Afinal, quem paga a conta das emissões?*

Por felicidade, acaso ou tomada de consciência tardia, o assunto “mudanças climáticas” tem ocupado fortemente o noticiário este ano. Dos eventos mais recentes que aumentaram o foco sobre o tema, a onda de calor em alguns países da Europa está na ponta, alavancando reflexões sugeridas há tempos e sempre guardadas num nicho das situações anódinas. É o espaço dos problemas cuja solução depende de tanta coisa que… é melhor postergar um pouco mais.

Fato é que, pelo menos aparentemente (pode ser apenas mais um momento propício, nunca se sabe) as mudanças climáticas se impuseram como tema urgente. Termômetros alcançando níveis altíssimos na Itália, na Grécia, é algo que atrapalha o turismo, mexe com a saúde, desnorteia até um planejamento urbano que tem contado sempre com temperaturas mais amenas. Mais ou menos como se nevasse na Praia de Copacabana no inverno.

Hão de se perguntar, alguns desavisados, se afinal de contas estamos sendo flagrados por esse fenômeno, ou se já se sabia que tudo estava para acontecer. A resposta é: as descobertas vêm sendo feitas – assim mesmo no gerúndio – e em passos lentos, mas com embasamento científico.

Em 1972 aconteceu a primeira Conferência Mundial do Meio Ambiente ancorada pelas Nações Unidas em Estocolmo. De lá surgiu o trabalho “Um só planeta”, o que se pode chamar de reconhecimento de que os bens naturais, também chamados de recursos naturais, são finitos.

Mas, como explica o embaixador Andre Corrêa do Lago em ‘Estocolmo, Rio, Joanesburgo – O Brasil e as Três Conferências Ambientais das Nações Unidas”, a Conferência de Estocolmo, de maneira geral, não causou um grande efeito na opinião do grande público:

 “O processo negociador é visto muito mais sob ângulo pessimista, – como um triturador de ideias progressistas”, escreve ele.

Stefano Mancuso, escritor italiano e uma autoridade mundial em Neurobiologia Vegetal, estende essa percepção da não aderência até mesmo a 1988, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou com unanimidade uma resolução sobre o tema: “Proteção do Ambiente Global para as Atuais e Futuras Gerações da Humanidade”. Mesmo contrapondo com a ideia de que sem esses tratados assinados em conjunto a situação poderia ser ainda pior, Mancuso pontua:

“Permanece o fato inegável de que estes acordos, em parte devido às notórias dificuldades de implementação, em parte devido à escassez de vontade e incapacidade política, parecem ser totalmente ineficazes”.

Tantas cabeças, tantas sentenças diferentes, serão mesmo capazes de construir um guia eficiente para se evitar que a espécie humana seja expulsa do planeta?

A ideia é avançar no debate, mesmo que para isso tenhamos que retroceder na história até o século XVIII, na primeira Revolução Industrial, que começou a poluir a atmosfera. Países ricos passaram a construir coisas com a matéria prima fornecida pelos países pobres. Ok, a equação não é assim tão infalível, há variáveis. Mas o fato é que a conta da poluição de gases de efeito poluente que estão ajudando a aquecer o planeta e, portanto, a severos eventos naturais, foi para os países ricos. Como o calor agressivo na Europa, por exemplo.

Responsabilidade comum, porém diferenciada

Como já se imagina, essa discussão ainda está longe de ter um resultado. A ativa percepção do presidente Lula, de que as questões climáticas são tema de suma importância, tem pintado a questáo com cores fortes e ajuda também a trazê-lo à tona.

“Não há dúvidas de que precisamos ampliar nossos esforços de mitigação, em especial os países que historicamente mais emitiram gases de efeito estufa, mas não podemos perder de vista a demanda crescente por adaptação e perdas e danos”, disse ele em Hiroshima no encontro do G7.

Em resumo, a questão é a seguinte: países ricos, que se beneficiaram com a matéria prima que colheram dos pobres, agora precisariam ajudá-los a diminuir as emissões, ajudando a pagar a tecnologia para mitigá-las. E, quem sabe assim, arrefecer a fúria dos eventos extremos que prejudicam sobretudo os mais pobres.

Numa recente oficina organizada pelo escritório de advogados Graça Couto, em que o tema veio à tona, a expressão “responsabilidade comum, porém diferenciada” chamou a atenção. É do que se trata? Como solucionar?

Um dos sócios do escritório e especialista em direito ambiental,  Guilherme Leal, lembra que, sim, existe uma regra:  países desenvolvidos que contribuíram de forma significativa para a acumulação histórica de gases de efeito estufa na atmosfera devem liderar esse percurso de transição para uma economia de baixo carbono.

“Eles têm uma responsabilidade histórica que os diferencia, e não à toa existe esse principío de responsabilidade comum porém diferenciada, que não é um princípio novo, está previsto na Convenção Quadro da Rio-92, e é um princípio do direito ambiental internacional”, disse Guilherme Leal.

O advogado não tem outra escolha senão deslizar também na linha do tempo para prosseguir com a reflexão. Cinco anos depois da Rio-92, Conferência que reuniu delegações de 172 países e trouxe ao Rio de Janeiro 108 chefes de Estado,  o Tratado de Kyoto foi assinado, organizando uma relação de países desenvolvidos que assumiram expressamente o compromisso de mitigação de emissões.

“Tínhamos ali o que chamamos de diferenciação binária, ou seja, ou o país tem ou não tem o compromisso (de mitigar as emissões). Kyoto foi esse movimento, de compromissos fortes. Mas Estados Unidos não ratificou, alegando que não podia incorporar essas obrigações internamente. Alegou ainda que o mundo vivia um contexto diferente, quando Índia, China, Rússia e Brasil já estavam contribuindo para as emissões significativamente. Não seria justo que os mais ricos, sozinhos, assumissem o compromisso”, disse Leal.

Na época o assunto foi, assim, esfriado. Mas algum tempo depois foi novamente levantado. Começam a surgir, nos debates das Conferências, a ideia de tratar essa diferenciação de responsabilidades de maneira mais flexível.  Até que, em 2015 em Paris,  na COP-15, consegue-se o já famoso Acordo de Paris. É um acordo híbrido, como lembra Guilherme Leal:

“Aquela relação de países organizada em Kyoto é extinta porque se decide não impor metas específicas a ninguém. Cada país assume um compromisso de acordo com suas próprias características e particularidades e capacidades nacionais. A obrigação de apresentar esse compromisso (chamado NDC) é de conduta, não de resultado. Não há uma obrigação de qual meta que o país tem que atingir, não há uma autoridade global que fará esse juízo”, disse Leal.

É um acordo híbrido: rígido em procedimento (obrigações fortes de apresentar um compromisso) e flexível em substância (quando diz que cada país é livre para dizer qual será esse compromisso).

A importância do direito ambiental

E ninguém pense que será fácil. Os eventos estão aí, a medir a urgência. Instituições privadas, civis, públicas, não se cansam de emitir alertas sobre os impactos ambientais que nossa produção está causando.

Estamos próximos, por exemplo, do Dia da Sobrecarga da Terra, que este ano cairá no dia 2 de agosto.   Trata-se de uma efeméride criada por organizações da sociedade civil para marcar o dia do ano em que a humanidade, tendo consumido toda a produção de recursos que os ecossistemas terrestres são capazes de regenerar para esse mesmo ano, começa a consumir recursos que já não são renováveis.

‘Não é preciso ser um gênio para perceber que este modo de atuar é insensato’, escreve Mancuso.

Já que sabe falar, dialogar, o homem vem ao menos tentando implementar ferramentas que possam regular as questões em torno de quem deve se responsabilizar para minimizar tanto impacto. O direito ambiental surge como um instrumento para isso.

“Ele surge, em essência, na década de 70, muito fortemente nos Estados Unidos. No Brasil surge em 1981, com a Política Nacional de Meio Ambiente e, em 1988, a Constituição garante o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. É a consolidação de um conjunto normativo básico da garantia, que começa a tratar o meio ambiente de maneira integrada e não apenas como recursos naturais isolados: proteção de floresta, dos animais, do rio, da água”, analisa Guilherme Leal.

A partir da década de 90, o Brasil passa a ter normas “mais instrumentais para colocar em prática a defesa desse macro bem ambiental, desse direito que se passou a reconhecer”.

O advogado situa o início do século como a era em que os tribunais entram na discussão, junto com o Ministério Público, na interpretação e compreensão do que diz a lei.  Na interpretação de Guilherme Leal, a sociedade civil       passa a abraçar mais a pauta, e o mundo fica menor, com a Internet.

“Normas e leis editadas na Europa são recebidas aqui no Brasil instantaneametne e de maneira muito acessível, com tradução imediata e com uma percepção de que existe uma causa comum em todo o mundo e que a sociedade civil se identifica demais com essa pauta”, disse ele.

Greta Thunberg, a jovem sueca que tem sido arauto da inércia dos líderes, é um exemplo dessa sociedade que passa a atuar sem dourar a pílula. Finalmente parece ter caído a ficha: vivemos num único mundo, e precisamos atuar em conjunto para garantir vida às futuras gerações.

É preciso que se diga que este foi o significado de desenvolvimento sustentável escrito em “Nosso Futuro Comum” em 1987… A história não nos deixará esquecer.

  • Texto originalmente escrito para o site #Colabora
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Quem é inteligente? O homem ou as baleias?

Na semana passada, o secretário-geral da ONU Antônio Guterres veio a público alertar, mais uma vez, para a falta de iniciativas que realmente possam dar conta de tentar conter o avanço do aquecimento global. Dessa vez, ele usou como exemplo as cenas de ondas de calor intenso que vêm assolando a Europa. Meteorologistas acreditam que a Itália registre 48 graus nos próximos dias.

Baleia Jubarte em Arraial do Cabo, foto de Custódio Coimbra em julho de 2023

Esse calorão não é nenhuma novidade para quem acompanha há décadas os relatórios divulgados pelos cientistas do Painel Intergovernamental SOBRE  Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) ou os resultados das COPs (Conferência das Partes sobre o Clima) ancoradas pelas Nações Unidas. Está tudo escrito, com dados que só vêm se mostrando, dia a dia, mais embasados.

 Muita gente para, lê, se incomoda e segue adiante. Outros resolvem tomar alguma atitude, pequena que seja, para ajudar na tentativa de conter o aquecimento.

Poucos, felizmente muito poucos, estão na negação.

 Sim, somos uma espécie que destrói o próprio habitat e que, ainda por cima, se julga mais inteligente do que qualquer outra espécie do planeta. Acho bastante  curiosa, portanto, a reação de espanto diante dos ataques das baleias orcas aos lemes de barcos no Estreito de Gilbratar, na Península Ibérica que circulou nesta semana. Só agora descobriram que esses mamíferos são capazes de reagir.

A primeira notícia a esse respeito foi divulgada na revista Science e reproduzida pelo jornal britânico “The Guardian” em maio e julho deste ano e na edição impressa do jornal “O Globo” de ontem (15). A história é a que segue: baleias Orcas se aproximam de barcos e começam a bater fortemente no leme. Só saem de perto depois que o barco para e não tem condições de seguir adiante.

Pessoas que passaram pela experiência, estando no interior de um barco abalroado pelas baleias,  contaram um pouco de suas histórias para as reportagens, que não são “de pescador”, porque muitas foram acompanhadas por imagens. O capitão Werner Schaufelberger estava num iate, na noite de 4 de maio, no Estreito de Gibraltar, na costa da Espanha, quando três orcas começaram a bater contra o leme.

“Havia duas orcas menores e uma maior. As pequenos balançaram o leme na parte de trás enquanto a grande recuou repetidamente e bateu no navio com força total pelo lado” , disse ele à revista alemã Yacht .

Schaufelberger tem uma explicação humana para o episódio. Para ele, a baleia  maior era a mãe, que estava ensinando a técnica de abalroar iates para as filhas. Seja como for, fato é que se o intuito das baleias era tirarem de cena aquele objeto que navegava em suas águas, elas conseguiram. O iate foi recolhido pela guarda costeira e afundou na entrada do porto.

O site especializado em baleias Orca Atlântica dá nome ao fenômeno: são interações. Diferentemente de quando a Orca apenas avista o ser humano e não chega perto (chamado de avistamento), as interações acontecem “quando os animais fixam a atenção no barco, chegando a manter um contato direto, ou seja, quando eles se aproximam, observam e/ou tocam o navio”.

O comportamento é perturbador, e disso não há quem duvide. Mas não é novidade. Segundo o site, a primeira vez que alguém contou ter acontecido algo assim foi em 2020. Primeiro foi com veleiros, depois embarcações de pesca. O relato das pessoas coincide: as Orcas tocaram, empurraram e até rodaram as embarcações, o que em alguns casos resultou em danos nos lemes.

“No total, foram registradas 52 interações entre julho e novembro de 2020 nas águas entre o Estreito de Gibraltar e a Galiza (Península NW), incluindo a costa ao longo de Portugal continental. Registraram-se dois novos casos a partir de janeiro de 2021 na costa atlântica de Marrocos e Estreito de Gibraltar, destacando-se a persistência deste novo comportamento ao longo do tempo, atingindo 197 interações no final do ano. Em 2022,foram registradas207interações”, diz o site Orca Atlântica, que sugere atenção ao fato e coordenação internacional entre administradores, navegadores e cientistas para evitar que algo mais grave aconteça tanto às Orcas quanto aos humanos.

Dei tratos à bola (expressão que minha mãe costumava dizer muito) para imaginar o que pode estar causando o fenômeno. Considerando que as baleias não demonstram intenção de interagir com os humanos, apenas com seus barcos, minha primeira reação foi pensar que o problema, para elas, é o barulho. Tão logo conseguem terminar com aquele desconforto, elas partem tranquilas.

Não somos, como bem demonstra o fato, as únicas criaturas capazes de pensar nesse planeta.

E, cá pra nós, a julgar pelo descaso com que vimos tratando os alertas de que será preciso mudar hábitos e consumo para garantir a permanência da humanidade no planeta, estamos longe do ranking dos mais inteligentes.

Para terminar, um exemplo de que é possível, ainda, reverter parte da situação. No jornal “O Globo” de hoje, há reportagem de Lucas Altino, com fotos belíssimas de Custódio Coimbra, que me cedeu algumas para ilustrar este texto,  mostrando que as baleias Jubarte estão de volta ao litoral brasileiro. Bastou, para isso, proibir a caça e pesca desses mamíferos que são importantíssimos para a nossa biodiversidade.  

Segundo o site da ONU, as baleias ontribuem com pelo menos 50% de todo o oxigênio da nossa atmosfera, ou seja, fornecem metade do ar que respiramos. E também capturam cerca de 37 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, o equivalente a quatro florestas da Amazônia.

Pensando nisso, não teríamos que erigir santuários para esses belos mamíferos?

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O tempo, esse feiticeiro

Quero falar sobre acontecimentos, sobre a potência do tempo quando ele é vivido intensamente. Quero falar de uma noite que começou com o convite de uma amiga para ir ao lançamento de um livro.

Francis Hme e seu piano no charmosíssimo espaço do Pro-Saber. Foto de Lucila Soares

A noite estava gostosa, como são gostosas as noites de inverno no Rio. Um casaquinho, uma calça comprida, e já estava eu aquecida e confortável, sendo recebida com carinho na simpática casa do Instituto Pró-Saber, uma faculdade particular gratuita que trabalha pela valorização da educação.

Dois dos meus sentidos foram aguçados. O primeiro foi a visão. Adoro ver espaços bem resolvidos, enfeitados na medida certa e sem luxo. Um banquinho com flor chamou logo a minha atenção quando o vi ornando o palco que tinha um piano. E foi só aí que percebi: o livro que estava sendo lançado é o “Francis Hime – Ensaio e entrevista’” da Editora 34, escrito por André Simões. Sim, e Francis Hime iria cantar!

Como disse aí em cima, estou aqui para falar sobre a potência do tempo.

E da memória.

Pois bastou o primeiro acorde do piano de Hime, de quem sempre fui fã, para me levar aos anos em que se esperava ansiosamente os discos dos nossos cantores prediletos. Hime, Chico, Milton, Gil, Caetano… como seriam as capas? Que músicas traria? Tempo de aguçar a audição, aliada à memória.

Naquele tempo… a vitrola não parava. Não tínhamos como levar para o ônibus, o trabalho, aquelas músicas, como hoje se faz, com um pirulito espetado no ouvido (sem preconceito, juro! Só estou constatando). Por isso, era preciso esperar um tempo, ter paciência para chegar em casa, abrir cuidadosamente a capa e degustar cada verso ou redondilha. Não demorava muito, e já estava tudo decorado.

Estava eu mergulhada nesses pensamentos quando Francis Hime começou a tocar. As primeiras notas já me fizeram reviver aquela que eu era. Será que deixei de ser algum dia? “Quando olhaste bem/ os olhos meus/o teu olhar/ era de adeus…”. Ora, como não sentir o coração quentinho? Seja lá o que for que eu tenha vivido sob essa canção, com certeza o vivi de maneira  apaixonada.

E a paixão nos torna resistentes. Aos 83 anos, Francis Hime tocava com uma força e vibração que o tornava atual, contemporâneo de qualquer jovem da plateia. Hime tocava apaixonadamente. Será a paixão a potência do tempo?

O livro é um primor. Andei com ele debaixo do braço pela rua afora e, em casa, com os óculos adequados, comecei a folheá-lo. Está ali a história da  música brasileira, de uma época que eu vivi!

A partir de uma entrevista com Francis Hime – que toca de canção popular a música de concerto, que fez trilhas sonoras, que sempre se colocou politicamente do lado certo – Andre Simões nos brinda com… a nossa história. A crônica de uma geração que viveu num tempo em que se esperava para ouvir um disco.

Ah, muita coisa está embutida nesse comportamento que hoje pode parecer  tão anacronico.

E não é que me lembrei de cada verso de “Passaredo”, uma das minhas prediletas?. “Toma cuidado/bico calado/ que o homem vem aí” é um dos versos que me acompanham quando caminho e converso com a passarinhada aqui do bairro. Eu, representante da espécie dos predadores.

Volto a 2023, à noite de junho gostosa que foi me nutrindo de boas, sensíveis, emoções. Ali na mesa, como mediador, estava Gregório Duvivier, o ator que reconheço por me fazer dar algumas boas risadas. Respeitoso, pouco falou, mas o jeito com que olhava dava para notar que estava comprometido, emocionado com o que via.

O show já ia à metade, canções após canções, quando Andre Simões fez o anúncio da 71ª parceria de Francis Hime: ele mesmo, Duvivier. E lá vem a música escrita pelo escritor humorista: divertida, cantada também de forma divertida, termina com um; “Guarda aí meu whats app/ para eu ser seu plano B”. Dei risada. E foi bom ouvir, encaixou-se no contexto do tempo, esse fugaz.

Nosso espetáculo, quase intimista, continuou. Bem solto e à vontade, Francis Hime contou que certa vez, num bar em terras estrangeiras, ouviu o músico que fazia o show anunciar:

 “Agora vou tocar “Minha” (letra de Ruy Guerra e canção de Hime), composta por um excelente músico brasileiro, Francis Hime”.

“Era eu!!”, disse ele, divertido.

E não é que um dos grandes nomes da MPB, já consagrado à época, emocionou-se com a menção a seu nome e, no fim do recital, ficou envergonhado de se apresentar ao músico?

Sou dessas.

Ao som de “Vai passar”, última canção da noite, que mobilizou a plateia e me fez também dar uns passinhos desengonçados, eu caminhei direto para a mesa onde os livros eram vendidos, comprei e saí correndo. Uma amiga ainda me ofereceu: “Eu pego o autógrafo para você”. Pensei um segundo, mas preferi me agarrar ao livro e levá-lo logo para casa.

Sim, eu tinha um compromisso, uma aula online. Mas, será mesmo que eu não poderia ter esticado aquele tempo, ido lá, apresentar-me como fã e dado um abraço no ídolo?

Tempo que se foi. Claro, em casa eu aproveitei também a aula, onde estamos lendo o pensamento de Henry Bergson e Gilles Delleuze sobre o tempo, a síntese do tempo, o tempo memória…

A emoção me embalou uma noite de sono tranquila. Não sonhei com o tempo de cantar chorando aqueles versos. Não me ressinto dos amores perdidos, pelo contrário, eu agradeço à minha capacidade de me apaixonar.

 Porque com paixão se preenche a potência do tempo.

Hoje pela manhã, quando ouvi o presidente Lula discursar na Cúpula de Paris, mais ainda me convenci de que é preciso tesão para viver intensamente seja o tempo que for. Aos 77 anos, Lula falou firme, forte, apontou o dedo para a ferida de nossos tempos.

Não sei se as palavras de Lula vão servir para, como ele disse, trazer os desiguais à mesa de debates. Mas dá alento ouvir isso, dito de maneira potente, por um… septuagenário apaixonado, também, pelo que faz.

O tempo, esse feiticeiro. É bom entender melhor as dobras que ele faz em cada um de nós.

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Inspira, respira… e tenha boa saúde

Aconteceu num dia em que meu estresse estava num nível bem mais elevado do que o normal. Sou uma pessoa 24/7, que não se conforma em ficar sem notícias, que quer explicação e solução para todos os problemas, que precisa estar atenta, sempre alerta, 24 horas, sete dias da semana. Como se pode imaginar, em alguns momentos o corpo reclama. Felizmente, com o passar dos anos, tenho sido mais responsável e tenho cuidado mais de mim. Sobre isso falo depois. Por ora, quero compartilhar o dia em que eu, à época estreando num fracassado projeto de negócios, quase pifei.

Não me lembro se foi zonzura, dor de cabeça ou qualquer outro sintoma. Sei que não estava bem e liguei para o Mauricio Tatar, meu médico, sobre quem já falei aqui neste espaço (autor do livro “Cuidar de Si” , Editora Mauad, que tem meu texto). Depois que eu desfiei meu rosário de queixas por telefone, Tatar marcou uma consulta e disse, antes de desligar:

– Respira! Não se esqueça de respirar!

Não fosse a relação médico/paciente de confiança mútua que temos, eu teria feito apenas um muxoxo à observação final, e seguido em frente. Mas, além do muxoxo, prestei atenção à sugestão e fiz o que ele propunha.

Nas consultas, que sempre geram muita reflexão, Tatar Já havia conversado sobre o papel da respiração na saúde da gente. Coisa difícil porque é comum respirar no automático, sem perceber. Agora, por exemplo, enquanto está lendo este texto, você já reparou na sua respiração?

Conversa daqui, registra dali, fato é que eu sabia, por ter ouvido dele em outras ocasiões, que a sugestão – “Respira!” – ia além de buscar o ar de forma quase ansiosa, como eu devia estar fazendo naquela tumultuada ocasião.

 Respirar começa com a soltura do ar, de forma lenta e profunda. Cerca de cinco segundos depois, só então é hora de inspirar. Foi o que fiz. E foi o que bastou para eu sentir como estava completamente travada, como se meus órgãos estivessem colados uns aos outros. A tal ponto, que foi difícil conseguir exalar. Mas quando busquei o oxigênio, segundos depois, senti um bem-estar incrível.

A situação estressante ainda estava lá, mas eu fiquei cuidando de mim, ao menos por momentos. E isto foi revolucionário para aquele instante e para os seguintes, tanto que não me esqueci da sensação até hoje.

Recuperei essa história na memória quando, dias atrás, decidi incorporar um exercício mais completo na minha rotina. Inscrevi-me numa aula de natação num clube grande, aqui perto de casa, que tem uma piscina semiolímpica. Na hora do cadastro, é claro, busquei uma turma de iniciantes. Aprendi a nadar já bem adulta, e há mais de uma década não treino.

No dia e hora marcados, lá estava eu, toda paramentada, pronta para estrear na piscina. Até que não fui mal, tanto que o professor se sentiu à vontade para relaxar um pouco e me dizer, duas aulas depois, que eu já estava apta a ir além. Isto significava nadar a piscina toda, em vez de ir só até a metade. São 25 metros. Quatro chegadas: cem metros. Eu conseguia, meio aos trancos e barrancos, mas já estava me achando.

A vida seguia assim, até que eu viajei para fazer um trabalho. Foi bom, rendeu bem, e eu me cansei. Voltei num dia e tive aula de natação no dia seguinte. O cansaço tinha provocado uma certa sensação de resfriado só nas vias aéreas superiores. Achei que seria o momento ideal de exercitá-las. E lá fui eu para a piscina.

Touca, máscara, protetor de ouvidos e.. tibum. Ao longe, ouvi a voz do professor: “Quatro chegadas em crawl”. Lá fui eu. Mas, no meio da piscina, cadê o ar? Engoli água, busquei a borda, e continuei tentando e tentando. A dificuldade não era mecânica, dos movimentos, mas me faltava o ar, simples assim.

A sensação foi tão desagradável que me levou a fazer uma reflexão a respeito do meu resultado na piscina e, noves fora, percebi que as aulas me deixavam mais cansada do que com a sensação boa de ter praticado um exercício. E foi meu último dia de aula na piscina semi-olímpica.

Mas não desisti de praticar na água: hoje estou numa ótima hidroginástica, piscina pequena, que me dá a chance de praticar natação quinze minutos/dia. E está de bom tamanho.

 Mas, como sempre faço, segui pensando. No caso, o ato de respirar passou a ser meu mote. Lembrei-me do capítulo do “Cuidar de Si” ao qual dei o título “Nos movimentos, o impulso de vida”. Lá está o alerta: com o passar do tempo, os adultos vão desaprendendo a respirar com o abdômen, passam a fazer uma respiração torácica, rápida, que demonstra ansiedade. É só reparar como respiram os bebês: a barriguinha se enche de ar e cresce, depois diminui à medida em que o ar vai saindo.

“Nossa respiração se torna mais curta, e com isso vamos acumulando gás carbônico. Quanto mais gás carbônico, menos espaço temos para o oxigênio. Afinal, dois corpos não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo”, afirma Mauricio Tatar.

Marquei com Tatar uma conversa para falarmos só sobre respiração. E compartilho aqui alguns bons esclarecimentos que ele me deu. Para início de conversa, vale desmitificar: o ar que respiramos é uma mistura gasosa que contém 21% de oxigênio, 78% de nitrogênio e 1% de argônio, um gás nobre.

“Análises feitas com o ar expirado constataram que só 6% do oxigênio inspirado foram absorvidos”, explica o médico.

A explicação é simples: respiramos ar poluído. Como não temos oxigênio suficiente nos centros urbanos, liberamos também pouco carbônico. Resultado: respiração curta, sensação de angústia. Era exatamente assim que eu me sentia quando, lá atrás, liguei pedindo ajuda.

Uma coisa puxa a outra, e as boas reflexões levam à saúde. Vamos ouvir quem entende:

“Quando uma pessoa diz que está com falta de ar e não consegue respirar, na verdade ela está inspirando pouco oxigenio. Existe uma troca gasosa, para eu inspirar o oxigênio,  eu preciso eliminar (expirar) gás carbonico. Se eu não elimino muito gás carbonico, pouco oxigênio irá entrar. Para você absorver o oxigênio,  o ar precisa ser filtrado e aquecido. E só o nariz faz isso”, explica Tatar.

A falta de ar que um asmático refere, na pratica é um excesso de gás carbonico que não foi eliminado. Quanto mais gás carbonico eu retiver, mais ansioso eu fico, mais disperso e sem concentração,  agitado e inquieto eu ficoUm pensamento vai puxando o outro… até que chego à minha fonte de estudos, o ecosociodesenvolvimento. Em outras palavras, neste caso, desenvolvo a reflexão sobre como as questões climáticas impactam a saúde humana.

 No ano passado, a OMS revisou suas Diretrizes de Qualidade do Ar e concluiu que “a base de evidências para os prejuízos que a poluição do ar causa ao corpo humano vem crescendo rapidamente e aponta para danos significativos causados até mesmo por baixos níveis de muitos poluentes do ar.”

A dedução de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, é que precisamos, com urgência, “avançar mais rapidamente em direção a um mundo muito menos dependente de combustíveis fósseis”.

Tornando mais explícito o alerta do executivo da OMS, é preciso avançar nas pesquisas e desenvolvimento para descobrir novas fontes de energia e investir nelas. Mas isso precisa de uma concertação entre empresas e consumidores, do contrário vamos continuar escarafunchando a terra em busca de petróleo até… sei lá até quando.

Enquanto isso, e enquanto nos sobra o oxigênio, o melhor investimento será mesmo em respirar direito para ganhar mais saúde. É no que eu acredito, por isso compartilhei com vocês esses pensamentos.

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Uma semana que desperta questões

Na semana do Meio Ambiente, que vai até o dia 9 de junho, eu me reservo o direito de questionar.

Na foto clicada por Custodio Coimbra, a presença de plástico nas águas da Baía da Guanabara

E começo questionando o sentido de os supermercados  terem ainda tantas embalagens plásticas ao mesmo tempo em que cobram, dos clientes, pelas sacolinhas plásticas que ajudam a carregar as compras. Você pode achar um questionamento mixuruca diante de um evento mundial tão importante, mas eu insisto. É um paradoxo, um dos muitos que povoam nossa era. E não vamos nos livrar dele se não pusermos o dedo na ferida coletiva. É mexendo nas coisas que parecem pequenas que a gente pode alcançar algum êxito em fazer mudanças radicais.

Não estou trazendo o assunto à toa. Na verdade, quem escolheu o espinhoso tópico para povoar nossos pensamentos foi a ONU. Para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, como sempre faz anualmente, ela elegeu como tema “Soluções para a poluição plástica’.

Está na hora, portanto, de tentar não esquecer que existe 1,6 milhão de quilômetros quadrados e 79 mil toneladas de lixo plástico no Oceano Pacífico, segundo os últimos dados fornecidos pela revista Nature. Jogados pela civilização humana.  Nessa mesma reportagem, a notícia é de que há vidas se proliferando nos plásticos por nós descartados de qualquer jeito. E essas vidas estão pegando carona para navegar pelo oceano em direção a… sabemos nós?

Desculpe se tirei o prazer do seu café tomado às pressas numa cafeteria do Centro, ou se não levei em conta que é mais cômodo embrulhar o lanche das crianças em sacos plásticos. Ou, ainda, se estou sendo inclemente ao julgar que não dá mais para esquecer a bolsa retornável em casa quando se vai fazer compras. Adoraria dizer que todas essas atitudes nos trariam resultados imediatos, mas penso que a medida de redução deve vir de cima. Meu foco, como se vê no início do texto, é outro.

Nos fundos da Baía da Guanabara, Custódio Coimbra fez o flagrante do estrago feio pelo plástico

Para ajudar a formar pensamento crítico – e cobrança – relaciono abaixo alguns dados do site da OCDE que nos lembram que vamos precisar nos empenhar muito para encontrar soluções. Por enquanto, só estamos criando o problema.

  • O consumo de plástico quadruplicou nos últimos 30 anos, impulsionado pelo crescimento nos mercados emergentes. A produção global de plásticos dobrou de 2000 a 2019, atingindo 460 milhões de toneladas. Os plásticos representam 3,4% das emissões globais de gases de efeito estufa.
  • A geração global de resíduos plásticos mais que dobrou de 2000 a 2019, para 353 milhões de toneladas. Quase dois terços dos resíduos plásticos vêm de plásticos com vida útil inferior a cinco anos, com 40% provenientes de embalagens, 12% de bens de consumo e 11% de roupas e têxteis.
  • Apenas 9% dos resíduos plásticos são reciclados (15% são recolhidos para reciclagem, mas 40% são eliminados como resíduos). Outros 19% são incinerados, 50% acabam em aterros sanitários e 22% fogem dos sistemas de gerenciamento de resíduos e vão para lixões descontrolados, são queimados a céu aberto ou acabam em ambientes terrestres ou aquáticos, principalmente em países mais pobres. 
  • Em 2019, 6,1 milhões de toneladas (Mt) de resíduos plásticos vazaram para ambientes aquáticos e 1,7 Mt fluíram para os oceanos. Estima-se que haja agora 30 Mt de resíduos plásticos nos mares e oceanos, e outros 109 Mt acumulados nos rios. O acúmulo de plásticos nos rios implica que o vazamento no oceano continuará nas próximas décadas, mesmo que os resíduos plásticos mal administrados possam ser significativamente reduzidos.
  • Considerando as cadeias de valor globais e o comércio de plásticos, alinhar as abordagens de design e a regulamentação de produtos químicos será fundamental para melhorar a circularidade dos plásticos. Uma abordagem internacional para a gestão de resíduos deve levar à mobilização de todas as fontes de financiamento disponíveis, incluindo a ajuda ao desenvolvimento, para ajudar os países de baixa e média renda a cobrir os custos estimados de 25 bilhões de euros por ano para melhorar a infraestrutura de gestão de resíduos.
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Preservar a biodiversidade faz bem, e não é só para o planeta

Um olhar cuidadoso, uma escuta muito atenta, passos curtinhos, silenciosos e, sobretudo, muita leveza. Para observar pássaros soltos em seu habitat, não se deve fazer nenhum movimento brusco. Se a visita for em grupo, é preciso respeitar o espaço e se calar, respirar em consonância com o ambiente em volta. Qualquer solto som pode espantar a preciosidade do momento.

Em um par de horas, aprendi quase tudo isto com o guia Brener Fabres, na Reserva Natural Vale, quando lá estive, em Linhares no Espírito Santo.  Um dos maiores espaços preservados da Mata Atlântica*, a Reserva abriga 402 espécies de aves que vivem soltas, obedecendo às leis da natureza, nem sempre afáveis, mas nunca injustas. Ali não há julgamentos: ganha quem é mais forte.

Foto: Leonardo Meçon / Instituto Últimos Refúgios

No topo da cadeia alimentar das aves que ocorrem na Mata Atlântica temos a Harpia, também chamada de gavião real, nome que os homens lhe dão porque seu aspecto evoca reis e rainhas. Linda, imponente, a fêmea chega a medir dois metros e meio quando abre as asas, e chega a pesar mais de nove quilos. O macho é um pouco menor, mas não por isso menos potente. Essa espécie precisa de proteína animal para sobreviver: macacos, preguiças e ouriços. Sim, deve ser cruel e eu não consigo nem imaginar o momento da caça. Mas assim é a lei dos animais.

Apesar de chegar a medir até um metro de altura e de estar entre as cinco maiores aves de rapina do mundo, a Harpia é discreta. Seu piado inicial é quase confundido com o som de um pássaro menor, até que, segundos depois, ela emite um grito. Embora não seja muito alto, até para os que pouco entendem do riscado é possível reconhecer nesse grito a presença suntuosa de uma ave de rapina.

A Harpia gosta de fazer seus ninhos quase no topo das maiores árvores da floresta, e como sua penugem é cinza e preta, é muito difícil vê-la. Quando não confrontada com situações de risco, ela pode viver até 56 anos. Mas hoje faz parte de uma triste lista de espécies criticamente em perigo de extinção.

E são as atividades humanas o seu maior inimigo. A Harpia precisa ficar esperta contra os caçadores ilegais. E o desmatamento testa suas forças de maneira cruel, porque degrada seu habitat e diminui a sua chance de obter alimentos. Os últimos dados fornecidos pela Fundação SOS Mata Atlântica dão conta de que de 2020 a 2021 o desmatamento na região deu um salto, chegando a 21.642 hectares.

Para sorte de alguns indivíduos dessa imponente espécie que encontram pouso no complexo de cerca de 50 mil hectares de Mata Atlântica preservado composto pela Reserva Natural Vale e pela Reserva Biológica de Sooretama, ali elas estão um pouco mais preservadas dos perigos. Há vigilância que, se não impede totalmente, desestimula ação de caçadores no local. E as árvores são preservadas, berços para seus ninhos.

Jovem de 28 anos, o guia Brener Fabres dedica grande parte de seu tempo a observar e estudar os costumes e os cantos dos pássaros. Numa única caminhada pela Reserva, ao seu lado, fiquei sabendo de muitos nomes, ouvi diversos piares. Aprendi que existe um aparelhinho – que deve ser usado com extrema moderação – que imita um piado para chamar outro pássaro.

Atualmente, Brener está trabalhando numa tese de mestrado sobre a biologia reprodutiva da Harpia. A ave virou seu objeto de estudo, a Reserva se presta como seu campo de pesquisa. Uma concertação que só traz bons resultados. Brener não contém seu entusiasmo quando instado a contar a história da Harpia. Hoje existem cinco casais da espécie sendo monitorados por Brener e outros colegas:

“O primeiro ninho que encontramos aqui na Reserva foi em 2012, mas foi um mistério, porque a Harpia não chegou a chocar e sumiu. Naquela época ainda não usávamos câmera Trap, não fazíamos o monitoramento como fazemos hoje. Quatro anos depois, em 2016, encontramos um novo ninho, e este foi monitorado. Em 2017 apareceu uma Harpia, e achamos que foi aquela que havia sumido. Assim, passamos a ter dois ninhos na reserva, dois casais, em 2019 achamos um terceiro casal e em 2022 encontramos um quarto casal. Em resumo: hoje temos quatro casais aqui na Reserva Vale, e um em Sooretama”, conta ele.

Como é de se supor, um bicho com essa envergadura não se reproduz com facilidade. Primeiro, é preciso achar um canto ideal para o ninho, que tem de dois metros a dois metros e meio. O macho se encarrega dessa tarefa e, depois da cópula, fica abastecendo a fêmea com alimentos.

“Depois da cópula, a fêmea fica cerca de quatro meses totalmente dedicada ao ninho, ela não sai de lá. No máximo, voa até uma árvore ao lado para se esticar um pouco e volta logo. Ele caça, come e traz para ela. Depois que o filhotinho nasce, ela recebe a caça e divide com ele até ele completar dois meses e ter condições para se alimentar sozinho”, conta Brener.

Mas nem sempre dá certo. Poluição e consanguinidade podem estar prejudicando o nascimento dos filhotes, e este é o assunto do estudo de Brener. As Harpias precisam de muito espaço para que os indivíduos se espalhem, senão pode haver cópula entre os da mesma família, o que sugere a má-formação dos fetos.

Seja como for, é com prazer que ouço relatos de estudos que possam concluir o motivo do problema, e mais ainda porque sei que na região da Reserva Natural Vale as Harpias têm campo de sobra para se reproduzirem livremente.

É mais do que tempo de se levar a sério a importância de se preservar a biodiversidade para o próprio bem da humanidade. Organização tradicional no tema, a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês) lista em seu site alguns dos benefícios da biodiversidade, como a regulação do clima, a resiliência ecológica, o apoio aos polinizadores (cruciais para nossa alimentação), e até os benefícios econômicos: segundo a organização, mais da metade do PIB global – cerca de 40 trilhões de libras – depende da natureza.

Não custa lembrar também que durante a COP15 – conferência do clima realizada em Paris, durante a qual se conseguiu o histórico Acordo de redução de emissões de carbono – os líderes assinaram um tratado para proteger 30% da vida terrestre e marinha até 2030.

Dia 22 de maio é o Dia Internacional da Biodiversidade Ecológica. É apenas uma efeméride, que como tantas outras serve para que se ponha holofotes sobre o tema. Concluo minhas reflexões com um dos benefícios listados pela IUCN em prol da proteção da biodiversidade: o bem-estar mental dos humanos. Acima de qualquer outro, este é um sentido que… faz todo o sentido. Alguém já se imaginou num mundo sem bichos e plantas?

A experiência de Brener Fabres dialoga com este propósito de se promover um escudo contra o extermínio de espécies em prol, inclusive, da nossa própria saúde mental. Enquanto falava comigo pelo telefone, do posto de observação na mata onde estava alojado, Brener interrompeu o raciocínio que estava costurando na conversa e, sussurrando, me disse: “Acabo de ver uma anta! Ela está a uns 15 metros de mim. Estou emocionado”.

Fiquei também, é claro, e comemorei, mesmo que à distância. Empolgado com a visão, Brener se estendeu e relatou um dos comportamentos que mais observa nas pessoas que leva a passear na Reserva:

“Observar a natureza dá uma outra perspectiva, tem tirado muita gente da depressão”.

*Viajei para a Reserva Natural Vale a convite do Instituto Cultural Vale, que realiza atualmente no Espírito Santo as exposições ‘O extraordinário universo de Leonardo Da Vinci” e “Memórias do Futuro”

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O bom uso da natureza

Fim de tarde, início de noite. No território urbano das grandes metrópoles, este é um momento tenso, pessoas buscando transporte na saída do trabalho. Cansaço, trânsito pesado, barulho, estresse.

Um recanto delicioso da Reserva, convite para a reflexão. Foto de Amelia Gonzalez

Nessa mesma hora, numa floresta, apesar da aparência de alguma quietude, a situação não é menos nervosa. Muitas espécies de animais começam a procurar alimento. Herbívoros e pássaros buscam sementes e plantas. Já os carnívoros causam alvoroço, como se pode imaginar. A tensão está no ar, com a corrida dos bichos para se defender e defender seus filhotes e ovos.

Uma trilha sonora quase aflita acompanha todo este movimento. Piados, uivos, berros, sons diversos que para os humanos, acostumados ao barulho de máquinas e sinais sonoros, podem soar como sinfonia, ora densa como as de Beethoven, ora suaves como um Vivaldi.

Na semana que passou, estive na Reserva Natural Vale, próxima ao município de Linhares, no Espírito Santo, e de lá trouxe essas sensações e as reflexões que compartilho com vocês aqui.  São 23 mil hectares de espaço preservado na Mata Atlântica. Junto ao Cerrado, a Mata Atlântica forma a dupla de biomas brasileiros mais povoados. A RNV foi idealizada nos anos 50 por Eliezer Batista, primeiro presidente da companhia que, à época, chamava-se Vale do Rio Doce. E desde 1978 é um espaço oficial de conservação e pesquisa científica.

Acima de tudo, é um lugar onde se respira natureza,  ar puro. No meu caso, que estudo e pesquiso as questões ecosocioambientais, é claro que um local assim preenche vários nichos de pensamento e oferece uma enorme bagagem de análise. Além de ser um oásis, perfeito para meditar, sobretudo no fim de tarde, como vocês puderam constatar.

A primeira grande questão que me vem à cabeça é prioritária e vem se encorpando a cada conferência mundial de meio ambiente, a cada encontro de ambientalistas, a cada conversa: como equilibrar a  proteção de áreas relevantes do ponto de vista ambiental com as necessidades das pessoas que gravitam no seu entorno? O que oferecer, sem impactar, sem tirar a voz dos pássaros, sem nublar o céu com fumaça, sem encher os rios de sujeira, sobretudo sem tirar árvores de maneira ignorante e fútil?

As perguntas se sucedem: como convencer pessoas que sobrevivem dos bens da floresta, que não desmatar é lucrativo?

Aprendi muito com o que já vem sendo feito na Reserva, e não é pouca coisa. Dois dias de caminhadas e conversas com alguns pesquisadores, a maioria jovens em que se vê no olhar o desejo de fazer dar certo, renderam dois caderninhos cheios de anotações. E algumas ideias, claro. Não sou de desperdiçar pensamento.

Preciso confessar: durante algum tempo, meus estudos, entrevistas, presença em palestras e conferências, levaram-me a não conseguir entender a conservação e o desenvolvimento como uma possibilidade. A palavra silvicultura me causava arrepios. Mas o tempo e as experiências foram mudando o leme da minha convicção.  E, hoje, já abro espaço para acolher os bons argumentos.

No passeio que fiz com dois jovens pesquisadores da Reserva aos talhões onde são conduzidos experimentos com árvores para fins não comerciais, outras expressões surgiram. Restauração inclusiva, resultado positivo, expertise a serviço das pesquisas, agrofloresta, incubadoras de conhecimento… e eu ali, absorvendo tudo. De repente, me vi com a mesma chama, acreditando que vai dar certo. A humanidade não pode perder.

E como a gente tende a fazer contato com o que mais nos afeta, dos muitos arboretos da Reserva aos quais fui apresentada, minha atenção se voltou para o arboreto urbanístico. São dez hectares, com quase 200 espécies de árvores que estão sendo estudadas com o objetivo de se descobrir quais delas mais se adaptam ao território urbano.

Já explico o motivo de meu interesse. Uma pesquisa da ONU divulgada no ano passado prevê que 68% da população mundial morarão em cidades até 2050. Mas, como se sabe, cidades podem ser bem desconfortáveis, sobretudo quando se tornam ilhas de calor por falta de árvores. Ocorre que muitas árvores são plantadas de forma equivocada, e suas raízes acabam estragando as calçadas, desligando fios, rompendo canos.

Dessa forma, o resultado da pesquisa  do arboreto urbanístico pode fornecer aos prefeitos interessados uma grande ajuda. Adorei a espécie Chuva de Ouro (foto), imaginei  uma avenida cheia delas. Fica a dica para as equipes municipais que lidam com arborização.

A tirar pela minha experiência ali, penso que a educação ambiental, por si só, é um ativo (para usar a linguagem corporativa) da Reserva que não pode ser desprezado. Acompanhei – de longe, para não atrapalhar – um grupo de jovens adolescentes de uma escola municipal no projeto Passarinhando nas Escolas. Guiados por biólogos e guias especializados, eles passaram boa parte do dia na Reserva, aprendendo a reconhecer aves e o papel que elas desempenham na conservação do meio ambiente.

Aqui vale dizer: em vez de terem os olhos grudados numa tela, que alegria ver aqueles jovens observando pássaros no céu!

Aliás, a passarinhada da Reserva é um capítulo à parte. Gente, é uma experiência única, subir numa torre de 25 metros de altura, com toda a segurança, e ficar ouvindo e vendo todas as espécies de aves que você jamais imaginou.  

Bem, aqui faço outra confissão: não sou muito simpática a viver nas alturas, meu negócio é chão. Assim mesmo, subi até quase o meio do caminho, acompanhada por Marcio, Brener, Roberta, Carla, meus parceiros de aventura. Para quem só conhecia pica-pau da história em quadrinhos, imaginem meu êxtase quando vi alguns tipos, cada um com um piado diferente. E Brener, jovem doutor em meio ambiente e pássaros, que tem na Reserva um campo de estudo, a nos elucidar com dados quase biográficos de cada espécie que piava.

Há muito mais para contar, mas por enquanto fico por aqui, para não cansar o leitor. Volto em outro post. Para não perder o hábito, peço ajuda a um autor e costuro assim meus pensamentos finais, entre teoria e prática.

Ignacy Sachs se autointitula um ecosocioambientalista. É polonês, morou no Brasil durante algum tempo, em que ajudou muito os órgãos ambientais a construírem projetos de desenvolvimento sustentável. Hoje ele está em Paris, já um senhor idoso, como professor emérito da Escola de Altos  Estudos em Ciências Sociais. Tem vários livros, mas o que eu mais gosto é “Terceira Margem” (Ed. Companhia das Letras), quase autobiográfico, em que ele conta sua participação  em todas as principais conferências da ONU sobre meio ambiente.

Sachs escreve, em 2007, sobre a “multiplicação de reservas naturais” e diz o que pode ser um caminho para esses espaços.

“Eu seria favorável à criação de ‘reservas de desenvolvimento’ em terrenos que já sobreviveram à ação do homem e precisam ser reabilitados por meio de projetos agroflorestais e de plantação de florestas para uso econômico”.

O objetivo, diz ele, é “manter de pé a floresta”, para que prevaleça o “bom uso da natureza, sem subtraí-la do desenvolvimento”.

É este o caminho. E a bioeconomia pode ser uma das soluções.

*Amelia Gonzalez viajou a convite do Instituto Cultural Vale, que realiza atualmente no Espírito Santo as exposições ‘O extraordinário universo de Leonardo Da Vinci” e “Memórias do Futuro’.

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Sobre o Churinga, nosso futuro e boas trocas no Museu do Amanhã

Aprendi com Edward Glaeser, especialista em economia das cidades, a rever minha antipatia pelo barulho e confusão das grandes metrópoles. Diz ele: “Acima de tudo, devemos nos libertar de nossa tendência de ver as cidades como sendo suas edificações e lembrar que a cidade real é constituída de gente e não de concreto”.

E gente, quando se junta por boas causas, quanta coisa boa produz.

Foi assim ontem pela manhã, quando peguei ônibus, metrô e VLT para desembarcar numa reunião do mais alto nível e de ótimas trocas. Cabeças pensantes, pessoas sensíveis, muita criatividade e conversa boa: eu estava na hora certa no lugar certo. Já me explico.

Fui ao Museu do Amanhã e participei de um encontro entre o gerente da Reserva Natural Vale, Marcio Santos Ferreira, e a equipe do Museu, tendo à frente o gerente de negócios do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), Daniel Bruch.  Fomos ciceronear uma visita de Marcio, que ainda carregava as malas da viagem Linhares (onde fica a Reserva)-Rio, ao Museu do Amanhã.

Sim, eu já visitei várias vezes o Museu. Mas tenho sempre a sensação de que cada vez é a primeira vez. Uma informação que eu nunca tinha ouvido, um pequeno e valioso objeto que lá sempre esteve e eu negligenciara em outras visitas.

Tem ainda as companhias, que sempre dão toques de riqueza diferentes às visitas. Aqui eu trago de novo a lucidez de Glaeser, que me faz entender que as cidades são ricas tanto mais pessoas abrigarem, já que os humanos, em parceria, tornam-se muito mais criativos.

Reavivei a lembrança do livro de Glaeser – “Os centros urbanos – A maior invenção da humanidade” (Ed. Campus, 2011) – justamente depois de “Nós”, o fim do percurso da Exposição Principal do Museu do Amanhã. Nosso pequeno grupo, ao som do burburinho feito por uma criançada esperta de uma das muitas escolas que visitam o Museu – desde a inauguração, 2015, até hoje, cerca de 700 mil pequenos uniformizados estiveram por lá – parou em frente ao Churinga.

Um simples pedaço de madeira magro e comprido, o Churinga é uma ferramenta utilizada pelos aborígenes australianos para associar o passado ao futuro. Ele representa a própria continuidade daquele povo e sua cultura. E está ali para suscitar reflexões sobre o futuro que queremos, já que “cada um de nós faz o seu Amanhã e, juntos, fazemos o nosso, o Amanhã que queremos”, diz o texto na peça que apresenta o Churinga aos visitantes. (Na foto abaixo, o Churinga e nosso futuro).

E é a única peça museológica existente no Museu do Amanhã, explicou-nos Bruch.

“Não somos um museu de contemplação, mas um museu que instiga perguntas”, disse ele.

E quantas perguntas somos capazes de formular a partir daquele pequeno pedaço de madeira.

Já dizia meu velho pai que não se dorme um dia sem ter aprendido algo novo. Ali estava eu, com as minhas caraminholas em polvorosa, refletindo e aprendendo muita coisa. Quando nos reunimos em torno de uma mesa, com água e café, foi o momento de ouvir ainda mais.

Para começar, sobre os conceitos diferenciados de museus. Marcio Ferreira representando um “museu de território”, a Reserva Natural Vale, 23 mil hectares de Mata Atlântica praticamente intactos em Linhares, no Espírito Santo; Daniel Bruch à frente de um “museu de ciências” que se autodenomina como “um ambiente de ideias, explorações e perguntas”.

Sem lugar à mesa, mas presente em nossas conversas, estavam os museus tradicionais, com objetos e obras de arte e pintura que nos levam a… contemplar.

Conversa vai, conversa vem, a folhas tantas Marcio Ferreira, desde sempre ligado às árvores e aos bichos que compõem nosso meio ambiente, olhando pela janela identificou, nos jardins do Museu, uma árvore Aroeira: “É a árvore que dá a pimenta rosa!”

E lá estávamos nós transportados para o Espírito Santo, já que a Aroeira é uma espécie muito presente no litoral capixaba. E tem sido bastante exportada para outros países.

A conversa fluía como fluem os pensamentos derivados de bons propósitos. E de pessoas ricas em ideias. Em pouco tempo, os dois museus, através de seus representantes, já estavam costurando formas de se conectarem. Tecnologia daqui, cuidados ambientais de lá, o bordado vai ficando ainda mais garboso porque há boas parcerias institucionais e elas são sempre bem-vindas. Alvíssaras!

Plenamente alimentados os pensamentos, a hora do almoço chegava e nos fazia querer nutrir também o corpo.

Fomos convidados a degustar uma refeição paraense da mais alta qualidade na Casa do Saulo, ali no espaço do Museu. Nossa conversa prosseguiu, animadamente cercada por iguarias como arroz com jambu, banana da terra assada, mapará grelhado, farofa de mandioca, humus de feijão… Ainda agora me vem água na boca ao lembrar dos sabores. Não pedi sobremesa porque já estava plenamente satisfeita, mas cá estou eu aqui a pensar no que perdi…

Hora de partir, para diminuir um pouco a minha pegada de carbono, que num dos dispositivos do Museu do Amanhã vi que está alta, peguei o excelente VLT, de novo o Metrô e de novo o táxi.

É um passeio imperdível, que aparentemente os criocas já estão dando o valor devido: só nesses quatro meses de 2023, 300 mil pessoas visitaram o Museu do Amanhã. Pretendo voltar mais e mais vezes, porque ainda me sobraram caraminholas…

Enquanto isto, vou ali a Linhares na semana que vem para conhecer a Reserva. Conto tudo na volta!

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Do banquinho para o mundo nas asas da imaginação

A tarde seguia como têm seguido as tardes neste mês de março. Abafada, seca, com uma névoa envolvendo o céu que já não tem aquele azul de janeiro e fevereiro. É março sendo março: quente, enevoado, sem chuva.

Tenho lidado com uma tosse resistente e seca que tem me perturbado as manhãs.  Restou-me sair de casa com meu cachorro para tentar capturar algum ar fresco que consiga furar o bloqueio da tal corrente que está segurando as frentes frias. Pensei em tomar um sorvete de chocolate na padaria, atitude corajosa e prosaica. Há tempos não oferecia este estupendo jorro de prazer ao meu corpo. Estaria ele sentindo falta?

Mal pus os pés na rua e ouço um vizinho me chamar. É a melhor rede social que existe. E não precisa de dispositivos exotéricos e viciantes.

Aqui, vale um parêntese: lembram-se quando, durante a pandemia, nós nos questionávamos sobre o que seria o novo normal depois do bicho resolver ir embora pelo caminho que tomou ao vir para nos perturbar? Pois então. O trabalho em casa é um novo normal, sim. As empresas decidiram que assim seria: uns dias em casa, outros dias no escritório. E apelidaram este sistema de ‘híbrido’, que na natureza explica o cruzamento de bichos de raças diferentes, um sistema naturalmente anômalo.

Fecha o parêntese. Expliquei isto para dizer a vocês que tanto eu quanto o meu vizinho somos pessoas de muitos afazeres, sim senhores. De manhã cedinho, às vezes já estou aqui no batente, batucando nessas teclas que uso para conversar com o mundo. Assim como, tarde em algumas noites é possível ouvir o baticum de meu computador. Também com o vizinho que me chamou isto acontece.

Estamos num novo normal, fizemos da casa nosso escritório, nossa redação. Por isto que, vez por outra, a gente tem tempo, aquele tempo perdido de bater um papo, jogar conversa dentro de um mundo tão pra fora.

Ricardo, meu vizinho, estava sentado num banco já meio surradinho e quebrado, que fica num pedaço de piso que não é asfalto. Portanto, pode se chamar de calçada. Se tivesse um olhar cuidadoso da administração pública, seria um canto mais afável.

Mas, do jeito que está, serviu para nos sentarmos e papearmos. O meio da tarde de um dia do meio da semana, num meio de mês quente, abafado e seco.

E nós ali. É claro que só podia dar em muxoxo e reclamação, pelo menos de minha parte.

Ai que estou ainda gripada! Ai que este calor não vai embora! Ai que a chuva não emplaca nesta cidade.

Daí para…ai que estamos em guerra! Ai que a política nacional vai de mal a pior… e os juros, meu Deus? Que não baixam! Como o Lula vai conseguir consertar este país?

Há momentos em que ser resmungona é tudo o que se quer. E que coisa boa achar um ombro amigo no meio da rua tranquila para ouvir nossos resmungos.

Mas tudo tem limite. E Ricardo, virando-se para mim, decidiu mudar o rumo da prosa.

“Ainda bem que temos a arte, a cultura. Tô lendo um livro lindo, “Imaginação – Reinventando a cultura”, da Marta Porto, editado pela Pólen. Conhece a Marta? Foi minha professora!”

Bendito seja a arte, a cultura, o ombro amigo, o livro maravilhoso que – vejam só! Eu também tenho! E autografado pela minha querida amiga Marta Porto.  Estava aqui na minha estante, mas agora está comigo, na cabeceira. É um oásis no meio disso tudo que estamos vivendo. Expulsou de mim o marasmo resmungatório, devolveu-me até um pouco de saúde. Compartilho com vocês. Mas adianto: vale ter na estante.

Marta Porto é uma crítica de cultura e foi minha fonte quando eu editava, no jornal O Globo, o caderno Razão Social. Lembro muito bem de uma entrevista que ela me deu, à qual dei o seguinte título: “Não existe meio ambiente sem gente”. Era uma forma de Marta fazer uma crítica aos movimentos ambientais de empresas que se esqueciam do necessário cuidado com as pessoas.

No livro de linda capa rosada desenhada pelo filho Artur Porto, e editado em 2019, Marta reuniu 14 ensaios sobre arte e imaginação.

Reparem que foi escrito antes da pandemia. E a pergunta que abre o primeiro ato é: “O que sobra da imaginação após a catástrofe?”

Marta já se contorcia de reflexões sobre o caminho que o mundo andava tomando, “entre o sismo e o soterramento”. E construiu o texto que nos encantou a modorrenta tarde pós-pandêmica, ali no banquinho  meio caído,  no que ela chamou de “fragmento de tempo desse hiato”, É neste hiato, nesta suspensão, “que se revelam quais significados ainda valem a pena ser vividos, reinventados, rompidos, transpostos”.

“A poesia e a literatura salvam”, profetizou Marta Porto, longe, muito longe, ela e eu, de imaginar, naquele longínquo 2019, que um dia seu livro iria salvar-nos, a mim e ao vizinho, de um afogamento de certezas distópicas. Escreve Marta Porto:

“Cápsulas de imaginação deveriam ser incentivadas  em todas as ações de arte, nas ciências, nas escolas, nos templos, onde houver qualquer dimensão que trate da subjetividade humana. Esta seria a avalanche das utopias, capaz de criar uma onda de novas ideias que, de forma livre e desmedida, invente um novo ciclo de desenvolvimento, não mais só tecnológico, mas de pensamentos e criações livres, em que natureza, harmonia, verdade e justiça estejam no centro das pesquisas e dos avanços de uma nova forma de fazer ciência. Aquela que salva os homens deles mesmos”.

Esta ideia – salvar o homem de si mesmo – não é mesmo deliciosa?

Temos mar, areia, pedra, vento quando dá, chuva quando dá, árvores quando aqui as plantam, terra… e o homem, só de pirraça, quer mesmo lançar uma bomba nisso tudo? É sério?

Mas sempre nos restará a arte, a música, o humor, a pintura, a escrita. Marta Porto vem nos lembrar este motivo. Viver é bom. Vamos aproveitar e espalhar bom humor por aí.

Quem sabe este humor bate lá nos que se chamam de líderes de nações? Quem sabe a gente consegue espalhar por aí o prazer pelos bons encontros?

** Este texto foi originalmente publicado no site da Casa Monte Alegre

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‘A planta da cidade’

Uma das delícias das feiras-livres é a profusão de cheiros, cores, sons. No caso da feira-livre que alimenta meu bairro, acrescente-se profusão também de produtos que são oferecidos às pessoas.

No início, quero dizer, há cerca de década e meia, quando eu comecei a frequentá-la, “minha feira” (sim, a gente passa a ter uma relação de posse quando se gosta muito de algo ou alguém…somos assim: humanos demasiadamente humanos), continuando… “minha feira” tinha poucas barracas. Todas elas ofereciam o que os mercados de  sempre oferecem: frutas, legumes e carnes de peixe, de frango ou porco.

Foto clicada por mim em 2018, pós uma tempestade, quando uma das árvores da Rua da Carioca foi ao chão. Felizmente não vitimou ninguém.

O tempo foi passando e as ofertas passaram a ser mais diversificadas. Alguns acreditam que a crise econômica empurrou pessoas a ocuparem o papel de mercadores. Fato é que, semana a semana, eu reparava uma barraca vendendo roupas, outra vendendo pães, outra vendendo objetos antigos. E, como o fenômeno foi crescendo, creio que está sendo bom para os novos comerciantes.

Foi assim que, semanas atrás, uma nova barraca preencheu um espaço ainda vazio. O homem é um vendedor de livros, produto que não tinha marcado presença no pedaço. E foi muito bem recebido, já que meu bairro tem pessoas que gostam de ler. Pelo menos, assim parece.

Parei um dia, folheei um pouco. Mas, ressabiada como somos os devoradores de livros, me desanimei com a presença de uma família ruidosa, que com garrafas de cerveja em mãos, pegavam livros aos montes, como se batatas fossem. E, depois, ofereceram um cartão de crédito que não passou. Afastei-me antes de se deslindar a questão bancária.

Semana seguinte, voltei. Como era mais cedo, o homem estava acabando de armar a exposição de livros. Tive tempo de me esbaldar. Ele é um ótimo curador,  oferece uma parte de livros usados, a preço de sebo, e outra de livros novos, a preço normal. Muito bons títulos.

Foi na parte de livros novos que encontrei “A planta do mundo”, de Stefano Mancuso, fundador da neurobiologia vegetal. Há tempos eu flerto com este autor, mas cobram um valor bem alto por seus livros, impeditivos para mim. Este, no entanto, publicado pela Editora Ubu, estava sendo vendido a um valor mais em conta. Não pestanejei, feliz por não ter que disputá-lo com um grupo de pessoas que já chegava, para alegria do vendedor e meu muxoxo. Assim é a vida.

Fiquei tão feliz com o conteúdo do livro, que decidi compartilhar com vocês e recomendar muito a leitura. É essencial para este momento que estamos vivendo. Essencial mesmo, sem exageros.

Falo de um momento em que estamos sentindo na pele, muitos infelizmente de forma bem trágica, os efeitos do aquecimento global nas cidades em que moramos. Mancuso, um apaixonado por plantas, que as trata de forma respeitosa, quase solene, em “A planta da cidade”, uma das oito crônicas do livro, faz o link necessário, urgente, mas que é muito difícil para a maioria. O link entre cidades, ilhas de calor e árvores.

A má notícia é que  não vem de agora esse descaso da humanidade com um fato tão explícito:

“Em última análise, as cidades, independentemente do tamanho, só podem se desenvolver porque, em algum outro lugar do planeta, existem recursos naturais que são explorados para alimentar o seu desenvolvimento”, escreve Mancuso.

O fato explícito ao qual me refiro é que para manter o funcionamento do ciclo de uma cidade, com suas veias de transporte, sua multidão, carros, edifícios enormes tapando o vento, a presença de plantas é essencial. Mas, como diz Mancuso, “basta olhar para as nossas cidades, do alto, para perceber que são espaços totalmente minerais, com edificações que ocupam até o último metro quadrado possível”.

E, desse jeito, as cidades vão se tornando causa e vítimas dos eventos extremos que têm origem no aquecimento global. Fenômeno este que muitos ainda se dão ao luxo de duvidar dele. É cansativo ouvir pessoas dizendo: “Ah, o Rio sempre foi quente, em 1965 eu senti um calor horroroso, em 1992, também… Não tem nada de diferente”.

Tem, sim. Os cientistas sabem disso, reúnem-se há tempos, no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) para, voluntariamente, traçar a linha vermelha de nossa espécie. O planeta está ficando mais quente e lotado desde a Revolução Industrial, quando começamos a emitir gases das máquinas criadas para nosso conforto.

“O fosso que existe entre a compreensão do fenômeno e da sua gravidade no seio da comunidade científica e a compreensão da maioria dos cidadãos é enorme”, sintetiza Mancuso.

Por outro lado, Mancuso traz a boa notícia: “Se as cidades são particularmente vulneráveis ao aquecimento global, a boa notícia é que isso acontece onde o aquecimento pode ser combatido com mais eficácia”, diz ele.

Como? “Nada impede que uma cidade fique totalmente coberta de plantas”. Por que os planejadores de cidades não fazem isto? Permanece um mistério, diz Mancuso.

Nem na antiguidade isto aconteceu. Se bem que, naquela época, ainda não se tinha a certeza de que árvores poderiam nos livrar do aquecimento. De qualquer modo, Mancuso traz o exemplo da pintura renascentista “A cidade ideal”, hoje exposta em Urbino, comuna italiana, onde não se via uma única árvore plantada.

Como não podia deixar de ser, Mancuso termina sua crônica sugerindo mudar nossa representação de cidade.

“A imagem da selva urbana não deve lembrar um lugar cheio de perigos, mas, ao contrário, uma parte do ambiente natural que, conscientemente e por meio das árvores, ajuda a transformar nossas cidades em um nicho ecológico duradouro”.

Fico pensando, só para terminar, que os homens e mulheres (mais homens do que mulheres, sempre), que decidem a urbanização, deveriam andar mais pelas ruas. Quando se tem uma rotina de pisar apenas em chão de carros, elevadores, helicópteros e salas de conferência ou escritórios, fica difícil entender a falta que fazem as árvores nas calçadas de uma cidade. Hoje pela manhã, passei por mais um triste tronco de uma belíssima espécie que foi cortada porque suas raízes estavam dilacerando a calçada onde estava plantada.

Especialmente deliciosa a sombra que aquela imensa árvore proporcionava aos pedestres. Passo por lá diariamente, e muitas vezes já me deixei ficar embaixo dela, a ouvir o barulho das maritacas.

Faz sentido?

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