Ford e a desastrada aventura na Amazônia

Uma biografia de Henry Ford está disponível em DVD. Com o título “O homem que revolucionou a indústria criando a linha de montagem”, o documentário, lançado pelo The Biography Channel, tem só 44 minutos. Seu grande gol são as cenas reais da grande fábrica Ford, onde o empresário começou a testar o sistema de produção cuja principal característica, a fabricação em massa, foi duramente criticada  por causar distúrbios sérios nos operários. Há no filme dois depoimentos impressionantes de funcionários que dão conta de como a criação daquela esteira rolante que virou símbolo da selvageria capitalista foi cruel para eles. Ambos já bem idosos lembram-se com exatidão que não conseguiam dormir quando chegavam em casa porque as mãos doíam, a cabeça estalava. Ford é retratado nol filme como um visionário, desde pequeno fadado ao sucesso. Ao mesmo tempo uma pessoa fria, focada no seu próprio empreendimento o tempo todo, que só se enternecia em família, com filhos e netos. Indiferente, portanto, ao desconforto que causava aos operários, ele mandava sempre acelerar a esteira quando precisava cumprir com a demanda por seus carros. (A foto é do site seriouswheels.com).

Henry Ford with V-8 Engine

Se fosse vivo, Henry Ford (1863- 1947) hoje se veria às voltas com debates sobre crescimento versus qualidade de vida. O homem que criou um novo modelo de produção e pôs um automóvel com preço e características acessíveis para circular acreditava que dando salários decentes poderia exigir o que quisesse de seus operários. Criou assim o “Five dolars a Day” quando percebeu que a rotina em sua fábrica afastava os operários por causa do sistema de trabalho quase desumano. Pagando mais do que todo mundo ele conseguiu encher sua fábrica , cumprir os prazos na entrega dos automóveis e pensava que, desse jeito, estava fazendo o melhor papel que um empresário pode fazer à sociedade.  Qualidade de vida era um expressão que não fazia parte do dicionário desse homem. Nem para consumo próprio.

Mas ele é um personagem importante para a história da humanidade. E  merece ser visitado de tempos em tempos, quer seja para que não se repita seus erros, quer seja porque com eles é possível pensar num outro modelo. Aqui no Brasil, Ford criou a Fordlândia, mote do livro lançado em 2010 pela Record sob o título “Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva” – de autoria do professor de História da Universidade de Nova York, Greg Grandin. Depois de um exaustivo trabalho de pesquisa que descreve dos primórdios até a decadência  da cidade criada por Henry Ford no Pará em 1928, que recebeu o nome de Fordlândia, Grandin conta, nas últimas páginas do livro, o que descobriu em suas investidas contemporâneas pela Amazônia. O quadro atual, de senhores de terra escravizando homens e desrespeitando a natureza, sobretudo para plantar a soja, dá corpo ao ditado pessimista que diz que nada é tão ruim que não possa piorar.

fordlandia do nytimesDiferentemente do argentino Eduardo Sguiglia, que escreveu uma ficção sobre Fordlândia (“Um paraíso obscuro”, ainda sem tradução para o Brasil), o americano se ateve a fatos, arquivos, livros, entrevistas. E conseguiu traçar um retrato que parece bem fiel sobre os acontecimentos que levaram Henry Ford a ganhar uma imagem apressada, quase equivocada, de “amigo da natureza” por escolher o Pará para tentar ser autosuficiente em borracha para os seus carros, sem se aliar a ninguém: ‘Ford não era um homem de sociedades”,  esclarece Grandim. (A foto é do NY Times).

Na verdade, Ford era um homem de paradoxos. Sim, já no início do século passado ele reutilizava e reciclava suas máquinas e ferramentas, mesmo sem jamais ter ouvido falar sobre a política dos três erres (reduzir, reusar e reduzir) que se tornou o mantra da sustentabilidade há poucas décadas. Sim, além disso ele se preocupava em preservar árvores (chegou mesmo a ordenar que só cortassem as mais velhas do terreno paraense onde pretendia plantar e colher borracha). Tais atitudes, porém, punham à mostra seu antropocentrismo. Ford, hoje, não conseguiria ganhar a imagem de empresário sustentável porque se esquecia, com frequência, do pilar social. Tudo o que reutilizava era para economizar visando ao lucro (próprio) cada vez mais crescente. As árvores poupadas serviriam mais tarde como madeira para suas próprias construções.

Como patrão, ele se esmerou na arte de exploração de mão de obra sem se dar conta de que lidava com humanos. O fordismo, sistema cruel, foi muitas vezes alvo de críticas (a mais conhecida foi a cena criada por Charles Chaplin em “Tempos modernos”).  Segundo Grandim, “Ford pagava aos trabalhadores locais mais do que o dobro do salário vigente, mas também impunha seu estilo. Não era permitido encostar-se numa pilha de madeira, nem se sentar por cinco minutos. Era obrigatório permanecer ereto sobre dois pés”.

Para além desses dados curiosos, escritos num texto bastante simpático, “Fordlândia” é, na verdade, uma preciosidade para os brasileiros conhecerem mais profundamente apenas uma das grandes atrocidades cometidas contra a Floresta Amazônica. Entre os governantes que entregaram o território quase de mãos beijadas – por US$ 125 mil, garante Grandim – para Henry Ford, que em 1927 chegava com promessas de trazer muito dinheiro para a região; e os desmandos de equipes ignorantes na arte de viver na selva, estava um enorme pedaço do Brasil. Diz Grandim: “Pouco m ais de um milhão de hectares, quase do tamanho do estado de Connecticut”.

Como não era homem de se associar a ninguém, Ford deixou de lado um detalhe fundamental quando imaginou a aventura de plantar na Amazônia para se tornar autossuficiente em borracha: era preciso ter por perto alguém que, de fato, soubesse lidar com a região. Não conseguiu essa pessoa. E submeteu a doenças e privações, não só operários brasileiros como funcionários norte-americanos que exportava para o Pará em navios. Por querer, ainda, submeter à natureza dos operários brasileiros sua cultura tão diversa da deles, teve que enfrentar revoltas violentas.

Uma delas aconteceu em 1930, no refeitório da fábrica. Acostumados a se sentarem e servirem a própria comida, os operários não suportaram quando os dirigentes da fábrica tentaram “organizar melhor” suas vidas, oferecendo-lhes garçons que demoraram a trazer as refeições. Conta o historiador:

“A reação foi  furiosa, lembrou um observador: como atear fogo à gasolina. O terrível barulho de panelas, copos, pratos, pias, mesas e cadeiras sendo quebradas serviu de alarme, chamando mais homens com facas, pedras, canos, martelos,  facões e porretes”.

No fim das contas, a paz foi restabelecida, outra cidade foi construída para tentar a sorte num terreno talvez mais propício ao plantio da borracha, mas… as seringueiras não conseguiram dar nem metade da quantidade de borracha que Ford esperava. “Contudo – escreve Grandim – “embora as duas plantações fossem fracassos econômicos, suas cidades bem arrumadas representavam  exemplos brilhantes do sonho americano”.

Henry Ford II, neto de Ford, foi nomeado presidente da companhia em 1945 e um dos seus primeiros atos foi vender Fordlândia e Belterra, avaliadas em quase US$ 8 milhões, ao governo brasileiro por US$ 244.200.

Henry Ford nunca visitou as cidades que sonhou criar. Hoje, ambas foram tomadas por criação de gado e plantação de soja.

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O xisto e o discurso do presidente Obama sobre o clima

Barack Obama Takes Campaign Bus Tour Through PennsylvaniaNo seu segundo discurso depois da posse, esta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reavivou uma questão que, a nível internacional, andava meio sob as cinzas da Rio+20 (Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável que aconteceu no Rio de Janeiro em junho do ano passado). Obama, que não veio à Rio+20 e que na COP-15 (a Conferência  que aconteceu em Copenhague em 2009) chegou de mãos abanando e nada contribuiu para um acordo que baixasse as emissões de carbono internacionalmente, agora está demonstrando uma enorme preocupação.  Declarou à imprensa que enfrentar a mudança climática é importante e que “Não fazer isso seria trair os nossos filhos e as futuras gerações”.

Como já era de se esperar, ato contínuo ao do discurso do presidente, algumas instituições se lançaram a revelar números e fazer novos diagnósticos sobre o tema. A agência Reuters, por exemplo, divulgou um estudo no Fórum Econômico Mundial que começou quarta-feira e termina domingo em Davos, na Suíça,  onde se descobre que “o mundo deve gastar cerca de 700 bilhões de dólares por ano para frear a mudança climática”. E que para projetos estruturais de prevenção, até 2020, “devem ser gastos 5 trilhões de dólares’”.

A declaração do presidente Obama e os valores fantásticos necessários para prevenir e mitigar os impactos das mudanças climáticas, chegaram a mim no mesmo dia em que li um artigo bastante elucidativo e embasado, do jornalista e editor de Internacional do jornal “Valor Econômico” Humberto de Saccomandi, que anunciou, na edição de ontem, um certo boom de xisto, nos Estados Unidos.  Xisto é uma rocha, impregnada de hidrocarboneto, que tem um enorme valor energético. E Saccomandi revela que, segundo projeção da Agência Internacional de Energia (AIE), com o xisto os Estados Unidos superarão a Rússia em 2015 como maior produtor de gás, e a Arábia Saudita em 2017 como maior produtor de petróleo.

xistoHá algum tempo a mídia especializada já vem falando do xisto (a foto é do site www.quimica.seed.pr.gov.br) como uma nova possibilidade de energia. No dia 3 de janeiro do ano passado, por exemplo,  o site da agência Envolverde de notícias reproduziu uma notícia divulgada pela Inter Press Service, onde a própria AIE já dizia que  “O gás recuperável nas rochas de xisto, ou shale gas, talvez supere várias vezes em quantidade o das reservas.”  A grande novidade  era a descoberta de que o gás de xisto é abundante em territórios que antes se considerava pobres em hidrocarbonetos, como China, Estados Unidos e Argentina além de África do Sul, Austrália, Polônia, França, Suécia, Índia, Chile , Paraguai e Paquistão.   Atento ao realinhamento dos mercados devido ao novo tabuleiro energético, o presidente da Associação Venezuelana de Processadores de Gás, Luís Alberto Terrero, disse à época que “países que nunca tiveram esta disponibilidade de energia já não serão apenas consumidores”.

Mas, para extração do hidrocarboneto da rocha, é preciso avançar bastante em novas técnicas  tecnológicas. E, para isso, tem que duas coisas: países ricos com vontade de repassar generosamente tais tecnologias para os pobres e gente nova estudando, se empenhando. Terá sido pensando nisso que, na sequência do discurso em que fala sobre a preocupação com as mudanças climáticas, Obama  ressaltou a necessidade de se investir em projetos inteligentes e criar empregos verdes para se descobrir novas  tecnologias?

Segundo o  consultor em energia de xisto, o britânico Nick Grealy ouvido pelo articulista do Valor, “Explorar o xisto ainda é caro, mas o custo vem caindo bastante nos últimos anos. Nos Estados Unidos, eles não vão se preocupar muito se o preço do petróleo não cair abaixo de US$ 60. Eles ainda assim ganhariam dinheiro com xisto”.  Se tudo isso acontecer de verdade, a humanidade pode se preparar, no futuro, para assistir uma redução da dependência dos Estados Unidos com o Oriente Médio, o que, para o professor de segurança global no Hampshire College, “Será uma mudança geopolítica significativa. A dependência do petróleo sempre teve um forte impacto na política externa americana”.

A verdade é que não sabemos ainda tudo sobre recursos naturais da Terra. Estamos apenas andando de gatinhas num terreno que tanto pode ser mais favorável quanto menos favorável a nós. A única coisa que podemos dizer com certeza hoje é que tais recursos são finitos, o que exige um tratamento cuidadoso, criterioso. Para além disso, certo também é que tais recursos têm  uma repartição totalmente desigual. Anthony Giddens, reconhecido como um dos pensadores sociais mais importantes de nosso tempo, escreveu em 2009, no seu mais recente livro, “A política da mudança climática”, que a posse de recursos naturais, especialmente gás e petróleo, é uma das armadilhas que capturou as sociedades marcadas pela pobreza, epidemias, ignorância e desespero. “Uns 30% dos pobres do mundo vivem em países cuja economia é dominada pela riqueza das reservas naturais. São poucos os Estados rentistas que, em certa medida, conseguiram escapar da maldição dos recursos – como o Kuwait ou a Arábia Saudita – principalmente por terem enormes reservas de petróleo e gás. Para outros, porém, a receita proveniente dessas fontes só proporciona meios de subsistência para uma elite minúscula”.

Considerando o xisto como uma possibilidade de energia que pode mudar a face do mundo como nós a conhecemos nos próximos anos, então, não custa ir além no exercício de ficção. Será que o xisto causaria menos poluição no ar, que atualmente é responsável por 6 milhões de mortes prematuras por ano, segundo o relatório GEO-5 lançado pela ONU antes da Rio+20?

São questões. É importante pensar sobre elas. É importante duvidar delas. Otimismo demais é sinal de que alguma coisa vai mal.  O mundo não tem soluções prontas, é preciso criá-las a cada instante, dizem os filósofos da diferença (Spinoza, Nietzsche, Delleuze, …). E a ignorância sobre a quantidade de fontes dos recursos nem pode ser assim tão ruim se dermos ouvidos  ao autor de “O Homem sem Qualidades”, Robert Musil, quando ele lembra, sem rodeios, como é seu estilo, que “O homem nunca avança mais do que quando ignora aonde vai”.

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Atitudes que podem ajudar

Sempre que há enchentes, e infelizmente a falta de prevenção por parte dos governos tornou este um fenômeno frequente aqui no Rio de Janeiro, há também, por parte de cao em AngraONGs envolvidas com o trato de animais, a preocupação com os bichos domésticos da região.  Quando acontece uma tragédia com uma família, muitas vezes é difícil mesmo priorizar o bichinho em vez de salvar uma criança ou mesmo alguém precisando de ajuda. Se não morrem, os cães acabam desamparados, perambulando pelas ruas pós-enchente. Na última enchente aqui no Rio, em Xerém, não foi diferente. Para oferecer tratamento veterinário adequado em uma situação dessas,  vacinar e alimentar os animais mais necessitados, a WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal), que trabalha em vários países e com a ONU, está desde  sexta-feira passada, com o apoio de voluntários e a parceria da ONG AnimaVida, atendendo  a cerca de 500 animais de companhia. Serão distribuídos medicamentos (vermífugos, antibióticos) e 1 tonelada de ração e vacinas (V8, V6 e antirrábica) para imunização com a ajuda da empresa Merial Saúde. A foto é de Carolina Lauriano/G1. 

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Ainda na linha atitudes que podem ajudar, recebi uma mensagem dizendo que todos os copos que serão usados no Rider Weekends, uma espécie de festival de verão que acontece até o dia 27 no Jockey Club, serão biodegradáveis, feitos de papel sem parafina e com tinta formulada à base de soja. As latinhas também serão recicladas:  só no ano passado foram 55 mil. Não é uma atitude para salvar o planeta, nada disso. Mas é um jeito mais consciente de se fazer um evento de grande porte, concordam? Lixo no lugar de lixo, fundamental.

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Outra iniciativa sobre animais: tem uma lei ambiental brasileira que permite a permuta entre instituições, de animais que não têm condições de sobrevivência na natureza. Daí que ontem chegaram ao Criadouro de Animais Silvestres da Itaipu Binacional no Paraná duas harpias fêmeas (como esta da foto de Eduardo Perini), vindas do Parque Zoobotânico Vale em Carajás para se juntarem a outras da espécie, também conhecida como gavião-real. É que esta espécie está em extinção por conta dos caçadores de gaviões, e a intenção é que ela se reproduza em cativeiro. Elas estavam sob os cuidados da equipe técnica do Parque, localizado em Parauapebas (PA), desde 2011, quando chegaram encaminhadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de Marabá.

Harpia 3

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Um bom programa em São Paulo

Recebi este email que reproduzo abaixo, do Instituto Vladimir Herzog, para os amigos que estão em São Paulo. Dá vontade de ir. Vejam só:

A Catedral da Sé de São Paulo está ligada à História da Resistência, da valorização da Vida e do encontro no respeito das diversidades étnicas e religiosas. O nome de Vladimir Herzog está ligado à Catedral através do histórico ato cívico por ocasião da sua morte em 1975. Milhares de pessoas se reuniram para ouvir uma palavra de conforto numa cerimônia religiosa tríplice entre católicos, protestantes e judeus.
No dia 25 de Janeiro de 2013, quando a cidade de São Paulo comemora o seu 458º aniversário, o Instituto Vladimir Herzog traz novamente ao Brasil a execução da cantata cênica “O Diário de Anne Frank“ de Leopoldo Gamberini, composta em 1958, com a colaboração de Otto Frank, pai de Anne e do então jovem pianista Daniel Barenboim.

A obra é inspirada no relato de Anne Frank  e ilustra a tragédia que assolou o mundo durante a guerra. A primeira audição completa, com orquestra, foi realizada na Berlin Staats Oper e em seguida no Conservatório Giuseppe Verdi di Milano, dirigida pelo Maestro brasileiro Martinho Lutero Galati De Oliveira e, recentemente, Junho e Julho de 2012, no Auditório Ibirapuera de São Paulo.
A obra é narrada pelo coro, que prepara as cenas descritas e contadas pela própria Anne Frank, protagonizada pela soprano solista. A ambientação da guerra, dos bombardeios, dos sinos das igrejas, que Anne Frank ouvia como sinal de vida dentro do campo de concentração, são efeitos de live-electronics baseados em gravações originais de época, como a sirene alemã dos avisos de bombardeio. A partitura é complementada com acompanhamento de orquestra sinfônica numa escritura típica orquestral italiana do pós-guerra.
No Brasil a cantata teve grande participação de público e muitos pedidos de repetição. A ideia é fazer uma releitura da obra em chave mais profunda e reflexiva, no ambiente da Catedral da Sé, celebrando a vida de Vladimir Herzog, a paz e a convivência pacífica entre a diversidade dos homens. O concerto, com entrada franca, será precedido por um ato inter-religioso conduzido pelo Cardeal Dom Odilo Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, com a participação das diversas religiões atuantes na Capital paulista, como parte das comemorações do 458º aniversário da Cidade.

 

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“Não nos preocupamos com reservas de minério, mas com licença para operar”, diz diretora da Vale

O mundo estava novamente em guerra quando, aqui no Brasil, Getúlio Vargas decidiu encampar as reservas de ferro do empresário americano  Percival Farquhar, em 1942, para criar a Companhia Vale do Rio Doce. No início a empresa patinou porque não havia muita demanda de aço no país. Mas essa situação foi mudando aos poucos e… bem, o resto da história a gente já sabe. A empresa cresceu e, em 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso,  foi privatizada.  Hoje a Vale é uma das maiores mineradoras do mundo — está em 37 países e sua receita operacional totalizou US$ 11,0 bilhões no terceiro trimestre do ano passado – e  vem sendo alvo de cobranças, denúncias, por parte de quem se preocupa com os impactos socioambientais causados pela sua atividade.  Esse blog não se põe na condição de juiz e acredita no diálogo e na informação como forma de tentar sair do modelo em que se elegem bandidos  e mocinhos; heróis e vilões.  Acho relevante , portanto, que uma empresa que até hoje, em toda sua história, já extraiu 5 bilhões de toneladas de minério da Terra, dê conta de suas atividades, comente sobre seus passivos, compartilhe seus planos.

Como editora do extinto Razão Social, entrevistei o ex-presidente Roger Agnelli e a ex-diretora da Fundação Vale Olinta Cardoso. Esses executivos já não estão mais na empresa, portanto é impossível cobrar deles aquilo que disseram em entrevista. Para atualizar o tema pedi, no ano passado, uma entrevista com a atual diretora de sustentabilidade  (cargo que durante a administração Agnelli teve uma alta rotatividade de executivos), Vania  Somavilla.  Numa longa conversa na sede da empresa no Rio de Janeiro,  Somavilla não se negou a refletir sobre os desafios, os processos ainda emperrados.  Apontou  muitos acertos, mas também alguns erros.   Identifiquei  tremenda semelhança  entre seu discurso sobre  os “desafios de se buscar minério em lugares abandonados pelo estado”  com o de Agnelli quando o entrevistei  em maio de 2007.  Tanto tempo depois, e os desafios ainda são os mesmos? Ao que parece, sim. O que está mudando, ganhando velocidade, é a demanda social. Espera-se, ansiosamente, o momento em que o diálogo entre a empresa, a sociedade e o governo entre em ritmo.

vaniaSegundo o site Observatório do Pré-Sal, as reservas de minério brasileiras são estimadas em 28 bilhões de toneladas .  A estimativa chega à conclusão de que em 2030 não teremos mais minério. Como a Vale se posiciona diante deste cenário?

Vânia Somavilla – Esses números de reserva são meio fictícios. Não se conhece tudo. É possível fazer sondagens sísmicas, mas para se saber realmente o que existe, tem que furar (nesse aspecto, o minério é igual ao petróleo). Tem que fazer perfuração, ver a qualidade do material, a profundidade, o teor. Tem uma cubagem real, mas não tem o valor real de reserva. Além disso, a reserva muda muito com a tecnologia porque quanto mais moderna é a tecnologia, mais se consegue aproveitar de material. Para se entender melhor, vamos comparar com o petróleo. Todo ano mudam as reservas porque o que não se conseguia alcançar antes, é possível alcançar com tecnologia e preço. Por isso a  Vale não tem muita preocupação com a quantidade de reserva, tem muita reserva para ser explorada ainda.  A questão hoje, muito mais complicada para todos os recursos naturais, é se ter acesso a essas reservas. É a isso que chamamos de licença para operar.

Quando eu entrevistei o Roger Agnelli (ex-presidente da Vale) em 2007, já naquela época ele me disse que tinha que ir cada vez mais longe para buscar o minério e que a Vale tinha uma dificuldade grande de achar mão de obra. O cenário ainda é o mesmo? É este ainda o desafio para a tal licença para operar?

Vânia  Somavilla – Sim, continua. Tem que ir mais longe, mais profundo, e a mão de obra é um problema. O minério de ferro não dá em Nova York, dá em locais remotos onde às vezes tem quase a total inexistência de serviços públicos.  Toda a questão social é extremamente desafiante  hoje. A empresa tem que fazer o papel do estado, e isso a Vale não quer fazer. O que fazemos? Acabamos sendo um agente catalisador de forma que as políticas públicas cheguem àquele município. Um exemplo disso é Paragominas, um lugar onde há parceria do poder público local com o setor privado. Dá orgulho estar ali.

Tem algum lugar em que a Vale não tenha orgulho de estar?

Vânia Somavilla – Não. Acho que tem lugares onde a gente poderia fazer mais. Mas sou otimista: acho que um bom governante, se souber tirar proveito de qualquer atividade econômica, vai conseguir fazer uma parceria ideal conosco. O meio ambiente só vai sobreviver com atividade econômica junto. Não tem a menor condição, na minha opinião, de manter a Amazônia intocável, por exemplo.  Por isso criamos lá o Fundo Vale, que é uma tentativa de preservar o local trabalhando junto às cadeias produtivas para conseguir que o homem preserve. Porque senão, não tem dúvida: o homem vai desmatar se precisar de alimento.

A Vale está querendo ser referência na área social, mas tem uma questão fortíssima, que é a falsa expectativa de emprego quando ela chega num local. Com toda a mecanização, a mineração não emprega tanta gente quanto se diz, não é verdade?

Vânia Somavilla – Tem diminuído, sim, a quantidade  de empregos que a mineração pode oferecer e isso é um desafio.  Assim mesmo, a Vale oferece mais opções do que nossas concorrentes. Hoje temos mais gente trabalhando em escritórios do que no campo. Tem um lado que talvez seja gordura, e já estamos vendo isso. Mudamos mesmo o perfil dos empregos, mas diminuímos o risco das pessoas, eliminamos os serviços que eram mais críticos.  Fizemos no ano passado uma roda de conversas com as funcionárias para debater sobre o que impede as mulheres de trabalharem na Vale (só temos 12% de funcionárias mulheres no campo e no escritório, é pouco).  Uma delas me disse que fica com medo de ir para o campo porque tem coisas muito pesadas. A reflexão da empresa foi: se é pesado para mulheres, é pesado também para os homens. Aí, para o bem de todos, algumas funções têm mesmo que ser mecanizadas.

Uma das críticas ao trabalho de mineração é que a empresa tira tudo o que o lugar tem para tirar e depois faz as malas e vai embora, deixando uma população que viveu anos por conta daquilo, totalmente sem referência. Aconteceu em Itabira. Não dá para fazer diferente?

Vânia Somavilla – Itabira hoje está se transformando num polo hospitalar. É ruim criar uma região totalmente dependente de empregos que só a Vale pode gerar, não queremos isso. O que queremos mesmo, e para isso é que precisamos trabalhar, é gerar desenvolvimento. O sonho é trabalhar todo mundo junto, com poder público, terceiro setor, pessoas de fora, para que se consiga injetar recursos no local. Mas esse tipo de preocupação é nova, há 70 anos ninguém pensava nisso.  Naquela época a preocupação maior era com a produção. Depois a preocupação passou a ser com os impactos ambientais e o social não era relevante. Mas, com o tempo, a Vale começou a perceber que não bastava ter a licença ambiental para agir num local, tinha que ter também a licença de vários órgãos envolvidos. Precisamos da licença social, temos que trabalhar nossa reputação.  E fomos  acompanhando esse processo: hoje já entramos num local fazendo o plano de fechamento, ou seja, como vou deixar ambientalmente e socialmente aquele lugar. Um bom exemplo disso é Águas Claras.

Você falou em reputação. A Vale já ganhou até prêmio de pior empresa do mundo. Por quê?

Vânia Somavilla – A percepção da mineração, em geral, não é boa. Apesar de ser uma atividade que não emite muito carbono, é visualmente feia, o visual é muito forte.  Além disso, lidamos na Vale com grande volume de terras, o que se faz é muito explícito. E, de qualquer maneira, as pessoas querem usar aço, que está em diversos lugares no cotidiano, mas não querem entender que é preciso minerar para obtê-lo. Mas acho que a Vale tem que se comunicar bem, se relacionar cada vez mais com os stakeholders. Temos trabalhado muito com isso, com o relacionamento mais próximo às comunidades para que elas entendam o processo.  Há muito que ser informado, e nós capacitamos nossos gestores para isso. Por exemplo: você sabia que a Vale preserva mais do que afeta as áreas onde está atuando? Em Carajás, por exemplo, nós só mineramos 3% e o resto – 97% – são florestas preservadas. Como trabalhamos com mundo das imagens, o que primeiro aparece para as pessoas que veem Carajás é aquele buraco enorme. Ninguém sabe que ali só tem 3% de toda a área.

A mineração, como você diz, traz progresso. Mas quando a Vale atua numa comunidade onde há muita miséria espalhada, fica uma desigualdade tremenda…

Vânia Somavilla – Tudo é aprendizado. A Vale não é perfeita, estamos tentando fazer melhor. Lá em Moçambique, por exemplo, estamos fazendo um estudo de diagnóstico para ver o que pode ser feito pelas pessoas. Vamos gerar emprego para muita gente, mas muita gente vai ficar sem emprego, então o que fazer? O certo é que não queremos ser um vizinho rico no meio de tanta gente miserável. O caminho é tentar construir junto com eles e o poder público uma solução. Dá trabalho, não é necessariamente dinheiro que é preciso, tem que estudar, estar presente ali o tempo todo. Entender as diferenças culturais, porque a gente erra nisso também. Teve uma vez que fizemos um projeto para criar gado leiteiro numa região onde o pessoal não bebia leite, não sabíamos disso. Tem que chegar com humildade e entender que as pessoas que estão ali também têm a chance delas, naquele momento, de ver sua vida transformada.

A Vale exporta muito esse minério que tira das terras brasileiras e isso é criticado.

Vânia Somavilla – Mas não é o minério que vai transformar uma comunidade, é a riqueza gerada por toda a atividade.  Aquelas pessoas não vão usar carvão, mas elas estavam sentadas em cima de uma mina de carvão que só vai se transformar em alguma riqueza se uma empresa explorar. Agora, é claro que essas pessoas também têm o direito a um benefício sobre aquele recurso. É uma coisa que pode dar certo . Nunca vai ter unanimidade, mas estamos tentando saber hoje até porque o senhor Zé da padaria é contra a nossa atividade naquele local.  Não fazemos um trabalho perfeito, mas estamos caminhando para isso.

Eu ouço isso há tanto tempo. Afinal, o que emperra para esse trabalho ser perfeito?

Vânia Somavilla – É difícil porque são muitas pessoas envolvidas e o problema é dinâmico, há demandas gigantescas.  E tem um aprendizado, tanto nosso quanto do pessoal do Terceiro Setor. Já estamos conseguindo conversar melhor, veja só, na Rio+20 foi a primeira vez que as empresas puderam participar de uma Conferência de Meio Ambiente. Mas quer ver uma questão complicada? Os reassentamentos. Já tentamos conversar com muita gente para nos ajudar a fazer um bom projeto mas não conseguimos ainda. As pessoas sempre vão perder alguma coisa quando mudam e esse valor é intangível, insubstituível. Pode até dar mais em termos materiais, mas leva tempo para as pessoas criarem raízes de novo.  Não conheço nenhum reassentamento bem sucedido logo no começo.

Vamos falar de um assunto espinhoso: Belo Monte. A Vale tem 9% das ações e a questão indígena lá é forte. Os índios não se sentem ouvidos. O que você acha, dentro dessa nova proposta de focar no social, que pode ser feito?

Vânia Somavilla – Os índios são ouvidos, foram ouvidos e devem ser ouvidos sempre. A nossa equipe lá diz que eles foram ouvidos. Comunicação é outra questão complicada porque  se tem uma das partes dizendo que não está sendo ouvida, o que se faz? Na verdade a obra vai perturbar a vida deles, sim. Mas estou sempre de olho, acompanhando o processo. Não tem pergunta que não possa ser feita e todas as respostas têm que ser dadas.

Na Costa Rica existe um sistema de mineração indispensável, ou seja, a mineração é feita sob demanda. Por que não se faz algo assim aqui no Brasil?

Vânia Somavilla – Acho que não é possível, não vejo como. Não se vai conseguir ter uma siderúrgica em cada município, a menos que o mundo mude tanto. Até porque essas coisas numa escala menor ficam mais caras. Você tira o custo do transporte, mas traz a escala.

Os críticos fazer uma resistência até mesmo à expressão produzir minério, que não é exata.

Vânia Somavilla – É verdade, não é produzir, é extrair. Mas nunca se extrai somente, sempre tem o beneficiamento e acaba que é por isso que vira produção. É uma questão de semântica.

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Que fim levou a COP-15? E o novo livro do autor de “O colapso”

Nunca se falou tanto em meio ambiente, no mundo todo,  quanto em 2009. No fim daquele ano, jornais, televisões, rádios, internet, revistas, estavam com suas manchetes voltadas para Copenhague, a capital da Dinamarca, onde aconteceu a Conferência do Clima da ONU. Esperava-se que os representantes dos 193 países das Nações Unidas acertassem um novo acordo climático para suceder o Protocolo de Kioto, que expirou no ano passado (sem acordos).  Mas, mesmo antes de dezembro, quando houve o encontro que a mídia chamou de “fiasco” por não ter tido um resultado favorável à questão das emissões, líderes, empresários, acadêmicos, escritores, aproveitaram a luz sobre o tema para, cada um ao seu jeito, tecer comentários ou noticiar decisões.

Na onda das decisões, o primeiro ministro japonês, Yukio Hatoyama, convocou uma mega entrevista coletiva, em setembro de 2009, para jornalistas do mundo todo, e avisou que pretendia reduzir em25% as emissões de CO2. Ganhou espaço, foi louvado, elogiado pela ONU, mas deixou claro também que estava condicionando o plano à implementação de medidas semelhantes de outros países durante a COP-15 (como foi chamada a Conferência realizada em Copenhague). Como não houve acordo, ninguém cobrou do primeiro ministro. E, pelo que se sabe até agora, quem ajudou mesmo a baixar as emissões de carbono no mundo todo foi a crise financeira internacional. Segundo o  Global Carbon Project, um grupo internacional de cientistas que analisa dados sobre emissões no planeta,  a crise levou a uma redução de 1,3% na produção de CO2.

Voltando àqueles que, legitimamente, aproveitaram o momento para lançar também seus bons frutos de pensamento e reflexões: dou conta de, no mínimo, três bons livros lançados  naquele ano aqui no Brasil. Um inconveniente  alerta sobre a catástrofe que será para o mundo quando a Terra aquecer, o que os cientistas dão como certo por conta do aumento das emissões, no entanto,  acabou caindo no esquecimento da mídia. Foi-se, assim como o Protocolo de Kyoto, que não conseguiu apoio nem na Rio+20.

O primeiro deles foi “Seis graus” (Editora Zahar), de Mark Lynas, que recebeu o Prêmio da Royal Society. Jornalista e ativista ambiental, ele traçou no livro uma espécie de guia sobre o que é possível esperar a cada aumento de temperatura. Como diz o título, ele parou nos seis graus acima do que é hoje, quando bolas de fogo atingirão o planeta e haverá uma extinção em massa da humanidade. Ou, de quem sobrar para contar a história. Porque, mesmo que o aquecimento seja apenas de 1 grau (o que já está descartado pelos cientistas do IPCC), já haverá uma seca enorme nos Estados Unidos, o que mexerá com toda a economia mundial. Com 2 graus a mais, a população de várias cidades da China sofreria com a falta de água e a Grande Barreira de Corais da Austrália correria o risco de extinção. O ecossistema do Rio Amazonas entraria em colapso se a Terra aquecer mais 3 graus do que é hoje. Em todos os cenários, além das mudanças climáticas e da degradação do meio ambiente e dos ecossistemas, a humanidade também sofreria com a falta de alimentos e de locais seguros para viver.

“Gaia: alerta final”, de James Lovelock, considerado um dos pais do movimento verde por ter sido o primeiro a constatar o acúmulo de CFCs e de outros gases no ar, lançava o que o físico chamou de um último aviso. Para ele, o derretimento das calotas polares está acontecendo de modo mais acelerado do que ele próprio havia anunciado no século XX, em seu primeiro livro “A vingança de Gaia”.  Segundo reportagem de Camila Nóbrega na Revista Amanhã, de O Globo, em 2012 foi registrado o recorde de derretimento da cobertura de gelo no Oceano Ártico desde que as medições começaram a ser feitas, em 1979. No entanto, no ano passado Lovelock veio a público declarar que havia exagerado em suas predições. E fez questão de dizer que até o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, que ganhara o prêmio Nobel em 2007 com o filme “Verdades inconvenientes”, também tinha sido um alarmista.

— Teremos o aquecimento global. Mas ele foi adiado – declarou Lovelock.

Outro que lançou um livro muito comentado foi o geógrafo norteamericano  Jared Diamond. Autor de “O Colapso”, com 690 páginas, ele falou também sobre o meio ambiente em seu livro, mas atacou ainda os hábitos insustentáveis, como consumismo e excessos no setor financeiro.  Um dos capítulos de “O Colapso” lembra a extinção da civilização que morava na Ilha de Páscoa, onde hoje ninguém mora e onde há, espalhadas  tanto no interior quanto no exterior de uma cratera vulcânica, 397 estátuas de pedra, a maioria com 4,5 a 6 metros de altura e pesando de 10 a 270 toneladas.  Num rigoroso exame do que pode ter acontecido, Diamond conclui, com base em estudos e depoimentos, que os habitantes da Ilha de Páscoa consumiram mais do que aquilo que a terra podia dar (algo semelhante ao que estaríamos vivendo hoje).  As árvores foram cortadas para fazer as rodas e cordas para transportarem as grandes estátuas de pedra ou canoas para a pesca.  Os peixes e moluscos eram consumidos sem respeitar o ciclo de vida. A população morreu de fome, houve até canibalismo.

‘Os chefes e sacerdotes de Páscoa justificavam seu status de elite alegando relacionamento com os deuses e prometendo trazer prosperidade e colheitas abundantes”.

Diamond descreveu também o colapso de outras civilizações, como a dos Maia. E faz, é claro, algum link com a nossa sociedade: “A comunidade mundial está atualmente em um curso de não-sustentabilidade e qualquer um dos problemas de não-sustentabilidade seria suficiente para limitar nosso estilo de vida nas próximas décadas”, alerta ele.

Diferentemente de Lovelock, Diamond não considerou a si próprio um alarmista.  Ele ratifica sua preocupação com a sociedade e acaba de lançar um novo livro – “The World Until Yesterday – What Can We Learn from Traditional Societies?” , que ainda não chegou ao Brasil – onde mostra que a civilização atual ainda pode aprender com o comportamento das sociedades tradicionais. O novo livro de Diamond tem 499 páginas e está disponível no Amazon.com.

Segundo uma reportagem da revista “The Economist”, Diamond  passou um tempo morando em Papua Nova Guiné (conjunto de ilhas da Oceania) e aprendeu muito com as tribos locais.  Ele aponta, por exemplo, no livro, que as sociedades tradicionais  sempre mantiveram uma religião como forma de sossegar os angustiados. E diz que na Papua Guiné o Estado só entra como mediador em caso de conflito entre tribos.

A era paleolítica, afirma Diamond em seu novo livro, poderia  também ser o exemplo de boa alimentação, já que suas sociedades não têm nem traços estatísticos das doenças  modernas como câncer, diabetes, ataques cardíacos. Possivelmente por conta de comidas com baixo teor de sódio.

Outro ponto que chamou a atenção de Diamond e que ele relata em seu livro é a educação das crianças:

“Criar os filhos era um assunto comum em que os idosos estavam  profundamente envolvidos, ao contrário do que acontece na maioria dos países ocidentais”.

Segundo a reportagem da revista britânica, Diamond não vende a ideia de que todos deveríamos voltar a viver como os antigos, até porque, obviamente, ele vê muito mais benefícios na atualidade.  “O livro de Diamond é, principalmente, uma pesquisa fascinante sobre um mundo que já se extinguiu”.

Levando em conta que em “O Colapso”, Diamond diagnosticou um padrão de catástrofe do mundo atual, é possível, sim, que ele esteja querendo mandar um recado sobre a possibilidade de um exemplo a ser seguido para quem acredita que é preciso mudar o modelo de civilização em que vivemos. Voltar ao que já fomos antes de conseguirmos, sobretudo, a cura para tantas doenças, não é razoável. Mas estudar essa genealogia é importante, sim, para tentarmos entender uma estrutura tão fissurada como a que temos hoje.

O filósofo francês Gilles Deleuze, no volume 5 do livro “Mil platôs”, recorre às eras neolítica e paleolítica para  estudar a formação do Estado atual. Bem, mas isso já é assunto para outro post.

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Remoções, o problema da modernidade

Emília Mendes é viúva e tinha 84 anos quando estive em sua casa, em Porto Velho (capital de Rondônia), no fim de 2011. Só dorme em rede, só anda descalça, fala baixinho  mas escuta e entende muito bem tudo o que a cerca. Por isso mesmo, não gostou nada quando recebeu a visita de uma equipe da Usina Santo Antônio  – uma das quatro maiores hidrelétricas do Brasil, com 2.218 MW de energia assegurada – que foi ali para avisá-la sobre uma grande mudança na sua vida.  Emilia –  assim como outros 1.735 moradores da região – teria que sair de sua casa para dar lugar ao empreendimento, um dos que dá ao Brasil destaque tanto no plano nacional quanto internacional.

Acontece que Emilia morava ali desde que nasceu. E tinha uma rotina, sabe-se lá desde quando, de acordar todos os dias à mesma hora, antes mesmo do dia clarear, fazer seu café e recostar-se no umbral da porta da frente para observar  a árvore plantada em seu quintal.  Nas duas casas ao lado moravam seus filhos, o que também lhe dava segurança e tranquilidade. Assim, quando os técnicos treinados em recursos humanos  disseram-lhe, de um jeito bem explicadinho,  que ela podia escolher entre receber um dinheiro de indenização ou ir morar numa vila de casas novinhas não muito longe dali, ela ouviu com atenção e depois de algum tempo disse, com voz baixa mas nem um pouco hesitante:

— Daqui eu só saio morta.

Quem há de tirar a razão de Dona Emília? Em que livro está escrito, qual a lei criada pelos homens que regula o direito de uma pessoa morar para sempre num só lugar? O progresso, e só o progresso, tem dessas coisas. Perverso por um lado, necessário por outro. E, se em mãos e governos que não respeitam os outros, vai servir como mote de injustiças sem fim. Não foi o caso. Dona Emília foi ouvida, teve direito a réplica e tréplica. E quando os homens e mulheres da Santo Antônio Energia viram que não teria jeito, arrumaram um: deslocaram a casa dela alguns metros, o necessário para tirá-la da área de risco. A árvore continuaria ali, a rede onde se deitava, o umbral seria outro, de madeira mais nova. Mas Dona Emilia exigiu: queria a madeira velha de sua casa velha no jardim. Assim foi feito.

Fui encontrá-la numa tarde quente, quando fiz a reportagem sobre os reassentados da Santo Antônio. Perguntei se ela estava feliz e a resposta veio clara:

— Estou não, minha filha. Mas, que jeito?

Pois é, que jeito? No livro “Cidade Febril” (Ed. Companhia das Letras, de 1996), o autor Sidney Chalhoub conta a triste história do fim de um dos cortiços mais famosos do Rio de Janeiro, o Cabeça de Porco. Foi em 1893 e os moradores – os dados variam, entre 400 e duas mil pessoas – tinham recebido apenas três dias antes o aviso de que teriam que sair dali. Houve resistência, emprego de força armada e, no final, o prefeito Barata Ribeiro parece que concedeu aos ex-moradores a possibilidade de levarem consigo as madeiras que lhes restaram. Foi assim, garantem os historiadores, que nasceu o primeiro morro, ali atrás, para onde os sem-teto correram a construir barracos com as madeiras.

Barata Ribeiro, segundo Chalhoub, acobertado pelo poderoso Floriano Peixoto, teria – ah, quem garante? – o desejo de fazer uma limpa naquela parte da  cidade que havia sido habitada por moradores pobres, muitos ex-escravos, pessoas consideradas perigosas para o resto da sociedade não só por seus hábitos barulhentos e desordeiros como porque “passaram a representar perigo de contágio no sentido literal mesmo… porque as habitações coletivas seriam focos de irradiação de epidemias, além de, naturalmente, terrenos férteis para a propagação de vícios de todos os tipos”.

O único link possível entre os moradores de Porto Velho e esses, dos cortiços, é claro que é o fato de estarem no caminho do progresso. Felizmente hoje temos  a Declaração dos Direitos Humanos  (texto escrito a muitas mãos depois da II Guerra) que nos afasta de atitudes  tão radicais quanto a do prefeito Barata Ribeiro. E vivemos também numa sociedade mais sensível, que não permitiria nunca fazer escárnio com a desgraça dos desabrigados quanto, na época, foi feito pela imprensa local. No livro de Chalhoub há a reprodução de uns versinhos publicados no jornal “Gazeta”, exaltando a atitude do prefeito,  que são de revoltar o estômago. Vou poupar os leitores…

Há outro ponto de convergência, lá como cá, que não é a maneira como as pessoas são excluídas. O que se repete é a exclusão. Em nome de quê? Depende do momento.

Em agosto do ano passado tive a chance de fazer um tour pelo Morro da Providência em companhia de pessoas muito especiais. Eram acadêmicos, do Núcleo de Favela e Cidadania da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que todos os anos fazem um colóquio internacional. O tema do ano passado, que acabo de saber que vai virar um livro e que terá na contracapa uma parte da coluna que escrevi sobre a visita ao Morro, foi Remoções Urbanas. Como se sabe, a Providência está no meio do caminho do Morar Carioca, obras que o Prefeito Eduardo Paes está fazendo no local e que incluem, segundo a Prefeitura,  “um teleférico, um plano inclinado, alargamento e pavimentação de ruas, urbanização da Praça Américo Brum.”

Ebenezer de Souza e Márcia Regina, ambos moradores do local há mais de 50 anos, ciceronearam o grupo que subiu por becos, vielas, ruas largas e apertadas, para conhecer in loco o que as obras estão causando na vida das pessoas. A previsão é de remover mais de 800 casas que são marcadas com  a inscrição SMH (Secretaria Municipal de Habitação) e um número.

— O que essa sigla quer dizer é Saia do Morro Hoje – dizia, irritada, Márcia Regina.

Foi formado um grupo de resistência às remoções. E, obviamente, nem todo mundo é contra. Há quem prefira sair dali, ir para uma casa mais nova, mesmo longe do local onde morou a vida inteira. Mas muitos, legitimamente, gostariam de permanecer em suas casas. Como Dona Emilia, como os moradores do Cabeça de Porco, como tantos outros que tiveram que ceder seu espaço. De novo: em nome de quê?  Insisto nesse ponto porque é aqui que vejo uma grande chance de reflexão sobre um novo modelo de civilização que, para alguns, pode ser chamado de sustentável.

Prefeito do Rio no início do século passado, Pereira Passos não mediu consequências  para transformar uma cidade que ele e a sociedade da época reconheciam como insalubre  e exposta a toda sorte de doenças e epidemias. Saiu marretando tudo o que via pela frente, expulsando muita gente do caminho. Em grande parte, foi o responsável, dizem os especialistas, pelo surgimento dos morros, já que não é possível imaginar que pessoas se deterioram de uma hora para outra. Elas precisam morar. E, quando são excluídas da paisagem, fatalmente vão criar derivas, buscar uma forma de continuar sobrevivendo,  mesmo à margem.

No caso do Morro da Providência, a solução encontrada pela Prefeitura foi construir uns apartamentos à beira da ferrovia para abrigar os desabrigados. Problema número um: a decisão foi tomada de maneira vertical, de cima para baixo, a população não se sentiu ouvida. Problema número dois: o lugar dessas novas construções é mesmo muito pouco agradável, principalmente levando em conta que o Morro da Providência, depois da pacificação, ficou bom de se morar, com uma paisagem de dar inveja. Sair dali para viver com barulho de trem nos ouvidos é uma decisão difícil.

É claro que todo mundo quer a cidade mais bonita. Mas, será que não dá para começar, por exemplo, deixando-a mais limpa?  Cadê a coleta seletiva, o transporte mais eficiente? Como deixar ruas alagáveis a qualquer gota de chuva? Onde estão as árvores, que a cada dia que passa são mais cortadas, também excluídas da paisagem? A iluminação das ruas pode ser melhor, inclusive nas ruas da Zona Norte.  E as praças? Já repararam como estão cada vez mais cimentadas? São decisões administrativas  que exigem cuidado, dinheiro, e dão pouca visibilidade, que pena…

Remover pessoas de suas casas, de sua cultura, é o nó que o progresso nos deixa. E sempre cai para o lado dos mais pobres, já repararam? São eles que estão sempre no meio do caminho da estrada, da hidrelétrica, do teleférico…  Empresas que  têm que desmatar  e minerar para garantir seus investimentos, sabem disso. Nem sempre acertam, às vezes erram muito. Nos últimos tempos, pela demanda social mais intensa, pelo fortalecimento dos movimentos sociais, têm que prestar mais contas.  Mas parece que os governantes  se intimidam pouco com isso quando o resultado será entrar para a história como prefeito de grandes obras.

 

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Brasil: de necessitado a fornecedor

Houve uma época, não muito distante de hoje… em que o Brasil era um país que encabeçava a lista dos que precisavam muito da ajuda internacional. A mudança de perfil foi aos poucos, e nós fomos dando conta não só pelos índices econômicos como pelas opiniões dos especialistas. No fim do ano passado, porém, tive essa constatação de um jeito mais próximo, quando entrevistei o diretor executivo da ONG Médicos Sem Fronteira,  Tyler Fainstat. A conversa – que durou quase duas horas – aconteceu num simpático sobrado da Rua do Catete, recém reformado pela ONG para instalar ali sua sede brasileira. Com uma campanha envolvente, que até o fim de ano estava sendo veiculado por canais a cabo, a Médicos sem Fronteira espera superar a já vitoriosa marca de 82 mil doadores no país. Tyler, que é economista, conta que antes de começarem a captar dinheiro aqui foi feita uma pesquisa cujo resultado foi bem claro: os brasileiros estavam, sim, dispostos a fazer doações.  ‘ É óbvio que existe algo muito novo no seu país’ , revelou o canadense durante a entrevista que reproduzo abaixo.

tyler

Há quanto tempo vocês estão aqui no Brasil? Desde quando começou a perceber que há algo novo no nosso perfil?

Tyler Fainstat – A MSF está no Brasil há mais de 20 anos, mas de uns cinco anos para cá deixamos de fazer prioritariamente projetos e passamos a fazer campanha de captação de recursos também. O Brasil passou de um país que só recebia assistência internacional para um país que dá e manda assistência para outros países. Se vocês antigamente só recebiam ajuda, agora também ajudam para causas internacionais além, é claro, de continuarem recebendo. Acho interessante porque acompanha também a tendência da imagem do Brasil no exterior e dos próprios brasileiros, de olharem também para fora do país e cada vez mais buscarem conhecer outros lugares. Nossos resultados estão comprovando isso: já temos 82 mil doadores brasileiros.

A maioria é de pequenos doadores?

Tyler Fainstat – Tem uma mistura, mas a maioria dos nossos doares são pessoas que doam espontaneamente ou mensalmente, mesmo que não seja um valor muito grande. Mas esse dinheiro que vem todo mês é absolutamente essencial para nossas operações. A grande maioria de nosso dinheiro vem de pessoas físicas, estamos começando a desenvolver captação junto a empresas mas a maioria delas está focada aqui no Brasil e quando captamos recursos é para qualquer país do mundo.

Em que outros países vocês estão?

Tyler Fainstat – Estamos em mais de 60 países, a maioria na África, mas também na Ásia, na Europa, na América Latina. Também temos 20 escritórios como esse aqui no Brasil que fazem captação tanto de recursos financeiros como de recursos humanos. Aqui no Brasil temos uma fonte de competência, de conhecimento médico, que para nós é muito importante. Tem institutos como a Fiocruz que são incríveis, de alto nível médico.

Como vocês atuam aqui no Brasil?

Tyler Fainstat – Nós não temos projetos de longo prazo aqui, fazemos intervenções curtas em resposta a emergências, como foi em janeiro de 2011 na Região Serrana e em Alagoas. Mas, veja bem: é importante frisar que nosso papel não é o de substituir o estado na hora do desastre.

Qualquer pessoa pode acionar os Médicos Sem Fronteira?

Tyler Fainstat –  Há vezes em que somos acionados pela população, sim, mas na verdade, na maioria das vezes, já estamos presentes normalmente em desastres, conflitos, epidemias, porque somos a maior organização médico humanitária do mundo. Temos mais de 34 mil funcionários em nível mundial e a grande maioria não são médicos, tem o pessoal do apoio, de logística, de transporte, de fornecimento, de enfermeiras. Quando houve o terremoto no Haiti, por exemplo, já havia equipes do MSF lá e começamos a agir imediatamente.

Aqui na Região Serrana, como aconteceu? Vocês foram chamados ou já estavam lá?

Tyler Fainstat – Já estávamos lá. Vou lhe contar como acontece o processo: temos equipes de emergência que são de resposta rápida, prontas para agir em qualquer canto do mundo, sempre com a mala na mão e prontas para embarcarem. Eles fazem a primeira avaliação, sobre quais são as necessidades mais urgentes e nós podemos mandar em 48 horas os nossos kits.  Nós temos grandes armazéns na Europa, no Panamá onde há tudo o que é preciso, organizado em kits. O kit é um conjunto de material necessário para qualquer tipo de intervenção, por exemplo, temos o kit terremoto, o kit enchentes, o kit ebola, o kit cirurgia.

Vocês têm acesso livre a qualquer aeroporto? Como conseguem rapidez?

Tyler Fainstat – Temos acordos com empresas de aviação, aeronaves especiais. É verdade que cada contexto precisa de um determinado tipo de negociação.

Todos os governos aceitam vocês sem problemas? E quando há guerra?

Tyler Fainstat – Nosso acesso é baseado nos princípios de neutralidade, imparcialidade, independência. Nosso maior argumento é que nosso dinheiro não vem de governos, é um dinheiro independente (por isso é importante ter essa base grande de doadores). Seria impossível acessar Afeganistão com dinheiro dos Estados Unidos, por exemplo. É esta a primeira pergunta que grupos em guerra nos fazem.  Além do mais, não temos mandato político para apoiar um lado ou outro lado, estamos ali para prestar atendimento médico.

Qual a diferença entre vocês e a Cruz Vermelha?

Tyler Fainstat – Existe a Cruz Vermelha nacional, que trabalha mais em resposta a emergências. E tem a Convenção Cruz Vermelha Internacional, cujo mandato legal vem de Genebra, além da Comissão Cruz Vermelha Internacional Direito Humanitária que tem o mandato de monitorar se as leis internacionais estão sendo respeitadas.

O MSF tem uma aura romântica, não tem? Quando aparece em filmes ou minisséries, são sempre pessoas que vão para o outro lado do mundo como heróis para salvar vidas. É esse o perfil dos médicos?

Tyler Fainstat – Não! Foi muito bom você me perguntar sobre isso porque estamos mesmo tomando cuidado com as pessoas que têm essa percepção romântica. Muitas vezes nós fazemos um processo de seleção que é bastante rigoroso e queremos passar qual a realidade do trabalho. Porque, na verdade, sim, conseguimos salvar vidas, reduzir as taxas de mortalidade, reduzir o sofrimento, mas tudo isso é feito em condições muito difíceis, não só de alojamento como também de segurança. Muitas vezes temos muitas dificuldades de acessar as populações que precisam de nossa ajuda. É um trabalho que pode ser frustrante também, desgastante. Não queremos assustar as pessoas, mas também não queremos que alguém chegue em campo com uma visão completamente diferente do que é.

Vocês contratam? Ou são voluntários?

Tyler Fainstat – O MSF não é um conjunto de voluntários, queremos ter o espírito de voluntariado mas as pessoas são pagas, têm todos os benefícios trabalhistas. Não queremos que essa ajuda de custo seja o atrativo para a pessoa trabalhar conosco, mas também não queremos que alguém não possa trabalhar para a organização por questões financeiras.

Como a ONG começou?

Tyler Fainstat – O MSF foi criado na França, por um grupo de jovens médicos e jornalistas franceses que estavam trabalhando para a Cruz Vermelha. Eles romperam para criar essa organização com missão dupla: prestar atendimento médico e tornar pública a realidade que testemunhamos em nosso trabalho. Porque nós acreditamos que o trabalho humanitário também gera uma obrigação de sensibilizar o mundo sobre a realidade que está a nossa volta. Na época, em 1971, eles estavam trabalhando em Biafra e achavam que a Cruz Vermelha, por ter uma mobilização muito política, não lhes permitia falar abertamente sobre aquilo que viam.

O site da ONG é o msf.org.br

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O vídeo do vagão superlotado e um pensamento sobre trabalhadores

Era um dia de semana comum no meio do mês de maio do ano passado. Estávamos criando  uma edição especial do Razão Social, com o foco em pessoas, quando decidi fazer aquilo que mais sei e gosto de fazer na vida profissional: apurar, conversar com pessoas. Meu mote seria a vida dos trabalhadores numa cidade grande como o Rio de Janeiro.  Queria mostrar que a vida dessas pessoas, seja no escritório ou nas ruas, muitas vezes é dura, muito dura. Comparar com os trabalhadores escravos da região rural, aqueles que ficam trancados numa fazenda trabalhando de sol a sol para não ganhar um tostão no fim do mês é demais, claro. Por outro lado, como denominar  uma jornada que começa duas, três horas antes do horário em que se bate o cartão e só vai terminar duas ou três horas depois, sem deixar um tempo mínimo para a pessoa fazer outra coisa na vida que não seja trabalhar?

Lembrei-me desse dia, da conversa que tive com essas pessoas, porque a maior queixa da maioria delas era com relação à precariedade do transporte público para poderem se locomover. E ontem circulou pelas redes sociais um vídeo absolutamente assustador,  mostrando como as pessoas penavam para entrar num dos carros do Metrô aqui no Rio, na Estação Presidente Vargas, às 18h30m.  O vídeo é assustador porque nos põe frente a frente com uma realidade cruel. Mas essa realidade cruel faz parte da rotina de milhares de trabalhadores, não só no Rio como em outras cidades grandes. A empresa Metrô Rio veio a público se justificar, disse que tinha havido um incidente e por isso o vagão estava tão cheio. Mas o resultado da minha apuração, naquele Razão Social especial, além de alguma experiência pessoal em momentos em que precisei pegar Metrô na hora do rush, provam que a superlotação dos carros nesse momento crucial para o ir e vir dos trabalhadores é rotina, não é nenhuma grande novidade. A diferença é que, daquela vez, tinha uma câmera para registrar.

Vânia Nascimento, secretária do Instituto Anthropos, em Botafogo, mora em São João de Meriti e foi uma de nossas personagens no Razão Social que foi para as bancas no dia 22 de maio do ano passado. Ela tinha acabado de conseguir que seus patrões mudassem seu horário de trabalho porque andava muito desanimada com o fato de ficar duas horas e meia a três dentro de um ônibus para ir e voltar de seu trabalho:

—- Tinha a opção do Metrô, mas uma vez eu cheguei a ter uma crise nervosa, tamanho o sufoco dentro daqueles carros cheios — disse ela.

Kelly Jesus Soares, trocadora de ônibus, mora em Campo Grande, pega no batente às 5h e, para isso, tem que sair de casa às 2h30m.  O gari Leandro Ferreira mora em Vila da Penha e, como tem que chegar às 6h no Largo do Machado, acorda às 4h30m. Celio Elias, padeiro, sai de casa às 6h30m para conseguir chegar em Laranjeiras às 8h. Todo mundo tem, no máximo, uma hora de almoço, com exceção de Kelly, que precisa comer um sanduíche rápido na frente dos passageiros porque trocador e motorista não têm hora de almoço.

Tempo para cuidar do corpo, ler, estudar, é coisa de quem tem mais sorte, por exemplo aqueles que trabalham em escritórios no Centro da cidade e só precisam tomar um ônibus. Que vai e vem cheio, sem dúvida. Mas, ao menos, é um só. Nos comentários postados sobre o vídeo no Metrô (veja abaixo) há quem se exaspere com a passividade das pessoas em se deixar serem empurradas e amassadas daquele jeito. Para mim, é óbvio que aquilo é mesmo desespero de saber que se não pegar aquele trem vai demorar muito mais para chegar em casa e diminuir muito mais o tempo de sono antes de acordar no dia seguinte e começar tudo de novo.

Meu interesse pela sustentabilidade, que entendo como um movimento que pretende pôr em discussão um novo modelo de civilização, é justamente a possibilidade de não ficar na queixa, na denúncia. Está cada vez mais difícil viver em grandes cidades, e isso é fato. Mas é fato também que, segundo dados da ONU divulgados ano passado, cresce assustadoramente o número de pessoas que buscam os grandes centros para viver. Assim, se não há como escapar dessa superpopulação, é importante tentar pensar em criar soluções. Lembrando sempre que há cidades grandes – Paris, por que não?- em que se vive melhor. Em que os investimentos são voltados para melhorar a vida das pessoas, não só em trazer eventos internacionais para engordar os cofres.

Para isso, os moradores precisam saber cobrar de seus prefeitos. No último Encontros O Globo/Revista Amanhã do ano passado, que mediei, discutiu-se exatamente isso. Convidado para mostrar seu trabalho à frente do movimento Nossa São Paulo, o empresário Oded Grajew chamou a atenção da plateia para o fato de que pouca gente sabe que desde 2009 a Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro obriga os governantes a elaborarem um Plano Estratégico com metas e, semestralmente, apresentar um balanço das propostas cumpridas. O prefeito Eduardo Paes tem até o fim deste mês para publicar o balanço de seu primeiro mandato. Alguém aí sabia disso?

O vídeo do Metrô pode suscitar ainda um outro debate. Empresas que se põem na esteira da sustentabilidade, ou mesmo da responsabilidade social corporativa, precisam cuidar para que seus funcionários tenham uma vida melhor. Portanto, poderia vir delas o protagonismo de uma mudança de horários em seus escritórios para evitar o gargalo de hora de chegada e hora de saída. Como se vê nos casos dos nossos entrevistados, que saem de madrugada de casa e ainda assim levam muito tempo no trânsito, isso pode ser que não dê em nada. Mas não custaria tentar.

Por último, e para não perdermos o bom costume de tentar, pelo menos quase sempre, trazer referências teóricas à nossa prática, vale uma visita à obra de Hannah Arendt, que em “A condição humana” faz uma análise preciosa sobre o mundo no qual estamos inseridos, de que maneira somos impactados por essa ou aquela situação e sobre o que são as atividades humanas e como se diferenciam. Numa conferência que deu certa vez, sobre o conceito do homem como trabalhador, a pensadora prevê a vitória do “animal laborans” na era moderna, que se manifesta, por exemplo, ‘na transformação da obra em trabalho e dos objetos de uso em objetos de consumo”.

Arendt faz um minucioso estudo sobre o trabalho na condição humana que hoje, nas grandes cidades e sob as condições em que vivemos, mereceria outro tanto de observação e detalhamento, embora o pensamento dela – escrito em meados dos anos 50 –  esteja ainda vivo e atual.  Ela se preocupa com a perda de identidade do indivíduo que é obrigado a seguir horários e a trabalhar e viver em conjunto com os outros o tempo todo.  Para ela, “é inteiramente correto afirmar que, para o animal laborans, o sentido e o valor do trabalho dependem inteiramente das condições sociais”. Mas as condições sociais para o trabalho ‘são aquelas nas quais o indivíduo pode perder a sua identidade”.

O exercício é tentar criar uma deriva para o pensamento de Arendt, preocupando-se e tentando salvar algo próximo à singularidade de cada um,  tendo como pano de fundo a rotina já descrita (e observada pelas câmeras) do cotidiano dos trabalhadores de nosso cotidiano.  Está lançado o desafio.

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A cisma com o conceito de sustentabilidade

Acabo de ler no site Ideia Sustentável uma ótima entrevista com Domenico di Masi, o filósofo italiano, onde ele extravasa sua cisma com o conceito de sustentabilidade. Vejam só:

Domenico-de-Masi-reprodução

Sustentabilidade é traduzida de modo errado para o português. Desenvolvimento sustentável, literalmente, significa um desenvolvimento duradouro, que possa ser prolongado. Como se pode ter desenvolvimento sustentável numa cidade de 18 milhões de pessoas que poluem? Na avenida Paulista, sobretudo, estão os bancos. Para fazer uma economia criativa e sustentável é necessário que os bancos não roubem! Isso já é economia sustentável. Neste momento, o mundo está numa crise horrível, criada pelos bancos. As grandes instituições financeiras não são vítimas; representam uma carnificina. Há um ditado que diz: “Não se pode curar um dedo se todo o corpo está doente”.

O que podemos fazer, então, é criar um modelo positivo de desenvolvimento sustentável para ser demonstrado, por exemplo, na avenida Paulista, uma avenida-star, símbolo, como é Veneza, na Itália, ou a 5° Avenida de Nova Iorque. Nesse sentido, seria importante se conseguíssemos propor um modelo de desenvolvimento duradouro. Mas, hoje, green economyna Paulista é contrassenso, não funciona. Tem de ser feita na Amazônia! Se esse novo modelo urbano compreender a energia solar, por exemplo, aí sim! Porém, eu não chamaria isso de green economy, ou sustentabilidade, mas de uma economia baseada na produção autônoma de energia.”

Vale a pena ler na íntegra: http://www.ideiasustentavel.com.br/2013/01/replicas-domenico-de-masi/

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