França proíbe embalagens plásticas nos supermercados

Os ares do novo ano chegam junto com uma boa notícia para os ambientalistas e todas as pessoas que se preocupam com o impacto à nossa saúde causado pelo excesso de produção e consumo. Na França, desde ontem, uma lei proíbe embalagens de plástico para algumas frutas e vegetais frescos. A proibição vai atingir supermercados e pequenos comércios. Nunca é demais lembrar que os supermercados cobram atualmente pelas sacolas plásticas, que antes eram gratuitas, mas não se negam a expor as embalagens.

O presidente Emmanuel Macron chamou a nova lei de “uma verdadeira revolução”. E anunciou, em reportagem publicada no jornal britânico “The Guardian” que a França estava, a partir de então,  assumindo a liderança global para eliminar gradualmente todos os plásticos descartáveis ​​até 2040.

As embalagens acima de 1,5kg estarão isentas, assim como frutas picadas ou processadas.  Tomates cereja ou frutas macias, como framboesas e mirtilos, terão mais tempo para permitir que os produtores encontrem alternativas ao plástico. Com cerca de 37% das frutas e vegetais vendidos embalados em embalagens de plástico na França em 2021, o governo acredita que a proibição cortará mais de 1 bilhão de itens de embalagens de plástico descartáveis ​​por ano. 

A julgar pelo resultado de uma pesquisa feita no país em 2019, a opinião pública está aplaudindo a iniciativa de Macron. O estudo mostrou que 85% das pessoas eram a favor da proibição de embalagens e produtos plásticos de uso único. Além disso, mais de dois milhões de franceses assinaram uma petição da ONG WWF pedindo aos governos mundiais que parem com a crise de poluição dos plásticos.

A causa é mais do que nobre e urgente, mas não será nada fácil mudar essa cultura. O plástico faz mal à saúde humana, já que para que ele tenha características que o tornem útil, uma variedade de produtos químicos é adicionada em sua produção. E também faz mal ao meio ambiente: resíduos de plástico e microplástico flutuando nos oceanos são uma questão muito discutida, embora poucos se deem conta de que a poluição plástica do solo pode ser de quatro a 23 vezes maior do que nos mares.

“O que torna o plástico útil é exatamente o que o torna prejudicial: ele persiste”, disse Barbara UnmüBig, presidente da Fundação Heinrich Böll, na introdução do “Atlas do plástico”, que a organização lançou no ano passado com “fatos e números sobre o mundo dos polímeros sintéticos”. Os dados que acabo de descrever foram reproduzidos do Atlas.

O estudo da Heinrich Böll, feito em parceria com a ONG Break Free From Plastics, conta o caminho que percorremos para chegar ao estarrecedor volume de 600 milhões de toneladas por ano, estimativa para 2025. Tudo começou depois da II Guerra Mundial, época que o historiador Eric Hobsbawn chama de Era de Ouro (1947 a 1973) em seu livro “Era dos Extremos” (Ed. Companhia das Letras). Hobsbawn chama de “espantoso período”, que assinalou o fim dos sete ou oito milênios de história humana iniciada com a revolução da agricultura na Idade da Pedra. Uma era em que a esmagadora maioria da raça humana vivia “plantando alimentos e pastoreando rebanhos”.

Corroborando com a análise de Hobsbawn, o Atlas do Plástico diz que, entre 1950 e 2017, foram produzidos cerca de 9,2 bilhões de toneladas de plástico, o que representa mais de uma tonelada por cada pessoa que vive hoje no planeta. O momento da grande virada a favor do plástico foi em 1978, quando a Coca-Cola substituiu suas garrafas de vidro por pets. A partir daí, foi uma febre. O leite deixou de ser vendido na porta, em vidro. Os remédios passaram a ser embalados em celofane.

Na década de 50, as pessoas ainda tinham algum cuidado em reutilizar o plástico. Mas, com o impulsionamento da economia pela necessidade de consumir mais produtos, a “semente da cultura descartável” foi plantada.

“O plástico é, ao mesmo tempo, resultado da globalização e um combustível que a alimenta. Compras online estão causando a acumulação de montes ainda maiores de lixo”, diz o relatório. No mar, e na terra.

Um capítulo do Atlas é dedicado justamente à indústria de alimentos, tema que afetou Emmanuel Macron a proibir o uso de plásticos nas embalagens. Plástico filme e espumas são usados para proteger os alimentos de danos, mantê-los frescos e torná-los atraentes.

 A questão é que os supermercados gostam de oferecer os mesmos produtos o ano todo e a embalagem garante que eles permaneçam frescos e possam ser transportados sem grandes danos. Além disso, o dinamismo da vida atual faz com que as pessoas busquem facilidades, o que inclui comida pronta, embalada. Aqui no Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast), depois da construção civil (22,4%), o setor que mas consome transformados de plástico é o de alimentos (20,3%).

No mundo, segundo a Grand View Research, o tipo mais comum de embalagem para a indústria de alimentos é o plástico. E a maior parte do lixo plástico nos oceanos é proveniente de embalagens de alimentos descartadas.

Ainda por cima, por conta de não se ter muita confiança na pureza da água, nem mesmo com filtro, aqui no Brasil muita gente bebe água de garrafa… plástica. O problema disso é que os fabricantes (da água engarrafada) precisam listar o conteúdo mineral em detalhe, mas o microplástico, presente em altas doses, não aparece como ingrediente. Ou seja: estamos consumindo microplástico. Ainda não se sabe se faz mal, ou o quanto faz mal.

“O debate está apenas começando a respeito dos microplásticos no solo, na pecuária e nos alimentos”, diz o relatório.

A melhor solução? Não produzir tanto plástico. No entanto, sem plástico nenhum dos carros de hoje estaria nas estradas. Os aviões não estariam no ar. Olhe em volta que você vai se dar conta de outras tantas coisas que não teriam sido fabricadas, produzidas, sem o plástico. Na agricultura, ele é usado inclusive para cobrir algumas plantações e evitar, assim, que elas sejam danificadas por animais.  

É legítimo perguntar: como sair desse imbróglio? Há algumas soluções, assim mesmo, no plural. E é claro que reduzir a produção e o consumo de plástico encabeça a lista. Mas o Atlas do Plástico traz também o exemplo de uma pequena cidade italiana, chamada Capannori, que tem apenas cerca de 40 mil habitantes, mas que conseguiu criar uma política publica de Lixo Zero desde 2007. Termino este texto detalhando a iniciativa de Capannori. Quem sabe nos inspira um pouco?

“Entre as ações estão incluídas a minuciosa separação de diferentes tipos de resíduos, incentivos econômicos para reduzir a produção de resíduos e um esforço coletivo para reduzir o que não é considerado lixo não reciclável. Há lojas sem embalagens, fontes públicas de água, um centro para reunir doações de roupas com oficina de conserto. Fraldas laváveis são subsidiadas, e realizam-se desafios de Lixo Zero para engajar os cidadãos.”

Feliz Novo Ano para todos!

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Quando se atira no que vê e se descobre o que é pouco visto

Escada rolante em estação do metrô de Seul. Foto da Getty Image

Longe de mim vestir o manto do otimismo a qualquer custo, como muitos fazem nesse período de festas natalinas. “Foi um ano difícil, mas será melhor em 22”, é o que dizem. Pode ser. Mas, como não há prova cabal de que tal afirmação seja verdadeira, prefiro caminhar com os dois pés no chão. Se está difícil, não será uma simples passagem de uma noite para o dia que vai fazer melhorar as coisas, torná-las mais fáceis.

De qualquer maneira, sempre é possível buscar boas notícias para abrandar um pouco a carga, e foi o que fiz. No entanto, talvez atestando a percepção de que os tempos não estão mesmo fáceis, tão logo comecei a pesquisar para ampliar os dados sobre a boa notícia, deparei-me com um problemão ligado a ela.

 Sem mais delongas, deixe-me explicar sobre o que estou falando.

A boa notícia é que a capital da Coreia do Sul, Seul, está se preparando para oferecer a seus 9,7 milhões de habitantes um empreendimento chamado “Cidade de 10 minutos”. Resumindo, trata-se de um bairro, com cerca de oito prédios, onde cada morador viverá a cerca de dez minutos, a pé, de todas as suas necessidades diárias. Incluindo escolas, hospitais, farmácias, prédios públicos. Serão cerca de 500 mil metros quadrados nos quais os carros serão proibidos, a energia será gerada ali mesmo e a água da chuva será guardada para ser reusada.

A ideia original é da atual prefeita de Paris, Anne Hidalgo, que venceu as eleições prometendo à cidade francesa uma “Cidade de 15 minutos”. Melbourne, Milão e Singapura também estão tentando abordagens semelhantes.

Nem é necessário listar os benefícios do projeto. Menos poluição, mais praticidade e bem-estar para os moradores são apenas alguns.

Mas, como avisei logo no início do texto, o prefeito atual de Seul, Oh Se-hoon, vai enfrentar um mega revés. Trata-se de desigualdade social, esta realidade infame que derrota os ares de modernidade da atual civilização. Em alguns lugares do planeta ainda se vive sob privações seculares, enquanto em outros há riqueza abundante. E, mesmo na pandemia, os ricos ficaram mais ricos e os pobres ficaram mais pobres.

Enquanto buscava informações sobre Seul para ilustrar este texto que seria, apenas, otimista, cheguei ao mais novo relatório sobre desigualdade social, produzido pela equipe do World Inequality Lab, de Thomas Piketty e sócios, divulgado no início de dezembro. Abandonei o otimismo, em prol de informação real.  O estudo é detalhado, cheio de informações, tanto que não se pode elencar um único assunto que seja mais importante, sem cair no risco de desprezar outros. Ou, o que é pior, de não dar atenção a dados que merecem nosso alerta.

 Mesmo assim, vou tentar resumir: segundo o relatório, Índia é um dos países mais desiguais do mundo, mas a desigualdade de riqueza do Brasil também está entre as maiores do mundo. Há ainda a constatação oficial do que já se sabe: a pandemia apenas acirrou a desigualdade. E uma informação bem preocupante: a totalidade das riquezas do mundo está em mãos privadas e não de governos. A pandemia acirrou essa tendência porque os governos tiveram que pedir emprestado a empresas.

Dois economistas que ganharam o Prêmio Nobel em 2019 encabeçam a apresentação do relatório: o indiano estadunidense Abhijit Vinayak Banerjee e sua esposa, a francesa Esther Duflo. Uma nota surpreendente é que as mulheres agora estão mais bem representadas em algumas economias emergentes – Brasil, por exemplo – do que em economias avançadas – Estados Unidos.

Uma conclusão contundente dos pesquisadores é que a desigualdade e sua redução não são uma questão de limitações econômicas, e sim uma escolha política sobre o tipo de sociedade onde queremos viver. Quem tiver curiosidade, pode acessar aqui: https://wir2022.wid.world/.

Volto, assim, ao tema principal deste artigo. Em Seul, a escolha de um empreendimento que pode significar um bem-estar maior a seus moradores tem a outra face, de negligenciar bairros periféricos pobres da cidade. A cidade é a quarta maior economia do mundo, atrás apenas de Tóquio, Nova York e Los Angeles. Foi escolhida como sede das maiores empresas globais, o que colabora para que o nível de desemprego seja baixo, em torno de 3%. No entanto, registra aumento de desigualdade nos últimos trinta anos, quando a classe média e os trabalhadores têm se excluído, mais e mais, da riqueza nacional.

O filme “Parasita”, de Bong Joon Ho, ganhador do Oscar em 2019, é uma produção sul-coreana e retrata a diferença entre pobres e ricos, que não é pequena. “Parasita” nos apresenta os banjihas, espécies de apartamentos semissubterrâneos onde quase não há luz do dia, com tetos baixos, construídos durante a guerra entre as Coreias para servir de abrigo em caso de necessidade. Hoje servem como moradia para milhares de jovens que tentam se incluir na sociedade do futuro.

Construir uma cidade de “Dez Minutos” num território que tem questões sérias de moradia é, de fato, uma escolha política. Errada. É preciso, antes, empregar todos os investimentos possíveis para conseguir garantir que os cidadãos comuns sejam incluídos no processo de bem-estar. Só assim é possível chamar o empreendimento de sustentável.

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Dê livros de presente, ainda vale a pena

Tudo bem, já acabou o Natal. Mas a época de dar presentes se estende. Há famílias que trocam esse carinho só no dia 6 de janeiro, dia em que os Reis Magos presentearam Jesus Cristo. Faz sentido para quem é religioso.

Foto de Amelia Gonzalez

Bem, tudo isso é para justificar o fato de só estar divulgando agora minha pequena lista de sugestões de livros para dar de presente. Antes tarde…

“Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke (LP&M Pocket, 91 páginas) – Trata-se do maior poeta de língua alemã do século XX. Mas este livro é em prosa, e deve interessar, sobretudo, aos jovens sensíveis que têm o saudável hábito de refletir sobre os rumos da vida. Franz Kappus, o jovem em questão, aspira tornar-se poeta e pede conselhos, em carta, ao já famoso escritor. Rilke o escreve de volta e começa assim uma troca de cartas, compiladas nesta pequena publicação. Os dois conversam sobre o que consideram os verdadeiros aspectos da vida. Um trecho de uma das cartas mostra também o quanto Rilke tem sensibilidade para perceber a essência de seu correspondente, mesmo de longe:

“… só se pode desejar ao senhor que, cheio de confiança e paciência, deixe trabalhar em sua pessoa a grandiosa solidão que não poderá mais ser riscada de sua vida. Essa solidão permanecerá e atuará, de modo decisivo e sutil, em tudo o que o senhor tem a experimentar e a fazer, como uma influência anônima, como o sangue de antepassados que percorre as nossas veias continuamente, compondo com o nosso próprio sangue o que somos de único e irrepetível a cada nova guinada de nossa vida”.

“Crise climática e o Green New Deal Global”, de Noam Chomsky e Robert Pollin (Ed. Roça Nova, 217 páginas) – É um livro fácil de ler, no formato de perguntas e respostas, e cheio de informações relevantes. Especial para as pessoas que gostam de se informar sobre a crise climática, um grande desafio que a humanidade está enfrentando. O cientista político C. J. Polychroniou foi feliz ao reunir, para uma conversa virtual, como exige essa nossa era pandêmica, o principal intelectual público do mundo Noam Chomsky, ativista político e ambiental, e Robert Pollin, economista progressista que tem atuado como líder em defesa de uma economia verde e igualitária, para compartilhar suas reflexões sobre essa era e os desafios que temos que enfrentar. As reflexões dos dois são o sumo do livro. E são imprescindíveis a qualquer pessoa que gosta de obter informações de qualidade.

“Covid-19: The Great Reset”, de Klaus Schwab e Thierry Malleret (Fórum Publishing, 280 páginas) – O problema desse livro é que ele não tem ainda tradução, portanto só pode ser dado para pessoas que têm intimidade com a língua inglesa. E por que ele pode ser importante na estante? Porque estamos vivendo um período extremamente complexo, e devemos acumular o máximo de informações, dados, estudos, livros, arquivos. Os dois autores são pessoas comprometidas com o “progresso do mundo”, por isso é importante saber o que está sendo pensado por eles.  O World Economic Fórum, criado por Schwab, congrega líderes e empresários poderosos anualmente em torno de um tema. O tema do ano 2021 foi “The Great Reset”, ou “O Grande Reinício”. O livro é um apanhado das reflexões dessas pessoas, que pensam no resgate da vida pós-pandemia. Politicamente, economicamente, ambientalmente, serão necessárias mudanças, com certeza. O livro traz análises e algumas ideias.

“O futuro começa agora”, de Boaventura de Sousa Santos (Ed. Boitempo, 426 páginas) – O sociólogo português é agora diretor emérito do Centro de Estudos sociais da Universidade de Coimbra. Escreveu este livro durante a pandemia, por isso o chama de “empreendimento de alto risco”, já que há muitas incertezas nessa época que podem provocar mudanças de cenários. E traz reflexões lúcidas, emergentes. Na primeira parte faz uma análise do mundo atual e cria metáforas para caracterizar o Corona Vírus: “o vírus como inimigo; o vírus como mensageiro; o vírus como pedagogo”. Teremos condições de aprender com o vírus, de fazer mudanças radicais em nosso comportamento, nossa rotina, nossos hábitos de consumo, de produção. Há muita coisa por ser feita, e Boaventura de Sousa Santos lista, uma a uma, sugestões para a humanidade. Se há, e há, um mote a seguir, é o da diversidade, do respeito às culturas, da solidariedade entre os povos. E o sociólogo faz alertas importantes sobre um estado de coisas que pode começar a ser naturalizado, como, por exemplo, o ensino à distância. Considerado como um processo bem-sucedido (e rentável, claro, embora este ponto não seja tão veiculado), na verdade ele provoca uma das muitas exclusões de que se tem notícias, já que segundo a Unesco, 60% dos estudantes do mundo não têm acesso.

“Morte e vida de grandes cidades”, de Jane Jacobs (Ed.Martins Fontes, 499 páginas) – Um bom presente, sobretudo para jovens estudantes de arquitetura e urbanismo. Jane Jacobs é norte-americana nascida em 1916 e este livro é considerado um dos mais influentes estudos urbanos de todos os tempos. Faz uma crítica bem-humorada, num texto gostoso de ler, “à arrogância intelectual que caracterizou boa parte do planejamento urbano moderno”. Apesar de ter sido lançado em 1961, é absurdamente atual.

“Niketche, uma história de poligamia”, de Paulina Chiziane (Ed. Companhia das Letras, 296 páginas) – A autora é moçambicana, pobre, e recebeu, este ano, o Prêmio Camões. O vídeo que mostra o momento em que ela é notificada sobre o prêmio (https://www.youtube.com/watch?v=2jG4BGhYpcQ) mostra a sensibilidade da autora: “É todo um povo que é agraciado por este prêmio… eu venho de lugar nenhum, sou aquela pessoa que teve a sorte de aprender a ler e escrever. Eu vim do chão. Um reconhecimento para alguém que veio de lugar nenhum. Sem dúvida é importante”. Este é um romance que foi reeditado.

“Cuidar de Si, Uma Busca Interior de Saúde Total”, de Mauricio Tatar, com texto de Amelia Gonzalez (Ed. Mauad, 163 páginas) – Mauricio Tatar é um médico homeopata que se especializou em Acupuntura e, assim, aproximou-se bastante da milenar Medicina Tradicional Chinesa. E é meu médico. Esse livro nasceu porque, invariavelmente, ao sair de uma consulta eu me pegava refletindo a respeito das coisas que ele me dizia. O texto é meu, os pensamentos são dele. E quem vai lucrar muito é o leitor, posso garantir. Mauricio Tatar se rege pela simplicidade, condena o uso excessivo de remédios, aposta na alegria e no amor como forma de cura e é contunde quando afirma: “Saúde não vem de fora para dentro, vem de dentro para fora”. Se você parou para pensar, vale comprar o livro.

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Vá ao Museu e viaje pela Amazônia

Do Deserto de Saara à Amazônia. No dia 16, pela manhã, foi inaugurada a exposição “Fruturos – tempos amazônicos”, no Museu do Amanhã, e lá estive, no evento para convidados.   Em sete ambientes, o curador Leonardo Menezes convida o visitante a se sentir parte da maior floresta tropical do mundo, que já tem 20% de seu território desmatados. Entre fotos, textos explicativos, objetos da cultural local, desenhos e estruturas, o tempo é o protagonista.

Viagem pelo Rio Araguari, vizinho do Rio Amazonas., em direção ao Arquipélago do Bailique, em 2015.
Foto Amelia Gonzalez

Mas o Deserto de Saara, logo na entrada da exposição, chama também para outra reflexão: sobre o espaço. E sobre como estamos todos, globalmente, enfrentando tempos sombrios por conta das mudanças climáticas.  Em resumo: o vento leva as areias do Saara para a Floresta Amazônica, as areias são ricas em ferro e fósforo, nutrientes inexistentes na Floresta. Logo, o Deserto de Saara, a cinco mil quilômetros de distância, ajuda a fertilizar a Amazônia. Estão interligados.

Eis a proposta, portanto, para pensarmos. Se existe esta ligação entre forças da natureza, é difícil entender como desprezamos a ligação entre nós, humanos. São 30 milhões de pessoas que vivem na Amazônia e, segundo Índice de Progresso Social, IPS Amazônia 2021, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado no dia 6 de dezembro, não há progresso social na Amazônia. E as áreas desmatadas, que em tese serviriam para levar o desenvolvimento local, já que são riquezas vendidas, são as menos favorecidas.

Ainda no evento pré-abertura da exposição, as falas das pessoas envolvidas na produção da “Fruturos – tempos amazônicos” foram todas no sentido de alertar para a importância de se conhecer a Floresta. É uma ótima proposta, já que não se consegue falar, com propriedade, sobre temas que não conhecemos de verdade.

 Vanda Ortega, líder indígena dos Witoto  – povo transfronteiriço entre Brasil, Colômbia e Peru – foi uma das personalidades que falou, e foi muito aplaudida. Como todos os outros, seu depoimento também foi num tom de alerta. Se fosse pintura teria cores fortes. Vanda pediu licença a seus antepassados e contou a história do seu povo, que até 1999 vivia dentro da mata, indígenas ainda não identificados. Só depois que ela entrou para a escola, onde cursou enfermagem, os Witoto foram mapeados.

Vanda contou ainda que hoje seu povo está vivendo na lama, sem água potável – “Mas ninguém está preocupado com isso”, afirma ela.

São muitos os malfeitos que os humanos têm espalhado em sua trajetória. E não começou agora. Grilagem, garimpo, atividades ilegais que deixam a Amazônia à mercê do desmatamento, são temas recorrentes, no mínimo, desde que os líderes se reuniram na Rio-92 para debater o tema. Como se sabe, a floresta degradada é um perigo real, não só porque as árvores servem como sequestradoras de carbono, como porque o solo, revirado de maneira irresponsável, tende a mandar o carbono para a atmosfera. Mas, como diz Vanda, quem se preocupa, verdadeiramente? A exposição traz para a mesa o debate, e isto é importante, sobretudo porque será visitada também por crianças e jovens em idade escolar.

 Paulo Artaxo, cientista e integrante do Comitê Científico e de Saberes do Museu do Amanhã, foi sucinto em sua fala: “O futuro da Amazônia é o futuro do planeta. São 120 bilhões de toneladas de carbono: se isso for para a atmosfera, acaba.”

A exposição é bastante informativa. Artaxo ressaltou exatamente a “importância de levar os temas de um dos ecossistemas mais ricos do mundo para um público amplo de maneira bonita, lúdica e simplificada para que qualquer pessoa possa entender. São aspectos relevantes e estratégicos para a sociedade brasileira como um todo”,

 “Fruturos” será a exposição com o maior número de objetos da história do Museu do Amanhã. Foi construída a partir do reaproveitamento de peças de outras mostras que já passaram pelo equipamento cultural, e vai apresentar também objetos confeccionados a partir do trabalho de artesãos indígenas de diferentes regiões do país.

No caminho entre minha casa e o Museu, segui pensando sobre a Amazônia que conheci, onde estive algumas vezes.  É muito bom vê-la representada para pessoas que vivem tão distante dela. Melhor ainda se a exposição conseguir acender a vontade de visitá-la. Não faltam incentivos na Mostra, já que, segundo o curador Leonardo Menezes, nos diferentes cenários mostrados ali, a exposição traz a perspectiva atual do bioma. Não só no meio ambiente, mas também no campo social e cultural.

Como ressaltou Luiz Eduardo Osorio, vice-presidente executivo de Relações Institucionais e Comunicação da Vale e presidente do Conselho do Instituto Cultural Vale – instituição que apresenta a exposição – há muito o que aprender com a “Fruturos”. Osório destacou, por exemplo, detalhes sobre o Círio de Nazaré, manifestação religiosa católica instituído em Belém do Pará no século XVIII. Hoje o Círio, que acontece no Pará, no Amapá  e no Acre, portanto três dos nove estados que compõem a Amazônia Legal, é Patrimônio Cultural da Humanidade, declarado pela Unesco.

Vale a pena visitar “Fruturos”. E estender a visita em conversas, discussões, sobre o nosso momento.

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Novo documentário de Yann Arthus-Bertrand inclui crise climática no contexto socioeconômico

Estava me perguntando por que eu não consigo sentir alegria e ânimo quando leio notícias que animam e alegram os que apostam na tecnologia para nos livrar do aquecimento global.  Li, no conceituado site Climate Action desta semana, uma reportagem que diz que “o crescimento da eletricidade renovável está acelerando mais rápido do que nunca em todo o mundo, com um novo recorde alcançado para instalações de eletricidade renovável este ano”. A Agência Internacional de Energia, que forneceu dados do estudo para serem divulgados, é uma agência respeitável e está muito interessada no tema. Os dados, portanto, são verdadeiros.

Foto da Praia de Ipanema, Rio de Janeiro. Divulgação do filme “Nosso planeta, nosso legado”

Por que, então, não me comove mais, logo a mim, uma jornalista dedicada ao tema há tanto tempo? Afinal, captar energia e transformá-la em benefício dos humanos, de forma sustentável, tem sido apontado como o centro da solução dos problemas atuais da humanidade. É, segundo os estudiosos, a chave do sucesso contra as variações climáticas que tanto mal têm causado à humanidade.

Estava eu divagando assim, tentando descobrir a razão de minha apatia, quando recebi, por e-mail, o convite para assistir “Nosso planeta, nosso legado”, filme dirigido pelo renomado Yann Arthus-Bertrand. Agora com 75 anos, o fotógrafo francês especializou-se em fazer imagens incríveis, do alto, captando com drones a opulência da natureza. Em 2011 lançou “Home – Nosso Planeta, Nossa Casa”, que fez bastante sucesso. O atual “Nosso planeta, nosso legado”, parte do Festival Varilux, de cinema francês que acontece até dia 8 de dezembro em todo o Brasil, tem tudo para ser bem recebido também pelo público. Aliás, deveria ser filme obrigatório para se assistir nas escolas do mundo todo.

Além das imagens, que deixam a gente sem fôlego em algumas cenas, o filme é narrado em primeira pessoa por Arthus-Bertrand. O francês percorre a história da humanidade em 1h40m, desde a primeira energia que possibilitou a criação da vida e que só foi possível – vejam vocês! – por causa do efeito estufa.

No texto que lê in off durante todo o documentário, Arthus-Bertrand conta parte de sua própria história, quando viveu no Kenia, quando jovem, fotografando o comportamento dos leões. Ao se dizer espantado com o aumento da população que vive na favela queniana de Quibera – de 60 mil pessoas nos anos 70 para os atuais um milhão – Arthus-Bertrand mostra que seu documentário não vai tirar as questões climáticas do contexto socioeconômico. É de desigualdade social, de gigantismo e de falso progresso que o cineasta fala, o tempo todo, no filme. E retrata, de forma única, como chegamos a esse cenário, que nada tem de sustentável. Mesmo com tantas eólicas e placas solares a enfeitar alguns territórios.

A reflexão de Arthus-Bertrand dialoga com meus pensamentos, e faz todo sentido. Apesar do investimento que vem sendo feito nas energias renováveis mundo afora – melhor dizendo, nos países desenvolvidos – ainda vivemos, como demonstram os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) sob o grave risco de o planeta aquecer mais do que 2 graus até o fim deste século. Graças aos excessos dos humanos, é esta a resposta.

“Os painéis solares não substituíram os cem milhões de barris de petróleo que consumimos todos os dias”, disse o cineasta.

E não é qualquer coisa aquecer dois graus. Yann Arthus-Bertrand usa uma figura para atestar o que afirma: quando o nosso corpo se aquece dois graus nós nos sentimos muito mal. Quatro graus a mais, para um organismo humano, é a morte.

A energia, ou a maneira de captá-la a favor da humanidade, é o mote principal do documentário de Yann Arthus-Bertrand. Ele vai tecendo o pensamento com dados históricos importantes de se registrar. Até a metade do documentário, faz elogios ao homem, este ser que foi capaz de transformar uma dura realidade, de mortes precoces por doenças para as quais não se tinha solução e de fome por falta de meios para expandir a agricultura.

“Mas essa grande história de sucesso humano começa a derrapar. Tendo eliminado os obstáculos naturais, o homem continuou seu curso para frente cego e descontrolado, em desequilíbrio total. As pessoas têm ideia da crise que o planeta está passando? Amparados em suas riquezas, os humanos não abandonam seu instinto de acumulação, reprodução e disseminação”.

 O documentário lista alguns dos paradoxos que também fomos capazes de disseminar. Dois deles chamam especial atenção:

. Há quase 900 milhões de pessoas com fome no mundo, apesar de todo o território que já foi degradado pela indústria alimentícia e da quantidade exorbitante de pesticidas também utilizados, em tese, para aumentar a produção de alimentos e evitar a fome no mundo;

. Os oceanos estão entupidos de plástico. Isso deixa claro que, apesar de toda a campanha contra as tais sacolinhas plásticas, o mal continua. E por que continua? Vamos falar sinceramente: não são apenas as sacolinhas plásticas que entopem os oceanos. As grandes indústrias de alimentos embalam seus produtos – em plástico – para vendê-los.  No supermercado, o cliente paga pela sacolinha, o que seria uma forma de adestrá-lo a não usar muitas. Mas, quando se olha para os lados e vê-se a quantidade de isopores e PVCs utilizados para viabilizar a venda de alguns produtos, dá desânimo.

“Precisamos reduzir nosso consumo de combustíveis fósseis em 5% ao ano. E estou falando sobre as nações ricas, já que 70% das emissões de CO2 são produzidos por 10% da população mundial. Se não fizermos nada, em 2070 três bilhões de pessoas podem estar vivendo em regiões tão quentes como o Saara. Se não fizermos a descarbonização, vamos nos tornar cúmplices dessa tragédia”, disse o cineasta.

Algumas das soluções que ele sugere no documentário podem estar ao alcance de nossas mãos. Outras providências, é claro, dependerá da iniciativa das autoridades:

. Parar de comer comida processada;

. Parar de utilizar serviços de bancos que praticam finanças não sustentáveis;

. Escolher votar em políticos que priorizem as questões climáticas;

. Comprar menos e comprar coisas de segunda mão. Usar menos carros e, quando o fizer, dar preferência ao transporte solidário;

. Avião só deve ser meio de transporte em circunstâncias excepcionais.

Ao fim e ao cabo, minha apatia diante de sucessos tecnológicos alcançados em prol de energias renováveis tem explicação. Não que não seja necessário. Mas há muito, muito mais a ser feito para incluir pessoas no rol das vitórias das máquinas.

Este texto foi publicado originalmente no site Entrenós (

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Carta a uma jovem do século XXI

Minha amiga Martha alegrou minha tarde de ontem, com a mensagem que dizia: “Laura está muito interessada em se informar sobre questões climáticas. Pedi a ela que seguisse você no seu blog e conversasse com você”. Para contextualizar: Martha foi da equipe do caderno “Razão Social”, que editei durante nove anos no jornal “O Globo”, atualizando os temas ligados ao ecodesenvolvimento.

Laura tem 19 anos, portanto é uma jovem nascida e criada no século XXI. Cerca de três décadas antes de seu nascimento, o mundo já tinha se dado conta de que levar a vida como extrativista e consumista não daria em boa coisa. Uma trágica descoberta, feita em laboratórios científicos, vinha reafirmando o que os povos da floresta percebiam em seu dia a dia: os bens naturais são finitos.

E é assim que começa a história que quero contar para Laura nesta missiva virtual.

Querida Laura

Primeiro, é importante singularizar este depoimento. Aqui vai o relato de alguém que era uma jovem adulta quando o Rio de Janeiro sediou a Rio-92, segunda Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente. A primeira, em 1972, acontecera na fria Estocolmo, capital da Suécia, numa época em que nem fax funcionava bem, portanto no Brasil soubemos pouco, quase nada, do que fora decidido lá, sob a batuta do então presidente da ONU Maurice Strong.

Mas a Rio-92, não! Foi aqui, em nossa casa. O Aterro do Flamengo foi tomado por ONGs ambientalistas, indígenas, quilombolas, população ribeirinha, todo mundo advertindo para o que estava acontecendo no Brasil profundo. Não funcionei como repórter, mas editava as matérias escritas pelos colegas que cobriram in loco a Conferência. Na época eu era subeditora do jornal O Globo, na Editoria Rio.

Escolhia as fotos, ouvia os relatos, consertava alguns erros nos textos e tentava fazer bons títulos para chamar a atenção dos leitores. Ficava impactada com as notícias, sim.  Mas… saía da redação, depois de um dia intenso de trabalho, e ia viver minha vida, conversar com amigos, sem fazer muita conexão com tudo aquilo que eu lera e ouvira.

Na época, vivíamos o desterro político de um presidente que sofreu o impeachment. E fizemos aquilo que ainda hoje fazemos: priorizamos os desmandos palacianos, como se tudo aquilo que ouvíamos na Rio-92 não fosse mais importante.

Penso que, como eu, a sociedade em geral, no dia a dia, não se rendeu aos fatos mostrados na Rio-92. Ainda era difícil fazer a ligação entre consumo e meio ambiente.

 Aqui no Brasil, o então presidente Collor de Melo, antes de ser afastado, abriu as portas para a entrada de produtos estrangeiros. Laura, eu preciso lhe dizer que, apesar de todos os pesares, aquele foi um momento especial. No sentido macro, começaram a entrar produtos e máquinas que tornavam nossa vida melhor. De computadores a equipamentos médicos (cateteres, por exemplo), que podiam salvar vidas.

Mas, junto com isso, chegavam também quinquilharias e outros produtos que nos deixavam feito crianças em frente a vitrine de brinquedos. Lembro bem que eu gostava de usar uma henna francesa que antes só era vendida numa lojinha escondida no Leblon. Custava caro, mas valia o investimento que eu fazia de vez em quando. De repente, a mesma henna estava ali, ao alcance das mãos, nas farmácias do bairro.

Pode jogar pedras, porque vou confessar: não pensava em quem plantava a henna, em quem extraía o corante, não tinha ideia, nem procurava saber sobre as condições do plantio, tampouco no salário das pessoas que empacotavam o produto ou nas emissões de carbono intensa do transporte que a fazia chegar até mim.  Percebeu o tamanho da encrenca? Agora multiplique isso pelas mil bugingangas que começaram a vir dos países asiáticos e que nos enchiam os olhos. De novo: estou relatando sob o ponto de vista de uma pessoa urbana, classe média, que morava numa grande cidade.

A febre de consumo chegou às roupas. Você já ouviu falar em calça Lee? Pois é o seu jeans de hoje. Eu cruzava a cidade para comprar, numa loja em Copacabana. Ou esperava uma muambeira, que vendia escondida no banheiro do jornal. Até que, com a “abertura dos portos”, a calça Lee virou jeans , barateou e foi parar na vitrine dos shoppings… como resistir?

Não estou justificando nosso comportamento, apenas relatando os fatos. Ontem mesmo, quando li a reportagem mostrando que no deserto de Atacama existe uma montanha de roupas jogadas fora, pensei na minha primeira calça Lee. Como durou!

Mas, chega de falar do passado, senão esta carta vai ser ressentida, e isto não se casa com meu estilo. Se você me perguntar se hoje eu percebo tudo isso, a resposta é sim. Se eu mudei meu estilo, novamente eu respondo que sim. Mas não patrulho ninguém para mudar. Não é meu estilo.

 É importante repetir que, à exceção dos ambientalistas, que na década de 90 começaram a emergir, pouco demos ouvidos às questões que já se anunciavam. Na época, quem alertava recebia logo o apelido desagradável de ecochato, seguido da frase: “Vai ficar aí salvando a vida do mico leão dourado e as baleias?”. Pois é. Hoje sabemos o que é bulliyng, na época a gente ria amarelo e se escondia.

Como você me pediu dicas de leitura, sugiro dois livros que podem dar essa visão histórica. O primeiro, acabo de ler: é da Samyra Crespo, ambientalista que esteve no segundo escalão do governo Lula. Tem muita coisa para contar e o faz de um jeito gostoso, leve. O livro se chama “Conta que viveu, escreve quem se atreve”, editado pelo Instituto Envolverde. O outro livro é do economista Ignacy Sachs, e se chama “A terceira margem” (Ed. Companhia das Letras).

 Assim como Samyra, Sachs mistura a vida pessoal no seu relato sobre a luta como ambientalista. Se eles usam essa maneira de contar é porque, sim, é tudo misturado. Não se pode falar e escrever sobre meio ambiente sem misturar com o dia a dia. Como não se pode falar em cuidados com o meio ambiente sem ter um olhar sensível para os pobres.

Ano que vem vai ser um ano cheio de comemorações porque terão se passado quatro décadas da Conferência de Estocolmo, três décadas da Rio-92, uma década da Rio + 20… adoramos efemérides.

Eu, como repórter, na cobertura da Rio + 20, no Riocentro

Talvez as comemorações fiquem mesmo centradas em Estocolmo, já que o Brasil não está, atualmente, sendo visto como um parceiro nas questões climáticas. Não é para menos. Leu a frase do atual ministro do meio ambiente na COP 26? Ele disse: “Onde existe muita floresta, existe muita pobreza”.

É uma frase que soa mal aos ouvidos de quem se preocupa, de quem gosta dos bens naturais, não é? Mas soa muito bem aos ouvidos de quem chama BENS NATURAIS de RECURSOS NATURAIS.  Já vou explicar meu ponto.

Sempre fiquei muito incomodada com discursos vazios. Naomi Klein, a jornalista canadense, militante da causa ambiental –  outra dica boa de leitura para você (“This changes everything”, sem tradução para o português, é o melhor dela, mas tem outros bons) – diz que as COPs estão cheias de “retórica inútil”. Concordo com ela, por exemplo, quando leio num mesmo jornal a opinião de um especialista que ressalta a necessidade de se elevar o PIB e outro artigo, geralmente nas páginas de amenidades ou em encartes especiais, alertando para a necessidade de se preservar o meio ambiente e baixar as emissões.

Atenção, jovem Laura: uma coisa tem a ver com a outra, sim!

E aqui vai outra indicação de leitura: “Laudato Si”, a encíclica papal de 2015. O papa Francisco, já engajado no tema desde o início de seu papado, diz com todas as letras: é preciso baixar produção E o consumo, se quisermos realmente salvar a humanidade dos eventos extremos causados pelas mudanças climáticas. Porque, no fim das contas, é do que se trata: furacões, tempestades violentas, alagamentos, secas, muito calor e muito frio acabam com plantações, matam mendigos nas ruas (de calor ou frio) e, de quebra, causam transtorno também nas grandes cidades.

 Mas, adivinhe quem será, sempre, o mais prejudicado? O pobre, claro. Os indígenas, os ribeirinhos, os quilombolas, exatamente aqueles que não têm assento nas COPs, não têm como dizer sim ou não a este ou aquele acordo global. Não que sejam acordos totalmente inúteis, é preciso salientar. Ao menos fazem acordar uma parte da sociedade ainda adormecida.

E por que a questão do PIB me incomoda? Porque só se eleva PIB de um país quando se eleva a produção. Percebeu o paradoxo? Então vou acrescentar mais um ingrediente: mudar a produção simplesmente, sem uma organização estruturada, pode causar uma enxurrada de desempregos. E não é de hoje que já tem muitos especialistas pensando a esse respeito, tentando uma forma de modificar a medição de riqueza atual.

O ex-presidente da França Nicolas Sarkozy (que administrou o país de 2007 a 2012) chegou a encomendar um estudo para rever o PIB. Três renomados economistas: Joseph Stiglitz, Amartya Sen, Jean-Paul Fitoussi se debruçaram sobre pesquisas e formularam uma nova possibilidade de medição de riqueza, publicada em 2009 mas que foi devidamente engavetada mesmo antes de Sarkozy deixar o governo.

Já me alonguei demais, é este meu problema. O assunto me apaixona tanto, e é tão rico, que acabo perdendo leitores no meio do caminho. Leitores que, como nos tempos atuais, estão acostumados a ler tudo de forma abreviada, rápida.

Não será seu caso, querida Laura, eu tenho certeza. Guarde esta longa missiva e vá lendo devagarinho, degustando E, por favor, aceite meu pedido de desculpas. É sincero. Deixamos um mundo bem mais complexo para a geração de vocês. Mas a riqueza que vocês terão será a de perceber que é melhor SER do que TER.

 Enquanto eu estiver por aqui, estarei disponível para ajudar com o conhecimento que continuo adquirindo em pesquisas incansáveis. É no que eu acredito.

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O caminho para o grande recomeço passa pelo mercado de carbono?

Mundo afora, uma sensação de que o Corona vírus está sendo, finalmente, derrotado, vem tomando conta. Aqui no Rio, as escolas já estão funcionando presencialmente, por exemplo. Lado a lado com o alívio, porém, toma corpo entre as pessoas que não se acomodam, uma profunda preocupação com o que se anuncia como o grande recomeço. Uma pesquisa recente feita no Reino Unido mostrou que somente um quarto das pessoas entrevistadas querem a volta ao normal. Entre essas pessoas, aqui no Brasil, estão os signatários do Grupo Carta de Belém e mais de 80 outras organizações da sociedade civil que assinaram o “Manifesto rumo à COP26”.

Como se sabe, a Conferência do Clima deste ano será realizada em Glasgow, na Escócia, a partir do dia 1 de novembro. E existe uma enorme expectativa, por parte das tais pessoas que não se acomodam, para que essa reunião possa organizar melhor algumas coisas.

Ao mesmo tempo, porém, existe também um ceticismo, alimentado de forma legítima pelo fato de muitos desses encontros internacionais terem se revestido de uma retórica quase inútil. Mas, considerando que resultados pífios não são zero resultado, no fim e ao cabo conclui-se que ainda vale a pena participar.

 Diz o Manifesto rumo à COP 26 que a grande promessa da Conferência é a finalização do Livro de Regras do Acordo de Paris. Firmado em 2015, o Acordo aguarda a regulação dos mercados de carbono e de transações envolvendo ‘resultados de mitigação’ – para atingir os objetivos de estabilização da temperatura do planeta. O Livro seria uma espécie de ata para oficializar tais medidas.

A maior crítica, por parte das associações que assinam o Manifesto, começa justamente desse ponto. “Mercado de carbono é licença de poluição’, diz o texto.

“Os mecanismos de mercado criados para a redução das emissões de gases de efeito estufa, representam um processo histórico de reconfiguração das formas de acumulação e promovem nova reengenharia global da economia em nome do clima”.

A segunda maior crítica é o fato de a COP 26 ter, segundo os manifestantes, “as piores condições para a participação democrática na história das negociações climáticas”.  

Diante disso, os signatários do Manifesto elencaram cinco itens, que podem servir como sugestões para serem lidas pelos participantes da Conferência. Dessa forma a sociedade civil pode se sentir, minimamente, participante também.

 A necessidade de um projeto político para a Amazônia, construído para e com os povos amazônidas, é um dos itens principais da lista. Demarcação de terras indígenas e quilombolas e a defesa do protagonismo desses povos, juntamente com agricultores familiares e camponeses/as para a conservação dos territórios são outras questões importantes.

O fortalecimento das iniciativas agroecológicas também ganhou destaque no Manifesto, assim como a necessidade de se discutir “amplamente o caminho para uma Transição Justa e Popular, conforme a qual uma economia mais integrada e consciente dos limites da natureza não acirre a já dramática situação de desemprego e restrição da renda de famílias da classe trabalhadora”.

Se há alguma chance de se perceber um único dado positivo como resultado desse período de trevas que estamos vivendo, este é o fato de as pessoas estarem, hoje, mais conectadas à vida. É de se compreender, pois passamos por muitas mortes. E se conectar à vida traz mudanças de hábitos, de costumes, de valores. Muita gente passou a se conectar mais com a saúde, assim como ao nosso entorno. Valorizar o meio ambiente e dar atenção aos alertas que a Ciência vem dando para os impactos da nossa atividade sobre o clima é, pois, uma descoberta para muitos.

Como estou ligada ao tema há quase duas décadas e sou jornalista, tenho recebido outros manifestos, o que denota uma movimentação interessante da sociedade civil no momento pré-COP. Um exemplo é o “Planetary Health Alliance” (https://www.planetaryhealthalliance.org/spd-signatories) , também no seio das Nações Unidas, assinado por grandes organizações globais.

Trata-se de um documento que também entende que é preciso uma grande reestruturação pós Covid. Este é ancorado pela jovem sueca Greta Thunberg, que também assina um outro com um pedido interessante e extremamente necessário: que as crianças passem a ter educação ambiental nas escolas públicas, desde a mais tenra idade.

E o que ensinar às crianças sobre o meio ambiente? Penso que respeito é um bom começo. Que tal vermos ética nas plantas e nos bichos, tanto quanto na terra e no mar? Entendo ética como os valores que intercedem nas relações não só entre as pessoas, mas também com os seres vivos que nos cercam. Dessa forma, seria um grande, um enorme ganho começar a vida já percebendo o quanto ficamos maiores quanto mais nos aproximamos de tudo o que colabora para nos manter vivos.

É isso que pavimenta o caminho para trocar a chave do TER para o SER. Que nosso grande recomeço pós-tormenta parta desse princípio.

Barco no Rio Amazonas: região é uma das mais focadas pelos que se preocupam com as mudanças climáticas
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O que vai acontecer na COP26

Semana passada eu participei de um encontro virtual que tinha como objetivo abrir espaço de debate para os jornalistas que vão cobrir a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 26). A iniciativa foi do Instituto ClimaInfo junto com o Instituto Clima e Sociedade (ICS), e é bem-vinda. A Conferência vai acontecer entre os dias 1 e 12 de novembro em Glasgow, na Escócia, e vai ser num sistema híbrido, ou seja, parte presencial, parte online, essa novidade que a pandemia nos legou. Seguirei cobrindo online.

O logo da Conferência, conseguido do site da UNFCCC

Este é um assunto que tem muitas vertentes, a cobertura pode ser bem complicada. Por isso, foi muito bom poder dividir algumas questões, ouvir comentários de quem está há mais tempo na estrada das conferências do clima.

A complexidade da cobertura se explica pelo seguinte: quando se fala em desenvolver de maneira sustentável, o que é um mantra para os ativistas ambientais, é preciso que haja um olhar cuidadoso não só para o meio ambiente, mas também para o social e para o econômico. Isto quer dizer que é preciso envolver profissionais de diferentes áreas.

  Lembro-me bem que, quando eu editava o caderno “Razão Social” no jornal O Globo (de 2003 a 2012), totalmente dedicado ao tema, eu nunca sabia, ao certo, em qual editoria do jornal eu poderia encaixar chamadas para as reportagens que editávamos no caderno. Era um caderno de notícias muito variadas. O que não variava era o senso crítico que buscávamos, uma visão aguçada para evitar noticiar greenwashing, e a vigilância sobre os projetos que duravam pouco tempo.

O maior interesse dos jornalistas que compareceram ao convite do ClimaInfo e do ICS na na semana passada era a agenda econômica da COP26. É um interesse legítimo porque, em geral, é mesmo a parte mais forte da Conferência ou, pelo menos, é de onde saem as notícias mais quentes.

Neste ano, parece que o debate vai ser sobre um acordo feito na COP-15, realizada em Copenhague em 2009, em que se previu que os países ricos ofereceriam US$ 100 bilhões por ano até 2020 para ajudar países pobres a lidarem com os impactos da mudança climática. Só que, desse total, segundo o diretor do Climainfo, Delcio Rodrigues, há controvérsias se já se chegou perto de US$ 90 bilhões ou se ainda estão no patamar de US$ 40 a US$ 60.  Seria preciso uma pesquisa muito profunda para checar onde esse dinheiro foi empregado.

Foi muito bom constatar, na conversa entre meus colegas, o que já estava ficando claro, para mim, nos últimos tempos: a questão do mercado de carbono não é relevante para a COP26. Digo muito bom porque essa é uma questão bem polêmica. Ativistas ambientais mais críticos defendem que a economia verde, muitas vezes, é um disfarce verde para o business as usual. Tendo a concordar. Ontem mesmo, ouvindo a entrevista coletiva do atual ministro do meio ambiente, não sei quantas vezes ouvi essa expressão. A economia verde aparece como a solução de todos os males.

 Não é, como sabemos. Existem muitos cálculos que precisam ser feitos para se chegar ao preço do carbono e que ficam sempre no campo das promessas. E, no fim das contas, precificar é mais do mesmo modelo econômico. E não ajuda a promover a mudança civilizatória que até o Papa Francisco já disse ser necessária. E não ajuda, também, a incluir pessoas.

Neste sentido, vocês vão entender por que, para mim, a melhor notícia, na reunião, foi dada por Cristina Amorim, coordenadora de comunicação do Instituto    de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Segundo ela, a COP26 não será apenas uma Conferência do Meio Ambiente. Ela será também sobre inclusão e exclusão de pessoas.

Cristina Amorim lembrou que a questão da justiça climática tem crescido muito nos debates pré-conferência dos quais tem participado. E, sim, os representantes dos indígenas e os movimentos sociais têm sido cada vez mais ouvidos. Não é para menos. Cada vez mais se tem certeza de que os povos indígenas são os que mais preservam a floresta. É absurdo deixá-los no segmento “eventos paralelos” da Conferência.

Um estudo divulgado pelo site MapBiomas em agosto deste ano, mostrou que nos territórios indígenas o desmatamento e a perda de floresta foram de apenas 1,6% no período de 35 anos. Para mim, é clara a motivação: os indígenas precisam da floresta para viver, por isso dão valor a ela, por isso respeitam cada pedaço de terra, curva de rio.

 Mas, apesar dessa constatação, apenas 13,8% de todas as terras do Brasil são reservadas aos povos originários. No país, segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há725 terras indígenas em diferentes etapas do processo de demarcação). Dessas, somente 487 foram homologadas(quando o processo de demarcação foi concluído) desde 1988. O governo de Jair Bolsonaro é o primeiro, desde a redemocratização do Brasil, a não demarcar nenhuma terra indígena.

Gosto sempre de lembrar que este ano de 2021 começou com a reunião dos líderes empresariais e de nações, em Davos, no World Economic Forum, conclamando para um Grande Recomeço. E que vai terminar com outra grande reunião, a COP26, que está sendo considerada fundamental para propor mudanças civilizatórias.

Vale a pena ler “O futuro começa agora”, de Boaventura de Sousa Santos (Ed. Boitempo) porque, no fim do livro, escrito durante a pandemia, ele faz muitas sugestões para essa mudança. Nenhuma delas passa por mercado de carbono, com certeza. Mas, segundo lembra o professor, é preciso abolir a ideia do “one size fits all”.

“Impõem-se decisões globais e a criação ou o reforço de instituições globais para as levar a cabo, mas as soluções concretas e os seus ritmos devem ter em atenção a diversidade dos contextos e das culturas do mundo”.

Neste sentido, será preciso reformar a própria ONU, assim como outras instituições, “para deixarem de ser instrumentalizadas ou neutralizadas pelos grandes interesses capitalistas globais e dos Estados a seu serviço”, é uma das sugestões do sociólogo português.

Vou acompanhar a COP.  Na verdade, pretendo me concentrar nos side events, onde estarão os debates com os indígenas e com os movimentos sociais. Ainda que mais bem posicionados estrategicamente do que em outras COPs, eles ainda não terão assento nas discussões do mainstream. Quem sabe, um dia?

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Está na hora de crescer

Cerca de quinze árvores, em pouco tempo de ventos fortes, caíram nas ruas cidade do Rio de Janeiro anteontem. Era o Dia da Árvore.  Prejuízo para carros e para o trânsito, felizmente nenhuma vítima humana. No grupo do zap do qual faço parte, e que debate sobre a arborização urbana, especialistas cravaram o diagnóstico: “Só pode ser árvore que foi cimentada”.

Árvores livres à beira do Rio Amazonas. Foto de Amelia Gonzalez

Sim, isso acontece. Dia desses mesmo, passei por uma calçada que estava sendo reformada.  Nela existe uma árvore linda, frondosa, mas que está totalmente inadequada porque atrapalha a passagem. Não é culpa dela. Mas os operários, querendo mostrar serviço, decidiram cimentá-la para atrapalhar menos. Chamei a atenção para o fato, e o porteiro me respondeu, sem humor: “Essa árvore nem tinha que estar aí, outro dia uma mulher quase caiu por causa dela”.

Quase caiu quer dizer que não caiu, pensei.  E não cairá, se a pessoa usar sapatos adequados e, principalmente, não usar telefone celular enquanto estiver caminhando. Mas, seja como for, a árvore será sempre a culpada. Que sina essa, da humanidade, em se achar sempre mais inteligente, esperta, forte e merecedora de estar no planeta, acima de todos os outros seres vivos.

Vale refletir a esse respeito, sobretudo quando estamos a cerca de dois meses da Conferência das Partes sobre o Clima, COP26, que vai acontecer em novembro na Escócia. Será uma reunião importante, a chance de os líderes e tomadores de decisões ampliarem o debate e as soluções para enfrentar o aquecimento global. Mas pode naufragar, segundo o secretário geral da ONU, Antônio Guterres, alertou na Assembleia Geral da organização que aconteceu na terça-feira em Nova York.

Guterres fez um discurso contundente, pedindo solidariedade e intervenções, já que um relatório da     COP editado há poucos dias mostra que os países pouco fizeram no sentido de baixar as emissões de carbono e alcançar a meta do Acordo de Paris. Na capital francesa, em 2015, os líderes reunidos decidiram que agiriam em conjunto para não permitir que o aquecimento global ficasse acima de 1.5 graus Celsius até o fim do século. Mas, de lá para cá, as emissões só fizeram crescer.

O presidente das Ilhas Maldivas, Ibrahim Mohamed Solih, ilustrou sem retoques o que significa, para a pequena nação-ilha do Pacífico, a diferença entre aquecer 1.5 grau e 2 graus: “É uma sentença de morte para as Maldivas”. Solih discursou também na Assembleia Geral da ONU, que este ano elencou a questão climática como um dos grandes desafios da humanidade do século XXI, além da pandemia, da desigualdade, da fome.

Ocorre que, para limitar o aumento da temperatura, é necessária uma redução das emissões em 45% até 2030 e zerar até 2050. E será preciso agir em conjunto, países ricos ajudando os pobres, tendo a crise climática como foco prioritário, para que se consiga este objetivo. Ou, como diz Guterres, a COP26 já vai nascer fracassada.

O alerta não é novo, assim como não é novidade, para os ativistas ambientais, lidarem com a quase passividade da maioria dos líderes globais diante de uma situação absolutamente emergente. É inexplicável. No início do século ainda se podia dizer que o meio ambiente não era um assunto considerado prioritário porque havia um caráter anódino rondando o tema. Hoje, não.

Basta ver, por exemplo, o último relatório da Organização Mundial de Meteorologia (WMO na sigla em inglês, segundo o qual, nos últimos 50 anos, mais de onze mil desastres foram atribuídos a riscos relacionados ao clima, envolvendo dois  milhões de mortes e US $ 3,6 trilhões em perdas econômicas. Já um relatório da ONU divulgado em junho deste ano dá conta de que pelo menos 1,5 bilhão de pessoas foram diretamente afetadas pela seca neste século, e o custo econômico ao longo desse período foi estimado em US$ 124 bilhões. Não é pouca coisa. Mas, também neste ponto, a desigualdade social mostra suas garras potentes, já que os mais vulneráveis ao risco são os países pobres, ou seja, aqueles que emitem menos emissões de carbono.

Voltamos assim ao discurso do presidente Ibrahim Solih, das Ilhas Maldivas, que abriu a sessão da Assembleia anual das Nações Unidas em Nova York. Com outras 38 nações-ilhas, Maldivas faz parte da Alliance of Small Island States (Aosis), associação criada na última década do século passado para representar esses países que, por conta da própria geografia, estão no topo do risco climático. Muitos já estão sentindo o avanço do mar, o que impede a agricultura em alguns territórios.

Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) de 2019 mostrou que o aumento do nível do mar se acelerou devido ao aumento combinado da perda de gelo das camadas da Groenlândia e da Antártida.

Como já deu para perceber, o debate sobre as questões climáticas é uma espécie de novelo. Uma informação puxa a outra, que puxa a outra. Um pensamento vai se ligando a outro e a outro mais. Essa interconectividade é característica de nossos tempos, e precisaremos aprender a lidar com ela.  Das árvores cimentadas chega-se ao drama das pessoas que vivem nas ilhas do Pacífico porque, no fundo, estamos falando da mesma coisa.

Árvore cimentada nas ruas do Rio. Foto de Amelia Gonzalez

O xamã Ailton Krenak faz uma imagem interessante. A sensação que ele tem é que nós estamos brincando de ser humanidade. Como se fossemos eternas crianças, sem responsabilidade de nada com o ambiente que nos cerca. Está mais do que na hora de crescermos e de tratarmos as árvores, por exemplo, como seres vivos que precisam respirar. Ou, admitir que jogar cimento em sua base é uma forma de assassinato e pagar por isso.

(P.S.) – Este texto foi escrito originalmente para o site Entrenós e para o blog da Casa Monte Alegre

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Histórias e soluções num mundo pandêmico

Estávamos em 2015 quando ganhei de uma grande amiga o aparelho celular 5S da Apple. Ela tinha comprado um mais novo, e o aparelho que eu usava era muito, mas muito antigo, tinha uns dez anos de uso.

O 5S esteve comigo até sexta-feira passada, quando, pela manhã, fui conferir as notícias e percebi que, apesar de ter estado a noite toda na eletricidade, ele estava sem bateria. Fiquei preocupada. Pedi ajuda a vizinhos, havia um problema no cabo, mas… na verdade, há tempos eu não recebia a notificação da empresa dizendo que iria atualizá-lo. Enfim. Noves fora, na verdade é que tinha chegado a hora de trocar meu aparelho de celular.

Não sou muito apegada a coisas. Mas não gostei nada de ser obrigada a fazer uma despesa com a qual eu não estava contando. Parecia aquele momento, no jogo Banco Imobiliário… “recue quatro casas porque você vai ter que trocar seu celular”. Mais ou menos isto. Lá fui eu para a loja, aproveitando que tenho pontos por ser cliente antiga e leal da operadora.

Trouxe de lá um celular novo, mas tive que optar por outra marca por causa dos preços. Certamente que este terá mais autonomia de bateria e uma câmera mais potente, além de uma memória maior. Por outro lado, pesa uma tonelada. Comprei um carregador novo e vou deixar o meu velho ali na gaveta…

Toda essa operação me fez pensar em consumo. E pensar em consumo me lembrou que em novembro os holofotes do mundo estarão voltados para Glasgow, no Reino Unido, onde vai acontecer a COP26, ou Conferência da ONU sobre o Clima, cujo propósito será como sempre acontece nessas reuniões, traçar políticas públicas a nível mundial para tentar travar o avanço do aquecimento global. O último relatório dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) não traz boas notícias a este respeito. O planeta aquecerá 1,5º em todos os cenários já nos anos 2030.

Pela primeira vez na história dos relatórios do IPCC, os pesquisadores dizem que não há a menor dúvida de que a ação humana é a responsável por este aquecimento.

É este o link com a situação que vivi na sexta pela manhã. No meu caso, consegui manter um celular que já havia sido usado por mais seis anos. Há quem troque de ano em ano, por nada, só porque surgiu um novo, com uma resolução maior na câmera. Não estou julgando nem criminalizando. Meu objetivo aqui é fomentar o debate com informações. Vale a pergunta, portanto: o consumismo é, então, o grande vilão? Um dos alertas dados pelos cientistas é que estamos vendo e veremos cada vez mais eventos compostos, ou seja, ondas de calor e secas que ocorrem próximas umas das outras ou ao mesmo tempo. Isso dá pouca chance de as comunidades vulneráveis se refazerem.

A norte-americana Annie Leonard ficou conhecida quando criou, em 2009, o vídeo “A História das Coisas”, que virou livro lançado aqui no Brasil pela Editora Zahar. Ali ela fazia um apanhado interessante sobre o caminho das coisas que compramos até virarem lixo. Em 2013, porém, a expert em desenvolvimento sustentável e em cooperação internacional lançou “The History of Solutions”, ainda sem tradução aqui no Brasil. Neste vídeo, Leonard deu um passo à frente e denunciou o sistema econômico que nos rege, desenhado por pessoas que criaram regras para os vencedores. Segundo essas regras, a meta é, sempre, Mais.

“Mais estradas, mais shoppings, mais dinheiro sendo gasto. É o PIB.  E é o que os economistas chamam de crescimento. Mas nada disso leva em conta uma vida melhor para todos nós”, conclui Annie Leonard.

Vale registrar que o ex-presidente da França Nicolas Sarkozy já havia pensado nisso. A seu pedido, os prêmios Nobel Joseph Stiglitz e Amartya Sen fizeram um relatório com sugestões que poderiam servir para substituir a medição de riqueza atual. O estudo concluiu que o desenvolvimentismo estava destruindo mais do que criando coisas boas para a humanidade. Em 2009 Sarkozy expôs este pensamento numa reunião de líderes, pediu mais foco em qualidade de vida e sugeriu que se acabasse com o fetichismo do PIB.

Tudo isso é história que nos trouxe até aqui, até nosso mundo pandêmico. O ano de 2021, que será lembrado como o segundo ano da pandemia causada pelo Corona Vírus, começou com outro grande encontro de líderes mundiais no World Economic Fórum, em Davos, na Suíça. Preocupados com os rumos da doença que se espalhava, eles se reuniram por vídeo conferência e debateram sobre um novo modelo econômico. O movimento recebeu o nome de “Great Reset”, que em tradução literal pode ser chamado de “Grande Reinício”.

O criador do Fórum, Klaus Schwab, escreveu um livro em parceria com Thierry Malleret , em que estão documentadas algumas das preocupações dos nossos tempos. E traçados alguns caminhos para a mudança. Entre as preocupações dos líderes estão a financialização excessiva, a polarização política, o déficit público crescente e a falta de uma governança global, além, é claro, da degradação ambiental. Se não foi, pelo menos até agora, a pandemia que mais causou mortes –  menos do que 0.006% da população mundial, enquanto a Peste Negra dizimou 30 a 40% das pessoas no século XIV – a Covid-19 deixa um rastro de possibilidades de mudanças num mundo muito mais interdependente.

As questões de justiça social estarão em evidência no mundo pós-pandêmico, assim como as questões ambientais. E, segundo a dupla Schwab/Malleret, “o pré-requisito absoluto para o mundo pós-pandêmico terá que ser maior colaboração não só dentro das nações como entre elas”.

Não há moral nessa história. Nem conclusão possível, ainda. Sigamos em frente, tentando soluções.

Foto do site 350.org: moradores das nações ilhas do Pacífico fazem protesto dizendo: “Não estamos afundando, estamos lutando”, durante a COP de 2017

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