Agroecologia pode ter salvado municípios do Rio Grande do Sul na grande enchente

Dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, 471 foram fortemente atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul causadas pelas chuvas que caíram sobre o estado no fim de abril e início de maio deste ano. O que teria salvo da maior tragédia as 26 cidades restantes? O fato de eles terem como prática de produção agrícola a agroecologia, que evita romper o equilíbrio ecológico do ecossistema natural, assegurando à terra chance de absorver a água, mesmo em grande quantidade.

A informação é de Eduardo Assad, ex-secretário de Mudanças Climáticas (2011) e engenheiro agrícola de extenso currículo, autor e coordenador do capítulo 2 do Relatório Temático sobre Agricultura, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos que a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPES) apresentou ontem pela manhã numa coletiva de impresa para a qual fui convidada. Assad se referiu, por exemplo, ao pequeno município de Antonio Prado, com cerca de 12 mil habitantes, como um exemplo de cidade que não sofreu tanto o impacto das chuvas.

“O que nós vimos, na prática, foi uma catástrofe que deixa claro que quando não se conserva o tapete vegetal e se destroi a biodiversidade, as consequências são graves. As chuvas causaram a destruição da biodiversidade em 44% do bioma Pampa Gaúcho, mas 7% da Mata Atlântica foram conservados.  Essa destruição vai acontecer em outros biomas, mas se vocês me perguntarem se tem solução, eu digo que tem. Os que foram destruídos foram aqueles que desrespeitaram o Código Florestal. E foi avisado: não plante nem construa casa na beira do rio”, disse ele.

O Relatório da BPES só ficará pronto em setembro, mas ontem foi divulgado o Sumário para Tomadores de Decisão. Trata-se de uma versão resumida,  elaborada por 35 pesquisadores, num documento que visa  a influenciar gestores e lideranças das esferas pública e privada na tomada de decisões com foco na sustentabilidade e no equilíbrio da tríade agricultura, biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Alguns autores estavam presentes à entrevista, e falaram sobre “soluções sustentáveis para o presente e o futuro que conciliem a prática da agricultura e a manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos”.

No escopo do estudo, a agricultura é considerada como o conjunto de atividades agrícolas, pecuárias e de silvicultura. E, como ficou claro na fala de Eduardo Assad, a agroecologia está listada entre as boas práticas.

Consciência dos produtores, o maior desafio

Existem futuros possíveis no Brasil, acreditam os pesquisadores, para conciliar produção agrícola feita de maneira consciente e sustentável, com a demanda. Mas é preciso que haja consciência, por parte dos produtores rurais, para não violarem as regras estabelecidas. E esta é, disparado, a parte mais difícil.

“Tem espaço para dobrar a produção agrícola sem derrubar nem mais um hectare de floresta, o pessoal precisa entender que é possível fazer isso, e esse Relatório traz todas as informações necessárias para os tomadores de decisão, para os produtores. O que fizemos no Capítulo Dois foi mostrar que desde que se derrubou o primeiro pau brasil tentamos, com muita força, acabar com a biodiversidade brasileira. Ainda bem que o país é geande e não se conseguiu. Teve ciclo do ouro, da borracha, do cacau, do café, da cana, do algodão. A história se repete, e estamos vivendo o auge do ciclo da soja, que não vai resistir dojeito que está sendo feito. O mercado está deixando muito claro que não compra soja de área desmatada. O pessoal fica preocupado com o futuro, e eu digo: faça direito que vai dar certo”, disse Assad.

Mesmo recebendo elogios, as iniciativas do atual governo federal,  de apoio à produção agrícola, segundo os pesquisadores, ainda tem lacunas. Blandina Felipe Viana, da Universidade Federal da Bahia, lembrou que é preciso uma política efetiva de desmatamento zero.

“Eu venho de um estado (Bahia) onde o desmatamento legal, autorizado para conversão em monocultivo, especialmente de soja, na região Oeste, é maior do que a supressão ilegal. E as pesquisas mostram que essa conversão de vegetação natural em monocultivo não se reverteu em índices favoráveis, nem econômicos para o municpio, nem de desenvolvimento humano. Isso quer dizer que há algo errado acontecendo, e que a gente precisa conter a autorização legal de supressão de vegetação”, disse a professora.

Importância das práticas tradicionais

No debate da manhã de ontem, cheio de dados e informações, também houve espaço para se confrontar com o que pode ser considerado um dos grandes paradoxos da nossa atual civilização. Se, por um lado, há a sugestão de respeitar as práticas – chamadas de conservacionistas – dos povos tradicionais, por outro lado é preciso lançar mão de soluções tecnológicas disponíveis para se alcançar a produção agrícola sustentável.

Para o pesquisador Fabiano de Carvalho Balieiro, é desafiador trabalhar com essas duas vertentes, mas “temos que aprender”:

“O legado desse Relatório é deixar a mensagem de que precisamos revisitar essa prática tradicional, incorporá-la à nossa prática. É o que o homem vem fazendo há muitos anos e que se faz hoje de forma mais assertiva e direta na Amazônia. Temos aprendido bastante que o que fazemos hoje no Cerrado não pode ser espelhado para biomas como o amazônico e a Mata Atlântica. Estamos vendo a importância da diversificação dos sistemas de produção, das pastagens, do manejo do chamado regenerativo, que é justamente no sentido da incorporação dessa biodiversidade.  É um desafio, mas faço apelo a todos os produtores a incorporarem mais diversidade nos seus sistemas”, disse Fabiano Balieiro.

Bons programas

Em linhas gerais, o Relatório trouxe resultados bem satisfatórios para a política que está sendo implementada para a agricultura no Brasil. Um dos planos que mais empolga os pesquisadores é o ABC, linha de crédito para agricultura de baixa emissão de carbono no país, que prevê também transferência de tecnologia e desenvolvimento. Existem ainda vários outros programas dignos de respeito pela sua eficácia. A interconexão entre ministérios que antes não lidavam com questão ambiental também é um ponto positivo.

“Sobretudo no Cerrado e na Amazônia, há tentativas de conciliação entre produção agrícola, conservação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos”, diz o relatório.

Assim mesmo, a crescente pressão sobre a biodiversidade e sobre os serviços ecossistêmicos constitui um desafio que demanda uma governança agroambiental mais eficiente e fortalecida sob diversos aspectos:

“Instrumentos de governança, se bem planejados e implementados, podem contribuir para a conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos em consonância com a produção agrícola nacional”.

Há 47 anos, o relatório dos mil dias

A história precisa ser visitada quantas vezes for necessário. Essa releitura, no entender do historiados Eric Hobsbawm, “não se restringe à passagem do tradicional ao moderno num modelo linear”.

“Talvez os historiadores possam contribuir para um esclarecimento, se não para uma revisão”, escreveu Hobsbawm.

Dito isto, revisitei outro relatório, divulgado em 1987, que se chamou “Nosso Futuro Comum” e que tem alguns pontos bem parecidos com o que ainda será divulgado pela BPES. Escrito por 21 líderes (ou seus representantes), o relatório foi encomendando pela ONU à ex-ministra da Noruega Gro Brundtland para se constituir “uma agenda global para mudança’, necessário frente às questões do meio ambiente e social que se tornaram um desafio. Começou a ser elaborado em 1983 e só ficou pronto em 1987: mil dias depois.

“Foi um apelo urgente para propor estratégias ambientais de longo prazo para obter um desenvolvimento sustentável por volta do ano 2000 e daí em diante”, escreveu Brundtland no prefácio do relatório que se tornou um livro que tenho na estante e que visito bastante.

O relatório Brundtland passeia por questões variadas, apontando desafios e soluções para cada uma delas, e, obviamente, a segurança alimentar foi um dos focos do estudo feito em escala, em reuniões em diversos países. O fato de as políticas agrícolas de quase todos os países se concentrarem no aumento da produção era apontado como um problema, por conta de a erosão do solo já estar sendo diagnosticada em várias partes do globo.

“As políticas agrícolas que visam ao aumento da produção sem se deterem em considerações ambientais também vêm contribuindo bastante para essa deterioração”, alerta o estudo feito há quase cinquenta anos.

Vários pontos de “Nosso Futuro Comum” vieram à memória quando eu li e ouvi as questões postas por nossos pesquisadores brasileiros. A ótica da justiça social está presente nos dois estudos, a necessidade de uma governança adequada da agricultura. Em vários outros destaques há espaço para se pensar sobre o desconforto quando nos confrontamos com a falta de ações eficazes para resolver problemas tão antigos.

Resta celebrarmos este conteúdo, sobretudo porque traça uma trajetória histórica brasileira e coteja com o cenário atual. No mais, fico com a fala do pesquisador Miguel Calmon, que pontuou o fato de estarmos vivendo um momento de crise – que não é nova mas tem acelerado: a crise das mudanças climáticas.

“ O ser humano se move muito na crise. Estamos até um pouco vulneráveis, todos mobilizados para lidar com as mudanças sem perder a liderança agroambiental”.

Para evitar que as decisões mudem ao sabor dos governantes, o que representou um retrocesso tremendo de 2016 a 2022 em nosso país, a sugestão de Calmon é que as politicas públicas positivas para a agricultura virem politica de estado, não de governo.

Afinal, como indica o estudo, “As relações de interdependência entre agricultura, biodiversidade e serviços ecossistêmicos, quando respeitados, asseguram o uso sustentável dos recursos naturais e contribuem para a qualidade de vida em longo prazo para a sociedade”.

Destaques do Relatório da BPES

Agricultura não familiar (commodities) corresponde a  25% do agronegócio mundial;

Agricultura familiar representa 74% da mão de obra no campo e tem grande diversidade nos sistemas de produção;

Em 2020, a agricultura brasileira movimentou R$ 554,67 bilhões em valor da produção e ocupou 33% do território brasileiro;

Brasil tem 20% da biodiversidade global; mais de 400 espécies em sistemas agroflorestais; mais de 40 mil plantas nativas; mais de 250 povos e comunidades tradicionais;

De 1985 a 2022 a área utilizada para a agricultura no país cresceu 95,1 milhões de hectares, 10.6% do território nacional

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Ouvidos surdos ao toque de clarim

Meus amigos estavam indignados, naquela linda manhã de sábado, quando nos encontramos aqui na rua. Sandra e Henrique tinham acabado de ver o corte cruel de um Oiti no terreno vizinho à sua casa, que pertence a uma escola. Uma árvore que sempre os acompanhou pela janela, possivelmente residência de inúmeros seres ativos, desses que grande parte da humanidade prefere ignorar ou que sempre se sente superior a eles.

Vou preferir não dizer o nome da escola porque, na esteira de uma denúncia, sempre haverá muitas firulas jurídicas. E, para mim, não é essa a questão. A lei dos homens permite que se remova “obstáculos naturais” que estejam “importunando” a vida dos homens. Já me enfezei com um vizinho que defendeu a retirada de uma amendoeira cujos frutos estavam machucando a lataria do seu automóvel.

O Oiti ainda vivo

No ano passado,  o prefeito Eduardo Paes – que tem feito uma administração muito decente – sancionou uma lei, de número 7.988, que autoriza os moradores da cidade a contratarem empresas autorizadas a realizar podas, corte ou remoção de árvores nas próprias calçadas. Isso não me parece razoável, nem um pouco.

Meus amigos apostam que o Oiti estava inteiro, saudável, florescente, e eu acredito nesta versão. Eles reclamaram com a direção da escola, que deu uma resposta que eles julgaram quase irônica: estava muito triste por ter sido obrigada a matar o Oiti, mas estava plantando outra árvore lá em Cachoeiras de Macacu.

Então tá, fica combinado assim, né?

A escola parece seguir à risca as leis do mercado de carbono. Segundo essa teoria, que se baseia na economia “as usual” para, magicamente, conter o aquecimento global,  uma empresa pode continuar  emitindo gases poluentes em Nova Zelândia se ela apoiar um projeto na Floresta do Congo (situação hipotética, só para ilustrar).

Peço vênia para trazer aqui um trecho do livro “Um planeta a conquistar”, da Ed. Autonomia Literária, cujo pensamento me parece mais realista do que essa alegoria amparada pela “mão invisível”:

“Para descarbonizar, precisamos reestruturar tudo, desde a forma como viajamos até os lugares onde moramos. Isso implica uma quantidade imensa de trabalho”.

E convido o leitor a uma viagem no tempo, para o início da era de consciência ambiental (estou sendo otimista), no final dos anos 60 e início dos 70, quando havia uma ingênua certeza de que os bens naturais eram infinitos. (Vamos deliberar aqui que a ficha chaiu pelo menos quanto à finitude dos bens, ok?). Árvores, rios, oceanos, bichos e terras seriam uma ‘dádiva divina’ para a humanidade. O pensamento ocidental assegurava que a natureza era uma espécie de ornamento para o homem, este sim a criação divina mais perfeita.

Não foi preciso muito para que a ciência conseguisse mostrar que não era bem isto. Em 1972, já quase no fim do período considerado pelo historiador Hobsbawn como “os anos dourados” (1946, pós-guerra imediato a 1975), as Nações Unidas se uniram na primeira Conferência do Meio Ambiente. Ler “Uma Terra Somente”, livro que representa uma espécie de ata daquela reunião, escrito por Barbara Ward e René Dubos, é fazer contato com as preocupações preliminares sobre o que hoje sabemos ser uma situação emergencial.

Antes de publicarem o livro, a pedido do então diretor da ONU Maurice Strong, Barbara e René submeteram o texto a mais de 70 representantes dos países que participaram da Conferência. No prefácio, os autores contam como foi difícil conciliar opiniões muitas vezes contraditórias. Alguns consultores acharam o tom muito catastrofista – e percebam que ainda não se falava em eventos extremos – enquanto outros queriam o contrário.

“Consultores gostariam que o livro emitisse uma advertência mais rigorosa – um toque de clarim – no sentido de que as atuais tendências ambientais não podem continuar por muito mais tempo porque a humanidade está no caminho da autodestruição”, escrevem.

O toque de clarim foi dado. Não somente em 1972, mas em 1987 com o relatório “Nosso Futuro Comum”; em 1990, quando o primeiro relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) ressaltou que as mudanças do clima exigiam uma cooperação internacional; em 1992, com a Conferência realizada no Rio de Janeiro e, a partir de 1995, quando houve a primeira COP, que desde então é realizada anualmente.

Mas, para ouvir um toque de clarim, é preciso ter vontade. Não é o que vimos acontecer com os donos da escola que tiveram a coragem de arrancar um oiti. Uma rápida pesquisa sobre esta espécie originária da Mata Atlântica, dá conta de sua importância, sobretudo para as áreas urbanas: é muito utilizada na arborização de várias cidades brasileiras do Nordeste e do Sudeste. Sua copa frondosa, que dá ótima sombra, impacta positivamente sobre o meio urbano no período do verão. 

Uma das maiores autoridades do mundo em Neurobiologia Vegetal, o professor italiano e autor de vários best sellers Stefano Mancuso, em “A Planta do Mundo” nos traduz a devida importância das árvores no que ele chama de “metabolismo e fisiologia da cidade”.

“Como todo ser vivo, uma cidade tem necessidade constante de energia e de recursos para crescer, e é inevitável que produza descartes e resíduos. Para manter o funcionamento desse ciclo, a presença de plantas dentro do organismo urbano é essencial. Infelizmente, desse ponto de vista, a situação está longe de ser satisfatória. Basta olhar para as nossas cidades do alto para perceber que são espaços totalmente minerais, com edificações que ocupam até o último metro quadrado disponível”.

E mais não precisa ser dito. Pelo menos por enquanto.

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Marta Porto: “Quais são as pautas da cultura para a sociedade brasileira?”

Uma fartura de reflexões conjugando artes e cultura para entender a cidade como um grande ateliê aberto de invenção vai aportar, no Museu da Lingua Portuguesa, em São Paulo, dias 17 e 18 de junho.  Trata-se do III Fórum Internacional Brasil Cultura 23-30 que se dedica a investigar a imaginação, a ficção, a poesia, as artes e o exercício da criação como fundamentos para a construção de presentes e futuros.

À frente desse movimento está Marta Porto, pensadora crítica, ativista nas áreas de arte e cultura. Marta crê que o momento é oportuno para atualizar as reflexões sobre cultura, depois de termos vivido quatro anos, sob a gestão de Jair Bolsonaro, quando teve até o desaparecimento do Ministério da Cultura. Polêmica, à época ela defendeu que não se lutasse pelo restabelecimento do órgão. E escreveu um artigo, em que perguntava: “Porque manter um ministério da cultura num governo fascista?”

Hoje o momento é outro. Os produtores culturais têm tido recursos à disposição mas esses financiamentos acabam criando uma deficiência, segundo Marta Porto: “Acabam olhando para o projeto, não para o processo cultural”.

É hora de trazer de volta as reflexões culturais, portanto, mas ancoradas no presente. Neste sentido, o processo iniciado há três décadas por Marta Porto, com parcerias, de tentar colocar as pessoas comuns no centro da discussão das cidades está servindo como potencializador para o Fórum Internacional Brasil Cultural 23-30. Sim, o título é uma ironia com a Agenda 2030, das Nações Unidas.

“Não vamos colar selinhos de ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), mas vamos falar da vida comum, cultural e política do país baseando em quatro grandes temas: imaginação cívica e democracia; renovação produtiva e trabalho e renda; diplomacia e cooperação internacional; cultura, ecologias e meio ambiente”, disse ela.

Como ponto de partida para as reflexões, Marta lança a pergunta: “Como podemos imaginar algo diferente de tudo que está dado?” Por “tudo que está dado”, entenda-se: estamos entrando na segunda década do século XXI com um severo nível de agravamento das agendas retrógradas e com a crise climática que nos deixa distantes do bem viver.

Quem vai abrir o encontro na segunda-feira é o filósofo e educador colombiano Bernardo Toro, que vê a cultura como forma de construir o público, “o agente que nos ajuda a formar o senso comum da democracia, a criticar”:

Conheci Marta Porto durante a Rio+20, quando ela fez uma exposição sobre meio ambiente no Jardim Botânico e me deu uma excelente entrevista que recebeu o título: “Não existe meio ambiente sem gente”. Nesta semana, quando recebi dela a mensagem sobre a criação do Fórum, pedi para conversarmos e fiz nova entrevista, que você vai ler abaixo.

Em tempo: as vagas para participar do Fórum se esgotaram em cinco dias. Mas haverá transmissão ao vivo pelo Youtube, é só acessar o link: https://www.youtube.com/@BrasilCultura2330/streams. E para saber detalhes sobre a programação e os participantes do Fórum, é só ir ao site.

Abaixo, a entrevista:

Podemos começar a nossa conversa com a provocação feita no folheto/convite para o III Fórum Internacional de Cultura 23-30: Como podemos moldar novas formas de habitar o mundo e as cidades através da imaginação cultural?

Foto de Leo Aversa

Marta Porto – Tenho feito um pouco uma linha do tempo, porque há trinta anos, junto com Élida Murta, Eliseu de Rezende Santos, Euclides Guimarães Neto (Lika) e Maria Helena Cunha, criamos o Objeto Urbano, uma plataforma que criou o seguinte slogan: “Olhe bem a cidade”. Essa plataforma virou uma grande exposição no Museu da Pampulha, estávamos tentando colocar as pessoas comuns no centro da discussão da cidade. Na Rio+20 eu me ocupei do projeto “Meu Meio”, entendendo a questão ambiental e humana como duas coisas intrinsecamente ligadas.  E a cultura sendo, talvez, o grande lugar que conseguiria fazer esses dois fluxos dialogarem, já que quando se pensa o habitar a cidade estamos falando de práticas culturais que às vezes não são naturais, precisam ser aprendidas. E existe o jogo de interesses dos mais ricos sempre se sobrepondo às pessoas comuns, vulnerabilizando os mais pobres, um jogo que toda cidade manifesta neste período agressivo do neoliberalismo.

Qual a semente do III Fórum Internacional de Cultura? E por que o 23-30?

Marta Porto – Essa plataforma começou em 2020, ainda na pandemia, com um curso que eu dei chamado “O poder da imaginação”. Acabou se tornando um espaço de discussão não só de gestores, mas de artistas muito ávidos a tentar discutir coisas que são do território,   muita gente preocupada sobre o quanto a cultura também, nos últimos anos, passou a ser sequestrada pelas corporações. Às vezes o incentivo obriga o gestor cultural a dar respostas que são totalmente estranhas ao fazer cultural. E isso se agravou no período de Jair Bolsonaro como presidente, porque veio associado a uma agenda retrógrada e a uma incapacidade de a comunidade cultural pensar o futuro fora da agenda do incentivo fiscal.

O ex-presidente chegou a extinguir o Ministério da Cultura, como você viveu isso?

Marta Porto – Na época escrevi um artigo em que perguntava: ministério da cultura para quê? Por que manter um ministério num governo de viés fascista? É como se ampliasse a institucionalidade, quando teria sido melhor que ela tivesse sido rebaixada. Ao mesmo tempo, imaginei que aqueles quatro anos pudessem ser um momento de inflexão, de discutir profundamente o motivo pelo qual essa pauta da institucionalidade cultural é tão frágil e por que ela estava sequestrada por uma discussão neoliberal, de dinheiro. Ao mesmo tempo, começamos a ter uma resposta nos movimentos mais progressistas, que abandonaram as macropautas e começaram a discutir micropautas.

Explica melhor isso, por favor.

Marta Porto – Uma das principais matérias da gestão cultural é criar ambientes de diálogo na diversidade. Apostar em práticas que estimulem o pensamento crítico e a pluralidade política e social. Para isso acolher ideias contraditórias e tensionar os limites do que determinados grupos de poder estabelecem como aceitáveis, é um pressuposto daquilo que entendemos como cidadania cultural. No momento que vivemos, de vigilâncias e controles diversos, quando não de censura aberta, o sistema cultural e todo o seu aparato, poderiam rever a forma quase natural que vem acolhendo certos clichês que acabam infantilizando o debate em busca de consensos.

Está faltando senso crítico?

Marta Porto – Sim. E falta, também, algo que é o elemento cultural de qualquer sociedade: não ter medo de discutir as coisas. Isso ocorre na medida que a agenda cultural institucional – não estou fazendo crítica aos artistas, estou falando da gestão cultural – é sequestrada por uma agenda corporativa. E  isso está muito filiado aos incentivos fiscais. Esses incentivos são necessários, mas no campo da cultura eles ficam associados ao marketing, para gerar reputação de marca. Isso criou uma deficiência numa área que, stricto sensu, é crítica ou deveria ser crítica. As pessoas passam a usar um conjunto de artifícios para responder a isso, como colar selo dos ODS em qualquer projeto. Abandona-se, assim, a discussão mais dificil: quais são as pautas da cultura para a sociedade brasileira? O que estamos discutindo em termos de convivência urbana, em termos de privilégios, da diversidade, que é sinônimo da pluralidade política e não só que cada um fala consigo e tenta evitar o diálogo com outro.

O Fórum 23 30 entra para promover esse diálogo?

Marta Porto – Durante a pandemia nós criamos um Laboratório de Emergências Culturais, online, com minigestores espalhados pelo país, e a discussão foi muito em cima do luto cívico. As pessoas perderam outras pessoas, perderam economias e, ao mesmo tempo, perderam perspectiva do futuro. Pensamos então em retormar a discussão de trinta anos atrás para discutir esse espaço simbólico da cultura, como um lugar que fala desse bem comum, de alteridade, e que pressiona para uma mudança que não é só uma mudança de equação, mas é a política sendo exercida no coração da ação cultural. E daí surge o Fórum  23 30, que é pensar o pós Bolsonaro a partir de 2023, meio que fazendo ironia com a agenda 2030. Sem colar selinho dos ODS, mas falando da vida comum, da vida cultural, politica do país. Veja: os ODS, eticamente, são importantes. Eu tenho critica é à estratégia e a muitas das metas porque são um contrassenso ao próprio objetivo ao qual está vinculada. Qual o lugar da cultura? Porque estamos construindo indicadores econômicos?

Qual a crítica à Agenda 2030?

Marta Porto – O Relatório da Oxfam sobre a extrema pobreza que foi lançado no Fórum Econômico Mundial de Davos em janeiro deste ano deixa claro que a estratégia da Agenda 2030 apenas colabora para manter as coisas como elas estão. A força do sistema ONU, e do Pacto Global que fizeram com as corporações, foi uma estratégia que não deu certo, porque a concentração de renda e a pobreza só aumentam.

Você disse que não há senso crítico. Como fazer para criar?

Marta Porto – Estamos vivendo um momento em que os gestores culturais têm boa quantidade de recursos à disposição. Quanto mais dinheiro, mais responsabilidade. Esses financiamentos criam uma deficiência, que é o olhar para o projeto, não para o processo cultural. É quando se perde a perspectiva de território, de cidades, de país. Isso fica muito claro quando tem um Estado (Rio Grande do Sul)  com dois milhões de pessoas afetadas por uma crise climática que já era falada há um tempo e que começa um processo de reconstrução sem se perguntar se isso vai acontecer de novo ou não. Qual a qualidade da discussão cultural que está se dando no país? Bernardo Toro, Nestor Canclini, falam há décadas que a cultura é a forma de construir o público. É o agente que nos ajuda a formar o senso comum da democracia, a criticar.

O governo do presidente Lula tem sido, obviamente, bem diferente do que o anterior com relação à cultura. Como você está vendo?

Marta Porto – Esse Ministério da Cultura tem feito vários movimentos nessa compreensão, por exemplo quando lança o acordo do com o Ministério da Educação, quando trabalha com algumas coisas na área da inovação, quando tematiza a questão dos direitos humanos. Ou ainda quando olha o incentivo fiscal atrelado à ideia de movimento territorial. Entendo que há um esforço grande nessa direção, mas acho que é uma temática que tem que ser acelerada e que não compromete em nada a discussão de um apoio constante à produção do país, que é absolutamten necessário. Acho, inclusive, que tem que reduzir o grau de contrapartidas que se exige de um artista para aumentar o grau de experimentação.

Como assim?

Marta Porto – É na experimentação que se transgride a norma, que se forma novos direitos, que se enxerga coisas que ninguém está enxergando. Todo um fomento domesticado atrelado a um certo conceito de bom mocismo sempre vai estar a serviço de uma institucionalidade caduca. O cientista, por exemplo, tem que desenvolver hipóteses de experimentações e é nisso que ele tem que estar plugado. Um artista deveria estar plugado em ser radicalmente um criador, um cara que inventa coisas, e não necessariamente numa logica de mainstream. Hoje não se tem um embate saudável na sociedade, e a discussão do conflito no embate é inerente à lógica cultural e artística.

Esse lugar da cultura tem que estar longe da representação?

Marta Porto – Sim, e tem que se encontrar para pressionar essa representação de alguma forma. A imaginação é um grande atributo humano de reinvenção e de evolução da espécie. E ela está intrinsecamente ligada à experiência. É diferente do sonho, que é um fundamento. A utopia é uma maneira de pensar um conjunto de coisas que não estão colocadas, mas a imaginação é um insumo da evolução humana. A luz da experiência que estamos vivendo, como a gente imagina algo diferente disso que já está dado?

E o que já está dado?

Marta Porto – O que está dado é a reparação ou é reinvenção, que é o que vem acontecendo na discussão ambiental. Descarboniza aqui, faz um puxadinho ali. A imaginação é colocar coisas num marco que as experiências e as evidencias nos traduzem que fracassamos em alguns pontos. E isso é ciclo histórico. No fim da Segunda Guerra não existia a Liga das Nações, o sistema ONU. Em 1987 não existia noção de sustentabilidade. Como se imagina coisas que não existem para responder ao tempo presente, não ao futuro? Abandonamos a noção de ecologia, que é muito mais importante porque é sistêmica, enquanto a sustentabilidade é uma visão eurocêntrica, que cuida do desenvolvimento sem abrir mão de nada, num certo sentido.

Podemos dizer que tudo isso será debatido no Fórum que começa na segunda-feira?

Marta Porto – Sim, e vamos abrir o evento com a fala de um sábio, Bernardo Toro, que tematiza o debate público há muito tempo. Eu quis abrir com um sábio porque acho muito legal ouvir a juventude, mas ela não é a minha geração. E eu quero muito entender o que a minha geração ainda tem a oferecer para o debate público, ou os grandes filósosfos, que ainda estão fazendo perguntas que não estão sendo feitas por esse mundo narcísico que a gente vive hoje. Como diz Ailton Krenak, vamos prestar atenção no presente. Vamos fazer com que toda a discussão esteja sempre ancorada no hoje e não no amanhã. Não tem futuro sem presente, como ele disse.

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Dia de ouvir o chamado do sábio cacique guardião

Depois de quase meia hora absorta em imagens impactantes produzidas pela equipe de filmagem de três vídeos, entre eles o curta “O Chamado do Cacique”, a plateia acompanhou o caminho daquele homem de 92 anos, eterno guardião da floresta reconhecido mundialmente, o cacique Raoni, ao subir os poucos degraus até chegar ao palco. Estávamos no Museu do Amanhã para celebrar a Semana do Meio Ambiente, e Raoni foi convidado, assim como o cientista Paulo Moutinho, o cineasta Bruno Ramos e  Beptuk Metuktire, neto e tradutor do indígena. Há tempos Raoni não fala mais a língua dos homens brancos.

Cumprindo o ritual costumeiro de tais eventos, o apresentador e curador do Museu Fabio Scarano chamou os convidados. Certamente passaria a palavra ao cacique, mas não foi preciso. Raoni pegou o microfone e sua voz limpida e segura se fez ouvir. Era quase uma oração, que a plateia acompanhou num silêncio respeitoso. Falou alguns minutos e deu tempo para que o neto traduzisse. Primeiro, perguntou se todos tinham gostado dos vídeos, recebendo um sonoro sim como resposta.

“A cultura existindo, a floresta estará de pé. Por isso, mais uma vez quero pedir que me apoiem para eu continuar unindo todos os povos, até vocês, como não indígenas, para que possamos continuar vivendo neste mundo. Posso reunir outras lideranças para fortalecer mais ainda a luta em defesa das florestas e dos povos indígenas. Outro ponto: nosso criador nos fez pensar o bem, para o próximo, para que possamos viver com saúde. O criador acompanha a todos nós, ele está de olho…. Quando você pensa em conflito, você vai preocupá-lo. Por isso peço que reflitam nesse caminho do bem para todos nós… Vamos nos preocupar com o futuro, não com o passado. Vamos pensar nas florestas, nos rios. A floresta nos dá alimento, por isso a gente tem que cuidar dela”, disse o cacique Raoni.

É este o chamado que o sábio cacique faz para a nossa civilização. E eu fiquei feliz por estar ali, a ouvi-lo, e por ter escrito, seis anos atrás, na coluna que eu assinava no portal G1, o resultado de um relatório divulgado pela ONU, dando conta de que “as florestas prosperam quando os povos indígenas permanecem em suas terras e têm direitos legalmente reconhecidos para gerenciá-las e protegê-las”.

Não faltam, não faltarão homenagens e dias para celebrarmos a natureza, mesmo que muitas vezes a festa seja distante das nossas práticas, se é que vocês me entendem. Mas é importante, mesmo assim. Semeia, a Semana do Meio Ambiente no Museu do Amanhã, terá programação cultural extensa e gratuita sob o tema “Trilhas da Florestania”, e vale muito a pena estar presente (o site do Museu tem toda a programação).

Nada há que reparar na simples e grave mensagem que o cacique Raoni fez espalhar ao mundo, ali daquele microcosmo no Centro do Rio. Sabemos todos, mesmo aqueles que fingem não saber,  que as florestas e a biodiversidade são nossos sustentáculos no planeta. Paulo Moutinho, co fundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, que também estava presente à comemoração do Dia, pontuou a simplicidade da fala de Raoni:

“É um discurso simples, de uma simplicidade que a nós já nos esquecemos. Sem rebuscamento, o cacique fala de reunião quando tudo que ele viu foi morte, sangue, usurpação de direitos. E ele diz: ‘vamos esquecer o passado’. Não é só uma questão de preservação de direitos básicos, neste momento estamos falando é do funcionamento do planeta”, disse ele.

Os dados sempre impressionam, e é por isso que os institutos realizam estudos e os divulgam há décadas. É uma forma de manter um alerta, sobretudo para aqueles do agronegócio Business As Usual, que não se cansam de dizer que “é muita terra para pouco índio”.  Por conta da atuação dos povos indígenas, dos quilombolas e dos ribeirinhos, dez anos de emissões de gases poluentes estão preservados, informou-nos Paulo Moutinho.

“Essa parte do agronegócio parece não saber que o negócio deles depende disso, da preservação. O Xingu é uma bomba de água que abastece toda a produção de soja. 40% da chuva, da umidade da área, é mantida pelos povos indígenas. Se nós perdemos isso, a produção da soja despenca”, afirmou Moutinho.

As secas, assim como as enchentes, estão cada vez mais severas. Vimos o que aconteceu no Rio Grande do Sul, aliás, o que continua acontecendo desde o dia 27 de abril. No estado do Amazonas, a previsão é de seca severa, os níveis dos rios estão abaixo do esperado e a Defesa Civil já deu alerta para a população guardar água, comida e remédios.

No Dia Mundial do Meio Ambiente, em Brasília, o governo federal anunciou, junto à Ministra Marina Silva, oito decretos, algumas assinaturas de protocolos de intenções. Foi um pacote de medidas que visam a qualidade de vida e ao bem estar dos cidadãos e das cidadãs. Considerando que vivemos tempos bem difíceis no governo passado, este é um momento de celebração.

Ainda  há tempo?

Alguns autores referem-se a Alexander von Humboldt, que viveu de 1769 a 1859, como o primeiro a chamar nossa atenção para mudanças climáticas causadas pela ação humana*. Humboldt era um naturalista alemão que tinha dinheiro e empregou-o bem, numa expedição em territórios que hoje compõem Venezuela, Peru, Colômbia, Cuba, México e EUA.

O alemão se preocupou como os sistemas de irrigação poderiam causar salinização, como o desmatamento poderia alterar o clima e o curso de rios e como as ações humanas poderiam ser a causa de deslocamentos de sedimentos catastróficos. Já em sua viagem ele percebeu que já era notável a interferência do homem na natureza.

Seu desassosego é visível para o leitor de “Visões da natureza”, onde Alexander Humboldt conta sua expedição à América.

Já passamos da fase do desassossego. Por tanto submetermos a natureza aos nossos desejos para construir uma vida mais confortável e próspera, conseguimos também que a ciência evoluísse a ponto de nos alertar. Relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental das Mudanças do Clima) feitos por cientistas voluntários, vêm se esmerando em tais alertas. E em sugestões para fugirmos do caos total.

Mas ainda estamos vivos. Alguns, como nós que estivemos no auditório do Museu do Amanhã na tarde de ontem (6), com privilégio de ter respeito e dar voz a um sábio. Outros, porém, estão longe disso, buscando construir mais máquinas para tirá-los deste planeta.

Fico feliz em pertencer ao grupo dos que escutam os sábios.

*Esta informação está no excelente livro “Concepções de Natureza – Em Humboldt, Darwin e Lévi-Strauss”, da Ed. UFRJ, organizado por Christine Ruta e Mariana Contins.

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Memórias vivas no Dia Mundial do Meio Ambiente

Meus últimos dias têm sido dedicados também (além dos trabalhos como conteudista) a rever textos meus, antigos, para um possível livro. E tem sido uma viagem no tempo. Desde o início do século venho me atualizando no tema que hoje ocupa as manchetes mas que, em 2003, quando foi criado o “Razão Social’, ainda se lia apenas nas entrelinhas.

A publicação foi pensada como um espaço para as empresas mostrarem seus projetos sociais bem sucedidos, movimento chamado de Responsabilidade Social Corporativa. Mas, com o tempo, fomos mudando o leme, e o “Razão Social”  se tornou também uma fonte de reportagens sobre o movimento socioambiental, envolvendo as empresas mas dando voz às ONGs e aos acadêmicos.

Por ter tido tanto acesso às práticas e às teorias, hoje em dia eu me censuro um pouco, para não cair no discurso do “nós avisamos”, quando acontece um evento extremo tão sério quanto o que assolou o estado do Rio Grande do Sul no fim de abril. Mas, às vezes, é impossível evitar. Vamos encontrar e punir os culpados, vamos dar à questão um viés político, vamos cuidar dos desabrigados, mas vamos também, por favor, pensar que estamos longe, muito longe, de agir com o cuidado que precisamos ter para não acontecer isto novamente.

E vamos aprender a prestigiar candidatos que tenham uma plataforma voltada aos cuidados necessários para minimizar os efeitos dos eventos extremos. Porque eles serão mais constantes e intensos, como já avisaram os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC). O quinto relatório do grupo, lançado em 2014, portanto há uma década, é enfático: “O regime de chuvas, as correntes marinhas e o padrão dos ventos estão sendo perturbados, aumentando a tendência de secas e enchentes”.

A questão é: quem ouve esses alarmes?

Ainda no trabalho de organizar os textos para o livro, ontem à noite eu reli a entrevista que fiz em 2007, ou seja, há dezessete anos, com a ex-primeira ministra da Noruega Gro Brundtland. Ela estava no Brasil para dar uma palestra em comemoração aos vinte anos do Relatório Brundtland, ou “Nosso Futuro Comum”, publicado pós reunião de líderes mundiais, coordenada por ela,  que cunhou a expressão desenvolvimento sustentável em 1987.

Mrs Brundtland falou-me sobre os principais desafios da humanidade nas questões climáticas e elegeu a energia como o grande imbróglio. Foi enfática ao afirmar que os países ditos, à época, em desenvolvimento (China, Índia e Brasil especificamente) tinham se industrializado com a ajuda dos ricos. Sendo assim, já estariam em condições de ajudar os mais pobres.

Naquele primeiro decênio do século XXI, a China ainda não se tornara a potência que é hoje, e o Brasil estava apostando em etanol que, fez questão de frisar Brundtland, era uma boa fonte de energia. “Mas é preciso diversificar”, acrescentou ela. Sua grande aposta é a energia solar.

Pesquisando hoje, véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, descobri que Inger Andersen, diretora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), escreveu um texto no site da instituição, conclamando o mundo a um movimento para  “restaurar as nossas terras”. Segundo ela, três milhões de pessoas são afetadas pela degradação dos solos e pela desertificação.

Já o relatório Brundtland, quase quatro décadas atrás conclamava a população mundial a fazer uma mudança nos meios de produção e consumo para garantir a sobrevivência da raça humana no planeta.   A Comissão que o produziu começou a trabalhar nele em 1984 e levou mil dias para lançá-lo.

Tinha acabado de reler a entrevista e de pesquisar sobre o Relatório quando recebi o livro “Terra Viva”, escrito por Vandana Shiva, filósofa, física, ecofeminista e ativista ambiental indiana a quem tive o prazer de conhecer durante a Rio+20. O texto é uma riqueza, conta detalhes de sua vida e da luta civil, em seu país, contra aqueles que queriam derrubar florestas. Recomendo a leitura.

Foi impossível deixar de fazer uma conexão entre a reunião que acontecia na Europa, capitaneada pelas Nações Unidas, o movimento que surgia na Índia, contado por Vandana Shiva em seu livro, e a mensagem atual do Pnuma. O objetivo tem sido o mesmo: salvar o meio ambiente dos impactos causados pelos homens.

Estamos andando em círculos?  

Em 1986, quando começava a ficar pronto o relatório capitaneado por Brundtland, que dizia ser necessário usar os “recursos naturais” hoje, de forma a não faltar para as gerações futuras, na Índia o momento era bem diverso. Havia um movimento forte, liderado em sua maioria por mulheres que  abraçavam as árvores em florestas tropicais para impedir que os representantes do setor madeireiro as cortassem.

“A diversidade, a harmonia e a essência autossustentável da floresta formaram os princípios organizacionais que orientaram a civilização indiana”, escreve Vandana Shiva.  “O povo da Índia reconhece tradicionalmente que a sobrevivência humana depende da existência de florestas”.

O movimento que incentivava as mulheres a abraçarem as árvores, agarrarem-se a elas e salvá-las dos “homens do machado” chamava-se Chipko. Vandana segue contando suas experiências, desde menina criada ao pé do Himalaia. E brinda os leitores com análises que tornam muito simples o entendimento de que é possível preservar as florestas e, mesmo assim, crescer economicamente, desde que levando em conta as pessoas em volta. Desde que o verbo não seja acumular, e sim dividir.

As indianas e os indianos do movimento Chipko, assim como todos os povos que vivem nas florestas mundo afora, sabem o valor que elas têm. “Como comunidade, a floresta é vista como um modelo de evolução social e civilizacional”, escreve Vandana Shiva.

É simples assim.

(P.S.): Uma cópia do Relatório Nosso Futuro Comum foi entregue ao então presidente José Sarney, pelo secretário-executivo da Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, Werren Lidney. no dia 30 de agosto de 1987. O evento de entrega teve direito a uma notícia no jornal O Globo, em página de Meio Ambiente.

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Há saídas para tantos colapsos?

Minha ideia é procurar saídas, devires, brechas. Não é tarefa fácil, nesse momento de tantos colapsos. Como é meu foco de estudo há duas décadas, tento destrinchar o colapso ambiental, entender melhor o que as pessoas teimam em não entender bem. Hoje pela manhã ouvi um analista político dizer que o Brasil não pode deixar de se desenvolver, porque é isso que os países desenvolvidos querem que aconteça. Tal discurso, igualzinho, ouviu-se muito na Conferência de Estocolmo de 1972, há cinquenta anos. De lá para cá, o país de fato se desenvolveu… até a página dois. Já os danos ambientais estão quase na conclusão final, se estivéssemos falando sobre um livro.

Que tudo o que está acontecendo no Rio Grande do Sul era previsto, sim, era. Que desde 1988, quando foi criado o Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês), os cientistas estão avisando que os eventos extremos serão o novo normal de nosso século, é só revirar um pouco os papéis para descobrir. Falemos, pois, agora que não há mais ponto de retorno:

“Mudar nossa trajetória de colapso requer não apenas parar de destruir a natureza agora, mas nos empenhar em reconstruir, na medida do possível, o que foi destruído desde ao menos a década de 1950”, aponta o professor Luiz Marques em seu livro “O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência” (Ed. Elefante, 2023).

É claro que as vidas humanas arrasadas, não só fisicamente mas com o colapso de tudo o que vinha sendo constituído como sólido ao redor, são prioridade no momento. Mas disso estamos cuidando todos nós, solidários, quer seja enviando recursos financeiros, quer seja enviando alimentos e roupas.

Quero me ocupar, aqui, da política de sobrevivência, do que é preciso fazer para naturalizarmos o que foi cimentado. Olhem vagarosamente qualquer foto da destruição que está acontecendo na Palestina. Não há um verde em volta, e isso é muito significativo. Trago uma frase da música “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan (1965): “Você não precisa do homem do tempo para saber de que lado o vento sopra”.

Mas, apesar de toda essa introdução pouco otimista, tenho também uma visão do que é possível ser feito. Porque, se não acredito numa única solução para os colapsos que estamos vivendo, por outro lado, creio que há atos que valem a pena.

Neste fim de semana que passou estive na Lagoa Rodrigo de Freitas, no aniversário de uma amiga que fez sua festa num dos quiosques à beira do monumento. Muito simpático. No caminho, dois cartazes chamaram a minha atenção porque eles usavam uma palavra que me afeta: naturalização.

A Lagoa e sua vegetação, agora viçosa, atrai pássaros e outros bichos. Foto: Amelia Gonzalez

Trata-se do projeto de naturalização da Lagoa, ideia do biólogo Mario Moscatelli, que a Prefeitura encampou. O projeto começou em junho do ano passado, e já está pronto. É uma ação bem simples: retirar postes, meio-fio, pista e iluminação, depois acertar a área para a recuperar a flora (grama de mangue, samambaia do brejo, algodoeiro de praia e mangue vermelho) e, por fim, instalar um cercado protetivo e placas informativas.

As tais placas informativas chamaram minha atenção. Parei para ler. Mas fui capturada também pelo som dos pássaros que conseguiam romper o vozerio dos humanos em volta. A Lagoa, num domingo à tarde, ensolarado, atrai muita gente.

Fiquei ali um bom tempo, ouvindo e vendo. A passarada parecia toda animada, tinha ganhado de volta uma vegetação viçosa. Aparentemente, deu certo o projeto de Moscatelli. E não deve ter sido nem tão difícil assim retirar as intervenções urbanas que tinham roubado da natureza um espaço tão primordial.

Mais tarde, comentei com Emanuel Alencar, amigo e colega de profissão que milita no setor do meio ambiente, e pactuamos, via rede social, bons sentimentos  sobre o projeto de Moscatelli. E que bom que o poder público teve sensibilidade para levar adiante.

Luiz Marques, de novo, em consonância com o que eu estava vivenciando:

“Mudar nossa trajetória de colapso requer não apenas parar de destruir a natureza agora, mas nos empenhar em reconstruir, na medida do possível, o que foi destruído desde ao menos a década de 1950. Se os últimos setenta anos foram os anos da “Grande Aceleração”, ou seja, da “Grande Destruição”, os próximos decênios terão de ser os da “Grande Restauração”. É preciso apostar que isso ainda é possível. Essa aposta é, contudo, razoável se, e somente se, como indivíduos e como sociedade globalmente organizada, reagirmos com presteza e à altura do que exige agora a emergência climática e demais emergências socioambientais”.

Busquei notícias sobre o projeto bem sucedido de Moscatelli, poucas achei. Não é de se estranhar. Quem se interessa pelas coisas que dão certo e podem ser replicadas? Poucos. E a mídia precisa de muitos olhares, muitos likes, muitas análises, críticas positivas ou não. Estamos num emaranhado, imersos, quase viciados em histórias pungentes, dramáticas. Ao mesmo tempo que somos atraídos, elas nos extenuam, nos deixam de ressaca, e aí só mesmo assistindo a doramas ou a filmes de ação violento para expurgar a droga.

Mas no britânico “The Guardian” encontrei um texto que dialogou com algumas das minhas reflexões. A autora é Adriana Matei, e ela traduz a angústia que às vezes me persegue: ter microresponsabilidades com o ambiente no entorno pode tirar da grande indústria o papel que ela tem, teve e terá no colapso ambiental?

Matei sugere a leitura do livro “One Green Thing”, de Heather White, que mais me parece uma auto ajuda para se tornar uma pessoa verde. Mas acredito em sua proposta: ““A ação individual impulsiona a mudança cultural e, sem mudança cultural, as políticas globais e as soluções de mercado não funcionarão. ”

De alguma forma, os meus cuidados com o entorno são, ao menos, percebidos por alguém da vizinhança que seguirá pensando sobre o assunto. E isso é bom. Se me consola ou me tranquila com relação a tudo que estamos  e estaremos vivendo nos próximos anos? Não. Definitivamente, não.

A minha droga preocupante é o discurso que relatei no início do texto, que envolve ainda a dicotomia desenvolvimento versus preservação. Não vejo a menor possibilidade de continuarmos o desenvolvimento tipo business as usual sem assistirmos a catástrofes ambientais cada vez mais intensas. E, para quem ainda não percebeu, vale o alerta dado pelos cientistas do Inmet: a onda de calor e a seca que estão aqui no Rio de Janeiro e em outras partes do país também são eventos climáticos. E, caso continuem, também vão impactar fortemente a agricultura e a saúde humana.

Invoco Félix Guatarri para me ajudar a dar um sentido final a esse texto, que não deve concluir nada. Apenas convido a refletir. Nascido na França, em 1930, Guatarri foi filósofo, psicanalista, psiquiatra, semiólogo, roteirista e ativista revolucionário francês. E escreveu um livro chamado “As três ecologias” em 1989, que não me canso de consultar. Um ano antes do lançamento dessa obra, os cientistas inauguravam o IPCC. Visionário, Guattari traz a questão ecológica bem centrada dentro de outra questão, fundamental, a desigualdade social. A luta de classes. E avisa:

“Menos que nunca a natureza pode ser separada da cultura, e precisamos aprender a pensar transversalmente as interações entre ecossistemas, mecanosfera e universos de referência sociais e individuais”.

Sigamos refletindo.

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O mundo contra a fome? Ou o mundo a favor das armas?

“O caráter fundamentalmente tautológico (repetição desnecessária) do espetáculo decorre do simples fato de os seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e se banha indefinidamente na sua própria glória”

Guy Debord em “Sociedade do espetáculo”

Pelo quinto ano consecutivo aumenta o número de pessoas que enfrentam altos índices de insegurança alimentar no mundo. Num informe publicado ontem, a agência da ONU para a Agricultura e a Alimentação (FAO) deu conta de que existem 281,6 milhões de pessoas com desnutrição aguda  no mundo. Dessas, 36 milhões está à beira da morte por conta disso. E há 800 milhões em situação de insegurança alimentar.

Aqui no Brasil, felizmente por conta de políticas sociais do atual governo de Lula da Silva, a realidade está melhorando. Ainda assim, existem 8,7 milhões de pessoas que enfrentam a insegurança alimentar. As informações são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgada hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No cenário global, os países que têm o maior número absoluto de famintos, são majoritariamente do continente africano: Repúblia Democrática do Congo, Nigéria, Sudão, Etiópia e um do continente asiático, o Afeganistão, um dos países mais pobres do  mundo, que foi atacado pelos Estados Unidos durante vinte anos, cuja economia é focada na produção e exportação do ópio.

Gaza tem 100% de famintos hoje, quando tem sido cruelmente atacada por Israel. Há mil pessoas que estão tentando chegar em Gaza, via marítima, partindo de Istambul, no projeto chamado “Flotilha da Liberdade”. Estão retidos, há ameaças de que talvez sejam interceptados. Eles levam toneladas de alimentos não perecíveis, medicamentos e profissionais que podem ajudar. Para saber mais, clique em https://www.instagram.com/reel/C6I5NB-IL4c/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==.

Na América Latina, a fome extrema atinge as populações do Haiti, da Bolívia, da Colômbia, da República Dominicana, de El Salvador, da Guatemala, de Honduras e da Nicarágua. As informações são da coluna do jornalista Jamil Chade no UOL. É onde os leitores ficam sabendo que a situaçao de insegurança alimentar que persiste no mundo abala os planos da ONU, de erradicar a desnutrição até 2030.

A pergunta que fica é: além das promessas e compromissos firmados diante dos holofotes espetaculares que iluminam as reuniões globais em torno de um desenvolvimento mais igualitário, justo e que leve em conta os impactos dos eventos extremos aos humanos mais pobres, o que mais tem sido feito para assegurar os planos das Nações Unidas?

É preciso um esforço coletivo, com compartilhamento de recursos? Bem, é preciso saber que, ainda segundo Chade, “nesta semana, um levantamento revelou que, em 2023, governos destinaram US$ 2,4 trilhões para suas forças armadas”. No mesmo período, o Banco Mundial alocou US$ 45 bilhões para combater a fome. E na ONU, toda a ajuda humanitária para as piores crises do planeta foi calculada em US$ 54 bilhões.

Do que é que estamos falando, verdadeiramente?

A foto que usei para ilustrar este post é de um documento antigo que tenho guardado. Trata-se do rascunho zero do texto final, assinado pelos países das Nações Unidas que se uniram no Rio de Janeiro, em 2012, e fizeram a Conferência Rio+20.

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Amelia vive!!!

Era uma vez uma esquina.

Ora bolas, mas como esquinas são seres inanimados, sinto que vou precisar dar mais detalhes para chamar a atenção dos meus leitores.

Então, vamos lá: era uma vez uma esquina, num bairro do Rio de Janeiro que já foi mais estiloso do que é atualmente.  Por essa esquina circulava, de maneira livre e feliz, como se num sítio estivesse, uma bela galinha preta.

Agora ficou mais interessante a história, né?

Pois bem. Com uma certa frequência eu usava aquele caminho para fechar um circuito de caminhada em dias de tempo livre. Eu e Beto, meu cachorro, que não dava a menor bola para a galinha. Eu é que a achava simpática e ficava com o coração aos pulos quando a via ciscando, tranquila, mas bem próximo aos carros. Ali não tem esse horror de alta velocidade porque a esquina fica no fim de uma ladeira e tem uma curva bem fechada. Mas, como a calçada é reduzida, a galinha ficava pertinho das rodas. Ela, nem aí. Eu, aflita. Ai, ai, e se acontece o pior? Coisa de humanos que se pré-ocupam dos acontecimentos.

Como toda a história, essa também tem um clímax. Vamos a ele.

Lá um dia, descendo a ladeira com Beto, eu ouço alguém chamar meu nome: “Amelia!”. Em alto e bom som. Olhei para um lado, olhei para o outro, ninguém acenava para mim, como seria de se imaginar que fizesse uma pessoa a chamar o nome de outra. Andei mais alguns passos, e ouvi de novo: “Amelia!’. Ah, aí eu parei e fiquei olhando para a rua, curiosa e atenta. Ninguém estava passando. Por ali, só a galinha preta e… uma senhora de dentro de uma casa, na calçada onde a galinha preta ciscava, solene e feliz.

Sim, se vocês imaginaram que a galinha preta se chamava Amelia, acertaram.

Agora, podem imaginar também meu espanto?

Amelia não é um nome comum. Nunca partilhei a lista de presença com outra Amelia em toda a minha vida escolar. E é um nome de pessoas idosas, que herdei de minha avó materna. O meu Amelia não tem acento porque meu pai não reparou na hora do registro de nascimento, portanto eu gosto de marcar essa diferença, e insisto com quem assina por mim: “Sem acento, por favor! Senão, não sou eu!”. Só de cisma mesmo… E quem poderia imaginar que, um dia, eu compartilharia esse nome idoso e ortograficamente desfalcado, com uma linda galinha preta que ciscava, feliz, num ambiente totalmente urbano, sem perturbar a vida de ninguém e sem ser perturbada?

Certa de que eu tinha feito um achado, no dia seguinte compartilhei a novidade com minhas colegas de hidroginástica. Faço o exercício numa academia perto da calçada de Amelia (que será chamada assim de agora em diante). E, qual não foi minha surpresa, quando percebi que não era novidade alguma. Todo mundo sabia que a galinha preta, nossa quase vizinha, se chamava Amelia. Só se esqueceram de me contar, ok, tudoi certo.

E fiquei sabendo mais da história de Amelia. Uma história que pode ter outras tantas versões, é claro, porque não tem um único dono. É como Amelia. A história será contada, então, no subjuntivo.

 Ela teria aparecido por ali jovenzinha, talvez fugindo de alguma panela, e gostara daquele canto. A moça que mora numa casa de sobrado cuja porta dá para a calçada de Amelia, não se incomodou com a presença da nova vizinha, respeitou, e passou a oferecer um teto para Amelia descansar à noite, quando toda galinha gosta de se aninhar em algum galinheiro.

Aqui, faço um parênteses, porque estou falando, obviamente, das galinhas felizes, que têm a sorte de Amelia por terem espaço para ciscar, não daquelas pobres criaturas que vivem dentro de gaiolas de aço e só existem para serem engordadas e depois são mortas para alimentar seres humanos e outros animais. Aquelas, das grandes corporações alimentícias. Até me dá tristeza de pensar… deixa pra lá.

Pois Amelia, então, passou a ter uma rotina bem tranquila. Durante o dia ela ciscava, à noite entrava em casa, onde a vizinha tinha até arquitetado um cantinho só para ela. Em contrapartida, Amelia livrava toda a vizinhança da praga de escorpiões, já que, como sabemos, as galinhas são predadoras de escorpiões. Tá bem, não vou garantir que a esquina de Amelia seja um antro de escorpiões, mas nunca se sabe. Portanto, se aparecesse algum, não teria vida longa.

Ah, e tinha outro pagamento que Amelia dava a seus protetores. De vez em quando ela deixava um ovo ou dois, que eram saboreados pela vizinhança.

E o tempo foi passando. Já sabendo de nossa característica comum, sempre que meu caminho se cruzava com o de Amelia, eu a olhava com muito mais carinho. Poxa, afinal, não é todo dia que a gente encontra uma homônima de dois pés e bico comprido. Gostei. E, baixinho, quando passava por perto, eu lhe dizia: ‘E aí, xará! Como a vida anda lhe tratando?” E saía rindo.

Mas um dia…

Por que todas as histórias precisam ter um final? E por que os finais, em geral, têm a ver com finitude?

Recebi a notícia do sumiço de Amelia. Quem me contou foi Maitê, professora da minha hidroginástica. Há duas versões. A primeira, terrível, conta que um homem a encurralou. Amelia tentou fugir para o seu cantinho, não conseguiu. O monstro torceu o pescoço de Amelia ali mesmo e a levou.

Da segunda versão, eu gosto mais. Amelia teria lutado, se debatido, mas o homem somente a levou, ainda viva, talvez para botar seus ovos para alguma família que necessite deles.

Mas, de uma forma ou de outra, lá se foi Amelia, cumprir seu destino. De maneira trágica, se a primeira versão estiver correta, ou talvez ainda lhe sobre um tempo para ser feliz em outro canto.

Passei a mandar um olhar comprido, com alguma tristeza, para a calçada de Amelia. Não sei quanto tempo ela viveu ali, mas não importa muito essa informação. Viveu o tempo necessário para despertar um sorriso que fosse nas pessoas que descem apressadas a ladeira, preocupadas com tantas coisas que já não se dão tempo nem de respirar de verdade, quanto mais de olhar para o lado e ver que esse mundo não é só dos humanos.

A cereja do bolo dessa história vem agora.

Passeando por ali, na tarde deste sábado (dia 20) vi duas pessoas pintando o muro da calçada da Amelia. De longe, não dava para perceber. Mas, quando cheguei bem pertinho, vi a homenagem que o artista plástico Odylo Falcão, mestre da arte urbana, que enfeita nosso bairro de cores e alegria, estava fazendo à Amelia. É a foto que enfeita este texto.

O mural ainda não está pronto, tanto que ainda não tem a assinatura do mestre. Mas eu não aguentei, e trouxe aqui para vocês a história, com a cereja do bolo. Veja na foto abaixo, ainda inacabado.

Amelia vive!! Para mim, sem acento em seu nome. Assim me sinto mais ligada a ela.

A foto foi feita pela colega Barbara, da minha turma de hidro.
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Um texto de cinquenta anos provoca reflexões nos atuais habitantes do planeta

“São os homens simplesmente primatas superiores e, como tais, sua importância não é maior que a de outros componentes dos ecossistemas naturais? Ou o Homem ocupa um lugar especial na Natureza”?

A frase está na introdução do livro “Uma Terra Somente”, publicado em 1972. Trata-se de “um extrato de aproximadamente 400 páginas de correspondência, oriundas de 40 países… dos pontos de vista conceituais que expressaram a respeito dos problemas a serem discutidos na Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano” que, como se sabe, aconteceu em Estocolmo. A riqueza de detalhes do texto, finalizado pelos ambientalistas Barbara Ward (1914-1981) e René Dubos (1901-1982), abre algumas janelas de reflexão, que quero compartilhar com vocês.

O pensamento principal que ocorre depois da leitura do livro é: se, há mais de meio século, estamos lidando com a perspectiva de que seria necessária uma mudança de rumo para garantir o bem viver de todos os homens no planeta, por que não conseguimos evoluir nesse sentido? Que se registre um fato insofismável: a tecnologia, que para muitos tem sido apontada como a bala de prata, é eficaz só para a turma que habita o primeiro andar da pirâmide social.

Minha pergunta é apenas o caminho para ampliar os pensamentos, já que, de fato, é impossível encerrar o debate numa resposta. São várias possibilidades, isto sim, e todas desaguam na mesma questão: é preciso ter capital. E o poder que o capital empresta às nações e às pessoas.

PIB sobe e é bom para quem?

No momento exato em que se lê, nas principais manchetes, que o Produto Interno Bruto (PIB) de um país vai aumentar, as reações da sociedade são de regozijo. Faz sentido, afinal. Um PIB mais alto significa que o país entrará para um patamar econômico mais aceitável. E estará, assim, mais aberto a receber mais investidores. Ocorre que, a despeito de toda tecnologia que hoje temos disponível, a maioria dos grandes investimentos causa impactos sérios ao meio ambiente.

 À sociedade civil, que sente os impactos na ponta, resta tentar alertar sobre o problema. Mas… em geral, as queixas ficam no ar. Porque, não custa repetir, o senso comum não percebe que um PIB elevado, muitas vezes, quer dizer maus tratos ao meio ambiente. E forte impacto às terras indígenas e aos povos ribeirinhos.

Vamos a um exemplo recente disso, dos muitos que se acumulam. No dia 29 de março deste ano foi lançada a pedra fundamental para o projeto de construção de uma ponte ligando o Brasil à Bolívia. A rodovia deverá conectar áreas produtoras do agronegócio dos dois países aos portos com saída para o Atlântico, na bacia amazônica, e para o Pacífico, principalmente nas cidades de Arica, no Chile, e Illo, no Peru.

No site Infoamazonia,  a reportagem de Fabio Bispo mostra os dois lados dessa  realidade. Por um lado, sim, o negócio promete trazer empregos e desenvolvimento à região, já que vai viabilizar a exportação brasileira ‘a custos mais baixos para outros continentes e países, especialmente para China, que é o principal parceiro comercial da América do Sul”, explica o repórter.

A reportagem ouviu a pesquisadora Marta Cerqueira de Melo que, no entanto, chama a atenção para o fato de que “não se discute esse desenvolvimento dentro de um planejamento estratégico, em como ele vai se relacionar com as populações locais”.

 Na região existem 49 terras indígenas e 86 unidades de conservação, incluindo territórios com presença de indígenas isolados, que certamente sofrerão sérios impactos. Logo, a rodovia será um bom negócio para o agro. Mas é um negócio que em nada ajudará a humanidade a conviver de maneira respeitosa com o ambiente do entorno.

Portanto, com foco nesse caso, nem de longe o único, a resposta à pergunta inicial desse texto é: o Homem (com H maiúsculo como queriam os escritores) se sente no direito de “ocupar um lugar especial na natureza”. E sabemos bem para onde essa desconexão está nos levando.

O pior de tudo é que, enquanto bilionários podem pensar em continuar a vida em outro planeta depois de ajudarem a destruir o habitat que lhes cabe, a maioria precisa se deslocar a pé quando o território que habitam é arruinado pelos eventos climáticos causados pelas emissões de gases poluentes. Uma nova análise divulgada no mês passado pela InfluenceMap revelou que, de 2016 a 2022, 80% das emissões globais de dióxido de carbono foram produzidas por apenas 57 empresas em todo o mundo. Nem precisa dizer que as petroleiras Shell, BP e Chevron estão entre elas.

Mas, antes de levantarmos o dedo acusatório, com legitimidade, para as corporações poluidoras, seria uma boa ideia que refletíssemos sobre a nossa real disponibilidade de mudar nossa cultura, muito baseada em combustíveis fósseis. Já imaginou um mundo sem plásticos, por exemplo?

Costumo dizer que não tenho respostas, mas muitas perguntas. Considero que formular perguntas é mais importante do que encontrar respostas. Na formulação das perguntas podemos ganhar tempo e subsídios para refletir sobre as mudanças que podemos tentar fazer, como tentar fazer, o tipo de resultados que esperamos. Queremos mudar para ajudar a humanidade, o planeta, ou ao nosso próprio dia a dia, que ele não seja importunado?

Ou… tudo isso junto e misturado?

Não chega a ser um alento, mas vale a pena saber que essas questões não nasceram agora, não têm a ver com redes sociais nem foram forçadas pela Inteligência Artificial. Ao contrário disso.

Volto ao livro que citei no início deste texto, que se deve ler com bastante respeito e atenção, não só porque foi escrito por pessoas sensíveis e estudiosas, como porque traça um cenário, já assustador, dos rumos da humanidade. Se tivessem sido levadas em conta as observações ali  descritas, possivelmente hoje estaríamos menos crucialmente espremidos entre a preservação e o desenvolvimento. Pincei um trecho que me parece bem interessante para terminar este artigo.

“Hoje, à medida que entramos nas últimas décadas do século XX, há uma sensação crescente de que algo de fundamental e possivelmente irrevogável está ocorrendo com as relação do Homem com seus dois mundos (o natural e as instituições). Nos últimos 200 anos e com hesitante aceleração nos últimos 25 anos, o poder, a extensão e a profundeza das intervenções do Homem na ordem natural parecem pressagiar uma nova época revolucionária na história humana, talvez a mais revolucionária que o pensamento possa conceber. O Homem parece, numa escala planetária, estar substituindo o controlado pelo incontrolado, o elaborado pelo rústico, o planejado pelo fortuito. E isso está sendo feito com uma velocidade e uma profundeza de intervenção desconhecidas em qualquer época anterior da história humana”.  

*Este texto foi publicado, originalmente, no site da Escola Monte Alegre

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Tuvalu, prestes a ser engolida pelo mar, quer ser a primeira nação digital do planeta

Com pouco mais de onze mil habitantes, a pequena nação-ilha do Pacífico, Tuvalu, está pleiteando tornar-se a Primeira Nação Digital do mundo. A ideia é de Simon Kofe, ex ministro dos negócios estrangeiros do país, que defende sua invenção de maneira insofismável:

“As leis internacionais agora precisam lidar com nuances, como os níveis do aumento do mar, que  ameaçam fazer desaparecer nações como Tuvalu. O requerimento convencional para um ´território definido´ está, assim, sendo desafiado. Necessita uma reavaliação’, defende ele.

A primeira vez que ouvi falar sobre Tuvalu foi em 2009. Eu editava o caderno “Razão Social”, encarte do jornal  “O Globo” sobre desenvolvimento sustentável, e fazia a cobertura das Conferências das Partes sobre o Clima (COPs), que hoje são famosas, mas na época não eram. A COP15, que aconteceu em Copenhague, teve como novidade o presidente Obama, democrata recém-eleito dos Estados Unidos, esperado com ansiedade pelos ambientalistas.

Reprodução : Romaine W/Shutterstock
 

A expectativa era que Obama ancorasse a assinatura de um tratado que substituísse o de Quioto, que estipulara metas de redução de emissões de carbono mas não chegara a ser assinado pela nação mais rica. A cúpula de 2009, no entanto, fracassou nessa ambição e frustrou o mundo quando terminou sem um acordo a respeito da necessidade de que o aumento na temperatura global não ultrapasse os 2° C no fim do século. Aqui vale um parênteses: em novembro do ano passado, segundo o Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copernicus (C3S), já atingimos os 2° a mais, mesmo com o Acordo de Paris assinado em 2015.

Fecha o parênteses, voltando a 2009: enquanto os negociadores da COP15  tentavam furar bloqueios, a sociedade civil fazia barulho em Copenhague, onde acontecia a conferência. A recém-criada 350.org , que chama atenção para o limite suportável de partículas de carbono na atmosfera (já passamos muito disso), ajudou a organizar uma manifestação  na entrada do Bella Center, onde os líderes se reuniam. Jovens tuvaluanos aproveitaram os holofotes mundiais para gritar palavras de ordem e espalhar ao mundo a angústia de pertencer a um dos países do Pacífico condenados a desaparecer por causa do aumento do oceano, fenômeno causado pelo aquecimento global que, por sua vez, é causado pelo excesso de carbono. E eu ouvi seus gritos, mesmo aqui, a mais de dez mil quilômetros de distância.

Daquele dia em diante, nunca mais deixei de acompanhar a história dos habitantes dessa linda ilha. Embora eu nunca tenha ido lá, quase me sinto uma tuvaluana. Adoro suas cores, a intimidade que têm com o mar que será seu vilão fatal. Na sequência, o drama de Tuvalu chamou minha atenção também para a história dos refugiados ambientais, termo criado em 1985 para designar as pessoas forçadas a deixar seu habitat natural por conta de eventos climáticos. Foi assim que, no ano seguinte, em 2010, assistindo ao documentário “Climate Refugees’, dirigido e produzido por Michael P. Nash, as duas histórias se encontraram e eu fiz o link.

Segundo um relatório do Banco Mundial, até 2050, 216 milhões de pessoas em todo o mundo poderão ser obrigadas a se mudarem por seca ou tormentas. Michael Nash mostra, no laureado documentário que fez parte do Festival do Rio daquele ano, a faceta mais dramática, humana, dos eventos causados pelas mudanças climáticas.

Entrevistada pela equipe de filmagem, uma dona de casa tuvaluana dá um depoimento que jamais esqueci. Ela começa contando sua rotina, que incluía plantar e colher, no terreno de sua casa, os alimentos que consumia. Mas a água do mar tornara a terra salgada, portanto imprópria para essa prática. Além de contar com ajuda humanitária, uma das soluções para a dona de casa seria migrar para a vizinha Nova Zelândia, mas aquele país impunha limites para receber habitantes de Tuvalu: a pessoa tinha que ter até 45 anos, e uma profissão.

“Estão me condenando à morte”, disse ela, num desabafo realista.

Hoje a situação é outra. O país que está “abrindo as portas” para os refugiados de Tuvalu é Austrália, liderado pelo primeiro-ministro Anthony Albanese. O governo australiano se compromete a receber 288 cidadãos tuvaluanos por ano, num acordo que não deixa bem claro o que será cobrado em troca da gentileza.

Pesquisando sobre o tema para trazer a vocês, chamou-me a atenção a reportagem do jornal britânico “The Guardian’, de novembro do ano passado. Trocando em miúdos, a Austrália concede a graça em troca de se tornar uma espécie de guardiã de Tuvalu. Isso equivale a um veto australiano à celebração de acordos de segurança com outros países.

Como pano de fundo, a briga fica entre reconhecer Taiwan como país independente, o que  o novo governo tuvaluano parece preferir, segundo reportagem da Al Jazzera, ou aceitar a proteção da China. Austrália chega oferecendo o ombro amigo, desde que Tuvalu não se aproxime dos chineses.

Há ainda um outro pano de fundo, que seria o fato de que, uma vez “nas nuvens’, a nação ilha, mesmo tendo desaparecido fisicamente, continuaria tendo direito às suas 200 milhas. Por consequência, à pesca de atum, frequente na região. Follow the money, pois.

Independentemente da situação geopolítica que esteja sendo a bússola atual, fato é que o novo governo de Tuvalu tomou posse em fevereiro deste ano, e dele não faz parte o ministro Simon Kofe, que estava na luta por tornar seu país digital. Doze nações já tinham se tornado parceiras no projeto que, se prosseguir, de fato vai ser uma espécie de cartão de visitas da nossa incapacidade, da nossa era antropocena.

Ano após ano, países se juntam para tentar legitimar novos padrões de produção e consumo  que permitam frear um pouco as emissões de carbono que tanto mal estão causando à humanidade. Vejam bem, eu não disse ao planeta, porque este vai prosseguir mesmo depois que a raça humana assumir seu lugar como a única raça capaz de destruir seu próprio habitat.

Termino esse texto com a fala do ministro Kofe, que proporciona uma triste, mas necessária, reflexão. Não a todos, porque infelizmente sabemos que nossa civilização também é composta por indivíduos que dão de ombros e seguem, e seguirão, vivendo o hoje sem respeitar o ambiente.

“Senhoras e senhores, imaginem-se de pé no último caminho de terra que você pode chamar de casa. Imaginem-se vendo este caminho desaparecer debaixo dos seus pés. Isto não é um pesadelo distante: é uma realidade iminente para o meu povo em Tuvalu”.

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