vai crescer economicamente. O senhor acredita nisto?

Oded Grajew – A maioria dos brasileiros é pobre e os ricos estão ficando cada vez mais ricos.  Como o país vai crescer economicamente deste jeito? O Brasil não tem chance de crescer se não distribuir a renda. Nas sociedades que conseguiram reduzir a desigualdade, criaram-se laços de solidariedade entre as pessoas.

O senhor acha a Renda Mínima importante no sentido de diminuir a desigualdade?

Oded Grajew – É importante porque as pessoas pegam o dinheiro para comprar comida e remédios. Elas estão vivendo no limite da sobrevivência. Mas isto tem que ser combinado com outras políticas, tem que ser transitório, para ajudar as pessoas a andarem com as próprias pernas.

Na rede recém criada há representantes de empresas. Qual o papel delas, verdadeiramente, na redução de desigualdade do país?

Oded Grajew – As empresas nunca vão estar na vanguarda desta ação. A gente se decepciona quando espera delas o que elas não podem dar porque estão submetidas a uma lógica de mercado do resultado, do lucro a curto prazo. Mas é importante que elas estejam junto porque têm um peso político. Como foi agora, na cobrança pelo desmatamento na Amazônia. Elas atuam quando percebem que a situação, como está, pode danificar seu negócio. Eu estou incluindo aí as empresas de mídia.

É assim também nos países escandinavos, que o senhor cita como exemplo de nações igualitárias?

Oded Grajew – Sim, virou um consenso nacional. As empresas, internamente, também têm uma preocupação com a desigualdade, estabelecem limites entre o menor e o maior salário, criam relações de confiança e transparência, todo mundo sabe o salário dos outros. A gestão é feita conjuntamente entre empresários e patrões.

Este é o melhor dos  mundos…

Oded Grajew – Sim! E é atual, há exemplos concretos, podemos copiar. Não podemos esquecer que na nossa Constituição, um dos princípios fundamentais, no primeiro parágrafo, é a redução das desigualdades. Portanto, é inconstitucional haver tanta desigualdade.

 

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A história de Nel, sertanejo que criou as cisternas que mudaram a cena do Sertão

Apolonio

Capa do Razão Social de 2004: Nel mantém a revista até hoje em sua casa

O ano era 2004. Eu editava há cerca de um ano o caderno “Razão Social”, no “O Globo”, que, como muitos de vocês já sabem, tinha o propósito de informar sobre ações que davam certo na construção de uma sociedade mais justa para todos. Vivíamos então, no mundo, no Brasil, uma época diferente da que vivemos agora. Não havia um debate tão polarizado sobre a se a atuação do Estado deveria ser forte ou não. As políticas sociais se amontoavam, estavam dando certo. ONGs até se queixavam de que o Estado estava tomando o lugar delas. Enfim, como em tudo na vida, havia um lado, outro lado, não necessariamente opostos, mas diferentes.

De qualquer modo, havia no ar uma energia nova, que o Razão Social acompanhava. E eu, como repórter que nunca deixei de ser, fazia todo o possível e o impossível para estar nos lugares, registrando de perto os projetos. Não queria contar aos leitores apenas dados que os assessores me enviavam. Eu precisava estar presente, reportariando.

Foi assim que aceitei o convite para ir ao Nordeste participar da solenidade que marcava o início da parceria entre governo, empresa privada (um banco) e a Articulação Semiárido (ASA) para a produção de um milhão de cisternas rurais, meta alcançada dez anos depois. Até hoje me lembro: foi um bate-volta, porque não podia ficar longe da Redação, tinha muito trabalho a fazer. Mas gostei de ter ido porque entendi a extensão e a importância daquele Programa.

Era uma coisa simples: construir um tanque gigante feito de cimento para captar a água da chuva por um mecanismo ainda mais comum: calhas, com um filtro para depurar a sujeira. Agregar uma pequena bomba, para retirar a água quando necessário. Ou seja: a época da chuva servia para armazenar a água neste tanque, uma quantidade que bastasse para cozinhar, lavar, até beber. Havia cisternas de até 60 mil litros. Cada uma levava cerca de cinco dias para ficar pronta e custava, na época, R$ 1 mil.

Saí do evento de lançamento com um nome da cabeça: Pedro Damião, apelido Nel. Em sua palestra, Frei Betto, então assessor especial do governo Lula, citou Pedro Damião como o grande idealizador da cisterna. E fiquei com muita vontade de ouvir a história daquele sertanejo que tinha revolucionado, de forma simples, a história de sua terra, até então entregue a políticos oportunistas que trocavam caminhões-pipa por votos.

Não foi fácil encontrá-lo. Na época ainda não tínhamos internet tão veloz e cheia de dados como hoje. Eu tinha fontes, ONGs que me ajudaram na busca.  Com a ajuda da Articulação do Semiárido (ASA), consegui descobrir Nel e, de quebra, desvendei o mistério, porque fora tão difícil chegar a ele. Frei Betto cometera um equívoco: o apelido estava certo, mas o nome era outro. Manoel Apolônio de Carvalho, e não Pedro Damião.

As meninas da ASA fizeram a ponte e Nel combinou de ir à pracinha principal de Simão Dias, cidade sergipana onde vivia, às 20h em ponto para falar comigo a partir de um telefone público. Assim foi feito.

Ele tinha 17 anos quando pegou o rumo de São Paulo, para fugir da seca no sertão. Como era analfabeto, só arranjou viração numa obra, como assistente, a quem foi pedido que construísse a piscina de um clube. Nel conheceu ali o cimento, ficou extasiado com a mágica proporcionada por aquele pó cinza, que misturado com água endurecia e ficava forte. Nas horas vagas ele assumia a postura de pensador: em sua terra, aquele tanque imenso podia ter outra serventia. No período das chuvas, era só guardar a água ali, tapar e usar na seca.

Nel contou-me seu sonho e de como, ao ser demitido – porque, afinal, dono de obra não quer sonhador como funcionário – voltou para sua terra, em Jeremoaba, na Bahia, e começou a erguer cisternas, por “dois merréis” cada uma. Foi assim que conseguiu se casar, criar família, ter uma casa. As cisternas passaram a se espalhar, muita gente copiou o invento, e a confusão foi tanta que, no fim das contas, ninguém mais sabia que Nel fora o primeiro. Contei a ele, pelo telefone, que Frei Betto o havia homenageado (omiti a confusão do nome).

“Moça, então alguém reconheceu o que eu fiz? Eu fico com os olhos cheios d´água, sabe? Porque eu tenho certeza de que fiz uma coisa de grande autoridade para a humanidade”, disse-me ele.

Busquei na internet notícias atuais de Nel e descobri uma reportagem feita pela repórter Isabela Assumção para o Globo Rural há três anos. Desta vez, quem ficou emocionada fui eu: está lá, pendurada na parede da casa de Nel, a capa do Razão Social em que sua história foi contada. Coisas boas desta profissão que abracei e da qual tenho muito orgulho.

Por que estou trazendo esta história hoje? Porque recebi da ASA, organização com a qual continuo mantendo contato, uma triste notícia: o Programa Cisternas estagnou.

“Não há nenhum investimento de recursos públicos novos neste ano de 2020 neste programa”, diz a mensagem que recebi por e-mail.

Busquei contato e Veronica Pragana Ferraz, uma das pessoas que cuida da comunicação da ASA, contou-me que perdeu o acesso a Nel. Mas que hoje no Semiárido há “milhares de Nel”:

“Não só homens, como mulheres, todos(as) cisterneiro(a)s, que já construíram 1,2 milhão de cisternas de primeira água para a população dispersa do Semiárido”, contou-me Veronica. Mas, infelizmente, disse-me ela, ainda tem 350 mil famílias sem acesso a esta água. Por isto o Programa deveria continuar.

Por outro lado, a ONG conta que está empenhada em novo projeto – que será realizado na America Latina, ou seja, Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai e nos países do Corredor Seco, região subúmida que corta vários países da América Central, entre eles El Salvador.  Este novo projeto não substitui o Cisternas, mas tem a proposta de “identificar e sistematizar experiências locais que trazem impactos positivos com relação ao aumento da adaptação das famílias agricultoras às áreas secas, cada vez mais afetadas pelos eventos extremos climáticos”.

Sim, é preciso olhar para o sertão. Um estudo recente lançado pela Fiocruz dá conta de que metade das 800 milhões pessoas que passam fome no mundo são pequenos agricultores e agricultoras que vivem em áreas secas do planeta. Não é de se estranhar, claro.

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O trem fantasma

 

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Foto atual da Sete de Setembro, tirada hoje de manhã

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Foto da época das obras para o VLT, julho de 2016

Durante dois anos e oito meses de minha nem tão longa existência eu decidi ouvir o canto da sereia. E comprei um ponto de um restaurante popular, bem popular, ali na Sete de Setembro, importante rua do Centro da cidade que é o segundo polo econômico do país. Para isto, investi todo o dinheiro que tinha. E o dinheiro que eu tinha, era fruto de uma vida inteira de trabalho como jornalista.

Bem, a história desses 970 dias – eu não quero chamar de aventura, mas é quase isto – vai ser detalhada num livro que estou escrevendo. O que trago hoje, aqui neste espaço, é a minha indignação. E, quem sabe, algum pensamento que possa servir como adjutório aos candidatos a se sentarem na cadeira de quem administra a cidade. As eleições, no fim das contas, vão acontecer. E, como cidadã, sinto-me impelida a botar holofote sobre aquele canto da cidade. Que não é um canto qualquer, como já disse, e que precisa muito de um estudo urbanístico, social, ambiental. Precisa de régua, compasso, óleos essenciais, velas, orações, mantras… seja lá o que for. Mas não pode continuar como está.

Para falar do presente, preciso dar uma rápida pincelada do que foi aquele momento, em maio de 2016, quando assinei o contrato e tornei-me dona de 80% do restaurante. A Sete de Setembro estava em obras para abrir canal ao Veículo Leve sobre Trilhos, o famoso VLT. O dono do restaurante que me vendeu o ponto – preciso dizer que fica no trecho mais pobre da rua, entre a Uruguaiana e a Praça Tiradentes – não suportou os quase dois anos de barulho, poeira e poucos clientes. Vendeu-me por um preço que, para ele, era muito baixo. E deu para eu comprar.

Alimentei-me da esperança que estava no ar. Eu era a sócia majoritária, e tive ajuda de um amigo, que se tornou o segundo sócio, que já tinha outro restaurante no local. Era um momento penoso para os comerciantes, mas todos acreditavam que a bonança estaria próxima. A Sete de Setembro, até então uma rua praticamente tomada por carros – estacionados e circulando – se tornaria um boulevard. Teria vasos, flores, plantas. O VLT iria atrair turistas, os turistas se sentiriam atraídos pelos restaurantes, a clientela faria filas nas portas.

Meu projeto era ter um local bonito, confortável, oferecer boa comida por um preço que pudesse ser pago por trabalhadores. Camelôs, funcionários de lojas, iriam se sentar para comer num lugar com quadros de Tarsila do Amaral, pequenos textos contando a história da Semana da Arte Moderna. E fariam contato com alimentos com os quais estavam pouco familiarizados, já que eu queria tornar prática a teoria que estudo, sobre um ecodesenvolvimento, sobre a necessidade de se diversificar nossos hábitos alimentares.

O sonho foi se desmoronando como marshmallow em fogo. As obras terminaram, o trenzinho começou a circular e, em poucos meses, viu-se que o boulevard não saíra das pranchetas dos urbanistas e das propagandas. A rua foi virando um deserto. E o que é pior: árido. Passei lá três verões. E era um sacrifício fazer o trajeto entre o Metrô Carioca e meu restaurante sob um sol que, já de manhã, me desnorteava de tão forte. Quem mora nesta  cidade sabe a ilha de calor em que ela se transforma.

Tentei, juro que tentei. Fiz contato com a Fundação Parques e Jardins, que me dizia que a empresa do VLT (Alstom) era obrigada a fazer a urbanização como contrapartida. Ofereci-me para ajudar, na época ainda sobravam-me alguns tostões. Sugeri que eu pudesse levar alguns vasos, enfeitar de alguma forma e trazer algum verde para tanta aridez.

“A senhora vai acabar sendo multada por atrapalhar o caminho dos pedestres”, disse-me uma voz fria do outro lado do telefone.

À medida que os clientes iam desistindo, não só por falta de incentivo para atravessar o deserto e ir almoçar,  como por falta de dinheiro – sim, a crise foi comendo também a vontade de ir a restaurantes e eu via, desesperada, aumentar o número das tais bolsinhas de marmitas nas mãos de usuários no Metrô – a minha energia ia baixando. E o meu caixa ia se esvaziando. Até que, em janeiro de 2019, dei por finda a minha vida de empreendedora. Mas meu coração, é claro, continua ligado ao lugar onde vivi tão intensamente.

Salto para agosto de 2020. Mesmo nos meus mais atormentados pesadelos, à época que me vi como dona de restaurante, pude imaginar o que estamos vivendo. A pandemia, o isolamento social, acirraram o desterro. A Sete de Setembro, naquele trecho, está proscrita. O VLT ganhou um apelido: o trem fantasma. Que leva ninguém a canto nenhum, dizem os comerciantes guerreiros que sobrevivem ao caos.

Lição de casa para o governante que ganhar as eleições. E lição de vida para nós, que vivemos aqui nesta cidade. Acreditar demais em quem se dá o direito de redesenhar a trama urbana oferecendo garantias de progresso e bem estar aos cidadãos parece ser a nossa marca.  Atraso o relógio da história e vou mais além, para o início do século XX. Em 29 de fevereiro de 1904, Rodrigues Alves, então presidente da República, deflagrou aqui uma revolução urbana.

“A mudança na cidade exigia que os prédios tivessem fachadas e que os projetos fossem previamente aprovados. Remodelou-se, também, a rua do Ouvidor e a avenida Beira-Mar, revelando a beleza da orla, pouco aproveitada … Impuseram-se normas de civilidade: tornou-se proibido cuspir no assoalho dos bondes…” (Mary del Priore, em “Histórias de gente brasileira”, volume 3) .

Olavo Bilac, num texto reproduzido pela historiadora, invejava a sorte dos “que agora estão nascendo, dos que vão viver numa cidade radiante – quando eu, e os da minha geração, pela estupides e pelo desleixo dos enfunados parlapatões que nos governaram, tivemos de viver numa imensa pocilga de dois mil quilômetros quadrados, como um bando de bácoros fuçando a imundície”.

Ah, meu caro Bilac, se me permite me dirigir a você com tanta intimidade, quero lhe dizer que aquela cidade radiante de seus sonhos anda precisando de muitos cuidados, em todos os setores. Que não tenhamos, a nos governar, mais um parlapatão. A gente não conseguirá sobreviver…

 

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Sonhar não custa nada

 

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Esta foto foi publicada na coluna Nova Ética Social, assinada por mim no portal G1 em março de 2016. A foto é de Elke Wetzig/Creative Commons

Já que o agronegócio está no centro dos holofotes, este vai ser nosso assunto de hoje.  E, para variar um pouco, trago boas notícias. Não sem alguma reflexão, claro, afinal tem sido meu papel.

A primeira notícia é que ontem houve uma reunião entre governadores da Amazônia e grupos de empresários, incluindo Abag (Associação Brasileira de Agronegócio), em que foram listadas algumas ações objetivas que eles exigem do poder público. Não vou listá-las aqui para não cansar vocês. Basta dizer que faz parte de um pacote de quem ainda valida a percepção de que é possível desenvolver e preservar, sem debater a envergadura do desenvolvimento. Mas já é bom, porque ficou claro, segundo o release que recebi do Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), que há uma forte preocupação do empresariado com a imagem negativa do país no exterior. E estamos falando, aqui, só na questão de negócios e meio ambiente.

Bem, a reunião aconteceu antes da notícia-bomba que saiu hoje, dando conta de que a prefeitura de Shenzen, na China, detectou coronavírus no frango importando do Brasil. A imagem do país ganhou tons negativos ainda mais fortes, pelo que imagino.

Mas, já que estou em dias de boas notícias, vamos continuar falando sobre a reunião de ontem, entre empresas e poder público, e sobre o que pode vir de bom deste encontro.  Os mais céticos podem dizer que, no fim das contas, é apenas mais uma reunião como tantas. Não deixa de ser, mas não se pode enquadrá-la na seção de retórica inútil. É bom lembrar que … “As 500 empresas multinacionais privadas têm 52% do PIB do mundo (todos os setores reunidos, bancos, serviços e empresas). Elas monopolizam um poder econômico-financeiro, ideológico e político que jamais um imperador ou papa teve na história da humanidade” (ZIEGLER, Jean, no site outraspalavras.net em 24/05/2019).

Considerando todo este poder, não se pode achar pouca coisa que as corporações estejam preocupadas com o combate ao crime organizado ligado à grilagem e ao desmatamento ilegal na Amazônia. Se o governo se empenhar e fortalecer a segurança na área, isto poderá beneficiar também os indígenas que estão denunciando massacres em massa por lá.

Bem, mas já que as empresas estão se unindo em prol de mudanças, não custa trazer aqui um caso de sucesso que pode validar a teoria de que não é preciso desmatar tanto ou usar tantos pesticidas para alimentar a população mundial. E, quem sabe, pode servir como exemplo a ser replicado.

O nome dele é Ernst Götsch, um suíço que tem atraído a atenção da mídia que cobre assuntos relacionados ao ecodesenvolvimento. Sua história apareceu há uma semana no site Mongabay, mas eu já o conheço há uns três anos, quando falei sobre ele na coluna que eu mantinha no portal G1.

Ernst Götsch criou, na fazenda de soja Invernadinho, perto de Mineiros, Minas Gerais,  um modelo de agricultura orgânica capaz de substituir a Revolução Verde impulsionada desde os anos 50 pelos avanços da agroquímica. Também conhecida como agrofloresta, baseia-se num conceito fácil de entender: é preciso deixar a terra respirar e respeitar a diversidade da natureza.

Fácil não é.

“Nós somos a girafa, os agricultores têm que aparar regularmente as fileiras de árvores que ladeiam as plantações. A poda estimula o crescimento das plantas, cria biomassa que é adicionada ao solo como fertilizante e faz entrar a luz que estimula a fotossíntese e, portanto, absorve mais dióxido de carbono”, explicou o suíço à jornalista Sandra Weiss, que assina a reportagem do site.

Este ponto – a facilidade ou não do trabalho de produção, qualquer que seja ele – é muito importante e faz parte das reflexões que quero compartilhar com vocês. A partir de minha experiência pessoal, ando pensando que compramos, meio sem refletir muito, a praticidade que as máquinas nos garantiram. Não me interessa eleger vilões. Prefiro a impertinência de trazer para cada um de nós a responsabilidade – “Seja a mudança que você quer ver no mundo”, diz Mahatma Gandhi. De certa forma, torna também mais fácil provocar as variações. Já que os hábitos são nossos, nós podemos alterá-los a qualquer momento.

Tenho uma amiga, Martha Neiva Moreira, que me conheceu numa época em que eu me nutria à noite com shake emagrecedor e sanduíche de pão de forma light com algo que se compra às pencas nos supermercados, costuma-se chamar de queijo, mas que não se sabe bem como é feito. Ela gosta de lembrar disso quando, hoje, trocamos receitas sobre pães sem glúten, doces sem açúcar feitos com frutas, refogados interessantes para tornar os legumes mais apetitosos com temperos indianos, e por aí vai. Minha mudança foi bem radical, mas lenta, fez parte de um processo que ainda se arrasta.

Esta é a questão. Parei de comer carne vermelha há mais de uma década, e hoje não salivo mais por um pedaço de picanha, garanto a vocês. Parei de comer frango há quase dois anos, e o porco saiu completamente da minha dieta assim que começou a pandemia. Sim, tem uma ideologia que me conduz, mas eu consegui, acima de tudo, perceber a diversidade de alimentos que estava perdendo ao me concentrar na prática solução de arroz, feijão, carne e saladas. Sem falar no shake, cuja fórmula eu prefiro nem me lembrar…

Vandana Shiva é uma física, indiana, que conheci enquanto editava o “Razão Social” (caderno sobre ecodesenvolvimento que editei no O Globo de 2003 a 2012) e que passou a fazer parte de meus estudos. Volta e meia eu dou uma olhada no site do instituto criado por ela, o Navdanya. Vandana criou o banco de sementes na Índia, e isto revolucionou o cenário de fome na região. Ela traz, de uma forma simples, direta e muito inspiradora, a ideia de que a diversidade de alimentos foi sendo destruída quando a grande indústria de alimentos tomou para si, grande parte com nosso consentimento, a tarefa de nutrir a população mundial. Vale a pena vocês conhecerem, se já não conhecem, as ideias de Vandana Shiva.

Há muitos grãos e sementes que a gente nem imagina que existem e que podem nutrir nosso corpo com eficácia. Mas são mais difíceis de achar, às vezes é preciso debulhar, não têm gosto conhecido… enfim, dá mais trabalho comer. A ideia é que eles podem ser descobertos. E deixemos ao agronegócio a tarefa de gerenciar o estrago que já foi feito na natureza por causa de tanta monocultura. Aos poucos, à medida em que formos indicando outros desejos, pode ser que ele se adapte e trabalhe mais a favor da diversidade.

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Mobilização social salva a Floresta de Camboatá

Até segunda ordem, a Floresta do Camboatá vai se manter onde está e como está. A boa notícia correu feito rastilho de pólvora nas redes sociais. Coube a uma mulher, a juíza Roseli Nalin, da 15ª Vara de Fazenda Pública do Estado do Rio de Janeiro, perceber o cheiro de maus feitos no afã avassalador de derrubar 200 mil árvores de floresta nativa, matar no mínimo 14 espécies de bichos e, enfim, destruir uma área equivalente a duas vezes o Jardim Botânico para construir um empreendimento imobiliário e um autódromo. Cinza em vez de verde. Ar poluído em vez de ar puro. Matando, também, a chance de drenar água da chuva. De quebra, aumentando sensivelmente a temperatura da região. A geringonça que querem construir fica em Deodoro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que registra verões quentíssimos.

A pergunta que não quer calar é: por quê construir um autódromo? E por que ali? Não tenho a resposta na ponta da língua, ou seja, não tenho dados que me deem garantia para escrever. Vou seguir a moda criada pelos procuradores da Lava Jato quando apresentaram denúncia contra o ex-presidente Lula: não tenho provas, mas tenho convicção.

E a minha certeza é de que, ainda hoje, a humanidade não percebe o valor da vida. O lucro fala mais alto. Mesmo com nossa realidade atual, com mais de 600 mil pessoas mortas pela ação de um vírus que chegou mostrando que os cientistas falavam a sério quando diziam que o aquecimento global aumenta sensivelmente as ameaças sanitárias. Mesmo assim, derrubar árvores não parece, aos pretendentes àquele espaço, nada absurdo.

“À medida que o planeta se aquece (…) os animais deslocam-se para os polos fugindo do calor. Animais estão entrando em contato com animais com os quais eles normalmente não interagiriam, e isso cria uma oportunidade para patógenos encontrar outros hospedeiros. Muitas das causas primárias das mudanças climáticas também aumentam o risco de pandemias….” (Aaron Bernstein, diretor do Harvard University’s Center of Climate, Health and the Global Environment, em artigo publicado no site da Unicamp escrito pelo professor Luiz Marques em 05-05-2020).

Isto é fato. Mas o que me faz escrever sobre este tema hoje é o desejo de compartilhar com os leitores uma relativa dose de ânimo: a esperteza e rapidez da mobilização social em torno da Floresta de Camboatá.

Desde a semana anterior à decisão da juíza Roseli tenho recebido mensagens e vídeos com famosos alertando para a destruição que seria iminente. Já tinha sido marcada uma mega manifestação virtual, um abaixo assinado começou a recolher assinaturas e quase nove mil pessoas tinham assinado.

Por tudo isto, podemos dizer que, além de ter percebido que debaixo deste angu tem caroço – e dos grandes – a Justiça também deu ouvidos à grande parte da população interessada em preservar o que nos resta de verde e de saúde.

“A democracia funciona na medida em que os indivíduos possam ter uma participação significativa na arena pública, ao mesmo tempo que cuidam de seus próprios assuntos, individual e coletivamente, sem intromissões ilegítimas por parte das concentrações de poder” (Noam Chomski em “O lucro ou as pessoas?” Ed. Bertrand Brasil).

Em 2008 fui ao Chile fazer uma reportagem sobre o lançamento do Mapa Verde de Santiago para o caderno Razão Social, que eu editava no jornal O Globo com temas ligados ao desenvolvimento sustentável. A pauta mudou completamente porque tive a chance de conhecer e conversar com Lake Sagaris, uma mobilizadora social de primeiro time. Ela contou-me sobre o início da ONG Ciudad Viva, que estava ali fazendo parceria com a Natura no lançamento do Mapa. Vou resumir para caber aqui no meu objetivo de mostrar a importância dessas ações populares.

Um consórcio de empreiteiros decidiu fazer uma mega rodovia. Até aí, tudo bem, não fosse o fato de que uma parte da estrada passaria pelo meio de um bairro histórico, tradicional de Santiago. Foi este o mote que começou a juntar os moradores. Um trabalho intenso de mobilização, com passeatas e auxílio da grande mídia teve um resultado feliz: a rodovia foi construída em outro espaço, e o bairro manteve seus paralelepípedos que o constituíram como cenário urbano tradicional.

A festa de lançamento do Mapa Verde aconteceu num imóvel público, comunitário, bonito, que a empresa enfeitou para receber as autoridades e convidados. Estranhei o ineditismo, já que as ações solenes de grandes corporações costumam acontecer em auditórios de hotéis chiques. Minha curiosidade foi debelada por um executivo da Natura, que me explicou que o local da festa fora uma exigência de Sagaris: “Ela queria que fosse num lugar onde qualquer pessoa se sentisse à vontade para participar da festa”.

Busquei Lake Sagaris para uma entrevista, e fiquei encantada com a forma realista e sincera com que ela conduz o tema mobilização social. E lembrei-me dela quando soube que, pelo menos até agora, a Floresta de Camboatá está salva. Não dá para cochilar, porém. Porque, como já estamos cansados de saber, na luta entre a preservação e o desenvolvimentismo, a primeira anda perdendo feio.

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Foto de Lake Sagaris editada no Razão Social de agosto de 2008

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‘Fora Corona vírus!’

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Foto por Torsten Dettlaff em Pexels.com

Todo santo dia a cena se repete. Ele se veste com a camisa de seu time de futebol predileto, pega uma bola e desce. Aqui do outro lado, em frente ao pedaço de cimento de seu prédio, que virou um campo de futebol em sua fantasia, eu ouço as batidas ritmadas da bola sendo chutada contra a parede. Uma após outra.

Se fossem outros os tempos, eu bem que iria reclamar da vida, da sorte, porque é um barulhinho prá lá de chato. Mas, hoje, não. O rapaz, sua bola e sua fantasia se tornaram, para mim, um símbolo dos nossos tempos.

Isolado! Deve ir aos 14, 15 anos. De vez em quando o pai desce com ele, às vezes é a irmã mais nova. Já vi até a mãe tentando agarrar a bola. Mas ninguém de sua idade, com a mesma porosidade que nos torna seres agrupáveis, gregários.

Não me perco pensando o que será do amanhã, como será o tempo pós-pandemia. Nem me iludo muito. A humanidade, pelo menos aqui neste hemisfério que eu conheço, ainda não está preparada para uma virada substancial, uma transformação radical em seu estilo de vida. E pode ser que tenhamos a má sorte de cozinhar pandemias daqui para a frente.

Restrita a meu território, a meu habitat, é daqui que colho eventuais fontes que alimentam minhas reflexões. O rapaz que joga sozinho sua bola contra o muro se junta, em meus pensamentos, à criança de 4 anos que divide parede comigo. Um vizinho querido, Pedro, sensível e doce, que certa vez já ouvi gritar, empunhando uma espada imaginária:

“Fora, Coronavírus!!!!”

Ah, Pedro, criança adorável. Que as forças do universo ouçam seu pedido e levem daqui todos os vírus que andam nos apoquentando a vida.

Foi Pedro quem me fez pensar em telefonar para uma amiga, Nuelna Vieira, que tem uma escola linda, super bem cuidada, para crianças de 0 a 6 anos. Lá tem arte, contato com a natureza, jogos, tudo sob os auspícios da psicomotricidade relacional, estudo que nos põe em contato.  Quis saber dela se a Casa Monte Alegre, sua escolinha, decidiu abrir as portas, como algumas têm feito.

“Não! Só abriremos quando a lei mandar e, mesmo assim, só para as famílias que realmente precisarem. Estou com saudades do futuro, sabe? Não vejo perspectiva alguma. As famílias não estão se sentindo seguras, e têm razão. Se eu volto a abrir as portas, quem voltará comigo?”, disse-me ela.

Nuelna é psicomotricista, portanto tem o olhar que mescla o de dona de escola, de empresário, ao da profissional que percebe o momento, que sente a situação de crianças e pais.

“Óbvio que ficar com pai e mãe é maravilhoso, muitas crianças estão adorando este momento. O que complica é que o ambiente em casa nem sempre é tranquilo. Muitos pais estão fazendo home office mas têm medo de demissão. Ou estão sendo super cobrados. Ou mesmo têm medo de pegar a doença. Fica um clima tenso em casa, não há uma zona de conforto. É diferente do que ficar em casa por opção. Estar com pai e mãe porque não há outra opção gera angústia”, disse Nuelna.

Como dona de negócio, Nuelna se sente muito perdida. Há a possibilidade de aceitar o empréstimo que o governo oferece, mas são tantas as exigências, que dá medo.

“Estou avaliando a possibilidade, mas percebo que vai me prender muito. Se eu aceitar o empréstimo, serei obrigada a manter toda a equipe pelo menos durante oito meses. Agora, imagine se eu perco 50% de minha capacidade, o que vou fazer? Como terei dinheiro para pagar os salários? A ajuda seria, de fato, diminuir nossos tributos, não dar um tempo para pagarmos. O governo está tentando evitar demissões. E acho isto bom, mas é preciso ter noção de que as empresas estão ficando menores, perdendo potência”.

Sim, isto é fato. E sim, isto não está sendo observado, muito menos cuidado pelo governo atual. Não foi o ministro Paulo Guedes que disse que preferia ajudar as empresas grandes?

Voltemos, pois, ao mundo das crianças e adolescentes. Para esmiuçar mais a reflexão sobre a rotina de Pedro e seus pais, sempre presentes, carinhosos, fulltime no reino da fantasia de uma criança de 4 anos, liguei para outra amiga, a psicomotricista Vitoria Bonaldi. Ela continua atendendo online, tanto adultos como crianças, e me contou que há muita tensão e, ao mesmo tempo, muita chance de ressignificar a vida em família.

“O sistema familiar está agora bem aberto, sem disfarces, para todos. O pai que é um alcóolatra disfarçado, a criança que é hiperativa, tudo isto vem à tona quando se está dentro de casa o tempo todo. É a chance de as pessoas olharem para isto e cuidar deste sistema para não adoecerem ainda mais. A criança aponta esta questão, e quando ela está na escola, fica mais diluído”, disse ela.

Por outro lado, vivia-se um exagero que poderá ser revisto, lembra Bonaldi. As crianças estavam fora de casa muitas horas por dia, com excesso de atividades. Na volta, que não se sabe quando será, é possível mudar esta necessidade tão premente de mantê-las o tempo todo ocupadas.

Fico pensando que esta mudança poderá puxar outras. Menos ocupação para as crianças, menos consumo, menos horas dedicadas a atividades que não nos dão prazer. E por aí vai a lista de transformações. Não ouso chamar de preparação para um novo futuro porque, como disse, nutro pouca ilusão de que haverá, de fato, esta transvaloração.

À geração que hoje se vira para ocupar o tempo de lazer sem ser em grupo ou à que já se volta com bravura contra os inimigos nada imaginários, minha total solidariedade. Deixamos para vocês um desafio e tanto, de reconstruir sua saúde sob seus próprios moldes.

 

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