Atitudes que podem ajudar… antes e depois da folia

Sei que todo mundo já deve estar fazendo as malas, ou para viajar ou para embarcar no reino de Dionísio. Este blog, portanto, pede licença para deixar as reflexões para depois do carnaval e cair  na folia. Voltaremos, portanto, dia 15, naquela sexta-feira com cara e jeito de início de ano. Antes disso, vale lembrar algumas atitudes que podem ajudar a melhorar esse mundo e deixá-lo com menos cara de quarta-feira de cinzas. Vamos lá:

No pilar ambiental – Vem da Alumar, um complexo de produção de alumínio primário e alumina, a notícia sobre uma parceria entre este complexo e o outro, a Ambev, em prol de uma produção industrial mais limpa. É que a Alumar vai reaproveitar parte (o release não especifica quanto) dos 3100 metros cúbicos de litros de efluentes tratados pela Ambev que seriam descartados diariamente pela cervejaria Equatorial no Rio Pedrinhas, no Maranhão. A água está sendo bombeada até uma lagoa de sedimentação da Alumar para ser reaproveitada nos processos da Refinaria. Dessa forma, o complexo deixa de captar água subterrânea e reaproveita o que a Ambev descartaria no rio. Em dezembro de 2012, a Alumar deixou de consumir, por dia, segundo o release, mais de 2.100m³ de litros de água, um ganho ambiental importante para a empresa.

No pilar sócio-cultural – Fiquei conhecendo no Observatório de Favelas o pessoal da ONG Norte Comum (nortecomum.com)  e achei bem interessante a proposta deles. A ideia de formar a ONG nasceu diante da evidente escassez de projetos relacionados à cultura na Zona Norte do Rio de Janeiro.  O projeto é dividido basicamente em duas frentes gerais de atuação. Uma referente à criação e manutenção da rede, e a outra focada na formação de uma produtora coletiva e horizontal. Não existem donos da rede, ela se forma por si só, segundo me explicou o Carlos Meijueiro, um dos que pôs a mão na massa para criá-la.  Gosto muito quando ouço que a proposta mestra é a construção de relações pessoais e a realização de projetos que intensifiquem tais relações. É mais ou menos assim: antigamente, quando ainda era possível, os jovens se reuniam na pracinha e discutiam tais projetos. Hoje, com o inchaço das cidades e a dificuldade de se encontrar pracinhas disponíveis, o jeito é lançar mão da web, que nesse momento mostra toda a sua força no sentido de criar redes. Uma das ações do grupo é lutar pela reabertura dos cinemas da região, o que faz todo sentido.  Levar mostras e exposições com debates de artistas, criar espaços para debates.  Ou seja: uma atitude que pode ajudar mesmo.

No pilar econômico – Li no excelente blog do professor Ladislau Dowbor (dowbor.org) que  o governo federal americano  quer criar uma super rede WiFi de livre acesso, abrangendo todo seu território. A notícia dessa proposta revolucionária está numa reportagem publicada no Washington Post pela repórter Cecilia Kang e pode ser lida na íntegra aqui http://(http://www.washingtonpost.com/business/technology/tech-telecom-giants-take-sides-as-fcc-proposes-large-public-wifi-networks/2013/02/03/eb27d3e0-698b-11e2-ada3-d86a4806d5ee_story.html).O texto diz que a medida já enfrenta resistência das operadoras de telecomunicações, como se pode bem imaginar.  O conceito de rede de livre acesso já é utilizado em muitas cidades pelo mundo, mas está avançando para escalas nacionais. O raciocínio é simples. Não pagamos para andar nas ruas, ainda que elas custem mais caro do que as infovias, onde se navega em ondas eletromagnéticas. A circulação livre da informação aumenta a produtividade de todos. O fato de podermos transitar livremente pelas ruas é que assegura que sejam economicamente viáveis a farmácia, o posto de gasolina e assim por diante. São as aplicações do conhecimento que devem render, não os pedágios sobre a sua movimentação. Bom isso, né?

Publicado em Carnaval | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

O que pode um corpo social?

espocc 2O menino entrou na birosquinha com cara de sono. Aparentava cerca de 12, 13 anos e estava sem camisa. Pediu um copo de água mineral, foi atendido na hora pela senhora que parou de buscar, para mim, o biscoito que pedira. Ele não pagou, eu estranhei. Peguei meu biscoito e fui embora. Lá fora uma música em som alto se misturava ao falatório de alguns homens que tomavam sua cerveja num outro barzinho, provavelmente porque já estavam chegando do trabalho, eram mais de 18h. Eu estava na Favela da Maré, ainda não pacificada. Voltei ao prédio do Observatório de Favelas para a segunda conversa com um grupo de jovens a convite da Escola Popular de Comunicação Crítica (Espoc) que está desenvolvendo ali um curso de Publicidade Afirmativa.

Não é a primeira vez que entro uma favela, é claro, porque a minha profissão sempre me exige estar em todos os lugares. Mas ali eu estava com uma outra proposta. Não precisava sair perguntando coisas às pessoas para escrever reportagem.  Bastava respirar e sentir o local. Foi diferente de todas as outras experiências que tive.

Vamos voltar à história do menino que pediu o copo de água e foi logo atendido. Mais tarde, conversando com algumas pessoas da Espoc, eu descobri que os viciados em crack costumam pedir  mate ou água para as pessoas porque aquele copinho de plástico é uma ferramenta para que eles possam consumir a droga. O menino de cerca de 12 anos com cara de sono e sem camisa que eu havia visto era então, salvo todos os enganos, um viciado em crack . E não era o único por ali. Com a intervenção da prefeitura em dois outros lugares onde os crackeiros se reuniam perto da Maré, eles agora ficam ali, bem próximo da entrada da favela. Um bando de pessoas que moram nas ruas e usam a droga para suportar os trancos de viver ao léu. Plásticos pretos tapam seus esconderijos, mas é a céu aberto que eles manipulam a pedra que vai levá-los, sabe-se lá por quanto tempo, a um mundo sonhado, imaginário. O mundo das TVs de plasma, dos sofás, do conforto de uma casa. Impotentes, buscam na impossibilidade, na transcendência, aquilo que não conseguem e vão machucando seus corpos, sem se dar conta de que estão acabando com a única verdadeira ferramenta que têm para estar nesse mundo. Deixaram-se envolver por promessas. Agora, quem prometeu não quer chegar perto daquele bando desgraçado que só faz enfeiar o tal mundo ideal.

Pode ser estranho, mas quando passei de carro mais tarde, já noite e chovendo, pelo grupo de pessoas em seus plásticos pretos, lembrei-me dos beduínos. Estive certa vez no deserto de Neguev, em Israel, e os vi de dentro do ônibus de turismo que nos levava a algum lugar.  Os mesmos plásticos de cor preta se sobressaíam diante daquela paisagem de areia. As condições de vida dos beduínos não é ideal, vivem também com muita privação porque, povos nômades que sempre foram, hoje estão sedentários, também são excluídos do sistema, vivem de pequenos roubos, têm dificuldades. A grande diferença entre esses dois bandos é que os beduínos não massacram seus corpos com a química que os traficantes vendem por centavos aos miseráveis que vão até eles implorar a droga.

Na favela, já se sabe. Até uma determinada hora, os craqueiros não perturbam ninguém porque estão sob o efeito da droga. Quando a pedra de crack acaba, eles passam a importunar, pedindo dinheiro, água ou mate. É melhor dar, dizem. Nunca se sabe o que pode um corpo sem controle.

Com todo esse pano de fundo, essa tristeza de vida, surge como uma flor no deserto aquele canto do Observatório. Passei ali de 14h às 20h30m, conversei com duas turmas, e saí de lá alimentada.  Os jovens têm chance de conviver com pessoas que levam até eles noções importantes de vida, profissional. E não são poucos os que abraçam esta causa com integridade. Para chegar ali não é fácil, e infelizmente poucos alunos membros da Espoc moram na Maré. Perto do ponto de ônibus ficam os craqueiros,  é preciso passar por eles. Mas, em algum momento, aquela cena vira rotina, não mete medo. O importante é estarem ali, tentarem desdobrar a página, escrever uma história diferente para suas próprias vidas. Apoderar-se de seus corpos e alimentá-los com estudo, conversa, filme, contato, muito contato.

Falei bastante nas duas aulas. Mas fui motivada pelos olhares curiosos, atentos, que acompanhavam meus movimentos, não me deixavam pensando sozinha. Senti ressonância. Citei livros, documentários, e eles anotaram tudo.  Vão dar um jeito, fazer um ratatá, para tentar comprar em grupo, ler em grupo, assistir em grupo. É possível.

A Petrobras ajuda o Observatório, e parece que outras entidades estão entrando agora no rateio. É preciso mesmo, mais e mais. Que venham as empresas mostrarem assim a sua responsabilidade social. Que as empresas ajudem outras instituições que, verdadeiramente, levem aos jovens das favelas a possibilidade de estudarem, não de serem laçados por um dogma ou religião que talvez os leve à mesma impotência daqueles que buscam na droga a transcendência.  A causa é nobre quando bem aproveitada. O Observatório serve como uma linha divisória entre o mundo possível, de jovens que desdenham das condições adversas que o sistema econômico lhes deixou e partem em busca de seu próprio caminho, sem precisarem ser do contra, sem serem movidos por ressentimentos, e o mundo do crack. Um limite tênue fisicamente, mas um enorme território de distância quando se fala em potência.

Nos momentos em que pude dividir com eles meus pensamentos, busquei justamente trilhar  um trajeto não maniqueísta. “Não estamos aqui procurando eleger heróis nem condenando bandidos”, disse eu. E eles aplaudiram com os olhos. Porque ninguém aguenta mais tanta necessidade de se escolher entre isso ou aquilo.

A rua que ladeia o Observatório não tem a largura para deixar passar ali dois carros, é cheia de gente, barraquinhas, pequenas lojas que expõem suas roupas em modelos de gesso às vezes sem um braço. Mas é um espaço de convivência, num mundo real, de aceitação das diferenças sem precisar que elas sejam mediatizadas. Gostei quando fui apresentada, pela professora Monica Rodrigues, como uma pessoa que estuda os filósofos da diferença. E peço emprestado aqui a Gilles Deleuze  (“Diferença e Repetição”, editora Graal), um pensamento de Hegel que ele reproduz em seu ensaio: “Quando se leva suficientemente longe a diferença entre as realidades, vê-se a diversidade tornar-se oposição e, por conseguinte, contradição, de modo que o conjunto de todas as realidades se torna, por sua vez, contradição absoluta em si”. É para ser lido com as vísceras, não é para ser entendido com a razão…

São questões que andam povoando a minha cabeça e compartilhos com vocês neste espaço onde se pretende debater sobre um  mundo sustentável, um novo modelo civilizatório.  O filósofo Spinoza diz que um corpo é feito da relação com outros corpos e que, dependendo dessa relação, o sujeito pode ser mais ou menos triste, potente, vigoroso. Quando vejo aquela reunião de corpos em torno do crack (fiquei sabendo na favela que em outras comunidades os traficantes já andaram botando uma faixa para dizer que não vendem crack, os miseráveis, depois de tanto viciarem os pobres coitados) , penso em Spinoza. Penso naquela relação, naquela busca de contato, que mais enfraquece do que fortalece. Será?

O próximo Fórum Social Mundial será na Tunísia, em março. Pode parecer que estou mudando de assunto, mas não estou.  Vou detalhar mais sobre esse evento num próximo post, mas fico com esse fortalecimento de pessoas que buscam nada menos do que caminhos sutis de inclusão.  Uma reunião de corpos que fortalece. Assim como nas salas de aula da Espoc no Observatório de Favelas.

Publicado em Social, Uncategorized | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

BP vai pagar multa de 4,5 bilhões de dólares pelo acidente no Golfo do México

A notícia abaixo foi retirada da agência France Press e publicada no site da Carta Capital. Reproduzo aqui porque acho de extrema importância o fato de a BP ter que pagar uma multa pesada por ter provocado aquele acidente no Golfo do México e porque, na época, a empresa não se comportou com a perplexidade que se esperava. Mas, como não vivo no mundo de mocinhos e vilões, convido a todos para refletirmos juntos. O que significa este acordo? O que significa admitir a culpa num cenário econômico completamente diferente, três anos depois? A empresa teria guardado um dinheiro já pensando em desembolsá-lo tempos depois?  Será que esse dinheiro que a BP vai ter que desembolsar realmente fará a empresa tomar providências severas para não ter outros vazamentos? Ou será que a partir de agora vamos voltar a ver e ler anúncios da BP, que se intitula Beyond (Além) Petroleum (do Petróleo) justamente por querer se encaixar numa imagem de empresa preocupad com o “futuro do planeta”?

Eu não estou preocupada com o futuro do planeta porque ele vai muito bem, obrigado. Já o futuro da humanidade é que está bem incerto por aqui, haja visto a ganância com que os humanos têm ido na direção dos recursos naturais. Esta multa que a BP terá que pagar, será que poderá significar uma mudança na gestão de outras empresas (petrolíferas ou não)?  São questões que valem a pena parar para refletir. A notícia está abaixo:

Um juiz americano aprovou nesta terça-feira, 29, um acordo de 4,5 bilhões de dólares no qual a gigante do petróleo britânica British Petroleum (BP) admitiu a culpa nas acusações criminais de vazamento de petróleo no Golfo do México em 2010. Mas os problemas legais da companhia estão longe do fim.

Em 25 de fevereiro, a BP retornará à corte de Nova Orleans para um gigantesco julgamento consolidando um grande número de processos remanescentes vinculados ao pior desastre ambiental dos Estados Unidos.

A empresa ainda precisa solucionar um caso civil de multas ambientais, que poderiam chegar ao montante de US$ 18 bilhões,  se for comprovada negligência grosseira. Também está em situação difícil por prejuízos econômicos, incluindo o custo da recuperação ambiental.

Em 20 de abril de 2010, a explosão da plataforma Deepwater Horizon, arrendada pela BP, matou 11 pessoas e resultou no vazamento de uns 4,9 milhões de barris de petróleo nas águas do Golfo, contaminando as praias de cinco estados.

Em uma audiência em Nova Orleans, o vice-presidente da BP América, Luke Keller, se desculpou com as famílias dos mortos e outras vítimas.

“Nossa confissão de culpa deixa claro que a BP compreende e reconhece seu papel nesta tragédia. Nós pedimos desculpas – a BP pede desculpas – a todos os feridos e especialmente às famílias que perderam entes queridos”, afirmou Keller em um comunicado divulgado pela BP.

“A BP também lamenta os danos ao meio ambiente que resultaram do vazamento e nós nos desculpamos com os indivíduos e as comunidades que foram afetados”, emendou.

Conter o vazamento no poço da BP, a 1.500 metros de profundidade em frente à costa da Louisiana, levou 87 dias.

Em novembro, a BP admitiu a culpa em 11 acusações de homicídio culposo, uma de obstrução criminosa do Congresso e duas violações ambientais.

 

 

Publicado em Petróleo | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Para dar certo, um caminho é trabalhar junto

fotos da máquina 046Comunidade de Jauari, município de Moju, banhada pelo rio do mesmo nome, a 88 quilômetros de Belém (foto).  O calor é imenso, e o tempo ali parece que pede licença antes de  passar. Cândido Pereira e Maria do Rosário, fundadores da Associação Jauari,  vestidos com sua melhor roupa, estavam a postos à minha espera para contar sua experiência para uma reportagem sobre desenvolvimento local que eu faria para o caderno “Amanhã”, do Globo (minha viagem foi feita a convite da empresa Natura, que tem um trabalho importante no Norte do país). O sorriso é econômico, o aperto de mão é caloroso e a vontade de contar histórias é imensa. De maneira clara e generosa, sem poupar informações importantes mas omitindo o que não queriam compartilhar, eles vão tecendo o fio do novelo que nos levam a uma vida cheia de privações.  A comunidade não tem luz, o acesso só pode ser feito de barco e, mesmo tenso sido erguida sob palafitas, a casa onde moram às vezes é invadida pelas águas do rio em época de cheia. Por isso não se vê tapetes ou cortinas e as camas são redes. Mas o ambiente é bem arrumado, limpo, de chão encerado e panelas  brilhando.

O casal está ali há vinte anos e não pretende sair. Sobretudo depois que, em 2004, decidiu se associar a outras pessoas, em rede, para tentar melhorar a vida e conseguiu. É assim, segundo os especialistas, que nascem as oportunidades de desenvolvimento econômico em regiões de difícil acesso. Exatamente o que eu estava procurando ali.

fotos da máquina 056É Cândido quem toma a palavra. Como fundador da Associação Jauari, cuja sede é num galpão de madeira bem cuidado perto de sua casa, ele foi um dos primeiros a saber que o murumuru – fruto de uma árvore espinhenta que cresce a rodo na região e que ele arrancava para facilitar a colheira do açaí, poderia gerar renda:

— Eu sempre trabalhei com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju e foi lá que ouvi a proposta de trabalhar com o fruto do murumuru. Pensei: que troço doido! Querem comprar o fruto de uma árvore que eu arranco fora para não ferir a gente – disse ele.

A oferta era da Natura, que descobriu um jeito de transformar o fruto em sabonete. Como empresa que quer ser protagonista de ações em prol do desenvolvimento sustentável, ela cumpriu toda a legislação para extrair o fruto e deixar algo em troca para a terra. E agregou um quesito: a negociação só seria feita se os proprietários, futuros fornecedores, se juntassem numa associação.  Segundo Marcelo Cardoso, vice-presidente de Desenvolvimento  Organizacional e de Sustentabilidade da Natura, essa iniciativa seria uma forma de estruturar o crescimento da comunidade:

— Queremos fortalecer o tecido social que vai permitir o fornecimento dos insumos que precisamos. Só assim poderemos atingir nossa meta, que é de elevar bastante nosso consumo de matérias-primas do Norte do país. Este é um desafio — disse ele.

O desafio maior, no entanto, segundo o diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Itamar Silva, é das próprias comunidades, para não se manterem dependentes dos projetos das corporações que as impulsionam. Itamar constata que a autonomia é decisiva para o sucesso de qualquer parceria desse tipo:

— Quando a associação fica muito presa à empresa que está motivando a união das pessoas, o que eu vejo é muito desencanto, falta de garra, de crença, de motivação. O ser humano é gregário, mas a própria conformação da sociedade hoje empurra as pessoas para soluções muito individuais. Cada vez mais se consome um estilo de vida onde o sucesso acontece na medida em que você, sozinho, consegue se dar bem. A questão mais geral do associativismo como um bem comum, a qualidade de vida, o diálogo, a participação mais abrangente, tudo isso fica em segundo plano – disse Itamar.

Distantes dessas divagações teóricas de especialistas, Candinho (como é chamado na associação que fundou) e Rosário, mesmo ao cuidarem de si e da família já estão dando uma oportunidade melhor de vida a não menos que 27 pessoas entre filhos, noras, genros, netos e agregados. Assim é a família no Norte. A conversa com os patronos se estende, às vezes solta, às vezes emperrada. Como quando eu resolvo querer saber sobre datas ou valores em dinheiro:

— Ih, isso aí é difícil para mim, viu? Já tentei me organizar, mas quem disse que consigo? Aqui na Associação é raro uma pessoa saber quanto tem e quanto gasta — diz Candinho, divertido.

Sendo assim, salvo engano, a Associação Jauari nasceu em 2004 com um objetivo bem definido: reivindiar luz para a comunidade. Até agora não conseguiu isso, mas com a venda do murumuru para a Natura, Candinho, que está aproveitando para fazer um pé de meia, acredita que vai conseguir garantir um futuro promissor para Jauari.

fotos da máquina 053A essa altura da conversa, eu já tinha sido convidada para entrar na casa, tomar uma bela cumbuca de açaí e conhecer o resto da enorme família.  Com 66 anos, tendo nascido na região onde vive, Candinho é a imagem da teoria desenvolvida por especialistas em associativismo. A ferramenta usada por ele para reforçar seu papel como líder (a figura do líder é sempre necessária. Podemos questionar, mas…)  é a conversa e seu próprio exemplo. Mas outro dia ele teve que ir além. Foi quando, preocupado com a assustadora presença de jovens usando drogas na região, decidiu se inscrever na escola da cidade:

— Foi para dar o exemplo. Eu passava com os livros debaixo do braço e parava na rodinha dos moleques que não queriam estudar para ficar fumando maconha e dizia: Olha aí, meu caso! Vocês vão querer ficar de fora da escola? Façam isso não! Lá é tão bom que eu, mesmo já mais velho do que vocês, resolvi estudar – disse ele, garantindo que teve algum sucesso na empreitada.

Outra associação que visitei nessa mesma viagem, feita em outubro do ano passado, foi a Cofruta, já muito conhecida Brasil afora. Cooperativa de fruta de Abaetetuba, ela é outro exemplo do que se as pessoas se juntarem em prol de um mesmo objetivo, é possível dar certo. A Cofruta existe desde 2002, começou com 60 pessoas e hoje tem o dobro de cooperativados. No primeiro ano, vendeu oito toneladas de açaí. Em 2011, já teve encomenda de 42 toneladas. Tem parceria com a Natura, com a União Europeia e toma para si uma função: levar adiante a mensagem do cooperativismo:

— A dificuldade maior está em convencer as pessoas de que elas vão ter que trabalhar em prol de um coletivo, não para sucesso individual.  É difícil no início, mas depois fica fácil — disse Raimundo Brito de Almeida, coordenador  financeiro da Cofruta.

Publicado em Uncategorized | Com a tag , , | Deixe um comentário

Atitudes que podem ajudar

A diversidade cultural é aceita no mundo mais humano e melhor de se viver como sonham aqueles que estão na esteira da sustentabilidade.  Ou, segundo o autor John Elkington (aquele que criou a expressão Triple Bottom Line), num mundo onde as pessoas buscam viver como Zeronautas  – zerando emissões, miséria, preconceitos, lixo, carbono.  Mas é impossível entender e aceitar um hábito cultural quando ele se torna uma violência contra as mulheres, como é o caso da Mutilação Genital Feminina que afeta hoje cerca de três milhões de meninas entre 5 e 8 anos de idade somente na África. Cerca de 140 milhões de mulheres vivem com o impacto devastador deste absurdo que começou antes mesmo das religiões organizadas há mais de dois mil anos no Egito. É uma forma de controlar a mulher. Como é um tabu, governos e comunidades não querem se meter.

No fim do ano passado, no entanto, a Assembleia Geral da ONU aprovou por unanimidade uma resolução que proíbe a prática da Mutilação Genital Feminina, comum em 28 países da África, bem como no Iêmen, Iraque, Malásia, Indonésia e entre certos grupos étnicos na América do Sul.  No Reino Unido, o Crown Prosecution Service (Agência de Acusação da Coroa, em tradução livre) anunciou planos para reprimir aqueles que praticarem a barbárie.  Lá, cerca de 24 mil meninas com menos de 15 anos correm o risco de serem mutiladas.

Para acabar com esta rotina é necessário um trabalho hercúleo e algumas pessoas com coragem suficiente para virem a público contar suas histórias.  A modelo somali Waris Dirie, que escreveu um livro “ Desert Flower”,  onde relata casos de mutilação e se lançou como uma ativista internacionalmente conhecida, inspirou a menina Khadija. Também nascida na Somália, há dois anos, após ser submetida a uma operação que cortou seu clitóris,  a garota conseguiu fugir de seu país e pedir asilo no Reino Unido. Ela se mantém na clandestinidade mas está ajudando a ONG Orchid Project a tentar acabar com a prática. A organização (orchidproject.org)  já conseguiu sucesso em 5.300 comunidades.Waris Dirie

Por mais paradoxal que possa parecer (e é), um dos desafios da ONG tem sido a recente empreitada para tornar mais segura a cirurgia de mutilação. Isso porque em vários locais ela é feita de maneira precária, às vezes até com um pedaço de vidro, o que causa a morte de milhares de meninas. Se a cirurgia for feita num hospital e assistida por médicos, elas têm mais chance de sobreviver. Mas não é isso que a ONG quer. Ela quer que as meninas tenham uma vida, não uma sobrevida. Faz sentido, não?

Na linha ambiental,  quem anda ajudando bastante é a hidrelétrica Itaipu, construída há quase 30 anos numa área que é mais ou menos a metade da Bélgica. Segundo uma reportagem publicada pela revista da Rebia (Rede Brasileira de Informação Ambiental) ela é hoje referência na gestão de projetos sustentáveis em parte da bacia do rio Paraná, onde vivem aproximadamente  1 milhão de pessoas.  A hidrelétrica destruiu muita coisa, mas hoje tem 20 programas para tentar devolver à Terra aquilo que carregou e para tentar devolver às pessoas que moram ali uma vida mais digna.

itaipuPara começar, foram plantadas 43 milhões de árvores e construído um corredor ecológico de 27 quilômetros e cerca de 70 metros de largura. A função principal desse corredor é permitir que os bichos recomecem a circular no local e que se reproduzam ali.  As matas ciliares, que foram destruídas para dar lugar ao empreendimento, já estão sendo protegidas: em linha reta, segundo a equipe de reportagem que sobrevoou o local, a faixa verde de proteção equivale à distância que separa Foz do Iguaçu do Rio de Janeiro, ou seja, 1.321 quilômetros.

Os agricultores, por sua vez, estão sendo capacitados  e passaram a fazer o cultivo de plantas medicinais para vender.  Todas as plantas são cultivadas, colhidas e processadas ali mesmo e vão para os postos de saúde da região. Isso é bom porque pode facilitar também os médicos a cuidarem da saúde dos doentes de maneira mais natural.  Uma das médicas que deu depoimento à revista,  Jaqueline Marinho é do programa Saúde da Família e disse que tem utilizado o cítrus, a alfavaca e a graviola, além do guaco, para tratar seus clientes. Mas na mesma terra tem sido plantados alimentos orgânicos também com bons resultados financeiros para os agricultores.  Há mais de 800 deles já treinados para fazer este cultivo especial. Além disso, 71 pescadores estão aprendendo a fazer o manejo sustentável do pacu, um dos peixes da região. O lixo orgânico, como os dejetos de bois e porcos, estão sendo canalizados para grandes biodigestores e se transformam em energia.

jeroo-billimoriaJeroo Billimoria é uma empreendedora social, membro da Ashoka desde 1999,  que criou sete organizações sem fins lucrativos , incluindo a Aflatoun (nome árabe que significa educação social e financeira) que pretende transformar crianças, sobretudo as mais carentes, em pessoas capazes de criar seus próprios projetos financeiros. Em poucas palavras, Billimoria ensina crianças pobres de 80 países a administrar dinheiro, mesmo que elas não tenham nenhum. O programa da Aflatoun ensina a explorar, investigar, agir e pensar além de gerar os próprios recursos para suas necessidades no futuro. E eleva a autoestima o que, como se sabe, é fundamental para qualquer planejamento social dar certo.

Aflatoun começou em Mumbai, na Índia, em 1991, com o propósito de criar uma rede de crianças pobres e ricas para que elas conhecessem um pouco da vida umas das outras.  Em 2005, Billimoria levou a organização para Amsterdam, na Holanda. Para testar se haveria chances de dar certo fora da Índia, dez organizações  sem fins lucrativos ajudaram a lançá-lo.  Deu certo. Em 2008 foi criada uma Campanha para Educação Financeira e Social.  A ideia é atingir dez milhões de crianças até 2015, ajudando-as a entender melhor todo o seu potencial e a melhorar o mundo onde vivem.

O programa começa com uma espécie de manual dos 6 passos (tem tudo explicado no site www.aflatoun.org) , que inclui o treinamento de professores para que eles possam passar adiante a mensagem para as crianças.

Billimoria desde sempre acreditou que a infância pode ser tratada com mais atenção.  Quando começou, ela dava seu número de telefone para crianças de rua ligarem em caso de necessidade. A iniciativa deu certo e logo ela estava recebendo chamadas diariamente: “Foi quando me dei conta de como as crianças de rua gostavam de telefone.  Às vezes a criança ligava apenas para dizer olá, às vezes por estarem se sentindo tristes e solitárias. Mas quando as chamadas vinham no meio da noite era porque alguma criança estava ferida, doente ou fora espancada por algum policial”, contou ela a David Bronstein, autor do livro “Como mudar o mundo” (Editora Record).

A história dos telefones cresceu tanto que Billimoria acabou conseguindo voluntários e dinheiro para estabelecer centros de telefonia  e um número foi criado com a ajuda do governo para que as crianças pudessem utilizá-lo quando necessitassem. Esta era a Childline, que continua operando, agora sem Billimoria, que resolveu tentar dar um novo sentido à economia mundial, incluindo no mercado as crianças.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Ford e a desastrada aventura na Amazônia

Uma biografia de Henry Ford está disponível em DVD. Com o título “O homem que revolucionou a indústria criando a linha de montagem”, o documentário, lançado pelo The Biography Channel, tem só 44 minutos. Seu grande gol são as cenas reais da grande fábrica Ford, onde o empresário começou a testar o sistema de produção cuja principal característica, a fabricação em massa, foi duramente criticada  por causar distúrbios sérios nos operários. Há no filme dois depoimentos impressionantes de funcionários que dão conta de como a criação daquela esteira rolante que virou símbolo da selvageria capitalista foi cruel para eles. Ambos já bem idosos lembram-se com exatidão que não conseguiam dormir quando chegavam em casa porque as mãos doíam, a cabeça estalava. Ford é retratado nol filme como um visionário, desde pequeno fadado ao sucesso. Ao mesmo tempo uma pessoa fria, focada no seu próprio empreendimento o tempo todo, que só se enternecia em família, com filhos e netos. Indiferente, portanto, ao desconforto que causava aos operários, ele mandava sempre acelerar a esteira quando precisava cumprir com a demanda por seus carros. (A foto é do site seriouswheels.com).

Henry Ford with V-8 Engine

Se fosse vivo, Henry Ford (1863- 1947) hoje se veria às voltas com debates sobre crescimento versus qualidade de vida. O homem que criou um novo modelo de produção e pôs um automóvel com preço e características acessíveis para circular acreditava que dando salários decentes poderia exigir o que quisesse de seus operários. Criou assim o “Five dolars a Day” quando percebeu que a rotina em sua fábrica afastava os operários por causa do sistema de trabalho quase desumano. Pagando mais do que todo mundo ele conseguiu encher sua fábrica , cumprir os prazos na entrega dos automóveis e pensava que, desse jeito, estava fazendo o melhor papel que um empresário pode fazer à sociedade.  Qualidade de vida era um expressão que não fazia parte do dicionário desse homem. Nem para consumo próprio.

Mas ele é um personagem importante para a história da humanidade. E  merece ser visitado de tempos em tempos, quer seja para que não se repita seus erros, quer seja porque com eles é possível pensar num outro modelo. Aqui no Brasil, Ford criou a Fordlândia, mote do livro lançado em 2010 pela Record sob o título “Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva” – de autoria do professor de História da Universidade de Nova York, Greg Grandin. Depois de um exaustivo trabalho de pesquisa que descreve dos primórdios até a decadência  da cidade criada por Henry Ford no Pará em 1928, que recebeu o nome de Fordlândia, Grandin conta, nas últimas páginas do livro, o que descobriu em suas investidas contemporâneas pela Amazônia. O quadro atual, de senhores de terra escravizando homens e desrespeitando a natureza, sobretudo para plantar a soja, dá corpo ao ditado pessimista que diz que nada é tão ruim que não possa piorar.

fordlandia do nytimesDiferentemente do argentino Eduardo Sguiglia, que escreveu uma ficção sobre Fordlândia (“Um paraíso obscuro”, ainda sem tradução para o Brasil), o americano se ateve a fatos, arquivos, livros, entrevistas. E conseguiu traçar um retrato que parece bem fiel sobre os acontecimentos que levaram Henry Ford a ganhar uma imagem apressada, quase equivocada, de “amigo da natureza” por escolher o Pará para tentar ser autosuficiente em borracha para os seus carros, sem se aliar a ninguém: ‘Ford não era um homem de sociedades”,  esclarece Grandim. (A foto é do NY Times).

Na verdade, Ford era um homem de paradoxos. Sim, já no início do século passado ele reutilizava e reciclava suas máquinas e ferramentas, mesmo sem jamais ter ouvido falar sobre a política dos três erres (reduzir, reusar e reduzir) que se tornou o mantra da sustentabilidade há poucas décadas. Sim, além disso ele se preocupava em preservar árvores (chegou mesmo a ordenar que só cortassem as mais velhas do terreno paraense onde pretendia plantar e colher borracha). Tais atitudes, porém, punham à mostra seu antropocentrismo. Ford, hoje, não conseguiria ganhar a imagem de empresário sustentável porque se esquecia, com frequência, do pilar social. Tudo o que reutilizava era para economizar visando ao lucro (próprio) cada vez mais crescente. As árvores poupadas serviriam mais tarde como madeira para suas próprias construções.

Como patrão, ele se esmerou na arte de exploração de mão de obra sem se dar conta de que lidava com humanos. O fordismo, sistema cruel, foi muitas vezes alvo de críticas (a mais conhecida foi a cena criada por Charles Chaplin em “Tempos modernos”).  Segundo Grandim, “Ford pagava aos trabalhadores locais mais do que o dobro do salário vigente, mas também impunha seu estilo. Não era permitido encostar-se numa pilha de madeira, nem se sentar por cinco minutos. Era obrigatório permanecer ereto sobre dois pés”.

Para além desses dados curiosos, escritos num texto bastante simpático, “Fordlândia” é, na verdade, uma preciosidade para os brasileiros conhecerem mais profundamente apenas uma das grandes atrocidades cometidas contra a Floresta Amazônica. Entre os governantes que entregaram o território quase de mãos beijadas – por US$ 125 mil, garante Grandim – para Henry Ford, que em 1927 chegava com promessas de trazer muito dinheiro para a região; e os desmandos de equipes ignorantes na arte de viver na selva, estava um enorme pedaço do Brasil. Diz Grandim: “Pouco m ais de um milhão de hectares, quase do tamanho do estado de Connecticut”.

Como não era homem de se associar a ninguém, Ford deixou de lado um detalhe fundamental quando imaginou a aventura de plantar na Amazônia para se tornar autossuficiente em borracha: era preciso ter por perto alguém que, de fato, soubesse lidar com a região. Não conseguiu essa pessoa. E submeteu a doenças e privações, não só operários brasileiros como funcionários norte-americanos que exportava para o Pará em navios. Por querer, ainda, submeter à natureza dos operários brasileiros sua cultura tão diversa da deles, teve que enfrentar revoltas violentas.

Uma delas aconteceu em 1930, no refeitório da fábrica. Acostumados a se sentarem e servirem a própria comida, os operários não suportaram quando os dirigentes da fábrica tentaram “organizar melhor” suas vidas, oferecendo-lhes garçons que demoraram a trazer as refeições. Conta o historiador:

“A reação foi  furiosa, lembrou um observador: como atear fogo à gasolina. O terrível barulho de panelas, copos, pratos, pias, mesas e cadeiras sendo quebradas serviu de alarme, chamando mais homens com facas, pedras, canos, martelos,  facões e porretes”.

No fim das contas, a paz foi restabelecida, outra cidade foi construída para tentar a sorte num terreno talvez mais propício ao plantio da borracha, mas… as seringueiras não conseguiram dar nem metade da quantidade de borracha que Ford esperava. “Contudo – escreve Grandim – “embora as duas plantações fossem fracassos econômicos, suas cidades bem arrumadas representavam  exemplos brilhantes do sonho americano”.

Henry Ford II, neto de Ford, foi nomeado presidente da companhia em 1945 e um dos seus primeiros atos foi vender Fordlândia e Belterra, avaliadas em quase US$ 8 milhões, ao governo brasileiro por US$ 244.200.

Henry Ford nunca visitou as cidades que sonhou criar. Hoje, ambas foram tomadas por criação de gado e plantação de soja.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

O xisto e o discurso do presidente Obama sobre o clima

Barack Obama Takes Campaign Bus Tour Through PennsylvaniaNo seu segundo discurso depois da posse, esta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reavivou uma questão que, a nível internacional, andava meio sob as cinzas da Rio+20 (Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável que aconteceu no Rio de Janeiro em junho do ano passado). Obama, que não veio à Rio+20 e que na COP-15 (a Conferência  que aconteceu em Copenhague em 2009) chegou de mãos abanando e nada contribuiu para um acordo que baixasse as emissões de carbono internacionalmente, agora está demonstrando uma enorme preocupação.  Declarou à imprensa que enfrentar a mudança climática é importante e que “Não fazer isso seria trair os nossos filhos e as futuras gerações”.

Como já era de se esperar, ato contínuo ao do discurso do presidente, algumas instituições se lançaram a revelar números e fazer novos diagnósticos sobre o tema. A agência Reuters, por exemplo, divulgou um estudo no Fórum Econômico Mundial que começou quarta-feira e termina domingo em Davos, na Suíça,  onde se descobre que “o mundo deve gastar cerca de 700 bilhões de dólares por ano para frear a mudança climática”. E que para projetos estruturais de prevenção, até 2020, “devem ser gastos 5 trilhões de dólares’”.

A declaração do presidente Obama e os valores fantásticos necessários para prevenir e mitigar os impactos das mudanças climáticas, chegaram a mim no mesmo dia em que li um artigo bastante elucidativo e embasado, do jornalista e editor de Internacional do jornal “Valor Econômico” Humberto de Saccomandi, que anunciou, na edição de ontem, um certo boom de xisto, nos Estados Unidos.  Xisto é uma rocha, impregnada de hidrocarboneto, que tem um enorme valor energético. E Saccomandi revela que, segundo projeção da Agência Internacional de Energia (AIE), com o xisto os Estados Unidos superarão a Rússia em 2015 como maior produtor de gás, e a Arábia Saudita em 2017 como maior produtor de petróleo.

xistoHá algum tempo a mídia especializada já vem falando do xisto (a foto é do site www.quimica.seed.pr.gov.br) como uma nova possibilidade de energia. No dia 3 de janeiro do ano passado, por exemplo,  o site da agência Envolverde de notícias reproduziu uma notícia divulgada pela Inter Press Service, onde a própria AIE já dizia que  “O gás recuperável nas rochas de xisto, ou shale gas, talvez supere várias vezes em quantidade o das reservas.”  A grande novidade  era a descoberta de que o gás de xisto é abundante em territórios que antes se considerava pobres em hidrocarbonetos, como China, Estados Unidos e Argentina além de África do Sul, Austrália, Polônia, França, Suécia, Índia, Chile , Paraguai e Paquistão.   Atento ao realinhamento dos mercados devido ao novo tabuleiro energético, o presidente da Associação Venezuelana de Processadores de Gás, Luís Alberto Terrero, disse à época que “países que nunca tiveram esta disponibilidade de energia já não serão apenas consumidores”.

Mas, para extração do hidrocarboneto da rocha, é preciso avançar bastante em novas técnicas  tecnológicas. E, para isso, tem que duas coisas: países ricos com vontade de repassar generosamente tais tecnologias para os pobres e gente nova estudando, se empenhando. Terá sido pensando nisso que, na sequência do discurso em que fala sobre a preocupação com as mudanças climáticas, Obama  ressaltou a necessidade de se investir em projetos inteligentes e criar empregos verdes para se descobrir novas  tecnologias?

Segundo o  consultor em energia de xisto, o britânico Nick Grealy ouvido pelo articulista do Valor, “Explorar o xisto ainda é caro, mas o custo vem caindo bastante nos últimos anos. Nos Estados Unidos, eles não vão se preocupar muito se o preço do petróleo não cair abaixo de US$ 60. Eles ainda assim ganhariam dinheiro com xisto”.  Se tudo isso acontecer de verdade, a humanidade pode se preparar, no futuro, para assistir uma redução da dependência dos Estados Unidos com o Oriente Médio, o que, para o professor de segurança global no Hampshire College, “Será uma mudança geopolítica significativa. A dependência do petróleo sempre teve um forte impacto na política externa americana”.

A verdade é que não sabemos ainda tudo sobre recursos naturais da Terra. Estamos apenas andando de gatinhas num terreno que tanto pode ser mais favorável quanto menos favorável a nós. A única coisa que podemos dizer com certeza hoje é que tais recursos são finitos, o que exige um tratamento cuidadoso, criterioso. Para além disso, certo também é que tais recursos têm  uma repartição totalmente desigual. Anthony Giddens, reconhecido como um dos pensadores sociais mais importantes de nosso tempo, escreveu em 2009, no seu mais recente livro, “A política da mudança climática”, que a posse de recursos naturais, especialmente gás e petróleo, é uma das armadilhas que capturou as sociedades marcadas pela pobreza, epidemias, ignorância e desespero. “Uns 30% dos pobres do mundo vivem em países cuja economia é dominada pela riqueza das reservas naturais. São poucos os Estados rentistas que, em certa medida, conseguiram escapar da maldição dos recursos – como o Kuwait ou a Arábia Saudita – principalmente por terem enormes reservas de petróleo e gás. Para outros, porém, a receita proveniente dessas fontes só proporciona meios de subsistência para uma elite minúscula”.

Considerando o xisto como uma possibilidade de energia que pode mudar a face do mundo como nós a conhecemos nos próximos anos, então, não custa ir além no exercício de ficção. Será que o xisto causaria menos poluição no ar, que atualmente é responsável por 6 milhões de mortes prematuras por ano, segundo o relatório GEO-5 lançado pela ONU antes da Rio+20?

São questões. É importante pensar sobre elas. É importante duvidar delas. Otimismo demais é sinal de que alguma coisa vai mal.  O mundo não tem soluções prontas, é preciso criá-las a cada instante, dizem os filósofos da diferença (Spinoza, Nietzsche, Delleuze, …). E a ignorância sobre a quantidade de fontes dos recursos nem pode ser assim tão ruim se dermos ouvidos  ao autor de “O Homem sem Qualidades”, Robert Musil, quando ele lembra, sem rodeios, como é seu estilo, que “O homem nunca avança mais do que quando ignora aonde vai”.

Publicado em energia, Uncategorized | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Atitudes que podem ajudar

Sempre que há enchentes, e infelizmente a falta de prevenção por parte dos governos tornou este um fenômeno frequente aqui no Rio de Janeiro, há também, por parte de cao em AngraONGs envolvidas com o trato de animais, a preocupação com os bichos domésticos da região.  Quando acontece uma tragédia com uma família, muitas vezes é difícil mesmo priorizar o bichinho em vez de salvar uma criança ou mesmo alguém precisando de ajuda. Se não morrem, os cães acabam desamparados, perambulando pelas ruas pós-enchente. Na última enchente aqui no Rio, em Xerém, não foi diferente. Para oferecer tratamento veterinário adequado em uma situação dessas,  vacinar e alimentar os animais mais necessitados, a WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal), que trabalha em vários países e com a ONU, está desde  sexta-feira passada, com o apoio de voluntários e a parceria da ONG AnimaVida, atendendo  a cerca de 500 animais de companhia. Serão distribuídos medicamentos (vermífugos, antibióticos) e 1 tonelada de ração e vacinas (V8, V6 e antirrábica) para imunização com a ajuda da empresa Merial Saúde. A foto é de Carolina Lauriano/G1. 

=============

Ainda na linha atitudes que podem ajudar, recebi uma mensagem dizendo que todos os copos que serão usados no Rider Weekends, uma espécie de festival de verão que acontece até o dia 27 no Jockey Club, serão biodegradáveis, feitos de papel sem parafina e com tinta formulada à base de soja. As latinhas também serão recicladas:  só no ano passado foram 55 mil. Não é uma atitude para salvar o planeta, nada disso. Mas é um jeito mais consciente de se fazer um evento de grande porte, concordam? Lixo no lugar de lixo, fundamental.

==============

Outra iniciativa sobre animais: tem uma lei ambiental brasileira que permite a permuta entre instituições, de animais que não têm condições de sobrevivência na natureza. Daí que ontem chegaram ao Criadouro de Animais Silvestres da Itaipu Binacional no Paraná duas harpias fêmeas (como esta da foto de Eduardo Perini), vindas do Parque Zoobotânico Vale em Carajás para se juntarem a outras da espécie, também conhecida como gavião-real. É que esta espécie está em extinção por conta dos caçadores de gaviões, e a intenção é que ela se reproduza em cativeiro. Elas estavam sob os cuidados da equipe técnica do Parque, localizado em Parauapebas (PA), desde 2011, quando chegaram encaminhadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de Marabá.

Harpia 3

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

Um bom programa em São Paulo

Recebi este email que reproduzo abaixo, do Instituto Vladimir Herzog, para os amigos que estão em São Paulo. Dá vontade de ir. Vejam só:

A Catedral da Sé de São Paulo está ligada à História da Resistência, da valorização da Vida e do encontro no respeito das diversidades étnicas e religiosas. O nome de Vladimir Herzog está ligado à Catedral através do histórico ato cívico por ocasião da sua morte em 1975. Milhares de pessoas se reuniram para ouvir uma palavra de conforto numa cerimônia religiosa tríplice entre católicos, protestantes e judeus.
No dia 25 de Janeiro de 2013, quando a cidade de São Paulo comemora o seu 458º aniversário, o Instituto Vladimir Herzog traz novamente ao Brasil a execução da cantata cênica “O Diário de Anne Frank“ de Leopoldo Gamberini, composta em 1958, com a colaboração de Otto Frank, pai de Anne e do então jovem pianista Daniel Barenboim.

A obra é inspirada no relato de Anne Frank  e ilustra a tragédia que assolou o mundo durante a guerra. A primeira audição completa, com orquestra, foi realizada na Berlin Staats Oper e em seguida no Conservatório Giuseppe Verdi di Milano, dirigida pelo Maestro brasileiro Martinho Lutero Galati De Oliveira e, recentemente, Junho e Julho de 2012, no Auditório Ibirapuera de São Paulo.
A obra é narrada pelo coro, que prepara as cenas descritas e contadas pela própria Anne Frank, protagonizada pela soprano solista. A ambientação da guerra, dos bombardeios, dos sinos das igrejas, que Anne Frank ouvia como sinal de vida dentro do campo de concentração, são efeitos de live-electronics baseados em gravações originais de época, como a sirene alemã dos avisos de bombardeio. A partitura é complementada com acompanhamento de orquestra sinfônica numa escritura típica orquestral italiana do pós-guerra.
No Brasil a cantata teve grande participação de público e muitos pedidos de repetição. A ideia é fazer uma releitura da obra em chave mais profunda e reflexiva, no ambiente da Catedral da Sé, celebrando a vida de Vladimir Herzog, a paz e a convivência pacífica entre a diversidade dos homens. O concerto, com entrada franca, será precedido por um ato inter-religioso conduzido pelo Cardeal Dom Odilo Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, com a participação das diversas religiões atuantes na Capital paulista, como parte das comemorações do 458º aniversário da Cidade.

 

Publicado em Uncategorized | Com a tag , | Deixe um comentário

“Não nos preocupamos com reservas de minério, mas com licença para operar”, diz diretora da Vale

O mundo estava novamente em guerra quando, aqui no Brasil, Getúlio Vargas decidiu encampar as reservas de ferro do empresário americano  Percival Farquhar, em 1942, para criar a Companhia Vale do Rio Doce. No início a empresa patinou porque não havia muita demanda de aço no país. Mas essa situação foi mudando aos poucos e… bem, o resto da história a gente já sabe. A empresa cresceu e, em 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso,  foi privatizada.  Hoje a Vale é uma das maiores mineradoras do mundo — está em 37 países e sua receita operacional totalizou US$ 11,0 bilhões no terceiro trimestre do ano passado – e  vem sendo alvo de cobranças, denúncias, por parte de quem se preocupa com os impactos socioambientais causados pela sua atividade.  Esse blog não se põe na condição de juiz e acredita no diálogo e na informação como forma de tentar sair do modelo em que se elegem bandidos  e mocinhos; heróis e vilões.  Acho relevante , portanto, que uma empresa que até hoje, em toda sua história, já extraiu 5 bilhões de toneladas de minério da Terra, dê conta de suas atividades, comente sobre seus passivos, compartilhe seus planos.

Como editora do extinto Razão Social, entrevistei o ex-presidente Roger Agnelli e a ex-diretora da Fundação Vale Olinta Cardoso. Esses executivos já não estão mais na empresa, portanto é impossível cobrar deles aquilo que disseram em entrevista. Para atualizar o tema pedi, no ano passado, uma entrevista com a atual diretora de sustentabilidade  (cargo que durante a administração Agnelli teve uma alta rotatividade de executivos), Vania  Somavilla.  Numa longa conversa na sede da empresa no Rio de Janeiro,  Somavilla não se negou a refletir sobre os desafios, os processos ainda emperrados.  Apontou  muitos acertos, mas também alguns erros.   Identifiquei  tremenda semelhança  entre seu discurso sobre  os “desafios de se buscar minério em lugares abandonados pelo estado”  com o de Agnelli quando o entrevistei  em maio de 2007.  Tanto tempo depois, e os desafios ainda são os mesmos? Ao que parece, sim. O que está mudando, ganhando velocidade, é a demanda social. Espera-se, ansiosamente, o momento em que o diálogo entre a empresa, a sociedade e o governo entre em ritmo.

vaniaSegundo o site Observatório do Pré-Sal, as reservas de minério brasileiras são estimadas em 28 bilhões de toneladas .  A estimativa chega à conclusão de que em 2030 não teremos mais minério. Como a Vale se posiciona diante deste cenário?

Vânia Somavilla – Esses números de reserva são meio fictícios. Não se conhece tudo. É possível fazer sondagens sísmicas, mas para se saber realmente o que existe, tem que furar (nesse aspecto, o minério é igual ao petróleo). Tem que fazer perfuração, ver a qualidade do material, a profundidade, o teor. Tem uma cubagem real, mas não tem o valor real de reserva. Além disso, a reserva muda muito com a tecnologia porque quanto mais moderna é a tecnologia, mais se consegue aproveitar de material. Para se entender melhor, vamos comparar com o petróleo. Todo ano mudam as reservas porque o que não se conseguia alcançar antes, é possível alcançar com tecnologia e preço. Por isso a  Vale não tem muita preocupação com a quantidade de reserva, tem muita reserva para ser explorada ainda.  A questão hoje, muito mais complicada para todos os recursos naturais, é se ter acesso a essas reservas. É a isso que chamamos de licença para operar.

Quando eu entrevistei o Roger Agnelli (ex-presidente da Vale) em 2007, já naquela época ele me disse que tinha que ir cada vez mais longe para buscar o minério e que a Vale tinha uma dificuldade grande de achar mão de obra. O cenário ainda é o mesmo? É este ainda o desafio para a tal licença para operar?

Vânia  Somavilla – Sim, continua. Tem que ir mais longe, mais profundo, e a mão de obra é um problema. O minério de ferro não dá em Nova York, dá em locais remotos onde às vezes tem quase a total inexistência de serviços públicos.  Toda a questão social é extremamente desafiante  hoje. A empresa tem que fazer o papel do estado, e isso a Vale não quer fazer. O que fazemos? Acabamos sendo um agente catalisador de forma que as políticas públicas cheguem àquele município. Um exemplo disso é Paragominas, um lugar onde há parceria do poder público local com o setor privado. Dá orgulho estar ali.

Tem algum lugar em que a Vale não tenha orgulho de estar?

Vânia Somavilla – Não. Acho que tem lugares onde a gente poderia fazer mais. Mas sou otimista: acho que um bom governante, se souber tirar proveito de qualquer atividade econômica, vai conseguir fazer uma parceria ideal conosco. O meio ambiente só vai sobreviver com atividade econômica junto. Não tem a menor condição, na minha opinião, de manter a Amazônia intocável, por exemplo.  Por isso criamos lá o Fundo Vale, que é uma tentativa de preservar o local trabalhando junto às cadeias produtivas para conseguir que o homem preserve. Porque senão, não tem dúvida: o homem vai desmatar se precisar de alimento.

A Vale está querendo ser referência na área social, mas tem uma questão fortíssima, que é a falsa expectativa de emprego quando ela chega num local. Com toda a mecanização, a mineração não emprega tanta gente quanto se diz, não é verdade?

Vânia Somavilla – Tem diminuído, sim, a quantidade  de empregos que a mineração pode oferecer e isso é um desafio.  Assim mesmo, a Vale oferece mais opções do que nossas concorrentes. Hoje temos mais gente trabalhando em escritórios do que no campo. Tem um lado que talvez seja gordura, e já estamos vendo isso. Mudamos mesmo o perfil dos empregos, mas diminuímos o risco das pessoas, eliminamos os serviços que eram mais críticos.  Fizemos no ano passado uma roda de conversas com as funcionárias para debater sobre o que impede as mulheres de trabalharem na Vale (só temos 12% de funcionárias mulheres no campo e no escritório, é pouco).  Uma delas me disse que fica com medo de ir para o campo porque tem coisas muito pesadas. A reflexão da empresa foi: se é pesado para mulheres, é pesado também para os homens. Aí, para o bem de todos, algumas funções têm mesmo que ser mecanizadas.

Uma das críticas ao trabalho de mineração é que a empresa tira tudo o que o lugar tem para tirar e depois faz as malas e vai embora, deixando uma população que viveu anos por conta daquilo, totalmente sem referência. Aconteceu em Itabira. Não dá para fazer diferente?

Vânia Somavilla – Itabira hoje está se transformando num polo hospitalar. É ruim criar uma região totalmente dependente de empregos que só a Vale pode gerar, não queremos isso. O que queremos mesmo, e para isso é que precisamos trabalhar, é gerar desenvolvimento. O sonho é trabalhar todo mundo junto, com poder público, terceiro setor, pessoas de fora, para que se consiga injetar recursos no local. Mas esse tipo de preocupação é nova, há 70 anos ninguém pensava nisso.  Naquela época a preocupação maior era com a produção. Depois a preocupação passou a ser com os impactos ambientais e o social não era relevante. Mas, com o tempo, a Vale começou a perceber que não bastava ter a licença ambiental para agir num local, tinha que ter também a licença de vários órgãos envolvidos. Precisamos da licença social, temos que trabalhar nossa reputação.  E fomos  acompanhando esse processo: hoje já entramos num local fazendo o plano de fechamento, ou seja, como vou deixar ambientalmente e socialmente aquele lugar. Um bom exemplo disso é Águas Claras.

Você falou em reputação. A Vale já ganhou até prêmio de pior empresa do mundo. Por quê?

Vânia Somavilla – A percepção da mineração, em geral, não é boa. Apesar de ser uma atividade que não emite muito carbono, é visualmente feia, o visual é muito forte.  Além disso, lidamos na Vale com grande volume de terras, o que se faz é muito explícito. E, de qualquer maneira, as pessoas querem usar aço, que está em diversos lugares no cotidiano, mas não querem entender que é preciso minerar para obtê-lo. Mas acho que a Vale tem que se comunicar bem, se relacionar cada vez mais com os stakeholders. Temos trabalhado muito com isso, com o relacionamento mais próximo às comunidades para que elas entendam o processo.  Há muito que ser informado, e nós capacitamos nossos gestores para isso. Por exemplo: você sabia que a Vale preserva mais do que afeta as áreas onde está atuando? Em Carajás, por exemplo, nós só mineramos 3% e o resto – 97% – são florestas preservadas. Como trabalhamos com mundo das imagens, o que primeiro aparece para as pessoas que veem Carajás é aquele buraco enorme. Ninguém sabe que ali só tem 3% de toda a área.

A mineração, como você diz, traz progresso. Mas quando a Vale atua numa comunidade onde há muita miséria espalhada, fica uma desigualdade tremenda…

Vânia Somavilla – Tudo é aprendizado. A Vale não é perfeita, estamos tentando fazer melhor. Lá em Moçambique, por exemplo, estamos fazendo um estudo de diagnóstico para ver o que pode ser feito pelas pessoas. Vamos gerar emprego para muita gente, mas muita gente vai ficar sem emprego, então o que fazer? O certo é que não queremos ser um vizinho rico no meio de tanta gente miserável. O caminho é tentar construir junto com eles e o poder público uma solução. Dá trabalho, não é necessariamente dinheiro que é preciso, tem que estudar, estar presente ali o tempo todo. Entender as diferenças culturais, porque a gente erra nisso também. Teve uma vez que fizemos um projeto para criar gado leiteiro numa região onde o pessoal não bebia leite, não sabíamos disso. Tem que chegar com humildade e entender que as pessoas que estão ali também têm a chance delas, naquele momento, de ver sua vida transformada.

A Vale exporta muito esse minério que tira das terras brasileiras e isso é criticado.

Vânia Somavilla – Mas não é o minério que vai transformar uma comunidade, é a riqueza gerada por toda a atividade.  Aquelas pessoas não vão usar carvão, mas elas estavam sentadas em cima de uma mina de carvão que só vai se transformar em alguma riqueza se uma empresa explorar. Agora, é claro que essas pessoas também têm o direito a um benefício sobre aquele recurso. É uma coisa que pode dar certo . Nunca vai ter unanimidade, mas estamos tentando saber hoje até porque o senhor Zé da padaria é contra a nossa atividade naquele local.  Não fazemos um trabalho perfeito, mas estamos caminhando para isso.

Eu ouço isso há tanto tempo. Afinal, o que emperra para esse trabalho ser perfeito?

Vânia Somavilla – É difícil porque são muitas pessoas envolvidas e o problema é dinâmico, há demandas gigantescas.  E tem um aprendizado, tanto nosso quanto do pessoal do Terceiro Setor. Já estamos conseguindo conversar melhor, veja só, na Rio+20 foi a primeira vez que as empresas puderam participar de uma Conferência de Meio Ambiente. Mas quer ver uma questão complicada? Os reassentamentos. Já tentamos conversar com muita gente para nos ajudar a fazer um bom projeto mas não conseguimos ainda. As pessoas sempre vão perder alguma coisa quando mudam e esse valor é intangível, insubstituível. Pode até dar mais em termos materiais, mas leva tempo para as pessoas criarem raízes de novo.  Não conheço nenhum reassentamento bem sucedido logo no começo.

Vamos falar de um assunto espinhoso: Belo Monte. A Vale tem 9% das ações e a questão indígena lá é forte. Os índios não se sentem ouvidos. O que você acha, dentro dessa nova proposta de focar no social, que pode ser feito?

Vânia Somavilla – Os índios são ouvidos, foram ouvidos e devem ser ouvidos sempre. A nossa equipe lá diz que eles foram ouvidos. Comunicação é outra questão complicada porque  se tem uma das partes dizendo que não está sendo ouvida, o que se faz? Na verdade a obra vai perturbar a vida deles, sim. Mas estou sempre de olho, acompanhando o processo. Não tem pergunta que não possa ser feita e todas as respostas têm que ser dadas.

Na Costa Rica existe um sistema de mineração indispensável, ou seja, a mineração é feita sob demanda. Por que não se faz algo assim aqui no Brasil?

Vânia Somavilla – Acho que não é possível, não vejo como. Não se vai conseguir ter uma siderúrgica em cada município, a menos que o mundo mude tanto. Até porque essas coisas numa escala menor ficam mais caras. Você tira o custo do transporte, mas traz a escala.

Os críticos fazer uma resistência até mesmo à expressão produzir minério, que não é exata.

Vânia Somavilla – É verdade, não é produzir, é extrair. Mas nunca se extrai somente, sempre tem o beneficiamento e acaba que é por isso que vira produção. É uma questão de semântica.

Publicado em mineração | Com a tag , , , , , | 3 Comentários