As empresas e os direitos humanos. Sempre uma questão

A  proposta do Centro de Direitos Humanos e Empresas, do Conselho Estadual de Direitos Humanos, foi passar um dia inteiro discutindo essa difícil relação que está no título de suas organizações. Se estivéssemos na China, possivelmente o regime de trabalho, muitas vezes análogo à escravidão, seria o tema prioritário par abrir o debate. Mas na quarta-feira da semana passada, no salão aclimatado da Caixa de Assistência dos Advogados do Rio de Janeiro, onde o encontro estava acontecendo, a discussão girou em torno de um desafio que nós brasileiros conhecemos muito bem: onde começa e acaba o direito de empresas explorarem territórios e mexerem com a vida de quem os habita em nome do crescimento?  É um problema antigo, que quanto mais se mexe, mais parece insolúvel.  É, ao mesmo tempo, necessário mexer-se nele para que se consiga, mesmo imperceptivelmente, ir chegando perto da solução. Veja o post que escrevi em janeiro a respeito: https://ameliagonzalez848.com/2013/01/16/remocoes-o-problema-da-modernidade/.

A plateia era formada por representantes de ONGs de comunidades que estão sob ameaça de terem que ser remanejadas por conta de investimentos. E, para ajudar a fazer a interface entre o discurso acadêmico e a demanda das organizações, foi convidado o professor Sheldon Leader, que coordena o projeto de Recursos Humanos  da Universidade de Essex.

Antes de mais nada, lembrou o professor, é preciso dar conta de que estamos vivendo um momento crucial porque há “um consenso emergente da comunidade empresarial de que os direitos humanos são parte crucial da agenda delas”.

—- Observar os direitos humanos, atualmente, é uma atitude imprescindível para se fazer qualquer investimento. Muitos bancos já exigem isso para dar empréstimos às empresas.  Só não sabemos como eles farão parte da tomada de decisões. Portanto, é hora de os advogados entrarem nas mesas de negociações, e para isso é importante a parceria com as universidades – disse Sheldon Leader.

Transparência. Novamente, essa palavrinha mágica aparece como a grande solução da maioria dos problemas. Sim, porque não são transparentes os processos dos grandes investimentos antes de se chegar ao ponto crucial, de ressarcimento dos danos causados pelo empreendimento.

— A primeira tarefa é evitar o dano, não deveríamos deixar chegar ao ponto em que a empresa tenha que dizer: ok, nós vamos reembolsá-los do problema que causamos — disse ele.

Para isso, no entanto, seria necessário que a população tivesse conhecimento do processo, desde o início.

— A avaliação do impacto de qualquer empreendimento começa muito antes, mas essas informações geralmente são tratadas com confidencialidade pelas empresas. Mas isso não deveria ser assim porque as comunidades não poderiam ser surpreendidas . Essas informações deveriam ser públicas, são tratadas como privadas — disse Leader.

De novo, parece que estamos tratando apenas do óbvio. E do recorrente descaso do mundo do capital, do mundo dos negócios, para o impacto que seus empreendimentos causam não só ao meio ambiente como à vida das pessoas. O professor deu testemunho de um case de sucesso no Senegal, a Teranga Gold Corporation, companhia canadense que está explorando ouro no local. Segundo ele, a exploração está sendo feita de forma consciente, com respeito às pessoas. Tanto que já existe um plano para a saída da empresa do local, daqui a cerca de 30 anos, no sentido de não deixar a população desamparada.

—- Estabeleceu-se uma rede de diálogo logo no início do projeto e a população pôde dizer o que tinha em mente para pavimentar o caminho da negociação — disse ele.

Coisa de causar inveja para quem  está aqui no olho do furacão, formando comitês, mutirões, campanhas, exigindo reflorestamento, ressarcimento, respeito.  Logo depois da palestra, quando começaram as perguntas, houve um momento de tomada de consciência por parte dos representantes de ONGs:  as comunidades, em geral, se reúnem tarde demais, quando o dano já foi causado. Talvez  falte informações, talvez fale coalizão, o certo é que, nessa batalha, está claro o lado mais fraco, na opinião da maioria das organizações:

—- Existe um tratado que cria um cenário livre para qualquer tipo de investimento hoje, e este tratado é a nível mundial. Chamamos a isso de arquitetura da impunidade.  As leis são mudadas para beneficarem as empresas e o que se vê é que os direitos humanos entram como mercadoria para que as empresas possam se vender melhor. O maior desafio de nossa civilização é democratizer o poder econômico, mas como fazer isso? — perguntou-se o representante do Instituto Mais Democracia.

O fato de as empresas laçarem as próprias ONGs, oferecendo a elas dinheiro para que possam traçar projetos de compensação é visto por eles como um risco.

— Como o estado está ausente, as empresas vão lá e fazem projetos que a sociedade civil tem que tocar. Aí danou-se.

A questão é que nem sempre é fácil juntar setor privado e ONGs por conta de preconceitos de ambos os lados. Para os empresários, há uma desmedida falta de senso de emergência entre as organizações,  entre outras coisas. Já as ONGs julgam estar lidando, sempre, com pessoas que põem o capital acima de qualquer coisa.

De qualquer maneira, aqui também no Brasil já temos nossos cases de sucesso. Ou, pelo menos, de quase sucesso. No livro “Conversas com líderes sustentáveis” (Ed. Senac), o jornalista Ricardo Voltolini entrevistou, entre outros, Franklin Feder, CEO da Alcoa, que tem uma mina de bauxita em Juruti, interior do Pará. Feder disse que queria apostar num modelo de produção “socioambientalmente mais responsável”:

— O primeiro passo foi envolver a comunidade local no projeto, tornando-a corresponsável por ele. Como medida inicial, criou-se um conselho de representantes da sociedade civil, governo e empresas locais com o objetivo de definir prioridades de investimento para a região. Em seguida, convidou-se a Fundação Getúlio Vargas para ouvir a comujnidade e elencar os indicadores socioambientais que serviram de norte ao modelo de desenvolvimento proposto – disse ele.

De fato, o empreendimento Juruti chamou a atenção,  até mesmo quando a Alcoa decidiu financiar a Escola Juruti Sustentável, organizada pelo Instituto Peabiru, uma das organizações mais expressivas da região, que sempre deixou claras suas posições contra o extrativismo irresponsável de várias empresas. Naquela parceria, empresa e ONG estavam, não selando um acordo de coalizão eterna, mas de ajuda. E até onde se pode saber, a comunidade ganhou com isso. Qual a receita? É o caso de buscar informações com cada um dos envolvidos para saber.

A visão do professor Leader leva em conta o trabalho dos advogados nessa difícil relação. Quer seja mediando encontros depois do dano instalado, quer seja tentando antecipar os danos. De qualquer maneira, a ideia é realmente aproveitar este momento, em que os direitos humanos andam em voga no setor empresarial, para tentar conseguir que a teoria se transforme em prática.

 

 

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Um eterno contador de histórias

valdir ciminoNo meio do caminho dele tinha um hospital.  Não só em Nova York, onde fez um estágio nos anos 90 na área de comunicação, como em São Paulo, para onde foi logo depois,  também trabalhar com o tema na Rede Globo de Televisão.  E Valdir Cimino, a quem vamos encontrar tantos anos depois como coordenador da Oscip Viva e deixe Viver, aproveitou bem esta coincidência. Entrou, fez contato. Primeiro, com os idosos do Saint Vicent. Depois, com as crianças do Emilio Ribas. Sempre contando histórias.  Mesmo sem ter isso muito claro no início, na verdade Valdir Cimino estava buscando humanizar a relação hospitais/médicos com seus pacientes. Foi desse sentimento que nasceu a vontade de criar a Oscip, de se aliar a parceiros, de buscar ajuda na Lei Rouanet e de convocar voluntários para seguir com ele seu trabalho – hoje são 1.200 voluntários pra cuidar de 65 mil famílias em 77 hospitais . Toda essa história ele conta na entrevista que segue. E, para quem pensa em fazer o trabalho como voluntário da Viva, vale uma observação importante: a Oscip capacita seus voluntários, é criteriosa na seleção. No dia 28 agora, terminam as inscrições para o Rio de Janeiro. Para saber o que fazer, é só entrar no site: vivaedeixeviver.org.br.

Amelia Gonzalez – Trabalhar com literatura num país onde o hábito de leitura ainda não é arraigado é uma tarefa árdua, não?

Valdir Cimino – É sim. Oferecer livro para uma criança brasileira pode ter certeza de que ela vai dizer não gosto, não quero. Então, o que fazemos é entrar com a brincadeira junto. O brincar entra como uma forma construtiva, isso deu certo. Por isso somos contadores de histórias.

Amelia Gonzalez – E quando foi que você começou a ser um contador de histórias?

Valdir Cimino – Foi em Nova York, onde fiz um estágio no início dos anos 90. Eu tinha muito tempo vago durante o dia e meu professor de inglês me deu uma dica: vá conversar numa associação de idosas que se juntam para isso. Uma delas me deu outra sugestão, para eu me associar ao hospital Saint Vicent. Fui lá e fiquei encantado com a seleção dos voluntários,  logo depois estava contando histórias para um deficiente visual, na casa dele. Trabalhei assim durante seis meses. De volta ao Brasil fui trabalhar na Rede Globo e no meio do meu caminho tinha o Instituto Emilio Ribas, onde também trabalhei voluntariamente como colaborador financeiro e doava brinquedos, comida. Mas aí, com o tempo, decidi entrar no hospital para conhecer as pessoas a quem eu estava ajudando e fiquei estarrecido porque percebi quanto as crianças não brincam, quanto elas gastam seu tempo em frente à TV. Então, em vez de comprar brinquedos, passei a contar histórias para eles. No início eu era um contado de histórias solitário, mas logo depois outras pessoas vieram se associar e já eram 36.

Amelia Gonzalez – Quem eram essas pessoas?

Valdir Cimino – Eram meus amigos, a gente fazia tudo de forma bem improvisada, sem capacitação.  Cada um tinha uma vontade, de querer levar as crianças dali para outro lugar. Aí, eu pensei: não nós temos é que transformar o hospital num lugar agradável para elas, porque a realidade é que elas precisam estar aqui. Aí, em 1998 nós decidimos  criar essa Oscip.

Amelia Gonzalez – E aí vieram os voluntários?

Valdir Cimino – Sim, mas eu fiz questão de dar  um treinamento antes, uma capacitação. Até para que os voluntários cuidem, eles próprios, de si. Porque não adianta nada querer ajudar os outros se você não cuida de si.

Amelia Gonzalez – Sim, isso acontece muito, né? O voluntário vai fazer caridade quando está fragmentado, precisando ele mesmo de ajuda…

Valdir Cimino – Pois é. Uma vez aconteceu isso. Uma voluntária começou a chorar muito na frente de uma criança que estava doente. Aqui me impressionou, fui averiguar e soube que ela estava ali mas tinha uma irmã com câncer, já em estágio terminal. Ou seja: a criança que estava recebendo ajuda ficou mal com a tristeza da voluntária. Conversando com uma amiga minha, ela me disse para não aceitar voluntário sem conversar antes, sem saber o que o leva a querer fazer esse trabalho.

Amelia Gonzalez – Essa é uma percepção extremamente consciente. Mas, em geral, o que move os voluntários é exatamente o escape, não é?

Valdir Cimino – A força que emana do voluntariado ainda é a religião, um fator preponderante. Há seis anos desenvolvemos uma pesquisa (que está no site) e a percepção, com as respostas, é que o voluntário do Viva se engaja cada vez mais porque percebe claramente o resultado, que é o bem estar da criança. Quer ajudar o próximo e conhecer pessoas. Nosso voluntariado doa, em média, 16 horas por mês, quatro vezes mais que a média no Brasil, segundo o Ibope. São 1.200 voluntários pra cuidar de 65 mil famílias em 77 hospitais.  O Viva tem seu projeto na Lei Rouanet com R$ 1,2 milhão, valor para cuidar de 1.200 voluntários em 77 hospitais no Brasil. essa massa de pessoas anualmente cuida de 65 mil famílias e 37 mil profissionais da saúde.

Amelia Gonzalez – Bem, esse olhar transcende realmente a visão religiosa. É um investimento, e as empresas percebem isso também…

Valdir Cimino – Vivemos num mundo capitalista e quem investe no voluntariado, mesmo as empresas, começa a ter um olhar mais de investimento sobre essa massa de pessoas porque os benefícios são incalculáveis, tanto para quem doa quanto para a empresa. Em 2001, para você ter uma ideia, éramos 23 milhões voluntários no Brasil e dez anos depois o número foi para 35 milhões . Só que na nossa pesquisa descobrimos que 50% fazem sempre e os outros fazem de vez em quando, ou seja, temos muito que crescer, que se profissionalizar nessa área.

Amelia Gonzalez – Em 2001 a ONU decretou como o Ano do Voluntariado. Isso mudou alguma coisa na vida de vocês?

Valdir Cimino – Mudou muita coisa, a Viva se tornou ponta de lança porque levantamos a bandeira da humanização da saúde, que se tornou uma política pública . O grande barato é que nós estamos influenciando outros profissionais da saúde.  Fomos procurados, por exemplo, pelo reitor da Uuniversidade do Estado da Bahia (Uneb), Lourisvaldo Valentim da Silva, e estamos fazendo, em parceria, uma disciplina de humanização da saúde para seis profissões: médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, farmacêuticos e para o curso de ciências. O próprio reitor disse que isso muda a história porque estamos levando de uma forma lúdica onde o futuro profissional de saúde pode treinar dentro do hospital e dentro da comunidade.

Amelia Gonzalez – Como é que vocês criaram essa parceria com a Uneb?

Valdir Cimino – Quando a nossa Oscip tinha dois anos de vida fui procurado por uma diretora da Secretaria do Estado da Bahia e ela disse que queria levar o Viva para a Bahia. O  primeiro hospital onde atuamos foi o Roberto Santos. Atuamos também no Hospital Geral da Bahia e, nesse último, ficávamos especialmente na sala de queimados, onde o cheiro de carne queimada é muito grande, o lugar é muito difícil. Não conseguíamos reter voluntários, e o próprio gestor do hospital sugeriu que passássemos a trazer essa necessidade de humanização já na formação do profissional de saúde. Porque quando a população reivindicou essa política de humanização, em 2003, o paciente passou a virar a grande vedete. Mas, vou lhe dizer: se o funcionário do hospital não estiver capacitado para isso, desculpa, não vai acontecer.  Foi quando  veio o apelo da Bahia, de querer humanizar até os funcionários.

Amelia Gonzalez – Muitas empresas hoje usam seus programas de voluntariado como uma espécie de selo para uma imagem de empresa sustentável. O que você acha disso?

Valdir Cimino –  Houve um tempo que as empresas não se preocupavam com isso, a questão da responsabilidade social foi um estímulo. O grande problema disso é que em qualquer crise financeira, o programa do voluntariado é a primeira coisa a ser cortada. Antigamente o corte era na área de marketing, hoje é no social.  Ou então, muda o gestor e a primeira coisa que ele faz é cortar aquele projeto.   Mas qualquer ação que você desenvolve com os funcionários versus o entorno dá resultado, é positivo.  A empresa que não der continuidade ao programa de voluntariado está dando um tiro no pé .

 

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Ariel, Sean Penn e um sonho

Não dá para deixar de compartilhar essa história. É muito legal, assiste!

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Voltei! Mas, por enquanto, só pra dizer alô!

Queridos leitores, como eu assumi um compromisso com vocês, aqui estou. Mas ainda preparo um texto bem legal sobre o Forum Social da Tunísia, que irá ao ar na segunda-feira. Quem me acompanha pelo Facebook sabe que não fui para a folia, mas perdi bastante tempo em transporte público, mais especificamente, o ônibus, nesse carnaval. Hoje pela manhã, por sinal, ouvi na rádio que o prefeito Eduardo Paes pensa em diminuir o número de blocos nas ruas no carnaval de 2014 porque viu que não dá certo. Acho que, em parte, ele está com razão. E que também é preciso que ele tenha uma certa dimensão de seus limites antes de “convidar’ tanta gente para a cidade. Diz o ditado que quem não tem quiabo não oferece caruru…

Num dos dias de carnaval fui caminhar na Estrada das Paineiras e voltei de bondinho porque lá em cima não tinha táxi. Fiquei impressionada com a expressão dos turistas que desciam de um dos monumentos mais belos do mundo ao ver a paisagem de uma das cidades mais belas do mundo. Estavam estafados, com calor, dormitando no embalo daquele bondinho que sabe ser desconfortável e quente. Não tinha como alguém ficar feliz em condições tão difíceis. Quando desceram, a primeira coisa com que fizeram contato foi uma lanchonete bem precária com duas pessoas também cheias de calor e com pouca disposição para atender. O desconforto daqueles  que não tinham van ou táxi à sua espera não terminava aí porque tiveram que ficar esperando, num ponto de ônibus com sol a pino, um ônibus que demorou muito tempo para chegar. E muitos tiveram que viajar em pé até a Zona Sul.

Quando penso que, durante a Rio+20, várias vezes ouvi que o Rio de Janeiro quer se inserir no cenário mundial como uma cidade sustentável, percebo que, para isso, será preciso muito tempo e organização. Há várias maneiras de se olhar esse descaso com os turistas no Corcovado, assim como também é possível pensar num jeito de direcionar o povo que chega via Rodoviária ou aeroportos para outros lugares que não apenas a Zona Sul. Para tudo isso é preciso ter estratégia e, com certeza, um olhar menos voltado apenas para grandes obras de infraestrutura. A “casa’ tem que ser arrumada não só para seus moradores como para receber visitas. E era só dar uma caminhada pelas ruas (ruas mesmo, não de helicóptero nem de carro blindado) depois do carnaval para ver que estava tudo muito, mas muito bagunçado.

Assim, não é só diminuir o número de pessoas nos  blocos que importa. Talvez se conseguir diversificar a brincadeira, ou os lugares da brincadeira, já dê para espalhar um pouco mais os foliões. Para isso é preciso chamar a equipe toda e caminhar pelas ruas. Ficar tecendo estratégias de dentro de um escritório distorce o problema que só vê quem está no chão.

Bem, mas deixa eu me organizar para o texto de segunda-feira. Aguardem, acho que vão gostar!

 

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Atitudes que podem ajudar… antes e depois da folia

Sei que todo mundo já deve estar fazendo as malas, ou para viajar ou para embarcar no reino de Dionísio. Este blog, portanto, pede licença para deixar as reflexões para depois do carnaval e cair  na folia. Voltaremos, portanto, dia 15, naquela sexta-feira com cara e jeito de início de ano. Antes disso, vale lembrar algumas atitudes que podem ajudar a melhorar esse mundo e deixá-lo com menos cara de quarta-feira de cinzas. Vamos lá:

No pilar ambiental – Vem da Alumar, um complexo de produção de alumínio primário e alumina, a notícia sobre uma parceria entre este complexo e o outro, a Ambev, em prol de uma produção industrial mais limpa. É que a Alumar vai reaproveitar parte (o release não especifica quanto) dos 3100 metros cúbicos de litros de efluentes tratados pela Ambev que seriam descartados diariamente pela cervejaria Equatorial no Rio Pedrinhas, no Maranhão. A água está sendo bombeada até uma lagoa de sedimentação da Alumar para ser reaproveitada nos processos da Refinaria. Dessa forma, o complexo deixa de captar água subterrânea e reaproveita o que a Ambev descartaria no rio. Em dezembro de 2012, a Alumar deixou de consumir, por dia, segundo o release, mais de 2.100m³ de litros de água, um ganho ambiental importante para a empresa.

No pilar sócio-cultural – Fiquei conhecendo no Observatório de Favelas o pessoal da ONG Norte Comum (nortecomum.com)  e achei bem interessante a proposta deles. A ideia de formar a ONG nasceu diante da evidente escassez de projetos relacionados à cultura na Zona Norte do Rio de Janeiro.  O projeto é dividido basicamente em duas frentes gerais de atuação. Uma referente à criação e manutenção da rede, e a outra focada na formação de uma produtora coletiva e horizontal. Não existem donos da rede, ela se forma por si só, segundo me explicou o Carlos Meijueiro, um dos que pôs a mão na massa para criá-la.  Gosto muito quando ouço que a proposta mestra é a construção de relações pessoais e a realização de projetos que intensifiquem tais relações. É mais ou menos assim: antigamente, quando ainda era possível, os jovens se reuniam na pracinha e discutiam tais projetos. Hoje, com o inchaço das cidades e a dificuldade de se encontrar pracinhas disponíveis, o jeito é lançar mão da web, que nesse momento mostra toda a sua força no sentido de criar redes. Uma das ações do grupo é lutar pela reabertura dos cinemas da região, o que faz todo sentido.  Levar mostras e exposições com debates de artistas, criar espaços para debates.  Ou seja: uma atitude que pode ajudar mesmo.

No pilar econômico – Li no excelente blog do professor Ladislau Dowbor (dowbor.org) que  o governo federal americano  quer criar uma super rede WiFi de livre acesso, abrangendo todo seu território. A notícia dessa proposta revolucionária está numa reportagem publicada no Washington Post pela repórter Cecilia Kang e pode ser lida na íntegra aqui http://(http://www.washingtonpost.com/business/technology/tech-telecom-giants-take-sides-as-fcc-proposes-large-public-wifi-networks/2013/02/03/eb27d3e0-698b-11e2-ada3-d86a4806d5ee_story.html).O texto diz que a medida já enfrenta resistência das operadoras de telecomunicações, como se pode bem imaginar.  O conceito de rede de livre acesso já é utilizado em muitas cidades pelo mundo, mas está avançando para escalas nacionais. O raciocínio é simples. Não pagamos para andar nas ruas, ainda que elas custem mais caro do que as infovias, onde se navega em ondas eletromagnéticas. A circulação livre da informação aumenta a produtividade de todos. O fato de podermos transitar livremente pelas ruas é que assegura que sejam economicamente viáveis a farmácia, o posto de gasolina e assim por diante. São as aplicações do conhecimento que devem render, não os pedágios sobre a sua movimentação. Bom isso, né?

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O que pode um corpo social?

espocc 2O menino entrou na birosquinha com cara de sono. Aparentava cerca de 12, 13 anos e estava sem camisa. Pediu um copo de água mineral, foi atendido na hora pela senhora que parou de buscar, para mim, o biscoito que pedira. Ele não pagou, eu estranhei. Peguei meu biscoito e fui embora. Lá fora uma música em som alto se misturava ao falatório de alguns homens que tomavam sua cerveja num outro barzinho, provavelmente porque já estavam chegando do trabalho, eram mais de 18h. Eu estava na Favela da Maré, ainda não pacificada. Voltei ao prédio do Observatório de Favelas para a segunda conversa com um grupo de jovens a convite da Escola Popular de Comunicação Crítica (Espoc) que está desenvolvendo ali um curso de Publicidade Afirmativa.

Não é a primeira vez que entro uma favela, é claro, porque a minha profissão sempre me exige estar em todos os lugares. Mas ali eu estava com uma outra proposta. Não precisava sair perguntando coisas às pessoas para escrever reportagem.  Bastava respirar e sentir o local. Foi diferente de todas as outras experiências que tive.

Vamos voltar à história do menino que pediu o copo de água e foi logo atendido. Mais tarde, conversando com algumas pessoas da Espoc, eu descobri que os viciados em crack costumam pedir  mate ou água para as pessoas porque aquele copinho de plástico é uma ferramenta para que eles possam consumir a droga. O menino de cerca de 12 anos com cara de sono e sem camisa que eu havia visto era então, salvo todos os enganos, um viciado em crack . E não era o único por ali. Com a intervenção da prefeitura em dois outros lugares onde os crackeiros se reuniam perto da Maré, eles agora ficam ali, bem próximo da entrada da favela. Um bando de pessoas que moram nas ruas e usam a droga para suportar os trancos de viver ao léu. Plásticos pretos tapam seus esconderijos, mas é a céu aberto que eles manipulam a pedra que vai levá-los, sabe-se lá por quanto tempo, a um mundo sonhado, imaginário. O mundo das TVs de plasma, dos sofás, do conforto de uma casa. Impotentes, buscam na impossibilidade, na transcendência, aquilo que não conseguem e vão machucando seus corpos, sem se dar conta de que estão acabando com a única verdadeira ferramenta que têm para estar nesse mundo. Deixaram-se envolver por promessas. Agora, quem prometeu não quer chegar perto daquele bando desgraçado que só faz enfeiar o tal mundo ideal.

Pode ser estranho, mas quando passei de carro mais tarde, já noite e chovendo, pelo grupo de pessoas em seus plásticos pretos, lembrei-me dos beduínos. Estive certa vez no deserto de Neguev, em Israel, e os vi de dentro do ônibus de turismo que nos levava a algum lugar.  Os mesmos plásticos de cor preta se sobressaíam diante daquela paisagem de areia. As condições de vida dos beduínos não é ideal, vivem também com muita privação porque, povos nômades que sempre foram, hoje estão sedentários, também são excluídos do sistema, vivem de pequenos roubos, têm dificuldades. A grande diferença entre esses dois bandos é que os beduínos não massacram seus corpos com a química que os traficantes vendem por centavos aos miseráveis que vão até eles implorar a droga.

Na favela, já se sabe. Até uma determinada hora, os craqueiros não perturbam ninguém porque estão sob o efeito da droga. Quando a pedra de crack acaba, eles passam a importunar, pedindo dinheiro, água ou mate. É melhor dar, dizem. Nunca se sabe o que pode um corpo sem controle.

Com todo esse pano de fundo, essa tristeza de vida, surge como uma flor no deserto aquele canto do Observatório. Passei ali de 14h às 20h30m, conversei com duas turmas, e saí de lá alimentada.  Os jovens têm chance de conviver com pessoas que levam até eles noções importantes de vida, profissional. E não são poucos os que abraçam esta causa com integridade. Para chegar ali não é fácil, e infelizmente poucos alunos membros da Espoc moram na Maré. Perto do ponto de ônibus ficam os craqueiros,  é preciso passar por eles. Mas, em algum momento, aquela cena vira rotina, não mete medo. O importante é estarem ali, tentarem desdobrar a página, escrever uma história diferente para suas próprias vidas. Apoderar-se de seus corpos e alimentá-los com estudo, conversa, filme, contato, muito contato.

Falei bastante nas duas aulas. Mas fui motivada pelos olhares curiosos, atentos, que acompanhavam meus movimentos, não me deixavam pensando sozinha. Senti ressonância. Citei livros, documentários, e eles anotaram tudo.  Vão dar um jeito, fazer um ratatá, para tentar comprar em grupo, ler em grupo, assistir em grupo. É possível.

A Petrobras ajuda o Observatório, e parece que outras entidades estão entrando agora no rateio. É preciso mesmo, mais e mais. Que venham as empresas mostrarem assim a sua responsabilidade social. Que as empresas ajudem outras instituições que, verdadeiramente, levem aos jovens das favelas a possibilidade de estudarem, não de serem laçados por um dogma ou religião que talvez os leve à mesma impotência daqueles que buscam na droga a transcendência.  A causa é nobre quando bem aproveitada. O Observatório serve como uma linha divisória entre o mundo possível, de jovens que desdenham das condições adversas que o sistema econômico lhes deixou e partem em busca de seu próprio caminho, sem precisarem ser do contra, sem serem movidos por ressentimentos, e o mundo do crack. Um limite tênue fisicamente, mas um enorme território de distância quando se fala em potência.

Nos momentos em que pude dividir com eles meus pensamentos, busquei justamente trilhar  um trajeto não maniqueísta. “Não estamos aqui procurando eleger heróis nem condenando bandidos”, disse eu. E eles aplaudiram com os olhos. Porque ninguém aguenta mais tanta necessidade de se escolher entre isso ou aquilo.

A rua que ladeia o Observatório não tem a largura para deixar passar ali dois carros, é cheia de gente, barraquinhas, pequenas lojas que expõem suas roupas em modelos de gesso às vezes sem um braço. Mas é um espaço de convivência, num mundo real, de aceitação das diferenças sem precisar que elas sejam mediatizadas. Gostei quando fui apresentada, pela professora Monica Rodrigues, como uma pessoa que estuda os filósofos da diferença. E peço emprestado aqui a Gilles Deleuze  (“Diferença e Repetição”, editora Graal), um pensamento de Hegel que ele reproduz em seu ensaio: “Quando se leva suficientemente longe a diferença entre as realidades, vê-se a diversidade tornar-se oposição e, por conseguinte, contradição, de modo que o conjunto de todas as realidades se torna, por sua vez, contradição absoluta em si”. É para ser lido com as vísceras, não é para ser entendido com a razão…

São questões que andam povoando a minha cabeça e compartilhos com vocês neste espaço onde se pretende debater sobre um  mundo sustentável, um novo modelo civilizatório.  O filósofo Spinoza diz que um corpo é feito da relação com outros corpos e que, dependendo dessa relação, o sujeito pode ser mais ou menos triste, potente, vigoroso. Quando vejo aquela reunião de corpos em torno do crack (fiquei sabendo na favela que em outras comunidades os traficantes já andaram botando uma faixa para dizer que não vendem crack, os miseráveis, depois de tanto viciarem os pobres coitados) , penso em Spinoza. Penso naquela relação, naquela busca de contato, que mais enfraquece do que fortalece. Será?

O próximo Fórum Social Mundial será na Tunísia, em março. Pode parecer que estou mudando de assunto, mas não estou.  Vou detalhar mais sobre esse evento num próximo post, mas fico com esse fortalecimento de pessoas que buscam nada menos do que caminhos sutis de inclusão.  Uma reunião de corpos que fortalece. Assim como nas salas de aula da Espoc no Observatório de Favelas.

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BP vai pagar multa de 4,5 bilhões de dólares pelo acidente no Golfo do México

A notícia abaixo foi retirada da agência France Press e publicada no site da Carta Capital. Reproduzo aqui porque acho de extrema importância o fato de a BP ter que pagar uma multa pesada por ter provocado aquele acidente no Golfo do México e porque, na época, a empresa não se comportou com a perplexidade que se esperava. Mas, como não vivo no mundo de mocinhos e vilões, convido a todos para refletirmos juntos. O que significa este acordo? O que significa admitir a culpa num cenário econômico completamente diferente, três anos depois? A empresa teria guardado um dinheiro já pensando em desembolsá-lo tempos depois?  Será que esse dinheiro que a BP vai ter que desembolsar realmente fará a empresa tomar providências severas para não ter outros vazamentos? Ou será que a partir de agora vamos voltar a ver e ler anúncios da BP, que se intitula Beyond (Além) Petroleum (do Petróleo) justamente por querer se encaixar numa imagem de empresa preocupad com o “futuro do planeta”?

Eu não estou preocupada com o futuro do planeta porque ele vai muito bem, obrigado. Já o futuro da humanidade é que está bem incerto por aqui, haja visto a ganância com que os humanos têm ido na direção dos recursos naturais. Esta multa que a BP terá que pagar, será que poderá significar uma mudança na gestão de outras empresas (petrolíferas ou não)?  São questões que valem a pena parar para refletir. A notícia está abaixo:

Um juiz americano aprovou nesta terça-feira, 29, um acordo de 4,5 bilhões de dólares no qual a gigante do petróleo britânica British Petroleum (BP) admitiu a culpa nas acusações criminais de vazamento de petróleo no Golfo do México em 2010. Mas os problemas legais da companhia estão longe do fim.

Em 25 de fevereiro, a BP retornará à corte de Nova Orleans para um gigantesco julgamento consolidando um grande número de processos remanescentes vinculados ao pior desastre ambiental dos Estados Unidos.

A empresa ainda precisa solucionar um caso civil de multas ambientais, que poderiam chegar ao montante de US$ 18 bilhões,  se for comprovada negligência grosseira. Também está em situação difícil por prejuízos econômicos, incluindo o custo da recuperação ambiental.

Em 20 de abril de 2010, a explosão da plataforma Deepwater Horizon, arrendada pela BP, matou 11 pessoas e resultou no vazamento de uns 4,9 milhões de barris de petróleo nas águas do Golfo, contaminando as praias de cinco estados.

Em uma audiência em Nova Orleans, o vice-presidente da BP América, Luke Keller, se desculpou com as famílias dos mortos e outras vítimas.

“Nossa confissão de culpa deixa claro que a BP compreende e reconhece seu papel nesta tragédia. Nós pedimos desculpas – a BP pede desculpas – a todos os feridos e especialmente às famílias que perderam entes queridos”, afirmou Keller em um comunicado divulgado pela BP.

“A BP também lamenta os danos ao meio ambiente que resultaram do vazamento e nós nos desculpamos com os indivíduos e as comunidades que foram afetados”, emendou.

Conter o vazamento no poço da BP, a 1.500 metros de profundidade em frente à costa da Louisiana, levou 87 dias.

Em novembro, a BP admitiu a culpa em 11 acusações de homicídio culposo, uma de obstrução criminosa do Congresso e duas violações ambientais.

 

 

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Para dar certo, um caminho é trabalhar junto

fotos da máquina 046Comunidade de Jauari, município de Moju, banhada pelo rio do mesmo nome, a 88 quilômetros de Belém (foto).  O calor é imenso, e o tempo ali parece que pede licença antes de  passar. Cândido Pereira e Maria do Rosário, fundadores da Associação Jauari,  vestidos com sua melhor roupa, estavam a postos à minha espera para contar sua experiência para uma reportagem sobre desenvolvimento local que eu faria para o caderno “Amanhã”, do Globo (minha viagem foi feita a convite da empresa Natura, que tem um trabalho importante no Norte do país). O sorriso é econômico, o aperto de mão é caloroso e a vontade de contar histórias é imensa. De maneira clara e generosa, sem poupar informações importantes mas omitindo o que não queriam compartilhar, eles vão tecendo o fio do novelo que nos levam a uma vida cheia de privações.  A comunidade não tem luz, o acesso só pode ser feito de barco e, mesmo tenso sido erguida sob palafitas, a casa onde moram às vezes é invadida pelas águas do rio em época de cheia. Por isso não se vê tapetes ou cortinas e as camas são redes. Mas o ambiente é bem arrumado, limpo, de chão encerado e panelas  brilhando.

O casal está ali há vinte anos e não pretende sair. Sobretudo depois que, em 2004, decidiu se associar a outras pessoas, em rede, para tentar melhorar a vida e conseguiu. É assim, segundo os especialistas, que nascem as oportunidades de desenvolvimento econômico em regiões de difícil acesso. Exatamente o que eu estava procurando ali.

fotos da máquina 056É Cândido quem toma a palavra. Como fundador da Associação Jauari, cuja sede é num galpão de madeira bem cuidado perto de sua casa, ele foi um dos primeiros a saber que o murumuru – fruto de uma árvore espinhenta que cresce a rodo na região e que ele arrancava para facilitar a colheira do açaí, poderia gerar renda:

— Eu sempre trabalhei com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju e foi lá que ouvi a proposta de trabalhar com o fruto do murumuru. Pensei: que troço doido! Querem comprar o fruto de uma árvore que eu arranco fora para não ferir a gente – disse ele.

A oferta era da Natura, que descobriu um jeito de transformar o fruto em sabonete. Como empresa que quer ser protagonista de ações em prol do desenvolvimento sustentável, ela cumpriu toda a legislação para extrair o fruto e deixar algo em troca para a terra. E agregou um quesito: a negociação só seria feita se os proprietários, futuros fornecedores, se juntassem numa associação.  Segundo Marcelo Cardoso, vice-presidente de Desenvolvimento  Organizacional e de Sustentabilidade da Natura, essa iniciativa seria uma forma de estruturar o crescimento da comunidade:

— Queremos fortalecer o tecido social que vai permitir o fornecimento dos insumos que precisamos. Só assim poderemos atingir nossa meta, que é de elevar bastante nosso consumo de matérias-primas do Norte do país. Este é um desafio — disse ele.

O desafio maior, no entanto, segundo o diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Itamar Silva, é das próprias comunidades, para não se manterem dependentes dos projetos das corporações que as impulsionam. Itamar constata que a autonomia é decisiva para o sucesso de qualquer parceria desse tipo:

— Quando a associação fica muito presa à empresa que está motivando a união das pessoas, o que eu vejo é muito desencanto, falta de garra, de crença, de motivação. O ser humano é gregário, mas a própria conformação da sociedade hoje empurra as pessoas para soluções muito individuais. Cada vez mais se consome um estilo de vida onde o sucesso acontece na medida em que você, sozinho, consegue se dar bem. A questão mais geral do associativismo como um bem comum, a qualidade de vida, o diálogo, a participação mais abrangente, tudo isso fica em segundo plano – disse Itamar.

Distantes dessas divagações teóricas de especialistas, Candinho (como é chamado na associação que fundou) e Rosário, mesmo ao cuidarem de si e da família já estão dando uma oportunidade melhor de vida a não menos que 27 pessoas entre filhos, noras, genros, netos e agregados. Assim é a família no Norte. A conversa com os patronos se estende, às vezes solta, às vezes emperrada. Como quando eu resolvo querer saber sobre datas ou valores em dinheiro:

— Ih, isso aí é difícil para mim, viu? Já tentei me organizar, mas quem disse que consigo? Aqui na Associação é raro uma pessoa saber quanto tem e quanto gasta — diz Candinho, divertido.

Sendo assim, salvo engano, a Associação Jauari nasceu em 2004 com um objetivo bem definido: reivindiar luz para a comunidade. Até agora não conseguiu isso, mas com a venda do murumuru para a Natura, Candinho, que está aproveitando para fazer um pé de meia, acredita que vai conseguir garantir um futuro promissor para Jauari.

fotos da máquina 053A essa altura da conversa, eu já tinha sido convidada para entrar na casa, tomar uma bela cumbuca de açaí e conhecer o resto da enorme família.  Com 66 anos, tendo nascido na região onde vive, Candinho é a imagem da teoria desenvolvida por especialistas em associativismo. A ferramenta usada por ele para reforçar seu papel como líder (a figura do líder é sempre necessária. Podemos questionar, mas…)  é a conversa e seu próprio exemplo. Mas outro dia ele teve que ir além. Foi quando, preocupado com a assustadora presença de jovens usando drogas na região, decidiu se inscrever na escola da cidade:

— Foi para dar o exemplo. Eu passava com os livros debaixo do braço e parava na rodinha dos moleques que não queriam estudar para ficar fumando maconha e dizia: Olha aí, meu caso! Vocês vão querer ficar de fora da escola? Façam isso não! Lá é tão bom que eu, mesmo já mais velho do que vocês, resolvi estudar – disse ele, garantindo que teve algum sucesso na empreitada.

Outra associação que visitei nessa mesma viagem, feita em outubro do ano passado, foi a Cofruta, já muito conhecida Brasil afora. Cooperativa de fruta de Abaetetuba, ela é outro exemplo do que se as pessoas se juntarem em prol de um mesmo objetivo, é possível dar certo. A Cofruta existe desde 2002, começou com 60 pessoas e hoje tem o dobro de cooperativados. No primeiro ano, vendeu oito toneladas de açaí. Em 2011, já teve encomenda de 42 toneladas. Tem parceria com a Natura, com a União Europeia e toma para si uma função: levar adiante a mensagem do cooperativismo:

— A dificuldade maior está em convencer as pessoas de que elas vão ter que trabalhar em prol de um coletivo, não para sucesso individual.  É difícil no início, mas depois fica fácil — disse Raimundo Brito de Almeida, coordenador  financeiro da Cofruta.

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Atitudes que podem ajudar

A diversidade cultural é aceita no mundo mais humano e melhor de se viver como sonham aqueles que estão na esteira da sustentabilidade.  Ou, segundo o autor John Elkington (aquele que criou a expressão Triple Bottom Line), num mundo onde as pessoas buscam viver como Zeronautas  – zerando emissões, miséria, preconceitos, lixo, carbono.  Mas é impossível entender e aceitar um hábito cultural quando ele se torna uma violência contra as mulheres, como é o caso da Mutilação Genital Feminina que afeta hoje cerca de três milhões de meninas entre 5 e 8 anos de idade somente na África. Cerca de 140 milhões de mulheres vivem com o impacto devastador deste absurdo que começou antes mesmo das religiões organizadas há mais de dois mil anos no Egito. É uma forma de controlar a mulher. Como é um tabu, governos e comunidades não querem se meter.

No fim do ano passado, no entanto, a Assembleia Geral da ONU aprovou por unanimidade uma resolução que proíbe a prática da Mutilação Genital Feminina, comum em 28 países da África, bem como no Iêmen, Iraque, Malásia, Indonésia e entre certos grupos étnicos na América do Sul.  No Reino Unido, o Crown Prosecution Service (Agência de Acusação da Coroa, em tradução livre) anunciou planos para reprimir aqueles que praticarem a barbárie.  Lá, cerca de 24 mil meninas com menos de 15 anos correm o risco de serem mutiladas.

Para acabar com esta rotina é necessário um trabalho hercúleo e algumas pessoas com coragem suficiente para virem a público contar suas histórias.  A modelo somali Waris Dirie, que escreveu um livro “ Desert Flower”,  onde relata casos de mutilação e se lançou como uma ativista internacionalmente conhecida, inspirou a menina Khadija. Também nascida na Somália, há dois anos, após ser submetida a uma operação que cortou seu clitóris,  a garota conseguiu fugir de seu país e pedir asilo no Reino Unido. Ela se mantém na clandestinidade mas está ajudando a ONG Orchid Project a tentar acabar com a prática. A organização (orchidproject.org)  já conseguiu sucesso em 5.300 comunidades.Waris Dirie

Por mais paradoxal que possa parecer (e é), um dos desafios da ONG tem sido a recente empreitada para tornar mais segura a cirurgia de mutilação. Isso porque em vários locais ela é feita de maneira precária, às vezes até com um pedaço de vidro, o que causa a morte de milhares de meninas. Se a cirurgia for feita num hospital e assistida por médicos, elas têm mais chance de sobreviver. Mas não é isso que a ONG quer. Ela quer que as meninas tenham uma vida, não uma sobrevida. Faz sentido, não?

Na linha ambiental,  quem anda ajudando bastante é a hidrelétrica Itaipu, construída há quase 30 anos numa área que é mais ou menos a metade da Bélgica. Segundo uma reportagem publicada pela revista da Rebia (Rede Brasileira de Informação Ambiental) ela é hoje referência na gestão de projetos sustentáveis em parte da bacia do rio Paraná, onde vivem aproximadamente  1 milhão de pessoas.  A hidrelétrica destruiu muita coisa, mas hoje tem 20 programas para tentar devolver à Terra aquilo que carregou e para tentar devolver às pessoas que moram ali uma vida mais digna.

itaipuPara começar, foram plantadas 43 milhões de árvores e construído um corredor ecológico de 27 quilômetros e cerca de 70 metros de largura. A função principal desse corredor é permitir que os bichos recomecem a circular no local e que se reproduzam ali.  As matas ciliares, que foram destruídas para dar lugar ao empreendimento, já estão sendo protegidas: em linha reta, segundo a equipe de reportagem que sobrevoou o local, a faixa verde de proteção equivale à distância que separa Foz do Iguaçu do Rio de Janeiro, ou seja, 1.321 quilômetros.

Os agricultores, por sua vez, estão sendo capacitados  e passaram a fazer o cultivo de plantas medicinais para vender.  Todas as plantas são cultivadas, colhidas e processadas ali mesmo e vão para os postos de saúde da região. Isso é bom porque pode facilitar também os médicos a cuidarem da saúde dos doentes de maneira mais natural.  Uma das médicas que deu depoimento à revista,  Jaqueline Marinho é do programa Saúde da Família e disse que tem utilizado o cítrus, a alfavaca e a graviola, além do guaco, para tratar seus clientes. Mas na mesma terra tem sido plantados alimentos orgânicos também com bons resultados financeiros para os agricultores.  Há mais de 800 deles já treinados para fazer este cultivo especial. Além disso, 71 pescadores estão aprendendo a fazer o manejo sustentável do pacu, um dos peixes da região. O lixo orgânico, como os dejetos de bois e porcos, estão sendo canalizados para grandes biodigestores e se transformam em energia.

jeroo-billimoriaJeroo Billimoria é uma empreendedora social, membro da Ashoka desde 1999,  que criou sete organizações sem fins lucrativos , incluindo a Aflatoun (nome árabe que significa educação social e financeira) que pretende transformar crianças, sobretudo as mais carentes, em pessoas capazes de criar seus próprios projetos financeiros. Em poucas palavras, Billimoria ensina crianças pobres de 80 países a administrar dinheiro, mesmo que elas não tenham nenhum. O programa da Aflatoun ensina a explorar, investigar, agir e pensar além de gerar os próprios recursos para suas necessidades no futuro. E eleva a autoestima o que, como se sabe, é fundamental para qualquer planejamento social dar certo.

Aflatoun começou em Mumbai, na Índia, em 1991, com o propósito de criar uma rede de crianças pobres e ricas para que elas conhecessem um pouco da vida umas das outras.  Em 2005, Billimoria levou a organização para Amsterdam, na Holanda. Para testar se haveria chances de dar certo fora da Índia, dez organizações  sem fins lucrativos ajudaram a lançá-lo.  Deu certo. Em 2008 foi criada uma Campanha para Educação Financeira e Social.  A ideia é atingir dez milhões de crianças até 2015, ajudando-as a entender melhor todo o seu potencial e a melhorar o mundo onde vivem.

O programa começa com uma espécie de manual dos 6 passos (tem tudo explicado no site www.aflatoun.org) , que inclui o treinamento de professores para que eles possam passar adiante a mensagem para as crianças.

Billimoria desde sempre acreditou que a infância pode ser tratada com mais atenção.  Quando começou, ela dava seu número de telefone para crianças de rua ligarem em caso de necessidade. A iniciativa deu certo e logo ela estava recebendo chamadas diariamente: “Foi quando me dei conta de como as crianças de rua gostavam de telefone.  Às vezes a criança ligava apenas para dizer olá, às vezes por estarem se sentindo tristes e solitárias. Mas quando as chamadas vinham no meio da noite era porque alguma criança estava ferida, doente ou fora espancada por algum policial”, contou ela a David Bronstein, autor do livro “Como mudar o mundo” (Editora Record).

A história dos telefones cresceu tanto que Billimoria acabou conseguindo voluntários e dinheiro para estabelecer centros de telefonia  e um número foi criado com a ajuda do governo para que as crianças pudessem utilizá-lo quando necessitassem. Esta era a Childline, que continua operando, agora sem Billimoria, que resolveu tentar dar um novo sentido à economia mundial, incluindo no mercado as crianças.

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