O bom uso da natureza

Fim de tarde, início de noite. No território urbano das grandes metrópoles, este é um momento tenso, pessoas buscando transporte na saída do trabalho. Cansaço, trânsito pesado, barulho, estresse.

Um recanto delicioso da Reserva, convite para a reflexão. Foto de Amelia Gonzalez

Nessa mesma hora, numa floresta, apesar da aparência de alguma quietude, a situação não é menos nervosa. Muitas espécies de animais começam a procurar alimento. Herbívoros e pássaros buscam sementes e plantas. Já os carnívoros causam alvoroço, como se pode imaginar. A tensão está no ar, com a corrida dos bichos para se defender e defender seus filhotes e ovos.

Uma trilha sonora quase aflita acompanha todo este movimento. Piados, uivos, berros, sons diversos que para os humanos, acostumados ao barulho de máquinas e sinais sonoros, podem soar como sinfonia, ora densa como as de Beethoven, ora suaves como um Vivaldi.

Na semana que passou, estive na Reserva Natural Vale, próxima ao município de Linhares, no Espírito Santo, e de lá trouxe essas sensações e as reflexões que compartilho com vocês aqui.  São 23 mil hectares de espaço preservado na Mata Atlântica. Junto ao Cerrado, a Mata Atlântica forma a dupla de biomas brasileiros mais povoados. A RNV foi idealizada nos anos 50 por Eliezer Batista, primeiro presidente da companhia que, à época, chamava-se Vale do Rio Doce. E desde 1978 é um espaço oficial de conservação e pesquisa científica.

Acima de tudo, é um lugar onde se respira natureza,  ar puro. No meu caso, que estudo e pesquiso as questões ecosocioambientais, é claro que um local assim preenche vários nichos de pensamento e oferece uma enorme bagagem de análise. Além de ser um oásis, perfeito para meditar, sobretudo no fim de tarde, como vocês puderam constatar.

A primeira grande questão que me vem à cabeça é prioritária e vem se encorpando a cada conferência mundial de meio ambiente, a cada encontro de ambientalistas, a cada conversa: como equilibrar a  proteção de áreas relevantes do ponto de vista ambiental com as necessidades das pessoas que gravitam no seu entorno? O que oferecer, sem impactar, sem tirar a voz dos pássaros, sem nublar o céu com fumaça, sem encher os rios de sujeira, sobretudo sem tirar árvores de maneira ignorante e fútil?

As perguntas se sucedem: como convencer pessoas que sobrevivem dos bens da floresta, que não desmatar é lucrativo?

Aprendi muito com o que já vem sendo feito na Reserva, e não é pouca coisa. Dois dias de caminhadas e conversas com alguns pesquisadores, a maioria jovens em que se vê no olhar o desejo de fazer dar certo, renderam dois caderninhos cheios de anotações. E algumas ideias, claro. Não sou de desperdiçar pensamento.

Preciso confessar: durante algum tempo, meus estudos, entrevistas, presença em palestras e conferências, levaram-me a não conseguir entender a conservação e o desenvolvimento como uma possibilidade. A palavra silvicultura me causava arrepios. Mas o tempo e as experiências foram mudando o leme da minha convicção.  E, hoje, já abro espaço para acolher os bons argumentos.

No passeio que fiz com dois jovens pesquisadores da Reserva aos talhões onde são conduzidos experimentos com árvores para fins não comerciais, outras expressões surgiram. Restauração inclusiva, resultado positivo, expertise a serviço das pesquisas, agrofloresta, incubadoras de conhecimento… e eu ali, absorvendo tudo. De repente, me vi com a mesma chama, acreditando que vai dar certo. A humanidade não pode perder.

E como a gente tende a fazer contato com o que mais nos afeta, dos muitos arboretos da Reserva aos quais fui apresentada, minha atenção se voltou para o arboreto urbanístico. São dez hectares, com quase 200 espécies de árvores que estão sendo estudadas com o objetivo de se descobrir quais delas mais se adaptam ao território urbano.

Já explico o motivo de meu interesse. Uma pesquisa da ONU divulgada no ano passado prevê que 68% da população mundial morarão em cidades até 2050. Mas, como se sabe, cidades podem ser bem desconfortáveis, sobretudo quando se tornam ilhas de calor por falta de árvores. Ocorre que muitas árvores são plantadas de forma equivocada, e suas raízes acabam estragando as calçadas, desligando fios, rompendo canos.

Dessa forma, o resultado da pesquisa  do arboreto urbanístico pode fornecer aos prefeitos interessados uma grande ajuda. Adorei a espécie Chuva de Ouro (foto), imaginei  uma avenida cheia delas. Fica a dica para as equipes municipais que lidam com arborização.

A tirar pela minha experiência ali, penso que a educação ambiental, por si só, é um ativo (para usar a linguagem corporativa) da Reserva que não pode ser desprezado. Acompanhei – de longe, para não atrapalhar – um grupo de jovens adolescentes de uma escola municipal no projeto Passarinhando nas Escolas. Guiados por biólogos e guias especializados, eles passaram boa parte do dia na Reserva, aprendendo a reconhecer aves e o papel que elas desempenham na conservação do meio ambiente.

Aqui vale dizer: em vez de terem os olhos grudados numa tela, que alegria ver aqueles jovens observando pássaros no céu!

Aliás, a passarinhada da Reserva é um capítulo à parte. Gente, é uma experiência única, subir numa torre de 25 metros de altura, com toda a segurança, e ficar ouvindo e vendo todas as espécies de aves que você jamais imaginou.  

Bem, aqui faço outra confissão: não sou muito simpática a viver nas alturas, meu negócio é chão. Assim mesmo, subi até quase o meio do caminho, acompanhada por Marcio, Brener, Roberta, Carla, meus parceiros de aventura. Para quem só conhecia pica-pau da história em quadrinhos, imaginem meu êxtase quando vi alguns tipos, cada um com um piado diferente. E Brener, jovem doutor em meio ambiente e pássaros, que tem na Reserva um campo de estudo, a nos elucidar com dados quase biográficos de cada espécie que piava.

Há muito mais para contar, mas por enquanto fico por aqui, para não cansar o leitor. Volto em outro post. Para não perder o hábito, peço ajuda a um autor e costuro assim meus pensamentos finais, entre teoria e prática.

Ignacy Sachs se autointitula um ecosocioambientalista. É polonês, morou no Brasil durante algum tempo, em que ajudou muito os órgãos ambientais a construírem projetos de desenvolvimento sustentável. Hoje ele está em Paris, já um senhor idoso, como professor emérito da Escola de Altos  Estudos em Ciências Sociais. Tem vários livros, mas o que eu mais gosto é “Terceira Margem” (Ed. Companhia das Letras), quase autobiográfico, em que ele conta sua participação  em todas as principais conferências da ONU sobre meio ambiente.

Sachs escreve, em 2007, sobre a “multiplicação de reservas naturais” e diz o que pode ser um caminho para esses espaços.

“Eu seria favorável à criação de ‘reservas de desenvolvimento’ em terrenos que já sobreviveram à ação do homem e precisam ser reabilitados por meio de projetos agroflorestais e de plantação de florestas para uso econômico”.

O objetivo, diz ele, é “manter de pé a floresta”, para que prevaleça o “bom uso da natureza, sem subtraí-la do desenvolvimento”.

É este o caminho. E a bioeconomia pode ser uma das soluções.

*Amelia Gonzalez viajou a convite do Instituto Cultural Vale, que realiza atualmente no Espírito Santo as exposições ‘O extraordinário universo de Leonardo Da Vinci” e “Memórias do Futuro’.

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Sobre o Churinga, nosso futuro e boas trocas no Museu do Amanhã

Aprendi com Edward Glaeser, especialista em economia das cidades, a rever minha antipatia pelo barulho e confusão das grandes metrópoles. Diz ele: “Acima de tudo, devemos nos libertar de nossa tendência de ver as cidades como sendo suas edificações e lembrar que a cidade real é constituída de gente e não de concreto”.

E gente, quando se junta por boas causas, quanta coisa boa produz.

Foi assim ontem pela manhã, quando peguei ônibus, metrô e VLT para desembarcar numa reunião do mais alto nível e de ótimas trocas. Cabeças pensantes, pessoas sensíveis, muita criatividade e conversa boa: eu estava na hora certa no lugar certo. Já me explico.

Fui ao Museu do Amanhã e participei de um encontro entre o gerente da Reserva Natural Vale, Marcio Santos Ferreira, e a equipe do Museu, tendo à frente o gerente de negócios do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), Daniel Bruch.  Fomos ciceronear uma visita de Marcio, que ainda carregava as malas da viagem Linhares (onde fica a Reserva)-Rio, ao Museu do Amanhã.

Sim, eu já visitei várias vezes o Museu. Mas tenho sempre a sensação de que cada vez é a primeira vez. Uma informação que eu nunca tinha ouvido, um pequeno e valioso objeto que lá sempre esteve e eu negligenciara em outras visitas.

Tem ainda as companhias, que sempre dão toques de riqueza diferentes às visitas. Aqui eu trago de novo a lucidez de Glaeser, que me faz entender que as cidades são ricas tanto mais pessoas abrigarem, já que os humanos, em parceria, tornam-se muito mais criativos.

Reavivei a lembrança do livro de Glaeser – “Os centros urbanos – A maior invenção da humanidade” (Ed. Campus, 2011) – justamente depois de “Nós”, o fim do percurso da Exposição Principal do Museu do Amanhã. Nosso pequeno grupo, ao som do burburinho feito por uma criançada esperta de uma das muitas escolas que visitam o Museu – desde a inauguração, 2015, até hoje, cerca de 700 mil pequenos uniformizados estiveram por lá – parou em frente ao Churinga.

Um simples pedaço de madeira magro e comprido, o Churinga é uma ferramenta utilizada pelos aborígenes australianos para associar o passado ao futuro. Ele representa a própria continuidade daquele povo e sua cultura. E está ali para suscitar reflexões sobre o futuro que queremos, já que “cada um de nós faz o seu Amanhã e, juntos, fazemos o nosso, o Amanhã que queremos”, diz o texto na peça que apresenta o Churinga aos visitantes. (Na foto abaixo, o Churinga e nosso futuro).

E é a única peça museológica existente no Museu do Amanhã, explicou-nos Bruch.

“Não somos um museu de contemplação, mas um museu que instiga perguntas”, disse ele.

E quantas perguntas somos capazes de formular a partir daquele pequeno pedaço de madeira.

Já dizia meu velho pai que não se dorme um dia sem ter aprendido algo novo. Ali estava eu, com as minhas caraminholas em polvorosa, refletindo e aprendendo muita coisa. Quando nos reunimos em torno de uma mesa, com água e café, foi o momento de ouvir ainda mais.

Para começar, sobre os conceitos diferenciados de museus. Marcio Ferreira representando um “museu de território”, a Reserva Natural Vale, 23 mil hectares de Mata Atlântica praticamente intactos em Linhares, no Espírito Santo; Daniel Bruch à frente de um “museu de ciências” que se autodenomina como “um ambiente de ideias, explorações e perguntas”.

Sem lugar à mesa, mas presente em nossas conversas, estavam os museus tradicionais, com objetos e obras de arte e pintura que nos levam a… contemplar.

Conversa vai, conversa vem, a folhas tantas Marcio Ferreira, desde sempre ligado às árvores e aos bichos que compõem nosso meio ambiente, olhando pela janela identificou, nos jardins do Museu, uma árvore Aroeira: “É a árvore que dá a pimenta rosa!”

E lá estávamos nós transportados para o Espírito Santo, já que a Aroeira é uma espécie muito presente no litoral capixaba. E tem sido bastante exportada para outros países.

A conversa fluía como fluem os pensamentos derivados de bons propósitos. E de pessoas ricas em ideias. Em pouco tempo, os dois museus, através de seus representantes, já estavam costurando formas de se conectarem. Tecnologia daqui, cuidados ambientais de lá, o bordado vai ficando ainda mais garboso porque há boas parcerias institucionais e elas são sempre bem-vindas. Alvíssaras!

Plenamente alimentados os pensamentos, a hora do almoço chegava e nos fazia querer nutrir também o corpo.

Fomos convidados a degustar uma refeição paraense da mais alta qualidade na Casa do Saulo, ali no espaço do Museu. Nossa conversa prosseguiu, animadamente cercada por iguarias como arroz com jambu, banana da terra assada, mapará grelhado, farofa de mandioca, humus de feijão… Ainda agora me vem água na boca ao lembrar dos sabores. Não pedi sobremesa porque já estava plenamente satisfeita, mas cá estou eu aqui a pensar no que perdi…

Hora de partir, para diminuir um pouco a minha pegada de carbono, que num dos dispositivos do Museu do Amanhã vi que está alta, peguei o excelente VLT, de novo o Metrô e de novo o táxi.

É um passeio imperdível, que aparentemente os criocas já estão dando o valor devido: só nesses quatro meses de 2023, 300 mil pessoas visitaram o Museu do Amanhã. Pretendo voltar mais e mais vezes, porque ainda me sobraram caraminholas…

Enquanto isto, vou ali a Linhares na semana que vem para conhecer a Reserva. Conto tudo na volta!

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Do banquinho para o mundo nas asas da imaginação

A tarde seguia como têm seguido as tardes neste mês de março. Abafada, seca, com uma névoa envolvendo o céu que já não tem aquele azul de janeiro e fevereiro. É março sendo março: quente, enevoado, sem chuva.

Tenho lidado com uma tosse resistente e seca que tem me perturbado as manhãs.  Restou-me sair de casa com meu cachorro para tentar capturar algum ar fresco que consiga furar o bloqueio da tal corrente que está segurando as frentes frias. Pensei em tomar um sorvete de chocolate na padaria, atitude corajosa e prosaica. Há tempos não oferecia este estupendo jorro de prazer ao meu corpo. Estaria ele sentindo falta?

Mal pus os pés na rua e ouço um vizinho me chamar. É a melhor rede social que existe. E não precisa de dispositivos exotéricos e viciantes.

Aqui, vale um parêntese: lembram-se quando, durante a pandemia, nós nos questionávamos sobre o que seria o novo normal depois do bicho resolver ir embora pelo caminho que tomou ao vir para nos perturbar? Pois então. O trabalho em casa é um novo normal, sim. As empresas decidiram que assim seria: uns dias em casa, outros dias no escritório. E apelidaram este sistema de ‘híbrido’, que na natureza explica o cruzamento de bichos de raças diferentes, um sistema naturalmente anômalo.

Fecha o parêntese. Expliquei isto para dizer a vocês que tanto eu quanto o meu vizinho somos pessoas de muitos afazeres, sim senhores. De manhã cedinho, às vezes já estou aqui no batente, batucando nessas teclas que uso para conversar com o mundo. Assim como, tarde em algumas noites é possível ouvir o baticum de meu computador. Também com o vizinho que me chamou isto acontece.

Estamos num novo normal, fizemos da casa nosso escritório, nossa redação. Por isto que, vez por outra, a gente tem tempo, aquele tempo perdido de bater um papo, jogar conversa dentro de um mundo tão pra fora.

Ricardo, meu vizinho, estava sentado num banco já meio surradinho e quebrado, que fica num pedaço de piso que não é asfalto. Portanto, pode se chamar de calçada. Se tivesse um olhar cuidadoso da administração pública, seria um canto mais afável.

Mas, do jeito que está, serviu para nos sentarmos e papearmos. O meio da tarde de um dia do meio da semana, num meio de mês quente, abafado e seco.

E nós ali. É claro que só podia dar em muxoxo e reclamação, pelo menos de minha parte.

Ai que estou ainda gripada! Ai que este calor não vai embora! Ai que a chuva não emplaca nesta cidade.

Daí para…ai que estamos em guerra! Ai que a política nacional vai de mal a pior… e os juros, meu Deus? Que não baixam! Como o Lula vai conseguir consertar este país?

Há momentos em que ser resmungona é tudo o que se quer. E que coisa boa achar um ombro amigo no meio da rua tranquila para ouvir nossos resmungos.

Mas tudo tem limite. E Ricardo, virando-se para mim, decidiu mudar o rumo da prosa.

“Ainda bem que temos a arte, a cultura. Tô lendo um livro lindo, “Imaginação – Reinventando a cultura”, da Marta Porto, editado pela Pólen. Conhece a Marta? Foi minha professora!”

Bendito seja a arte, a cultura, o ombro amigo, o livro maravilhoso que – vejam só! Eu também tenho! E autografado pela minha querida amiga Marta Porto.  Estava aqui na minha estante, mas agora está comigo, na cabeceira. É um oásis no meio disso tudo que estamos vivendo. Expulsou de mim o marasmo resmungatório, devolveu-me até um pouco de saúde. Compartilho com vocês. Mas adianto: vale ter na estante.

Marta Porto é uma crítica de cultura e foi minha fonte quando eu editava, no jornal O Globo, o caderno Razão Social. Lembro muito bem de uma entrevista que ela me deu, à qual dei o seguinte título: “Não existe meio ambiente sem gente”. Era uma forma de Marta fazer uma crítica aos movimentos ambientais de empresas que se esqueciam do necessário cuidado com as pessoas.

No livro de linda capa rosada desenhada pelo filho Artur Porto, e editado em 2019, Marta reuniu 14 ensaios sobre arte e imaginação.

Reparem que foi escrito antes da pandemia. E a pergunta que abre o primeiro ato é: “O que sobra da imaginação após a catástrofe?”

Marta já se contorcia de reflexões sobre o caminho que o mundo andava tomando, “entre o sismo e o soterramento”. E construiu o texto que nos encantou a modorrenta tarde pós-pandêmica, ali no banquinho  meio caído,  no que ela chamou de “fragmento de tempo desse hiato”, É neste hiato, nesta suspensão, “que se revelam quais significados ainda valem a pena ser vividos, reinventados, rompidos, transpostos”.

“A poesia e a literatura salvam”, profetizou Marta Porto, longe, muito longe, ela e eu, de imaginar, naquele longínquo 2019, que um dia seu livro iria salvar-nos, a mim e ao vizinho, de um afogamento de certezas distópicas. Escreve Marta Porto:

“Cápsulas de imaginação deveriam ser incentivadas  em todas as ações de arte, nas ciências, nas escolas, nos templos, onde houver qualquer dimensão que trate da subjetividade humana. Esta seria a avalanche das utopias, capaz de criar uma onda de novas ideias que, de forma livre e desmedida, invente um novo ciclo de desenvolvimento, não mais só tecnológico, mas de pensamentos e criações livres, em que natureza, harmonia, verdade e justiça estejam no centro das pesquisas e dos avanços de uma nova forma de fazer ciência. Aquela que salva os homens deles mesmos”.

Esta ideia – salvar o homem de si mesmo – não é mesmo deliciosa?

Temos mar, areia, pedra, vento quando dá, chuva quando dá, árvores quando aqui as plantam, terra… e o homem, só de pirraça, quer mesmo lançar uma bomba nisso tudo? É sério?

Mas sempre nos restará a arte, a música, o humor, a pintura, a escrita. Marta Porto vem nos lembrar este motivo. Viver é bom. Vamos aproveitar e espalhar bom humor por aí.

Quem sabe este humor bate lá nos que se chamam de líderes de nações? Quem sabe a gente consegue espalhar por aí o prazer pelos bons encontros?

** Este texto foi originalmente publicado no site da Casa Monte Alegre

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‘A planta da cidade’

Uma das delícias das feiras-livres é a profusão de cheiros, cores, sons. No caso da feira-livre que alimenta meu bairro, acrescente-se profusão também de produtos que são oferecidos às pessoas.

No início, quero dizer, há cerca de década e meia, quando eu comecei a frequentá-la, “minha feira” (sim, a gente passa a ter uma relação de posse quando se gosta muito de algo ou alguém…somos assim: humanos demasiadamente humanos), continuando… “minha feira” tinha poucas barracas. Todas elas ofereciam o que os mercados de  sempre oferecem: frutas, legumes e carnes de peixe, de frango ou porco.

Foto clicada por mim em 2018, pós uma tempestade, quando uma das árvores da Rua da Carioca foi ao chão. Felizmente não vitimou ninguém.

O tempo foi passando e as ofertas passaram a ser mais diversificadas. Alguns acreditam que a crise econômica empurrou pessoas a ocuparem o papel de mercadores. Fato é que, semana a semana, eu reparava uma barraca vendendo roupas, outra vendendo pães, outra vendendo objetos antigos. E, como o fenômeno foi crescendo, creio que está sendo bom para os novos comerciantes.

Foi assim que, semanas atrás, uma nova barraca preencheu um espaço ainda vazio. O homem é um vendedor de livros, produto que não tinha marcado presença no pedaço. E foi muito bem recebido, já que meu bairro tem pessoas que gostam de ler. Pelo menos, assim parece.

Parei um dia, folheei um pouco. Mas, ressabiada como somos os devoradores de livros, me desanimei com a presença de uma família ruidosa, que com garrafas de cerveja em mãos, pegavam livros aos montes, como se batatas fossem. E, depois, ofereceram um cartão de crédito que não passou. Afastei-me antes de se deslindar a questão bancária.

Semana seguinte, voltei. Como era mais cedo, o homem estava acabando de armar a exposição de livros. Tive tempo de me esbaldar. Ele é um ótimo curador,  oferece uma parte de livros usados, a preço de sebo, e outra de livros novos, a preço normal. Muito bons títulos.

Foi na parte de livros novos que encontrei “A planta do mundo”, de Stefano Mancuso, fundador da neurobiologia vegetal. Há tempos eu flerto com este autor, mas cobram um valor bem alto por seus livros, impeditivos para mim. Este, no entanto, publicado pela Editora Ubu, estava sendo vendido a um valor mais em conta. Não pestanejei, feliz por não ter que disputá-lo com um grupo de pessoas que já chegava, para alegria do vendedor e meu muxoxo. Assim é a vida.

Fiquei tão feliz com o conteúdo do livro, que decidi compartilhar com vocês e recomendar muito a leitura. É essencial para este momento que estamos vivendo. Essencial mesmo, sem exageros.

Falo de um momento em que estamos sentindo na pele, muitos infelizmente de forma bem trágica, os efeitos do aquecimento global nas cidades em que moramos. Mancuso, um apaixonado por plantas, que as trata de forma respeitosa, quase solene, em “A planta da cidade”, uma das oito crônicas do livro, faz o link necessário, urgente, mas que é muito difícil para a maioria. O link entre cidades, ilhas de calor e árvores.

A má notícia é que  não vem de agora esse descaso da humanidade com um fato tão explícito:

“Em última análise, as cidades, independentemente do tamanho, só podem se desenvolver porque, em algum outro lugar do planeta, existem recursos naturais que são explorados para alimentar o seu desenvolvimento”, escreve Mancuso.

O fato explícito ao qual me refiro é que para manter o funcionamento do ciclo de uma cidade, com suas veias de transporte, sua multidão, carros, edifícios enormes tapando o vento, a presença de plantas é essencial. Mas, como diz Mancuso, “basta olhar para as nossas cidades, do alto, para perceber que são espaços totalmente minerais, com edificações que ocupam até o último metro quadrado possível”.

E, desse jeito, as cidades vão se tornando causa e vítimas dos eventos extremos que têm origem no aquecimento global. Fenômeno este que muitos ainda se dão ao luxo de duvidar dele. É cansativo ouvir pessoas dizendo: “Ah, o Rio sempre foi quente, em 1965 eu senti um calor horroroso, em 1992, também… Não tem nada de diferente”.

Tem, sim. Os cientistas sabem disso, reúnem-se há tempos, no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) para, voluntariamente, traçar a linha vermelha de nossa espécie. O planeta está ficando mais quente e lotado desde a Revolução Industrial, quando começamos a emitir gases das máquinas criadas para nosso conforto.

“O fosso que existe entre a compreensão do fenômeno e da sua gravidade no seio da comunidade científica e a compreensão da maioria dos cidadãos é enorme”, sintetiza Mancuso.

Por outro lado, Mancuso traz a boa notícia: “Se as cidades são particularmente vulneráveis ao aquecimento global, a boa notícia é que isso acontece onde o aquecimento pode ser combatido com mais eficácia”, diz ele.

Como? “Nada impede que uma cidade fique totalmente coberta de plantas”. Por que os planejadores de cidades não fazem isto? Permanece um mistério, diz Mancuso.

Nem na antiguidade isto aconteceu. Se bem que, naquela época, ainda não se tinha a certeza de que árvores poderiam nos livrar do aquecimento. De qualquer modo, Mancuso traz o exemplo da pintura renascentista “A cidade ideal”, hoje exposta em Urbino, comuna italiana, onde não se via uma única árvore plantada.

Como não podia deixar de ser, Mancuso termina sua crônica sugerindo mudar nossa representação de cidade.

“A imagem da selva urbana não deve lembrar um lugar cheio de perigos, mas, ao contrário, uma parte do ambiente natural que, conscientemente e por meio das árvores, ajuda a transformar nossas cidades em um nicho ecológico duradouro”.

Fico pensando, só para terminar, que os homens e mulheres (mais homens do que mulheres, sempre), que decidem a urbanização, deveriam andar mais pelas ruas. Quando se tem uma rotina de pisar apenas em chão de carros, elevadores, helicópteros e salas de conferência ou escritórios, fica difícil entender a falta que fazem as árvores nas calçadas de uma cidade. Hoje pela manhã, passei por mais um triste tronco de uma belíssima espécie que foi cortada porque suas raízes estavam dilacerando a calçada onde estava plantada.

Especialmente deliciosa a sombra que aquela imensa árvore proporcionava aos pedestres. Passo por lá diariamente, e muitas vezes já me deixei ficar embaixo dela, a ouvir o barulho das maritacas.

Faz sentido?

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História, arte e diversão a bordo do VLT na pré-folia do Centro

Uma cidade tão desafiadora como o Rio de Janeiro está sempre convidando seus moradores mais antenados a descobrirem novos caminhos. Na sexta-feira (10) pela manhã, com amigos, peguei um desses rumos que me possibilitou, senão conhecer, mas certamente perceber outros ângulos possíveis das cenas de sempre.

Turistamos pelo Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, que os cariocas, em respeito à sua fama de bem-humorados, batizaram com alguns apelidos. Os mais desanimados o chamam de “trem fantasma”, apelido que vem dos tempos primórdios, quando quase ninguém conhecia e utilizava o transporte. Aos poucos, outro apelido foi ganhando força: “trem da hora do almoço”, apontando sua pouca utilidade para a mobilidade urbana da cidade.

Mas isto é passado. O VLT hoje está sendo bem utilizado.

Para nosso conforto, organizamos o passeio de forma a evitarmos o horário de rush. Mesmo assim, houve ocasiões em que sobravam poucos lugares para sentar nos vagões. Funcionários gentis e bem treinados nos ajudaram a criar uma atmosfera leve, o que nos ajudou a atiçarmos a curiosidade que só se tem como visitantes em cidades estrangeiras.

O céu de verão nos embevecia, mesclando o azul de anil com o cinza das grossas nuvens que anunciavam a chuva do fim da tarde. Fazia um calorão típico de fevereiro. Mas, como o ar condicionado nos vagões é potente, o desconforto da temperatura elevada ficava do lado de fora, e acompanhávamos, dos janelões do trem, a paisagem ora ensolarada ora nublada.

 E é bom saber: a transferência entre linhas do sistema ou nova viagem no mesmo sentido em até uma hora são gratuitas, sempre com a validação do cartão de passagem no ato do embarque. E o cartão é pessoal e intransferível. Sendo assim, é possível fazer um passeio pelas ruas do Centro do Rio por apenas R$ 4,30.

Nossa viagem/passeio se tornou turística, cultural e histórica. Tudo começou quando prestamos atenção ao nome das estações. Praia Formosa, por exemplo. Alguém sabia que existia uma praia, no século XIX, ali onde hoje é a Rodoviária do Rio de Janeiro? A praia se foi, engolida pelo asfalto, pelo progresso, mas agora seu nome virou um dos “pontos finais” das linhas verde e azul do VLT. A linha amarela vai da Central à Candelária*.

Mal eu começava a divagar sobre o impacto do homem no ambiente ao redor, e lá estávamos nós a circular pelo outrora arrabalde aprazível e pitoresco chamado Gamboa. Hoje é um bairro da Zona Portuária, com casas antigas, calçadas estreitas, comércio de baixa renda.

 A volta pela Gamboa desperta reflexões sobre desigualdade social. Afinal, a parada seguinte é a do Morro da Providência: e ficamos pensando como terá sido o acordo entre as pessoas que ali moram e que, de um dia para o outro, passaram a ter um trem passando em sua porta de vinte em vinte minutos.

Como estávamos felizes e de bom astral, preferimos acreditar no melhor. Correu tudo bem, foram todos indenizados, e vida que segue.

Próxima parada: Harmonia. Uma praça tão linda e bucólica, com direito a coreto e tudo! Do outro lado, o Moinho Fluminense, primeira fábrica brasileira de moagem de trigo, construído no século XIX por ordem da Princesa Isabel. E está ali hoje, mostrando-se inteiro, imponente, aos nossos olhares curiosos. Dizem que vai se transformar num espaço multiuso, se der certo o plano de revitalização do Centro do Rio. Oxalá!

De carro, ou mesmo de ônibus, seria difícil fazermos tanto contato com tanta história da cidade. Qual turistas, fomos nos deliciando e esticando a conversa, os pensamentos. Criamos até um conceito: viramos jacobianos!

Jane Jacobs é uma escritora e ativista política norte-americana que escreveu “Morte e vida nas grandes cidades” (Ed. Martins Fontes), no qual faz críticas à política de ocupação dos espaços publicos nos Estados Unidos, década de 50. É um livro que não deve faltar na estante de quem gosta do tema.

Jacobs aposta na diversidade das cidades, o que ela considera a maior riqueza. E é justamente a diversidade o que mais se observa das janelas do trem supermoderno. Gosto, em especial, desse trecho do livro de Jacobs:

“A presença de pessoas atrai outras pessoas, e isto é uma coisa que os planejadores e projetistas têm dificuldade em comprender. Eles partem do princípio de que os habitantes das cidades preferem contemplar o vazio, a ordem e o sossego palpáveis”.

No exato instante em que nos dávamos conta da pluralidade que encanta as cidades, lembramo-nos de Le Corbusier, arquiteto e urbanista suíco, que encabeçou a Carta de Atenas (Ed. USP). A Carta foi escrita por um grupo de arquitetos e urbanistas chamado para reedificar cidades depois das guerras. Enquanto Jacobs se ocupa com pessoas, os arquitetos focaram na arquitetura, nas construções,  como responsável pelo bem-estar e pela beleza das cidades. “Cada indivíduo deve ter acesso às alegrias fundamentais: o bem-estar do lar, a beleza da cidade”, dizem eles.

Naquele momento do passeio, já plenos de boas reflexões, decidimos nos entregar ao prazer da boa comida. Paramos o passeio ali na estação Marechal Floriano, atravessamos o trilho e fomos comer o omelete mais antigo da cidade na centenária Casa Paladino, clássico da boa e velha gastronomia de boteco do Rio.

Custódio Coimbra, fotógrafo de primeira e amigo, foi clicando durante todo o caminho. E ofereceu-me, gentilmente, algumas fotos que compartilho aqui com vocês. Fica a dica: vale a pena o passeio.

* Todos os trajetos estão no site da empresa e em cada estação. Vale lembrar que em cada estação existem máquinas onde é possível carregar o cartão que dá acesso ao trem.

  • Este texto foi publicado originalmente no site da Casa Monte Alegre
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Sejamos sustentabilistas!!

Como um disco arranhado, a palavra sustentabilista ficou rondando meus pensamentos desde o discurso da ministra do meio ambiente Marina Silva, na quinta-feira, dia 5. Com a permissão que o cargo e a vivência como ambientalista lhe conferem, Marina criou o neologismo. E eu adotei. E passei a cantar, como Caetano Veloso em “Língua”… “Sejamos sustentabilistas, cadê?”.

SAO PAULO, BRAZIL – OCTOBER 5: Brazilian candidate for President Marina Silva speaks during a press conference at the Brazilian Socialist Party on October 5, 2014 in Sao Paulo, Brazil. Marina Silva had 21% of the votes and will not move to the second round against the current President of the Republic, Dilma Rousseff and Aecio Neves. (Photos by Victor Moriyama/Getty Images)

Os tempos estão para musicar, esperançar, criar neologismos e sair cantando. Com os pés no chão. (Escrevi este texto antes dos atos terroristas de domingo. Hoje não ando com vontade de cantar, mas a solidez das instituições estão me acalmando).

Fiquei pensando em como traduzir sustentabilista aqui para os meus leitores. Felizmente não cedi à tentação de decifrar o termo em “hábitos  sustentáveis” , tipo usar menos o carro, tomar banhos menos longos, comer menos a carne vermelha, dispensar as sacolas plásticas. Até porque, cada uma dessas práticas tem pouco peso se considerarmos os impactos causados pelos processos industriais.

Parêntese: sempre que vou ao supermercado com minha bolsa retornável e vejo, nas gôndolas, a quantidade de plástico usada nas embalagens, penso sobre quem está lucrando, verdadeiramente, com minha mudança de hábito. Será mesmo o meio ambiente?

Portanto, ser sustentabilista é um conceito amplo. E vou preferir ampliar o pensamento e incluir, na nossa fictícia mesa de debates, quem tem o poder de provocar mudanças.

“A sustentabilidade não é uma maneira só de fazer, é uma maneira de ser, uma visão de mundo, um ideal de vida. Esses novos ideais identificatórios estão tomando conta do mundo. Os nossos filhos, os nossos netos já nascerão sustentabilistas. Uns serão conservadores, progressstas, capitalistas, socialistas. Mas todos serão sustentabilistas”, garantiu a ministra Marina em seu discurso.

Corroborando este chamamento geral, Marina Silva usou outra palavra várias vezes: transversalidade. As questões ambientais e as mudanças climáticas passarão a ser debatidas em todos os projetos governamentais no momento que eles estiverem sendo pensados, não depois, garantiu. Que assim seja, porque só dessa forma estaremos levando a sério uma questão que impacta pessoas, bichos e plantas.  Todos os seres vivos do planeta.

 Livrando-me, portanto, do lugar comum que põe sobre os cidadãos a arte de “viver de maneira sustentável”, ouso afunilar um pouco mais a compreensão do conceito. Vamos decifrar sustentabilista sob a ótica daqueles têm sob sua batuta a decisão de usar fontes de energia. Afinal, é  este um dos nossos maiores desafios.

E o problema das fontes energéticas terá que ser enfrentado por um governo que se sensibiliza pela causa, como deixou claro o presidente Lula em seu discurso feito logo depois de eleito, na COP27, no Egito. Precisamos de fontes de “energia limpa”, ou seja, sem carbono, cujo acúmulo na atmosfera é o principal responsável pelas mudanças climáticas. Mas, o que é, verdadeiramente, energia limpa?

Em 2015, quando escrevia a  “Nova Ética Social”, coluna que mantinha no portal G1,  estive na Alemanha, a convite do consulado daquele país. A ideia foi mostrar a jornalistas estrangeiros o esforço que a Alemanha estava fazendo para ficarem livres do carvão, uma fonte de energia das mais sujas. Foram cinco dias intensos. Ouvi várias palestras de estudiosos do tema. Fizemos mesa redonda com ambientalistas. E me lembro muito nitidamente de um momento em que cutuquei o colega ao lado, um holandês, para perguntar-lhe se eles estavam considerando mesmo as hidrelétricas como energia limpa ou se eu estava entendo mal o inglês do palestrante.

Eu não estava entendendo mal. Fiquei calada, talvez por inibição, mas tive vontade de perguntar:

“Energia limpa para quem? Vocês têm ideia do impacto que a construção de uma hidrelétrica causa na vida das pessoas que moram às margens dos rios? Do impacto que causa aos peixes do rio que precisa ser represado?”

Sejamos sustentabilistas! E vamos encarar de frente essa tremenda encrenca. Não há fontes de energia totalmente limpas de impactos. Mesmo os paineis solares precisam de silício (mineração). A instalação dos parques eólicos também causam impacto não só à fauna e flora como a habitantes (por causa do barulho) e precisa, por isso, de um planejamento. A questão, então, é diversificar as fontes de energia para não sobrecarregar um único ecossistema.

Para isto, é preciso compor com várias forças. A agenda ambiental e climática exige uma equação complexa, não tem apenas uma, mas várias soluções, por isso precisa de muita gente trabalhando junto. E Marina Silva sabe disso:

“A política nacional do Ministério de Meio Ambiente é feita e sustentada graças à participação de toda a sociedade brasileira, de todos os segmentos da nossa sociedade. É impossivel cuidar da maior floresta tropical brasileira, que contém 25% da biodiversidade e 11% da água doce disponíveis no mundo, de cuidarmos de toda a nossa sociobiodiversidade sem a pariticação da sociedade”, disse ela.

Neste sentido, a ministra Marina estará muito bem acompanhada. Pela primeira vez, a república do Brasil dará voz e assento aos indígenas. Com Sonia Guajajara como ministra dos Povos Indígenas, cada projeto ambiental terá que ser, efetivamente, bom para todos. E isto não será fácil.

No caminho do progresso/desenvolvimento, há pedras, terras, peixes, animais, árvores. E é preciso lidar com isso. Marina Silva afirmou, em seu discurso, que o Ministério do Meio Ambiente “não será um entrave às justas expectativas de desenvolvimento econômico e social de nossa população”. A proposta é facilitar, “sem prejuízo da necessária  proteção de nossos recursos naturais”.

Em 2010, no seu segundo mandato, o presidente Lula fez uma declaração que gerou muito mal estar entre os ambientalistas, quando inaugurou as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. Ele rebateu a preocupação sobre  o impacto das obras nos bagres, peixes típicos da região. Defendeu a criação dos bagres em cativeiro e afirmou o que ninguém pode negar: “É preciso ter energia para ter desenvolvimento”.

Eis nosso maior desafio.

As barragens Santo Antônio e Jirau são apontadas também como duas manchas da primeira gestão de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente (2003-2008). Estive em Roraima  em 2011, fazendo reportagem para o caderno “Razão Social” (O Globo) sobre a vida dos reassentados das duas barragens, e quase todos estavam bastante insatisfeitos.

 A questão, portanto, não era somente ambiental, de preocupação com a extinção dos bagres. Segundo informação que obtive à época, do coordenador dos processos de reassentamentos da Santo Antônio Energia, foram deslocados 1.736 pessoas que moravam à beira do Madeira, viviam de vender os peixes que pescavam artesanalmente ou de roçar seus sítios.

Dona Emilia Mendes, 84 anos, uma das pessoas com quem conversei para fazer a reportagem, seria uma reassentada não fosse o fato de ter se recusado a sair da casa onde morava desde que se casara. A senhora tinha por hábito, diariamente, tomar um café ao amanhecer olhando para a árvore que ficava em frente ao seu quintal. E não houve promessa de um futuro melhor que a fizesse arredar o pé. Tiveram que dar um jeito, mas Emilia não saiu de sua casa.

Em dez anos, a agenda ambiental e climática tem se fortalecido, o que nos leva a acreditar que o novo governo Lula, com Marina à frente do Meio Ambiente, terá mais ferramentas para lidar com os desafios impostos.  Criado em 1988, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) já publicou cinco grandes Relatórios de Avaliação que geraram subsídios para políticas públicas.

 Em 2007, o quarto relatório foi contundente: “A maior parte do aquecimento global observado desde meados do século XX é conseqüência de aumento na concentração de gases de efeito estufa associadas a atividades humanas”.

No ano passado, o sexto relatório do IPCC acrescentou: estamos emitindo mais carbono a cada ano. Mas os países pobres são os que menos emitem e são os mais vulneráveis aos eventos extremos.

A desigualdade social, portanto, também está na lista de problemas que deve receber atenção especial de quem se preocupa com o meio ambiente. Por isso está certíssima a ministra ao falar em transversalidade.

Não é mágica, disse Marina Silva. É trabalho. E uma nova visão do mundo que segue uma ética de respeito a todos os seres vivos do planeta.

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Pelo bem de nossos bichos domésticos

Entre tantas boas notícias sobre o funcionamento do novo governo empossado no primeiro dia deste ano, o discurso da ministra do Meio Ambiente Marina Silva lançou um jorro de ânimo a quem entende que mudanças climáticas são, cada vez mais, um tema importante para a nossa civilização. Num próximo post detalharei mais. Por hoje, preciso alçar como top 10 a inauguração do Departamento de Proteção e Defesa dos Direitos dos Animais. Alvíssaras!

Segundo um post do deputado Carlos Minc, a criação do Departamento, confirmada no Decreto 11.349 publicado no DO União do dia 3 de janeiro, foi uma “significativa vitória da causa animal”. E foi mesmo. Mas, já que estamos falando de um governo de participação social, sinto-me no direito – talvez até fosse melhor falar em dever – de dar aqui algumas sugestões.

Marina Silva também anunciou, em seu discurso, a Secretaria de Gestão Ambiental Urbana. Pegando esse gancho, quero sugerir que a pessoa que vai tomar conta dessa pasta tenha um olhar muito especial voltado a um problema recorrente nas grandes cidades: o abandono de animais domésticos.

Como gosto de cachorros e gatos, estou ligada a uma rede de pessoas que se prontificam a dar abrigo, alimento e a cuidar das feridas, externas ou não, dos animais que são abandonados por seus donos.

Vou contar apenas uma de muitas dessas histórias que conheço. Esta tem final feliz. Snow, esse fofo aí da foto, foi encontrado há cerca de três meses,  pele e osso, quase sem conseguir andar, todo enroscado num cantinho de uma rua do bairro onde moro. A impressão que teve quem o viu pela primeira vez foi que o bicho tinha vagado pelas ruas durante muito tempo, até não poder mais. Deitou-se ali para morrer.

Mas o que ele não sabia é que estava para terminar seu tempo de azar. Snow – nome que lhe foi dado –  estava no caminho de um pessoal que tem e gosta muito de cachorros. Logo alguém o levou para casa e as redes sociais funcionaram. Em pouco tempo ele ganhou ração, cama, tomou um banho, foi levado ao veterinário. Descobriu-se até a origem de Snow: morava na comunidade Dona Marta e a dona dele morreu. Os parentes, sem condições de mantê-lo, o enxotaram de casa.

Não demorou muito para que Snow ganhasse o mais importante: uma casa bonita para morar. Como é em outro estado, ele precisou ficar num lar temporário, por uns dias, até a viagem.  Na casa  nova, ganhou um gramado e alguns companheiros de quatro patas.

Snow tem cinomose, uma doença incurável mas que pode ser controlada. E é surdo. Mas, segundo a tutora, agora está até aprendendo a latir, imitando as cadelas que são suas parceiras. Engordou, está feliz, e vai viver dignamente o tempo que lhe resta.

A foto acima mostra quando ele foi encontrado. A foto agora é de Snow agora, já em sua casa.

Não vem ao caso julgar quem abandona um bicho. Mas, como sugestão primeira à equipe do novo ministério que pretende cuidar também de nosso ambiente urbano, é preciso fazer uma campanha de comunicação efetiva, explicando às pessoas por que não se deve abandonar um bichinho ao relento. Já existem campanhas em algumas escolas públicas, mas minha ideia é ampliar. Outdoors, redes sociais, televisão, rádio, blogs, sites. 

Pode parecer inútil, mas não é. Muita gente ainda tem uma relação “coisificada” com os bichos que adota. É como se eles fossem objetos que podem ser descartados a qualquer momento, sem que isto cause danos. Se morrer, morreu.

Depois de algum tempo de campanha, pode-se até pensar em algum tipo de punição para quem abandonar um bicho. Talvez isto possa refrear gestos insanos, como de pais que cedem à birra de filhos e compram cães ou gatos de “presente” para a criança, que na maioria das vezes tem apenas uma atração instantânea, sem noção dos cuidados que o bicho exige.

 No primeiro momento em que os pais percebem que os bichinhos fazem xixi, cocô, arranham,  mordem e precisam de cuidados,  decidem largá-los em alguma rua para que outro os peguem. Sim, é irresponsável e cruel, mas tem gente que faz isso, e até põe, do lado do bicho amarrado a um poste, uma cumbuca com água e ração.

Mas tem outros motivos de abandono, alguns que realmente deixam a gente com nó na garganta. E que, justamente por evidenciar uma privação dos donos do animal – doença, falta de recursos – precisam que o estado intervenha e ajude.

Neste sentido, a outra sugestão é fazer um cadastro e obrigar todos os donos de pets a terem uma carteirinha para eles. Talvez seja uma forma de desestimular um pouco a aquisição impensada de animais. Muitas ONGs de bichos criam arquivos na hora de doar. Isso poderia se estender a pessoas que vendem, sejam lojas ou particulares.

Espalhar clínicas gratuitas também seria outra ótima opção, já que o mercado de pets está ficando cada vez mais caro.Muita gente não leva o bicho para exames anuais porque não sobra dinheiro no orçamento.  A criação de vários bancos de rações, como já existem em algumas prefeituras, é outra política pública que deve ser ampliada.

 Na verdade, essa função de cuidar dos pets é do âmbito municipal, mas precisaria ser supervisionada com lupa por essa Secretaria que está sendo criada pela nova ministra.

Estava fechando meu pensamento quando me lembrei de outra figura muito comum nas grandes cidades: os cães de pessoas em situação de rua. São muito fieis aos donos e, de verdade, imprescindíveis para dar à pessoa  o mínimo de sensação de segurança. Portanto, neles não se mexe.

Mas, como sabemos que o presidente Lula tem como propósito principal em seu governo o cuidado das pessoas carentes, estou imaginando uma situação em que teremos poucos, quase nenhum, até mesmo ninguém vivendo em situação tão ruim.

Pessoas terão teto, comida, conforto. Cães, idem.

O filósofo alemão Friedrick Nietzsche dizia que “Nada é tão nosso como nossos sonhos”. Por isso ele incentivava todos em sua volta a sonhar. E sonhar bem alto.

Estou de mãos dadas com Nietzsche neste momento. Voando alto em meus sonhos sobre um Brasil mais justo, respeitoso aos bichos e plantas, e com uma proteção organizada do estado.

  • Este texto foi originalmente publicado no site da Casa Monte Alegre, de Santa Tereza
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Dez anos do Ser Sustentável

O apartamento onde eu morava tinha uma varanda enorme, ótimo espaço para os meus três cães.

Fred, Maria e Bidu, meus Shih tzus, vieram à porta para me receber naquele 31 de dezembro de 2012. Já eram quase nove da noite e eu tinha fechado meu último plantão na primeira página do jornal “O Globo”. Terminara assim um período profissional longo, frutífero, intenso, que durou 26 anos.

Peguei uma garrafa de champanhe que tinha deixado no gelo antes de seguir para o trabalho, fui para a varanda, sentei-me na rede. E chorei um tanto. Não eram lágrimas de tristeza exatamente, nem de surpresa, já que eu tinha acordado a saída anteriormente.  Eram lágrimas de susto, de apreensão. Hora de recomeçar, o que viria?

O dia seguinte, uma terça-feira, tirei para descansar e refletir. Foi quando eu escrevi o primeiro dos muitos textos que compõem o blog Ser Sustentável, que está fazendo dez anos de existência.

Como devem saber os internautas, para a mídia digital, dez anos é muito mais do que uma década. É quase um século. Muitas inovações. Quando criei o Ser Sustentável, em grande parte para não perder meu capital social,  ainda não eram  tantos os blogueiros, e os grandes sites de jornais estavam também começando a acertar seus espaços digitais.

Aqui vale um parêntese para as pessoas que não me conhecem: nos últimos nove anos de Globo eu editei o caderno Razão Social. A foto que ilustra este texto é da primeira equipe do caderno: da esquerda para a direita estão o designer gráfico Luis Carlos Rocha, o Maraca; o fotógrafo Carlos Ivan, eu e os repórteres Aydano André Motta e Paula Autran.  Foi o primeiro veículo, circulando em grande jornal, que dedicava todo o espaço para o debate sobre responsabilidade social corporativa. O ano era 2003, e era assim que chamávamos o que hoje denominam ESG (Environmental, Social & Governance). O Razão Social passou a não caber no Globo, foi substituído. Minha carreira no jornal também findava ali.

Reler o primeiro texto do meu blog foi bem interessante. Sob o título “A sustentabilidade é um mito?”, eu me detive, como sempre faço, em compartilhar reflexões que adquiro com base em leituras, entrevistas, reportagens. É um texto longo, como têm sido os demais. Não consigo me encarcerar no formato 140 caracteres porque tenho um enorme respeito pelos meus leitores. Creio que quem visita o blog vem em busca de análise, não só de informação. É o que eu tento fornecer, usando como escopo os anos de estudo sobre o tema.

 Quando saí do Globo não havia a enxurrada de cursos de extensão que existe hoje. O tema estava começando a ser estudado. Usei, portanto, a prática jornalística para me capacitar. Fui a todas as conferências, encontros, fóruns, mesas redondas, reuniões e palestras que surgiram.  Entre outras coisas, ser jornalista é ter curiosidade e estudo para fazer perguntas e escolher a pessoa certa a quem perguntar.

Este texto é apenas para compartilhar com vocês, meus leitores cativos, a alegria que sinto hoje, dez anos depois de ter criado o blog, vinte anos depois de ter ajudado a criar o Razão Social. No meio do caminho, de 2013 a 2022, fui também colunista do G1. Trazendo sempre o mesmo tema como reflexões, nunca verdades.

Estamos vivendo novos tempos no Brasil. Saem de cena a ignorância, o desrespeito às pessoas, aos animais, ao meio ambiente, a falta de apoio aos mais pobres e entra o estilo de um presidente que vinte anos atrás, exatamente quando nascia o Razão Social, transformou o Brasil num país mais digno. Com falhas, mas em curso.

Que os novos tempos sejam prósperos, que o presidente Lula, depois de se desvencilhar da tranqueira deixada pelo antecessor, consiga trilhar o curso que estava trilhando lá atrás. Que o meio ambiente seja visto não como “nosso entorno”, mas como a casa de todos, com bens comuns.

Por fim, que não nos falte trabalho.

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Na trincheira do combate às violações de direitos humanos

A notícia chegou via Oxfam, a ONG especializada em estudos sobre a desigualdade. E merece um registro:

“A campanha mundial para que supermercados exijam dos seus fornecedores o respeito aos direitos humanos de trabalhadores da agricultura chegou a uma nova etapa no país. A petição criada pela Oxfam Brasil, que pede aos supermercados esse compromisso, foi entregue no dia 15 de dezembro com mais de 130 mil assinaturas. O documento foi direcionado aos maiores grupos de supermercados com atuação nacional: Carrefour e Pão de Açúcar. No mundo todo, supermercados tem se tornado aliados no combate às desigualdades e violações de direitos humanos envolvendo trabalhadores da agricultura”.

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O que há para comemorar no mês de aniversário da Declaração dos Direitos Humanos

Paris estava especialmente fria naquele dezembro de 1948. O outono já se despedia para dar passagem ao inverno, que deixaria as charmosas avenidas parisienses cobertas de neve. Foi neste clima que aconteceu a Assembleia Geral das Nações Unidas, três anos depois do fim da II Guerra. Os 193 países-membros da ONU elaboraram o texto que se tornou o mais traduzido do mundo e inspirou as constituições de muitos Estados e democracias recentes. É um documento marco na história dos direitos humanos.

A assinatura aconteceu no dia 10 de dezembro. Portanto, daqui a cinco dias comemora-se 74 anos. Não é uma data redonda, não teremos manifestações ruidosas. Aqui e ali surgirão alguns eventos, como no caso do Sesc de São Paulo, que vai realizar, ao longo deste mês, uma programação pautada na efeméride, com shows, espetáculos, rodas de conversa, oficinas, filmes e demais ações socioeducativas (a maior parte, gratuitas).

Será bom ter rodas de conversa. E será bom que nas rodas de conversa fique bem claro que a humanidade não tem muito que comemorar neste sentido.

Vivemos uma crise civilizatória, em que aos horrores de uma pandemia juntaram-se os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas. E tudo isso, como sempre, afetou muito mais as pessoas vulneráveis socialmente. A desigualdade social, outro imenso mal, está ainda mais escancarada: a fome atinge 819 milhões de pessoas (dados do Relógio Mundial da Fome).

A migração forçada por violência e crise climática não nos deixa de horrorizar com as cenas dramáticas de pessoas que se lançam aos mares para tentar fugir de seu território. Se, para quem tem moradia e sustento, os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas representam transtornos urbanos representativos, para quem não tem uma coisa ou outra, pode representar a morte. Ou, na maioria dos casos, inviabiliza a vida onde mora.

Um retrato trágico dessa classe de pessoas é Dadaab, conhecido como o maior campo de refugiados do mundo, na fronteira entre o Quênia e a Somália, que tem cerca de 500 mil pessoas. O jornalista Jamil Chade esteve lá em 2011 e conta, em seu livro “10 histórias para tentar entender um mundo caótico” (Ed. Sextante) a situação daquelas pessoas:

“Dadaab é uma prisão a céu aberto e seus moradores cumprem uma pena perpétua. Os refugiados não podem se mover livremente, faltam comida, água e segurança. Quase  ninguém tem trabalho e não existe a perspectiva de um dia sair do acampamento. Expulsos do seu país pela fome e a violência, os refugiados descobrem que também não são bem-vindos no Quênia, que os coloca nesse local, e nenhum outro governo no mundo está disposto a realocá-los”, escreve Chade.

Uma pesquisa na internet para saber a situação atual de Dadaab nos dá poucas informações. O complexo, que tem cinco campos, já pode ser considerado a cidade mais miserável do mundo. Há uma crise de suicídios, já que não são apresentadas perspectivas aos jovens que chegam a Dadaab. A ONU está presente, assim como ONGs internacionais, fazendo o que podem fazer. Mas, de verdade mesmo, o que aquelas pessoas precisam é de sentido na vida.

Segundo a agência da ONU para refugiados, a Acnur, o número de pessoas forçadas a deixar suas casas tem crescido ano após ano durante a última década e se encontra no nível mais alto desde que começou a ser registrado. A guerra na Ucrânia ajudou a elevar este número para cerca de 100 milhões de pessoas. Só em 2021, foram 4,6 milhões de pessoas que solicitaram reconhecimento na condição de refugiado.

Um anúncio feito pela ONU na quinta-feira dia 1 de dezembro, conta que em 2023 haverá 339 milhões de vítimas dos eventos extremos, o que significa que essas pessoas precisarão de ajuda humanitária. É um recorde. E um aumento de 65 milhões em relação ao ano passado. Para isso será preciso contar com a solidariedade das nações mais ricas e de agências parceiras.

Essas 339 milhões de vítimas estarão espalhadas entre 68 países. Em dez deles, as necessidades são particularmente altas. Desses dez, seis estão na África, três na Ásia e apenas um na Europa, a Ucrânia.

O direito a procurar e a se beneficiar de asilo em outros países está assegurado a todas as pessoas no 14º artigo da Declaração. O Quênia, apesar de estar  entre os países mais pobres do mundo, abriu suas portas, o que alguns países mais ricos não fazem.

E aqui estamos nós, com 8 bilhões de pessoas viventes no planeta e com todos esses problemas. Um olhar mais otimista, no entanto, pode surfar em outras ondas e conseguir, sim, motivos para comemorarmos. Entre eles, o fato de eu estar aqui, sentada em minha mesa de trabalho, teclando um texto com informações que podem ser úteis a um sem número de pessoas. E imediatamente.

Podem imaginar como era, no início do século XX, escrever um livro?

A Ciência é outro motivo para festejarmos.  Em pouco tempo, assim que se descobriu a existência do vírus pandêmico, os cientistas conseguiram isolá-lo e criar uma vacina. Em números oficiais, 14,9 milhões de pessoas morreram. Um século antes, em 1918, a gripe espanhola matou 50 milhões de habitantes em todo o planeta.

Temos, também por conta da Ciência, uma expectativa de vida muito maior do que há um século. E alguns estudos preveem que seremos cerca de 12,6 bilhões de pessoas no planeta até o fim deste século.

Há espaço suficiente para todos. Há campos para plantar e comer alimentos. Mas precisaremos ser mais solidários uns com os outros. E isto passa pela consciência adotada pela Conferência de Estocolmo, em 1972: “Somos um só planeta”.   

O que há para comemorar no mês de aniversário da Declaração dos Direitos Humanos

Paris estava especialmente fria naquele dezembro de 1948. O outono já se despedia para dar passagem ao inverno, que deixaria as charmosas avenidas parisienses cobertas de neve. Foi neste clima que aconteceu a Assembleia Geral das Nações Unidas, três anos depois do fim da II Guerra. Os 193 países-membros da ONU elaboraram o texto que se tornou o mais traduzido do mundo e inspirou as constituições de muitos Estados e democracias recentes. É um documento marco na história dos direitos humanos.

A assinatura aconteceu no dia 10 de dezembro. Portanto, daqui a cinco dias comemora-se 74 anos. Não é uma data redonda, não teremos manifestações ruidosas. Aqui e ali surgirão alguns eventos, como no caso do Sesc de São Paulo, que vai realizar, ao longo deste mês, uma programação pautada na efeméride, com shows, espetáculos, rodas de conversa, oficinas, filmes e demais ações socioeducativas (a maior parte, gratuitas).

Será bom ter rodas de conversa. E será bom que nas rodas de conversa fique bem claro que a humanidade não tem muito que comemorar neste sentido.

Vivemos uma crise civilizatória, em que aos horrores de uma pandemia juntaram-se os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas. E tudo isso, como sempre, afetou muito mais as pessoas vulneráveis socialmente. A desigualdade social, outro imenso mal, está ainda mais escancarada: a fome atinge 819 milhões de pessoas (dados do Relógio Mundial da Fome).

A migração forçada por violência e crise climática não nos deixa de horrorizar com as cenas dramáticas de pessoas que se lançam aos mares para tentar fugir de seu território. Se, para quem tem moradia e sustento, os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas representam transtornos urbanos representativos, para quem não tem uma coisa ou outra, pode representar a morte. Ou, na maioria dos casos, inviabiliza a vida onde mora.

Um retrato trágico dessa classe de pessoas é Dadaab, conhecido como o maior campo de refugiados do mundo, na fronteira entre o Quênia e a Somália, que tem cerca de 500 mil pessoas. O jornalista Jamil Chade esteve lá em 2011 e conta, em seu livro “10 histórias para tentar entender um mundo caótico” (Ed. Sextante) a situação daquelas pessoas:

“Dadaab é uma prisão a céu aberto e seus moradores cumprem uma pena perpétua. Os refugiados não podem se mover livremente, faltam comida, água e segurança. Quase  ninguém tem trabalho e não existe a perspectiva de um dia sair do acampamento. Expulsos do seu país pela fome e a violência, os refugiados descobrem que também não são bem-vindos no Quênia, que os coloca nesse local, e nenhum outro governo no mundo está disposto a realocá-los”, escreve Chade.

Uma pesquisa na internet para saber a situação atual de Dadaab nos dá poucas informações. O complexo, que tem cinco campos, já pode ser considerado a cidade mais miserável do mundo. Há uma crise de suicídios, já que não são apresentadas perspectivas aos jovens que chegam a Dadaab. A ONU está presente, assim como ONGs internacionais, fazendo o que podem fazer. Mas, de verdade mesmo, o que aquelas pessoas precisam é de sentido na vida.

Segundo a agência da ONU para refugiados, a Acnur, o número de pessoas forçadas a deixar suas casas tem crescido ano após ano durante a última década e se encontra no nível mais alto desde que começou a ser registrado. A guerra na Ucrânia ajudou a elevar este número para cerca de 100 milhões de pessoas. Só em 2021, foram 4,6 milhões de pessoas que solicitaram reconhecimento na condição de refugiado.

Um anúncio feito pela ONU na quinta-feira dia 1 de dezembro, conta que em 2023 haverá 339 milhões de vítimas dos eventos extremos, o que significa que essas pessoas precisarão de ajuda humanitária. É um recorde. E um aumento de 65 milhões em relação ao ano passado. Para isso será preciso contar com a solidariedade das nações mais ricas e de agências parceiras.

Essas 339 milhões de vítimas estarão espalhadas entre 68 países. Em dez deles, as necessidades são particularmente altas. Desses dez, seis estão na África, três na Ásia e apenas um na Europa, a Ucrânia.

O direito a procurar e a se beneficiar de asilo em outros países está assegurado a todas as pessoas no 14º artigo da Declaração. O Quênia, apesar de estar  entre os países mais pobres do mundo, abriu suas portas, o que alguns países mais ricos não fazem.

E aqui estamos nós, com 8 bilhões de pessoas viventes no planeta e com todos esses problemas. Um olhar mais otimista, no entanto, pode surfar em outras ondas e conseguir, sim, motivos para comemorarmos. Entre eles, o fato de eu estar aqui, sentada em minha mesa de trabalho, teclando um texto com informações que podem ser úteis a um sem número de pessoas. E imediatamente.

Podem imaginar como era, no início do século XX, escrever um livro?

A Ciência é outro motivo para festejarmos.  Em pouco tempo, assim que se descobriu a existência do vírus pandêmico, os cientistas conseguiram isolá-lo e criar uma vacina. Em números oficiais, 14,9 milhões de pessoas morreram. Um século antes, em 1918, a gripe espanhola matou 50 milhões de habitantes em todo o planeta.

Temos, também por conta da Ciência, uma expectativa de vida muito maior do que há um século. E alguns estudos preveem que seremos cerca de 12,6 bilhões de pessoas no planeta até o fim deste século.

Há espaço suficiente para todos. Há campos para plantar e comer alimentos. Mas precisaremos ser mais solidários uns com os outros. E isto passa pela consciência adotada pela Conferência de Estocolmo, em 1972: “Somos um só planeta”.   

Este texto foi originalmente publicado no site da Creche Monte Alegre

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