A desigualdade e seus métodos

Se você acha que o mundo está desigual demais, espere até saber disso. Uma pesquisa feita por uma empresa britânica, a Knight Frank, demonstrou que, ao longo da próxima década, ocorrerá uma transferência massiva de riqueza, à medida que a geração silenciosa e os baby boomers entregarem as rédeas aos millennials, nome dado às pessoas nascidas entre 1981 e 1995.  A mudança fará com que 90 bilhões de dólares em ativos sejam transferidos entre gerações apenas nos Estados Unidos, tornando os millennials ricos,  a geração mais rica da história.

A notícia foi dada pela colunista Marta Gil, do jornal britânico “The Guardian”, e ela revela que tal transferência de renda vai agravar um dos maiores problemas que já nos ronda. Ou seja, o fator determinante do sucesso da geração millennial é, cada vez mais, se a pessoa nasceu rica ou não. E isto vai perpetuando a desigualdade.

Solução? Pasmem: a colunista fala em imposto sobre herança, um assunto que rondou os representantes dos países ricos nas reuniões prévias do G20 que aconteram no Rio de Janeiro no mês passado. Nosso ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu a criação de uma tributação progressiva para bilionários, o que pode ser mais ou menos a mesma coisa.

Sabem o que é mais interessante em toda essa história? Em janeiro de 2020, portanto ainda antes da pandemia de Covid-19, o Fórum Econômico Mundial de Davos, reunião de líderes empresariais e chefes de nações que acontece anualmente na Suíça, recebeu uma carta assinada por 120 milionários e bilionários do mundo, destacando os efeitos nocivos da desigualdade e exigindo impostos mais altos para os ricos, além de um esforço internacional para acabar com a evasão fiscal.

De lá para cá, todos os Fóruns de Davos – eles acontecem anualmente –  recebem uma carta parecida. A imprensa cobre, analistas analisam, e tudo continua como dantes. Talvez o texto desta colunista  britânica, publicado ontem no “The Guardian”, esteja sinalizando alguma mudança, em algum nível, em alguma medida.

Não quero ter esperanças, mas reproduzo aqui a fala de Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, a quem procurei para compartilhar reflexões em 2020. A Oxfam é uma organização voltada, entre outras coisas, para analisar a questão da desigualdade social no mundo. Anualmente, lá mesmo no Fórum de Davos, a Oxfam publica uma pesquisa sobre o tema. Neste ano, o estudo publicado conclui algo parecido com o que Marta Gil denuncia:  uma nova aristocracia econômica está surgindo.

“A riqueza dos cinco maiores bilionários do mundo dobrou desde 2020, enquanto a de 60% da população global – cerca de 5 bilhões de pessoas – diminuiu nesse mesmo período. Se o cenário geral não mudar, em dez anos teremos o primeiro trilionário, mas só conseguiremos acabar com a pobreza em 230 anos!”, diz o relatório da Oxfam, que pode ser lido em profundidade aqui.

Bem, mas se os super ricos estão escrevendo até carta para pedir que sejam taxados, se o ministro Haddad endereçou a questão na reunião do G20, será mesmo que não se pode ter esperança de que a situação possa ser revertida?

Com a palavra, Katia Maia:

“Esta carta, em resumo, diz o seguinte: vejam a que ponto chegamos, em termos de desigualdade no mundo. Tem uma parte dessa turma de milionários e bilionários que está mesmo impressionada com o nível de riqueza que está gerando riqueza em cima de riqueza. Essas pessoas estão, realmente, se assustando. Veja o Bill Gates, por exemplo: ele dobrou a fortuna dele desde quando saiu da Microsoft até agora. Isto é resultado de juros sobre juros, lucros, dividendos. Não é produção, não é valor agregado para a sociedade. É só riqueza gerando riqueza! Acredito que esta carta pode ter o efeito de avançar nesse debate. É animador”

Considerando que esse depoimento foi de 2020, e que estamos vivendo um cenário onde há mais pessoas, além de cartas, pensando em formas para diminuir a desigualdade, talvez seja mesmo um aditivo para nossa esperança. Vamos acreditar nele.

  • Este texto foi primeiramente publicado no site da Escola Monte Alegre.
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Exposição usa sentidos, afeto, simpatia, para aproximar o público do meio ambiente

No universo da atualidade, onde reinam as “tendências”, não sei se posso chamar assim o fato de, recentemente, chegarem a mim escritos e outras formas de comunicação,  trazendo para o campo das emoções as muitas sequelas que nosso rastro está deixando no planeta. Nós, os humanos, seres mais predadores, única espécie capaz de destruir seu próprio habitat. Nós, a humanidade, diante do maior desafio de todos os tempos: os efeitos causados pelas mudanças do clima.

A pergunta recorrente é: o que podemos fazer? Abre-se uma espécie de caixinha, da qual saem reações as mais diversas e singulares.

Há quem aposte no acúmulo de dados e informações. Tantas toneladas de emissões de carbono a mais do que nos tempos da Revolução Industrial e muito mais do que somos capazes de suportar; tantos metros a mais de aumento do nível do mar; tantas espécies em risco e já extintas. Uma numeralha que pode servir, para nós, não cientistas, apenas como prova de que, sim, temos sido insensíveis ao meio ambiente. E aí, resta-nos o debate e, não raro, uma indefectível postura dos fracassados diante da tragédia iminente.

Outros, os militantes guerreiros apegam-se à certeza de que ainda é possível mudar, e de que podemos fazer “nossa parte” com pequenas atitudes cotidianas.

 Mas há também aqueles que, acomodados, aceitam o fato de que está tudo muito ruim, mas ainda tem espaço para piorar. São pessoas que estarão sempre por perto para lembrar aos militantes que de nada adianta diminuir o tempo de banho se a indústria está aí gastando água a rodo.

Mas eu falava em nova tendência (para usar a expressão da vez), que pode agregar a esses perfis uma alternativa: a emoção. Percebo, no meu dia a dia de trabalho, que o tema do meio ambiente tem sido revestido com boas sensações, no lugar do tom apocaliptico de sempre. Talvez uma fórmula mais adequada para se conseguir adeptos à causa.

Estou me referindo, por exemplo, à coleção de livros do neurobiologista vegetal Stefano Mancuso, que nos põe em contato com a alma das plantas e deixa os leitores mais sensíveis apaixonados por elas. Falo também sobre o recente livro do colombiano Efrén Giraldo, ‘Sumário das plantas oficiosas”, que faz um relato, além de informativo, bonito, bordando emoção entre as plantas que ocuparam sua vida até hoje. É um livro a ser degustado, como eu disse aqui.

Giraldo me levou a conhecer a linda fábula “O Homem que plantava árvores”, escrita em 1953 pelo francês Jean Giono, mas publicada apenas nos anos 80. Um livro bonito e muito emocionante, que deixa nos leitores um desejo quase irrefreável de sair por aí plantando mudinhas.

Na mesma linha, aceitei o convite e fui ontem ao pré-lançamento para imprensa e convidados, da exposição “Sentir mundo – uma jornada imersiva”, no Museu do Amanhã, que será aberta ao público no dia 30, a próxima terça-feira. Com perdão pela extensa introdução, que achei necessária para localizar o leitor, é sobre esta exposição, um recorte do projeto idealizado e desenvolvido pelo Sensory Odyssey Studio, em coprodução com o Muséum National d’Histoire Naturelle, que vou focar este texto.

A proposta da mostra, criada em 2016 pelo francês Gwenael Allan, Ceo do Sensory Odissey Studio, é justamente “provocar uma energia positiva, que as pessoas saiam com vontade de agir, sentindo-se parte do meio ambiente”. O público alvo, disse-me Gwenael em rápida entrevista que me concedeu, são as crianças. “Mas quero alcançar também a criança que existe em cada um de nós, adultos”.

“Minha motivação, ao pensar a exposição, foi atrair as pessoas que não visitam os Museus de História Natural em todo o mundo. A ideia foi fazer uma produção que ajude a criar um laço afetivo entre o homem e a natureza. Que as pessoas saiam daqui não com culpa, mas com simpatia, com uma sensação de bem estar. As crianças, é claro, são nosso publico alvo, mas queremos atrair os adultos também”, disse-me ele.

A criação de Gwenael Allan, de fato, consegue criar empatia. São três ambientes distintos, mas que dialogam. Logo no início, depois de passar por um corredor escuro que mais parece um trem fantasma, o visitante se encontra no “dossel da floresta”. É um espaço com imagens em 360 graus, projeções em alta definição que vai dando a sensação de estar em cima de uma árvore e  vir descendo nos galhos até o chão.

A segunda área temática nos leva por dentro do solo. Também com projeções, conseguidas com câmeras de altíssima definição  – segundo Gwenael, capazes de obter mil a duas mil imagens por segundo – e microfones altamente sensíveis, o visitante é apresentado a um mundo com seres sobre os quais pouco pensamos. Roedores, fungos, formigas, larvas. Acompanha-se, por exemplo, o momento em que um cogumelo floresce, até seu empalidecimento.

 Meu canto preferido foi o último, chamado de “dança dos insetos”. Se o visitante tiver sorte de ir num dia tranquilo – a exposição vai até junho, tem tempo – e conseguir se sentar para acompanhar as imagens, vai sair extasiado. E sim, é possível criar empatia com aqueles insetos, acompanhar seu movimento de polinização. Trago na mente o momento em que um Louva-a-deus captura uma joaninha e a come como se estivesse degustando um saboroso sanduíche. Abelhas fabricando o mel, pólen sendo aspergido, uma lagarta em seu caminhar, tudo isso você poderá acompanhar, com direito ao som característico de cada movimento. (Vejam a foto abaixo).

Como a proposta é ser uma exposição multissensorial, em todo o trajeto o visitante vai sentir odores variados: grama molhada, floral, musgo. A ideia, segundo Amarilis Macedo, coordenadora de exposições e conteúdos do Museu do Amanhã, foi “mostrar que os aromas fazem parte da comunicação entre os insetos e as plantas”.

“É para ativar nossos sentidos e chamar atenção para a capacidade sensorial da natureza”, disse-me Amarilis.

A rigor, tais saberes ambientais deveriam chegar aos nossos jovens e crianças de maneira natural, pura. Mesmo com toda a simpatia que se possa ter aos bichinhos voadores com os quais passamos algum tempo na sala escura, acaba sendo mesmo através de uma tela que fazemos esse contato. Mas, vamos pensar que é infinitas vezes melhor isso do que expor-lhes imagens de bichos enjaulados, mesmo nesses novos espaços que fingem ser ‘mais humanos’ mas que, no fim e ao cabo, são Zoológicos.

Sendo assim, minha sugestão é: aproveitem esse finalzinho de férias misturado ao período carnavalesco e levem seus jovens e crianças a sentirem o mundo nessa exposição. Na saída, vale parar para ver as caixas entomológicas que o Museu Nacional preparou, resultado de uma boa parceria com a mostra, que já esteve na França e em Singapura. E vale ainda ler, em parceria, alguns dos textos selecionados para fazerem parte do painel informativo da exposição.

Aqui vai o meu texto preferido desse conjunto: “Os cheiros atraem os insetos. Mas os aparatos que as moscas têm para senti-los são diferentes dos aparatos das abelhas”.

E viva a diversidade!

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Um livro que leva à reflexão sobre a relação entre homens e plantas

A leitura de ‘Sumário de Plantas Oficiosas – Um Ensaio sobre a Memória da Flora”, recém-lançado pela Editoria Fósforo, exige delicadeza e tempo. Sim, eu sei que estes são dois grandes desafios para nossa era de poucos caracteres e de muita celeridade. Mas o bônus que se ganha com a leitura que estou sugerindo, não é apenas a leveza do corpo, garantia da respiração mais lenta e da contemplação. O autor, o professor colombiano Efrén Giraldo, borda com as palavras, mesclando em seus desenhos de pura emoção e poesia, as plantas, seus nomes científicos, hábitos e habitats. Assim,  reserva aos litores também um jorro de emoções, fenômeno também pouco usual em tempos de tantas comoções uniformes extraídas sob o manto das representações.

Diferentemente do italiano Stefano Mancuso, pioneiro da neurobiologia das plantas, que nos oferece as entranhas comportamentais da flora, Giraldo vive com elas uma relação desde a infância. E vai contando aos leitores passagens sensíveis de sua história. Um menino criado em Antioquia, na Colômbia, sem recursos financeiros, mas com uma imensa e diversa bagagem de cultura sobre as riquezas naturais.

Caiu-me um cisco no olho, por exemplo, quando ele compartilha a história de um conto de Tomás Carrasquilla, escrito em 1915, que ouviu quando criança e do qual nunca mais se esqueceu. Narra a triste vida de Maria Engracia, uma mulher que só tinha um teto para se aninhar, sem mais nada, sem um enfeite a lhe colorir os dias. Vivia da caridade alheia. Um dia, uma planta quase morta caiu de um caminhão de mudanças, e Maria a recolheu, cuidou dela, a planta reviveu, ficou tão linda que toda a vizinhança vinha visitá-la para ver e comentar a respeito.

Nessa relação entre pobreza e flora, o conto vai anunciando a mudança na vida de Maria Engracia, que também parece ter recuperado o gosto pela vida, já que foi tão gentilmente agraciada pela reabilitação da planta. Àquela altura, ela já tinha uma folhagem e umas flores roxas, belíssimas.

“A história termina quando o dono do cortiço onde ela mora a expulsa e destrói a planta. Maria Engracia adoece e morre de depressão, mas não sem antes ser assistida pela visão da trepadeira, que lhe faz uma espécie de arco para entrar no paraíso”, conta Efrén Giraldo.

Num capítulo inteiro, o professor, que escreveu parte do livro durante o tempo de confinamento por conta da epidemia de Covid-19, exalta a experiência do herbário de Emily Dickinson, a poetisa norte-americana do século XIX, de cuja vida pouco se sabe. Como não dar valor a tanto esmero produzido por uma menina de 14 anos e sua mãe, colhendo e catalogando flores do entorno da casa onde viveu quase reclusa os 56 anos de sua vida?

“Flores, cartas e poemas são mais do que emissários de uma reclusão inexplicável e se convertem na mensagem sempre presente de quem dizia que suas obras eram cartas para um mundo que nunca lhe escreveu”, conta Giraldo.

Já tentei explicar para mim mesma o motivo de um título tão comprido e pouco atraente para um livro tão sensível. Por mais que tenha sido uma certa tendência a buscar leitores poucos e  bons, e se isto é verdade e não uma simples conclusão desajeitada de minha parte, fato é que Efrén Giraldo não chegou a mim, aqui no Brasil, à tôa. Sua obra (sim, uma obra literária) ganhou o prêmio de não ficção Latinoamérica Independiente em 2022. De lá, tomou o mundo… bem, na verdade, rompeu os limites de seu país, foi traduzida para o português e cá está, já morando em lugar cativo e de destaque na minha estante.

Como sabem  os que me acompanham aqui neste espaço (e no blog Ser Sustentável), meu objeto de pesquisa e de estudo é o meio ambiente. Ou o desenvolvimento sustentável, o ecodesenvolvimento… Enfim, a relação do homem com a natureza (evito falar ao redor, porque a expressão já pressupõe que somos o centro) é o que me interessa. Neste sentido, eu me pergunto o valor agregado de um livro que trata das plantas de forma tão poética, à causa do meio ambiente.

Contato. Este é o valor.

O autor tem um estilo quase de diário, em certo momento do livro, levando-nos a caminhar com ele, descobrindo com ele, no entorno de sua casa, as espécies que mais chamam a sua atenção. Aqui e ali ele encontra uma planta que merece uma história. E essa história se entrelaça com a dele:

“As sementes da laranjinha-do-mato ficaram em minha família por gerações e passaram de uma casa a outra, então, quando vejo os pássaros barranqueiros pegando as esferas alaranjadas na ntrada de serviço, imagino que a mão de minha avó ainda abençoe seeu legado através dos arvoredos em que os pássaros cumprem pontualmente sua tarefa de propagação”.

E assim ele vai atestando – sempre com o auxílio de autores que nos enriquecem o tempo todo, tanto que sugiro a leitura desse livro com lápis e papel nas mãos, para anotar as dicas –  o imenso valor nessa relação do homem com a natureza, neste caso ilustrada pelas plantas. É quando eu me pego pensando se não é isto que falta para que, de fato, o aquecimento global, as questões climáticas, passem a ser vistos não como dados meteorológicos apenas, mas como fenômenos intrínsecos ao nosso cotidiano. “Um grau de envolvimento com a natureza que nos faz participar dela”.

Logo no início do livro, Efrén Giraldo confidencia aos leitores como nasceu a ideia do livro: foi quando, em agosto de 2020, por ocasião do 75° aniversário do bombardeio de Hiroshima, ele viu uma reportagem mostrando que árvores sobreviventes à tragédia provocada pelos humanos continuavam a florescer. É nessa resiliência (inexplicável?) que os ambientalistas acreditam quando informam, a quem interessar possa, que o planeta não precisa ser salvo. Ele vai dar seu jeito e sobreviverá a esses predadores humanos que aos poucos vai expulsar.

“A questão é como provocar uma ruptura radical de nossas rotinas para agenciar a transformação das instituições”.

  • Este texto foi originalmente publicado no site da Casa Monte Alegre
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Águas no Rio, lavas de vulcão na Islândia. Onde está o erro da humanidade?

Acompanho, desde cedo, os alertas do prefeito Eduardo Paes à população por causa das fortes chuvas que caem sobre a cidade. As pessoas têm que ficar em casa, o ensaio de escolas de samba, que costuma acontecer no Sambódromo, foi cancelado (ponto positivo para a administração municipal). É preciso evitar as áreas alagadas, que são muitas. A chuva que caiu de ontem para hoje superou, novamente, todos os índices pluviométricos de que se tem notícias até hoje.

Esta foto mostra a situação da cidade islandesa . É do jornal https://www.mbl.is/frettir/

Não vou me esmerar em buscar números para provar que choveu muito. Os Serviços Meteorológicos já estão alimentando as notícias dos sites, fartamente, com esses dados.

O que me interessa aqui, como sempre, é refletir sobre a relação homem/natureza. Ou homem e meio ambiente, expressão que ficou mais forte na Conferência de Estocolmo, 1972, cujo relatório final se transformou num livro de rara riqueza histórica – ‘Uma Terra Somente’, escrito por Barbara Ward e René Dubois – cujo exemplar não sai aqui da minha estante mais próxima.

Naquela época, reunidos em torno de um tema ainda pouco experimentado, líderes das Nações Unidas falavam em “meio ambiente humano’. O livro é uma compilação de tudo o que foi discutido na primeira Conferência mundial sobre o clima, e a folhas tantas há a recomendação:

“Um consultor pede especificamente aos autores de ‘Uma Terra Somente” não permitirem que o corpo editorial reduza o livro a uma simples narração de fatos porque a salvação dependerá, afinal, de um despertar emocional”.

O pedido foi respeitado. E os autores concluem, em quase todo o texto, que “o estabelecimento de um ambiente humano desejável significa mais que a manutenção do equilíbrio ecológico, que o controle econômico dos recursos naturais e mais que o controle das formas que ameaçam a saúde biológica e mental”. Sabe-se hoje, certamente, o que ficou entendido como ‘controle econômico dos recursos naturais’. É o tal desrespeito às leis do ‘ambiente’, que não é apens “humano’, como também já se sabe muito bem hoje.

As chuvas intensas são provocadas pelas mudanças climáticas, e disso ainda não se tinha noção em 1972. Mas naquela época o cheiro de que alguma coisa precisava ser feita para manter a “saúde’ já se sentia forte.

Houve muitos estudos de lá para cá, mas um fenômeno (teria sido inesperado?) atravessou as boas intenções dos líderes da época:  a população mundial saiu dos 4 bilhões para os atuais 8 bilhões, ou seja, o dobro de pessoas habita o planeta, meio século depois. Muita gente junta, sinônimo de problemas, certo?

Não é bem assim. Isto não deveria ser o problema, lembra Barbara Duden,  historiadora médica alemã, estudiosa de estudos de gênero e professora emérita da Universidade de Hannover, em artigo no “The Development Dictionary” (Ed. Z). Duden faz uma retrospectiva sobre a mudança do significado da palavra “população” desde os anos 50.

A historiadora chama atenção para o uso da palavra desenvolvimento, sempre associada a coisas boas, em contraponto ao “uso indevido e injustificado’ da palavra “população”, que se tornou, praticamente, a necessidade de um extermínio das pessoas no planeta.

“População não agrega valores, mas pessoas que se reproduzem, poluem, consomem, produzem e, para o bem comum, precisa ser controlada”, escreve ela.

A conclusão é: o planeta não comporta mais tantas pessoas. Mas, de fato, o que se quer “controlar” é o nascimento de mais pessoas de países pobres. Em vez de construir um planeta possível para oito, nove, dez bilhões (chegaremos lá no fim do século), a ideia é que se contenha, que se refreie o nascimento de mais cabeças que, no fim e ao cabo, podem ajudar, com sua cratividade, a encarar o problema de forma mais humana.

Trazendo novamente o assunto aqui para nosso microcosmo, para a cidade do Rio de Janeiro alagada. Sim, as mudanças climáticas vão intensificar esses fenômenos, o que há muito os cientistas estão alertando. Sendo assim, o que fazer? Um controle de população ou um remanejamento das construções urbanas para evitar que as pessoas morem em áreas de risco, assim como um maior controle do lixo urbano para evitar que os canais sejam entupidos e não deixem escoar as águas da chuva?

Acertou quem marcou a segunda opção. E por que isso não é feito? Bem, aí precisaremos andar mais ainda na História do mundo ocidental, que se apegou a um sistema econômico decididamente a favor da acumulação, não da distribuição de riquezas (e não estou falando, por óbvio, das riquezas naturais).

Prefiro me ater ao presente e apresentar aos leitores um outro caso de descontrole urbano que funciona contra a população. Vamos até o outro lado do mundo, à fria Islândia que, hoje, ao mesmo tempo em que aqui lidamos com o excesso de águas, se apavora diante do fogo que sai do vulcão extinto há oitenta anos.

Um vulcão solta lavas de tempos em tempos, e disso sabemos desde que a humanidade desenvolveu ferramentas para estudar as riquezas do planeta. E por que se constrói uma cidade com lindas casinhas, exatamente no caminho que essas lavas percorrem?

Obviamente eu não tenho essa resposta. Mas tenho direito de imaginar algumas condições que levem pessoas a ocuparem alguns espaços. Graças à tecnologia que me proporciona chance de pesquisar em tempo real os dados que busco, fico sabendo pelo Google que a cidade atingida pelas lavas, Grindavik, tem cerca de quatro mil habitantes. Para não ser injusta com nossos problemas, é bom saber também que toda a Região Norte do Rio de Janeiro, a mais atingida pelas chuvas, tem mais de dois milhões de moradores.

Voltando à Grindavik, fico sabendo, também em fontes de pesquisa da web, que a pesca é seu principal meio de sobrevivência. Mas, vejam só: não estamos falando apenas de pescadores artesanais, que pescam para si e, no máximo, para a vizinhança. Grandes corporações já se instalaram ali, e no bojo, pescam também baleias, cuja pesca é uma verdadeira matança, e só serve mesmo para exportar.

Não, não estou dizendo que o vulcão soltou suas lavas em protesto à matança de baleias. Não chego a esse ponto de pensamento “emocional’, como previam nossos líderes em 1972. O que imagino é que o suporte financeiro que tais grandes empresas oferecem aos moradores locais perto de grandes reservas naturais (baleias incluídas) pode dar uma pista, ao menos, que leve à resposta da pergunta que faço acima.

Quanto à cidade do Rio de Janeiro, por ser um território mais próximo e conhecido, vou ousar fazer uma afirmação, com base na leitura de alguns especialistas: o planejamento urbano está bem equivocado. Se tem pessoas demais, é preciso espalhá-las, criar transporte eficaz para conduzi-las de maneira segura ao local de trabalho. É preciso também oferecer meios para que essa população tenha tudo o que precisa perto de casa (escola, hospital, lazer).

E a lista de melhorias urbanas continua, é grande. Não vamos conseguir parar a intensidade das chuvas, porque já mexemos bastante no meio ambiente (que não é propriedade dos humanos somente, gosto sempre de ressaltar). Mas podemos, com toda a capacidade e humanidade (sim, essa é uma boa palavra), tentar meios para nos equilibrarmos diante dos eventos que virão, sem machucar mais tanta gente.

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Texto curtinho só pra dizer… que bom!

Com a irreverência característica, o carioca apelidou de Caribrejo a Praia do Flamengo depois que ela foi declarada limpa pelos órgãos competentes. Na verdade, o que fizeram foi endereçar para o emissário submarino o esgoto que estava sendo lançado na praia. Não sei o que vai acontecer quando e se um dia o oceano não der mais conta e resolver devolver o “presente’.. Mas hoje não é dia para se falar em catástrofe.

Quero dizer que passei uma boa parte da manhã no Caribrejo, eu e meu cachorro, e voltei de lá com a melhor das impressões. Famílias com crianças e cães, casais de namorados, clima de festa, de confraternização. Tinha lá um pessoal com som de funk bem alto, mas não perturbou.

O mar ensaiou algumas ondas para divertir a criançada e o sol se escondeu, a tempo de nos dar chance de respirar sem aquele calor sufocante. Ou seja: tudo conspirando para que a festa da virada no Caribrejo não fique nada a dever da de Copacabana. Se eu fosse turista, daria uma espiada, até para contar coisas novas sobre o passeio à Cidade Maravilhosa.

E, na volta do passeio, a cereja do bolo: peguei um táxi dirigido por Tina. Cilios postiços, unhas idem, idade que se aproxima ou avança os 60. Falante, pero na medida para não irritar o passageiro. Conversa vai, conversa vem, Tina me conta que faz parte de um grupo de taxistas mulheres. No zap, elas estão sempre se perguntando umas às outras como estão as coisas. E, se alguém desaparece por horas, todo mundo se mobiliza pra saber se alguma coisa de ruim aconteceu com aquela.

É o jeito que encontraram de não se curvarem à violência urbana e ganharem seu sustento.

Fiquei pensando que é assim que tem que ser mesmo. Somos 56% vivendo em cidades no planeta, e essa porcentagem vai aumentar. Cidades são redutos de criatividade, de oportunidades, mas também podem se tornar reduto de violência e maus feitos. Para enfrentar tudo isso, vamos precisar criar saídas. Elas existem.

Um novo ano menos quente, mais solidário, com mais saúde e tempo para contemplar tudo aquilo que, muitas vezes, atropelamos sem fazer contato.

(PS): Não tenho foto para este post porque não ando com celular, só quando estou trabalhando. É meu jeito de não sair perdendo muito se um ladrão cruzar meu caminho.

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Frio, vulcão, terremoto, risco de afundar: a Islândia me faz pensar como é bom morar no Brasil

Marcelo está rodando o mundo com a parceira e causando em mim ora inveja, ora alívio por não ser eu a enfrentar os desafios que uma viagem dessas pode trazer. Mas provoca também reflexões. Uma delas compartilho com vocês, na esteira do término da Conferência das Partes 28, que acabou em 13 de dezembro, em Dubai.

Primeiro, vou compartilhar as minhas impressões sobre o que ficou decidido no texto final da Conferência, conseguido, como sempre, a duras penas pelos 193 países que se sentam anualmente, convocados pela ONU, para debater sobre o clima. Em poucas palavras: foi um passo à frente na direção de se tentar a transição energética para conter o aquecimento global.

Mas um passo não é um salto, como bem disse Andrew Deutz, Diretor Geral de Política Global e Financiamento para a Conservação na The Nature Conservancy.

Esta foto é reprodução do jornal islandês Mbl.is / Kristinn Magnússon

Em linhas gerais, o documento acordado entre as partes traz uma linha ligeiramente nova, falando muito mais em adaptação do que em mitigação dos impactos causados pelos humanos ao meio ambiente. Adaptação se traduz, por exemplo, no plano que a Prefeitura do Rio está anunciando, de arborizar parques na Zona Norte do Rio. Isto é tentar oferecer bem estar aos moradores no enfrentamento das ondas de calor que vão ser mais intensas e seguidas.

Um momento considerado significativo para os ambientalistas é que, no documento final, os países presentes na cimeira decidiram que é preciso abandonar os combustíveis fósseis. Vocês, caros leitores, podem estar pensando que isto é apenas uma bobagem, uma promessa boba. Mas esta decisão nunca tinha sido conseguida numa Conferência do Clima, daí a comemoração. E daí tais encontros terem tido sempre uma aura de retórica inútil.

O que não ficou decidido em Dubai foi como se dará esta mudança total de consumo. Nem em quanto tempo isto deve acontecer. De qualquer maneira, finalmente se conseguiu ter um registro, assinado pelos países, atestando aquilo que os cientistas vêm afirmando, no mínimo desde 1988, ano da criação do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês): as atividades humanas causam o aquecimento global com o excesso do uso de combustíveis fósseis.

E é preciso mudar isto. Mas… como?

É claro que há numerosas sugestões sobre a maneira como isto deve acontecer.  Leio muito a respeito e tirei uma conclusão sobre o melhor caminho: ouvir os povos originários. O bizarro é que justamente eles, que já foram chamados de “guardiões das florestas’ pela própria ONU, não têm assento na reunião decisória da Conferência.

Mas hoje vesti a capinha mágica de minha xará Amélie Poulain, e quero pensar que a ficha caiu e que os indígenas vão passar a ter voz.

Uma das premissas dos indígenas é de que é preciso olhar para a natureza como parte do homem. Não por acaso, esta também é a teoria de Stefano Mancuso, escritor e botânico italiano, que tem uma série de livros em que prova, com algumas evidências, que as plantas não sentem, mas pensam. O problema que estamos enfrentando hoje começou a ser criado justamente quando o homem passou a se ver como um ser superior a todos os outros seres vivos do planeta.  Ampliou seus territórios com máquinas e, assim,  eliminou tudo o que tinha à sua frente e servia como um ‘entrave ao seu desenvolvimento’.

A conclusão é tão óbvia quanto parece. Segundo o MapBiomas, os povos indígenas perderam menos de 1% de sua área de vegetação nativa nos últimos 38 anos. Nas áreas privadas, a perda foi de 17%.

Portanto, se alguém pode ensinar como deixar de emitir tantos gases poluentes sem precisar de tecnologias estrambolicas, por óbvio, são os povos indígenas. Como diz Ailton Krenak, o primeiro xamã a ocupar uma cadeira na Associação Brasileira de Letras, as populações indígenas fazem um serviço ambiental melhor do que as unidades de conservação, que precisam manter todo um esquema de fiscalização. As Tis preservam o meio ambiente de graça.

Muito mais foi discutido na COP, algumas novidades surgiram dos debates, entre elas a inclusão da expressão “sistemas alimentares resilientes” no parágrafo sobre adaptação. Para mim, o importante é que, pelo menos aqui no Brasil, a questão sobre os eventos extremos causados pelas mudanças climáticas está, finalmente, mexendo com a opinião pública. Tudo bem que o tema veio à baila por conta dessas ondas de calor que estão nos vitimando, mas não  importa.

Fato é que anteontem (17) foi divulgada uma pesquisa pelo Instituto Datafolha, com dados que mostram que 78% dos brasileiros entendem que as atividades humanas contribuem para o aquecimento global. É um bom caminho para se chegar à necessária mudança de hábitos de consumo.

E aqui eu volto à história do meu amigo viajante e às reflexões que seus relatos têm me propiciado. Eles estão na Islândia, onde no verão a temperatura média varia entre 10 e 14 graus. Lá, praticamente só tem verão (de junho a setembro) e inverno (o resto do tempo).

 No inverno, às 15h já é noite. Deve ser uma luta, por exemplo, para secar uma roupa ou se manter aquecido. A fonte de energia usada na maior parte do país é a geotérmica,  obtida a partir do aproveitamento do calor proveniente do interior da Terra que vai se transformado em eletricidade. Um processo caro e muito barulhento mas, segundo consta, pouco poluente.

Frio, vulcão, terremoto, risco de afundar: a Islândia me faz pensar como é bom morar no Brasil. Será que os habitantes da Islândia – cerca de 350 mil pessoas – temem as mudanças do clima? Ou, muito antes pelo contrário, estão torcendo para que lhes sejam concedidos dias mais quentes?

O país tem um mega dispositivo tecnológico que se destina a sequestrar carbono e faz parte do “Umbrella Group”. Este grupo de onze países (incluindo aí os Estados Unidos e Israel) posicionou-se contrário ao fato de o texto final da COP28 não ter cravado o fim dos combustíveis fósseis, sem mencionar a necessidade de um calendário para isto.

Quando escrevi este texto, o vulcão que hoje está apavorando, com razão, os moradores da cidade de Grindavik, porque decidiu se manifestar depois de 800 anos quieto, ainda não estava tão alvoroçado. Felizmente ninguém se feriu, embora não seja nada fácil imaginar perder a casa e os bens. Bom, aqui no Brasil temos nossos problemas dessa ordem também. E não temos tanta rapidez na hora de consertar as coisas.

Mas, volto à questão: será que a população da Islândia, país com um regime parlamentarista, está interessada em conter o aquecimento? A resposta pode ser sim, considerando que é um país insular e que, como todos os países insulares, está sob risco de sumir sob as águas por causa do aumento dos oceanos.

Tempos difíceis esses que estamos vivendo, não?

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‘Cabaré Coragem’: espetáculo que esquenta, anima e faz pensar

“Amelia, você não é mais a mesma!”

Foi uma auto censura, o que é pior do que se eu tivesse recebido a reprimenda de algum amigo ou alguma amiga.

Explico o motivo de tanto rigor comigo mesma. Tinha acabado de assistir a peça ‘Caberá Coragem’, dirigido por Júlio Maciel, que o Grupo Galpão está encenando no Teatro Rival, Centro do Rio, até dia 10. É um show animado, com uma estética muito interessante, com mensagens de repúdio ao sistema capitalista. O “coragem” do título é uma alusão à “Mãe Coragem e os Seus Filhos”, de Bertold Brecht, e o pensamento crítico do poeta alemão permeia todo o espetáculo.

Sim, é um espetáculo. O Teatro Rival, em algum momento, se mostra até pequeno. Não só por causa das estripulias dos personagens, como por conta do som, que fica muito alto, sobretudo para quem está perto do palco. Era o meu caso. Começa aí o caminho para minha autocensura.

Assim que entrei no Teatro, que por sinal está lindo, pedi uma cervejinha  para saborear o momento. E o som alto começou a me provocar uma leve sensação de desconforto, que foi se ampliando, não a ponto de não me deixar curtir o espetáculo. Mas, quando os atores chamaram a plateia para interagir, dançando no palco durante o intervalo, eu me acanhei.

Não sou de dizer “no meu tempo’, porque meu tempo é hoje, agora, vivendo a intensidade da vida. Mas reconheço e respeito os limites que o tempo vai impondo ao meu corpo. Se eu tivesse menos tempo de vida, certamente teria pulado para o palco e aproveitado – aí sim! – o som bem alto que impulsionava quem quisesse dançar. Percebi até um casal bem heterogêneo – ele com roupa de executivo, ela bem dançarina – e fiquei pensando que ela o teria animado. Que delícia.

Animação é algo que não falta à festa/espetáculo do Grupo Galpão, e vale a pena assistir. Estamos precisando disso.

Penso que a bronca que me dei na volta à casa veio também na esteira de um certo mau humor provocado pelo absurdo desse alto verão extemporâneo aqui no Rio. Não no Rival, lá estava bem climatizado. Mas o calor está no ar, nos persegue pela cidade, e ainda exalava do chão, das paredes, à hora da saída do teatro, pouco depois das 21h. Parecia que eu estava em Cuiabá, Centro do Brasil. Lá, sim, é que sempre registra as maiores temperaturas. O Rio, gente!  O Rio… tinha que ter uma brisa a nos afagar depois de um dia de 40 graus, que hoje já são 50. Não há bom humor que resista.

Está ficando difícil achar graça nas coisas, e aí já traço o bordado do rumo da prosa com meu tema de estudo: as alterações climáticas. Não vou aqui repetir  o que os leitores estão lendo diariamente nas telas, nos sites de notícias. Trago apenas reflexões, de uma jornalista que cobre o assunto há vinte anos: sim, em 2003 foi para as bancas o primeiro ‘Razão Social”, caderno que eu editei no Globo por nove anos e que abordava o tema sob todos os aspectos, econômico, social, ambiental.

Quando se começou a falar sobre os impactos do aquecimento global, das mudanças do clima, a expressão mais usada era: “vamos salvar o planeta”. Hoje já se sabe que não é o planeta que precisa ser salvo, porque ele vai dar um jeito de expulsar daqui os seres que cometeram a gafe de não perceber que não são os únicos seres vivos a habitá-lo, e que deveriam ter respeito aos demais.

Reunidos na COP28, na esfusiantemente poluidora e quente Dubai, os líderes de empresas e nações estão tentando chegar a um acordo para minimizar os danos. Mas, vejam bem: o que está feito, está feito. O que estamos vivendo hoje no Brasil, e que a Europa viveu no verão, é o efeito El Niño (aquecimento do Oceano) embalado pelas mudanças do clima. E tudo que vem embalado pelas mudanças do clima fica mais intenso. Vimos isso acontecer, por exemplo, quando a ciclovia irresponsavelmente construída à beira mar carioca enfrentou sua primeira ressaca. Caiu, simples assim.

E vamos continuar usando petróleo, escavando para buscar petróleo? A resposta é uma só: sim. Porque o mundo se fez dessa forma, dependente do petróleo, em meados do século XIX.

E vamos continuar desmatando as florestas? Sim, porque muitos precisam ainda ganhar dinheiro com o que retiram de lá, e não há movimentos verdadeiramente robustos para se mudar isto por enquanto.

Estou sendo pessimista demais? Sim. É o calor.

Como sempre, estamos à espera do documento final da COP. O texto será seguido de comentários de ambientalistas, a maioria dizendo que ‘poderia ser mais ousado, mas que já se adiantou alguma coisa”. É nesse avanço que se aposta, e que as gerações futuras saibam disso. Aparentemente, a humanidade acordou, porque os eventos extremos alcançaram terras mais conhecidas, mais ocupadas pela ponta da pirâmide social.

E sabe quem consegue sistemas naturais e certeiros para lidar com todo esse cenário? Os indígenas. Mas… eles não têm assento na sala das decisões da COP28.

Hoje li um estudo, desses muitos que estão nos ofertando boas informações sobre o clima ultimamente, que dizia que o calor excessivo tem causado um aumento dos casos de suicídios. E hoje também, no supermercado, ouvi de uma senhora um lamento que me comoveu. Disse-me ela: “Se vai ser assim a vida, acho que vou preferir morrer mais cedo. Está muito ruim esse calor’.

Não concordei com ela. Penso que a vida vale a pena de qualquer jeito. Mas me emocionei.

A boa notícia é que já vem uma frente fria, e a partir de amanhã os termômetros vão baixar. Acho que, com a temperatura do corpo um pouco mais sensata, eu teria me aventurado a dançar um pouco no palco do ‘Cabaré Coragem’. Vou guardar essa vontade para a próxima vez.  

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Livro mostra a importância das florestas para a humanidade

Adoro livros. E há os que me emocionam, como neste caso. Em “Megaflorestas – Preservar o que temos para salvar o planeta”, o economista John W. Reid e o biólogo Thomas E. Lovejoy (Ed. Voo) oferecem, de forma emocionante, um quadro real sobre a importância de se preservar as florestas e, assim, ajudar a humanidade a continuar vivendo no planeta. Foi lançado ontem (28). 

Thomas Lovejoy não conseguiu ver a obra pronta, foi vencido por um câncer em 2021. Fiz uma entrevista com John Reid para o site #Colabora (https://projetocolabora.com.br/ods15/livro-revela-as-entranhas-das-cinco-maiores-florestas-do-mundo/) , e reproduzo abaixo. Se me permitem, quero sugerir, inclusive, que o livro seja um bom presente de Natal para uma pessoa que se interesse pelo tema. Vai ser um presente muito bem vindo.

“No dia 30 de novembro, o Brasil estará com uma delegação de mais de duas mil pessoas em Dubai, para a abertura da Conferência da ONU sobre o Clima, a COP28. Na avaliação que o embaixador Andre Correa do Lago fez em briefing para a imprensa no dia 20, o país chegará aos Emirados Árabes com “uma situação interna confortável por causa da redução do desmatamento”. O Prodes estimou queda de 22,3% no período de agosto de 2022 a julho de 2023 em relação ao período anterior, de agosto de 2021 a julho de 2022.

O foco dos líderes que se reunirão, convocados pela ONU, é baixar as emissões de carbono. E, como todo mundo já sabe, preservar as florestas é uma solução simples para alcançar esta meta.

Dois dias antes do início da COP28, será lançado o livro “Megaflorestas – Preservar o que temos para salvar o planeta”, no qual seus autores, o economista John W. Reid e o biólogo Thomas E. Lovejoy (Ed. Voo) oferecem de forma pungente, emocionante, um quadro real sobre a importância de se preservar as florestas e, assim, ajudar a humanidade a continuar vivendo no planeta. John  e Thomas não fizeram a pesquisa para escrever o livro no conforto de seus escritórios, encerrados em ambientes climatizados. Foi o contrário disso. Eles meteram o pé na estrada para nos ajudar a “abandonar o hábito de transformar florestas em paisagens de capim, arbustos, poeira e asfalto”.

Thomas Lovejoy, vencido por um câncer em 2021, não conseguiu ver a obra pronta, que ganhou um prefácio assinado pela ministra Marina Silva, do meio ambiente. Marina destaca a emoção contida no livro – “é um alimento para a esperança” –  onde os autores descortinam para o leitor o mundo desconhecido das cinco maiores florestas do mundo, às quais eles deram o nome de megaflorestas.

Taiga, a maior de todas, é chamada de floresta boreal e fica quase toda na Rússia e se estende também pelo continente europeu. A outra que recebe o mesmo atributo, por causa de Bóreas, deus grego do vento norte, é a Zona Boreal norte-americana, que começa no Alasca e se estende pelo Canadá. A floresta de Nova Guiné, ao norte da Austrália, é a menor das megas. Segue-se a floresta do Congo, no Centro da África, e a Amazônia, que segue por oito países independentes.

Thomas e John conversaram com muita gente e trazem, para nosso deleite, algumas informações fantásticas. Um exemplo é o do besouro-caçador-de-incêndio. O bichinho usa detectores de infravermelho no tórax para encontrar árvores queimadas e se põe à caça logo após um incêndio. Enquanto olhamos impactados a destruição causada pelo fogo, seres vivos se refestelam com as iguarias tostadas. É o ciclo da vida.

Além da descrição dos lugares visitados, os dois autores compilaram também muitos dados, a maioria que não nos causam orgulho da raça humana.

“Somente a perda de florestas tropicais emitiu cerca de 5 bilhões de toneladas métricas de CO2 anualmente na primeira década dos anos 2000. Para se ter ideia, o volume é maior do que todas as emissões da União Europeia no mesmo período”, contam.

Para se alcançar a meta que os líderes das nações buscarão atingir – aquecimento contido em 1,5 grau – os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês) recomendam que a perda de florestas seja completamente interrompida até 2030, lembram Thomas e John.

“Assim como a transpiração resfria o corpo humano, a água transformada em vapor absorve energia e resfria o ambiente circundante. É possível sentir este efeito de ar-condicionado no interior da floresta, mais fresco do que um local sombreado sem árvores como, por exemplo, sob um toldo”, relatam eles, parte do que viveram.

O livro tem 326 páginas, e é impossível fazer um resumo dos melhores momentos, porque há muitos deles. Daí ser uma publicação que merece estar na estante, não só de quem estuda e analisa o tema, mas também de jovens que merecem entender a profundidade do imbróglio em que a humanidade se meteu desde que resolveu encher o céu e os oceanos de carbono.

John Reid, atualmente morando na Califórnia, já visitou várias vezes o Brasil. Um dos seus territórios de pesquisa é o Vale do Javari, onde foram mortos Bruno Pereira e Dom Philips em junho de 2022. John era amigo e trabalhou com Bruno, com quem conversava semanalmente, mesmo morando longe. “Criativo, inovador e corajoso”, é como o autor descreve o indigenista em entrevista que ele concedeu ao Colabora.

“Esse tipo de compromisso dessas pessoas é que me faz sentir algo que não é otimismo, é encanto” disse ele.

Abaixo, a entrevista na íntegra:

No livro, vocês dizem que “Preservar grandes quantidades de carbono em florestas intactas é barato porque essas terras são remotas e o processo é simples. Tal oportunidade ainda é incrivelmente ignorada”. Por que ainda há tanta ignorância?

John Reid – Primeiro, quero destacar que nem todas as florestas estão sendo destruídas. Se temos  informações sobre custo de conservação é porque muitas florestas foram conservadas e há trabalho sério acontecendo para garantir a integridade dessas áreas. E o Brasil se destaca como um dos países que tem área de floresta tropical protegida. Mas tem a outra face da moeda, que é a destruição acontecendo em algumsa áreas publicas protegidas, a maior poarte áreas privadas, não destinadas, terra de niguém. Eu acho que, por um lado,  mesmo sendo mais barato conservar, ao conservar quem é beneficiado? Todos nós, toda a população de um país. Ao destruir uma floresta para tirar madeira, ouro, plantar coca, seja lá o que for, esse uso está beneficiando um pequeno número de pessoas. E essas pessoas podem e vão lutar para ter acesso àqueles recursos para se beneficiarem. E o cidadão que está longe e se beneficia da proteção, nem sempre sabe do que está acontecendo. Para enfrentar isso, é preciso um Estado disposto a fazer as ações no chão: fiscalização e a proteção, dando apoio para as populações locais que têm por tradição uma economia baseada na floresta para garantir os direitos e as possiblidades que eles têm de proteger essas áreas sem serem ameaçados e sem serem assassinados como foram Dom e Bruno.

Somos quase oito bilhões de pessoas no mundo, consumindo de forma estrondosa para a natureza. Para que a vida humana na terra possa seguir, com tudo o que os cientistas já disseram, com o que vocês já demonstraram no livro, será preciso reduzir produção e consumo. Quando se fala nisso,  a indústria logo alerta: vai ter desemprego em massa se isso acontecer. O senhor acredita que essa equação vai ser resolvida?

John Reid – Sempre que um sistema econômico muda, há dor, sofrimento, porque algumas pessoas vão ter que mudar de trabalho ou vão perder o trabalho. Se você pensar na época em que era legal a exploração de baleias, vai se lembrar de que,  quando acabou aquela indústria, muitos empregos também acabaram. Aqui na minha região (Califórnia, Estados Unidos), acabou a indústria madeireira não para atender os apelos de quem preza a conservação ambiental só, mas porque as madeireras acabaram com a madeira. E isso, é claro, causou muito desemprego. Agora, é fato que nós, sobretudo quem tem privilégio econômico, estamos consumindo além do que a Terra é capaz de oferecer. Sendo assim, vai ter que ter uma redução de consumo para diminuir a pressão constante nos recursos naturais, nas florestas. Essa transição pode ser bem feita ou mal feita. O papel dos governos será o de prever o que vai acontecer, saber quem vai perder emprego e tentar agendar uma transição de pessoas dos atuais empregos – seja no garimpo ou na exploração excessiva de madeira – para novas oportunidades. A questão é: de qualquer maneira, essa transição vai acontecer.  Podemos fazer isso já, ainda mantendo algo das nossas florestas,  ou podemos fazer isso depois que os recursos naturais acabarem.

A tecnologia, que segundo muitos está associada aos ‘empregos verdes’, é a bala de prata para resolver os problemas causados pelos impactos ao meio ambiente?

John Reid – Pode ter emprego verde sem que esses empregos tenham esse objetivo, de ir para um plano B porque o plano A foi destruir o planeta. Por exemplo, acho interessante pensar: se a nossa resposta é tecnológica porque fracassamos na tentativa de fazer uma boa gestão na nossa biosfera isso implica que a nossa única meta é sobrevivência de seres humanos? As outras espécies vão ter que se virar e vão ser extintas? E aí vem a tecnologia que vai nos proteger dos quase 60 graus de temperatura com ar condicionado. Nós podemos nos proteger até certo ponto, sim. Mas, e as outras espécies vivas do planeta? E os indígenas isolados da Amazônia,  como vão usar a tecnologia para se proteger? Eu acho que as resposta tecnológicas são muito necessárias no que diz respeito a como a gente produz energia. Essa revolução das fontes renováveis é ótima,  e o Brasil tem sido líder nessa transição. Essa é uma resposta tecnológica bem vinda, mas isso não nos livra da obrigação de cuidar do nosso lar, do nosso planeta.

No livro, vocês dizem que ‘A diversidade de pessoas é igualmente espetacular nas megaflorestas’. Conte, por favor, como é a relação dos povos das florestas com seu entorno. Há o perigo de que essas pessoas possam ser cooptadas pelo sistema econômico que ajuda a destruir seu habitat?

John Reid – Em março deste ano eu viajei ao Vale do Javari, fui de uma aldeia a outra com um amigo Marubo. Fomos parando, comendo nas malocas. E o que vi foi fartura de comida, pessoas saudáveis que conseguem viver com o básico, com o que conseguem em seu entorno que alimentou seus ancestrais. A relação delas com aquele lugar é diferente da minha relação, que fui como visitante.  Mas elas têm problemas, elas precisam de dinheiro. Ninguém passa ileso às pressões do mundo moderno, da economia moderna. Qualquer povo indigena vai ter pessoas que se destacam na escola, que são educadas para serem advovados, que interagem e fazem parte da sociedade como um todo, isso é normal. Só que eu acho que essas pessoas sentem as mesmas pressões, vivem com essa interação direta com a economia.

Nas últimas três décadas, conforme vocês informam no livro, os governos dobraram a porcentagem de terras protegidas, com base no ano de 1990. E a maioria dos países concorda, nos acordos e em NDCs,  em quase dobrar novamente até 2030. Mas os argentinos, por exemplo, acabam de eleger um negacionista de ultradireita. Donald Trump vai se recandidatar. A inquietante escalada de negacionistas de ultradireita no poder pode frustrar esses planos?

John Reid – Pode sim. Nós passamos por isso aqui nos Estados Unidos, vocês passaram por isso no Brasil, e agora a Argentina elegeu o Trump deles. Pode atrapalhar, adiar o alcance dessas metas. Mas o que a gente viu, pensando na sociedade civil brasileira, é que ela continuou trabalhando nesse período mais difícil. Passou por muitas derrotas, sim,  mas ela existe hoje e vai continuar. A mesma coisa se aplica à Argentina. A sociedade não abandona os valores ambientais, o amor pelas paisagens, mares, montanhas, florestas. Mas políticos do momento podem atrapalhar, e bastante.

O que podemos esperar da ascensão do mercado de carbono, que já está sendo apontado por muitos, sobretudo nas indústrias, como a solução de todos os problemas?

John Reid – O mercado de carbono é uma de muitas formas para financiar florestas. A grande maioria vem do Tesouro público, e em alguns casos vem da cooperação internacional, da filantropia. Mas o  mercado voluntário de carbono não está tendo um impacto muito grande hoje por causa de vários problemas. Há outras alternativas. O Brasil mostrou, por exemplo, com o Fundo Amazônia, uma forma mais eficiente de financiar a proteção desses estoques de carbono fglorestal. E não é um mercado, mas um arranjo entre um país e outro. O principal país pagador, no caso do Fundo Amazônia, é a Noruega, e ela fez acordos com o Brasil e com alguns outros países. Com isso, ela alcançou uma escala de impacto que não tem sido possível com os mercados de carbono. Diferentemente dos mercados de carbono, ela não exigiu uma cuidadosa medição de exatamente quantas toneladas foram sequestradas e com quais ações exatamente. Esse trabalho é muito caro e muito cheio de incrtezas. Em resumo, os mercados de carbono voluntários podem fazer alguns projetos interessantes, mas não vão ter escala.

A folhas tantas, no livro, vocês fazem uma pergunta de cem milhoes de dólares, para a qual eu busco a resposta há vinte anos: “Se as florestas intactas nos oferecem chuvas, alimentos, atmosfera saudável, rios limpos, biodiversidade caleidoscópica e sentimentos primários de conexão espiritual, por que a sociedade age como se mal pudesse esperar para se livrar delas?”   Falta educação ambiental? Esse livro poderia ser aplicado em escolas?

John Reid – Eu acho fundamental que os jovens aprendam. É este contato, desde cedo, que faz cair a ficha e cria espaço para várias perguntas: o que é essa coisa floresta? qual o cheiro?  qual o visual? o que a gente experimenta lá dentro? E acho que o mesmo pode se dizer para os especialistas também. Eles podem contar aos jovens todas as maravilhas cientificas que acontecem em um metro quadrado de floresta. Tem trabalhos interessantes em Manaus, como o Museu da Amazônia, que fica no centro de dez mil hectares de floresta e tem um trabalho extraordinario de didática. Fiquei impressionado com compartilhar o espaço com amazonenses que estavam descobrindo a Floresta Amazônica, que não conhecem nada sobre ela, embora morem ali, em Manaus. Thomas Lovejoy e muitos de nossos colegas tiveram alguma experiência na infância que os colocou em contato com a natureza, e nosso destino profissional foi decidido naquele instante. É importante isso acontecer. Independentemente de sua origem,  os jovens precisam ter essa opiortunidade.

No capítulo “As florestas e a economia real”, vocês fazem uma interessante reflexão. “Uma taxa de juros moderada a alta indica que a sociedade atribui muito mais valor a benefícios/consumo no presente do que no futuro”. Se não nos importamos muito com o futuro, não há razão, pelo menos não no setor econômico, para tomar agora medidas que garantam um futuro saudável, tais como salvar as florestas, é isso?

John Reid – Nesse capítulo nós quisemos explicar como os conceitos básicos de economia explicam o que está acontecendo. Porque no mundo ocidental, as pessoas priorizam o hoje ao amanhã, e isso é formalizado na economia, nos mercados financeiros,  com as taxcas de juros. Se você aplicar taxas de juros a uma análise global de avaliar ações para conter mudanças climáticas, terá um resultado ambíguo. Ou seja:  a economia fracasssa como ferramenta de decisão, porque nossas decisões têm que ser feitas com conhecimento econômico, mas é preciso ter outras fontes de informações e outros olhares éticos. Quisemos destacar também, nesse capítulo, os bens públicos. São as coisas não mensuráveis, tipo a beleza da lua numa noite sem nuvens, a beleza do mar, o fato de existir .. ter ar limpo, ou uma temperatura decente para se viver. Esses bens públicos não são reconhecidos pelos mercados, porque ninguém paga por eles. Nosso objetivo foi deixar claro que as soluções para preservar o bem público são as coisas que realmente importam. É um desafio coletivo que precisa ser abordado por comunidades – pode ser um país ou uma aldeia – mas tem que ser em coletivo.

Na linha das soluções possíveis para enfrentar o impacto climático, vocês dão alguns exemplos de populações que compartilham de um mesmo conjunto de valores e fazem regras de convivência. Como é isto?

John Reid – Eu vejo muito sentido na gestão coletiva de áreas de floresta, e isso acontece hoje em muitas comunidades, indígenas, não indígenas. Pode abranger produção para confumo próprio ou para o mercado. A  questão que importa é a força da comunidade e a confiança entre seus membros para fazer regras e respeitá-las. Eu acho que é uma solução muito importante, não apenas na Amazônia, mas também nas outras grandes florestas. Mas não adianta formentar esse tipo de de modelo de desenvolvimento e, no dia seguinte,  abrir uma estrada para escoamento de grãos. Tem que ter coerência de politicas públicas.

Minha última pergunta são duas: o Brasil o inspira? E o senhor é otimista?

Tenho muitos heróis e figuras admiradas do Brasil. O país e os ambientalistas são muito criativos, inovadores e corajosos. Tive a oportunidade de trabalhar com Bruno Pereira, a gente se falava toda quinta-feira pelo Zoom. Eu vi nele – não só nele, mas ele é um exemplo – uma dedicação tremenda. Ele pensava o tempo todo em desafios e estratégias, tinha uma leitura muito realista do que acontecia  naquele território, e sabia dos riscos. Recebia ameaças e pôs a vida à disposição do movimento. Esse tipo de compromisso – para começar a responder a sua segunda pergunta – me dá esperança. A esperança pode ser ingenua, mas também pode ser calibrada às realidades que a gente enxerga todo dia. Eu acho que tenho algo que não chamaria de otimismo, eu chamaria de encanto. Eu seou encatado com as florestas, com as pessoas que vivem nelas e as defendem. Eu vejo as derrotas, eu as sinto na pele. Eu não sei como essa história vai acabar,  o que sei é que pessoas talentosas, com belas almas, vão fazer o esforço máximo, sempre, para que tudo dê certo.

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Informações para construir links certos na era dos paradoxos

A rodinha de conversa na rua entre os vizinhos, hoje de manhã, girava em torno do raio que caiu ontem, durante a tempestade, nas imediações. Um forte clarão, seguido por um estalo como se algo elétrico tivesse se rompido, deixou-me inquieta. Fiquei mais apaziguada quando ouvi os relatos da vizinhança e descobri que não fora só meu o espanto. A gente sempre tem a sensação de conforto quando está em grupo, naõ tem jeito.

“Minha filha me disse: ‘mãe, parece que foi uma bomba!’, contou uma vizinha. E ela, em tom didático, explicou à mocinha que bomba é muito pior. ‘Além de fazer barulho, arrasa com tudo à sua volta, se é que lhe deixaria viva’”, comentou uma vizinha. E a conversa girou. “A gente aqui, falando em aquecimento global, e os caras lá jogando bomba”.

Link entre eventos extremos e guerra na mesma conversa informal entre vizinhos, isto sim é uma boa novidade.

Ultimamente os jornais e sites noticiosos estão investindo bastante espaço (até que enfim!) em explicações sobre o evento extremo que estamos sentido na pele, traduzido em calor infernal e tempestades fora de época. As notícias buscam fazer a correta ligação com as mudanças climáticas.

 “El Niño sempre existiu, mas El Niño junto com mudanças climáticas é como se você pusesse mais uma colher de açúcar numa xícara que já estava cheia. Transborda, não tem jeito’, explicava ontem, no site Brasil 247, o cientista Carlos Nobre.

A sociedade precisa mesmo de informações relevantes para entender aquilo que os cientistas estão falando há décadas: mudanças climáticas são responsabilidade de todos. E exigem uma grande concertação, todos empenhados em soluções, globais e locais mas, sobretudo, interconectadas.

Guerras tornam esta concertação mais difícil, senão impossível.

E lá vem a COP28!

A foto é do desenvolvedor de softwares Fernando Braga, publicada no site G1 em fevereiro deste ano

A partir do dia 30 de novembro, portanto daqui a quinze dias,  até o dia 12 de dezembro, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos,  estarão reunidos 190 líderes das Nações Unidas na 28a Conferência das Partes (COP28) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), com o desafio de destravar a desconfiança entre países ricos e países pobres. O debate é o mesmo de alguns anos: financiamento para ação climática, o fundo de compensação para perdas e danos decorrentes da mudança climática, a definição de metas mais ambiciosas de mitigação até 2030 e o fim da queima de combustíveis fósseis nas próximas décadas.

Dois mil, cento e cinquenta e oito quilômetros é a distância entre a Faixa de Gaza e Dubai. É mais ou menos como ir do Rio de Janeiro a São Luís do Maranhão. Fica no mesmo Hemisfério, e os holofotes estarão sobre os dois territórios. Mas, enquanto em Dubai os flashs de luz serão de máquinas fotográficas, em Gaza virão de bombas. Enquanto em Dubai a humanidade tentará estratégias para se manter viva, em Gaza a morte é a meta. Morte para, depois, tomar o território. Como faziam os povos mais primitivos, fazemos nós, em pleno século XXI, sem dor nem piedade.

“Isto não é uma ‘operação’ nem uma ‘ronda’, mas uma guerra até ao fim. É importante para mim que vocês saibam disso. Isso não é da boca para fora, mas vem do coração e da mente. Se não acabarmos com eles, eles voltarão”, disse Netanyahu aos soldados do Batalhão Caracal de Israel durante uma visita. Há dois dias.

Estamos na era dos paradoxos. Acho que faltou esse título ao historiador Eric Hobsbawn, que escreveu “Era do Capital”, “Era das RevoluçõeS”, “Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”. Quisera que ele ainda estivesse vivo para ilustrar, com sua sabedoria, o que estamos vivendo hoje. Porque não é fácil explicar, a não ser pela ganância do capital, o desprezo que a humanidade tem demonstrado pela vida.

“É a única espécie que destrói seu próprio habitat’, lembra Stefano Mancuso, biólogo italiano de “Nação das Plantas” e “Revolução das Plantas”.

Só me resta, então, trazer aos leitores as informações mais relevantes dos acontecimentos, sem me prender a análises que poderiam ser ingênuas. É o jeito certo de conseguir fazer os links e construir massa crítica.

Para isso, busco, portanto, estar informada.

Ontem pela manhã, participei de um interessante webinar, esse fenômeno de nossa era pós pandêmica, organizado pelo Instituto Clima e Sociedade para os jornalistas que irão cobrir a COP28.  Foi uma prévia, que terá segunda parte, de assuntos importantes que a mídia precisa saber quando chegar a hora de assistir os debates e resultados da conferência. É uma iniciativa muito legal, pena que as redações estão com tanto trabalho que não são todos os jornalistas que têm tempo para serem capacitados.

Devo confessar a vocês que me regozijo em períodos pré-Conferência desde que, em 2009, passei a cobrir o tema. É bom, sobretudo, porque recebemos holofotes, as pessoas se interessam, debatem, buscam respostas. Mesmo que seja só por poucos dias, mesmo que os acordos não sejam cumpridos como deveria, mesmo assim é bom. Vale a pena para quem está na estrada há tantos anos tentando um lugar ao sol.

Alguns aprendizados que ouvi dos especialistas – Luiz Augusto Barroso – Diretor-presidente da PSR e Rodrigo A C Lima – Sócio-diretor geral da Agroicone – levados pelo ICS,  compartilho com vocês:

. O setor energético é o que mais emite gases de efeito estufa (79%). Portanto, sem resolver a questão da energia o acordo da COP 28, se houver, não será alcançado;

. Se a agricultura não estiver preparada para produzir, com tantos eventos extremos (seca e tempestades, sobretudo, atingem muito seriamente as produções agrícolas), isto poderá trazer um outro resultado que vai interferir diretamente na vida de todos nós: a insegurança alimentar, que hoje afeta milhões no mundo, vai aumentar muito.

. Até aqui falava-se só em mitigar os impactos causados ao meio ambiente, mas agora já se fala em mitigar, adaptar e dar benefícios.

. Segundo a Agência Internacional para as Energias Renováveis (Irena na sigla em inglês) teremos que triplicar a geração de energia renovável até 2050 para afetar positivamente o cenário climático atual.

. Para isso, vamos precisar dar escala a tecnologias que não estão competitivas ainda, como a produção de Hidrogênio.

. Captura de carbono virou licença para emitir, e este ponto de atenção é muito importante porque a tecnologia tem sido usada por muitas empresas.

. Estados Unidos, Europa e China querem chegar a uma matriz energética que o Brasil tem hoje. Nosso país tem transformado a forma como lidamos com energia.

. Por último, mas não menos importante: em ambiente de guerra fica difícil defender transição energética, ou transformação energética.  

Como cheguei atrasada, perdi a apresentação do Matheus Bastos – Segundo Secretário do Ministério das Relações Exteriores e negociador brasileiro de Financiamento Climático na UNFCCC. Mesmo assim, mandei uma pergunta para ele, que me martela desde sempre com relação às COPs. E se os acordos conseguidos entre os países fossem todos vinculantes, ou seja, fossem obrigatórios, não apenas um compromisso informal, como é?

Uma pergunta bem montada traz em seu bojo uma resposta. Perguntei sobre os prós e contras porque sei que, em diplomacia, sobretudo em acordos tão gigantes, que envolvem tantos países, nada é muito fácil.

Mas é isto. Estamos vivendo mesmo numa era quando nada é muito fácil. Viver, hoje, mais do que nunca é difícil, o que torna a luta pela vida uma tarefa cada vez mais custosa. Mas vale a pena.

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Lembrança ativada pelas redes que se torna muito atual

O ano era 2014.

O governo alemão estava pronto para desativar suas usinas de carvão, rumo a uma energia mais limpa.

Chamou um grupo de jornalistas do mundo inteiro para mostrar a estratégia. E eu fui convidada.

Annalena Baerbock, atual ministra das relações exteriores, era líder do Partido Verde. Fomos ao Parlamento conversar com ela, que nos atendeu minutos após o pronunciamento da então chanceler Angela Merkel. Annalena estava perplexa porque Merkel, no pronunciamento, não falara uma palavra sobre o caminho para a energia limpa.

Passamos quatro dias imersos em informações.

Em Berlim, fiz essas fotos que estão ilustrando este texto. A última foto retrata um artista de rua em frente ao famoso muro.

Na época eu era colunista do G1, a viagem está lá registrada em textos.

As informações, no entanto, se tornaram já obsoletas.

A Guerra da Ucrânia mudou planos, a Alemanha acabou (em abril) de desativar as usinas nucleares. Mas, para cumprir essa exigência dos ativistas, que se preocupam com o fato de o país não ter um único depósito seguro para armazenar resíduos nucleares, precisaram reativar algumas usinas a carvão.

Definitivamente, não estamos vivendo uma era fácil. A humanidade está sendo posta à prova o tempo todo.

Nesta semana (dias 17 e 18) eu participei do Seminário Cidades Verdes, evento bem interessante, que pôs, entre outros, o tema da energia na mesa de debates. Mediei a mesa que discutiu o Hidrogênio, nova opção de combustível na qual o Brasil está apostando muitas fichas.

Nosso país tem, a seu favor, o sol, a água, o vento, e agora tem taambém a chance de, com algum investimento, obter o hidrogênio.

Mas acho que está na hora de lembrarmos também o que me disse certa vez, em entrevista (em 2006), a ex-ministra Gro Brundtland, que liderou os estudos para o relatório Nosso Futuro Comum, onde se cunhou o termo desenvolvimento sustentável:

“A energia será o maior desafio para a humanidade. E será preciso diversificar as fontes, sempre”.

A questão é que, como nosso sistema econômico exige, os investimentos precisam sempre respeitar a ordem do acúmulo para poder dar lucro e, assim, pelo menos em tese, garantir um desenvolvimento que faça bem a todos.

Para acumular, será necessário desprezar a diversidade de fontes.

Mas, que bom que temos pessoas pensando a respeito. Ou, pelo menos, que bom que temos essa percepção.

Guardo dois momentos muito marcantes para mim, dessa riquíssima viagem, onde fiz contato com jornalistas do mundo todo. O Brics (ainda não expandido) estava todo ali.

O primeiro momento foi quando, numa aula ministrada por um ambientalista nas dependências de uma organização não-governamental, ele falava entusiasticamente sobre hidrelétrica, como se fosse a melhor forma de se obter energia, incomparável. Como vocês podem imaginar, ouvir palestras em inglês o tempo todo acaba criando algum desconforto para entender esse ou aquele trecho. Portanto, levantei a mão e perguntei:

“Vocês estão considerando a hidrelétrica uma energia limpa?’

Todos me olharam como se eu tivesse cometido uma sandice, fiquei constrangida. Assim mesmo, lembrei que, para se construir hidrelétricas, é preciso deslocar muita gente, matar alguns rios e peixes. E que isso, para mim, suja o processo.

O segundo momento foi quando, já no fim da viagem, peguei um táxi compartilhado com uma moradora de Colônia, onde estávamos então. Comecei a conversar, expliquei o motivo da viagem, dando o devido valor ao tema. Ela me olhou como se eu tivesse falando platitudes. E revelou a sua prioridade, que ela acreditava ser da maioria da população: na época, o desemprego estava alto no país.

Estamos na era das complexidades, sem dúvida.

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