‘Se vocês não sabem como consertar, por favor não continuem danificando tudo’. Frase dita por Severn Suzuki aos 12 anos na Rio-92 ecoa hoje, primeiro dia da 29ª Conferência do Clima

Por um lado, a média de expectativa de vida dos humanos aumentou. Mesmo nos países pobres, onde há uma grande diferença (para menos), as pessoas estão vivendo mais do que há mil anos. E melhor, sob certos aspectos, já que em grande parte do planeta há menos chance de doenças se espalharem.

As mudanças climáticas, porém, estão atrasando o relógio da melhoria de qualidade de vida em muitos lugares. Nas regiões afetadas pelos impactos – seca, tempestades e poluição – se há mais expectativa de vida, a constatação é de que está cada vez mais difícil viver.

Hoje é o primeiro dia da 29ª Conferência do Clima convocada pelas Nações Unidas (COP-29), que acontecerá em Baku, capital do Azerbaijão. Esperam-se discursos acalorados sobre a necessidade de fazer ao menos uma transição para o fim do uso dos combustíveis fósseis. Mas uma reportagem provocativa na revista do  “The New York Times” chama atenção sobre o sentido de urgência desse clamor. Ainda há tempo? Ou é preciso parar com os discursos e partir para a ações de salvamento dessas pessoas?

Repórteres fotográficos visitaram algumas partes do mundo que são cada vez mais afetadas pelos desastres climáticos, perguntando sobre a maneira como vivem e o que mais temem. O foco: jovens até 16 anos. O jornalista e escritor David Wallace-Wells amarrou o texto e concluiu: “No mundo dos ricos, os jovens que se manifestam com preocupação frente às mudanças climáticas, muitas vezes são menosprezados por sua ingenuidade… para os jovens que estão distante do poder real, a clareza moral não é um privilégio. Fatalidade sim.”

Entre os depoimentos mais emocionantes da reportagem, destaco o de Ayesha Ali, jovem de 16 anos que mora em Bangladesh:

“A poluição do ar e o calor me deixam com dor de cabeça a maior parte do tempo”, disse ela.

Ali tem orgulho de seus cabelos compridos, mas por conta do excesso de fuligem eles caem muito, em tufos, como se estivesse em tratamento quimioterápico. Seus estudos ficam prejudicados quando as tempestades – cada vez mais frequentes – inundam o lugar onde vive, impedindo-a de sair de casa. Ali mora em Daca, a capital do país.

Em 2050, quando 13 milhões de pessoas serão obrigadas a fazer migração interna em Bangladesh por causa dos efeitos causados pelas mudanças climáticas, Ali terá 42 anos. Se conseguir viver tanto tempo.

O excesso de calor também enerva e incapacita o jovem grego Athanasios Kosteas, de 16 anos, que ajuda o pai no restaurante da família em Kalamata, no sul da Grécia.

“Quando está quente eu fico tonto, e fico com raiva, sem querer trabalhar”.

A escola onde Kosteas estuda não tem ar condicionado, nem mesmo ventiladores. Ele conseguiu um encontro com o ministro de educação do país, e fez reivindicações. Na hora ficou feliz, mas logo perdeu o encanto e se decepcionou.

“Eu percebi, mais tarde, que na realidade ele não estava respondendo as minhas questões. Era como se estivesse cumprindo uma tarefa”, disse ele.

Platitudes. Retórica inútil. E estamos cercados disso no campo das mudanças climáticas, nos encontros das Nações Unidas.

Outra jovem entrevistada pela reportagem mostra que, mesmo quando conseguem se livrar do mal pior e sair do lugar onde são vítimas dos eventos extremos, a vida de migrante não é nada fácil.  Sara Saumanaia, 15 anos, viveu sua vida inteira num bairro pobre e proletário de Nova Zelândia, que considera sua segunda casa. A primeira é Tuvalu, onde ela nasceu, terra de sua mãe, de onde a família precisou se mudar porque o pequeno país-ilha do Pacífico está sendo tomado pelo mar.

“Mesmo que meu país desapareça, isso não quer dizer que nossa cultura  e aquilo que somos como pessoas vá desparecer”, disse Sara.

Na escola que Sara frequenta em Nova Zelândia, certo dia a professora elencou o tema mudanças climáticas e explicou que Tuvalu é um país condenado a desaparecer sob as águas. Foi o que bastou para que seus colegas a olhassem, alguns sem conseguir conter o riso, outros demonstrando pena. O único sentimento que ela não sentiu, naquele momento, foi o de inclusão e pertencimento.

“Sou uma pessoa forte, uma boa amiga. Eu sei o que defendo, mas também há minha família em casa, por quem eu rezo todos os dias. E aqui estão meus colegas, zombando deles”, disse Sara.

Vou me abster de fazer comentário sobre essa atitude dos colegas de Sara. Vou me abster, inclusive, de ampliar meu pensamento, trazendo aqui o perigo iminente para a luta contra o aquecimento global que acaba de se instalar na Casa Branca, levado pelas mãos de uma maioria de estadunidenses. Muitos desses eleitores têm filhos que devem ouvir discursos negacionistas em casa. Como esperar deles atos generosos às vítimas do aquecimento?

Um pouco de história

Na Rio-92, quando o mundo manteve os holofotes ligados para a cidade onde se debatia questões de clima, envolvendo os empresários na cruzada anti-aquecimento, uma jovem ativista canadense de 12 anos ganhou as manchetes. Com seus cabelos em desalinho e um vestido comum, Severn Suzuki subiu ao púlpito para dizer a todos que estavam ali:

“Eu sou apenas uma criança, não tenho as soluções, e sei que vocês também não têm. Mas, se vocês não sabem como consertar, por favor não continuem danificando tudo”, disse ela.

Severn Suzuki hoje tem 45 anos e o mundo acaba de chegar perto do limite dos 2 graus a mais, que o Acordo de Paris assinado em 2015 prometeu evitar. E não estamos vivendo nem perto de uma preocupação generalizada com o problema.

Em 2018, a sueca Greta Thunberg, então com 15 anos, começou a protestar contra a inoperância política frente às mudanças climáticas do lado de fora do Parlamento sueco. Iniciava assim a Greve Escolar pelo Clima, um movimento que existe até hoje e que fez de Greta uma pessoa conhecida mundialmente.

Greta pressionava pelo Acordo que foi assinado e que, atualmente, está sendo solenemente menosprezado.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Documentário mostra estrago provocado pelos incêndios no Pantanal: em 2020, 65 milhões de animais afetados

Zugzwang é uma expressão que, no jogo do xadrez, significa: é a sua vez de jogar. Indica movimento, necessidade de ação num momento arriscado, quando seria melhor passar a vez.

Fiz contato com essa expressão em 2009, quando assisti ao documentário “’Zugzwang”, do diretor Duto Sperry. É um filme forte, com depoimentos de pessoas que se dedicaram firmemente a estudar a evolução do desenvolvimento ecosocioambiental no mundo desde as primeiras descobertas científicas sobre a finitude dos bens naturais.

E, volta e meia, nessa era pós descobertas e verdades, de crueldades espalhadas,  eu me lembro disso. O timão foi parar nas mãos de pessoas que desprezam tudo o que é diferente, natural, que querem acumular capital em detrimento da degradação do ambiente no entornou ou ampliar territórios à base de matar outras pessoas. Nada muito diferente do que era feito em séculos atrás, em época consideradas “antigas’.

Seria melhor passar a vez?

Ontem assisti ao documentário “Sinfonia da Sobrevivência”, do diretor Michel Coeli, que está fazendo parte da 48ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e terá mais duas exibições, nos dias 21 e 25/10, no Cinesystem Frei Caneca. É um documentário filmado numa perspectiva diferente da jornalística, porque é rodado em plano subjetivo, ou seja, quando a câmera assume a ótica do olhar do espectador.

Quando terminei de assistir, pensei em Zugzwang. O que estamos fazendo na nossa vez de jogar?

Michel Coeli nos leva para bem perto das chamas dos incêndios no Pantanal. É a maior planície alagada do mundo e uma das áreas mais ricas em biodiversidade que existe, que sofre com o fogo provocado pelo homem ou resultado da seca provocada pelo desmatamento causado pelo homem.

Segundo o MapBiomas, em 2024, a área do Pantanal queimada no primeiro semestre aumentou 529% em relação à média dos anos anteriores. Junho concentrou 79% dessa área, sendo a maior já observada no bioma no período do Monitor do Fogo.

 O som de “Sinfonia da Sobrevivência” é local, não há locutor narrando. Mas nem precisava. Não há palavras que possam descrever aquelas cenas. Como por exemplo o momento em que os brigadistas do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso tentam salvar uma anta, animal de 160 quilos que teve as quatro patas queimadas pelo fogo. O olhar do bicho, captado pela câmera, um misto de angústia com espanto,  me fez pensar novamente: não seria melhor passar a vez e entregar o timão aos que têm respeito pelo seu habitat?

O filme é pungente. Mostra o trabalho incansável dos bombeiros, brigadistas, veterinários e voluntários no combate ao fogo e no socorro aos animais no Mato Grosso. Além de ter muita sensibilidade. Michel Coeli tem experiência no registro de guerras. Não que tenha sido fácil, mas para ele a fumaça e o calor não o impediram de captar o momento certo das cenas para tornar mais comovente a experiência sensorial que propõe a quem está assistindo.

Em vários momentos, o espectador ouve a respiração difícil dos soldados quando estão tentando apagar o fogo antes que se alastre. As filmagens aconteceram em 2020, ano das piores queimadas no Pantanal, quando cerca de 26% da vegetação nativa do bioma foram consumidas pelo fogo segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Aqui, vale lembrar uma reunião ministerial em maio de 2020, em que o então ministro de Meio Ambiente Ricardo Salles sugeriu aproveitarem o momento da pandemia para abrir as porteiras. Em bom português, o que ele quis dizer foi: vamos deixar os pecuaristas e produtores agrícolas inescrupulosos desmatarem o que for necessário.

Os resultados de tanta generosidade são descritos no documentário:

 “Em 2020, quase 60% dos focos de incêndios no Pantanal foram provocados por ações humanas segundo investigação dos ministérios públicos de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Os incêndios no bioma afetaram pelo menos 65 milhões de animais vertebrados e 4 bilhões de invertebrados, segundo estudo do Ibama, da Embrapa e da Cenap (Conservação de Mamíferos Carnívoros), e seus impactos sobre a biodiversidade podem ir muito além do que sabemos”.

Mas a raça humana também é diversa e pode surpreender. Há pessoas que se dedicam a tentar apagar os incêndios e salvar as vidas dos bichos, em tocantes reações de solidariedade. Além dos soldados e médicos, um personagem no filme, o coronel Barroso, chama atenção. Bombeiro aposentado, ele se move como se tivesse recebido a primeira missão de sua vida, telefona, faz pedidos a ONGs e autoridades e, finalmente, consegue 120 mil litros de água para jogar nos lugares secos.

Outra cena impactante, noturna, mostra os carros-pipa em ação. Em silêncio respeitoso, os soldados observam os animais chegando perto, driblando até mesmo o medo do barulho e dos faróis. Lançam-se desesperadamente na água e ali ficam, bebendo e se banhando. O dia seguinte amanhece já com uma vegetação também começando a mostrar seu vigor.

Basta ter vontade política, portanto. E o coronel Barroso sabe disso. Tanto que fez denúncias às Nações Unidas sobre a negligência de o estado. Foi exonerado. Vivíamos um momento bem difícil.

Além da anta, que infelizmente não suportou os ferimentos e morreu três meses depois de ter sido resgatada, uma pequena ave foi salva pela equipe heróica dos bombeiros veterinários de Mato Grosso. A cena do pássaro, depois de ter passado por uma delicada cirurgia, sendo libertado pela veterinária, que o levou dentro de uma caixinha e abriu a porta no meio da floresta, é linda.

O ecossocioeconomista Ignacy Sachs, morto no ano passado, fez a última provocação no documentário de Duto Sperry: “Até onde poderemos ir sem destruir o planeta?” Essa pergunta foi feita há quinze anos, e nesse tempo só fizemos aumentar o desmatamento, as emissões, o que gerou mais eventos extremos como a seca que acabou com a vida de muitos bichos no Pantanal. É um efeito dominó.

A pergunta é: para quê? Sabemos a resposta, mas nunca é demais continuar a perguntar.

Ainda há tempo?

A 16ª edição da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP-16) começa hoje em Cali, na Colômbia. O encontro ocorre até o dia 1ª de novembro e traz como tema “Paz com a Natureza”.

Vamos acompanhar, claro, com os dedos torcidos para que o assunto passe a ter relevância semelhante ao que o clima está conseguindo ter, como quer o embaixador André Correa do Lago. Para o site da Agência Brasil, Correa do Lago, que hoje é secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, disse acreditar que os dois temas já estão começando a impactar globalmente.

“Estamos totalmente convencidos, como governo brasileiro, que nós temos que unir ao máximo o tratamento dessas questões. Então, quem está mais focado com o clima, também tem que se dar conta do quanto essa questão da biodiversidade é um tema absolutamente essencial.”, destacou ele.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Seminário Cidades Verdes: chance de compartilhar ideias sobre a crise do clima e como enfrentá-la

Lançado em abril de 2022, o terceiro volume do sexto relatório de avaliação do Painel do Clima da ONU elencou as cidades como uma das principais preocupações. Não à tôa. Segundo os cientistas que assinam o estudo, sem medidas de mitigação, as cidades passarão a emitir, de 29 bilhões a 40 bilhões de toneladas de CO2 e metano em 2050. E isto é muito mais do que se pode tolerar para garantir um ambiente de bem estar às populações urbanas. Segundo o relatório Energy Technology Perspectives de 2016,  as cidades estão no coração dos esforços de descarbonização, já que por volta de 2050 elas agregarão dois terços da população mundial e 85% do PIB global. E, em 2013, os territórios urbanos já contabilizavam 67% da demanda primária de energia e 70% das emissões de CO2 oriundas do setor energético.

Mas há saídas, e o IPCC aponta várias delas. O que é preciso para alcançá-las?

Um olhar cuidadoso, não só por parte de quem administra as megacidades – já são 21 em todo o planeta, sendo Tóquio, com 31 milhões de habitantes, a maior delas – como também por parte dos moradores. Para os primeiros, é preciso vontade política. Para os segundos, é preciso ter informação de qualidade que os ajude a exercer seu papel como cidadãos. Sem esquecer que a origem da palavra cidadania vem do latim civitas, que quer dizer cidade.

Num momento dramático como esse que estamos vivendo, período de seca, de calor extremo fora de época e de muitas queimadas Brasil afora, não é difícil compartilhar o sentimento que o cientista Carlos Nobre externou, no dia 11 de setembro, em artigo publicado no Estadão. Nobre disse que está apavorado.

Acredito em ideias que circulam. Por isso entendo que será um bom momento de debater esse tema e outros ligados ao desafio de morar em grandes cidades o Seminário Cidades Verdes, que vai acontecer nos dias 16 e 17 de setembro. O encontro será no auditório da Firjan, no Centro do Rio, e lá estarei, contribuindo um pouco com algumas ideias e reportariando, que é o que mais sei fazer na vida. O tema deste ano é transição energética, o que tem tudo a ver com o que estamos vivendo. Afinal, é possível imaginar gasto de energia sem aumentar o impacto ao meio ambiente?

Para saber detalhes, entre nesse endereço: https://ondaazul.org/seminario-cidades-verdes-chega-a-sua-9a-edicao/

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Sobre os incêndios nas matas e o remédio de Geiza

Como jornalista da área ambiental, eu deveria escrever sobre os incêndios e as queimadas, que deixam os céus de dezenas de cidades de São Paulo de cor cinza, espalham fumaça, amofinam a vida de citadinos e queimam bichos e plantas. Lá se vai parte de nossa biodiversidade, em fogo espalhado Brasil afora, porque a Amazônia também está em chamas. A polícia já se pôs ao encalço de alguns criminosos que se aproveitaram da secura da mata – evento climático quase tão terrível quanto as tempestades – para abrir mais clareiras.

Mas, infelizmente, além de compartilhar com os leitores o meu lamento, eu não teria nada de novo para acrescentar. Já vivemos isso outras vezes, e o processo é sempre o mesmo. As manchetes dos sites noticiosos e jornais ajudam a formar uma onda iracunda na maior parte da população. Famílias comentarão, amigos debaterão, mas… amanhã será outro dia. A chuva cairá, a fumaça vai se espalhar e, aos poucos, a notícia será esquecida.

O mal causado será sentido mais à frente, quando muitos ainda vão se espantar, como se espantaram com a fala da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, alertando para o fato de que o Brasil pode perder o Pantanal até o fim do século.

Perder um bioma complexo e vital como esse é imensamente grave. Ouvi uma entrevista ontem, do cientista Carlos Nobre ao Brasil 247, na qual ele traçou um futuro bastante sombrio para a humanidade, já que o previsto é aumentar mesmo, cada vez mais, a temperatura do planeta.

Fiquei com a sensação de impotência, que já tem sido minha conhecida. Imagino que muitos que estavam ouvindo a excelente explanação do professor Carlos Nobre também tenham se perguntado: “O que podemos fazer?” “Ainda há tempo?”

Se couber a mim dar essas respostas, eu respondo: caso o homem passe a respeitar mais o ambiente em que vive, talvez, sim, haja tempo.

Mas escrevo esse texto ainda sob o impacto do acidente ocorrido ontem aqui na vizinhança. Uma árvore centenária caiu e machucou (pouco, ainda bem) um ciclista. Não estava ventando, não estava chovendo. O que aconteceu foi que alguns homens que cuidam do prédio construído em frente a ela decidiram tornar a calçada mais bonitinha. Fizeram um canteiro para a árvore. E, para que ela coubesse na noção estética, serraram-lhe as raízes. Simples assim. Respeito ao meio ambiente? Ali passou longe.

Por isso quero falar sobre vida. A vida que segue, a vida que se desmancha em beleza e se impõe, mesmo em ambientes hostis, em que nada no entorno garante sua permanência. A vida da natureza, a nação das plantas, a nação dos bichos. A vida de seres ativos, apesar dos humanos.

“O homem, ainda que se comporte como tal, não é de modo algum o dono da Terra, mas somente um dos seus condôminos mais desagradáveis e molestos” escreve Stefano Mancuso em “A Nação das Plantas” (Ed. Pergaminho).

Aprendi em outro livro – “Megaflorestas – Preservar o que temos para salvar o planeta” (Ed. Voo), escrito por John W. Reid e Thomas E. Lovejoy, que existe um besouro-caçador-de-incêndio. O bichinho usa detectores de infravermelho no tórax para encontrar árvores queimadas e se põe à caça logo após um incêndio. Neste exato momento, enquanto estamos impactados por causa da destruição causada pelo fogo em São Paulo e na Amazônia, seres vivos se refestelam com as iguarias tostadas. É a vida em ciclo.

E vida que se expande de vez em quando. Há uma semana, bem manhãzinha, em plena rua das Laranjeiras, dois ipês cor de rosa iluminavam meu caminho. Parei para respirar, observar, me encantar. Fiquei assim algum tempo.

Como eu estava sem o celular, mais tarde pedi a um amigo para fazer uma foto das árvores esplendorosas. Ele fez e depois comentou comigo:

“Nossa, nem tinha reparado. Que presente da natureza!”

Os ipês que embelezam nossas redondezas. Foto de Andre Balocco

Muita gente passa e não repara. Muita gente nem percebe o quanto de natureza há em nosso cotidiano. Dos minérios às plantas, estamos implicados nessa invasão, depredação, e somos responsáveis, portanto, pela recuperação. Não dá mais para fechar os olhos a isso. Temos que fazer contato com as belezas, com as necessidades, com algumas soluções. Das mais simples às mais sofisticadas. Mas, sobretudo, as mais simples.

Estive acompanhando, virtualmente, um pouco da São Paulo Climate Week que aconteceu no fim do mês passado no Cubo Itau, espaço de palestras e conferências. Ouvi uma história linda, contada por uma beiradeira, Raimunda Rodrigues, co-fundadora da Mazô Maná, moradora da Reserva Extrativista Rio Iriri. Raimunda contou sobre a experiência de criar uma empresa junto com a comunidade e ampliou pensamento, falando de sua alegria ao ver pessoas, hoje, querendo aprender sua cultura.

Raimundo é mãe de Geiza, menina de 12 anos que aprendeu com a avó como identificar as ervas certas que curam determinados males.

“Quando alguém sente alguma coisa, ela vai lá e já sabe o que fazer. A gente até já deu um nome: o remédio da Geiza”.

Raimunda conta essa história e dá o tom certo, que quero focar para fazer a costura aqui nesse texto que se explica apenas pelo meu desejo de ir além. Quero falar sobre natureza, sobre humanidade, e a relação entre esses dois. Conta Raimunda:

“Geiza ficava com a avó desde 9 anos catando folha, e foi aprendendo. Eu aprendi também, por isso hoje criamos a Mazô Maná. Mas tenho irmãos que não aprenderam, porque não ligavam. E hoje eles estão vendo como esse aprendizado é  bom para a nossa comunidade”.

Esse contato, essa percepção, o respeito aos seres ativos que compartilham conosco o espaço, talvez seja a chave para o começo da mudança. Precisamos, todos, do remédio que Geiza aprendeu a fazer nutrindo amor pelo simples. O filósofo francês Michel Serres, em 2009 escreveu o livro “Contrato Natural”, uma espécie de resposta ao Contrato Social de Rousseau, do século XVIII. Serres lamenta que seu colega tenha feito um acordo em que a natureza tenha sido excluída. Agora as conseqüências desse ignorar a natureza estão visíveis.

Termino com o pensamento de Gilbert Simondon, conhecido como o filósofo da tecnologia. Ele diz:

 “O pajé é aquele que faz uma viagem, estabelece um tipo de diálogo com a natureza e traz desse diálogo uma resposta para a comunidade, uma solução para um problema que a comunidade não conseguia resolver. E o que faz a tecnologia senão um diálogo humano com a natureza para tentar resolver um problema?” 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

O elo cauteloso, mas preciso, entre os Jardins Filtrantes de Niterói e as palestras sobre Economia Azul  

Um corredor pintado de preto e iluminado apenas com a luz nervosa de desenhos futuristas controlados por computador. Formatos diferenciados, exigindo do espectador uma atenção redobrada, já que em segundos se desfaziam e se transformavam em outra coisa. A música de fundo, um misto de som clássico e futurista, acompanhava o sentido de urgência que se traduz numa quase frenética busca, numa total falta de hiato. Mas instiga, sugere novas possibilidades, cria um grande ponto de interrogação que vai nos acompanhando pelo caminho. Foi assim minha acolhida na Rio Innovation Week, auto intitulado maior evento global de tecnologia e inovação, que aconteceu no Pier Mauá entre os dias 13 e 16 de agosto.

O encontro foi, efetivamente, mega.  Ocupou uma área de 70 mil metros quadrados no Píer Mauá, ofereceu 32 conferências, teve mais de 2.500 palestrantes, rendeu R$ 2,3 bilhões em geração de novos negócios, recebeu 155 mil visitantes. E foi pensado, segundo o card de apresentação, para “gerar reflexão e impacto real para transformar realidades: vai além do estímulo à inovação e ao empreendedorismo”. Se é isso, estou junto.

Pois muito bem. E o que eu, que prezo e respeito o conhecimento tradicional e o contato com a realidade que se transforma por si só (natureza), estava fazendo ali, cercada pelo povo da inteligência artificial? Curiosidade jornalística é meu combustível. E como tenho amigos que fazem coisas interessantes e me convidam, fui a convite de Marcio Marcio Santa Rosa, que há tempos vem me atiçando a curiosidade com a expressão Economia Azul. Ele é coordenador do Programa Guanabara Azul e Bacias da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro, entende muito do assunto, e eu estive na conferência promovida por ele num dos muitos espaços da feira.

No caminho, lembrei-me de quantos movimentos ao desconhecido tenho feito na lida como repórter. Em 2008, por exemplo, fui à China participar de um seminário sobre “Cidades Sustentáveis” porque era uma expressão nova por aqui. Quem diria, né? Praticamente uma década e meia depois, hoje é uma expressão tão usada e ousada. Ali mesmo, na RIW (esta é a sigla que facilita a comunicação), vi muitas vezes a palavra sustentabilidade escrita nos cartazes que apresentavam os espaços, as conferências. Que bom.

A subsecretaria Ana Asti faz apresentação no evento Guanabara Azul

Assim, vamos ao que interessa: o que é Economia Azul? Conceitualmente, é um sistema que se preocupa em promover o desenvolvimento econômico com foco na preservação dos ecossistemas marinhos e na sustentabilidade ambiental. Pelo que comecei a aprender a partir das três palestras às quais assisti na RIW, a Economia Azul tem, na essência, o olhar cuidadoso para quem vive do ecossistema marinho, ou para o S do acrônimo ESG (Environmental, Social and Governance). Para isso, aqui no Rio de Janeiro, conta com o Programa Guanabara Azul, que virou política pública no ano passado.

Para que a gestão de Economia Azul seja eficaz, uma questão é absurdamente premente: a limpeza dos rios, baías, oceanos, mares etc. E sim, a poluição da Baía de Guanabara, mais conhecida dos cariocas do que o mate e o biscoito da praia, é, no mínimo, um obstáculo e tanto para a Economia Azul no Rio de Janeiro.

 Para não desanimar nem avivar o tal espírito de vira-lata, vale pensar que o problema não é só nosso. Vejam o que aconteceu durante as Olimpíadas em Paris, quando alguns atletas que nadaram no Sena adoeceram por conta da sujeira. E dias antes, a prefeita Hidalgo tinha feito aquela cena para as redes, nadando no Sena para mostrar que estava limpinho. Tá vendo? Não é só aqui do lado debaixo do Equador que acontece.

O fenômeno que acabou causando o problema em Paris foi explicado por Luiz Firmino Martins Pereira, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, geógrafo e especialista em saneamento, um dos palestrantes da conferência que se chamou “Guanabara Azul”. A explicação é técnica, mas dá para entender:

“Só um sistema de separador absoluto não consegue dar conta da poluição. O Sistema de Tempo Seco colapsou, extravasou e vazou para o Rio Sena”, explicou ele.

Resumindo: quando a prefeita Hidalgo nadou, realmente estava tudo limpo, mas logo depois choveu forte, o que fez o tal Sistema de Tempo Seco colapsar. Quem quiser conhecer os detalhes, pode acessar o estudo feito por Luiz Firmino e colegas da FGV, chamado Cinturão Metropolitano da Guanabara.

Ana Asti, subsecretária de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do RJ, foi a primeira a palestrar e deixou patente um sentimento comum a todos ali: a paixão pela Baía de Guanabara. Asti traduziu assim o intento do Guanabara Azul, coordenado por Marcio Santa Rosa: até 2030, 90% da região estarão saneados.

“Se eu conseguir que os municípios tenham relação com a Baía de Guanabara, vou conseguir também desenvolver novos empregos , o que vai gerar renda. Há dez projetos de fomento à bioeconomia que podem viabilizar novos negócios. A Baía é a principal porta de entrada do país e hoje ainda tem muitas casas que estão de costas para ela. Queremos mudar isso”, disse Asti.

As mudanças climáticas serão levadas em conta, ressalta Ana Asti, que elenca o saneamento em favelas como o maior desafio da área. Para isso, por exemplo, vai ser inaugurada uma Estação de Tratamento de Esgotos em Queimados daqui a dois anos.

De qualquer forma, o plano de recuperação ambiental da Baía de Guanabara precisa sair do papel, já não é sem tempo. Parcerias têm sido feitas pela turma que está no comando da Secretaria, cuidando do meio ambiente. Estudos têm sido aplicados. Luiz Firmino falou sobre o modelo de Jardins Filtrantes, que está sendo empregado em Nova York e eu me lembrei, imediatamente, de outro local em que este modelo está sendo usado: Niterói. Meu pensamento voou longe dali.

Pouco mais de uma semana antes, a convite de outra amiga, Samyra Crespo,  ambientalista, escritora, que elaborou a primeira pesquisa de opinião pública sobre meio ambiente no Brasil, estive visitando o Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis, em Niterói, que pôs em prática o Sistema de Jardim Filtrante, e urbanizou a área onde fica o bairro Fazendinha. E foi lá que eu ouvi falar em Jardins Filtrantes.

Em Niterói, como no Rio, o objetivo é o mesmo: limpar as águas. Com águas limpas e saudáveis, é fácil pensar em atividades relacionadas com os meios aquáticos. A economia azul pretende impulsioná-las, mas com equilíbrio para não impactar o ecossistema. É um elo cauteloso, mas preciso.

Ode às Macrófitas

Foi também numa manhã ensolarada que cheguei a Piratininga. Antes, pegamos um catamarã, e fomos ouvindo a explanação de Dionê Maria Marinho Castro, que há mais de uma década está à frente do Programa de Despoluição da Enseada de Jurujuba e criação de Modelo de Gestão Municipal Integrada na Prefeitura de Niterói. É também uma servidora pública animada com o que faz, como a Asti, o Marcio… dá gosto de ver.

Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis

Dionê começou contando sobre como Niterói se modificou com a inauguração da Ponte. Era uma cidade, virou outra, e isso é facil de imaginar.  Deveria ser fácil, para as autoridades da época, imaginar também. E tomarem providências para evitar, por exemplo, colapsos no sistema de esgoto. Mas é assim: na hora de prever o lucro, dificilmente os donos do poder e do capital querem pensar em problemas…

Uma das mais prejudicadas foi a Lagoa de Piratininga. Passaram-se muitos anos até que veio uma Solução Baseada na Natureza, expressão criada pela Comissão Europeia que significa, resumidamente: ações que visam a proteger, gerir de maneira sustentável ou restaurar ecossistemas naturais a fim de enfrentar desafios da natureza. No caso, a solução encontrada foi, justamente, criar dois quilômetros de Jardins Filtrantes.

Não vou tentar dar detalhes técnicos, porque tenho medo de errar alguma coisa. Naquela manhã de quinta-feira, quando Dionê levou toda a equipe do Projeto de Implantação de Infraestrutura Sustentável para Recuperação Socioambiental de um Sistema Lagunar Urbano, tivemos uma aula sobre Jardins Filtrantes. E eu pude exercer a profissão que me constitui: sou repórter. Anotei um bocado sobre leito de secagem, retenção de sedimentos, caixas de passagem de 50 em 50 metros, tudo para a criação de novos equilíbrios ambientais. Mas, para não cansar os leitores, vou preferir resumir assim: o projeto deu certo. É visível a recuperação socioambiental do sistema lagunar, o cuidado que a equipe teve, sem precisar gastar mais do que R$ 100 milhões. Ou seja: é possível, precisa apenas ter vontade política e uma boa equipe.

Conto aqui duas histórias rápidas.

A primeira história é sobre a Macrófita aquática. Revelo minha paixão pelo mundo das plantas, e deixo a recomendação de um livro maravilhoso – “Sumário de Plantas Oficiosas”, de Efrén Giraldo – que li logo após ter tomado conhecimento de outro, Stefano Mancuso, pioneiro da neurobiologia das plantas, de quem já li três volumes. Durante a visita ao Parque Orla, não por acaso me aproximei da bióloga Heloisa Osanai, que faz parte da equipe e cuida desses seres.

Mancuso e Giraldo nos fazem pensar nas plantas como seres ativos, que se mudam, que viajam, e que escolheram a imobilidade em contraponto aos animais errantes. As macrófitas, assim, merecem todo o meu respeito porque, entre tantas outras qualidades, conforme me explicou Heloisa Osanai,  elas podem servir como uma espécie de biofiltro, reduzindo a carga orgânica no ambiente. Contribuem, então, para formar os Jardins Filtrantes. Querem atitude mais nobre e mais oportuna para nós, humanos que vivemos depositando por aí nossos detritos? Elas limpam.

A outra história é a do bairro que se criou ali, ao lado dos jardins. Tinha tudo para ser uma questão social séria, já que, como a maioria das megalópoles, também em Niterói há uma enorme desigualdade. E as 1277 familias que residiam no lugar onde havia problemas de esgoto e necessidade de solucioná-los, achavam que seriam removidas. Não foi assim, todo mundo ficou, a Lagoa foi dividida em nove trechos e, com todo cuidado, fizeram reuniões para apresentar o Parque Orla e ouvir sugestões dos moradores.

“Acolhemos mais de 85% das reivindicações da população. Formaram-se associações, eles se organizaram. E não fizemos só reuniões, fomos também no tête a tête, conversando com eles, indo à casa deles. Hoje as famílias da comunidade convivem com os moradores do bairro Fazendinha. O poder público ajeitou essa relação. Se os moradores não se sentissem responsáveis pelo projeto seria difícil, eles ajudam a preservar”, contou Dionê, que só não conseguiu mostrar-nos o jacaré de três metros que vive na região e também convive com todos.  Ufa.

Bem o texto acabou ficando muito grande, mas foi preciso porque não é a toda hora que eu tenho a chance de fazer reportagens tão ricas, que me possibilitem tantas análises.

Publicado em Uncategorized | Com a tag , , | Deixe um comentário

Atletas e ação global contra a fome: a humanidade ainda tem jeito

Este não será um texto somente noticioso. É, antes,  um desabafo, um jorro de indignação com os rumos do mundo.

Sinceramente eu não consigo imaginar o que se passa pela cabeça dos homens que têm o poder e estão empenhados em fazer guerras, em matar pessoas, em estressar ambientes por ambição.  Já está na casa dos trilhões de dólares o gasto com armas globalmente, e não se conseguiu, até hoje, cumprir o acordo que vem sendo tentado desde 1972, na Conferência de Estocolmo, para assegurar 100 bilhões de dólares ao ano para os países pobres se recomporem dos efeitos das mudanças climáticas.

Impossível entender ou admitir alguma possibilidade de apoiar A ou B.

Feita essa declaração, vou tentar engolir a raiva, a indignação, a impotência diante desse cenário e vou focar em dois grandes acontecimentos atuais que demonstram que a humanidade sabe fazer diferente. Aos irascíveis chefes que mandam cidadãos para campos de batalha ou alvejam civis covardemente, vai um recado (sei que eles não vão ler ou ouvir, mas não me importo): há pessoas que pensam de forma coletiva por um bem comum. Sim, isso existe e é possível.

Temos os Jogos Olímpicos acontecendo em Paris. Embora a organização do evento seja cruel com atletas da Rússia e Bielo Rússia, impedindo-os de levantarem as bandeiras de seus países nas vitórias, é preciso comemorar. São mais de dez mil jovens atletas! Não digo que todos, mas a grande maioria certamente está vivendo dias que serão uma grande marca em suas vidas. É lindo ver como se esforçam, como aproveitam a potência de seus corpos.

Fiquei impressionada com nossa ginasta Flávia Saraiva, que levou uma queda no aquecimento, cortou o supercílio, fez curativo, voltou e cumpriu todo o programa direitinho. O chinês que disparou na frente, no nado de cem metros… alguém reparou no sorriso vitorioso que ele estampou no rosto enquanto aguardava a nota? Bem, não tenho conseguido acompanhar muito, por causa do trabalho, mas vira e mexe eu me pego buscando em sites as cenas olímpicas e me emociono assistindo.

O outro grande acontecimento, que deixa  no chinelo e revela a face ignóbil dos que gostam de guerra é a proposta apresentada pelo governo do presidente Lula em Nova York na semana passada. Trata-se da Aliança Global contra a Fome. Diz o site da Agência Brasil:

“Integrantes do governo brasileiro participaram esta semana do Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável, na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York (EUA), e apresentaram a proposta de criação de uma aliança global de combate à fome e à pobreza”.

É isto. Enquanto uns gastam sua massa cinzenta pensando em como tentar caminhar para uma guerra cada vez mais intensa e extensa, outros expõem soluções globais para acabar com a miséria, a fome.

Ainda há tempo.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Agroecologia pode ter salvado municípios do Rio Grande do Sul na grande enchente

Dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, 471 foram fortemente atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul causadas pelas chuvas que caíram sobre o estado no fim de abril e início de maio deste ano. O que teria salvo da maior tragédia as 26 cidades restantes? O fato de eles terem como prática de produção agrícola a agroecologia, que evita romper o equilíbrio ecológico do ecossistema natural, assegurando à terra chance de absorver a água, mesmo em grande quantidade.

A informação é de Eduardo Assad, ex-secretário de Mudanças Climáticas (2011) e engenheiro agrícola de extenso currículo, autor e coordenador do capítulo 2 do Relatório Temático sobre Agricultura, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos que a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPES) apresentou ontem pela manhã numa coletiva de impresa para a qual fui convidada. Assad se referiu, por exemplo, ao pequeno município de Antonio Prado, com cerca de 12 mil habitantes, como um exemplo de cidade que não sofreu tanto o impacto das chuvas.

“O que nós vimos, na prática, foi uma catástrofe que deixa claro que quando não se conserva o tapete vegetal e se destroi a biodiversidade, as consequências são graves. As chuvas causaram a destruição da biodiversidade em 44% do bioma Pampa Gaúcho, mas 7% da Mata Atlântica foram conservados.  Essa destruição vai acontecer em outros biomas, mas se vocês me perguntarem se tem solução, eu digo que tem. Os que foram destruídos foram aqueles que desrespeitaram o Código Florestal. E foi avisado: não plante nem construa casa na beira do rio”, disse ele.

O Relatório da BPES só ficará pronto em setembro, mas ontem foi divulgado o Sumário para Tomadores de Decisão. Trata-se de uma versão resumida,  elaborada por 35 pesquisadores, num documento que visa  a influenciar gestores e lideranças das esferas pública e privada na tomada de decisões com foco na sustentabilidade e no equilíbrio da tríade agricultura, biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Alguns autores estavam presentes à entrevista, e falaram sobre “soluções sustentáveis para o presente e o futuro que conciliem a prática da agricultura e a manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos”.

No escopo do estudo, a agricultura é considerada como o conjunto de atividades agrícolas, pecuárias e de silvicultura. E, como ficou claro na fala de Eduardo Assad, a agroecologia está listada entre as boas práticas.

Consciência dos produtores, o maior desafio

Existem futuros possíveis no Brasil, acreditam os pesquisadores, para conciliar produção agrícola feita de maneira consciente e sustentável, com a demanda. Mas é preciso que haja consciência, por parte dos produtores rurais, para não violarem as regras estabelecidas. E esta é, disparado, a parte mais difícil.

“Tem espaço para dobrar a produção agrícola sem derrubar nem mais um hectare de floresta, o pessoal precisa entender que é possível fazer isso, e esse Relatório traz todas as informações necessárias para os tomadores de decisão, para os produtores. O que fizemos no Capítulo Dois foi mostrar que desde que se derrubou o primeiro pau brasil tentamos, com muita força, acabar com a biodiversidade brasileira. Ainda bem que o país é geande e não se conseguiu. Teve ciclo do ouro, da borracha, do cacau, do café, da cana, do algodão. A história se repete, e estamos vivendo o auge do ciclo da soja, que não vai resistir dojeito que está sendo feito. O mercado está deixando muito claro que não compra soja de área desmatada. O pessoal fica preocupado com o futuro, e eu digo: faça direito que vai dar certo”, disse Assad.

Mesmo recebendo elogios, as iniciativas do atual governo federal,  de apoio à produção agrícola, segundo os pesquisadores, ainda tem lacunas. Blandina Felipe Viana, da Universidade Federal da Bahia, lembrou que é preciso uma política efetiva de desmatamento zero.

“Eu venho de um estado (Bahia) onde o desmatamento legal, autorizado para conversão em monocultivo, especialmente de soja, na região Oeste, é maior do que a supressão ilegal. E as pesquisas mostram que essa conversão de vegetação natural em monocultivo não se reverteu em índices favoráveis, nem econômicos para o municpio, nem de desenvolvimento humano. Isso quer dizer que há algo errado acontecendo, e que a gente precisa conter a autorização legal de supressão de vegetação”, disse a professora.

Importância das práticas tradicionais

No debate da manhã de ontem, cheio de dados e informações, também houve espaço para se confrontar com o que pode ser considerado um dos grandes paradoxos da nossa atual civilização. Se, por um lado, há a sugestão de respeitar as práticas – chamadas de conservacionistas – dos povos tradicionais, por outro lado é preciso lançar mão de soluções tecnológicas disponíveis para se alcançar a produção agrícola sustentável.

Para o pesquisador Fabiano de Carvalho Balieiro, é desafiador trabalhar com essas duas vertentes, mas “temos que aprender”:

“O legado desse Relatório é deixar a mensagem de que precisamos revisitar essa prática tradicional, incorporá-la à nossa prática. É o que o homem vem fazendo há muitos anos e que se faz hoje de forma mais assertiva e direta na Amazônia. Temos aprendido bastante que o que fazemos hoje no Cerrado não pode ser espelhado para biomas como o amazônico e a Mata Atlântica. Estamos vendo a importância da diversificação dos sistemas de produção, das pastagens, do manejo do chamado regenerativo, que é justamente no sentido da incorporação dessa biodiversidade.  É um desafio, mas faço apelo a todos os produtores a incorporarem mais diversidade nos seus sistemas”, disse Fabiano Balieiro.

Bons programas

Em linhas gerais, o Relatório trouxe resultados bem satisfatórios para a política que está sendo implementada para a agricultura no Brasil. Um dos planos que mais empolga os pesquisadores é o ABC, linha de crédito para agricultura de baixa emissão de carbono no país, que prevê também transferência de tecnologia e desenvolvimento. Existem ainda vários outros programas dignos de respeito pela sua eficácia. A interconexão entre ministérios que antes não lidavam com questão ambiental também é um ponto positivo.

“Sobretudo no Cerrado e na Amazônia, há tentativas de conciliação entre produção agrícola, conservação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos”, diz o relatório.

Assim mesmo, a crescente pressão sobre a biodiversidade e sobre os serviços ecossistêmicos constitui um desafio que demanda uma governança agroambiental mais eficiente e fortalecida sob diversos aspectos:

“Instrumentos de governança, se bem planejados e implementados, podem contribuir para a conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos em consonância com a produção agrícola nacional”.

Há 47 anos, o relatório dos mil dias

A história precisa ser visitada quantas vezes for necessário. Essa releitura, no entender do historiados Eric Hobsbawm, “não se restringe à passagem do tradicional ao moderno num modelo linear”.

“Talvez os historiadores possam contribuir para um esclarecimento, se não para uma revisão”, escreveu Hobsbawm.

Dito isto, revisitei outro relatório, divulgado em 1987, que se chamou “Nosso Futuro Comum” e que tem alguns pontos bem parecidos com o que ainda será divulgado pela BPES. Escrito por 21 líderes (ou seus representantes), o relatório foi encomendando pela ONU à ex-ministra da Noruega Gro Brundtland para se constituir “uma agenda global para mudança’, necessário frente às questões do meio ambiente e social que se tornaram um desafio. Começou a ser elaborado em 1983 e só ficou pronto em 1987: mil dias depois.

“Foi um apelo urgente para propor estratégias ambientais de longo prazo para obter um desenvolvimento sustentável por volta do ano 2000 e daí em diante”, escreveu Brundtland no prefácio do relatório que se tornou um livro que tenho na estante e que visito bastante.

O relatório Brundtland passeia por questões variadas, apontando desafios e soluções para cada uma delas, e, obviamente, a segurança alimentar foi um dos focos do estudo feito em escala, em reuniões em diversos países. O fato de as políticas agrícolas de quase todos os países se concentrarem no aumento da produção era apontado como um problema, por conta de a erosão do solo já estar sendo diagnosticada em várias partes do globo.

“As políticas agrícolas que visam ao aumento da produção sem se deterem em considerações ambientais também vêm contribuindo bastante para essa deterioração”, alerta o estudo feito há quase cinquenta anos.

Vários pontos de “Nosso Futuro Comum” vieram à memória quando eu li e ouvi as questões postas por nossos pesquisadores brasileiros. A ótica da justiça social está presente nos dois estudos, a necessidade de uma governança adequada da agricultura. Em vários outros destaques há espaço para se pensar sobre o desconforto quando nos confrontamos com a falta de ações eficazes para resolver problemas tão antigos.

Resta celebrarmos este conteúdo, sobretudo porque traça uma trajetória histórica brasileira e coteja com o cenário atual. No mais, fico com a fala do pesquisador Miguel Calmon, que pontuou o fato de estarmos vivendo um momento de crise – que não é nova mas tem acelerado: a crise das mudanças climáticas.

“ O ser humano se move muito na crise. Estamos até um pouco vulneráveis, todos mobilizados para lidar com as mudanças sem perder a liderança agroambiental”.

Para evitar que as decisões mudem ao sabor dos governantes, o que representou um retrocesso tremendo de 2016 a 2022 em nosso país, a sugestão de Calmon é que as politicas públicas positivas para a agricultura virem politica de estado, não de governo.

Afinal, como indica o estudo, “As relações de interdependência entre agricultura, biodiversidade e serviços ecossistêmicos, quando respeitados, asseguram o uso sustentável dos recursos naturais e contribuem para a qualidade de vida em longo prazo para a sociedade”.

Destaques do Relatório da BPES

Agricultura não familiar (commodities) corresponde a  25% do agronegócio mundial;

Agricultura familiar representa 74% da mão de obra no campo e tem grande diversidade nos sistemas de produção;

Em 2020, a agricultura brasileira movimentou R$ 554,67 bilhões em valor da produção e ocupou 33% do território brasileiro;

Brasil tem 20% da biodiversidade global; mais de 400 espécies em sistemas agroflorestais; mais de 40 mil plantas nativas; mais de 250 povos e comunidades tradicionais;

De 1985 a 2022 a área utilizada para a agricultura no país cresceu 95,1 milhões de hectares, 10.6% do território nacional

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Ouvidos surdos ao toque de clarim

Meus amigos estavam indignados, naquela linda manhã de sábado, quando nos encontramos aqui na rua. Sandra e Henrique tinham acabado de ver o corte cruel de um Oiti no terreno vizinho à sua casa, que pertence a uma escola. Uma árvore que sempre os acompanhou pela janela, possivelmente residência de inúmeros seres ativos, desses que grande parte da humanidade prefere ignorar ou que sempre se sente superior a eles.

Vou preferir não dizer o nome da escola porque, na esteira de uma denúncia, sempre haverá muitas firulas jurídicas. E, para mim, não é essa a questão. A lei dos homens permite que se remova “obstáculos naturais” que estejam “importunando” a vida dos homens. Já me enfezei com um vizinho que defendeu a retirada de uma amendoeira cujos frutos estavam machucando a lataria do seu automóvel.

O Oiti ainda vivo

No ano passado,  o prefeito Eduardo Paes – que tem feito uma administração muito decente – sancionou uma lei, de número 7.988, que autoriza os moradores da cidade a contratarem empresas autorizadas a realizar podas, corte ou remoção de árvores nas próprias calçadas. Isso não me parece razoável, nem um pouco.

Meus amigos apostam que o Oiti estava inteiro, saudável, florescente, e eu acredito nesta versão. Eles reclamaram com a direção da escola, que deu uma resposta que eles julgaram quase irônica: estava muito triste por ter sido obrigada a matar o Oiti, mas estava plantando outra árvore lá em Cachoeiras de Macacu.

Então tá, fica combinado assim, né?

A escola parece seguir à risca as leis do mercado de carbono. Segundo essa teoria, que se baseia na economia “as usual” para, magicamente, conter o aquecimento global,  uma empresa pode continuar  emitindo gases poluentes em Nova Zelândia se ela apoiar um projeto na Floresta do Congo (situação hipotética, só para ilustrar).

Peço vênia para trazer aqui um trecho do livro “Um planeta a conquistar”, da Ed. Autonomia Literária, cujo pensamento me parece mais realista do que essa alegoria amparada pela “mão invisível”:

“Para descarbonizar, precisamos reestruturar tudo, desde a forma como viajamos até os lugares onde moramos. Isso implica uma quantidade imensa de trabalho”.

E convido o leitor a uma viagem no tempo, para o início da era de consciência ambiental (estou sendo otimista), no final dos anos 60 e início dos 70, quando havia uma ingênua certeza de que os bens naturais eram infinitos. (Vamos deliberar aqui que a ficha chaiu pelo menos quanto à finitude dos bens, ok?). Árvores, rios, oceanos, bichos e terras seriam uma ‘dádiva divina’ para a humanidade. O pensamento ocidental assegurava que a natureza era uma espécie de ornamento para o homem, este sim a criação divina mais perfeita.

Não foi preciso muito para que a ciência conseguisse mostrar que não era bem isto. Em 1972, já quase no fim do período considerado pelo historiador Hobsbawn como “os anos dourados” (1946, pós-guerra imediato a 1975), as Nações Unidas se uniram na primeira Conferência do Meio Ambiente. Ler “Uma Terra Somente”, livro que representa uma espécie de ata daquela reunião, escrito por Barbara Ward e René Dubos, é fazer contato com as preocupações preliminares sobre o que hoje sabemos ser uma situação emergencial.

Antes de publicarem o livro, a pedido do então diretor da ONU Maurice Strong, Barbara e René submeteram o texto a mais de 70 representantes dos países que participaram da Conferência. No prefácio, os autores contam como foi difícil conciliar opiniões muitas vezes contraditórias. Alguns consultores acharam o tom muito catastrofista – e percebam que ainda não se falava em eventos extremos – enquanto outros queriam o contrário.

“Consultores gostariam que o livro emitisse uma advertência mais rigorosa – um toque de clarim – no sentido de que as atuais tendências ambientais não podem continuar por muito mais tempo porque a humanidade está no caminho da autodestruição”, escrevem.

O toque de clarim foi dado. Não somente em 1972, mas em 1987 com o relatório “Nosso Futuro Comum”; em 1990, quando o primeiro relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) ressaltou que as mudanças do clima exigiam uma cooperação internacional; em 1992, com a Conferência realizada no Rio de Janeiro e, a partir de 1995, quando houve a primeira COP, que desde então é realizada anualmente.

Mas, para ouvir um toque de clarim, é preciso ter vontade. Não é o que vimos acontecer com os donos da escola que tiveram a coragem de arrancar um oiti. Uma rápida pesquisa sobre esta espécie originária da Mata Atlântica, dá conta de sua importância, sobretudo para as áreas urbanas: é muito utilizada na arborização de várias cidades brasileiras do Nordeste e do Sudeste. Sua copa frondosa, que dá ótima sombra, impacta positivamente sobre o meio urbano no período do verão. 

Uma das maiores autoridades do mundo em Neurobiologia Vegetal, o professor italiano e autor de vários best sellers Stefano Mancuso, em “A Planta do Mundo” nos traduz a devida importância das árvores no que ele chama de “metabolismo e fisiologia da cidade”.

“Como todo ser vivo, uma cidade tem necessidade constante de energia e de recursos para crescer, e é inevitável que produza descartes e resíduos. Para manter o funcionamento desse ciclo, a presença de plantas dentro do organismo urbano é essencial. Infelizmente, desse ponto de vista, a situação está longe de ser satisfatória. Basta olhar para as nossas cidades do alto para perceber que são espaços totalmente minerais, com edificações que ocupam até o último metro quadrado disponível”.

E mais não precisa ser dito. Pelo menos por enquanto.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Marta Porto: “Quais são as pautas da cultura para a sociedade brasileira?”

Uma fartura de reflexões conjugando artes e cultura para entender a cidade como um grande ateliê aberto de invenção vai aportar, no Museu da Lingua Portuguesa, em São Paulo, dias 17 e 18 de junho.  Trata-se do III Fórum Internacional Brasil Cultura 23-30 que se dedica a investigar a imaginação, a ficção, a poesia, as artes e o exercício da criação como fundamentos para a construção de presentes e futuros.

À frente desse movimento está Marta Porto, pensadora crítica, ativista nas áreas de arte e cultura. Marta crê que o momento é oportuno para atualizar as reflexões sobre cultura, depois de termos vivido quatro anos, sob a gestão de Jair Bolsonaro, quando teve até o desaparecimento do Ministério da Cultura. Polêmica, à época ela defendeu que não se lutasse pelo restabelecimento do órgão. E escreveu um artigo, em que perguntava: “Porque manter um ministério da cultura num governo fascista?”

Hoje o momento é outro. Os produtores culturais têm tido recursos à disposição mas esses financiamentos acabam criando uma deficiência, segundo Marta Porto: “Acabam olhando para o projeto, não para o processo cultural”.

É hora de trazer de volta as reflexões culturais, portanto, mas ancoradas no presente. Neste sentido, o processo iniciado há três décadas por Marta Porto, com parcerias, de tentar colocar as pessoas comuns no centro da discussão das cidades está servindo como potencializador para o Fórum Internacional Brasil Cultural 23-30. Sim, o título é uma ironia com a Agenda 2030, das Nações Unidas.

“Não vamos colar selinhos de ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), mas vamos falar da vida comum, cultural e política do país baseando em quatro grandes temas: imaginação cívica e democracia; renovação produtiva e trabalho e renda; diplomacia e cooperação internacional; cultura, ecologias e meio ambiente”, disse ela.

Como ponto de partida para as reflexões, Marta lança a pergunta: “Como podemos imaginar algo diferente de tudo que está dado?” Por “tudo que está dado”, entenda-se: estamos entrando na segunda década do século XXI com um severo nível de agravamento das agendas retrógradas e com a crise climática que nos deixa distantes do bem viver.

Quem vai abrir o encontro na segunda-feira é o filósofo e educador colombiano Bernardo Toro, que vê a cultura como forma de construir o público, “o agente que nos ajuda a formar o senso comum da democracia, a criticar”:

Conheci Marta Porto durante a Rio+20, quando ela fez uma exposição sobre meio ambiente no Jardim Botânico e me deu uma excelente entrevista que recebeu o título: “Não existe meio ambiente sem gente”. Nesta semana, quando recebi dela a mensagem sobre a criação do Fórum, pedi para conversarmos e fiz nova entrevista, que você vai ler abaixo.

Em tempo: as vagas para participar do Fórum se esgotaram em cinco dias. Mas haverá transmissão ao vivo pelo Youtube, é só acessar o link: https://www.youtube.com/@BrasilCultura2330/streams. E para saber detalhes sobre a programação e os participantes do Fórum, é só ir ao site.

Abaixo, a entrevista:

Podemos começar a nossa conversa com a provocação feita no folheto/convite para o III Fórum Internacional de Cultura 23-30: Como podemos moldar novas formas de habitar o mundo e as cidades através da imaginação cultural?

Foto de Leo Aversa

Marta Porto – Tenho feito um pouco uma linha do tempo, porque há trinta anos, junto com Élida Murta, Eliseu de Rezende Santos, Euclides Guimarães Neto (Lika) e Maria Helena Cunha, criamos o Objeto Urbano, uma plataforma que criou o seguinte slogan: “Olhe bem a cidade”. Essa plataforma virou uma grande exposição no Museu da Pampulha, estávamos tentando colocar as pessoas comuns no centro da discussão da cidade. Na Rio+20 eu me ocupei do projeto “Meu Meio”, entendendo a questão ambiental e humana como duas coisas intrinsecamente ligadas.  E a cultura sendo, talvez, o grande lugar que conseguiria fazer esses dois fluxos dialogarem, já que quando se pensa o habitar a cidade estamos falando de práticas culturais que às vezes não são naturais, precisam ser aprendidas. E existe o jogo de interesses dos mais ricos sempre se sobrepondo às pessoas comuns, vulnerabilizando os mais pobres, um jogo que toda cidade manifesta neste período agressivo do neoliberalismo.

Qual a semente do III Fórum Internacional de Cultura? E por que o 23-30?

Marta Porto – Essa plataforma começou em 2020, ainda na pandemia, com um curso que eu dei chamado “O poder da imaginação”. Acabou se tornando um espaço de discussão não só de gestores, mas de artistas muito ávidos a tentar discutir coisas que são do território,   muita gente preocupada sobre o quanto a cultura também, nos últimos anos, passou a ser sequestrada pelas corporações. Às vezes o incentivo obriga o gestor cultural a dar respostas que são totalmente estranhas ao fazer cultural. E isso se agravou no período de Jair Bolsonaro como presidente, porque veio associado a uma agenda retrógrada e a uma incapacidade de a comunidade cultural pensar o futuro fora da agenda do incentivo fiscal.

O ex-presidente chegou a extinguir o Ministério da Cultura, como você viveu isso?

Marta Porto – Na época escrevi um artigo em que perguntava: ministério da cultura para quê? Por que manter um ministério num governo de viés fascista? É como se ampliasse a institucionalidade, quando teria sido melhor que ela tivesse sido rebaixada. Ao mesmo tempo, imaginei que aqueles quatro anos pudessem ser um momento de inflexão, de discutir profundamente o motivo pelo qual essa pauta da institucionalidade cultural é tão frágil e por que ela estava sequestrada por uma discussão neoliberal, de dinheiro. Ao mesmo tempo, começamos a ter uma resposta nos movimentos mais progressistas, que abandonaram as macropautas e começaram a discutir micropautas.

Explica melhor isso, por favor.

Marta Porto – Uma das principais matérias da gestão cultural é criar ambientes de diálogo na diversidade. Apostar em práticas que estimulem o pensamento crítico e a pluralidade política e social. Para isso acolher ideias contraditórias e tensionar os limites do que determinados grupos de poder estabelecem como aceitáveis, é um pressuposto daquilo que entendemos como cidadania cultural. No momento que vivemos, de vigilâncias e controles diversos, quando não de censura aberta, o sistema cultural e todo o seu aparato, poderiam rever a forma quase natural que vem acolhendo certos clichês que acabam infantilizando o debate em busca de consensos.

Está faltando senso crítico?

Marta Porto – Sim. E falta, também, algo que é o elemento cultural de qualquer sociedade: não ter medo de discutir as coisas. Isso ocorre na medida que a agenda cultural institucional – não estou fazendo crítica aos artistas, estou falando da gestão cultural – é sequestrada por uma agenda corporativa. E  isso está muito filiado aos incentivos fiscais. Esses incentivos são necessários, mas no campo da cultura eles ficam associados ao marketing, para gerar reputação de marca. Isso criou uma deficiência numa área que, stricto sensu, é crítica ou deveria ser crítica. As pessoas passam a usar um conjunto de artifícios para responder a isso, como colar selo dos ODS em qualquer projeto. Abandona-se, assim, a discussão mais dificil: quais são as pautas da cultura para a sociedade brasileira? O que estamos discutindo em termos de convivência urbana, em termos de privilégios, da diversidade, que é sinônimo da pluralidade política e não só que cada um fala consigo e tenta evitar o diálogo com outro.

O Fórum 23 30 entra para promover esse diálogo?

Marta Porto – Durante a pandemia nós criamos um Laboratório de Emergências Culturais, online, com minigestores espalhados pelo país, e a discussão foi muito em cima do luto cívico. As pessoas perderam outras pessoas, perderam economias e, ao mesmo tempo, perderam perspectiva do futuro. Pensamos então em retormar a discussão de trinta anos atrás para discutir esse espaço simbólico da cultura, como um lugar que fala desse bem comum, de alteridade, e que pressiona para uma mudança que não é só uma mudança de equação, mas é a política sendo exercida no coração da ação cultural. E daí surge o Fórum  23 30, que é pensar o pós Bolsonaro a partir de 2023, meio que fazendo ironia com a agenda 2030. Sem colar selinho dos ODS, mas falando da vida comum, da vida cultural, politica do país. Veja: os ODS, eticamente, são importantes. Eu tenho critica é à estratégia e a muitas das metas porque são um contrassenso ao próprio objetivo ao qual está vinculada. Qual o lugar da cultura? Porque estamos construindo indicadores econômicos?

Qual a crítica à Agenda 2030?

Marta Porto – O Relatório da Oxfam sobre a extrema pobreza que foi lançado no Fórum Econômico Mundial de Davos em janeiro deste ano deixa claro que a estratégia da Agenda 2030 apenas colabora para manter as coisas como elas estão. A força do sistema ONU, e do Pacto Global que fizeram com as corporações, foi uma estratégia que não deu certo, porque a concentração de renda e a pobreza só aumentam.

Você disse que não há senso crítico. Como fazer para criar?

Marta Porto – Estamos vivendo um momento em que os gestores culturais têm boa quantidade de recursos à disposição. Quanto mais dinheiro, mais responsabilidade. Esses financiamentos criam uma deficiência, que é o olhar para o projeto, não para o processo cultural. É quando se perde a perspectiva de território, de cidades, de país. Isso fica muito claro quando tem um Estado (Rio Grande do Sul)  com dois milhões de pessoas afetadas por uma crise climática que já era falada há um tempo e que começa um processo de reconstrução sem se perguntar se isso vai acontecer de novo ou não. Qual a qualidade da discussão cultural que está se dando no país? Bernardo Toro, Nestor Canclini, falam há décadas que a cultura é a forma de construir o público. É o agente que nos ajuda a formar o senso comum da democracia, a criticar.

O governo do presidente Lula tem sido, obviamente, bem diferente do que o anterior com relação à cultura. Como você está vendo?

Marta Porto – Esse Ministério da Cultura tem feito vários movimentos nessa compreensão, por exemplo quando lança o acordo do com o Ministério da Educação, quando trabalha com algumas coisas na área da inovação, quando tematiza a questão dos direitos humanos. Ou ainda quando olha o incentivo fiscal atrelado à ideia de movimento territorial. Entendo que há um esforço grande nessa direção, mas acho que é uma temática que tem que ser acelerada e que não compromete em nada a discussão de um apoio constante à produção do país, que é absolutamten necessário. Acho, inclusive, que tem que reduzir o grau de contrapartidas que se exige de um artista para aumentar o grau de experimentação.

Como assim?

Marta Porto – É na experimentação que se transgride a norma, que se forma novos direitos, que se enxerga coisas que ninguém está enxergando. Todo um fomento domesticado atrelado a um certo conceito de bom mocismo sempre vai estar a serviço de uma institucionalidade caduca. O cientista, por exemplo, tem que desenvolver hipóteses de experimentações e é nisso que ele tem que estar plugado. Um artista deveria estar plugado em ser radicalmente um criador, um cara que inventa coisas, e não necessariamente numa logica de mainstream. Hoje não se tem um embate saudável na sociedade, e a discussão do conflito no embate é inerente à lógica cultural e artística.

Esse lugar da cultura tem que estar longe da representação?

Marta Porto – Sim, e tem que se encontrar para pressionar essa representação de alguma forma. A imaginação é um grande atributo humano de reinvenção e de evolução da espécie. E ela está intrinsecamente ligada à experiência. É diferente do sonho, que é um fundamento. A utopia é uma maneira de pensar um conjunto de coisas que não estão colocadas, mas a imaginação é um insumo da evolução humana. A luz da experiência que estamos vivendo, como a gente imagina algo diferente disso que já está dado?

E o que já está dado?

Marta Porto – O que está dado é a reparação ou é reinvenção, que é o que vem acontecendo na discussão ambiental. Descarboniza aqui, faz um puxadinho ali. A imaginação é colocar coisas num marco que as experiências e as evidencias nos traduzem que fracassamos em alguns pontos. E isso é ciclo histórico. No fim da Segunda Guerra não existia a Liga das Nações, o sistema ONU. Em 1987 não existia noção de sustentabilidade. Como se imagina coisas que não existem para responder ao tempo presente, não ao futuro? Abandonamos a noção de ecologia, que é muito mais importante porque é sistêmica, enquanto a sustentabilidade é uma visão eurocêntrica, que cuida do desenvolvimento sem abrir mão de nada, num certo sentido.

Podemos dizer que tudo isso será debatido no Fórum que começa na segunda-feira?

Marta Porto – Sim, e vamos abrir o evento com a fala de um sábio, Bernardo Toro, que tematiza o debate público há muito tempo. Eu quis abrir com um sábio porque acho muito legal ouvir a juventude, mas ela não é a minha geração. E eu quero muito entender o que a minha geração ainda tem a oferecer para o debate público, ou os grandes filósosfos, que ainda estão fazendo perguntas que não estão sendo feitas por esse mundo narcísico que a gente vive hoje. Como diz Ailton Krenak, vamos prestar atenção no presente. Vamos fazer com que toda a discussão esteja sempre ancorada no hoje e não no amanhã. Não tem futuro sem presente, como ele disse.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Dia de ouvir o chamado do sábio cacique guardião

Depois de quase meia hora absorta em imagens impactantes produzidas pela equipe de filmagem de três vídeos, entre eles o curta “O Chamado do Cacique”, a plateia acompanhou o caminho daquele homem de 92 anos, eterno guardião da floresta reconhecido mundialmente, o cacique Raoni, ao subir os poucos degraus até chegar ao palco. Estávamos no Museu do Amanhã para celebrar a Semana do Meio Ambiente, e Raoni foi convidado, assim como o cientista Paulo Moutinho, o cineasta Bruno Ramos e  Beptuk Metuktire, neto e tradutor do indígena. Há tempos Raoni não fala mais a língua dos homens brancos.

Cumprindo o ritual costumeiro de tais eventos, o apresentador e curador do Museu Fabio Scarano chamou os convidados. Certamente passaria a palavra ao cacique, mas não foi preciso. Raoni pegou o microfone e sua voz limpida e segura se fez ouvir. Era quase uma oração, que a plateia acompanhou num silêncio respeitoso. Falou alguns minutos e deu tempo para que o neto traduzisse. Primeiro, perguntou se todos tinham gostado dos vídeos, recebendo um sonoro sim como resposta.

“A cultura existindo, a floresta estará de pé. Por isso, mais uma vez quero pedir que me apoiem para eu continuar unindo todos os povos, até vocês, como não indígenas, para que possamos continuar vivendo neste mundo. Posso reunir outras lideranças para fortalecer mais ainda a luta em defesa das florestas e dos povos indígenas. Outro ponto: nosso criador nos fez pensar o bem, para o próximo, para que possamos viver com saúde. O criador acompanha a todos nós, ele está de olho…. Quando você pensa em conflito, você vai preocupá-lo. Por isso peço que reflitam nesse caminho do bem para todos nós… Vamos nos preocupar com o futuro, não com o passado. Vamos pensar nas florestas, nos rios. A floresta nos dá alimento, por isso a gente tem que cuidar dela”, disse o cacique Raoni.

É este o chamado que o sábio cacique faz para a nossa civilização. E eu fiquei feliz por estar ali, a ouvi-lo, e por ter escrito, seis anos atrás, na coluna que eu assinava no portal G1, o resultado de um relatório divulgado pela ONU, dando conta de que “as florestas prosperam quando os povos indígenas permanecem em suas terras e têm direitos legalmente reconhecidos para gerenciá-las e protegê-las”.

Não faltam, não faltarão homenagens e dias para celebrarmos a natureza, mesmo que muitas vezes a festa seja distante das nossas práticas, se é que vocês me entendem. Mas é importante, mesmo assim. Semeia, a Semana do Meio Ambiente no Museu do Amanhã, terá programação cultural extensa e gratuita sob o tema “Trilhas da Florestania”, e vale muito a pena estar presente (o site do Museu tem toda a programação).

Nada há que reparar na simples e grave mensagem que o cacique Raoni fez espalhar ao mundo, ali daquele microcosmo no Centro do Rio. Sabemos todos, mesmo aqueles que fingem não saber,  que as florestas e a biodiversidade são nossos sustentáculos no planeta. Paulo Moutinho, co fundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, que também estava presente à comemoração do Dia, pontuou a simplicidade da fala de Raoni:

“É um discurso simples, de uma simplicidade que a nós já nos esquecemos. Sem rebuscamento, o cacique fala de reunião quando tudo que ele viu foi morte, sangue, usurpação de direitos. E ele diz: ‘vamos esquecer o passado’. Não é só uma questão de preservação de direitos básicos, neste momento estamos falando é do funcionamento do planeta”, disse ele.

Os dados sempre impressionam, e é por isso que os institutos realizam estudos e os divulgam há décadas. É uma forma de manter um alerta, sobretudo para aqueles do agronegócio Business As Usual, que não se cansam de dizer que “é muita terra para pouco índio”.  Por conta da atuação dos povos indígenas, dos quilombolas e dos ribeirinhos, dez anos de emissões de gases poluentes estão preservados, informou-nos Paulo Moutinho.

“Essa parte do agronegócio parece não saber que o negócio deles depende disso, da preservação. O Xingu é uma bomba de água que abastece toda a produção de soja. 40% da chuva, da umidade da área, é mantida pelos povos indígenas. Se nós perdemos isso, a produção da soja despenca”, afirmou Moutinho.

As secas, assim como as enchentes, estão cada vez mais severas. Vimos o que aconteceu no Rio Grande do Sul, aliás, o que continua acontecendo desde o dia 27 de abril. No estado do Amazonas, a previsão é de seca severa, os níveis dos rios estão abaixo do esperado e a Defesa Civil já deu alerta para a população guardar água, comida e remédios.

No Dia Mundial do Meio Ambiente, em Brasília, o governo federal anunciou, junto à Ministra Marina Silva, oito decretos, algumas assinaturas de protocolos de intenções. Foi um pacote de medidas que visam a qualidade de vida e ao bem estar dos cidadãos e das cidadãs. Considerando que vivemos tempos bem difíceis no governo passado, este é um momento de celebração.

Ainda  há tempo?

Alguns autores referem-se a Alexander von Humboldt, que viveu de 1769 a 1859, como o primeiro a chamar nossa atenção para mudanças climáticas causadas pela ação humana*. Humboldt era um naturalista alemão que tinha dinheiro e empregou-o bem, numa expedição em territórios que hoje compõem Venezuela, Peru, Colômbia, Cuba, México e EUA.

O alemão se preocupou como os sistemas de irrigação poderiam causar salinização, como o desmatamento poderia alterar o clima e o curso de rios e como as ações humanas poderiam ser a causa de deslocamentos de sedimentos catastróficos. Já em sua viagem ele percebeu que já era notável a interferência do homem na natureza.

Seu desassosego é visível para o leitor de “Visões da natureza”, onde Alexander Humboldt conta sua expedição à América.

Já passamos da fase do desassossego. Por tanto submetermos a natureza aos nossos desejos para construir uma vida mais confortável e próspera, conseguimos também que a ciência evoluísse a ponto de nos alertar. Relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental das Mudanças do Clima) feitos por cientistas voluntários, vêm se esmerando em tais alertas. E em sugestões para fugirmos do caos total.

Mas ainda estamos vivos. Alguns, como nós que estivemos no auditório do Museu do Amanhã na tarde de ontem (6), com privilégio de ter respeito e dar voz a um sábio. Outros, porém, estão longe disso, buscando construir mais máquinas para tirá-los deste planeta.

Fico feliz em pertencer ao grupo dos que escutam os sábios.

*Esta informação está no excelente livro “Concepções de Natureza – Em Humboldt, Darwin e Lévi-Strauss”, da Ed. UFRJ, organizado por Christine Ruta e Mariana Contins.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário