“Somos viciados em combustíveis fósseis”, diz Gunter Pauli*

O Clube de Roma, um grupo de intelectuais e cientistas preocupados com o excesso de consumo e o inevitável desgaste que causa ao meio ambiente, reuniu-se pela primeira vez em 1968. Mas, a julgar pela tensão climática que vivemos atualmente, causada pelo abuso de combustíveis fósseis, a preocupação dos membros do Clube de Roma, que ainda hoje se reúnem, não diminui. Só para se ter uma ideia, dados do Serviço de Mudança Climática do Observatório Copernicus, divulgados hoje, dão conta de que o mês de outubro de 2024 ficou acima de 1,65 grau acima dos níveis pré-industriais.

Soluções são propostas. Um dos membros do Clube de Roma, o belga Gunter Pauli, tem viajado mundo afora, num barco-escola, apresentando a sua. A Economia Azul, promete ser um modelo de negócios que não impacta a natureza, gera empregos e dá qualidade de vida às pessoas. São boas falas, que têm conseguido afetar alguns países – China e Malásia entre eles – e que Gunter já apresentou aos governantes do Rio de Janeiro, onde foi criado o programa “Guanabara Azul” no ano passado. A aposta é  estruturar uma governança capaz de viabilizar simultaneamente crescimento econômico e preservação ambiental na Baía de Guanabara.

Gunter era aguardado no evento Green Rio, feira de negócios que aconteceu de 31 de outubro a 2 de novembro, mas por questões pessoais não conseguiu viajar. Nessa entrevista ao #Colabora, ele fala sobre seu projeto, critica a Economia Verde, diz que somos viciados em combustíveis fosseis.  Segundo ele, tanto o Brasil quanto o Rio de Janeiro são territórios que têm um “enorme potencial” de implantar a Economia Azul. Opinião validada por um relatório elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e lançado no Green Rio, que aponta oportunidades mas também riscos na implementação, por conta de “lacunas de governança”.

É, portanto, uma promessa que precisa sair do papel para realmente fazer parte do pacote de soluções imaginadas pelo Clube de Roma, que enfrentem os riscos de viver num planeta cada vez mais quente. Abaixo, a entrevista na íntegra:

O senhor criou a expressão Economia Azul no livro que lançou aqui no Brasil em 2012, durante a Rio+20. Com que objetivo? O que significa Economia Azul? O conceito se espalhou e já está sendo usado corretamente pelos países, ou ainda há lacunas, inclusive, de entendimento?

Gunter Pauli é o criador do conceito Economia Azul

Gunter Pauli – Sempre que um novo modelo econômico é proposto, há necessidade de explicar, e explicar, e explicar! Só então abrimos espaço para o diálogo. Afinal, minha proposta de Economia Azul não é oferecer uma nova teoria, mas um modelo pragmático de negócios que possa realmente fazer diferença. Como resultado, o modelo precisou ser adaptado às realidades de cada local, mas mantendo cinco princípios bem claros: use o que você tem; não tente ser o mais barato, foque em gerar valor; responda às necessidades de todos (não só pessoas como as cem milhões de espécies com as quais nós dividimos esse mundo) e recupere ecossistemas. Quando eu lancei meu livro – “A Economia Azul” – em 2009 (e em 2012 no Brasil, durante a Rio+20) eu quis fazer uma sólida contribuição para a erradicação da pobreza. Pobreza significa necessidade de água, nutrição, energia, saúde, mobilidade… Se não conseguimos resolver a pobreza depois de tantas décadas afirmando que isso é prioridade, entao nós precisamos urgentemente mudar o modelo de negócio.  E é isso que propomos!

Considerando que o sentido de preservar o meio ambiente é garantir saúde e bem estar às pessoas, a Economia Azul pode garantir bem estar econômico a quem vive de pesca e do turismo marítimo?

Gunter Pauli – O turismo e a pesca têm que passar por uma transição, tanto quanto a Economia Verde precisa ser repensada. Como podemos continuar a pescar peixes fêmeas cheios de ovos? Isso é loucura. Já imaginou abater uma vaca com um bezerro prestes a nascer? O fazendeiro provavelmente seria preso. Mas pescar peixes fêmeas, sem nem saber a diferença entre um macho e uma fêmea, é normal? Eu não considero isso normal!

 Precisamos ter uma estratégia clara de  proteção da vida, e peixes grávidos não devem ser capturados. Claro que isso implica que temos que desenvolver técnicas que nos permitam fazer isso, e as redes de pesca têm menos probabilidade de adotar as novas tecnologias que permitem essa abordagem.

 Na ilha de El Hierro, na Espanha, os pescadores decidiram criar uma biosfera especial de 5 km2 , onde as fêmeas põem ovos. Depois de alguns anos, o estoque de peixes se recuperou e agora há mais peixes do que nunca! Para ter mais no futuro, você precisa economizar hoje! Isso não é novidade, mas os pescadores estão sendo levados ao limite e precisamos garantir que haja uma abordagem pragmática, e a conservação das fêmeas é uma dessas maneiras óbvias de avançar.

O turismo tem limites, mas o exemplo de Bonaire é ótimo: lá temos três mil turistas por ano que se tornam voluntários para aprender como plantar corais em mergulhos. Hoje essa é a grande ferramenta para regenerar recifes de coral no Caribe. Ou seja: o turismo pode ser positivamente engajado. Nós só precisamos torná-lo atrativo e transparente. Um turismo que tenha propósito e seja transparente será, com certeza, uma parte das iniciativas da Economia Azul. Eu faço referência a essa opção no meu livro “Invigorating Rio” que publiquei em março de 2024.

Estamos vivendo um momento de grave tensão climática. Os eventos extremos causados pelo aquecimento global estão se intensificando numa velocidade ainda maior do que era previsto pelos cientistas do IPCC. De que maneira a Economia Azul pode colaborar para diminuir essa tensão?

Gunter Pauli – Em 1986 eu lancei o conceito de Emissões Zero. Na verdade, nossa fundação no Brasil se chama Zeri Brasil e tem 26 anos de atividades. Para mim, a Economia Azul é a filosofia de emissões zero em ação, na qual incluímos modelos novos de negócio não poluentes. Isso quer dizer que nós temos que ter uma abordagem coletiva, de grupo, e não podemos focar somente em um produto. Hoje precisamos agrupar atividades para que o resíduo de uma possa gerar rendimentos para outra, caso contrário tudo acabará em emissões e poluição. Concretamente: se eu tenho uma mina para processar minério, eu tenho lama. Isso não é apenas um resíduo, é um resíduo tóxico perigoso. A indústria da mineração acha que nada pode ser feito com isso. Bem… hoje nós temos quatro fábricas estabelecidas na China, onde o lodo fino, resíduo da mineração, é misturado com polímeros e transformado em stone paper (material semelhante ao papel).

A boa notícia é que esse papel pode ser usado para embalagens e não há necessidade de água nem fibras de árvores para produzi-lo. Além do mais, esse papel é reciclável e não necessita de água.

 Outro exemplo é a criação de enormes florestas de algas ao longo das costas. Essas algas podem ser colhidas duas vezes por ano para gerar biogás, e o lodo do gás é uma grande fonte de fosfatos, portanto, é um fertilizante. Esses conjuntos de atividades reduzem drasticamente as emissões. Na verdade, nossos projetos demonstram que é perfeitamente possível se tornar um sumidouro líquido de carbono!

Como está o Brasil no ranking de países que já empregam políticas públicas para consolidar a Economia Azul?

Gunter Pauli – Na última semana, a China, após muitos anos de hesitação, decidiu que a Economia Azul será o pilar para o seu desenvolvimento social e econômico. Há cerca de um  mês, a Malásia resolveu trilhar o mesmo caminho. Na Nigéria, o presidente Bola Tinubu decidiu, há um ano, que o país teria um ministério da Economia Azul. O Brasil está apenas começando a descobrir o potencial da Economia Azul.  

O estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a descobrir esse potencial e, para  mim, foi uma surpresa descobrir que o estado tem mais de 600 ilhas. Se considerar exclusivamente as 200 milhas de Zoneamento Ecológico Econômico e os 1.300 quilômetros de praias somente nas ilhas do Rio, dá para ver o enorme potencial.

Mas um potencial  permanece sendo apenas uma boa ideia se não houver infraestrutura. A primeira coisa que precisamos focar é em criar infraestrutura de água, energia, saúde e mobilidade. Eu chamo isso de “O Metrô do Mar”. E, é claro, será preciso operar uma frota de navios emissões zero, que transportem pessoas e mercadorias, com energia local que não seja combustível fóssil.

Na verdade, não há direito de ter pobreza ou favelas quando há tanto espaço disponível… apenas algumas ilhas de distância. E essas ilhas também podem gerar muita comida.

O desenvolvimento da Economia Azul requer uma estratégia de longo prazo, mas o potencial do Brasil é enorme!

O Brasil está no meio de uma polêmica a respeito da extração de petróleo na Margem Equatorial. O Ibama não recomenda, sobretudo por conta do impacto que essa produção causará na biodiversidade marinha. Por outro lado, o presidente Lula afirma que a exploração trará mais benefícios econômicos, e que estamos longe de abandonar a era do petróleo. O que o senhor pensa disso?

Gunter Pauli – Somos viciados em combustíveis fosseis porque consideramos mais fácil, a infraestrutura para entrega e uso é muito bem desenvolvida. Como podemos pôr um fim nisso quando não há alternativa? A energia solar e a eólica estão, lentamente, se tornando populares, mas não oferecem carga de base, ou seja, não podem operar 24 horas por dia.

Há, portanto, uma necessidade urgente de uma nova mistura de energias renováveis, incluindo pelo menos uma ou duas que sejam disponíveis, independentemente do clima e da hora do dia.

O biogás é, com toda certeza, amplamente negligenciado. O estado do Paraná é o único que teve uma política deliberada para promover a produção e o uso de biogás (a partir de dejetos de suínos, com mais de 80 instalações instaladas durante o governo de Jaime Lerner), mas isso é muito limitado.

A China já converte todos os resíduos biológicos em biogás (metano). E o biogás não tem as mesmas qualidades do gás liquefeito de petróleo, mas é gerado com muita facilidade. A mistura de resíduos sólidos urbanos orgânicos com água cinza e preta já está gerando biogás em sete cidades da Europa e da Ásia, tanto que a energia está gerando 10% dos orçamentos anuais das cidades, enquanto converte o custo do gerenciamento de resíduos em renda.

Em segundo lugar, há um avanço na energia eólica conhecido como High Altitude Wind. Os sistemas de pipa que precisam de apenas 10% dos materiais que um moinho de vento tradicional precisa hoje, capturam o vento 24/24 e 7/7 em altitudes entre 200 e 800 metros. Esse processo finalmente foi permitido na Alemanha, e as primeiras instalações estão sendo lançadas, oferecendo uma segunda fonte renovável de carga base.

 Quando esses dois forem combinados com a conversão do excesso de energia em hidrogênio, teremos uma chance real de reverter a dependência do petróleo.

A economia verde recebe críticas. A mais contundente é que se trata de um modelo que continua submetendo a natureza à lógica do mercado. Em que o senhor acha que a Economia Azul pode se diferenciar desse modelo?

Gunter Pauli – Eu também critico a Economia Verde. Como é possível que um produto bom para você e bom para o meio ambiente, custe mais caro? Isso quer dizer que são produtos para ricos? Como podemos ter uma transição para a sustentabilidade com produtos que somente os ricos podem usar? Para ser competitivo tem que ter subsídios do governo? Então quer dizer que precisamos pagar mais impostos para cobrir o orçament? Não faz nenhum sentido.

A Economia Azul, em vez disso, analisa as atividades em conjunto. Por exemplo, se a regeneração das florestas de algas no mar significa que teremos, ao mesmo tempo, biogas e fertilizantes. Melhor ainda, as algas marinhas absorvem microplásticos, portanto, uma quantidade dessas algas impedirá que os microplásticos invadam a costa.

Outro ponto é: quando o modelo competitivo determina que você precisa cobrar mais barato no mercado para competir, então provavelmente você será obrigado a pagar salários baixos aos seus trabalhadores, cortar custos para o meio ambiente e pagar impostos muito baixos. Como será possível ser mais barato do que Bangladesh?

A Economia Azul difere fundamentalmente desse modelo de mercado. A Economia Azul é um modelo de criação de mercado, o que significa que, em linha com as propostas de Joseph Schumpeter, implementamos modelos criativos destrutivos que nos permitem superar a concorrência gerando muito valor…

Essa é a única maneira de, finalmente, erradicar a pobreza.

A Economia Azul se refere aos mares e  oceanos, mas inclui também água doce?

Gunther Pauli – Na versão original da proposta da Economia Azul, eu salientei que precisamos usar aquilo que temos e gerar mais valor com ele. Usei o exemplo dos mares: 71% da superfície da Terra, 90% de espaços habitados e somente 5% do PIB. Está bem claro que não estamos gerando valor a partir do mar. Infelizmente, aqueles que discutem a Economia Azul pensam primeiro e acima de tudo em pesca, aquicultura e mineração no mar profundo. Se isso é tudo o que podemos imaginar, nunca vai haver uma Economia Azul próspera, recuperando os ecossistemas e assegurando que as necessidades básicas de todos sejam atendidas. Então, como podemos separar o mar da costa, a costa das baías e especialmente os deltas dos rios? Eu acabo de vir da  Malásia, onde estive a convite do Primeiro Ministro Anwar, e lá ficou decidido que, naquele país,  a Economia Azul deverá abranger todos os recursos hídricos.

Quais as iniciativas de proteção dos oceanos que têm dado resultado?

Gunter Pauli – Nossa organização tem focado há pelo menos vinte anos na regeneração dos recifes de coral. Isso está acontecendo em 15 países hoje. Em vez de lamentar a perda, nós focamos nas novas simbioses de microalgas e corais para que elas se tornem resistentes a altas temperaturas do mar. Isso começou na pequena ilha Bonaire, no Caribe, e já está se tornando um movimento. É uma das poucas luzes que vemos no fim do túnel.

Há também atividades de cultivo de algas marinhas que não são a melhor solução, mas quando isso é combinado com a restauração de manguezais, há uma boa combinação de ecossistemas que permitem uma regeneração completa da ecologia e com oportunidades para criar a economia. A Indonésia tem liderado neste campo, mas iniciativas nesse sentido estão avançando também na Tanzânia.

A mera declaração de proteção dos mares não é suficiente. Temos que limpá-los e regenerá-los. O drama dos microplásticos deve ser considerado um dos grandes desastres de todos os tempos, talvez mesmo pior do que as mudanças climáticas. Infelizmente essa poluição, tão pequena, entra nas células e muda completamente a vida como a conhecemos. É com isso que mais me preocupo.

Em agosto, o Japão anunciou a criação de um novo motor à base de algas microbianas. Esse tipo de extração pode impactar a vida marinha? Como a Economia Azul se posiciona nesse caso?

Gunter Pauli – Na verdade, o maior líder em microalgas é o Brasil! O professor e doutor Jorge Alberto Vieira Costa, da Universidade do Rio Grande do Sul, é um líder mundial. O Brasil também tém uma imensa biodiversidade em algas, e no Rio Grande do Sul há motores que funcionam à base de algas há vinte anos! Essas microalgas são cultivadas em tanques, e não em mar aberto.

O senhor tem um barco-escola. Como funciona esse projeto? De alguma forma ele se assemelha ao projeto pensado pelo economista Schumacher, que deu início ao Schumacher College?

Gunter Pauli – Um barco é quase como uma pequena ilha. E nós sabemos que as mudanças começam nas periferias, onde pequenas iniciativas podem ser incubadas. É um  mix de Schumacher com Schumpeter, que propôs a criatividade destrutiva. O modelo atual de economia precisa de alguma criatividade destrutiva, o que quer dizer que nós precisamos de um modelo de negócios muito melhor, que torne o modelo atual obsoleto.

Assim como não podemos criticar o petróleo e a energia nuclear, a menos que se tenha alternativas de industriaçização melhores, nós precisamos ter modelos melhores de mobilidade para o mar. Na verdade, nós precisamos muito mais do que mobilidade.

 Começamos (essa entrevista) dizendo que há pouca economia no mar com esses pobres 5% do PIB, mas há outra estatística que é ainda pior: 99,9% de todos os dados em todos os computadores falam de pessoas, terra e ar, e apenas 0,1% são relacionados ao mar. Então não há informações sobre o mar, portanto não há estratégia possível para o mar.

É por isso que nosso barco, que se chama “Porrima, a Deusa do Futuro”, não é apenas um instrumento de mobilidade usando energias renováveis. Esse barco é 20% navio e e 80% tecnologias. E 40% dessas tecnologias são para criar “dados de fazendas”, cada barco é uma fazenda, coletamos dados que ninguém está coletando. Isso fará a grande diferença, e o Brasil deveria decidir abraçar esses dados processados nesse barco fazenda, em vez de sofrer com os dados fornecidos por dez empresas que controlam 95% de todos os dados do mundo. Nossos navios serão apresentados na World Expo em Osaka em 2025! E a surpresa será que teremos nossos próprios sistemas de comunicação e processamento de dados.

Vai ser muito divertido!

*Originalmente, essa entrevista foi publicada no site Colabora

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Países não conseguem acordo para diminuir produção e consumo de plásticos

Não será por falta de reuniões, encontros e conferências globais que as próximas gerações vão poder nos culpar quando os efeitos das mudanças climáticas tornarem insuportável a existência de seres humanos no planeta. Já não dá para falar o mesmo sobre resultados de tais encontros. Os acordos, quando são conseguidos, nem sempre são levados a sério. Nesse ponto, vamos ficar devendo.

Assim que acbou a COP29, em Baku, capital do Azerbaijão, numa sessão nostálgica na madrugada de sábado(22) para domingo(23), jornalistas e negociadores só tiveram tempo de botar roupas de frio nas malas rumo a Busan, cidade portuária na Coreia do Sul  (antes do estado de sítio). De 29 de novembro até esse domingo (1), lá aconteceu a quinta sessão do Comitê Intergovernamental de Negociação (INC na sigla em inglês) com o objetivo principal de traçar um acordo vinculante sobre a produção e o consumo de plásticos no mundo. A reunião, também com o selo da ONU, via Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma) passou a se chamar INC5.

Se você, caro leitor, está se perguntando sobre a real importância de tal reunião, é bom saber alguns detalhes.  Há estudos que mostram que os microplásticos podem fazer muito mal à saúde humana e ao meio ambiente. Em 2021, um relatório do Pnuma,  alertou para o fato de que os produtos químicos nos microplásticos “estão associados a sérios impactos na saúde, especialmente nas mulheres”. Eles podem incluir alterações na genética humana, desenvolvimento cerebral e taxas de respiração, entre outros problemas de saúde.

 Na Revista ScienceDirect, um artigo publicado em novembro desse ano mostrou que “partículas micro-nanoplásticas (MNPs) são um contaminante ambiental onipresente”. Além disso, especialistas apontam para os riscos associados ao desenvolvimento de câncer, doenças cardíacas e demência, bem como problemas de fertilidade.

E, sim, os microplásticos estão onipresentes.

Uma reportagem publicada pelo jornal “The Guardian” no mês passado mostra que a Indonésia vende 5,5 milhões de sachês só de detergentes por dia; em Gana e no Quênia, o problema maior vem das roupas que são descartadas, sobretudo por países europeus. União Europeia. São de fibra sintética, ou seja, resíduos. Segundo a organização Changing Markets Foundation, a Shein é uma das marcas encontradas em imensas montanhas de roupa encontradas em aterros sanitários dos dois países.

No Caribe, o problema vem das garrafas PET. Estima-se que  dois mil itens plásticos sejam jogados no lixo a cada quilômetro. Segundo a International Union for Conservancy of Nature, o Banco Mundial estima que as costas do Caribe estejam contaminadas com uma média de 2.014 objetos por quilômetro, um quinto dos quais são garrafas plásticas.

Já no Reino Unido, ainda segundo a reportagem do “The Guardian”, são descartados 11 bilhões de lenços umedecidos por ano. Eles entopem canos, poluem as praias, e espalham os terríveis microplásticos.

Com tudo isso, esperava-se um pouco mais dos participantes da reunião em Busan. Foi divulgado um rascunho de texto, com 23 páginas, 31 artigos e algumas descrições mais do que minuciosas os microplásticos.

O capítulo dois do texto explica o que são microplásticos: partículas de plástico que têm menos de cinco milímetros de diâmetro; qualquer fragmento, partícula ou fibra sólida de plástico insolúvel em água com um diâmetro entre [1 micrômetro e 500 micrômetros], que foi formado como resultado da fragmentação de resíduos de produtos plásticos que já entraram no ambiente; pequenas partículas ou fragmentos ou pedaços de plástico com menos de [5 milímetros] de diâmetro, facilmente liberados no ambiente.

O que assusta mais é o tamanho (micro) do inimigo. Recentemente, numa entrevista que fiz com o  belga Gunther Pauli, criador do conceito Economia Azul, ele disse:

“O drama dos microplásticos deve ser considerado um dos grandes desastres de todos os tempos, talvez mesmo pior do que as mudanças climáticas. Infelizmente essa poluição, tão pequena, entra nas células e muda completamente a vida como a conhecemos. É com isso que mais me preocupo.”

Mas não vai ser dessa vez que o mundo conseguirá conter o problema. Até porque, para isso, é preciso mexer em duas pontas da cadeia: a produção e o consumo. O presidente do INC5, Luis Vayas Valdivieso, disse que houve progresso na reunião, mas que “também devemos reconhecer que algumas questões críticas ainda nos impedem de chegar a um acordo abrangente”.

Na verdade, o que houve na reunião foi um forte bloqueio a qualquer tipo de acordo por países que produzem petróleo. Mas, segundo Valdivieso informou ao “The Guardian”, “Há um acordo geral para retomar a sessão atual em uma data posterior para concluir nossas negociações.”

E assim vamos postergando ações que poderiam adiar o nosso desconforto ambiental.

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Uma voz dissonante desafina o coro dos contentes da COP29

Já era madrugada, mas o plenário da COP29 estava cheio. Nos bastidores, travava-se uma batalha que não é nova e se arrasta Conferência após Conferência, desde a primeira, em 1995: o valor que os países ricos devem repassar aos mais pobres para ajudá-los a enfrentar os traumas causados pelos eventos climáticos. Em 2009, na COP15, realizada em Copenhague, uma quantia foi acordada: US$100 bilhões por ano. Mas o repasse não aconteceu como esperado.

Como resultado da reunião que acabou sábado, dia 24, em Baku, capital do Azerbaijão, onde aconteceu a COP29, o que ficou decidido é que os países pobres receberão US$300 bilhões por ano até 2035. É uma promessa, não é uma obrigação.

Finalmente a última reunião da COP29 começou, com bastante atraso, o que causou muitos transtornos também para os delegados que precisavam pegar o avião de volta para casa. Eram cerca de 2h da manhã. Estavam ali representantes de quase 200 países.

O clima criado pelo presidente da Conferência,  Mukhtar Babayev, ao ler a última versão do texto final, era de vamos-acabar-logo-com-isso. Bateu o martelo, comemorou com os parceiros que estavam na mesa organizadora. Mas, aí, precisou chamar os delegados tinham se inscrito para fazer observações.

Foi quando uma voz poderosa encheu o espaço do estádio olímpico de Baku, sede da COP. A delegada Chandni Raina, da Índia, com seu bindi na testa, falou em alto e bom som:

“Não podemos aceitar isso. Este documento é só uma ilusão de ótica”.

Água fria no animado grupo que havia comemorado, no palco, junto ao presidente Babayev, ex-funcionário da empresa estatal de petróleo do Azerbaijão e atual ministro da Ecologia e Recursos Naturais. Eu estava assistindo aqui de casa, pelo site das Nações Unidas que trata das COPs, a UNFCCC , mas fiquei com muita vontade de estar lá para sentir o clima real.

Chandini Raina falou, falou e falou por cerca de dez minutos. Ora ela olhava para a câmera, ora voltava seu olhar para cima, já que o presidente estava numa espécie de palco, mais elevado do que a plateia.  Disse que sua delegação havia pedido para ser ouvida antes da batida do martelo, o que não aconteceu, declarou-se “extremamente irritada” e culpou o presidente e o secretário da COP por terem conduzido erradamente a reunião.

 Sobre o valor decidido para repasse aos países pobres, Raina foi contundente:

 “É uma quantia irrisória. Estamos extremamente decepcionados. A confiança é a base para todas as ações, e esse incidente é indicativo de uma falta de confiança. Isto também é uma falta de colaboração em uma questão que é encarada como um desafio global por todos nós, principalmente os países em desenvolvimento que não são responsáveis ​​por isso. Gostaríamos que vocês nos ouvissem e também ouvissem nossas objeções a esta adoção”, disse Chandni Raina, que é consultora do Ministério das Finanças da Índia.

Raina foi só a primeira. Seguiram-se outras vozes decepcionadas, tais como Bolívia, Peru, Nigéria, Paquistão, Maldivas, Ilhas Marshall, o representante da Associação das Nações-Ilhas do Pacífico…  A indiana destampou a caixinha de reclamações, incentivou os mais tímidos. E a COP29 não acabou em festa como queria o presidente e seus aliados.

Mas o texto que prevaleceu foi mesmo aquele que mereceu a aclamação dos que rodeavam o presidente. Daqui de casa, não consegui perceber exatamente se a maioria dos delegados também comemorou. Sei que China e Brasil ficaram mudos.  As falas dissonantes mereceram, apenas, menções. E a COP30, em Belém no ano que vem, vai ter que retomar o debate.

Nada disso é inteiramente novidade. Nem as cifras, que já em 2009 se mostravam desse porte, nem a má vontade dos países ricos em ajudar os mais pobres.  Basta dar uma volta para trás na roda do tempo. Reproduzo aqui um trecho da página 193 de “Uma Terra Somente”, livro que é uma espécie de ata da primeira Conferência Mundial para o Meio Ambiente que aconteceu em Estocolm o em 1972:

“Qualquer que seja sua boa vontade, a maioria dos países desenvolvidos ainda está afetada por certo tipo de visão bitolada. Embora não constituam mais do que um terço da população do mundo, consideram excepcionalmente difícil focalizar sua mente nos outros dois terços da Humanidade, com os quais compartilham a biosfera. Como os elefantes ao redor de uma poça dágua, eles não se dão conta de que há outros animais sedentos. É difícil fazer com que compreendam que poderão estar arruinando o solo que pisam”.

Eu aposto que hoje eles já têm essa compreensão, mas o sistema econômico de sempre está cada vez menos interessado na palavra solidariedade. Quer seja com a espécie humana, quer seja com outras espécies.

 Mas quero voltar a falar sobre a indiana Raina. Seu país, hoje a quinta economia do mundo, atualmente é a nação mais populosa do planeta, com 1,4 bilhão de pessoas (sim, um pouco mais do que a China). Raina levantou a voz, foi firme, e me lembrou a quimica ativista ambiental Vandana Shiva que, por sua vez, me apresentou, em seu livro “Terra Viva”, ao movimento Chipko.

Chipko aconteceu pela primeira vez em 1973, quando  um grupo de 27 mulheres se levantou em resistência pacífica ao desmatamento impiedoso de seus lares no estado de Uttar Pradesh.  A exploração madeireira comercial desenfreada estava destruindo suas vidas, incluindo o solo e a água dos quais dependiam. As mulheres decidiram enfrentar os madeireiros abraçando as árvores que elas não queriam que fosse desmatadas.

 Nos anos seguintes o Chipko se disseminou por vários locais, conquistando importantes vitórias, como o banimento do corte de árvores em várias províncias indianas. Uma jovem Vandana Shiva desempenhou um papel fundamental, comunicando em inglês o que estava acontecendo com o mundo exterior.

E conta, em seu livro, o cântico que as mulheres entoavam enquanto se mantinham abraçadas às árvores:

“O que as florestas produzem?

Solo, água e ar puro.

Solo, água e ar puro.

Sustentam a Terra e tudo o que ela produz”

Não sei se a famílila de Raina é ligada ao movimento Chipko, mas a força que ela demonstrou ter naquele espaço, também sugere uma comemoração especial. Afinal, vinte e oito COPs depois da primeira, com mais de metade da população mundial composta por mulheres e meninas, que representam 80% dos deslocados climáticos e suportam o peso dos impactos climáticos, as mulheres são muito pouco representadas nos lugares à mesa de discussão.

O documento final da COP29 diz que… “A síntese do trabalho futuro sobre gênero e mudança climática abrange propostas para um novo programa de trabalho sobre gênero e plano de ação de gênero, incluindo reflexões sobre sua estrutura, áreas prioritárias e atividades”.

Não é nada, não é nada… não é nada mesmo.

Mas fecho aqui a minha caixinha de reclamações. Vamos comemorar porque, mesmo num mundo em que há duas guerras em andamento, emitindo tanto carbono que nem sabemos, 198 países decidiram se reunir para falar sobre mudanças climáticas.

E lá em Busan, na Coreia do Sul, outra conferência mundial está em curso, debatendo um risco talvez ainda maior, para a humanidade, do que os eventos extremos: as micropartículas de plástico que estamos consumindo. Quanto terminar, eu conto para vocês aqui.

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Debates no U20, caminhada que acabou em samba e muito o que pensar e aprender por aí

Se eu não tivesse acabado de ler Donna Haraway em “Ficar com o problema”, e prestado atenção ao trecho em que a filósofa alerta: “Sozinhos, com nossos diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco, e então sucumbimos ao desespero ou à esperança”, talvez eu não tivesse percebido a moça que se balançava na rede de barbante. Era sábado, estava nublado, e eu estava nas Docas do Rio de Janeiro, aquele ponto da cidade que me sugere pensamentos de ida sem volta. E lá estava acontecendo, até ontem, o G20 Social, criação do governo Lula para dar ao menos um toque de realidade a uma reunião de líderes globais sempre tão distante do povo.

Eu estava só, mas pulsando com o ambiente ao redor.

A rede onde se balançava a moça fazia parte de um espaço, nas Docas, que funcionou como um ponto de descanso. Ela se ajeitou de um modo engraçado, pernas para cima, celular nas mãos, conectada ao espaço das nuvens e, talvez, desconectada do entorno. Assim somos, ultimamente, uma civilização quase digital. Eu disse quase, porque ainda há muitos pontos de resistência, graças!

Eu tinha acabado de assistir a um encontro de especialistas, dos muitos que aconteceram no Armazém da Utopia, na sexta (15) e sábado (16), no âmbito do Urban 20, braço do G20 Social. Em pouco mais de uma hora apresentaram uma pequena mostra do livro que foi lançado numa parceria entre algumas instituições. Quem me convidou foi o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), uma dessas instituições, e que promoveu a roda de conversas com oito dos autores do livro “G20 e desenvolvimento sustentável urbano: governança, finanças e políticas” editado por Pedro Vormitagg, Marianna Albuquerque e Eugénie L. Birch. Pode ser acessado aqui, gratuitamente, mas está em inglês.

O livro é um compilado de sugestões para adequar os espaços urbanos ao bem estar das pessoas.

Um dos palestrantes, e autor de um dos artigos do livro, foi Andrew J. Kruczkiewicz, professor na Universidade de Columbia, chamou minha atenção quando falou sobre interação. Sinônimo de convívio, contato, diálogo, tudo aquilo que nos simboliza, a nós humanos e a muitos outros seres vivos, como mostra Haraway.

 Em parceria com quatro alunos, o professor Krucziewicz  colheu dados junto ao Centro de Operações Rio (COR) para estudar até que ponto as atuais estratégias de redução do risco de desastres são eficazes, no contexto da cidade do Rio de Janeiro e em toda a área urbana interligada.

Krucziewicz confessou: “O Rio é um lugar de muitas complexidades”. Em seu artigo, ele diz que é preciso desenvolver uma agenda também focada em “assentamentos informais do Rio de Janeiro particularmente vulneráveis aos eventos extremos climáticos”. Enquanto isso, lá fora, moradores de favelas se faziam presente, atuantes, com reivindicações importantes por melhor qualidade de vida no G20 Favelas. Fizeram falta ali, no diálogo, interagindo.

O professor concluiu: “Quem eu posso convidar para ajudar a interagir e captar a dinâmica das populações que nós defendemos? As mais vulneráveis estão incluídas nos dados que coletamos?”

De novo Haraway visita meus pensamentos. Ela se mostra impaciente com o que chama de “futurismos”. E elenca um tipo de futurismo menos eficaz, aquele defendido por especialistas que acreditam que as coisas “só importam se funcionam”, ou pior, “que a única coisa que importa é que eu e meus colegas especialistas trabalhamos para encontrar uma solução”. Se o professor  pensava assim, deixou de pensar no momento exato em que conheceu o Rio, esse lugar que chamou de complexo, e é mesmo.  Aqui, muita coisa importa, e Krucziewicz parece ter percebido isso.

Tomara que os outros especialistas que dividiram o espaço de debates tenham tido tempo para fazer um passeio, como eu fiz. Andei bastante pelas Docas, até porque não tinha outro meio de sair dali, já que as duas estações VLT foram fechadas. E fui percebendo o que respiramos diariamente nessa complexa cidade, a cor da diversidade. Povos indígenas, povos das favelas, vendedores que conseguiram um espaço para mostrar seus produtos a uma plateia tão variada.

 E lá estava a moça se balançando na rede, provando e comprovando a complexidade, com ar de liberdade.

Megalópolis são diversas mesmo – não é privilégio do Rio –  e serão cada vez mais. Hoje a população urbana mundial é de 55%. A estimativa, segundo as Nações Unidas, é que serão 68% em 2050. Respeitar a diversidade e interagir com tanta gente não é um bordão de nossa era, mas um imperativo. O “fenômeno” do crescimento populacional (entre aspas porque, de fato, não é nenhum fenômeno) foi motivo de preocupação já em 1972, quando países se reuniram em Estocolmo para o primeiro encontro sobre meio ambiente.

“A taxa média atual de crescimento do mundo, que é de 2%, dar-nos-á 7 bilhões de habitantes no ano 2000 e o bilhão seguinte chegará em menos de sete anos”, diz um trecho do livro “Uma Terra Somente”, que descreve a ata da Conferência de 1972 e que está ocupando também lugar de destaque aqui na estante.

 Nada como conhecer o futurismo que preocupava a cabeça dos especialistas há meio século. Na época ainda não havia o IPCC (criado em 1988), grupo de cientistas que, de tempos em tempos, nos informa sobre a situação climática e alerta sobre os eventos extremos que vamos ter que suportar. E não sabiam  também, os estudiosos da época, que os Gases do Efeito Estufa (GEE) poderiam fazer a Terra se aquecer de tal forma a torná-la insuportável para os humanos.

A respeito do efeito dos gases, há apenas uma breve menção no texto do livro de meio século atrás – “A poeira e as partículas na atmosfera podem também alterar a temperatura da Terra de modos inimagináveis” – e eu me pergunto por que pouco foi feito para evitar? Hoje, 70% dos GEE são produzidos nas cidades, causando secas, tempestades e doenças. Não por acaso, os ambientes urbanos têm sido foco de interesse cada vez mais genuíno nos grandes eventos.

O Urban20 é uma prova dessa inquietação.

Volto ao encontro dos especialistas. Perdoem-me a ordem anárquica do texto, mas ela acompanha os pensamentos diversos que me açodaram, tomada por tantos estímulos, conversas, imagens.  Outro autor que dividiu seus pensamentos no espaço da Utopia foi H.E. Fahd Al-Rasheed, autoridade responsável pela capital do Reino da Arábia Saudita e com uma experiência de duas décadas em administrar cidades naquele continente longínquo.

Jovem, de fala dinâmica, Al-Rasheed criou um certo movimento entre os jovens da plateia. Chamado de “Sua Alteza” pela mediadora (por respeito diplomático), Al-Rasheed perguntou quantos ali sonhavam em trabalhar numa administração municipal. Ninguém levantou a mão.

Para “Sua Alteza”, que foi  CEO do Grupo King Abdullah Economic City, essa falta de empatia com um serviço tão fundamental é incômoda. Ele mesmo passou vinte anos administrando cidades sem ter sido treinado para isso, confessou.

“Não existe um mestrado em administração de cidades, mas existem os Mestrados em Administração de Negócios (MBA). Temos que pedir às universidades que desenvolvam esse programa”, disse Al-Rasheed.

É mesmo um assunto que merece toda a atenção, e por isso eu optei por acompanhar aquela conversa, entre as outras quatro que aconteciam ao mesmo tempo no espaço. Não me arrependi, foi útil, e tenho agora dados atuais e diversos que me ajudam a pensar sobre cidades sustentáveis.

“Aprender a partir do acontecimento e criar a partir dele”, como escreve Haraway. A filósofa e zoóloga estadunidense nos convida ainda a “criar, fabular, para não nos desesperarmos”. Assumo a tarefa para não me submeter a pensamentos pesados diante das guerras, da retomada de um presidente negacionista na nação mais rica do planeta, de tanta miséria espalhada. Vou criando.

E caminhando. E cultivando a “virtude selvagem da curiosidade”, como ensina Haraway. Nesse sentido, fico feliz com tantos eventos que estão acontecendo ao mesmo tempo (filhotes da COP29 em Baku e do  G20 aqui no Rio). Por todo lado tem-se feito o necessário link entre questões climáticas e pobreza.

Vi uma enorme fila que se formava em frente ao edifício A Noite, icônico da Praça Mauá. Pessoas estavam sendo revistadas – é legítimo, tem que ter segurança com tantas autoridades na cidade – para entrarem no espaço do G20 Social. Um enorme palco estampava em letras garrafais o compromisso que o presidente Lula vai exigir dos líderes que começam a chegar hoje à cidade. Uma aliança global contra a fome, a pobreza e a desigualdade, que pretende atingir milhões de humanos no mundo todo que hoje sofrem desse mal, enquanto apenas 2.781 pessoas acumularam uma fortuna incalculável e vergonhosa. A aliança é também pela justiça climática, porque quem sofre mais com os eventos extremos são os pobres.

Mas estamos no Rio de Janeiro, certo? Como não poderia deixar de ser, minha caminhada terminou justamente quando a banda que acompanharia Zeca Pagodinho no mega show noturno começou a ensaiar um belo samba. E fui me deixando levar por um batuque delicioso. Quando percebi, estava até ensaiando uns passinhos, como as ainda poucas pessoas que já se espalhavam por ali após serem revistadas.

Uma cidade onde há sempre uma bela surpresa à espera, onde as pessoas interagem, se tiver uma administração preocupada com os eventos climáticos, respeitando os limites impostos pela natureza, pode poupar vidas e estragos materiais. Mas precisa cuidar de muitos outros problemas, como a miséria que se espalha pelas ruas.

 Que venham mais pensadores em nosso auxílio, para alargar nossos pensamentos. Serão sempre muito bem vindos.

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‘Se vocês não sabem como consertar, por favor não continuem danificando tudo’. Frase dita por Severn Suzuki aos 12 anos na Rio-92 ecoa hoje, primeiro dia da 29ª Conferência do Clima

Por um lado, a média de expectativa de vida dos humanos aumentou. Mesmo nos países pobres, onde há uma grande diferença (para menos), as pessoas estão vivendo mais do que há mil anos. E melhor, sob certos aspectos, já que em grande parte do planeta há menos chance de doenças se espalharem.

As mudanças climáticas, porém, estão atrasando o relógio da melhoria de qualidade de vida em muitos lugares. Nas regiões afetadas pelos impactos – seca, tempestades e poluição – se há mais expectativa de vida, a constatação é de que está cada vez mais difícil viver.

Hoje é o primeiro dia da 29ª Conferência do Clima convocada pelas Nações Unidas (COP-29), que acontecerá em Baku, capital do Azerbaijão. Esperam-se discursos acalorados sobre a necessidade de fazer ao menos uma transição para o fim do uso dos combustíveis fósseis. Mas uma reportagem provocativa na revista do  “The New York Times” chama atenção sobre o sentido de urgência desse clamor. Ainda há tempo? Ou é preciso parar com os discursos e partir para a ações de salvamento dessas pessoas?

Repórteres fotográficos visitaram algumas partes do mundo que são cada vez mais afetadas pelos desastres climáticos, perguntando sobre a maneira como vivem e o que mais temem. O foco: jovens até 16 anos. O jornalista e escritor David Wallace-Wells amarrou o texto e concluiu: “No mundo dos ricos, os jovens que se manifestam com preocupação frente às mudanças climáticas, muitas vezes são menosprezados por sua ingenuidade… para os jovens que estão distante do poder real, a clareza moral não é um privilégio. Fatalidade sim.”

Entre os depoimentos mais emocionantes da reportagem, destaco o de Ayesha Ali, jovem de 16 anos que mora em Bangladesh:

“A poluição do ar e o calor me deixam com dor de cabeça a maior parte do tempo”, disse ela.

Ali tem orgulho de seus cabelos compridos, mas por conta do excesso de fuligem eles caem muito, em tufos, como se estivesse em tratamento quimioterápico. Seus estudos ficam prejudicados quando as tempestades – cada vez mais frequentes – inundam o lugar onde vive, impedindo-a de sair de casa. Ali mora em Daca, a capital do país.

Em 2050, quando 13 milhões de pessoas serão obrigadas a fazer migração interna em Bangladesh por causa dos efeitos causados pelas mudanças climáticas, Ali terá 42 anos. Se conseguir viver tanto tempo.

O excesso de calor também enerva e incapacita o jovem grego Athanasios Kosteas, de 16 anos, que ajuda o pai no restaurante da família em Kalamata, no sul da Grécia.

“Quando está quente eu fico tonto, e fico com raiva, sem querer trabalhar”.

A escola onde Kosteas estuda não tem ar condicionado, nem mesmo ventiladores. Ele conseguiu um encontro com o ministro de educação do país, e fez reivindicações. Na hora ficou feliz, mas logo perdeu o encanto e se decepcionou.

“Eu percebi, mais tarde, que na realidade ele não estava respondendo as minhas questões. Era como se estivesse cumprindo uma tarefa”, disse ele.

Platitudes. Retórica inútil. E estamos cercados disso no campo das mudanças climáticas, nos encontros das Nações Unidas.

Outra jovem entrevistada pela reportagem mostra que, mesmo quando conseguem se livrar do mal pior e sair do lugar onde são vítimas dos eventos extremos, a vida de migrante não é nada fácil.  Sara Saumanaia, 15 anos, viveu sua vida inteira num bairro pobre e proletário de Nova Zelândia, que considera sua segunda casa. A primeira é Tuvalu, onde ela nasceu, terra de sua mãe, de onde a família precisou se mudar porque o pequeno país-ilha do Pacífico está sendo tomado pelo mar.

“Mesmo que meu país desapareça, isso não quer dizer que nossa cultura  e aquilo que somos como pessoas vá desparecer”, disse Sara.

Na escola que Sara frequenta em Nova Zelândia, certo dia a professora elencou o tema mudanças climáticas e explicou que Tuvalu é um país condenado a desaparecer sob as águas. Foi o que bastou para que seus colegas a olhassem, alguns sem conseguir conter o riso, outros demonstrando pena. O único sentimento que ela não sentiu, naquele momento, foi o de inclusão e pertencimento.

“Sou uma pessoa forte, uma boa amiga. Eu sei o que defendo, mas também há minha família em casa, por quem eu rezo todos os dias. E aqui estão meus colegas, zombando deles”, disse Sara.

Vou me abster de fazer comentário sobre essa atitude dos colegas de Sara. Vou me abster, inclusive, de ampliar meu pensamento, trazendo aqui o perigo iminente para a luta contra o aquecimento global que acaba de se instalar na Casa Branca, levado pelas mãos de uma maioria de estadunidenses. Muitos desses eleitores têm filhos que devem ouvir discursos negacionistas em casa. Como esperar deles atos generosos às vítimas do aquecimento?

Um pouco de história

Na Rio-92, quando o mundo manteve os holofotes ligados para a cidade onde se debatia questões de clima, envolvendo os empresários na cruzada anti-aquecimento, uma jovem ativista canadense de 12 anos ganhou as manchetes. Com seus cabelos em desalinho e um vestido comum, Severn Suzuki subiu ao púlpito para dizer a todos que estavam ali:

“Eu sou apenas uma criança, não tenho as soluções, e sei que vocês também não têm. Mas, se vocês não sabem como consertar, por favor não continuem danificando tudo”, disse ela.

Severn Suzuki hoje tem 45 anos e o mundo acaba de chegar perto do limite dos 2 graus a mais, que o Acordo de Paris assinado em 2015 prometeu evitar. E não estamos vivendo nem perto de uma preocupação generalizada com o problema.

Em 2018, a sueca Greta Thunberg, então com 15 anos, começou a protestar contra a inoperância política frente às mudanças climáticas do lado de fora do Parlamento sueco. Iniciava assim a Greve Escolar pelo Clima, um movimento que existe até hoje e que fez de Greta uma pessoa conhecida mundialmente.

Greta pressionava pelo Acordo que foi assinado e que, atualmente, está sendo solenemente menosprezado.

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Documentário mostra estrago provocado pelos incêndios no Pantanal: em 2020, 65 milhões de animais afetados

Zugzwang é uma expressão que, no jogo do xadrez, significa: é a sua vez de jogar. Indica movimento, necessidade de ação num momento arriscado, quando seria melhor passar a vez.

Fiz contato com essa expressão em 2009, quando assisti ao documentário “’Zugzwang”, do diretor Duto Sperry. É um filme forte, com depoimentos de pessoas que se dedicaram firmemente a estudar a evolução do desenvolvimento ecosocioambiental no mundo desde as primeiras descobertas científicas sobre a finitude dos bens naturais.

E, volta e meia, nessa era pós descobertas e verdades, de crueldades espalhadas,  eu me lembro disso. O timão foi parar nas mãos de pessoas que desprezam tudo o que é diferente, natural, que querem acumular capital em detrimento da degradação do ambiente no entornou ou ampliar territórios à base de matar outras pessoas. Nada muito diferente do que era feito em séculos atrás, em época consideradas “antigas’.

Seria melhor passar a vez?

Ontem assisti ao documentário “Sinfonia da Sobrevivência”, do diretor Michel Coeli, que está fazendo parte da 48ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e terá mais duas exibições, nos dias 21 e 25/10, no Cinesystem Frei Caneca. É um documentário filmado numa perspectiva diferente da jornalística, porque é rodado em plano subjetivo, ou seja, quando a câmera assume a ótica do olhar do espectador.

Quando terminei de assistir, pensei em Zugzwang. O que estamos fazendo na nossa vez de jogar?

Michel Coeli nos leva para bem perto das chamas dos incêndios no Pantanal. É a maior planície alagada do mundo e uma das áreas mais ricas em biodiversidade que existe, que sofre com o fogo provocado pelo homem ou resultado da seca provocada pelo desmatamento causado pelo homem.

Segundo o MapBiomas, em 2024, a área do Pantanal queimada no primeiro semestre aumentou 529% em relação à média dos anos anteriores. Junho concentrou 79% dessa área, sendo a maior já observada no bioma no período do Monitor do Fogo.

 O som de “Sinfonia da Sobrevivência” é local, não há locutor narrando. Mas nem precisava. Não há palavras que possam descrever aquelas cenas. Como por exemplo o momento em que os brigadistas do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso tentam salvar uma anta, animal de 160 quilos que teve as quatro patas queimadas pelo fogo. O olhar do bicho, captado pela câmera, um misto de angústia com espanto,  me fez pensar novamente: não seria melhor passar a vez e entregar o timão aos que têm respeito pelo seu habitat?

O filme é pungente. Mostra o trabalho incansável dos bombeiros, brigadistas, veterinários e voluntários no combate ao fogo e no socorro aos animais no Mato Grosso. Além de ter muita sensibilidade. Michel Coeli tem experiência no registro de guerras. Não que tenha sido fácil, mas para ele a fumaça e o calor não o impediram de captar o momento certo das cenas para tornar mais comovente a experiência sensorial que propõe a quem está assistindo.

Em vários momentos, o espectador ouve a respiração difícil dos soldados quando estão tentando apagar o fogo antes que se alastre. As filmagens aconteceram em 2020, ano das piores queimadas no Pantanal, quando cerca de 26% da vegetação nativa do bioma foram consumidas pelo fogo segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Aqui, vale lembrar uma reunião ministerial em maio de 2020, em que o então ministro de Meio Ambiente Ricardo Salles sugeriu aproveitarem o momento da pandemia para abrir as porteiras. Em bom português, o que ele quis dizer foi: vamos deixar os pecuaristas e produtores agrícolas inescrupulosos desmatarem o que for necessário.

Os resultados de tanta generosidade são descritos no documentário:

 “Em 2020, quase 60% dos focos de incêndios no Pantanal foram provocados por ações humanas segundo investigação dos ministérios públicos de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Os incêndios no bioma afetaram pelo menos 65 milhões de animais vertebrados e 4 bilhões de invertebrados, segundo estudo do Ibama, da Embrapa e da Cenap (Conservação de Mamíferos Carnívoros), e seus impactos sobre a biodiversidade podem ir muito além do que sabemos”.

Mas a raça humana também é diversa e pode surpreender. Há pessoas que se dedicam a tentar apagar os incêndios e salvar as vidas dos bichos, em tocantes reações de solidariedade. Além dos soldados e médicos, um personagem no filme, o coronel Barroso, chama atenção. Bombeiro aposentado, ele se move como se tivesse recebido a primeira missão de sua vida, telefona, faz pedidos a ONGs e autoridades e, finalmente, consegue 120 mil litros de água para jogar nos lugares secos.

Outra cena impactante, noturna, mostra os carros-pipa em ação. Em silêncio respeitoso, os soldados observam os animais chegando perto, driblando até mesmo o medo do barulho e dos faróis. Lançam-se desesperadamente na água e ali ficam, bebendo e se banhando. O dia seguinte amanhece já com uma vegetação também começando a mostrar seu vigor.

Basta ter vontade política, portanto. E o coronel Barroso sabe disso. Tanto que fez denúncias às Nações Unidas sobre a negligência de o estado. Foi exonerado. Vivíamos um momento bem difícil.

Além da anta, que infelizmente não suportou os ferimentos e morreu três meses depois de ter sido resgatada, uma pequena ave foi salva pela equipe heróica dos bombeiros veterinários de Mato Grosso. A cena do pássaro, depois de ter passado por uma delicada cirurgia, sendo libertado pela veterinária, que o levou dentro de uma caixinha e abriu a porta no meio da floresta, é linda.

O ecossocioeconomista Ignacy Sachs, morto no ano passado, fez a última provocação no documentário de Duto Sperry: “Até onde poderemos ir sem destruir o planeta?” Essa pergunta foi feita há quinze anos, e nesse tempo só fizemos aumentar o desmatamento, as emissões, o que gerou mais eventos extremos como a seca que acabou com a vida de muitos bichos no Pantanal. É um efeito dominó.

A pergunta é: para quê? Sabemos a resposta, mas nunca é demais continuar a perguntar.

Ainda há tempo?

A 16ª edição da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP-16) começa hoje em Cali, na Colômbia. O encontro ocorre até o dia 1ª de novembro e traz como tema “Paz com a Natureza”.

Vamos acompanhar, claro, com os dedos torcidos para que o assunto passe a ter relevância semelhante ao que o clima está conseguindo ter, como quer o embaixador André Correa do Lago. Para o site da Agência Brasil, Correa do Lago, que hoje é secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, disse acreditar que os dois temas já estão começando a impactar globalmente.

“Estamos totalmente convencidos, como governo brasileiro, que nós temos que unir ao máximo o tratamento dessas questões. Então, quem está mais focado com o clima, também tem que se dar conta do quanto essa questão da biodiversidade é um tema absolutamente essencial.”, destacou ele.

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Seminário Cidades Verdes: chance de compartilhar ideias sobre a crise do clima e como enfrentá-la

Lançado em abril de 2022, o terceiro volume do sexto relatório de avaliação do Painel do Clima da ONU elencou as cidades como uma das principais preocupações. Não à tôa. Segundo os cientistas que assinam o estudo, sem medidas de mitigação, as cidades passarão a emitir, de 29 bilhões a 40 bilhões de toneladas de CO2 e metano em 2050. E isto é muito mais do que se pode tolerar para garantir um ambiente de bem estar às populações urbanas. Segundo o relatório Energy Technology Perspectives de 2016,  as cidades estão no coração dos esforços de descarbonização, já que por volta de 2050 elas agregarão dois terços da população mundial e 85% do PIB global. E, em 2013, os territórios urbanos já contabilizavam 67% da demanda primária de energia e 70% das emissões de CO2 oriundas do setor energético.

Mas há saídas, e o IPCC aponta várias delas. O que é preciso para alcançá-las?

Um olhar cuidadoso, não só por parte de quem administra as megacidades – já são 21 em todo o planeta, sendo Tóquio, com 31 milhões de habitantes, a maior delas – como também por parte dos moradores. Para os primeiros, é preciso vontade política. Para os segundos, é preciso ter informação de qualidade que os ajude a exercer seu papel como cidadãos. Sem esquecer que a origem da palavra cidadania vem do latim civitas, que quer dizer cidade.

Num momento dramático como esse que estamos vivendo, período de seca, de calor extremo fora de época e de muitas queimadas Brasil afora, não é difícil compartilhar o sentimento que o cientista Carlos Nobre externou, no dia 11 de setembro, em artigo publicado no Estadão. Nobre disse que está apavorado.

Acredito em ideias que circulam. Por isso entendo que será um bom momento de debater esse tema e outros ligados ao desafio de morar em grandes cidades o Seminário Cidades Verdes, que vai acontecer nos dias 16 e 17 de setembro. O encontro será no auditório da Firjan, no Centro do Rio, e lá estarei, contribuindo um pouco com algumas ideias e reportariando, que é o que mais sei fazer na vida. O tema deste ano é transição energética, o que tem tudo a ver com o que estamos vivendo. Afinal, é possível imaginar gasto de energia sem aumentar o impacto ao meio ambiente?

Para saber detalhes, entre nesse endereço: https://ondaazul.org/seminario-cidades-verdes-chega-a-sua-9a-edicao/

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Sobre os incêndios nas matas e o remédio de Geiza

Como jornalista da área ambiental, eu deveria escrever sobre os incêndios e as queimadas, que deixam os céus de dezenas de cidades de São Paulo de cor cinza, espalham fumaça, amofinam a vida de citadinos e queimam bichos e plantas. Lá se vai parte de nossa biodiversidade, em fogo espalhado Brasil afora, porque a Amazônia também está em chamas. A polícia já se pôs ao encalço de alguns criminosos que se aproveitaram da secura da mata – evento climático quase tão terrível quanto as tempestades – para abrir mais clareiras.

Mas, infelizmente, além de compartilhar com os leitores o meu lamento, eu não teria nada de novo para acrescentar. Já vivemos isso outras vezes, e o processo é sempre o mesmo. As manchetes dos sites noticiosos e jornais ajudam a formar uma onda iracunda na maior parte da população. Famílias comentarão, amigos debaterão, mas… amanhã será outro dia. A chuva cairá, a fumaça vai se espalhar e, aos poucos, a notícia será esquecida.

O mal causado será sentido mais à frente, quando muitos ainda vão se espantar, como se espantaram com a fala da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, alertando para o fato de que o Brasil pode perder o Pantanal até o fim do século.

Perder um bioma complexo e vital como esse é imensamente grave. Ouvi uma entrevista ontem, do cientista Carlos Nobre ao Brasil 247, na qual ele traçou um futuro bastante sombrio para a humanidade, já que o previsto é aumentar mesmo, cada vez mais, a temperatura do planeta.

Fiquei com a sensação de impotência, que já tem sido minha conhecida. Imagino que muitos que estavam ouvindo a excelente explanação do professor Carlos Nobre também tenham se perguntado: “O que podemos fazer?” “Ainda há tempo?”

Se couber a mim dar essas respostas, eu respondo: caso o homem passe a respeitar mais o ambiente em que vive, talvez, sim, haja tempo.

Mas escrevo esse texto ainda sob o impacto do acidente ocorrido ontem aqui na vizinhança. Uma árvore centenária caiu e machucou (pouco, ainda bem) um ciclista. Não estava ventando, não estava chovendo. O que aconteceu foi que alguns homens que cuidam do prédio construído em frente a ela decidiram tornar a calçada mais bonitinha. Fizeram um canteiro para a árvore. E, para que ela coubesse na noção estética, serraram-lhe as raízes. Simples assim. Respeito ao meio ambiente? Ali passou longe.

Por isso quero falar sobre vida. A vida que segue, a vida que se desmancha em beleza e se impõe, mesmo em ambientes hostis, em que nada no entorno garante sua permanência. A vida da natureza, a nação das plantas, a nação dos bichos. A vida de seres ativos, apesar dos humanos.

“O homem, ainda que se comporte como tal, não é de modo algum o dono da Terra, mas somente um dos seus condôminos mais desagradáveis e molestos” escreve Stefano Mancuso em “A Nação das Plantas” (Ed. Pergaminho).

Aprendi em outro livro – “Megaflorestas – Preservar o que temos para salvar o planeta” (Ed. Voo), escrito por John W. Reid e Thomas E. Lovejoy, que existe um besouro-caçador-de-incêndio. O bichinho usa detectores de infravermelho no tórax para encontrar árvores queimadas e se põe à caça logo após um incêndio. Neste exato momento, enquanto estamos impactados por causa da destruição causada pelo fogo em São Paulo e na Amazônia, seres vivos se refestelam com as iguarias tostadas. É a vida em ciclo.

E vida que se expande de vez em quando. Há uma semana, bem manhãzinha, em plena rua das Laranjeiras, dois ipês cor de rosa iluminavam meu caminho. Parei para respirar, observar, me encantar. Fiquei assim algum tempo.

Como eu estava sem o celular, mais tarde pedi a um amigo para fazer uma foto das árvores esplendorosas. Ele fez e depois comentou comigo:

“Nossa, nem tinha reparado. Que presente da natureza!”

Os ipês que embelezam nossas redondezas. Foto de Andre Balocco

Muita gente passa e não repara. Muita gente nem percebe o quanto de natureza há em nosso cotidiano. Dos minérios às plantas, estamos implicados nessa invasão, depredação, e somos responsáveis, portanto, pela recuperação. Não dá mais para fechar os olhos a isso. Temos que fazer contato com as belezas, com as necessidades, com algumas soluções. Das mais simples às mais sofisticadas. Mas, sobretudo, as mais simples.

Estive acompanhando, virtualmente, um pouco da São Paulo Climate Week que aconteceu no fim do mês passado no Cubo Itau, espaço de palestras e conferências. Ouvi uma história linda, contada por uma beiradeira, Raimunda Rodrigues, co-fundadora da Mazô Maná, moradora da Reserva Extrativista Rio Iriri. Raimunda contou sobre a experiência de criar uma empresa junto com a comunidade e ampliou pensamento, falando de sua alegria ao ver pessoas, hoje, querendo aprender sua cultura.

Raimundo é mãe de Geiza, menina de 12 anos que aprendeu com a avó como identificar as ervas certas que curam determinados males.

“Quando alguém sente alguma coisa, ela vai lá e já sabe o que fazer. A gente até já deu um nome: o remédio da Geiza”.

Raimunda conta essa história e dá o tom certo, que quero focar para fazer a costura aqui nesse texto que se explica apenas pelo meu desejo de ir além. Quero falar sobre natureza, sobre humanidade, e a relação entre esses dois. Conta Raimunda:

“Geiza ficava com a avó desde 9 anos catando folha, e foi aprendendo. Eu aprendi também, por isso hoje criamos a Mazô Maná. Mas tenho irmãos que não aprenderam, porque não ligavam. E hoje eles estão vendo como esse aprendizado é  bom para a nossa comunidade”.

Esse contato, essa percepção, o respeito aos seres ativos que compartilham conosco o espaço, talvez seja a chave para o começo da mudança. Precisamos, todos, do remédio que Geiza aprendeu a fazer nutrindo amor pelo simples. O filósofo francês Michel Serres, em 2009 escreveu o livro “Contrato Natural”, uma espécie de resposta ao Contrato Social de Rousseau, do século XVIII. Serres lamenta que seu colega tenha feito um acordo em que a natureza tenha sido excluída. Agora as conseqüências desse ignorar a natureza estão visíveis.

Termino com o pensamento de Gilbert Simondon, conhecido como o filósofo da tecnologia. Ele diz:

 “O pajé é aquele que faz uma viagem, estabelece um tipo de diálogo com a natureza e traz desse diálogo uma resposta para a comunidade, uma solução para um problema que a comunidade não conseguia resolver. E o que faz a tecnologia senão um diálogo humano com a natureza para tentar resolver um problema?” 

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O elo cauteloso, mas preciso, entre os Jardins Filtrantes de Niterói e as palestras sobre Economia Azul  

Um corredor pintado de preto e iluminado apenas com a luz nervosa de desenhos futuristas controlados por computador. Formatos diferenciados, exigindo do espectador uma atenção redobrada, já que em segundos se desfaziam e se transformavam em outra coisa. A música de fundo, um misto de som clássico e futurista, acompanhava o sentido de urgência que se traduz numa quase frenética busca, numa total falta de hiato. Mas instiga, sugere novas possibilidades, cria um grande ponto de interrogação que vai nos acompanhando pelo caminho. Foi assim minha acolhida na Rio Innovation Week, auto intitulado maior evento global de tecnologia e inovação, que aconteceu no Pier Mauá entre os dias 13 e 16 de agosto.

O encontro foi, efetivamente, mega.  Ocupou uma área de 70 mil metros quadrados no Píer Mauá, ofereceu 32 conferências, teve mais de 2.500 palestrantes, rendeu R$ 2,3 bilhões em geração de novos negócios, recebeu 155 mil visitantes. E foi pensado, segundo o card de apresentação, para “gerar reflexão e impacto real para transformar realidades: vai além do estímulo à inovação e ao empreendedorismo”. Se é isso, estou junto.

Pois muito bem. E o que eu, que prezo e respeito o conhecimento tradicional e o contato com a realidade que se transforma por si só (natureza), estava fazendo ali, cercada pelo povo da inteligência artificial? Curiosidade jornalística é meu combustível. E como tenho amigos que fazem coisas interessantes e me convidam, fui a convite de Marcio Marcio Santa Rosa, que há tempos vem me atiçando a curiosidade com a expressão Economia Azul. Ele é coordenador do Programa Guanabara Azul e Bacias da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro, entende muito do assunto, e eu estive na conferência promovida por ele num dos muitos espaços da feira.

No caminho, lembrei-me de quantos movimentos ao desconhecido tenho feito na lida como repórter. Em 2008, por exemplo, fui à China participar de um seminário sobre “Cidades Sustentáveis” porque era uma expressão nova por aqui. Quem diria, né? Praticamente uma década e meia depois, hoje é uma expressão tão usada e ousada. Ali mesmo, na RIW (esta é a sigla que facilita a comunicação), vi muitas vezes a palavra sustentabilidade escrita nos cartazes que apresentavam os espaços, as conferências. Que bom.

A subsecretaria Ana Asti faz apresentação no evento Guanabara Azul

Assim, vamos ao que interessa: o que é Economia Azul? Conceitualmente, é um sistema que se preocupa em promover o desenvolvimento econômico com foco na preservação dos ecossistemas marinhos e na sustentabilidade ambiental. Pelo que comecei a aprender a partir das três palestras às quais assisti na RIW, a Economia Azul tem, na essência, o olhar cuidadoso para quem vive do ecossistema marinho, ou para o S do acrônimo ESG (Environmental, Social and Governance). Para isso, aqui no Rio de Janeiro, conta com o Programa Guanabara Azul, que virou política pública no ano passado.

Para que a gestão de Economia Azul seja eficaz, uma questão é absurdamente premente: a limpeza dos rios, baías, oceanos, mares etc. E sim, a poluição da Baía de Guanabara, mais conhecida dos cariocas do que o mate e o biscoito da praia, é, no mínimo, um obstáculo e tanto para a Economia Azul no Rio de Janeiro.

 Para não desanimar nem avivar o tal espírito de vira-lata, vale pensar que o problema não é só nosso. Vejam o que aconteceu durante as Olimpíadas em Paris, quando alguns atletas que nadaram no Sena adoeceram por conta da sujeira. E dias antes, a prefeita Hidalgo tinha feito aquela cena para as redes, nadando no Sena para mostrar que estava limpinho. Tá vendo? Não é só aqui do lado debaixo do Equador que acontece.

O fenômeno que acabou causando o problema em Paris foi explicado por Luiz Firmino Martins Pereira, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, geógrafo e especialista em saneamento, um dos palestrantes da conferência que se chamou “Guanabara Azul”. A explicação é técnica, mas dá para entender:

“Só um sistema de separador absoluto não consegue dar conta da poluição. O Sistema de Tempo Seco colapsou, extravasou e vazou para o Rio Sena”, explicou ele.

Resumindo: quando a prefeita Hidalgo nadou, realmente estava tudo limpo, mas logo depois choveu forte, o que fez o tal Sistema de Tempo Seco colapsar. Quem quiser conhecer os detalhes, pode acessar o estudo feito por Luiz Firmino e colegas da FGV, chamado Cinturão Metropolitano da Guanabara.

Ana Asti, subsecretária de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do RJ, foi a primeira a palestrar e deixou patente um sentimento comum a todos ali: a paixão pela Baía de Guanabara. Asti traduziu assim o intento do Guanabara Azul, coordenado por Marcio Santa Rosa: até 2030, 90% da região estarão saneados.

“Se eu conseguir que os municípios tenham relação com a Baía de Guanabara, vou conseguir também desenvolver novos empregos , o que vai gerar renda. Há dez projetos de fomento à bioeconomia que podem viabilizar novos negócios. A Baía é a principal porta de entrada do país e hoje ainda tem muitas casas que estão de costas para ela. Queremos mudar isso”, disse Asti.

As mudanças climáticas serão levadas em conta, ressalta Ana Asti, que elenca o saneamento em favelas como o maior desafio da área. Para isso, por exemplo, vai ser inaugurada uma Estação de Tratamento de Esgotos em Queimados daqui a dois anos.

De qualquer forma, o plano de recuperação ambiental da Baía de Guanabara precisa sair do papel, já não é sem tempo. Parcerias têm sido feitas pela turma que está no comando da Secretaria, cuidando do meio ambiente. Estudos têm sido aplicados. Luiz Firmino falou sobre o modelo de Jardins Filtrantes, que está sendo empregado em Nova York e eu me lembrei, imediatamente, de outro local em que este modelo está sendo usado: Niterói. Meu pensamento voou longe dali.

Pouco mais de uma semana antes, a convite de outra amiga, Samyra Crespo,  ambientalista, escritora, que elaborou a primeira pesquisa de opinião pública sobre meio ambiente no Brasil, estive visitando o Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis, em Niterói, que pôs em prática o Sistema de Jardim Filtrante, e urbanizou a área onde fica o bairro Fazendinha. E foi lá que eu ouvi falar em Jardins Filtrantes.

Em Niterói, como no Rio, o objetivo é o mesmo: limpar as águas. Com águas limpas e saudáveis, é fácil pensar em atividades relacionadas com os meios aquáticos. A economia azul pretende impulsioná-las, mas com equilíbrio para não impactar o ecossistema. É um elo cauteloso, mas preciso.

Ode às Macrófitas

Foi também numa manhã ensolarada que cheguei a Piratininga. Antes, pegamos um catamarã, e fomos ouvindo a explanação de Dionê Maria Marinho Castro, que há mais de uma década está à frente do Programa de Despoluição da Enseada de Jurujuba e criação de Modelo de Gestão Municipal Integrada na Prefeitura de Niterói. É também uma servidora pública animada com o que faz, como a Asti, o Marcio… dá gosto de ver.

Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis

Dionê começou contando sobre como Niterói se modificou com a inauguração da Ponte. Era uma cidade, virou outra, e isso é facil de imaginar.  Deveria ser fácil, para as autoridades da época, imaginar também. E tomarem providências para evitar, por exemplo, colapsos no sistema de esgoto. Mas é assim: na hora de prever o lucro, dificilmente os donos do poder e do capital querem pensar em problemas…

Uma das mais prejudicadas foi a Lagoa de Piratininga. Passaram-se muitos anos até que veio uma Solução Baseada na Natureza, expressão criada pela Comissão Europeia que significa, resumidamente: ações que visam a proteger, gerir de maneira sustentável ou restaurar ecossistemas naturais a fim de enfrentar desafios da natureza. No caso, a solução encontrada foi, justamente, criar dois quilômetros de Jardins Filtrantes.

Não vou tentar dar detalhes técnicos, porque tenho medo de errar alguma coisa. Naquela manhã de quinta-feira, quando Dionê levou toda a equipe do Projeto de Implantação de Infraestrutura Sustentável para Recuperação Socioambiental de um Sistema Lagunar Urbano, tivemos uma aula sobre Jardins Filtrantes. E eu pude exercer a profissão que me constitui: sou repórter. Anotei um bocado sobre leito de secagem, retenção de sedimentos, caixas de passagem de 50 em 50 metros, tudo para a criação de novos equilíbrios ambientais. Mas, para não cansar os leitores, vou preferir resumir assim: o projeto deu certo. É visível a recuperação socioambiental do sistema lagunar, o cuidado que a equipe teve, sem precisar gastar mais do que R$ 100 milhões. Ou seja: é possível, precisa apenas ter vontade política e uma boa equipe.

Conto aqui duas histórias rápidas.

A primeira história é sobre a Macrófita aquática. Revelo minha paixão pelo mundo das plantas, e deixo a recomendação de um livro maravilhoso – “Sumário de Plantas Oficiosas”, de Efrén Giraldo – que li logo após ter tomado conhecimento de outro, Stefano Mancuso, pioneiro da neurobiologia das plantas, de quem já li três volumes. Durante a visita ao Parque Orla, não por acaso me aproximei da bióloga Heloisa Osanai, que faz parte da equipe e cuida desses seres.

Mancuso e Giraldo nos fazem pensar nas plantas como seres ativos, que se mudam, que viajam, e que escolheram a imobilidade em contraponto aos animais errantes. As macrófitas, assim, merecem todo o meu respeito porque, entre tantas outras qualidades, conforme me explicou Heloisa Osanai,  elas podem servir como uma espécie de biofiltro, reduzindo a carga orgânica no ambiente. Contribuem, então, para formar os Jardins Filtrantes. Querem atitude mais nobre e mais oportuna para nós, humanos que vivemos depositando por aí nossos detritos? Elas limpam.

A outra história é a do bairro que se criou ali, ao lado dos jardins. Tinha tudo para ser uma questão social séria, já que, como a maioria das megalópoles, também em Niterói há uma enorme desigualdade. E as 1277 familias que residiam no lugar onde havia problemas de esgoto e necessidade de solucioná-los, achavam que seriam removidas. Não foi assim, todo mundo ficou, a Lagoa foi dividida em nove trechos e, com todo cuidado, fizeram reuniões para apresentar o Parque Orla e ouvir sugestões dos moradores.

“Acolhemos mais de 85% das reivindicações da população. Formaram-se associações, eles se organizaram. E não fizemos só reuniões, fomos também no tête a tête, conversando com eles, indo à casa deles. Hoje as famílias da comunidade convivem com os moradores do bairro Fazendinha. O poder público ajeitou essa relação. Se os moradores não se sentissem responsáveis pelo projeto seria difícil, eles ajudam a preservar”, contou Dionê, que só não conseguiu mostrar-nos o jacaré de três metros que vive na região e também convive com todos.  Ufa.

Bem o texto acabou ficando muito grande, mas foi preciso porque não é a toda hora que eu tenho a chance de fazer reportagens tão ricas, que me possibilitem tantas análises.

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Atletas e ação global contra a fome: a humanidade ainda tem jeito

Este não será um texto somente noticioso. É, antes,  um desabafo, um jorro de indignação com os rumos do mundo.

Sinceramente eu não consigo imaginar o que se passa pela cabeça dos homens que têm o poder e estão empenhados em fazer guerras, em matar pessoas, em estressar ambientes por ambição.  Já está na casa dos trilhões de dólares o gasto com armas globalmente, e não se conseguiu, até hoje, cumprir o acordo que vem sendo tentado desde 1972, na Conferência de Estocolmo, para assegurar 100 bilhões de dólares ao ano para os países pobres se recomporem dos efeitos das mudanças climáticas.

Impossível entender ou admitir alguma possibilidade de apoiar A ou B.

Feita essa declaração, vou tentar engolir a raiva, a indignação, a impotência diante desse cenário e vou focar em dois grandes acontecimentos atuais que demonstram que a humanidade sabe fazer diferente. Aos irascíveis chefes que mandam cidadãos para campos de batalha ou alvejam civis covardemente, vai um recado (sei que eles não vão ler ou ouvir, mas não me importo): há pessoas que pensam de forma coletiva por um bem comum. Sim, isso existe e é possível.

Temos os Jogos Olímpicos acontecendo em Paris. Embora a organização do evento seja cruel com atletas da Rússia e Bielo Rússia, impedindo-os de levantarem as bandeiras de seus países nas vitórias, é preciso comemorar. São mais de dez mil jovens atletas! Não digo que todos, mas a grande maioria certamente está vivendo dias que serão uma grande marca em suas vidas. É lindo ver como se esforçam, como aproveitam a potência de seus corpos.

Fiquei impressionada com nossa ginasta Flávia Saraiva, que levou uma queda no aquecimento, cortou o supercílio, fez curativo, voltou e cumpriu todo o programa direitinho. O chinês que disparou na frente, no nado de cem metros… alguém reparou no sorriso vitorioso que ele estampou no rosto enquanto aguardava a nota? Bem, não tenho conseguido acompanhar muito, por causa do trabalho, mas vira e mexe eu me pego buscando em sites as cenas olímpicas e me emociono assistindo.

O outro grande acontecimento, que deixa  no chinelo e revela a face ignóbil dos que gostam de guerra é a proposta apresentada pelo governo do presidente Lula em Nova York na semana passada. Trata-se da Aliança Global contra a Fome. Diz o site da Agência Brasil:

“Integrantes do governo brasileiro participaram esta semana do Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável, na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York (EUA), e apresentaram a proposta de criação de uma aliança global de combate à fome e à pobreza”.

É isto. Enquanto uns gastam sua massa cinzenta pensando em como tentar caminhar para uma guerra cada vez mais intensa e extensa, outros expõem soluções globais para acabar com a miséria, a fome.

Ainda há tempo.

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