A arte de rua em tempos de confinamento social*

A vizinhança já sabe. Toda quinta-feira, lá pelas oito da noite, um nome ecoa forte na redondeza. O som vira esquina, entra em ruela, em beco, na praça. Até as árvores rebatem o nome que é dito com força, de maneira intensa:  “Pauuuulo Freeeeire”! A voz é do ator  Richard Riguetti, também conhecido como Palhaço Café Pequeno, mestre em gestão cultural. Desde que o mundo entrou em modo lento para se defender do Corona Vírus, Richard teve que trocar a rua e o palco de um teatro pela sala de sua casa. Em vez de aplausos, Richard ganha sorrisos e muitos comentários, que vê pela telinha plana de seu computador.

“É deste jeito. É o que se tem para hoje”, diz Riguetti, entrevistado no dia 9, exatamente poucos minutos antes de sair para comemorar o nono aniversário da Lei municipal dos Artistas de Rua. Depois da promulgação da lei 5.429/2012, Richard e tantos outros profissionais que espalham sua arte pelas calçadas, praças, becos, ruas e avenidas das cidades puderam ter o direito de trabalhar sem ter que pedir autorização. É só avisar que vai fazer, e pronto. Uma vantagem de primeira grandeza.

Mas agora… infelizmente…. a pandemia… pois é…

 A arte de rua também está cerceada, isolada. Mas, longe de se sentirem injustiçados pelo destino cruel, os artistas de rua, ou pelo menos alguns deles, como Richard, buscam uma nova maneira. Como diz a geração millenial… é preciso se reinventar. No caso de Richard, ele encena seu monólogo “Paulo Freire, o Andarilho da Utopia” no palco montado num território com cerca de três metros quadrados: a sala do apartamento que habita.

 Até chegar a este momento e se considerar pronto para o desafio, porém, Richard tentou um outro modo de continuar trabalhando: lançou cursos de gestão cultural online.

“Utilizei uma dessas plataformas que se criaram na pandemia. Mas, quando acabei de dar a primeira aula, eu chorava. Pedi desculpas à turma. E parecia que eu tinha acabado de carregar um piano de cauda às costas. Os alunos, porém, disseram que eu não tinha que pedir desculpas porque a aula tinha sido muito boa. Aí fiz uma segunda vez e, quando acabei, a sensação era de que eu tinha carregado um piano de sala. Então, dei a terceira aula e, quando acabou, parecia que eu tinha carregado um acordeom. Na quarta aula, mudou para um violino. Foi quando percebi que era possível promover encontros, mesmo entre as pessoas que estavam em isolamento”, explica Richard.

O artista experimentou um voo mais alto ainda. Fundador da Escola Livre de Palhaços – Eslipa, ele decidiu abrir um curso de palhaço também online. E o curso foi muito bom. Foi então que ele disse a Luiz Antonio Rocha, parceiro na jornada da peça sobre Paulo Freire: “Estou pronto para fazer ‘Paulo Freire’ online, vamos lá!”.

O palco de Richard, montado na sala de seu apartamento

Aqui, vale a pena relembrar: “Paulo Freire, o Andarilho da Utopia”, é um monólogo que trata da vida do educador, filósofo, considerado o Patrono da Educação Brasileira.  Está em cartaz desde 2019 e já rodou praças, teatros, escolas, quilombolas… É, como diz Riguetti, “uma peça que foi feita para ser encenada em todos os lugares: no palco do Theatro Municipal ou em cima de um caixote de rua”. Quando ele disse isto numa entrevista logo no início de sua turnê, não contava ainda com a hipótese de encená-la dentro de sua própria casa. E sozinho.

“Não foi nada criado, foi acomodado. A rua realmente é meu mestrado, é meu doutorado. Aprendi na rua a criar relações, vínculos, cumplicidade. E, a partir da cumplicidade, aprendi a aguçar a pessoa na sua sensibilidade e, ao mesmo tempo, a estimular sua potência. Começamos a fazer isso pela plataforma, online. Nosso ato de cenopoética não começa antes de eu estabelecer essa conversa com as pessoas. Fica todo mundo com o vídeo ligado e eu vou recebendo, vou conversando, como se eu estivesse na praça, no nosso local de encontro. Somos seres gregários, todo mundo gosta de se revelar e de ver os outros se revelando. Então é muito interessante quando, por exemplo, eu pergunto para uma pessoa: ‘Você está em qual cidade’? Uma responde: ‘No Amazonas’, a outra responde que está na Irlanda, e começa esse imaginário a ampliar. E quem está no isolamento social amplia as paredes da arquitetura física para uma arquitetura imagética, poética. E isso acontece ali na hora”, explica o artista.

E aí entra a poesia. Não. Na verdade, a poesia está desde o momento em que o artista decidiu encenar a peça em meio à pandemia, quase um ato de resistência diante das agruras que nos rodeiam nos dias de hoje. Ou, como ele prefere dizer, “é o que tem para hoje”. Mas o que é melhor é que Riguetti achou, sim, a arte na tela plana e fria do computador.

Foi logo no início que houve o encontro da tecnologia avançada com a essência da arte. Quando as pessoas não conseguiam se conectar, e ficava aquela história de transmissão intermitente, de vozes picotadas, Richard  lembrou-se de tempos atrás, quando ouvia partidas de futebol no rádio, sentado no colo de seu avô.

“Não tinha televisão, a gente se sentava na sala e o rádio ficava fazendo aquelas ruídos característico de quando perdia as ondas, e aí criava uma certa necessidade corpórea de uma atenção maior porque a imperfeição do som fazia com que eu tivesse que ouvir mais atentamente. Aí, aqui em casa, durante a peça, em alguns momentos da transmissão, quando aconteciam os engasgos de som, eu me transportava para aquele menino no colo do avô, ouvindo a partida do Ponte Preta contra o Palmeiras. O locutor falava, de repente cortava…. “e a bola saiu pela lateral”… E eu tinha que imaginar e completar o trecho que não ouvi. Tinha que completar com a minha imaginação.”, disse Riguetti.

É nisto que o ator aposta. A imperfeição da transmissão vai aguçando mais, ampliando a qualidade humana de cada um, ampliando a escuta. Vivemos, como diz Riguetti, numa era “de informação e de opinião”. Isto quer dizer que todo mundo tem informação e todo mundo quer dar sua opinião sobre a informação que acabou de obter. Impossível não se identificar nessa fala.

“Poucos entram no estado de sustentação. Não há pausa, não há reflexão. Você recebe a informação e tem que dar logo a opinião. Mas, se você perceber, poucas pessoas falam de si. E o convite da peça é, justamente, este: falar de si. Depois que acaba, convidamos a audiência a conversar, a falar de si”.

E dá certo. Seja de um jeito ou de outro. O que importa é levar a arte adiante.

Para quem quiser assistir “Paulo Freire, Andarilho da Utopia”, o caminho é este. Na página inicial da internet, no provedor escolhido, copie e cole este endereço: https://www.sympla.com.br/a-peca—paulo-freire-o-andarilho-da-utopia—10062021__1237458. Ali vai aparecer a aba certa para você escolher a contribuição consciente que deseja dar. Depois, é só chegar, às oito em ponto, quando começa o espetáculo. Divirtam-se!

* Este texto foi publicado originalmente no site da Revista Entrenós e da Casa Monte Alegre

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Impactos das mudanças climáticas. Desde quando? Até quando?*

Há quem defina o ano de 1988 como uma espécie de data de nascimento das ações climáticas. Mais especificamente, se assim preferirmos, o dia 23 de junho daquele ano, quando o então diretor da Nasa James Hansen, hoje um octogenário ativista ambiental, discursou a uma audiência lotada de parlamentares que suavam muito por conta do calor excessivo àquela época do ano, sobre o aquecimento global. Hansen foi taxativo: as mudanças climáticas são consequência das atividades humanas. Mais tarde, num artigo para o jornal “The New York Times”, Hansen escreveu que já era tempo de “parar de tagarelar” sobre a Ciência e enfrentar seriamente a questão.

Muro no Japão contém ondas de Tsunami. Foto Reuters – 2018

Foi também naquele ano, 1988, a primeira reunião dos cientistas do United Nation´s Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), atualmente nosso quase velho conhecido. Já no ano seguinte, uma pesquisa feita entre a população norte-americana mostrou que 79% tinham ouvido falar dos efeitos produzidos pelos gases poluentes na nossa atmosfera.

Ponto para Hansen por ter conseguido espalhar a ideia. No entanto, a história registra que bem antes disso já havia estudiosos preocupados com a relação da humanidade com a natureza. Hoje já se sabe: ela é complexa. O homem se sente superior em todos os momentos, certo de ter o poder de devastar o ambiente onde vive, mesmo assistindo a degradação ao redor.  Já percebendo a delicadeza dessa relação, por exemplo, Victor Hugo, o grande escritor, escreveu em 1840:

“Fico triste quando penso que a natureza fala e a humanidade não escuta”.

Sem precisar ir tão longe no passado, podemos definir outra data, 1972, ano em que ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo: a primeira conferência mundial a fazer do meio ambiente uma questão importante. No Edifício Folkets Hus, Centro da capital sueca, os líderes mundiais aceitaram o convite feito pela ONU e se reuniram de 5 a 16 de junho para “inspirar guiar os povos do mundo na preservação e valorização do ambiente humano”.

“Por ignorância ou indiferença podemos causar danos massivos e irreversíveis ao meio ambiente terrestre, da qual nossa vida e bem-estar dependem”, escreveram os líderes então reunidos na ensolarada e fria Estocolmo. Há exatos 49 anos.

Por que lembrar disso agora?

Porque visitar a história é importante, sobretudo quando a humanidade insiste em fechar os olhos e negar o que é óbvio e que a Ciência mostra com tanta exatidão. Aliás, quanto a isso, gosto sempre de lembrar que há estudiosos que recordam aos negacionistas um fato notório: quando a Ciência serve para nos dar conforto e aliviar dores (como no caso das tecnologias usadas na Medicina), ela não é negada.

Nossa situação atual é bem diferente daquela que, já na metade do século XIX, preocupava Victor Hugo. Está pior, muito pior. Incêndios, secas, tormentas graves têm se alastrado com mais força e violência. Alertas de desmatamento na Amazônia, em março deste ano, foram os maiores já registrados para o mês desde o começo da série histórica, segundo dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). É, portanto, um sinal mais do que claro e evidente que não estamos escutando o que a natureza vem nos dizendo. Exceção feita, com mesuras e reverência necessárias, aos indígenas, povos que conseguem manter suas terras com o menor impacto.

Neste sentido, um relatório lançado em janeiro deste ano pela organização alemã  Germanwatch, muito conceituada e que há anos tem se dedicado a fazer estudos sobre os impactos das mudanças climáticas, não colabora para nos deixar otimistas. Mas é necessário como estudo para políticas públicas e registro histórico.

O relatório se chama Global Climate Risk Index e traz dados  estarrecedores. Mais de 475 mil pessoas morreram, no mundo todo, entre 2000 e 2019, por conta de eventos extremos – tempestades, inundações, onda de calor e seca. Foram mais de onze mil desses eventos, que resultaram na perda de US$ 2,56 trilhões.

Jogando para a frente, os estudos mostram que até 2030 as estimativas dão conta de que serão perdidos entre US$ 140 e US$ 300 bilhões anualmente. Já quando a estimativa é feita até 2050, estes números sobem para US$ 280 e US$ 500 bilhões. Considerando apenas os países emergentes, as estimativas de perdas financeiras de hoje até 2030 estão entre US$ 290 e US$ 580 bilhões.

Entre 2000 e 2019, Porto Rico, Myanmar e Haiti foram os países mais afetados  pelos impactos dos eventos extremos. O relatório mostra ainda que a pandemia que estamos vivendo desde que fomos atingidos pelo Corona Vírus reitera o fato de que riscos e vulnerabilidade são sistêmicos e estão interconectados.  

É isto.

*Publiquei este texto na Revista Entrenós e no Blog da Casa Monte Alegre

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Dalai Lama e Papa Francisco fazem apelo que o Brasil não poderá atender

Em 2015, o mundo se surpreendeu com a Encíclica do Papa Francisco, chamada “Laudato Si – Sobre o cuidado da Casa Comum”.  O Sumo Pontífice decidiu escrever sua carta aos fiéis tendo em vista a “deterioração global do ambiente”. Convocou-os a “unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável”, afirmou que estamos vivendo uma era de mudanças climáticas que “desnudam a terra das suas florestas naturais”. E atestou, também, aquilo que alguns líderes negam: os humanos estão contribuindo para a mudança climática. Naquele ano, os líderes mundiais, reunidos em Paris, assinaram o Acordo que se propõe a baixar as emissões a ponto de não permitir que o aquecimento global fique acima de 1.5º até o fim do século.

Foi um bom momento para a causa ambiental. Considerando que o Papa Francisco é um líder que fala para cerca de 1,3 bilhão de fieis, muita gente parou para pensar a respeito.

Cinco anos depois, outro líder religioso lançou uma mensagem que se assemelha à do Papa Francisco. Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, região com cerca de três milhões de pessoas, escreveu “A Nossa Única Casa – Um apelo ao mundo pela necessidade urgente de cuidarmos da Terra”, lançado no Brasil pela Editora Leya. O livro é feito em parceria com Franz Alt, cientista político que já trabalhou como jornalista e se especializou em ecologia e preservação ambiental.

Além de reproduzir uma conversa, em que Franz Alt faz perguntas ao Dalai Lama, o livro registra também os pensamentos do líder religioso sobre meio ambiente e mudanças climáticas. Assim como o Papa Francisco, ele exorta todos a construir “um ambiente mais saudável”.  E diz que “a ecologia deve se tornar a economia mais inteligente. Só então seremos capazes de viver de forma sustentável”.

“Já nos descrevi como egoístas, é verdade. Mas devemos ser egoístas sábios, em vez de egoístas tolos. Pensar menos em “eu” e mais no bem-estar dos outros. Assim se obtém o benefício máximo. Então isso é o egoísmo sábio”.

 Não custa trazer aqui os pensamentos de pessoas célebres que têm sensibilidade, responsabilidade, são bem-informados e acreditam na Ciência. Às vezes é preciso ir beber nessas fontes, sobretudo quando estamos vivendo uma espécie de realidade paralela aqui no Brasil, um governo que não leva em consideração essas verdades.

Agora que já nos banhamos em águas sábias e tranquilas, portanto, precisamos enfrentar a nossa dura realidade. A Câmara dos Deputados aprovou, no último dia 12, o texto substitutivo do projeto de lei 3.729/2004, que flexibiliza o processo de licenciamento ambiental. A proposta está sendo chamada de “tratorada” pelos ambientalistas, uma alusão à boiada que o ministro Salles, do meio ambiente, prometeu deixar passar.

Flexibilizar o processo de licenciamento ambiental é permitir mais obras e desmatamentos, é não respeitar a necessidade de baixar emissões de gases do efeito estufa. É não fazer nada daquilo que o país prometeu fazer na última reunião de cúpula, há três semanas, convocada pelo presidente Biden, dos Estados Unidos. Tudo isso, para se dizer o mínimo.

O projeto de lei libera ainda uma inusitada forma de auto licenciamento. Funciona mais ou menos assim: a empresa entra no computador, vai ao site e diz ao governo brasileiro que sua obra não vai causar impacto algum ao meio ambiente. Não vai sujar rio, não vai matar as árvores, não vai poluir o ar, não vai deslocar famílias. Vai, só, ajudar a desenvolver o país. E estará, assim, permitida. É como se dissessem: “empresário, venha, faça o que quiser, porque o Brasil precisa de você”.

Listo aqui apenas três pontos que demonstram quão distante estaremos, a partir de agora, da tão necessária mudança de paradigma que Papa Francisco exorta em sua Encíclica e que o Dalai Lama sugere em seu livro que faz apelo ao mundo para cuidarmos da Terra. Não será possível obedecer a um e a outro, já que privilegiaremos o lucro, o desenvolvimento, a qualquer custo. Eu disse, qualquer custo.

1 – Estamos no meio da maior crise sanitária do século. Estudos foram feitos e já constataram que o desmatamento pode contribuir para novas pandemias, por um motivo bem simples: quando se mata árvores o solo é mexido, remexido. Segundo a ONU, as florestas são o lar de mais de 80% de todas as espécies terrestres de animais, plantas e insetos. Assim como, de 1,6 bilhão de pessoas que dependem das florestas para viver. Quando o trator derruba árvores, lá se vão arbustos “e os animais selvagens que levaram milhares de anos para criar esse ecossistema”, como diz Soledad Barruti no artigo “Nuggets e morcegos, como cozinhamos as pandemias”. Flexibilizar a legislação ambiental significa abrir caminho para mais e mais desmatamento.

2 – Ao flexibilizar a legislação ambiental, o Brasil não está dando nem um passo para mudar paradigma em prol de um novo modelo civilizatório, como é preconizado por dez entre dez estudiosos dos efeitos da pandemia e do modus vivendi pós-pandêmico.  É preciso sair do padrão econômico para o padrão ecológico, como demonstram os analistas da nossa era. “O contrato social no qual se baseia a governabilidade de nossa sociedade deve ser complementado por um contrato natural”, disse o filósofo e acadêmico francês  Michel Serres.

3 – Há, no Brasil, segundo o censo do IBGE de 2010, 818 mil indígenas, de 305 etnias diferentes. É bom lembrar que essas pessoas já estavam aqui no país quando chegaram os portugueses, o que lhes dá o direito de ter terras delimitadas. Hoje há 632 desses locais, muitos deles em solos ricos, o que atrai grileiros. Ontem mesmo vimos o que aconteceu com os Yanomami, um dos maiores povos indígenas da América do Sul, vítimas do ataque de grileiros. Ficamos sabendo. Mas, imaginem quantos outros eventos como este podem acontecer, agora que a lei está mais flexível e permite, até incentiva, empreendimentos até em terras indígenas?

Encerro aqui este texto, sem qualquer conclusão possível. São palavras e informações que vão contribuir para refletirmos. E que nos alimentem.

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Mensagem do Corona vírus para a humanidade: cuidem-se!

Paulo Gustavo me fazia rir. Eu tinha o hábito de acompanhar um de seus programas depois de um dia muito encrencado, quando tudo o que minha mente pedia era relaxar, distrair. E dava certo. Acabava a noite mais leve, ia me deitar com um sorriso no rosto, pensando naquele jeitão meio irônico, meio sarcástico, mas sempre muito engraçado. O personagem Paulo Gustavo.

Depois de sua morte fiquei sabendo que ele também era uma pessoa generosa. Doou milhões de reais para causas que necessitavam. E vai dando uma tristeza que cola na gente. E raiva desse vírus, da pandemia, de tudo o que anda nos cercando nesses tempos sombrios.

Mas ter raiva não é uma emoção razoável num momento desses. Estamos no meio de uma crise grave, que vai ficar para a história, e eu quero reagir de outra forma. É preciso, por exemplo, exercitar a escuta profunda, como ensina o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos pensadores mais importantes da atualidade, em seu livro “O futuro começa agora – da pandemia à utopia”, que acaba de ser lançado pela Editora Boitempo.

Boaventura escreve que a humanidade decidiu criar metáforas para tentar entender melhor o Corona Vírus. Uma dessas metáforas é “vírus mensageiro”, e é óbvio que isso quer dizer que é preciso entender a mensagem que o vírus está tentando nos transmitir. Uma delas está transparente, mas apenas para alguns: não é possível continuar numa relação tão devastadora com o ambiente que nos cerca. Destruir habitats de bichos e plantas significa que eles precisarão se transmudar, criar outras plataformas, e que novos vírus poderão surgir a partir dessas mudanças. Isto, para não falar do desmatamento, que também deixa sem casa tais seres minúsculos, carentes de hospedeiros.

As vacinas, tantas forem, são uma das soluções, mas não o único caminho para enfrentarmos a era das pandemias (assim mesmo, no plural) que, segundo Boaventura e vários outros analistas, passará a ser nossa dura realidade daqui por diante. E, nessa trajetória que nos convida a escutar mais profundamente, também está a linha que segue o médico Mauricio Tatar, que se formou na escola tradicional de Medicina e depois, por perceber tamanha distância entre a Saúde que buscava e as doenças que aprendia a ver em seu curso, agregou os ensinamentos de outra Medicina, a oriental, mais ampla e conectada com a saúde integral.

Tive a sorte de auxiliar Mauricio Tatar a reunir em texto os seus pensamentos, o que resultou no livro “Cuidar de Si”, também recentemente lançado pela Mauad Editora. Mauricio e eu começamos a pensar o livro antes do anúncio da pandemia. Praticávamos, então, uma rotina de encontros semanais, nos quais ele falava, eu ouvia e anotava. Quando o Corona Vírus se apresentou, nosso hábito mudou, e nossos encontros passaram a ser virtuais. O que não mudou, muito antes pelo contrário, foi a nossa certeza de que refletir sobre saúde integral, sobre mudanças de hábitos tendo como meta a saúde, provocações que o leitor vai encontrar no livro, são absurdamente oportunas nesse tempo. Mauricio Tatar reitera, a cada vez, que: “Saúde vem de dentro para fora, não se compra em farmácias”.

O livro ensina bastante, sobretudo, como o título demonstra, a que as pessoas possam se organizar melhor, respeitar mais seu corpo. Isto quer dizer muita coisa. Isto nos obriga, sobretudo, a encarar de forma adulta, e sem rodeios, nossas escolhas . Uma, de tentar escutar o que o vírus nos transmite como mensagem, outra, de tentar mudar nossa relação com a natureza e nosso estilo de vida, de consumo.

São tarefas árduas, às vezes muito difíceis, mas necessárias. E prazerosa, se levarmos em conta que o movimento de transformar faz parte da saúde e da vida. Convido vocês, caros leitores, a comemorem conosco o lançamento do livro numa live nesta sexta-feira, dia 14, às 20h. Mandarei notícias com o endereço da live mais adiante. Será um espaço para refletirmos juntos sobre nossos caminhos, sobre nossos desafios, sem uma postura derrotista, mas com uma proposta de caminhos e soluções. Até lá.

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‘Água não é recurso, é elemento sagrado’, diz jovem ativista que discursou para líderes nos EUA

Xiye Bastida tem 19 anos. Nasceu na cidade mexicana de San Pedro Tultepec e pertence ao povo indígena Otomi-Tolteca, um dos mais antigos do mundo. Hoje mora em Nova York, para onde precisou migrar depois que uma forte inundação arrasou sua cidade, em 2015. Bastida tornou-se uma ativista ambiental quando foi informada, por cientistas, que a tragédia que aconteceu em San Pedro, e que obrigou toda a sua família a abandonar suas raízes, é culpa do aquecimento global. E que, se não houver uma tremenda mudança na forma como o homem lida com o meio ambiente, no modo como produz e consome, a tendência é acontecer eventos extremos cada vez mais severos.

Água, o elemento sagrado. Foto Getty Images

Xiye esteve ontem na Conferência sobre o Clima convocada por Joe Biden, presidente dos Estados Unidos. Foi anunciada pelo secretário de estado  Anthony Blinken, que contou uma parte da saga da família da jovem para fugir e encontrar um pouso. Blinken lembrou que a nação mais rica do mundo também já foi afetada por eventos extremos, como o furacão Sandy, em 2012.  Para deixar sua mensagem aos líderes mundiais, Xiye teve os mesmos seis minutos que os 40 chefes de estado que foram convidados para a reunião.

A jovem ativista fez um discurso crítico. Lembrou que, em sua maioria, estavam naquela Conferência líderes de países ricos do Hemisfério Norte, e denunciou a ausência de pessoas de comunidades pobres, aquelas que são, verdadeiramente, alvo dos eventos extremos. Alertou para o fato de que o mercado “verde” pode funcionar com o mesmo modelo do mercado tradicional. E que, por conta disso, ali poderiam estar sendo apontadas soluções orientadas por uma ordem econômica global  também predadora.

“Além de falar sobre as mudanças climáticas, os líderes mundiais precisam aceitar que a era dos combustíveis fósseis acabou”, disse Xyie. A jovem indígena estava ali também representando o movimento “Fridays for Future”, alavancado pela jovem sueca Greta Thunberg, também ativista, que já mobilizou centenas de milhares de jovens mundo afora na luta contra a crise climática.

Foi muito bom ouvir o que Xiye tinha para dizer. Busquei, em suas redes sociais, parte de outros discursos, e vi que ela se preocupa com tudo o que envolve o ecodesenvolvimento. A frase que elenquei para título desse artigo é dela:

“Água não é recurso, é elemento sagrado”, faz parte da sabedoria indígena da qual ela descende, e é uma realidade também de nossa humanidade ocidental. Mas parece que a gente se esquece disso.

Foi bom, também, poder recordar outros jovens levados para Conferências globais sobre o Clima nos anos passados, possivelmente com o objetivo de tornar mais críveis, sensíveis e, na medida do possível, mais concretos, tais encontros.  A primeira aparição semelhante foi em 1992, quando o Rio de Janeiro sediou a Eco-92. Naquela reunião, a jovem Severn Suzuki, então com 12 anos, conseguiu a atenção dos líderes reunidos ali com uma mensagem, à época, bastante apocalíptica. Mas que, infelizmente, hoje se torna usual.

“Estou aqui para falar por todas as gerações que virão. Estou aqui para falar – falar em nome das crianças famintas em todo o mundo cujos gritos não são ouvidos. Estou aqui para falar pelos incontáveis ​​animais que estão morrendo neste planeta, porque eles não têm para onde ir. Estou com medo de sair ao sol agora, por causa dos buracos em nosso ozônio. Tenho medo de respirar o ar, porque não sei quais são os produtos químicos nele”, disse a menina Suzuki, hoje ambientalista, mãe de dois filhos.

Esta é a maior preocupação: o tempo passa, as cobranças se alternam apenas de intensidade (à exceção do buraco na camada de ozônio, cujo tema saiu da urgência com a redução nas emissões de gases CFCs). Greta Thunberg lançou ontem, no Dia da Terra e primeiro dia da Conferência do Clima, um vídeo com mensagens aos líderes.

No vídeo, que pode ser visto nas redes sociais,  a jovem sueca não poupa críticas aos discursos e promessas dos participantes da Conferência, “feitas numa escala fantasiosa”. E se pergunta: “O que nós precisamos continuar trapaceando para fingir que essas metas estão alinhadas com o que é necessário fazer, de verdade, a favor do clima?”.

Boa pergunta, Greta. Vou lhe dar um subsídio a mais para seu caldeirão de críticas: no dia seguinte ao discurso cheio de promessas que fez na Conferência, o presidente Jair Bolsonaro usou a caneta para cortar recursos do setor do governo que lida com as mudanças climáticas.  

Entre os discursos dos líderes, o que mais me chamou a atenção foi do presidente do México, López Obrador. Não pelas promessas que fez, seguindo o modelo da cúpula, mas porque levou uma proposta concreta, de um projeto que já está instalado em seu país. “Sembrando Vida” é um esforço de reflorestar e, ao mesmo tempo, dar trabalho e renda. Segundo ele, já existem 450 mil agricultores, no Sudeste do México, com a tarefa de plantar árvores. Obrador convidou Joe Biden a ampliar o programa, e incluir migrantes entre os plantadores de árvores.

No fim das contas, pode ser uma boa ideia. Com prazo para terminar, claro.

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O Coronavírus, a Conferência de Biden e o nosso papel nisso tudo

Passado o tempo do negacionista Donald Trump no comando da nação mais rica do mundo – e a segunda mais poluidora –, a população global observa agora o resgate da preocupação com as mudanças climáticas. Joe Biden, que substituiu Trump, imediatamente pôs os Estados Unidos de volta no Acordo de Paris. O tratado foi um compromisso assinado durante a Conferência das Partes sobre o Clima (COP) de 2015, cujo mote principal é fazer o possível por manter o aumento das temperaturas globais abaixo de 1,5 graus Celsius. Donald Trump havia retirado os Estados Unidos do Acordo, o que causou uma espécie de efeito de contágio, revelando ao mundo outros líderes negacionistas que estavam, até então, se omitindo.

Foto tirada por mim em evento pela despoluição da Baía de Guanabara em agosto de 2015

Segunda providência de Biden: convocou uma reunião de cúpula sobre o clima que vai anteceder a COP-26, que acontecerá em Glasgow, na Inglaterra, em novembro. E esta reunião vai acontecer quinta-feira agora, dia 22, quando se comemora o Dia da Terra. O encontro, para o qual foram convidados 40 chefes de nação (o presidente Bolsonaro já confirmou presença) vai se estender até o dia seguinte.

Congo, Colômbia, Chile, Gabão, Índia, Bangladesh, Ilhas Maurício, Noruega, Polônia estão entre os que já confirmaram presença. Rússia ainda é dúvida. Mas a China estará lá. Para azeitar as negociações entre os dois mega poluidores, já houve uma prévia entre China e Estados Unidos e uma declaração conjunta foi anunciada. Por ela, fica-se sabendo que as duas nações estão “firmemente comprometidas em trabalhar juntas e com outras Partes para fortalecer a implementação do Acordo de Paris”. Alvíssaras.

Mas, quem está na estrada há muito tempo como eu, há de se lembrar que China e Estados Unidos já protagonizaram outro momento bem parecido e que foi bem comemorado pela parte da população preocupada com as mudanças climáticas. Foi em 2014, quando o então presidente Barack Obama reuniu-se com Xi Jin Ping, também previamente à COP de 2015, e os dois anunciaram ao mundo que estavam assinando um pacto a favor do clima.

De lá para cá, bem… como se sabe, tudo o que não se esperava aconteceu. E hoje estamos à mercê de um inimigo ainda mais letal do que os eventos extremos, de tamanho diminuto e que está difícil de ser rendido. Seu nome: Corona Vírus.

Fato é, caros leitores, que mesmo com a boa vontade dos dois maiores poluidores do planeta, a realidade tem nos mostrado que são muitos os desafios para se manter compromissos de baixar as emissões.  E não me refiro apenas aos entraves geopolíticos, a questões diplomáticas. É sobre o meio ambiente que estamos falando. E é sobre a relação que construímos, como humanidade, com bichos, plantas, terra, rios, mares. Como se tudo isso fosse, desde sempre, apenas um pano de fundo para facilitar nossa vida. Nós, os humanos racionais. Nós, os mais poderosos. Só que não.

Tornamo-nos mais frágeis quando descobrimos, no início dos tempos, que podemos usar ferramentas e meios para vencer distâncias e praticar a força. Ficamos à mercê à medida em que descobrimos o conforto de não sentir muito frio, muito calor, de proteger os pés e mãos. Para cada avanço nos refrigérios que fomos criando, mais precisamos avançar sobre o meio ambiente. E nem estou mencionando a ganância, o acúmulo, descobertas unicamente racionais.

Aqui estamos, portanto. Com a industrialização, passamos a soltar gases poluentes que impedem que o calor do sol volte à atmosfera. Dessa forma, com o planeta mais quente, os mares ficam mais atormentados, os ventos mais fortes, a terra, muitas vezes, mais ressecada. A cada um desses tormentos, muitos de nós se vai. Como agora, quando o vírus está tirando muitas vidas. Segundo o xamã e filósofo Aylton Krenak, a Terra está “apagando os humanos”. E vai continuar, se não conseguirmos parar e ouvir o que ela está dizendo.

Parar, como? Se estamos imbricados até a medula num processo de desenvolvimento que nos obriga a avançar sobre o meio ambiente, mesmo quando tentamos diminuir a força do nosso impacto.

 Estive pesquisando, por exemplo, sobre o lítio. Ele faz parte do grupo químico dos metais alcalinos e, ultimamente, tem sido foco de disputa porque é a base da bateria dos carros elétricos. Só a China fabrica dez mil carros elétricos por mês, todos com bateria de lítio. Os carros elétricos têm sido vistos como a solução, ou parte dela ao menos, para diminuirmos o apetite sobre os combustíveis fósseis.

Aqui, vale um parêntese. Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, acumulou fortuna, justamente, vendendo carros elétricos. Não é uma economia sustentável, mas faz parte do paradigma que vivenciamos no sistema econômico vigente.

Bolívia, Chile e Argentina são os países que formam o chamado Triângulo do Lítio*, sendo que o Chile tem a posição mais alta. Mas é importante saber o seguinte: uma coisa são os recursos do lítio e outra são as reservas. Só as reservas são exploráveis. O que quer dizer que um país pode ter muito lítio, como no caso da Austrália, mas não ter reserva, ou seja, que ele não seja explorável.

Um dos problemas é que explorar lítio requer muita água: são necessários 500 mil galões de água para produzir uma tonelada de lítio. Além disso, no processo de separação do lítio são empregados muitos químicos tóxicos. Tudo isso cria, como se pode esperar, grande revolta entre as pessoas que moram próximo às minas de lítio.  Recentemente, na Argentina, na mineração Jujuy, houve um protesto, com cartazes que diziam:

“Água tem mais valor do que o lítio”.

Ninguém pode discordar disso. Eis portanto, um dos muitos imbróglios que temos pela frente no caminho em busca de uma economia com menos emissões de carbono. Se, por um lado, os carros elétricos podem ajudar a baixar as emissões, seria, no mínimo, um desatino, apostar as fichas no lítio e aumentar o risco, que já é grande, de ficarmos sem água.

Outro exemplo de nossa era de paradoxos, incertezas e da necessidade de tomada de decisão em prol de nossa saúde é a Emenda Kigali, um adendo ao Protocolo de Montreal, do qual o Brasil faz parte. Trata-se, basicamente, de proteger a camada de ozônio, evitando que os ares-condicionados emitam um gás que pode ser ainda pior do que o carbono. A Emenda está há um ano e meio esperando que a presidência da Câmara dos Deputados mande para ser aprovada no plenário. Quando isso acontecer, a indústria nacional de ar condicionado e geladeiras terá acesso a cerca de US$ 100 milhões do Fundo Multilateral para a Implementação do Protocolo, a fundo perdido. E promete usar o dinheiro para que as fábricas brasileiras produzam equipamentos mais eficientes e menos poluentes.

Quando penso a respeito, e me sinto envolvida nessa teia labiríntica entre desenvolvimentismo e preservação, gosto de ler autores que me levam a refletir sobre outras possibilidades, que não essas, usuais da economia verde. São chaves que podem abrir caminhos diferentes. E que vão exigir uma mudança bem forte de hábitos, costumes, de consumo e de relação com a natureza.

Cito o Papa Francisco. Com uma visão panorâmica de todo o cenário, o Sumo Pontífice, líder da comunidade católica do mundo, fez uma radiografia da origem de nossos problemas em Laudato Si, sua Encícilica de 2015. Na carta ele adverte, de maneira clara, que é preciso repensar nosso modo de consumir e de produzir. Não é simples assim como pode parecer, mas é um caminho.

*Os dados foram obtidos na excelente reportagem do site Dialogo Chino. Aqui: https://dialogochino.net/pt-br/

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Uma era das incertezas

Às vezes fico pensando sobre como os historiadores do futuro vão conseguir explicar esta nossa era. É um tempo de incertezas, um tempo de paradoxos, um tempo em que muitos ainda não se deram conta de que o homem não pode continuar se sentindo superior a tudo, porque desse “tudo” depende a sua própria vida. É um desrespeito global. Complexo? Então deixe eu exemplificar a teoria:

Rio Amazonas em foto tirada em 2015, viagem que fiz ao Arquipélago do Bailique: a natureza precisa deixar de ser o ‘entorno’

Há pouco estava caminhando com meus cães (dois shih tzus), quando uma menina de seus 4 anos veio por trás e deu um chute no Beto. Claro que foi um chute tranquilo, Beto não sentiu nada, mas o gesto foi horroroso. A mãe ficou consternada. Mas eu amansei a bronca porque um detalhe na cena havia passado despercebido da mãe: a menina tinha arrancado um galho bem grande, bonito, novo, da árvore da calçada, coisa que a mãe não notou. Nem registrou como ato tão horrível quanto o chute no meu cãozinho. É também a isso que me refiro quando falo sobre o desrespeito do homem pela natureza.

Vivemos um tempo de muitos erros, mas que também pode servir para refletir. A natureza precisa deixar de ser o “entorno” e passar a ter um papel principal em nossas vidas. É no que acredito. E, para ajudar nesse processo tão importante, de análise, é preciso informação.

Busco, então, nutrir-me diariamente, procurando informações em vários veículos, sobretudo no tema ao qual me dedico há quase duas décadas: o ecodesenvolvimento. Ou desenvolvimento sustentável. Mais recentemente, também chamado de conceito ASG (Ambiente, Social, Governança) ou ESG (Environmental, Social and Governance). Resumindo muito tudo isso, busco atualizar-me em tudo o que diz respeito ao nosso sistema civilizatório. E não, não é simples. Na maioria das vezes, é angustiante.

Ontem, duas notícias chamaram minha atenção. A primeira, no portal G1, traduzido do site da BBC, na verdade é um artigo escrito pelo cientista Piers Forsters, professor de física das mudanças climáticas e diretor do Centro Internacional Priestley para o Clima da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Ele contou que sua equipe da universidade fez uma pesquisa com o objetivo de avaliar se o lockdown quase global que o mundo enfrentou em março de 2020 teria, realmente, sido benéfico para as questões climáticas. Lembram-se como isso foi comentado há cerca de um ano?  

Resumindo a conclusão do estudo, que usou dados de mobilidade do Google e da Apple, “tanto no curto quanto no longo prazo, a pandemia terá menos efeito sobre os esforços para combater as mudanças climáticas do que muitas pessoas esperavam”.

“Apesar do céu claro e tranquilo, a pesquisa de que participei mostrou que o lockdown teve, na verdade, um leve efeito de aquecimento na primavera de 2020: conforme a indústria estagnava, a poluição do ar diminuiu e o mesmo aconteceu com a capacidade dos aerossóis, micropartículas produzidas pela queima de combustíveis fósseis, de resfriar o planeta refletindo a luz do Sol para longe da Terra”, escreveu o professor.

Quando fizeram uma projeção para dez anos à frente, os pesquisadores concluíram que o vírus Corona contribuirá para baixar apenas 0,01º grau. Muito mais do que este resultado seria conseguido caso os países decidissem levar a sério os esforços para baixar as emissões, dizem os estudiosos.

Mas, parece que baixar emissões ainda é uma proposta que não pegou. Pelo menos não em políticas públicas de larga escala.  No mesmo dia em que foi divulgado esse artigo, uma reportagem comemorou o “superciclo de commodities”. Na conjuntura atual, acreditam economistas ortodoxos, uma forte recuperação de Estados Unidos e China seria uma janela de oportunidades para o Brasil sair da crise. Na avaliação deles, esta expectativa impulsiona “a valorização de produtos como minério de ferro, soja, açúcar, petróleo e outras commodities que têm forte peso na balança exportadora brasileira”.

Considerando que cada uma dessas commodities citadas tem seu peso nas emissões de gases do efeito estufa, e não é peso leve, reparem bem no tamanho do paradoxo. Precisamos de aquecimento na economia? Sim. Precisamos de mais empregos? Sim. Precisamos que o ar esteja mais limpo e o clima não nos submeta a eventos extremos que matam centenas de pessoas a cada passagem de furacões e tempestades? Sim, também.

Precisamos ainda que a agricultura não use tantos agrotóxicos, que as águas não sejam contaminadas por resíduos, que os peixes possam ter tempo para se reproduzir antes de serem pescados… nossa, a lista é grande, viu? Para viver com saúde e causar menos impactos aos bens comuns, a lista é grande.

E ainda tem o Corona vírus. Vários estudiosos já relacionaram o surgimento do nosso maior inimigo atual à maneira pouco respeitosa com que se andam tratando animais silvestres e a terra. Se você, caro(a) leitor(a), prefere acumular mais razões para crer nessa teoria, vale ler o que diz o sociólogo Boaventura de Sousa Santos em seu livro “O futuro começa agora – da pancemia à utopia” (Ed. Boitempo), recém-lançado:

“O modo como o vírus emerge, se difunde, nos ameaça e condiciona as nossas vidas é fruto do mesmo tempo que nos faz ser o que somos. São as nossas interações com animais, e sobretudo com animais selvagens, que o tornam possível. O vírus espalha-se no mundo à velocidade da globalização. … Descobriu os nossos hábitos e a proximidade social em que vivemos uns com os outros para melhor nos atingir. Gosta do ar poluído com que fomos infestando as nossas cidades. Aprendeu conosco a técnica dos drones e, tal como estes, é insidioso e imprevisível onde e quando ataca… Prefere as populações empobrecidas, vítimas de fome, de falta de cuidados médicos, de condições de habitabilidade, de proteção no trabalho, de discriminação sexual ou etnoracial”.

E, agora, a cereja do bolo para concluir minhas reflexões de hoje neste espaço: “Considerar o vírus como parte da nossa contemporaneidade implica ter presente que, se quisermos ver-nos livres do vírus, teremos de abandonar parte do que mais nos seduz no modo como vivemos”.

Ou isto, ou vamos ser vítimas de um apocalipse latente, silencioso, caso nosso conceito de desenvolvimento continue a contemplar números, não o bem-estar de pessoas.

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‘Ninguém estará salvo até que todos estejam salvos’

Hoje tomei a primeira de duas doses da vacina contra o vírus Corona, nosso atual inimigo mais letal. A vacina que os funcionários do Sistema Único de Saúde (SUS) aplicaram no meu braço direito (não pode ser no esquerdo, fui alertada) foi desenvolvida pela empresa Sinovac Biotech, uma fornecedora mundial de vacinas contra influenza, hepatites A e B, caxumba e H1N1, conforme dados da pesquisa que fiz pela internet.

 Ela é também chamada de Coronavac, e já até recebeu outros apelidos pouco nobres por parte daqueles que ideologizaram e politizaram o drama que estamos vivendo. A Coronavac vem da China, mas é distribuída por  um conglomerado de empresas privadas que negociam com os países e lucram – muito, como se pode imaginar – com sua distribuição.

Fato é que, sim, estou um pouco mais aliviada. Fato, também, é que considerei minha vacinação como um ato cívico de solidariedade. Por mais que quem quer que seja julgue que pode se livrar de ficar doente porque leva uma vida saudável, não dá, simplesmente não dá, para esquecer que se vive em uma comunidade. E que é preciso que muitos se vacinem para criar uma barreira ao vírus.

“Ninguém estará salvo até que todos estejam salvos”. A frase, dita pela cientista Mariângela Simão durante a Conferência de Imprensa da OMS em março deste ano, resume nossa responsabilidade na era pandêmica.

No caminho até o posto onde eu tomaria a vacina, lembrei-me de entrar num supermercado para comprar alimentos. Há uma campanha, idealizada pela Prefeitura do Rio, que incentiva a doação de alimentos não perecíveis na hora da vacinação. Decidi apoiar.

Quase R$ 10 o quilo de fejão e quase R$ 6 o quilo do arroz: quem pode com isto?

Um quilo de arroz e um quilo de feijão no supermercado que fica em frente ao Museu da República, no Catete, Zona Sul do Rio de Janeiro, outrora um bairro nobre, hoje já não tão nobre assim, custam, no total, R$ 15,68. Talvez eu devesse grifar este valor. Vou especificar, para ficar mais claro: UM quilo de feijão custa R$ 9,88 e UM quilo de arroz custa R$ 6,99. Não é pouca coisa, gente. Sobretudo considerando a taxa de desemprego, que já atinge cerca de 13,5 milhões de pessoas no país.

Com os produtos em mãos, segui para o posto. Meu caminho foi interrompido por uma jovem com uma criança no colo. Vestida de maneira asseada, a moça tinha uma cicatriz no nariz e os cabelos recém-lavados. A criança usava um macacãozinho amarelo. Nada destoava, a miséria não era exposta. Jovem e bebê tinham as insígnias que as permitiam estar circulando entre os demais cidadãos sem perturbar a ordem.

— Moça, estou com fome, pode pagar uma comida para mim?

Não sei quantas vezes ouço essa frase ultimamente, nas raras vezes em que preciso me afastar de casa. Dói na alma. Causa indignação, é insuportável. O Brasil, de novo no Mapa da Fome. O Brasil, de novo entre os países que expõem o descalabro de um sistema que permite que pessoas passem fome! E não é por falta de alimento: o Ministério da Agricultura comemorou, no mês passado, a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos: 15,4 milhões a mais do que na safra 2019/2020.

O problema, portanto, está na má distribuição desses alimentos.

Qual foi meu primeiro movimento naquela hora em que a moça chegou perto? Disse a ela que acabara de comprar um quilo de arroz e um quilo de feijão para doar. E fui quase inocente: sugeri que ela fosse ali no posto.  Certamente iriam dar-lhe, talvez, até mais do que o arroz e o feijão, quem sabe uma cesta básica inteira.

— Não, eles não dão assim fácil não. A senhora não pode me dar direto?

Os olhos da jovem estavam cravados na bolsa que abrigava os alimentos que eu comprara. E, é claro, percebi ali que não faria sentido algum burocratizar o processo. Direto da doadora à consumidora. Assim foi feito.

Lembrei-me da fala do padre Júlio Lancelotti que ouvi, dia desses, numa dessas inúmeras lives que hoje são nosso meio de comunicação: “Como ajudar? Doe qualquer coisa a quem esteja na rua, necessitado, a quem lhe peça. Qualquer coisa”. Felizmente a jovem não parecia estar sem teto. Perguntei-lhe ainda se ela teria onde cozinhar os dois produtos e ela confirmou-me. Terá gás? Disse-me que sim, eu acreditei. Pode ser que ela faça outro uso dos produtos, quem sabe até venda para ter algum dinheiro. Eu não me importo.  

Ando preocupada além da conta. A pandemia foi apenas a pá de cal jogada para avivar ainda mais a sensação, que já vinha acentuada, de que vai ser preciso uma boa reviravolta no país, no mundo. Mais atos solidários, mas de maior monta, para que possamos dar a volta por cima.

Meu desassossego só faz aumentar quando busco informações em publicações estrangeiras. A pandemia já está ocupando a segunda dobra da primeira página dos sites de grandes jornais da Europa. Isto quer dizer que já não é a notícia mais importante, pois tem baixado o número de mortos globalmente, felizmente. O Brasil hoje ocupa o segundo lugar, superado apenas pelos Estados Unidos, em número de mortes e infectados pelo vírus. Não que o resto do mundo já tenha se livrado, mas com certeza o caminho já está mais livre com a vacinação em massa, o isolamento social, as medidas de higiene.

Meu medo é que, com o avanço da vacinação, que deve servir para diminuir o insano avanço do vírus, a situação se cronifique. E que se passe a naturalizar a doença e suas sequelas, assim como, hoje, a gente já está naturalizando a miséria e a fome. Falo do Brasil e do mundo. Geopoliticamente, imaginem, quando a maioria estiver vacinada e longe da possibilidade de adoecer, quem estará do lado daqueles que forem se infectando, que não conseguiram ser vacinados. E mais: daqueles que, por má ventura, desenvolvam sequelas funestas e paralisantes da doença?

Não, isso não pode acontecer, e tenho certeza de que não vai acontecer. A sociedade, ou seja, nós, estamos frente a frente com um desafio monstruoso: o de sermos solidários e de olharmos para o lado com indignação, de apontarmos o dedo e não nos calarmos diante de um cenário de fome, doença, falta de educação e de saúde. A hora é esta: vamos virar o jogo e vamos sair bem.

Termino este texto com a reflexão instigante do filósofo Harry Frankfurt, professor da Universidade de Princeton, que escreveu “On Inequality”, um pequeno livro que se propõe a mostrar que estamos diante de “um sério desafio para as crenças políticas acalentadas, tanto na esquerda quanto na direita”. Frankfurt acha ofensivo tanto a riqueza excessiva quanto a pobreza e a miséria.

“Se nos dedicássemos a ter certeza de que todo mundo tem o suficiente, nós reduziríamos a desigualdade como um efeito colateral. Mas é essencial saber que a última meta de justiça é acabar com a pobreza, não com a desigualdade”.

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Ser solidário

Pensador de muitos quilates, reconhecido como o maior  geógrafo brasileiro, Milton Santos morreu em 2001 deixando dezenas de publicações, a maioria com um forte tom crítico ao sistema econômico vigente. Em “Por uma nova globalização”, publicado um ano antes de sua morte, ele vai além. Critica a falta de compaixão, critica a competitividade, sente falta da palavra solidariedade. E responsabiliza um sistema que se fortalece com o acúmulo e privilegia a competitividade pelo estado atual das coisas.

 “Nos últimos cinco séculos de desenvolvimento e expansão geográfica do capitalismo, a concorrência se estabelece como regra. Agora, a competitividade toma o lugar da competição. A concorrência atual não é mais a velha concorrência, sobretudo porque chega eliminando toda forma de compaixão… Comportamentos que justificam todo desrespeito às pessoas são, afinal, uma das bases da sociabilidade atual”, escreveu ele.

Na entrevista que concedeu aqui para o blog no mês passado, o pensador Noam Chomsky, um dos mais lúcidos da atualidade, foi claro quando se referiu à necessidade de as nações serem solidárias num momento como o que estamos passando:

“Somente através de uma solidariedade internacional podemos pensar em ter alguma esperança de superar as crises que nos confrontam hoje e, assim, poderemos nos mover para um futuro melhor”, disse ele.

Não há como escrutinar qualquer coisa boa nesse vírus que decidiu assolar o planeta e nos afundar numa pandemia. Mas, sim! Há a solidariedade. Eis que este sentimento começa a dar sinais, aqui e ali, nesse ou naquele grupo.

Vale um parênteses, para que vocês não me julguem alheia ao que está acontecendo. Há, e não são poucos, aqueles que trilham o caminho contrário da solidariedade, sobretudo no campo das vacinas. Sabe-se que está faltando vacina no mundo, mas que os países ricos estão tendo atitudes egoístas, comprando o máximo sem olhar para o lado, sem ajudar as nações pobres.

 Mas, hoje, aqui neste espaço, vamos focar no positivo para liberar boas energias.

Há um alento no ar que chega sob forma de cuidados. E esses cuidados, que também precisam ser consigo, andam se estendendo de humanos para humanos. O subtítulo do livro de Milton Santos parece dar o tom certo ao que anda ressurgindo: “Do pensamento único à consciência universal”. Reparem, por favor, que não estou entrando no aspecto político, cuja atmosfera está tão cheia de fuligem que não dá para acessar sem nos deixar com um muxoxo de impotência. O que se pode fazer, afinal?

Em entrevista recente, o Padre Júlio Lancellotti deu uma receita clara, que ando seguindo: “Não discrimine ninguém, sobretudo as pessoas que estão morando nas ruas. E, sempre que possível, ajude. Com uma garrafa de água, com roupas, com um pouco de dinheiro. Ajude”.

 É por ser solidário com o drama daqueles que não têm o que comer, por exemplo, que Jorge Luiz Fernando dos Santos, o rapper Shackal, criou a campanha “Tropa contra a Fome”, um financiamento coletivo para distribuir quentinhas e kits com itens de prevenção ao Covid. Mesmo antes de ter o financiamento, Shackal já distribuiu cinco mil quentinhas na cidade. Anteontem, o rapper foi ao Centro, e se abalou de verdade com a situação das pessoas:

“Vi pessoas numa fila, às 7h da manhã, esperando o ticket para não perder o almoço. Não tem nem mais café da manhã. Pessoas olhando para o nada, sem dignidade. É crueldade, igualzinho aconteceu na Guerra Fria: o mesmo que botar um monte de gente numa cela de gás. Eles continuam matando as mesmas pessoas, só que de uma outra forma. Falar de amor agora é dar comida para essas pessoas. O método da Tropa é este: tentar levar comida o mais urgente possível. Para que aquelas pessoas consigam fazer uma revolução interna, de fora para dentro. A revolução é estar digno, bem, saudável. E voltar a ser humano”, disse Shackal.

O rapper Shackal: “Eles continuam matando as mesmas pessoas, só que de uma outra forma”.
Foto: Divulgação: Tropa da Solidariedade

Se quiser ajudar a Tropa, acesse aqui: https://www.tropadasolidariedade.com/.

No site de notícias G1, leio uma reportagem que conta histórias lindas, de pessoas que saem de barco, pelo Brasil recôndito, levando livros e contando histórias para as crianças que moram à beira dos rios e estão sem escola. Há também uma ONG que está arrecadando tablets e computadores para as crianças que necessitam, em São Paulo. É bom lembrar que, no Brasil, um em cada quatro cidadãos não tem acesso à internet, por isso não é garantido resultado do ensino à distância. Acesse aqui a reportagem e, se for possível, ajude: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2021/03/23/na-pandemia-projetos-sociais-levam-material-escolar-cestas-basicas-e-computadores-para-alunos.ghtml.

Grandes corporações também estão se mexendo. Mas, no macro cenário, há menos ações do que necessário, como lembra Boaventura de Sousa Santos em seu livro “O Futuro começa agora”:

“Ao longo dos últimos quarenta anos, o neoliberalismo […] promoveu com tal intensidade a ideologia do individualismo que ela voltou a ser o senso comum das elites, tal como no século XIX”. 

Mas, de novo, voltemos nosso olhar para o que pode dar certo. Assim será.

Há muitas campanhas encabeçadas por grandes corporações. Instituto Ethos, organização que aglutina empresas que têm o objetivo de seguir uma linha socialmente responsável, a ONG Oxfam – que se articula pela igualdade social – a Redes da Maré e outras lançaram uma campanha também de ajuda aos desvalidos. Quem quiser e puder ajudar, é só acessar aqui (https://doe.oxfam.org.br/umpaismaisjusto/single_step) .

Já estava finalizando este texto quando recebi uma mensagem com a história de Priscila da Silva Olegário, 34 anos, moradora do Morro de São Carlos. Priscila conta sua história no vídeo, uma história de privações, semelhante à de tantos outros cidadãos, brasileiros e não brasileiros. Mas Priscila tem um diferencial: um sorrisão no rosto, enorme, de felicidade por estar recebendo uma desta básica, doação do pessoal do Circo Crescer & Viver. Desde o início da pandemia, essas pessoas vêm arrecadando alimentos, roupas, tudo o mais necessário para quem está precisando.

“Mas agora, eles, do Circo, estão precisando de ajuda, da sua ajuda”, diz a atriz Malu Mader no vídeo que pode ser acessado aqui: https://benfeitoria.com/nossoterritorioprotegido?ref=benfeitoria-home.

Não há muito mais o que fazer, senão gestos solidários. Que seja.

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Um banho de saúde em tempos de amargura

Há quem sonhe com uma viagem sem volta a Marte. Sensibilizados pelas recentes fotos que mostram o planeta bem pertinho de nós, muitos criaram essa válvula de escape. Abandonar o planeta Terra, atualmente tão inóspito aos humanos, e ir para muito longe em busca de sossego, paz. Talvez, não se sabe, lá cometêssemos os mesmos erros. Carregaríamos nos ombros a mesma postura superior, que nos credita o equivocado direito de invadir bens comuns da natureza ao redor, surrupiá-los, sem deixar nada em volta, só devastação.

Pois eu, já penso diferente. Ando cabisbaixa como todo mundo, com os ombros pesados, sentindo nas células de meu corpo o horror de viver num tempo de pandemia, miséria, desacertos intensos. Um tempo em que, como diz o historiador Yuval Noah Harari, nós humanos tivemos condições de mostrar total sabedoria e sucesso no campo científico e absoluto fracasso no campo político, humanitário. Mas, embora com as perspectivas aparecendo para mim como luzes distantes numa estrada escura, não sonho com outro planeta. Meu lugar é aqui.

Minha válvula de escape está ao redor, nas plantas e nos bichos. Há tempos eu vi, no documentário “Para onde foram as andorinhas”, com roteiro de Paulo Junqueira, do Instituto Socioambiental (ISA) (https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/premiado-curta-lancado-para-internet-alerta-para-mudancas-climaticas-no-xingu) , que os indígenas do Xingu costumam aferir se vai chover pelo canto das cigarras. Para mim, cantam os bem-te-vis quando querem me dizer que o calorão vai desabar em águas dos céus.

É dessa forma, caminhando e olhando para cima, para os lados, fazendo contato com pássaros e plantas, que vou tamponando minhas tristezas (ouvi isso hoje, de uma amiga, gostei e estou repetindo). Mas não sigo só. Convido – obviamente não no sentido literal, mas virtual do termo – alguns autores a caminhar comigo. Ultimamente o italiano Stefano Mancuso, da obra “Revolução das Plantas” (pode ser lido aqui em PDF: file:///C:/Users/Amelia/Downloads/Revolucao_das_plantas_um_novo_modelo_par.pdf) virou meu livro de cabeceira. O cientista Mancuso detalha nele experiências feitas com plantas que levaram os pesquisadores a concluir que elas apresentam comportamentos interessantes, estão bem mais perto da cognição animal do que supomos, ainda que sem cérebro.

Eis um pensamento que me acolhe, distrai.

O livro não sugere que as plantas sejam sencientes, ou seja, elas não sentem dor, o que exime de culpa os vegetarianos. As pesquisas levam, principalmente, ao entendimento de que as plantas têm memória. É delicioso o relato do estudo que chegou a essa conclusão, encabeçado pelo biólogo Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de Lamarck, no século XIX.

Monet se interessou em desvendar o mistério do mecanismo de fechamento das folhinhas da Mimosa pudica, folhinha que muitos conhecem pelo nome de Dormideira. Ela fecha delicadamente as folhas quando é submetida a algum estímulo externo, por exemplo, se forem tocadas.  Outros estudiosos já haviam atinado para o fenômeno, tentaram desvendá-lo, e é preciso dizer que até hoje continua sendo um mistério.

Mas Lamarck observou um detalhe que mudou o rumo dos estudos e agregou uma informação que interessa muito a Mancuso e a todos nós, amantes das plantas e do planeta Terra.

  É que, depois de algum tempo sendo estimulada e se fechando, a planta para de responder. No início o cientista interpretou assim: é cansaço. Depois de muitas vezes, no entanto, em que o fenômeno foi repetido pela plantinha (que se fechava a cada estímulo), a dormideira não teria mais energia para fazer isso.  Só que, em algumas situações, Lamarck observou que a planta parava de responder mesmo antes de ficar cansada.

Daqui por diante, quem vai contar a história para vocês é o próprio Mancuso:

“O botânico francês elaborou um experimento inédito. Pediu a um de seus alunos que transportasse muitas plantas em uma carruagem para um agradável passeio por Paris e, escrupulosamente, verificasse o comportamento delas. Ele deveria, sobretudo, observar com atenção quando elas fechassem as folhas. O estudante, cujo nome não sabemos, evidentemente acostumado aos pedidos extravagantes de seu mestre, não titubeou. Colocou nos assentos de um cupê vários vasos de Mimosa pudica e ordenou ao condutor que desse uma volta pelos lugares mais interessantes da cidade, com um trote moderado e, se possível, ininterrupto. No entanto, enquanto continuavam passeando, algo inesperado aconteceu. Primeiro uma, depois duas, depois outras cinco, finalmente todas as mudas começaram a abrir as folhas, apesar de as vibrações da carruagem terem continuado com igual intensidade. Foi um fato interessante. O que estava acontecendo? O aluno desconhecido teve um estalo e anotou no caderno: as plantas estavam se acostumando”.

Conclusão: as plantas têm uma forma especial de memória, sem cérebro.

Este é somente um exemplo, que ocupa algumas das quase cem páginas do livro de Mancuso. Ele também discorre sobre a capacidade de as plantas se mimetizarem com outras, o que venho observando aqui na minha janela. Pode ser que eu esteja sendo influenciada pela leitura de Mancuso, mas ando percebendo que as folhas da minha lavanda estão parecidíssimas com as folhas do meu alecrim… Tirei foto para vocês servirem de testemunhas.

E assim consegui escapar um pouco de nosso presente comum e angustiante, sem precisar usar foguetes. Fazer contato com o mundo ao redor, com a natureza que nos cerca, ao contrário de servir como fuga, é uma incursão em saúde. E vale a pena.

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