História, arte e diversão a bordo do VLT na pré-folia do Centro

Uma cidade tão desafiadora como o Rio de Janeiro está sempre convidando seus moradores mais antenados a descobrirem novos caminhos. Na sexta-feira (10) pela manhã, com amigos, peguei um desses rumos que me possibilitou, senão conhecer, mas certamente perceber outros ângulos possíveis das cenas de sempre.

Turistamos pelo Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, que os cariocas, em respeito à sua fama de bem-humorados, batizaram com alguns apelidos. Os mais desanimados o chamam de “trem fantasma”, apelido que vem dos tempos primórdios, quando quase ninguém conhecia e utilizava o transporte. Aos poucos, outro apelido foi ganhando força: “trem da hora do almoço”, apontando sua pouca utilidade para a mobilidade urbana da cidade.

Mas isto é passado. O VLT hoje está sendo bem utilizado.

Para nosso conforto, organizamos o passeio de forma a evitarmos o horário de rush. Mesmo assim, houve ocasiões em que sobravam poucos lugares para sentar nos vagões. Funcionários gentis e bem treinados nos ajudaram a criar uma atmosfera leve, o que nos ajudou a atiçarmos a curiosidade que só se tem como visitantes em cidades estrangeiras.

O céu de verão nos embevecia, mesclando o azul de anil com o cinza das grossas nuvens que anunciavam a chuva do fim da tarde. Fazia um calorão típico de fevereiro. Mas, como o ar condicionado nos vagões é potente, o desconforto da temperatura elevada ficava do lado de fora, e acompanhávamos, dos janelões do trem, a paisagem ora ensolarada ora nublada.

 E é bom saber: a transferência entre linhas do sistema ou nova viagem no mesmo sentido em até uma hora são gratuitas, sempre com a validação do cartão de passagem no ato do embarque. E o cartão é pessoal e intransferível. Sendo assim, é possível fazer um passeio pelas ruas do Centro do Rio por apenas R$ 4,30.

Nossa viagem/passeio se tornou turística, cultural e histórica. Tudo começou quando prestamos atenção ao nome das estações. Praia Formosa, por exemplo. Alguém sabia que existia uma praia, no século XIX, ali onde hoje é a Rodoviária do Rio de Janeiro? A praia se foi, engolida pelo asfalto, pelo progresso, mas agora seu nome virou um dos “pontos finais” das linhas verde e azul do VLT. A linha amarela vai da Central à Candelária*.

Mal eu começava a divagar sobre o impacto do homem no ambiente ao redor, e lá estávamos nós a circular pelo outrora arrabalde aprazível e pitoresco chamado Gamboa. Hoje é um bairro da Zona Portuária, com casas antigas, calçadas estreitas, comércio de baixa renda.

 A volta pela Gamboa desperta reflexões sobre desigualdade social. Afinal, a parada seguinte é a do Morro da Providência: e ficamos pensando como terá sido o acordo entre as pessoas que ali moram e que, de um dia para o outro, passaram a ter um trem passando em sua porta de vinte em vinte minutos.

Como estávamos felizes e de bom astral, preferimos acreditar no melhor. Correu tudo bem, foram todos indenizados, e vida que segue.

Próxima parada: Harmonia. Uma praça tão linda e bucólica, com direito a coreto e tudo! Do outro lado, o Moinho Fluminense, primeira fábrica brasileira de moagem de trigo, construído no século XIX por ordem da Princesa Isabel. E está ali hoje, mostrando-se inteiro, imponente, aos nossos olhares curiosos. Dizem que vai se transformar num espaço multiuso, se der certo o plano de revitalização do Centro do Rio. Oxalá!

De carro, ou mesmo de ônibus, seria difícil fazermos tanto contato com tanta história da cidade. Qual turistas, fomos nos deliciando e esticando a conversa, os pensamentos. Criamos até um conceito: viramos jacobianos!

Jane Jacobs é uma escritora e ativista política norte-americana que escreveu “Morte e vida nas grandes cidades” (Ed. Martins Fontes), no qual faz críticas à política de ocupação dos espaços publicos nos Estados Unidos, década de 50. É um livro que não deve faltar na estante de quem gosta do tema.

Jacobs aposta na diversidade das cidades, o que ela considera a maior riqueza. E é justamente a diversidade o que mais se observa das janelas do trem supermoderno. Gosto, em especial, desse trecho do livro de Jacobs:

“A presença de pessoas atrai outras pessoas, e isto é uma coisa que os planejadores e projetistas têm dificuldade em comprender. Eles partem do princípio de que os habitantes das cidades preferem contemplar o vazio, a ordem e o sossego palpáveis”.

No exato instante em que nos dávamos conta da pluralidade que encanta as cidades, lembramo-nos de Le Corbusier, arquiteto e urbanista suíco, que encabeçou a Carta de Atenas (Ed. USP). A Carta foi escrita por um grupo de arquitetos e urbanistas chamado para reedificar cidades depois das guerras. Enquanto Jacobs se ocupa com pessoas, os arquitetos focaram na arquitetura, nas construções,  como responsável pelo bem-estar e pela beleza das cidades. “Cada indivíduo deve ter acesso às alegrias fundamentais: o bem-estar do lar, a beleza da cidade”, dizem eles.

Naquele momento do passeio, já plenos de boas reflexões, decidimos nos entregar ao prazer da boa comida. Paramos o passeio ali na estação Marechal Floriano, atravessamos o trilho e fomos comer o omelete mais antigo da cidade na centenária Casa Paladino, clássico da boa e velha gastronomia de boteco do Rio.

Custódio Coimbra, fotógrafo de primeira e amigo, foi clicando durante todo o caminho. E ofereceu-me, gentilmente, algumas fotos que compartilho aqui com vocês. Fica a dica: vale a pena o passeio.

* Todos os trajetos estão no site da empresa e em cada estação. Vale lembrar que em cada estação existem máquinas onde é possível carregar o cartão que dá acesso ao trem.

  • Este texto foi publicado originalmente no site da Casa Monte Alegre
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Sejamos sustentabilistas!!

Como um disco arranhado, a palavra sustentabilista ficou rondando meus pensamentos desde o discurso da ministra do meio ambiente Marina Silva, na quinta-feira, dia 5. Com a permissão que o cargo e a vivência como ambientalista lhe conferem, Marina criou o neologismo. E eu adotei. E passei a cantar, como Caetano Veloso em “Língua”… “Sejamos sustentabilistas, cadê?”.

SAO PAULO, BRAZIL – OCTOBER 5: Brazilian candidate for President Marina Silva speaks during a press conference at the Brazilian Socialist Party on October 5, 2014 in Sao Paulo, Brazil. Marina Silva had 21% of the votes and will not move to the second round against the current President of the Republic, Dilma Rousseff and Aecio Neves. (Photos by Victor Moriyama/Getty Images)

Os tempos estão para musicar, esperançar, criar neologismos e sair cantando. Com os pés no chão. (Escrevi este texto antes dos atos terroristas de domingo. Hoje não ando com vontade de cantar, mas a solidez das instituições estão me acalmando).

Fiquei pensando em como traduzir sustentabilista aqui para os meus leitores. Felizmente não cedi à tentação de decifrar o termo em “hábitos  sustentáveis” , tipo usar menos o carro, tomar banhos menos longos, comer menos a carne vermelha, dispensar as sacolas plásticas. Até porque, cada uma dessas práticas tem pouco peso se considerarmos os impactos causados pelos processos industriais.

Parêntese: sempre que vou ao supermercado com minha bolsa retornável e vejo, nas gôndolas, a quantidade de plástico usada nas embalagens, penso sobre quem está lucrando, verdadeiramente, com minha mudança de hábito. Será mesmo o meio ambiente?

Portanto, ser sustentabilista é um conceito amplo. E vou preferir ampliar o pensamento e incluir, na nossa fictícia mesa de debates, quem tem o poder de provocar mudanças.

“A sustentabilidade não é uma maneira só de fazer, é uma maneira de ser, uma visão de mundo, um ideal de vida. Esses novos ideais identificatórios estão tomando conta do mundo. Os nossos filhos, os nossos netos já nascerão sustentabilistas. Uns serão conservadores, progressstas, capitalistas, socialistas. Mas todos serão sustentabilistas”, garantiu a ministra Marina em seu discurso.

Corroborando este chamamento geral, Marina Silva usou outra palavra várias vezes: transversalidade. As questões ambientais e as mudanças climáticas passarão a ser debatidas em todos os projetos governamentais no momento que eles estiverem sendo pensados, não depois, garantiu. Que assim seja, porque só dessa forma estaremos levando a sério uma questão que impacta pessoas, bichos e plantas.  Todos os seres vivos do planeta.

 Livrando-me, portanto, do lugar comum que põe sobre os cidadãos a arte de “viver de maneira sustentável”, ouso afunilar um pouco mais a compreensão do conceito. Vamos decifrar sustentabilista sob a ótica daqueles têm sob sua batuta a decisão de usar fontes de energia. Afinal, é  este um dos nossos maiores desafios.

E o problema das fontes energéticas terá que ser enfrentado por um governo que se sensibiliza pela causa, como deixou claro o presidente Lula em seu discurso feito logo depois de eleito, na COP27, no Egito. Precisamos de fontes de “energia limpa”, ou seja, sem carbono, cujo acúmulo na atmosfera é o principal responsável pelas mudanças climáticas. Mas, o que é, verdadeiramente, energia limpa?

Em 2015, quando escrevia a  “Nova Ética Social”, coluna que mantinha no portal G1,  estive na Alemanha, a convite do consulado daquele país. A ideia foi mostrar a jornalistas estrangeiros o esforço que a Alemanha estava fazendo para ficarem livres do carvão, uma fonte de energia das mais sujas. Foram cinco dias intensos. Ouvi várias palestras de estudiosos do tema. Fizemos mesa redonda com ambientalistas. E me lembro muito nitidamente de um momento em que cutuquei o colega ao lado, um holandês, para perguntar-lhe se eles estavam considerando mesmo as hidrelétricas como energia limpa ou se eu estava entendo mal o inglês do palestrante.

Eu não estava entendendo mal. Fiquei calada, talvez por inibição, mas tive vontade de perguntar:

“Energia limpa para quem? Vocês têm ideia do impacto que a construção de uma hidrelétrica causa na vida das pessoas que moram às margens dos rios? Do impacto que causa aos peixes do rio que precisa ser represado?”

Sejamos sustentabilistas! E vamos encarar de frente essa tremenda encrenca. Não há fontes de energia totalmente limpas de impactos. Mesmo os paineis solares precisam de silício (mineração). A instalação dos parques eólicos também causam impacto não só à fauna e flora como a habitantes (por causa do barulho) e precisa, por isso, de um planejamento. A questão, então, é diversificar as fontes de energia para não sobrecarregar um único ecossistema.

Para isto, é preciso compor com várias forças. A agenda ambiental e climática exige uma equação complexa, não tem apenas uma, mas várias soluções, por isso precisa de muita gente trabalhando junto. E Marina Silva sabe disso:

“A política nacional do Ministério de Meio Ambiente é feita e sustentada graças à participação de toda a sociedade brasileira, de todos os segmentos da nossa sociedade. É impossivel cuidar da maior floresta tropical brasileira, que contém 25% da biodiversidade e 11% da água doce disponíveis no mundo, de cuidarmos de toda a nossa sociobiodiversidade sem a pariticação da sociedade”, disse ela.

Neste sentido, a ministra Marina estará muito bem acompanhada. Pela primeira vez, a república do Brasil dará voz e assento aos indígenas. Com Sonia Guajajara como ministra dos Povos Indígenas, cada projeto ambiental terá que ser, efetivamente, bom para todos. E isto não será fácil.

No caminho do progresso/desenvolvimento, há pedras, terras, peixes, animais, árvores. E é preciso lidar com isso. Marina Silva afirmou, em seu discurso, que o Ministério do Meio Ambiente “não será um entrave às justas expectativas de desenvolvimento econômico e social de nossa população”. A proposta é facilitar, “sem prejuízo da necessária  proteção de nossos recursos naturais”.

Em 2010, no seu segundo mandato, o presidente Lula fez uma declaração que gerou muito mal estar entre os ambientalistas, quando inaugurou as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. Ele rebateu a preocupação sobre  o impacto das obras nos bagres, peixes típicos da região. Defendeu a criação dos bagres em cativeiro e afirmou o que ninguém pode negar: “É preciso ter energia para ter desenvolvimento”.

Eis nosso maior desafio.

As barragens Santo Antônio e Jirau são apontadas também como duas manchas da primeira gestão de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente (2003-2008). Estive em Roraima  em 2011, fazendo reportagem para o caderno “Razão Social” (O Globo) sobre a vida dos reassentados das duas barragens, e quase todos estavam bastante insatisfeitos.

 A questão, portanto, não era somente ambiental, de preocupação com a extinção dos bagres. Segundo informação que obtive à época, do coordenador dos processos de reassentamentos da Santo Antônio Energia, foram deslocados 1.736 pessoas que moravam à beira do Madeira, viviam de vender os peixes que pescavam artesanalmente ou de roçar seus sítios.

Dona Emilia Mendes, 84 anos, uma das pessoas com quem conversei para fazer a reportagem, seria uma reassentada não fosse o fato de ter se recusado a sair da casa onde morava desde que se casara. A senhora tinha por hábito, diariamente, tomar um café ao amanhecer olhando para a árvore que ficava em frente ao seu quintal. E não houve promessa de um futuro melhor que a fizesse arredar o pé. Tiveram que dar um jeito, mas Emilia não saiu de sua casa.

Em dez anos, a agenda ambiental e climática tem se fortalecido, o que nos leva a acreditar que o novo governo Lula, com Marina à frente do Meio Ambiente, terá mais ferramentas para lidar com os desafios impostos.  Criado em 1988, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) já publicou cinco grandes Relatórios de Avaliação que geraram subsídios para políticas públicas.

 Em 2007, o quarto relatório foi contundente: “A maior parte do aquecimento global observado desde meados do século XX é conseqüência de aumento na concentração de gases de efeito estufa associadas a atividades humanas”.

No ano passado, o sexto relatório do IPCC acrescentou: estamos emitindo mais carbono a cada ano. Mas os países pobres são os que menos emitem e são os mais vulneráveis aos eventos extremos.

A desigualdade social, portanto, também está na lista de problemas que deve receber atenção especial de quem se preocupa com o meio ambiente. Por isso está certíssima a ministra ao falar em transversalidade.

Não é mágica, disse Marina Silva. É trabalho. E uma nova visão do mundo que segue uma ética de respeito a todos os seres vivos do planeta.

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Pelo bem de nossos bichos domésticos

Entre tantas boas notícias sobre o funcionamento do novo governo empossado no primeiro dia deste ano, o discurso da ministra do Meio Ambiente Marina Silva lançou um jorro de ânimo a quem entende que mudanças climáticas são, cada vez mais, um tema importante para a nossa civilização. Num próximo post detalharei mais. Por hoje, preciso alçar como top 10 a inauguração do Departamento de Proteção e Defesa dos Direitos dos Animais. Alvíssaras!

Segundo um post do deputado Carlos Minc, a criação do Departamento, confirmada no Decreto 11.349 publicado no DO União do dia 3 de janeiro, foi uma “significativa vitória da causa animal”. E foi mesmo. Mas, já que estamos falando de um governo de participação social, sinto-me no direito – talvez até fosse melhor falar em dever – de dar aqui algumas sugestões.

Marina Silva também anunciou, em seu discurso, a Secretaria de Gestão Ambiental Urbana. Pegando esse gancho, quero sugerir que a pessoa que vai tomar conta dessa pasta tenha um olhar muito especial voltado a um problema recorrente nas grandes cidades: o abandono de animais domésticos.

Como gosto de cachorros e gatos, estou ligada a uma rede de pessoas que se prontificam a dar abrigo, alimento e a cuidar das feridas, externas ou não, dos animais que são abandonados por seus donos.

Vou contar apenas uma de muitas dessas histórias que conheço. Esta tem final feliz. Snow, esse fofo aí da foto, foi encontrado há cerca de três meses,  pele e osso, quase sem conseguir andar, todo enroscado num cantinho de uma rua do bairro onde moro. A impressão que teve quem o viu pela primeira vez foi que o bicho tinha vagado pelas ruas durante muito tempo, até não poder mais. Deitou-se ali para morrer.

Mas o que ele não sabia é que estava para terminar seu tempo de azar. Snow – nome que lhe foi dado –  estava no caminho de um pessoal que tem e gosta muito de cachorros. Logo alguém o levou para casa e as redes sociais funcionaram. Em pouco tempo ele ganhou ração, cama, tomou um banho, foi levado ao veterinário. Descobriu-se até a origem de Snow: morava na comunidade Dona Marta e a dona dele morreu. Os parentes, sem condições de mantê-lo, o enxotaram de casa.

Não demorou muito para que Snow ganhasse o mais importante: uma casa bonita para morar. Como é em outro estado, ele precisou ficar num lar temporário, por uns dias, até a viagem.  Na casa  nova, ganhou um gramado e alguns companheiros de quatro patas.

Snow tem cinomose, uma doença incurável mas que pode ser controlada. E é surdo. Mas, segundo a tutora, agora está até aprendendo a latir, imitando as cadelas que são suas parceiras. Engordou, está feliz, e vai viver dignamente o tempo que lhe resta.

A foto acima mostra quando ele foi encontrado. A foto agora é de Snow agora, já em sua casa.

Não vem ao caso julgar quem abandona um bicho. Mas, como sugestão primeira à equipe do novo ministério que pretende cuidar também de nosso ambiente urbano, é preciso fazer uma campanha de comunicação efetiva, explicando às pessoas por que não se deve abandonar um bichinho ao relento. Já existem campanhas em algumas escolas públicas, mas minha ideia é ampliar. Outdoors, redes sociais, televisão, rádio, blogs, sites. 

Pode parecer inútil, mas não é. Muita gente ainda tem uma relação “coisificada” com os bichos que adota. É como se eles fossem objetos que podem ser descartados a qualquer momento, sem que isto cause danos. Se morrer, morreu.

Depois de algum tempo de campanha, pode-se até pensar em algum tipo de punição para quem abandonar um bicho. Talvez isto possa refrear gestos insanos, como de pais que cedem à birra de filhos e compram cães ou gatos de “presente” para a criança, que na maioria das vezes tem apenas uma atração instantânea, sem noção dos cuidados que o bicho exige.

 No primeiro momento em que os pais percebem que os bichinhos fazem xixi, cocô, arranham,  mordem e precisam de cuidados,  decidem largá-los em alguma rua para que outro os peguem. Sim, é irresponsável e cruel, mas tem gente que faz isso, e até põe, do lado do bicho amarrado a um poste, uma cumbuca com água e ração.

Mas tem outros motivos de abandono, alguns que realmente deixam a gente com nó na garganta. E que, justamente por evidenciar uma privação dos donos do animal – doença, falta de recursos – precisam que o estado intervenha e ajude.

Neste sentido, a outra sugestão é fazer um cadastro e obrigar todos os donos de pets a terem uma carteirinha para eles. Talvez seja uma forma de desestimular um pouco a aquisição impensada de animais. Muitas ONGs de bichos criam arquivos na hora de doar. Isso poderia se estender a pessoas que vendem, sejam lojas ou particulares.

Espalhar clínicas gratuitas também seria outra ótima opção, já que o mercado de pets está ficando cada vez mais caro.Muita gente não leva o bicho para exames anuais porque não sobra dinheiro no orçamento.  A criação de vários bancos de rações, como já existem em algumas prefeituras, é outra política pública que deve ser ampliada.

 Na verdade, essa função de cuidar dos pets é do âmbito municipal, mas precisaria ser supervisionada com lupa por essa Secretaria que está sendo criada pela nova ministra.

Estava fechando meu pensamento quando me lembrei de outra figura muito comum nas grandes cidades: os cães de pessoas em situação de rua. São muito fieis aos donos e, de verdade, imprescindíveis para dar à pessoa  o mínimo de sensação de segurança. Portanto, neles não se mexe.

Mas, como sabemos que o presidente Lula tem como propósito principal em seu governo o cuidado das pessoas carentes, estou imaginando uma situação em que teremos poucos, quase nenhum, até mesmo ninguém vivendo em situação tão ruim.

Pessoas terão teto, comida, conforto. Cães, idem.

O filósofo alemão Friedrick Nietzsche dizia que “Nada é tão nosso como nossos sonhos”. Por isso ele incentivava todos em sua volta a sonhar. E sonhar bem alto.

Estou de mãos dadas com Nietzsche neste momento. Voando alto em meus sonhos sobre um Brasil mais justo, respeitoso aos bichos e plantas, e com uma proteção organizada do estado.

  • Este texto foi originalmente publicado no site da Casa Monte Alegre, de Santa Tereza
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Dez anos do Ser Sustentável

O apartamento onde eu morava tinha uma varanda enorme, ótimo espaço para os meus três cães.

Fred, Maria e Bidu, meus Shih tzus, vieram à porta para me receber naquele 31 de dezembro de 2012. Já eram quase nove da noite e eu tinha fechado meu último plantão na primeira página do jornal “O Globo”. Terminara assim um período profissional longo, frutífero, intenso, que durou 26 anos.

Peguei uma garrafa de champanhe que tinha deixado no gelo antes de seguir para o trabalho, fui para a varanda, sentei-me na rede. E chorei um tanto. Não eram lágrimas de tristeza exatamente, nem de surpresa, já que eu tinha acordado a saída anteriormente.  Eram lágrimas de susto, de apreensão. Hora de recomeçar, o que viria?

O dia seguinte, uma terça-feira, tirei para descansar e refletir. Foi quando eu escrevi o primeiro dos muitos textos que compõem o blog Ser Sustentável, que está fazendo dez anos de existência.

Como devem saber os internautas, para a mídia digital, dez anos é muito mais do que uma década. É quase um século. Muitas inovações. Quando criei o Ser Sustentável, em grande parte para não perder meu capital social,  ainda não eram  tantos os blogueiros, e os grandes sites de jornais estavam também começando a acertar seus espaços digitais.

Aqui vale um parêntese para as pessoas que não me conhecem: nos últimos nove anos de Globo eu editei o caderno Razão Social. A foto que ilustra este texto é da primeira equipe do caderno: da esquerda para a direita estão o designer gráfico Luis Carlos Rocha, o Maraca; o fotógrafo Carlos Ivan, eu e os repórteres Aydano André Motta e Paula Autran.  Foi o primeiro veículo, circulando em grande jornal, que dedicava todo o espaço para o debate sobre responsabilidade social corporativa. O ano era 2003, e era assim que chamávamos o que hoje denominam ESG (Environmental, Social & Governance). O Razão Social passou a não caber no Globo, foi substituído. Minha carreira no jornal também findava ali.

Reler o primeiro texto do meu blog foi bem interessante. Sob o título “A sustentabilidade é um mito?”, eu me detive, como sempre faço, em compartilhar reflexões que adquiro com base em leituras, entrevistas, reportagens. É um texto longo, como têm sido os demais. Não consigo me encarcerar no formato 140 caracteres porque tenho um enorme respeito pelos meus leitores. Creio que quem visita o blog vem em busca de análise, não só de informação. É o que eu tento fornecer, usando como escopo os anos de estudo sobre o tema.

 Quando saí do Globo não havia a enxurrada de cursos de extensão que existe hoje. O tema estava começando a ser estudado. Usei, portanto, a prática jornalística para me capacitar. Fui a todas as conferências, encontros, fóruns, mesas redondas, reuniões e palestras que surgiram.  Entre outras coisas, ser jornalista é ter curiosidade e estudo para fazer perguntas e escolher a pessoa certa a quem perguntar.

Este texto é apenas para compartilhar com vocês, meus leitores cativos, a alegria que sinto hoje, dez anos depois de ter criado o blog, vinte anos depois de ter ajudado a criar o Razão Social. No meio do caminho, de 2013 a 2022, fui também colunista do G1. Trazendo sempre o mesmo tema como reflexões, nunca verdades.

Estamos vivendo novos tempos no Brasil. Saem de cena a ignorância, o desrespeito às pessoas, aos animais, ao meio ambiente, a falta de apoio aos mais pobres e entra o estilo de um presidente que vinte anos atrás, exatamente quando nascia o Razão Social, transformou o Brasil num país mais digno. Com falhas, mas em curso.

Que os novos tempos sejam prósperos, que o presidente Lula, depois de se desvencilhar da tranqueira deixada pelo antecessor, consiga trilhar o curso que estava trilhando lá atrás. Que o meio ambiente seja visto não como “nosso entorno”, mas como a casa de todos, com bens comuns.

Por fim, que não nos falte trabalho.

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Na trincheira do combate às violações de direitos humanos

A notícia chegou via Oxfam, a ONG especializada em estudos sobre a desigualdade. E merece um registro:

“A campanha mundial para que supermercados exijam dos seus fornecedores o respeito aos direitos humanos de trabalhadores da agricultura chegou a uma nova etapa no país. A petição criada pela Oxfam Brasil, que pede aos supermercados esse compromisso, foi entregue no dia 15 de dezembro com mais de 130 mil assinaturas. O documento foi direcionado aos maiores grupos de supermercados com atuação nacional: Carrefour e Pão de Açúcar. No mundo todo, supermercados tem se tornado aliados no combate às desigualdades e violações de direitos humanos envolvendo trabalhadores da agricultura”.

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O que há para comemorar no mês de aniversário da Declaração dos Direitos Humanos

Paris estava especialmente fria naquele dezembro de 1948. O outono já se despedia para dar passagem ao inverno, que deixaria as charmosas avenidas parisienses cobertas de neve. Foi neste clima que aconteceu a Assembleia Geral das Nações Unidas, três anos depois do fim da II Guerra. Os 193 países-membros da ONU elaboraram o texto que se tornou o mais traduzido do mundo e inspirou as constituições de muitos Estados e democracias recentes. É um documento marco na história dos direitos humanos.

A assinatura aconteceu no dia 10 de dezembro. Portanto, daqui a cinco dias comemora-se 74 anos. Não é uma data redonda, não teremos manifestações ruidosas. Aqui e ali surgirão alguns eventos, como no caso do Sesc de São Paulo, que vai realizar, ao longo deste mês, uma programação pautada na efeméride, com shows, espetáculos, rodas de conversa, oficinas, filmes e demais ações socioeducativas (a maior parte, gratuitas).

Será bom ter rodas de conversa. E será bom que nas rodas de conversa fique bem claro que a humanidade não tem muito que comemorar neste sentido.

Vivemos uma crise civilizatória, em que aos horrores de uma pandemia juntaram-se os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas. E tudo isso, como sempre, afetou muito mais as pessoas vulneráveis socialmente. A desigualdade social, outro imenso mal, está ainda mais escancarada: a fome atinge 819 milhões de pessoas (dados do Relógio Mundial da Fome).

A migração forçada por violência e crise climática não nos deixa de horrorizar com as cenas dramáticas de pessoas que se lançam aos mares para tentar fugir de seu território. Se, para quem tem moradia e sustento, os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas representam transtornos urbanos representativos, para quem não tem uma coisa ou outra, pode representar a morte. Ou, na maioria dos casos, inviabiliza a vida onde mora.

Um retrato trágico dessa classe de pessoas é Dadaab, conhecido como o maior campo de refugiados do mundo, na fronteira entre o Quênia e a Somália, que tem cerca de 500 mil pessoas. O jornalista Jamil Chade esteve lá em 2011 e conta, em seu livro “10 histórias para tentar entender um mundo caótico” (Ed. Sextante) a situação daquelas pessoas:

“Dadaab é uma prisão a céu aberto e seus moradores cumprem uma pena perpétua. Os refugiados não podem se mover livremente, faltam comida, água e segurança. Quase  ninguém tem trabalho e não existe a perspectiva de um dia sair do acampamento. Expulsos do seu país pela fome e a violência, os refugiados descobrem que também não são bem-vindos no Quênia, que os coloca nesse local, e nenhum outro governo no mundo está disposto a realocá-los”, escreve Chade.

Uma pesquisa na internet para saber a situação atual de Dadaab nos dá poucas informações. O complexo, que tem cinco campos, já pode ser considerado a cidade mais miserável do mundo. Há uma crise de suicídios, já que não são apresentadas perspectivas aos jovens que chegam a Dadaab. A ONU está presente, assim como ONGs internacionais, fazendo o que podem fazer. Mas, de verdade mesmo, o que aquelas pessoas precisam é de sentido na vida.

Segundo a agência da ONU para refugiados, a Acnur, o número de pessoas forçadas a deixar suas casas tem crescido ano após ano durante a última década e se encontra no nível mais alto desde que começou a ser registrado. A guerra na Ucrânia ajudou a elevar este número para cerca de 100 milhões de pessoas. Só em 2021, foram 4,6 milhões de pessoas que solicitaram reconhecimento na condição de refugiado.

Um anúncio feito pela ONU na quinta-feira dia 1 de dezembro, conta que em 2023 haverá 339 milhões de vítimas dos eventos extremos, o que significa que essas pessoas precisarão de ajuda humanitária. É um recorde. E um aumento de 65 milhões em relação ao ano passado. Para isso será preciso contar com a solidariedade das nações mais ricas e de agências parceiras.

Essas 339 milhões de vítimas estarão espalhadas entre 68 países. Em dez deles, as necessidades são particularmente altas. Desses dez, seis estão na África, três na Ásia e apenas um na Europa, a Ucrânia.

O direito a procurar e a se beneficiar de asilo em outros países está assegurado a todas as pessoas no 14º artigo da Declaração. O Quênia, apesar de estar  entre os países mais pobres do mundo, abriu suas portas, o que alguns países mais ricos não fazem.

E aqui estamos nós, com 8 bilhões de pessoas viventes no planeta e com todos esses problemas. Um olhar mais otimista, no entanto, pode surfar em outras ondas e conseguir, sim, motivos para comemorarmos. Entre eles, o fato de eu estar aqui, sentada em minha mesa de trabalho, teclando um texto com informações que podem ser úteis a um sem número de pessoas. E imediatamente.

Podem imaginar como era, no início do século XX, escrever um livro?

A Ciência é outro motivo para festejarmos.  Em pouco tempo, assim que se descobriu a existência do vírus pandêmico, os cientistas conseguiram isolá-lo e criar uma vacina. Em números oficiais, 14,9 milhões de pessoas morreram. Um século antes, em 1918, a gripe espanhola matou 50 milhões de habitantes em todo o planeta.

Temos, também por conta da Ciência, uma expectativa de vida muito maior do que há um século. E alguns estudos preveem que seremos cerca de 12,6 bilhões de pessoas no planeta até o fim deste século.

Há espaço suficiente para todos. Há campos para plantar e comer alimentos. Mas precisaremos ser mais solidários uns com os outros. E isto passa pela consciência adotada pela Conferência de Estocolmo, em 1972: “Somos um só planeta”.   

O que há para comemorar no mês de aniversário da Declaração dos Direitos Humanos

Paris estava especialmente fria naquele dezembro de 1948. O outono já se despedia para dar passagem ao inverno, que deixaria as charmosas avenidas parisienses cobertas de neve. Foi neste clima que aconteceu a Assembleia Geral das Nações Unidas, três anos depois do fim da II Guerra. Os 193 países-membros da ONU elaboraram o texto que se tornou o mais traduzido do mundo e inspirou as constituições de muitos Estados e democracias recentes. É um documento marco na história dos direitos humanos.

A assinatura aconteceu no dia 10 de dezembro. Portanto, daqui a cinco dias comemora-se 74 anos. Não é uma data redonda, não teremos manifestações ruidosas. Aqui e ali surgirão alguns eventos, como no caso do Sesc de São Paulo, que vai realizar, ao longo deste mês, uma programação pautada na efeméride, com shows, espetáculos, rodas de conversa, oficinas, filmes e demais ações socioeducativas (a maior parte, gratuitas).

Será bom ter rodas de conversa. E será bom que nas rodas de conversa fique bem claro que a humanidade não tem muito que comemorar neste sentido.

Vivemos uma crise civilizatória, em que aos horrores de uma pandemia juntaram-se os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas. E tudo isso, como sempre, afetou muito mais as pessoas vulneráveis socialmente. A desigualdade social, outro imenso mal, está ainda mais escancarada: a fome atinge 819 milhões de pessoas (dados do Relógio Mundial da Fome).

A migração forçada por violência e crise climática não nos deixa de horrorizar com as cenas dramáticas de pessoas que se lançam aos mares para tentar fugir de seu território. Se, para quem tem moradia e sustento, os eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas representam transtornos urbanos representativos, para quem não tem uma coisa ou outra, pode representar a morte. Ou, na maioria dos casos, inviabiliza a vida onde mora.

Um retrato trágico dessa classe de pessoas é Dadaab, conhecido como o maior campo de refugiados do mundo, na fronteira entre o Quênia e a Somália, que tem cerca de 500 mil pessoas. O jornalista Jamil Chade esteve lá em 2011 e conta, em seu livro “10 histórias para tentar entender um mundo caótico” (Ed. Sextante) a situação daquelas pessoas:

“Dadaab é uma prisão a céu aberto e seus moradores cumprem uma pena perpétua. Os refugiados não podem se mover livremente, faltam comida, água e segurança. Quase  ninguém tem trabalho e não existe a perspectiva de um dia sair do acampamento. Expulsos do seu país pela fome e a violência, os refugiados descobrem que também não são bem-vindos no Quênia, que os coloca nesse local, e nenhum outro governo no mundo está disposto a realocá-los”, escreve Chade.

Uma pesquisa na internet para saber a situação atual de Dadaab nos dá poucas informações. O complexo, que tem cinco campos, já pode ser considerado a cidade mais miserável do mundo. Há uma crise de suicídios, já que não são apresentadas perspectivas aos jovens que chegam a Dadaab. A ONU está presente, assim como ONGs internacionais, fazendo o que podem fazer. Mas, de verdade mesmo, o que aquelas pessoas precisam é de sentido na vida.

Segundo a agência da ONU para refugiados, a Acnur, o número de pessoas forçadas a deixar suas casas tem crescido ano após ano durante a última década e se encontra no nível mais alto desde que começou a ser registrado. A guerra na Ucrânia ajudou a elevar este número para cerca de 100 milhões de pessoas. Só em 2021, foram 4,6 milhões de pessoas que solicitaram reconhecimento na condição de refugiado.

Um anúncio feito pela ONU na quinta-feira dia 1 de dezembro, conta que em 2023 haverá 339 milhões de vítimas dos eventos extremos, o que significa que essas pessoas precisarão de ajuda humanitária. É um recorde. E um aumento de 65 milhões em relação ao ano passado. Para isso será preciso contar com a solidariedade das nações mais ricas e de agências parceiras.

Essas 339 milhões de vítimas estarão espalhadas entre 68 países. Em dez deles, as necessidades são particularmente altas. Desses dez, seis estão na África, três na Ásia e apenas um na Europa, a Ucrânia.

O direito a procurar e a se beneficiar de asilo em outros países está assegurado a todas as pessoas no 14º artigo da Declaração. O Quênia, apesar de estar  entre os países mais pobres do mundo, abriu suas portas, o que alguns países mais ricos não fazem.

E aqui estamos nós, com 8 bilhões de pessoas viventes no planeta e com todos esses problemas. Um olhar mais otimista, no entanto, pode surfar em outras ondas e conseguir, sim, motivos para comemorarmos. Entre eles, o fato de eu estar aqui, sentada em minha mesa de trabalho, teclando um texto com informações que podem ser úteis a um sem número de pessoas. E imediatamente.

Podem imaginar como era, no início do século XX, escrever um livro?

A Ciência é outro motivo para festejarmos.  Em pouco tempo, assim que se descobriu a existência do vírus pandêmico, os cientistas conseguiram isolá-lo e criar uma vacina. Em números oficiais, 14,9 milhões de pessoas morreram. Um século antes, em 1918, a gripe espanhola matou 50 milhões de habitantes em todo o planeta.

Temos, também por conta da Ciência, uma expectativa de vida muito maior do que há um século. E alguns estudos preveem que seremos cerca de 12,6 bilhões de pessoas no planeta até o fim deste século.

Há espaço suficiente para todos. Há campos para plantar e comer alimentos. Mas precisaremos ser mais solidários uns com os outros. E isto passa pela consciência adotada pela Conferência de Estocolmo, em 1972: “Somos um só planeta”.   

Este texto foi originalmente publicado no site da Creche Monte Alegre

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A obra do século, sete décadas depois

Era uma vez… um tempo em que a humanidade ainda não tinha delegado inteiramente para a tecnologia o seu poder de descobrir e de criar coisas.

O ano era 1967, e uma questão se impunha fortemente aqui no Rio de Janeiro: a falta de água. Sobretudo na Zona Sul, que na época recebeu o apelido de “polígono das secas”. Talvez por ser uma região frequentada por pessoas do andar de cima, esse incômodo foi ganhando as páginas dos jornais diariamente. E uma providência se impunha.

Mas só tinha uma solução: era preciso levar água, levar muita água, da Estação de Tratamento do Guandu, situada em Nova Iguaçu, até a Gávea, Zona Sul. Para isso seria preciso escavar túneis nas rochas, considerando que a região era marcada por maciços rochosos. Através desses túneis, e usando apenas a força da gravidade, seria possível fazer chegar a água na casa das pessoas.

Mas, como eu lembrei aí em cima, os tempos eram outros. A tecnologia ainda não estava tão avançada. Assim mesmo – e aí está a grande evolução humana – o feito foi conseguido.

A obra do século, como foi chamada na época a construção da Elevatória Lameirão, escavou túneis de grandes diâmetros por cerca de 43 quilômetros. Dizia-se que esta extensão era a soma de todos os túneis construídos no Brasil.

Num determinado trecho do longo caminho, por exatos 11 km, a água precisaria de pressão para seguir adiante, já que não havia declives, a gravidade não colaboraria. Assim foi feito. E a Estação de Tratamento, em Santíssimo, foi então ligada ao reservatório dos Macacos, na Gávea.

A grande construção empregou 45 mil operários, gastou sete milhões de sacos de cimento e custou ao governo 129 bilhões de cruzeiros, moeda da época. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) emprestou 40 bilhões. O resto foi dinheiro do contribuinte.

É este portento, que ainda hoje é a maior elevatória subterrânea de água tratada do mundo, que fui visitar na semana passada. Tirei algumas fotos, que posto aqui junto com esse texto. Fui num comboio de jornalistas levados pela Cedae, que hoje é uma empresa privatizada e dividida.

As estruturas hidráulicas ficam a 64 metros abaixo do nível do terreno, em Santíssimo. É uma sensação estranha, sobretudo para quem é claustrofóbica, mas dá para suportar. Vale a visita. A Cedae está começando a abrir a Elevatória de Lameirão para visitação, e acho bem interessante levar lá, inclusive, as crianças. Pode ajudar a ampliar o contato – por consequência, o respeito – a todas as coisas que nos cercam.

Não é um milagre, não acontece do nada. Para que a água jorre no momento em que se abre a torneira de casa – para a parte da população que tem esse direito – é necessário uma estrutura projetada por homens. É bom conhecê-la. E a visita pode ter um valor agregado: será possível, também, conhecer detalhes da origem do Sistema Guandu e ver de perto toda a maquinária que o envolve.

Olhar as fotos da construção, expostas na recepção da construção, nos leva a refletir sobre o quanto já fomos capazes de obras imensas, mesmo sem a tecnologia de hoje, tão decantada como a “grande solução” de todos os nossos males.

Amplio o pensamento para o mundo do trabalho.

Não há registro sobre número de operários mortos durante as escavações, mas as fotos mostram que,  naquele tempo, os equipamentos de proteção individual, hoje obrigatórios, não eram respeitados. Muitos operários sem camisa, sem capacete, foram capazes de abrir caminho entre as pedras. Hoje seriam substituídos por máquinas, será?

Um relatório divulgado em 2017 pela consultoria McKinsey Gobal Institute dá conta de que entre 400 e 800 milhões de pessoas em todo o mundo serão afetadas pela automatização. Essas pessoas terão que encontrar uma outra forma de ganhar a vida até 2030.

Numa reportagem publicada por Ana Paula Evangelista em EPSJV/Fiocruz no dia 5 de julho de 2018 há ainda um outro estudo, desta vez feito por brasileiros e apresentado no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, naquele mesmo ano. Nos países cobertos pelo estudo, diz o documento, as tendências atuais podem levar a um impacto líquido de mais de 7,1 milhõespostos de trabalho perdidosentre 2015 e 2020 – dois terços dos quais estão concentrados em funções rotineiras de escritório e administração.

Em contrapartida, ainda segundo o texto, haverá um ganho total de dois milhões de empregos nas áreas de computação, matemática, arquitetura e engenharia. O relatório resulta de uma pesquisa feita pelos 300 maiores empregadores do mundo, responsáveis por 13 milhões de empregos no planeta.

Ou seja: noves fora, vamos sair perdendo. Tempos difíceis.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Casa Monte Alegre

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Sobre a COP e os direitos humanos

Tenho estado longe aqui do blog nessa época de COP 27 porque estou escrevendo para o site #Colabora.

Vou indicar aqui os dois textos que já estão publicados:

e

Mas hoje preciso escrever sobre o discurso do presidente eleito Lula da Silva na COP27. Não consigo deixar de compartilhar aqui com os meus leitores uma fala histórica.  Desde 2003, quando comecei a estudar o tema do desenvolvimento sustentável eu acompanho essas conferências, fóruns e encontros que têm o clima como foco. Algumas delas conseguiram acordos, quase todos cumpridos apenas em parte ou descumpridos totalmente.

O Egito foi o palco da volta do Brasil à cena internacional. Trazendo  para o debate o cerne da questão climática. Não se trata apenas de salvar as árvores para que elas possam fazer seu benfazejo trabalho de sequestrar o carbono que nos faz tão mal. Não se trata apenas de salvar as vidas de animais que precisam ter seu habitat salvo.

Trata-se de tudo isso, mais além: é de vidas humanas que se está falando. É de desigualdade social, é de fome, de miséria e de uma tremenda vulnerabilidade à qual estão submetidos milhões de seres humanos.

Lula mencionou os países insulares. São 43 pequenas nações no Pacífico, muitas que são apenas uma grande faixa de terra, e que por causa da elevação do nível do mar vão desaparecer. Isto não é pouco.

Segundo o relatório norte-americano Climate Science Special Report, desde 1993 o mar já se elevou sete centímetros. Desde 1900 são 18 a 20 centímetros. Pode parecer pouco, mas sobretudo quando há ressaca, este pouco torna-se muito.

Lula fez o link necessário: entre os eventos climáticos e a pobreza. Entre o paradoxal gasto de trilhões de dólares com a guerra enquanto há 900 milhões de pessoas em todo o mundo que não têm o que comer.

Falou sobre paz e mencionou bem estar. Não se esqueceu de valores civilizatórios e de respeito aos direitos humanos. E disse que estará a postos, como líder que hoje é ouvido e aclamado pelo mundo, para cobrar os compromissos assumidos.

Por causa do discurso de Lula, portanto,  a COP27 não será uma retórica inútil, como denuncia a jornalista e ativista ambiental canadense Naomi Klein.

Por falar em Naomi Klein, outro assunto importante da COP, que abre a primeira matéria que escrevi para o Colabora, é a greve de fome do preso político Abd El-Fattah, cidadão britânico-egipcio. O fato põe às claras questões sérias de violações de direitos humano no Egito. A tal ponto que Naomi Klein, ativista ambiental, decidiu fechar seu twitter para qualquer assunto que chegue por parte das lideranças que estão nos debates da COP. Ela só noticia a manifestação de Abd El-Fattah e dá conta da existência de cerca de 700 presos políticos no país.

Não vivemos tempos fáceis.  

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Tormenta com mortes no Paquistão e gastos com guerras aumentam a frustração no ano das efemérides sobre o meio ambiente: quem paga a conta?

No início deste ano, os ambientalistas – e as pessoas que, como eu, trabalham e estudam o ecosociodesenvolvimento – esperavam grandes comemorações. Afinal, meio século atrás acontecia, na capital sueca, a primeira grande reunião organizada pelas Nações Unidas que se concentrou em questões de meio ambiente. E trinta anos atrás fora convocada a Rio-92, também pelas Nações Unidas. Mega incensada pela mídia, a Rio-92 consagrou o termo “desenvolvimento sustentável” que tinha sido cunhado dois anos antes, quando foi publicado o relatório Brundtland, ou “Nosso Futuro Comum”.

A foto mostra a plenária da Conferencia de Estocolmo em 1972. Foi tirada do site Conselho Regional de Biologia da 7ª Região – Paraná

Ocorre que nada disso chegou a mobilizar muito. Em junho, uma tímida reunião lembrou os 50 anos da Conferência de Estocolmo. Debaixo de ombrelones, para se protegerem da chuva fina que caía, algumas autoridades se reuniram para comemorar a data e, como sói acontecer, lembrar que o “mundo ainda vive grandes desafios para se livrar dos combustíveis fósseis”. Seguiram-se quatro sessões plenárias, três diálogos de liderança, centenas de eventos paralelos, webinars e a criação de um site. 

Aqui no Rio, a Prefeitura preparou um evento chamado Rio+30, fez lançamento no Museu do Amanhã, mas em julho decidiu cancelar, segundo o site, “para evitar que um evento dessa magnitude interfira no processo eleitoral deste ano”.

Não sei quanto a vocês, mas eu esperava ocasiões em que, de fato, o tamanho do problema ambiental que estamos enfrentando fosse debatido com a urgência que merece.  Como se não bastasse, eis que surge uma notícia alarmante: o novo governo – conservador – da Suécia anunciou esta semana o fim do Ministério do Meio Ambiente na formação do Executivo.

“Desde 1987, o país nórdico tem um ministério separado para tratar dos temas ligados ao meio ambiente. Esse legado agora é posto em xeque depois de o primeiro-ministro Ulf Kristersson decidir que a nova responsável pela agenda ambiental, Romina Pourmokhtari, de 26 anos, se reportará ao Ministério de Negócios e Energia, sob comando da vice-primeira ministra Ebba Busch”, diz a reportagem da Bloomberg publicada no site do jornal O Globo do dia 19 de outubro.

Vou poupá-los de mais comentários a respeito desta iniciativa do conservadorismo em destruir o ícone do meio ambiente e tudo o que isto representa.

No momento, estamos às vésperas de mais uma Conferência das Partes sobre o Clima, a COP27, que vai acontecer na cidade de Sharm El Sheikh, no Egito, de 6 a 18 de novembro. Naomi Klein, a ativista ambiental canadense que já apontou como “retórica inútil” – não sem razão – alguns dos debates que recheiam as COPs, acaba de divulgar um artigo no jornal britânico “The Guardian”, em que denuncia: “O Egito de Sisi (atual presidente daquele país) está fazendo um grande show de painéis solares e canudos biodegradáveis ​​antes da cúpula climática do próximo mês – mas, na realidade, o regime prende ativistas e proíbe pesquisas”.

Para deixar claro o tamanho do problema que não está sendo resolvido, sequer atenuado, conferências após conferências, Naomi Klein cita as inundações que deslocaram 33 milhões de pessoas no Paquistão e mataram 1,2 milhão um mês atrás.

Enquanto isto, e aí o comentário é meu, as nações ricas estão envolvidas em guerras de territórios, de quem tem mais poder, e sobre qual cultura vai prevalecer entre as demais. Bilhões de dólares estão sendo investidos em armas, munições e infraestrutura que poderiam aliviar a tragédia em países pobres alvos de eventos extremos.

Este é o tamanho da minha frustração. Alguém compartilha?

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Sobre natureza e política

Morreu Bruno Latour. A amiga Luciana Medeiros perguntou-me, logo cedo pelo WhatsApp, se eu o conhecia. Busquei na estante o livro “A política da natureza”, escrito por ele em 2004, que chegou ao Brasil, editado pela Unesp, em 2019.  Reli alguns pedaços e, à medida que o dia foi passando, fui me aproximando novamente do pensamento do antropólogo francês, conhecido  como o filósofo da ecologia política. Latour ofereceu ao mundo, enquanto esteve por aqui, chances inauditas de reflexão sobre nosso modelo de bem viver, inclusive durante o isolamento provocado pela pandemia da Covid19:

“Estamos dentro da terra, não em um espaço infinito. É algo que sabíamos, mas havíamos esquecido”, disse ele em entrevista.

Não se sabe ainda o motivo da morte de Latour.

Estranhamente, ao mesmo tempo que, enquanto fazia as tarefas cotidianas, a memória do que eu havia lido sobre Latour ia se ampliando, outro pensador passou a me rodear: Baruch Spinoza. O filósofo holandês escreveu um tratado sobre a Ética, no século XVII. Ainda tão atual.

Spinoza foi anatemizado pela forma como compreendia Deus: “Compreendo um ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita”.

Vou ousar resumir: para Spinoza, Deus “é” todas as coisas. Não “está” em todas as coisas. A natureza, portanto, é Deus. Os seres, que agora conhecemos como biodiversidade, todos, são Deus. E isto muda muita coisa. Porque nos empodera, nos põe num lugar responsável. Ética, para Spinoza, é relação com todo o nosso entorno.

Talvez por ser domingo, por estar chovendo, talvez por estarmos vivendo um período extremamente delicado, sensível, da política, fixei-me numa frase inicial de “Políticas da natureza”, o qual recomendo a leitura. Diz Latour: “Não existe, de um lado, a política e, de outro, a natureza”. É, portanto, uma questão de relação. Ou, como queria Spinoza, de ética.

Nos últimos quatro anos, sabemos bem que este princípio não foi, nem de perto, preservado pelos ocupantes do poder em Brasília.  O saque à natureza foi de tal maneira que até mesmo as Unidades de Conservação têm tido sua vegetação alterada, segundo estudo feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado hoje no G1. Sob o leite derramado, não se chora. Sendo assim, vamos adiante.

Fiquei satisfeita quando li, no programa de governo do ex-presidente Lula, a menção a “produzir e consumir de forma sustentável e mudar o padrão de produção e consumo de energia no país, participando do esforço mundial para combater a crise climática”. Fiquei satisfeita também quando a senadora Tebet, agronegocista que está apoiando a candidatura Lula, chamou de “tese equivocada” , aquela que diz que agronegócio e meio ambiente são opostos. Tebet afirma: “sem chuva não há safras”. Portanto, há prejuízo.

Estamos falando sobre política, meio ambiente e economia, tudo num pacote só. Se não for retórica inútil – perdão a todos, mas temos o direito de desconfiar – o momento pode estar corroborando o pensamento de Latour:

“Agora que os movimentos ecológicos nos anunciam a irrupção da natureza na política, será necessário imaginar, o mais das vezes com eles e algumas vezes contra eles, o que poderia ser uma política enfim livre desta espada de Dâmocles: a natureza”, escreveu ele.

Termino querendo agregar com o pensamento de outro ecologista, o Papa Francisco. Em sua Encíclica, publicada em 2015, chamada “Laudato Si”, ele faz uma rigorosa visita às questões climáticas e da natureza. E lembra, no primeiro capítulo, a fraqueza da reação política internacional  para assegurar a proteção dos ecossistemas.

 Papa Francisco explicita a necessidade de “construir lideranças que apontem caminhos” , garante que “não existe só um caminho de solução”.  E adverte sobre o equívoco de se pensar a biodiversidade como um “reservatório de recursos economômicos que poderia ser explorado”.

O valor real das coisas é que precisa ser considerado, diz o Papa. Estamos neste momento.

Precisamos voltar a dar valor ao ser, ao outro, àquilo que podemos fazer, no coletivo, contra o mal maior. Quer este mal esteja personificado num político anti-democrático, quer nos eventos extremos causados por danos à natureza. É nossa responsabilidade também.

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