Projeto no Babilônia sem guerra de concorrentes

Que as Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro mudam para melhor a vida dos moradores das comunidades pacificadas, ninguém parece ter mais dúvidas. Por mais que persistam alguns gargalos neste processo, como a dúvida sobre o destino dos traficantes – que desaparecem de hora para outra sem deixar vestígios, pelo menos aparentemente – a verdade é que hoje esses territórios são mais atraentes. Não só para cariocas e turistas, que redescobrem pontos que já pareciam esquecidos da cidade, como para quem sabe que o pé da pirâmide (expressão usada pelo economista indiano D. H. Prahalad para caracterizar a população de baixa renda) é um público com muita  vontade de entrar no mercado de consumidores.

Não teria sido outro o motivo que levou dois grandes nomes da rede bancária – Bradesco e Itaú – a assinarem lado a lado e junto com outras 14 empresas, um projeto para os morros Babilônia e Chapéu Mangueira, no Leme (pacificados em 2011), capitaneado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). O projeto, chamado “Rio Cidade Sustentável”, seguiu direitinho as regras dos programas que desejam ser sustentáveis: ouviu a comunidade, capacitou pessoas, fez parceria com o poder público, desenvolveu ações em frentes diversas. Ao todo, 40% das cerca de 1.200 casas dos dois morros foram ouvidas e 93 alunos receberam cursos de capacitação para pedreiro, eletricista, bombeiro hidráulico e serralheiro.

Mas foi nessa parceria entre concorrentes, inédita até onde eu posso me recordar, que está a inovação maior do projeto. Estive no local sábado retrasado, quando o Cebds fez uma espécie de festa de encerramento do programa (  que começou em 2011 e agora parte para Belo Horizonte)   e conversei com Marina Grossi, presidente executiva do Cebds.  Segundo ela (na foto, tirada por mim lá no Morro da Babilônia) ter duas empresas concorrentes assinando o mesmo projeto é uma tendência:cebds no babilonia 003

— Na minha argumentação aos dois bancos, eu coloquei para eles que tudo o que se faz hoje em busca da sustentabilidade exige parceria, não competição.  A ideia não é brigar por um mercado do jeito que ele hoje está desenhado,  mas investir num mercado que ainda não existe. É para mudar, mesmo, um padrão. Não estamos falando só de agora, este aqui foi um projeto piloto. Estamos falando sobre essa classe de pessoas que está crescendo e se tornando potenciais consumidores, com tudo o que eles têm de direito — disse ela.

Marina acredita que o projeto-piloto serviu também como um aprendizado para as empresas que o assinaram.  E cita  como exemplo a Votorantim, que neste ano e meio de Rio Cidade Sustentável decidiu criar uma segunda opção para seus sacos de cimento, que antes pesavam 20 quilos: agora há também os de cinco quilos:

—- Os moradores do morro tinham que pagar um frete para carregar os 20 quilos ladeira acima, e acabava encarecendo o produto para eles. Além disso, na primeira chuva o cimento que ainda não tinha sido usado, mas já com o saco aberto, ia todo embora. Então eles decidiram criar este saco de cinco quilos porque fez sentido como um negócio para a empresa deles — disse Marina.

Vejo, dessa forma, a teoria se transformando em prática. No livro “The Fortune at the Bottom of the Pyramid”, que já citei aqui no blog, Prahalad conta a história da Unilever, que criou uma barra menor do sabonete Lifebuoy para consumidores indianos que não podiam pagar pela barra maior.  Isso aconteceu nos anos 80, e a iniciativa da empresa fabricante de bens de consumo parece ter aberto, assim, a possibilidade de outras corporações fazerem o mesmo. Seria um sistema ganha-ganha, onde o consumidor sai como vitorioso por conseguir comprar o que antes lhe era negado?

Os economistas divergem sobre isso. Há uma turma que apoia a iniciativa das empresas, tornada legítima pela necessidade dos consumidores, pelo desejo que eles têm, pela transparência de todo o processo.  Diminuindo sacos de cimento ou barras de sabonete, as corporações estariam, dessa forma, contribuindo para a entrada de mais pessoas no mercado, elevando sua autoestima e ajudando a manter a economia aquecida.

Uma outra linha de pensamento econômico, no entanto, vê aí uma forma de o sistema gerar novos desejos e insatisfações, apenas para mantê-lo forte, sem mexer na estrutura. Os primeiros são considerados economistas radicais, preocupados apenas com números e estatísticas pelo grupo que criou uma dissidência em nome de uma nova economia. As propostas vão desde substituir o PIB como única medição de riqueza até sugerir mudanças no ensino de economia, contra o uso indiscriminado da matemática como o fim em si mesma.

Alheia a essas discussões está, por exemplo,  Rosalina dos Santos Moura (na foto tirada por mim), de 45 anos, a quem encontro festejando o programa lá na base do Morro da Babilônia. Mãe de dois filhos de 25 e 26 anos, Rosalina nasceu no Mato Grosso do Sul e veio para o Rio como doméstica, acompanhando um casal de médicos que só ficaria por cinco meses na cidade:cebds no babilonia 002

—- Eles foram embora e eu fiquei porque, nesse meio tempo, encontrei meu ex-marido, que me convidou para subir o morro com ele. Daqui não saí mais. Nosso casamento acabou, mas continuamos amigos para cuidar dos filhos – disse, sorridente.

Do projeto Rio Cidade Sustentável Rosalinda  ganhou a capacitação  como pedreira, que a permitiu pôr janelas e portas em seu barraco. Fez um empréstimo num dos  bancos parceiros do programa – coisa que não conseguiria fazer antigamente – comprou os produtos mais barato, fez aulas e agora pensa até em fazer uma varandinha para a casa, de tanto que está curtindo o lugar onde mora. Segundo Marina Grossi, na pesquisa feita antes de o programa entrar em atividade, as mulheres chefes de família foram entrevistadas e um dos desejos que apareceu mais forte foi, justamente, o de arrumar a casa:

— Faz sentido, porque elas moram num ponto turístico, que vai começar a aparecer cada vez mais na mídia. E quando os turistas chegam, quebra o visual se os barracos estiverem sem portas e janelas. Isso também ajuda a elevar a autoestima de quem mora ali.

Além disso, contou Marina, engenheiros também foram chamados para apontar soluções que tornassem o local mais seguro em termos de saúde.

—- Ouvi muitos deles sugerirem para o morador abrir uma janela num lugar onde o mofo estava muito forte – disse ela.

Numa outra ação, de Agricultura Urbana Orgânica, 16 moradores foram capacitados para instalar e manter hortas em produção contínua em quintais e lajes, além de terem recebido aulas sobre alimentação saudável.  Adelina dos Santos, de 57 anos, e Luis Alberto de Jesus, 52 anos (foto), moradores do Babilônia desde sempre, foram escolhidos para falar sobre o tema, já que conseguiram hortas bem sucedidas. Adelina tomou a dianteira e contou sobre sua horta — nunca foi muito fã de plantar e depois que fez o curso descobriu como é gostoso —  mas aproveitou para falar também de um desconforto com o morro que habita atualmente:

cebds no babilonia 004— Mudou tudo por aqui. Esse tal de Morar Carioca mexeu com o tamanho das ruas, agora os carros precisam fazer pirueta quando descem para não bater nos postes, de tanto que as ruas ficaram estreitas. Eu nunca tive bandido batendo na minha porta, então não sei o que era a tal violência.  Mas agora vejo um bando de turistas pelas ruas, não é o mesmo morro onde cresci e vivi minha vida inteira – lamenta.

Mas é justamente toda essa movimentação, que desagrada Adelina, o mote para o sucesso de Regina Tchelly, que fez um buffet bem diferente para o encerramento do projeto no Babilônia:  de resíduos orgânicos. E é muito gostoso. Provei uma empada feita com casca de abóbora e adorei. A paraibana Tchelly, 31 anos, mora no Rio desde os 15 e criou o Favela Orgânica, segundo ela, pensando em juntar o útil ao agradável ao ver, na comunidade, tanta comida sendo desperdiçada:

cebds no babilonia 001— Lá na Paraíba eu comia chuchu com casca e quando cheguei aqui vi que todo mundo tira um naco do alimento junto com a casca. Meu foco é reduzir o desperdício, o que fui aprendendo com as oficinas que fiz no Sebrae — conta ela, que consegue hoje ganhar cerca de R$ 60 mil por ano como empreendedora individual no Sebrae.

O discurso da sustentabilidade ganha, assim, cores vivas, fala emocionada, teoria transformada em prática. Marina Grossi, à frente de um corpo de empresários que atendeu ao chamado feito em 1992 por Stephan Schmidheiny, industrial suíço fundador do World Business Council for Sustainable Development, que aqui no Brasil é chamado de Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), garante que as empresas aprenderam que têm que incorporar o impacto social e ambiental em seus lucros:

— Esse é o nosso trabalho.  Não é filantropia, embora eu não tenha nada contra a filantropia. Mas o caso é aqui é negócio: a empresa do futuro precisa saber que deve incorporar esses elementos — disse ela.

Para dar certo, porém, é preciso combinar com outra perna importante na engrenagem: o estado.  No caso da Prefeitura do Rio, segundo Marina, poderia ter havido mais engajamento. A receita para dar certo é a transparência:

— Dependemos de transparência total. O que não conseguimos fazer, não fizemos. Não estamos negociando nada.  O processo foi com o aceite e o conhecimento das comunidades, das empresas, do governo. Essa foi, aliás, a nossa arma para vencer os desafios.  Sem a transparecia não conseguiríamos pactuar. Porque é claro que os agentes percebem se há um gargalo. É claro que tinha que ter um número muito maior de empresas, muito mais engajamento com a prefeitura, mas foi isso que nós conseguimos por enquanto — conclui Marina Grossi.

O projeto teve o apoio da empresa Axia Sustentabilidade e tem como objetivo principal dar um estilo de vida melhor para milhões de pessoas, considerando que, segundo dados da UM-Habitat, já há um bilhão de moradores em comunidades em todo o mundo. E a previsão é de que esse número triplique até 2050, já que o número de pessoas que se mudam para as cidades é cada vez maior.

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Paulo Itacarambi pergunta: “Qual o impacto na economia se o feminino for assumido como valor?

A comemoração pelo Dia Internacional da Mulher suscita várias homenagens, sobretudo de homens que se apressam em oferecer flores e presentes. Sinceramente, a mim pouco ou nada diz essa data. Como se costuma dizer, se tem que ter dia das mulheres, dia das árvores, dos negros ou dos índios é porque a sociedade, de fato, ainda não está acostumada a lidar com as diferenças. Mas, deixando de lado a casmurrice, é bom ter esse dia para lembrar de coisas importantes. Como é bom ter dia da árvore para lembrar sobre o desmatamento, dia do índio para lembrar que as etnias são tratadas com imensa desigualdade etc, etc.

Acabo de receber do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social o comentário que o vice-presidente executivo da organização, Paulo Itacarambi, vai fazer daqui a pouco, às 15h, pela rádio CBN. O título,  “O feminino e a sustentabilidade”, já chama a atenção. O conteúdo, como vocês poderão ler abaixo, é pura informação e reflexão das boas. Do jeito que nós, aqui do blog, gostamos muito. Reproduzo na íntegra por achar desnecessário qualquer tipo de observação ou aparte. E me sinto devidamente homenageada:

“O feminino e a sustentabilidade (Paulo Itacarambi)

 “Não vou comentar o avanço da participação feminina do mercado de trabalho como tenho feito aqui mesmo na CBN, ressaltando que a participação da mulher nos quadros executivos das 500 maiores empresas ainda está muito abaixo da equidade desejada. Como mostra a pesquisa Ethos-Ibope 2010 sobre o perfil dessas empresas, as mulheres ainda estão sub-representadas em todos os níveis hierárquicos.

“Também não vou me alongar a respeito do fato de que o programa Bolsa Família está sendo bem-sucedido no seu objetivo de reduzir a pobreza porque escolheu como estratégia dar à mulher a titularidade do cartão. A própria ONU já verificara, em pesquisas feitas nos anos 1990, que a mulher gasta o dinheiro que possui primordialmente com os filhos e a família, o homem, não.

“Quero comemorar o Dia Internacional da Mulher deixando uma mensagem aos homens.

 “Homens e mulheres são seres diferentes, mas essas diferenças não podem e não devem ser consideradas uma representação  da superioridade de um gênero sobre outro.

“A ideia de que o homem é superior à mulher no mundo do trabalho surgiu junto com a revolução industrial e a profunda transformação nos costumes e comportamentos que ela trouxe.

“Até o advento da indústria e da produção em escala de bens de consumo, as pessoas viviam em aldeias comunitárias, onde todos se conheciam e se cuidavam.  A vida podia ser difícil, mas os velhos não eram abandonados, as crianças sempre tinham teto e alimento, e os adultos trabalhavam para contribuir com uma riqueza comunitária. Cada um tinha o que necessitava. Os chefes tinham autoridade pela sabedoria e influência sobre as pessoas, não pelos bens acumulados.  Homens e mulheres possuíam tarefas diferentes, mas igualmente importantes para o equilíbrio da sociedade e para a continuidade da vida.

“A civilização industrial foi destruindo esse modo de vida comunitário em favor de um sistema baseado no individualismo, no acúmulo de riquezas e na supremacia da ciência sobre a natureza. Com isso, a ética do cuidado, tão relevante para a vida comunitária, e desde os primórdios associada à figura feminina, foi relegada ao segundo plano.

“O significado central da sustentabilidade é a preservação ou a melhoria das condições que dão suporte à continuidade das atividades humanas e principalmente da própria vida. É incompatível, portanto, com  padrões estabelecidos pela civilização da era industrial, de consumo desenfreado, de competição feroz, em que coisas e relações sociais viram mercadorias descartáveis, gerando desperdício, insignificância, indignidade.  Esses padrões são insustentáveis.

“Está ficando cada vez mais forte a consciência de que precisamos consumir menos, recuperar, reutilizar, reciclar, e quem faz isso “cuida” da vida, porque garante o equilíbrio entre sociedade e natureza.

“Nenhuma civilização passada fez tão pouco caso do “cuidar” como a atual, tão orgulhosa de seu progresso.

“O cuidado é uma ética que, ao estabelecer consensos sobre certo e errado, orientando a distribuição de tarefas em uma comunidade, ajudou a garantir a sobrevivência e o progresso da humanidade.

“O cuidado exige respeito pelo outro, pois seus desejos e demandas são tão legítimos quanto as de qualquer um de nós. O desdobramento desse respeito é a cooperação. Por meio dela, construímos uma sociedade mais equânime, em que todos têm possibilidades de suprir suas necessidades.

“A visão feminina do mundo  é o meio de expressão desse cuidado. O feminino faz lembrar que a vida é finita, que precisa ser acolhida, protegida e alimentada para poder florescer e dar frutos.  A vida precisa ser preservada. Se adoece, precisa ser tratada e curada. O feminino pede cooperação, em vez de competição, não é agressivo e, quando intervém na realidade, leva em consideração as consequências desse ato e isto é responsabilidade.

O feminino não é exclusividade das mulheres e hoje, é um imperativo.

“O ser humano, o meio ambiente, o planeta pedem cuidado e responsabilidade.  O cuidado não invalida outras éticas ou maneiras de ser e agir. Mas, a causa  maior a que todos devem se vincular é a salvaguarda e a preservação da vida.

“Uma das maneiras de tornar prevalecente na sociedade a ética do cuidado é valorizar o feminino e o que ele representa: maior afetividade nas relações. Com isso, vamos valorizar também a participação das mulheres em todos os campos da vida social. E combater a violência contra elas.

“Valorizar o feminino significa engajar homens e mulheres na construção de um novo padrão de civilização, com um novo modo de pensar e de se relacionar, mais igualitário, sem apego a hierarquias de dominação e controle, mais afeito à colaboração e parceria.

Qual o impacto na economia se o feminino for assumido como valor?

 ‘Em primeiro lugar, teremos um dilema a resolver: como reconhecer o trabalho materno e paterno de cuidado com as crianças? Nosso  modo de produção atual não está preparado e não tem condições de assimilar essa vertente. Precisamos inventar soluções que permitam aos planejadores da economia levar em conta que esse cuidado é “trabalho” e gera “riqueza” porque garante a formação dos cidadãos de amanhã que vão dar continuidade aos negócios privados e às políticas do Estado.

“O trabalho de proteção ao meio ambiente também precisa ser considerado, pois, sem a natureza e seus recursos, não existe possibilidade de o ser humano sobreviver nesse planeta.

“Outro aspecto importante no rumo de uma economia de parceria e colaboração é encontrar outra maneira de medir a produtividade. Hoje, diversas atividades nocivas ao  meio ambiente são contabilizadas no PIB como produtivas, enquanto que diversas outras atividades que contribuem para o bem estar da sociedade não são contabilizadas, como, por exemplo, o trabalho doméstico.  ainda realizado majoritariamente por mulheres.

“O que o PIB não contabiliza dificilmente vira política pública. Portanto, para que essa ética do cuidado, esse feminino que já perpassa invisível as nossas vidas, ganhe relevância na economia,  precisamos que as lideranças, masculinas e femininas  deem visibilidade a esse trabalho.

“Faz parte da responsabilidade dos homens favorecer, no ambiente de trabalho e na sociedade, o desenvolvimento desse “feminino” , incorporando-o em suas ações e criando condições para a valorização da mulher na empresa e na sociedade.

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Rio, a capital da bicicleta. Mas, não tinha que ser dos ciclistas?

Sem querer botar areia na festa de ninguém, não dá para deixar de comentar o prêmio que a cidade do Rio de Janeiro ganhou, de Capital da Bicicleta, segundo a ótima reportagem de Camila Nóbrega na revista Amanhã, do Globo que está nas bancas. A primeira coisa que me chamou a atenção foi justamente o instituto de pesquisa que deu o prêmio. O Transport Research Board fica nos Estados Unidos e, segundo o site da organização, dá prêmios em reconhecimento “ao excelente desempenho e serviços”. É uma proposta vaga demais, considerando o desempenho e os serviços que a cidade do Rio de Janeiro oferece aos ciclistas. E isso quem está dizendo não sou eu, mas os próprios usuários de bike, como se vê própria reportagem.

Se o prêmio for dado pela paisagem ou  pela beleza natural oferecidas aos ciclistas, ok. Está merecido. Mas isso não tem nada a ver com desempenho e serviços. A impressão que eu tenho é que a gestão municipal tem um excelente grupo de profissionais que se esmeram à cata de possibilidades para pôr o Rio de Janeiro na mídia e com boa imagem. Excelente mesmo, porque o resultado é muito bom, como se viu pelo prêmio. Salvo as críticas feitas pelo povo que realmente se aventura a pedalar pelas  ciclovias. E não é de hoje que essas críticas são feitas, como várias reportagens têm mostrado.

Bem, mas vamos deixar as críticas de lado, porque seria chover no molhado, e vamos tentar dar uma ajuda para a equipe da prefeitura que realmente está trabalhando em prol de manter um nível de coerência entre imagem e  realidade. É aí que me lembro de uma visita que fiz à cidade de Copenhague em outubro do ano passado, a convite do governo dinamarquês, para fazer reportagem, também para a revista Amanhã, sobre a cidade. Se você, meu caríssimo leitor, já está dizendo… “ora, não vale  comparar Copenhague com o Rio porque nós não temos o dinheiro, a organização e o tamanho dos países nórdicos”, eu replico: se a cidade quer ocupar um lugar de destaque no âmbito internacional, a ponto de buscar uma premiação do nível que recebeu, então está apta a comparações. E ponto.

Em Copenhague, portanto, estive conversando longamente, para uma entrevista, com Charlotte Korsgaard, uma espécie de secretária municipal de meio ambiente da cidade.  Na cidade de Copenhague, hoje, há 37% das pessoas que usam bicicleta em vez de carro e a meta, oficial, que a gestão municipal abraça seriamente, é alcançar 50% em 2025. Já que estamos no perigoso terreno das comparações, vale registrar que, segundo uma estimativa da ONG Transporte Vivo, o deslocamento por bicicletas hoje na Região Metropolitana do Rio alcança cerca de 5% do total, comparando com os outros meios de transporte. É pouco, mas está aumentando:  nos últimos oito anos, houve um aumento de 89%, ainda segundo a ONG.

Copenhague quer se tornar a “cidade dos ciclistas”. Só aí já vai uma grande diferença para o nome do prêmio que ganhamos:  “Capital da Bicicleta”. Lá, a real preocupação é investir em infraestrutura, ciclovias mais largas e seguras, para dar mais segurança a quem precisa usar a bicicleta. Posso exagerar um pouco? Não seria um olhar mais humano, menos coisificado, do que dar à capital o nome de… bicicleta? Pronto, acabou o “momento exagero”.

Vamos continuar a dar sugestões, já que o intuito aqui é ajudar.  Uma das iniciativas tomada pela administração municipal de Copenhague foi ampliar as ciclovias no horário de rush, diminuindo nesse período a largura das calçadas.  E saibam que, com todo esse movimento e cuidado, a última pesquisa feita com os usuários das ciclovias, em 2010, mostrou que somente três em cada dez ciclistas achavam que os estacionamentos para as bicicletas eram satisfatórios e que apenas cinco em cada dez estavam satisfeitos com a manutenção das ciclovias.  Adivinhem um item que foi mais apontado como negativo na pesquisa? O roubo das bicicletas. Outra coisa que incomoda:  pessoas que largam a bike de qualquer jeito nos bicicletários, a ponto de deixá-la cair sobre outras, causando estragos.

A meta mais ousada, para 2025, é que as ciclovias sejam tão seguras e planas que um ciclista possa pedalar com um copo de café numa das mãos sem deixar cair o líquido. Podem imaginar algo assim nas nossas ciclovias esburacadas e estreitas? Bem, mas lá eles não têm o Pão de Açúcar e o Corcovado para acompanhá-los na viagem. Tudo bem… mas continuo acreditando que é possível ter tanta beleza e uma organização maior.

Vejam como funciona, por lá, a parceria: o comitê encarregado de construir mais ciclovias fez parceria com várias lojas e empresas (não é uma corporação só, como aqui, que chega a confundir sua marca com a da prefeitura), prevendo a construção de caminhos curtos só para ciclistas, como pequenas pontes sobre a água e atalhos em áreas verdes. Haverá ainda uma rede nacional de estradas para quem anda de bicicleta, com sensores no asfalto que vão registrar o número de ciclistas e luzes que ajustarão o sinal de tráfego para que fiquem abertos quando houver um grande número de bicicletas esperando. Aliás, esta sinalização que mostra o número de ciclistas eu vi em Odense, cidade que fica a 164 quilômetros de Copenhague e é bem pequena (tem cerca de 185 mil moradores).

Copenhague está num período de expansão, de grandes obras, e nisso se assemelha bastante ao Rio. A primeira providência tomada pela equipe que cuida das ciclovias foi ampliá-las, alargá-las, no sentido de incentivar ainda mais as pessoas a largarem os carros em casa na hora de se deslocar.

Bem, mas tem uma questão que faz o Rio perder de longe para Copenhague e que não há como mudar, nem com uma administração muito focada. É o clima. Uma coisa é sair de casa com frio, mas com roupas adequadas, e pegar uma bike. Outra coisa é enfrentar o calor que estamos enfrentando agora, por exemplo, e pegar uma bicicleta. Não tem quem aguente. Logo, o Rio pode ser a Capital da Bicicleta de abril a setembro, no máximo outubro. Mesmo assim, nesses seis meses, vai ter veranico expulsando os ciclistas da rua.

Logo… é importante, sim, valorizar o uso das bicicletas por aqui, mas não vamos tirar de um outro foco, este muito mais abrangente, que envolve o pessoal que mora longe e precisa trabalhar cedinho: o transporte público. Sair da Penha ao Centro de bicicleta num dia de verão 40 graus, vamos combinar, é tarefa para Hércules. Mas, se tiver ônibus em quantidade suficiente e que possa levar as pessoas em condições dignas (leia-se, sem estarem amassadas num calor infernal), vai ser mais atraente do que pegar o carro. Fica a dica, fica a reflexão.

fotos da máquina 221Por último, vale comentar que em Copenhague tem outro tipo de veículo sobre duas rodas que se chama Segway e é bem interessante. Funciona a motor, tem que ter combustível, mas a força maior quem faz é o próprio corpo. Se não fosse tão caro, como bem me lembrou o editor do Carro e Etc Jason Vogel, poderia ser ótima ideia para substituir as bicicletas em dias muito quentes. Mas é caro, portanto, ficamos só na vontade. Na foto, estou  num  Segway fazendo uma espécie de city tour. Chovia muito, fazia muito frio, mas eu adorei andar naquela geringoncinha…

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Atitudes que podem ajudar

crescereviverO picadeiro do circo Crescer e Viver é hoje a casa de centenas de  crianças e jovens entre 7 e 24 anos que participam  dos diferentes projetos executados pela instituição.  Fica ali na Praça Onze, Cidade Nova, Centro do Rio de Janeiro.   A ideia da ONG é trabalhar com a democracia, com a diversidade cultural e com diversas referências de educação popular. As crianças são levadas a pensar sobre o contexto comunitário onde estão inseridas, a escola, a família. Segundo Vinícius Daumas, um dos coordenadores do Circo, a ideia é poder enfrentar, na lona do circo, desafios como os que se precisa enfrentar no cotidiano. E valorizar a vida humana enquanto patrimônio:

— O circo coloca o ser humano sempre superando seus desafios. São as metáforas da vida: a gente faz malabarismo para pagar as contas, volta e meia estamos na corda bamba. O circo nos coloca uma nova forma de ver o mundo, e é isso que passamos para as crianças. Todas têm que estar inseridas em escola pública, as que não estão nós nos encarregamos de encaminhar – disse ele.

O projeto quer  construir conhecimento, se colocar como um espaço também lúdico. As turmas de iniciação são abertas para crianças que estão fazendo o primeiro contato com malabares, contorção, perna de pau. As oficinas de aprimoramento já têm o desafio de risco e passam a ser até monitores.

Bem, ocorre que a lona do circo já está gasta e precisa ser  trocada. Para isso é preciso R$ 85 mil que o pessoal da ONG pretende angariar num sistema de financiamento colaborativo. Quem quiser participar ou saber mais, é só acessar o http://bit.ly/crescerevivernobenfeitoria.

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Como se sabe, as araras azuis, aquelas aves simpáticas que já foram até fonte de inspiração para filmes, estão em extinção, desapareceram da natureza há cerca de dez anos, justamente por serem bonitas. É que o ser humano não suporta deixar seres tão bonitos soltos na natureza. Precisa aprisionar, precisa matar para arrancar-lhes as penas. Enfim… Mas, felizmente, alguma coisa vai ser feita, pelo menos para tentar salvar essa espécie.ararinha

Na terça-feira dia 26 chegaram a São Paulo, vindas da Alemanha onde foram criadas em cativeiro, duas ararinhas azuis (a foto mostra uma delas no momento do desembarque no Aeroporto). Elas serão levadas para quarentena e depois vão se juntar a outras que estão em cativeiro para começarem a se reproduzir. Tudo obedecendo as normas do Ministério de Agricultura, acompanhado pelo ICMBio, que que coordena o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul (PAN), e pela Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE-Brasil). “O objetivo é ter indivíduos suficientes em cativeiro para efetuar a reintrodução em seu habitat natural daqui a alguns anos”, explica Camile Lugarini, coordenadora do PAN. A Vale  é parceira da iniciativa.

Vida longa para as ararinhas. Que fiquem livres das garras do maior predador, o ser humano.

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Já não é de hoje que se aprimoram os requisitos para se construir de maneira sustentável. Isso quer dizer: utilizando material que possa ser reciclado, fazendo prédios que possam usar mais a luz do dia e gastar menos energia, com sistema de água eficiente etc. Não é nada que vá salvar definitivamente o planeta do aquecimento global, é bom que se diga. Mas é, com certeza, um jeito mais consciente de se construir, o que deixa a vida da gente melhor.

Tem uma empresa, a SustentaX, que se especializou em ajudar construtoras a mitigarem os riscos de seus negócios, levando em conta que a construção civil é um dos setores que mais impactam o meio ambiente, sobretudo por causa do cimento. Mas é, também, um setor que gera muito emprego e, afinal, bastante necessário num mundo em que cada vez mais pessoas querem morar em cidades.

Levando em conta tudo isso, a SustentaX decidiu dar prêmios para construtoras que se enquadrem nas medidas  certas para construções ditas sustentáveis. É tipo assim:  não só as ações ambientais nas obras, mas também questões relativas à qualidade e segurança, combate ao desperdício, medidas para aumento de produtividade e seleção de fornecedores socioambientalmente responsáveis, entre outros.

O prêmio já foi realizado dois anos, está no terceiro. Para Guillermo Guirao, que preside a iniciativa, distinguir as mais sustentáveis entre as 100 maiores construtoras é importante também para disseminar as boas práticas de gestão e de campo para toda a cadeia construtiva. “Será um guia também para os investidores, financiadores e também para os que procuram imóveis”, afirma.

Em 2012, as mais sustentáveis foram Ladeira Miranda, no nível Platina (por ter cumprido 89% dos itens analisados, nas categorias Residencial e Comercial)  e Rio Verde, no nível Ouro, com 71% dos itens de acordo, na categoria Industrial.

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Mais uma na área ambiental:  a Alcoa plantou 55.775 árvores nas localidades em que atua na América Latina e Caribe em 2012.  A iniciativa integra o programa Dez Milhões de Árvores, que foi lançado pela Alcoa Inc. no Dia Mundial do Meio Ambiente em 2003. O objetivo da ação é plantar dez milhões de mudas até 2020, o que equivale à absorção de 250.000 toneladas métricas de dióxido de carbono. Para o Brasil, a meta a ser alcançada é de 2.534.000 mudas.  Não é nada, não é nada… tem mesmo é que pôr vigias para que essa quantidade de mudas não seja abandonada e morra sem cuidados.

 

 

 

 

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Ainda há 21 milhões de escravos na nossa era. E então, o que fazer?

A notícia:  o escritório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) no Brasil assinou anteontem um Memorando de Entendimento com a Secretaria de Trabalho e Assistência Social do Estado de Tocantins, que será o próximo a ter sua própria Agenda de Trabalho Decente. Entende-se por Trabalho Decente, segundo cartilha que será distribuída a todos os trabalhadores do estado, como um trabalho “adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna”. (A foto é da ONG Cáritas Brasileira, cedida pela OIT. Pessoas libertadas em carvoarias).escravos_carvoaria_600x235

Outra notícia: o governo federal divulgou, em dezembro do ano passado, a atualização semestral da lista suja do trabalho escravo. Trata-se de uma lista de empresas que mantém em seus domínios pessoas em regime análogo à escravidão.  A atual versão traz 56 empresas que não estavam na versão anterior, de julho de 2012. Por outro lado,  31 empregadores conseguiram retirar seus nomes da lista, quer seja pagando multa, quer seja cumprindo várias obrigações.  O saldo são 410 empregadores que, atualmente, descumprem aquilo que se entende por trabalho decente.  A lista inteira pode ser vista no site da ONG Repórter Brasil.

Mais uma notícia:  no ano passado, a empresa de roupas Zara, que pertence ao Grupo Inditex, foi suspensa do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.  Em 2011, a Zara  havia sido denunciada por manter na sua cadeia produtiva oficinas que tinham pessoas trabalhando  muito mais do que deveriam e ganhando muito menos do que seria legal. Depois de dizer que não tinha nada a ver com o ocorrido, já que o problema tinha acontecido num de seus fornecedores, a Zara foi cobrada pela sociedade civil e tomou algumas providências, entre elas a assinatura no Pacto. Mas agora declarou que acha a tal lista suja inconstitucional e foi expulsa.  O Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, lançado em 2005, reúne empresas brasileiras e multinacionais que assumiram o compromisso de não negociar com quem explora o trabalho escravo. A gestão do Pacto é realizada pelo Comitê de Coordenação e Monitoramento composto pelo Instituto Ethos, o Instituto Observatório Social (IOS), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a ONG Repórter Brasil.

Não param aí as notícias sobre trabalho degradante, análogo à escravidão, forçado ou qualquer outro nome que se queira dar ao crime.  São cerca de 21 milhões de pessoas, segundo estimativa recente da OIT, que ainda hoje trabalham em péssimas condições em todo o mundo.  Aqui no Brasil, o estado atua timidamente, como se vê na primeira notícia. As organizações não governamentais ajudam . A criação da tal lista suja de empregadores, divulgada pelo governo federal, é disponibilizada também no site da ONG Repórter Brasil que, em parceria com a OIT e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social , desenvolveu um sistema de busca aos dados que são sempre atualizados.

Mas, com tudo isso, sobram pessoas submetendo outras pessoas a situações degradantes. Quando acontece de envolver uma empresa muito conhecida, como no caso da Zara, a movimentação é grande. A mídia se interessa, as redes sociais julgam e a imagem da infratora fica chamuscada. Ato seguinte, a empresa trata de pôr em marcha toda sua estratégia para apagar o incêndio, e quase sempre consegue.

Um caso emblemático é o da reportagem na revista “Life” de 1996, que mostrou a imagem de um garoto de 12 anos costurando uma bola de futebol da Nike numa oficina asiática. Para fazer este trabalho ele ganhava  0,6 centavos de dólar por hora. Não tão rapidamente quanto acontece agora (porque não havia redes sociais na época), o mundo ficou sabendo disso. E a Nike teve que investir seriamente em programas para desfazer  a mancha que ficou em sua marca. Não é nada, não é nada, alguns dólares foram gastos para isso. Portanto, manter trabalho escravo na sua cadeia produtiva dá prejuízo não só à imagem mas também aos cofres da empresa.

Seja como for, a onda vem e vai embora. O que fica é uma questão antiga, debatida por alguns bons autores.  Os portugueses começaram  o comércio de escravos negros no século XVI e as outras nações da Europa cristã seguiram o exemplo rapidamente, como conta Leo Huberman em “História da Riqueza do Homem” (Editora Guanabara). O primeiro escravo negro levado para os Estados Unidos chegou num navio holandês em 1619 e John Hawkins foi o primeiro inglês a ter a ideia de capturar africanos para vendê-los como matéria-prima para o Novo Mundo. A partir daí, seguem-se as atrocidades que conhecemos hoje mas que, na época, eram defendidas  por muitos que consideravam este comércio importante para o desenvolvimento do mundo, um suprimento de capital que chegou a encher os olhos da Rainha Elisabeth, que deu até um navio para Hawkins. O navio recebeu o nome de Jesus.

À filósofa e pensadora política  Hannah Arendt afetava especificamente  a “surpreendente ausência de rebeliões sérias por parte dos escravos antigos e modernos”, como escreveu em “A Condição Humana”, ensaio publicado em 1958.

“O fator decisivo é que as rebeliões e revoluções  (trabalhistas) modernas sempre reclamaram liberdade e justiça para todos, ao passo que, na Antiguidade, os escravos jamais reivindicaram a liberdade como direito inalienável de todos os homens, e nunca houve tentativa de abolir a escravidão como tal por meio de ação conjunta.”

Portanto os trabalhadores, desde que em condições físicas e morais para isso,  desempenharam um movimento extremamente produtivo na política moderna, assegura a pensadora. Outro autor, Eric Hobsbawm, em “Os Trabalhadores” lembra que “em certos momentos corpos tais como os Internacionais da classe trabalhadora conseguiram até imprimir um selo comum em explosões simultâneas em diferentes países”.

O poder de abolir a escravidão vem de outras mãos, acredita Alexis de Tocqueville, um cientista político da primeira metade do século XIX que estudou especificamente o tema, no que resultou o livro “A emancipação dos escravos”. “Acabamos de assistir a algo absolutamente  inédito na história, pois a escravidão é abolida não pelo esforço desesperado dos escravos, mas pela vontade esclarecida do senhor… de uma vez por todas”. O francês Tocqueville pontuou em seu ensaio várias respostas a questões colocadas na época pelos contrários à abolição dos escravos. E concluiu: “Um milhão de homens romperam seus grilhões num único dia, sem que se tenha vertido uma gota de sangue… A Inglaterra continua exportando para as suas colônias exatamente a mesma quantidade de mercadorias… A produção do açúcar não caiu pela metade, ela apenas diminuiu um terço e as colônias inglesas não estão cada vez mais arruinadas.”

Como se percebe diante das respostas de Tocqueville, a questão econômica falava mais alto. A força de trabalho escrava era considerada uma fonte de riqueza. Huberman descreve em seu livro uma petição encaminhada à Câmara dos Comuns pelos comerciantes de Liverpool em 1788: “Os suplicantes veem com real preocupação as tentativas que estão sendo feitas atualmente para obter a abolição total do comércio de escravos da África, que há muitos anos vem constituindo e ainda continua a formar um ramo bem grande do comércio de Liverpool…. Os suplicantes pedem humildemente que sejam ouvidos… contra a abolição dessa fonte de riqueza”.

Mão de obra sendo explorada num ambiente físico miserável … não há muita diferença para alguns dos cenários que se vê reproduzidos  nas reportagens que acompanham os fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego sobretudo em fazendas que vão parar na lista suja nos dias atuais.  Como também muita gente já ouviu falar nas péssimas condições das fábricas chinesas cujas operárias, a maioria mulheres, ajudam a fabricar as traquitanas eletrônicas que nos auxiliam a estar conectados.

A maioria das fazendas brasileiras que estão na lista suja é do setor pecuário. Mas tem também construção civil, siderurgias…  A descrição dos que conseguem ser liberados  da vida  de escravo é quase sempre a mesma: um homem (chamado de gato) aborda o trabalhador, oferece emprego com casa e comida, mas a realidade é outra. A casa é uma pocilga (muitas vezes literalmente ao lado de porcos) e a comida precisa ser comprada em pequenas vendas que pertencem aos donos das fazendas. Como o preço da comida é absurdo, o trabalhador  vai se endividando até o momento de não ter mais como pagar. Torna-se então um escravo daquela dívida e de lá não pode mais sair, sob pena de ser morto.

Logo, o que torna as pessoas escravizáveis é estar à margem do sistema financeiro.  Foi assim no passado, é assim hoje. A diferença para melhor dos nossos tempos é que não se escalpelam mais aqueles que não querem se deixar escravizar, como acontecia no passado segundo José Damião de Lima Trindade conta em “História social dos direitos humanos”.

Se o estado já atua em várias frentes, se a sociedade civil se organiza em pactos e divulga os nomes dos infratores, o que resta a fazer, se não é possível pensar em igualdade social num futuro próximo, é manter os vulneráveis bem informados.  Para isso a OIT fez a cartilha que será distribuída em Tocantins e em outros lugares.  É pouco para o tamanho do problema, mas é melhor do que nada.

E gosto sempre de lembrar que nem sempre instituir é a solução.  Afinal, o humano é um ser singular e, mesmo em condições precárias, isso deve ser levado em conta. Lembro-me bem que, quando entrevistei a equipe do Instituto Carvão Cidadão (uma iniciativa de siderúrgicas do Pará que não deve ter ido à frente, já que não existe mais o endereço do site na internet), fiquei impressionada com a descrição que me fizeram do trabalhador vulnerável à escravidão: uma pessoa nômade, analfabeta, sem endereço fixo, sem família, que trabalha por um prato de comida e que não vê futuro à frente.

Conclusão?  Deixo por conta de vocês, leitores…

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As empresas e os direitos humanos. Sempre uma questão

A  proposta do Centro de Direitos Humanos e Empresas, do Conselho Estadual de Direitos Humanos, foi passar um dia inteiro discutindo essa difícil relação que está no título de suas organizações. Se estivéssemos na China, possivelmente o regime de trabalho, muitas vezes análogo à escravidão, seria o tema prioritário par abrir o debate. Mas na quarta-feira da semana passada, no salão aclimatado da Caixa de Assistência dos Advogados do Rio de Janeiro, onde o encontro estava acontecendo, a discussão girou em torno de um desafio que nós brasileiros conhecemos muito bem: onde começa e acaba o direito de empresas explorarem territórios e mexerem com a vida de quem os habita em nome do crescimento?  É um problema antigo, que quanto mais se mexe, mais parece insolúvel.  É, ao mesmo tempo, necessário mexer-se nele para que se consiga, mesmo imperceptivelmente, ir chegando perto da solução. Veja o post que escrevi em janeiro a respeito: https://ameliagonzalez848.com/2013/01/16/remocoes-o-problema-da-modernidade/.

A plateia era formada por representantes de ONGs de comunidades que estão sob ameaça de terem que ser remanejadas por conta de investimentos. E, para ajudar a fazer a interface entre o discurso acadêmico e a demanda das organizações, foi convidado o professor Sheldon Leader, que coordena o projeto de Recursos Humanos  da Universidade de Essex.

Antes de mais nada, lembrou o professor, é preciso dar conta de que estamos vivendo um momento crucial porque há “um consenso emergente da comunidade empresarial de que os direitos humanos são parte crucial da agenda delas”.

—- Observar os direitos humanos, atualmente, é uma atitude imprescindível para se fazer qualquer investimento. Muitos bancos já exigem isso para dar empréstimos às empresas.  Só não sabemos como eles farão parte da tomada de decisões. Portanto, é hora de os advogados entrarem nas mesas de negociações, e para isso é importante a parceria com as universidades – disse Sheldon Leader.

Transparência. Novamente, essa palavrinha mágica aparece como a grande solução da maioria dos problemas. Sim, porque não são transparentes os processos dos grandes investimentos antes de se chegar ao ponto crucial, de ressarcimento dos danos causados pelo empreendimento.

— A primeira tarefa é evitar o dano, não deveríamos deixar chegar ao ponto em que a empresa tenha que dizer: ok, nós vamos reembolsá-los do problema que causamos — disse ele.

Para isso, no entanto, seria necessário que a população tivesse conhecimento do processo, desde o início.

— A avaliação do impacto de qualquer empreendimento começa muito antes, mas essas informações geralmente são tratadas com confidencialidade pelas empresas. Mas isso não deveria ser assim porque as comunidades não poderiam ser surpreendidas . Essas informações deveriam ser públicas, são tratadas como privadas — disse Leader.

De novo, parece que estamos tratando apenas do óbvio. E do recorrente descaso do mundo do capital, do mundo dos negócios, para o impacto que seus empreendimentos causam não só ao meio ambiente como à vida das pessoas. O professor deu testemunho de um case de sucesso no Senegal, a Teranga Gold Corporation, companhia canadense que está explorando ouro no local. Segundo ele, a exploração está sendo feita de forma consciente, com respeito às pessoas. Tanto que já existe um plano para a saída da empresa do local, daqui a cerca de 30 anos, no sentido de não deixar a população desamparada.

—- Estabeleceu-se uma rede de diálogo logo no início do projeto e a população pôde dizer o que tinha em mente para pavimentar o caminho da negociação — disse ele.

Coisa de causar inveja para quem  está aqui no olho do furacão, formando comitês, mutirões, campanhas, exigindo reflorestamento, ressarcimento, respeito.  Logo depois da palestra, quando começaram as perguntas, houve um momento de tomada de consciência por parte dos representantes de ONGs:  as comunidades, em geral, se reúnem tarde demais, quando o dano já foi causado. Talvez  falte informações, talvez fale coalizão, o certo é que, nessa batalha, está claro o lado mais fraco, na opinião da maioria das organizações:

—- Existe um tratado que cria um cenário livre para qualquer tipo de investimento hoje, e este tratado é a nível mundial. Chamamos a isso de arquitetura da impunidade.  As leis são mudadas para beneficarem as empresas e o que se vê é que os direitos humanos entram como mercadoria para que as empresas possam se vender melhor. O maior desafio de nossa civilização é democratizer o poder econômico, mas como fazer isso? — perguntou-se o representante do Instituto Mais Democracia.

O fato de as empresas laçarem as próprias ONGs, oferecendo a elas dinheiro para que possam traçar projetos de compensação é visto por eles como um risco.

— Como o estado está ausente, as empresas vão lá e fazem projetos que a sociedade civil tem que tocar. Aí danou-se.

A questão é que nem sempre é fácil juntar setor privado e ONGs por conta de preconceitos de ambos os lados. Para os empresários, há uma desmedida falta de senso de emergência entre as organizações,  entre outras coisas. Já as ONGs julgam estar lidando, sempre, com pessoas que põem o capital acima de qualquer coisa.

De qualquer maneira, aqui também no Brasil já temos nossos cases de sucesso. Ou, pelo menos, de quase sucesso. No livro “Conversas com líderes sustentáveis” (Ed. Senac), o jornalista Ricardo Voltolini entrevistou, entre outros, Franklin Feder, CEO da Alcoa, que tem uma mina de bauxita em Juruti, interior do Pará. Feder disse que queria apostar num modelo de produção “socioambientalmente mais responsável”:

— O primeiro passo foi envolver a comunidade local no projeto, tornando-a corresponsável por ele. Como medida inicial, criou-se um conselho de representantes da sociedade civil, governo e empresas locais com o objetivo de definir prioridades de investimento para a região. Em seguida, convidou-se a Fundação Getúlio Vargas para ouvir a comujnidade e elencar os indicadores socioambientais que serviram de norte ao modelo de desenvolvimento proposto – disse ele.

De fato, o empreendimento Juruti chamou a atenção,  até mesmo quando a Alcoa decidiu financiar a Escola Juruti Sustentável, organizada pelo Instituto Peabiru, uma das organizações mais expressivas da região, que sempre deixou claras suas posições contra o extrativismo irresponsável de várias empresas. Naquela parceria, empresa e ONG estavam, não selando um acordo de coalizão eterna, mas de ajuda. E até onde se pode saber, a comunidade ganhou com isso. Qual a receita? É o caso de buscar informações com cada um dos envolvidos para saber.

A visão do professor Leader leva em conta o trabalho dos advogados nessa difícil relação. Quer seja mediando encontros depois do dano instalado, quer seja tentando antecipar os danos. De qualquer maneira, a ideia é realmente aproveitar este momento, em que os direitos humanos andam em voga no setor empresarial, para tentar conseguir que a teoria se transforme em prática.

 

 

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Um eterno contador de histórias

valdir ciminoNo meio do caminho dele tinha um hospital.  Não só em Nova York, onde fez um estágio nos anos 90 na área de comunicação, como em São Paulo, para onde foi logo depois,  também trabalhar com o tema na Rede Globo de Televisão.  E Valdir Cimino, a quem vamos encontrar tantos anos depois como coordenador da Oscip Viva e deixe Viver, aproveitou bem esta coincidência. Entrou, fez contato. Primeiro, com os idosos do Saint Vicent. Depois, com as crianças do Emilio Ribas. Sempre contando histórias.  Mesmo sem ter isso muito claro no início, na verdade Valdir Cimino estava buscando humanizar a relação hospitais/médicos com seus pacientes. Foi desse sentimento que nasceu a vontade de criar a Oscip, de se aliar a parceiros, de buscar ajuda na Lei Rouanet e de convocar voluntários para seguir com ele seu trabalho – hoje são 1.200 voluntários pra cuidar de 65 mil famílias em 77 hospitais . Toda essa história ele conta na entrevista que segue. E, para quem pensa em fazer o trabalho como voluntário da Viva, vale uma observação importante: a Oscip capacita seus voluntários, é criteriosa na seleção. No dia 28 agora, terminam as inscrições para o Rio de Janeiro. Para saber o que fazer, é só entrar no site: vivaedeixeviver.org.br.

Amelia Gonzalez – Trabalhar com literatura num país onde o hábito de leitura ainda não é arraigado é uma tarefa árdua, não?

Valdir Cimino – É sim. Oferecer livro para uma criança brasileira pode ter certeza de que ela vai dizer não gosto, não quero. Então, o que fazemos é entrar com a brincadeira junto. O brincar entra como uma forma construtiva, isso deu certo. Por isso somos contadores de histórias.

Amelia Gonzalez – E quando foi que você começou a ser um contador de histórias?

Valdir Cimino – Foi em Nova York, onde fiz um estágio no início dos anos 90. Eu tinha muito tempo vago durante o dia e meu professor de inglês me deu uma dica: vá conversar numa associação de idosas que se juntam para isso. Uma delas me deu outra sugestão, para eu me associar ao hospital Saint Vicent. Fui lá e fiquei encantado com a seleção dos voluntários,  logo depois estava contando histórias para um deficiente visual, na casa dele. Trabalhei assim durante seis meses. De volta ao Brasil fui trabalhar na Rede Globo e no meio do meu caminho tinha o Instituto Emilio Ribas, onde também trabalhei voluntariamente como colaborador financeiro e doava brinquedos, comida. Mas aí, com o tempo, decidi entrar no hospital para conhecer as pessoas a quem eu estava ajudando e fiquei estarrecido porque percebi quanto as crianças não brincam, quanto elas gastam seu tempo em frente à TV. Então, em vez de comprar brinquedos, passei a contar histórias para eles. No início eu era um contado de histórias solitário, mas logo depois outras pessoas vieram se associar e já eram 36.

Amelia Gonzalez – Quem eram essas pessoas?

Valdir Cimino – Eram meus amigos, a gente fazia tudo de forma bem improvisada, sem capacitação.  Cada um tinha uma vontade, de querer levar as crianças dali para outro lugar. Aí, eu pensei: não nós temos é que transformar o hospital num lugar agradável para elas, porque a realidade é que elas precisam estar aqui. Aí, em 1998 nós decidimos  criar essa Oscip.

Amelia Gonzalez – E aí vieram os voluntários?

Valdir Cimino – Sim, mas eu fiz questão de dar  um treinamento antes, uma capacitação. Até para que os voluntários cuidem, eles próprios, de si. Porque não adianta nada querer ajudar os outros se você não cuida de si.

Amelia Gonzalez – Sim, isso acontece muito, né? O voluntário vai fazer caridade quando está fragmentado, precisando ele mesmo de ajuda…

Valdir Cimino – Pois é. Uma vez aconteceu isso. Uma voluntária começou a chorar muito na frente de uma criança que estava doente. Aqui me impressionou, fui averiguar e soube que ela estava ali mas tinha uma irmã com câncer, já em estágio terminal. Ou seja: a criança que estava recebendo ajuda ficou mal com a tristeza da voluntária. Conversando com uma amiga minha, ela me disse para não aceitar voluntário sem conversar antes, sem saber o que o leva a querer fazer esse trabalho.

Amelia Gonzalez – Essa é uma percepção extremamente consciente. Mas, em geral, o que move os voluntários é exatamente o escape, não é?

Valdir Cimino – A força que emana do voluntariado ainda é a religião, um fator preponderante. Há seis anos desenvolvemos uma pesquisa (que está no site) e a percepção, com as respostas, é que o voluntário do Viva se engaja cada vez mais porque percebe claramente o resultado, que é o bem estar da criança. Quer ajudar o próximo e conhecer pessoas. Nosso voluntariado doa, em média, 16 horas por mês, quatro vezes mais que a média no Brasil, segundo o Ibope. São 1.200 voluntários pra cuidar de 65 mil famílias em 77 hospitais.  O Viva tem seu projeto na Lei Rouanet com R$ 1,2 milhão, valor para cuidar de 1.200 voluntários em 77 hospitais no Brasil. essa massa de pessoas anualmente cuida de 65 mil famílias e 37 mil profissionais da saúde.

Amelia Gonzalez – Bem, esse olhar transcende realmente a visão religiosa. É um investimento, e as empresas percebem isso também…

Valdir Cimino – Vivemos num mundo capitalista e quem investe no voluntariado, mesmo as empresas, começa a ter um olhar mais de investimento sobre essa massa de pessoas porque os benefícios são incalculáveis, tanto para quem doa quanto para a empresa. Em 2001, para você ter uma ideia, éramos 23 milhões voluntários no Brasil e dez anos depois o número foi para 35 milhões . Só que na nossa pesquisa descobrimos que 50% fazem sempre e os outros fazem de vez em quando, ou seja, temos muito que crescer, que se profissionalizar nessa área.

Amelia Gonzalez – Em 2001 a ONU decretou como o Ano do Voluntariado. Isso mudou alguma coisa na vida de vocês?

Valdir Cimino – Mudou muita coisa, a Viva se tornou ponta de lança porque levantamos a bandeira da humanização da saúde, que se tornou uma política pública . O grande barato é que nós estamos influenciando outros profissionais da saúde.  Fomos procurados, por exemplo, pelo reitor da Uuniversidade do Estado da Bahia (Uneb), Lourisvaldo Valentim da Silva, e estamos fazendo, em parceria, uma disciplina de humanização da saúde para seis profissões: médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, farmacêuticos e para o curso de ciências. O próprio reitor disse que isso muda a história porque estamos levando de uma forma lúdica onde o futuro profissional de saúde pode treinar dentro do hospital e dentro da comunidade.

Amelia Gonzalez – Como é que vocês criaram essa parceria com a Uneb?

Valdir Cimino – Quando a nossa Oscip tinha dois anos de vida fui procurado por uma diretora da Secretaria do Estado da Bahia e ela disse que queria levar o Viva para a Bahia. O  primeiro hospital onde atuamos foi o Roberto Santos. Atuamos também no Hospital Geral da Bahia e, nesse último, ficávamos especialmente na sala de queimados, onde o cheiro de carne queimada é muito grande, o lugar é muito difícil. Não conseguíamos reter voluntários, e o próprio gestor do hospital sugeriu que passássemos a trazer essa necessidade de humanização já na formação do profissional de saúde. Porque quando a população reivindicou essa política de humanização, em 2003, o paciente passou a virar a grande vedete. Mas, vou lhe dizer: se o funcionário do hospital não estiver capacitado para isso, desculpa, não vai acontecer.  Foi quando  veio o apelo da Bahia, de querer humanizar até os funcionários.

Amelia Gonzalez – Muitas empresas hoje usam seus programas de voluntariado como uma espécie de selo para uma imagem de empresa sustentável. O que você acha disso?

Valdir Cimino –  Houve um tempo que as empresas não se preocupavam com isso, a questão da responsabilidade social foi um estímulo. O grande problema disso é que em qualquer crise financeira, o programa do voluntariado é a primeira coisa a ser cortada. Antigamente o corte era na área de marketing, hoje é no social.  Ou então, muda o gestor e a primeira coisa que ele faz é cortar aquele projeto.   Mas qualquer ação que você desenvolve com os funcionários versus o entorno dá resultado, é positivo.  A empresa que não der continuidade ao programa de voluntariado está dando um tiro no pé .

 

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Ariel, Sean Penn e um sonho

Não dá para deixar de compartilhar essa história. É muito legal, assiste!

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Voltei! Mas, por enquanto, só pra dizer alô!

Queridos leitores, como eu assumi um compromisso com vocês, aqui estou. Mas ainda preparo um texto bem legal sobre o Forum Social da Tunísia, que irá ao ar na segunda-feira. Quem me acompanha pelo Facebook sabe que não fui para a folia, mas perdi bastante tempo em transporte público, mais especificamente, o ônibus, nesse carnaval. Hoje pela manhã, por sinal, ouvi na rádio que o prefeito Eduardo Paes pensa em diminuir o número de blocos nas ruas no carnaval de 2014 porque viu que não dá certo. Acho que, em parte, ele está com razão. E que também é preciso que ele tenha uma certa dimensão de seus limites antes de “convidar’ tanta gente para a cidade. Diz o ditado que quem não tem quiabo não oferece caruru…

Num dos dias de carnaval fui caminhar na Estrada das Paineiras e voltei de bondinho porque lá em cima não tinha táxi. Fiquei impressionada com a expressão dos turistas que desciam de um dos monumentos mais belos do mundo ao ver a paisagem de uma das cidades mais belas do mundo. Estavam estafados, com calor, dormitando no embalo daquele bondinho que sabe ser desconfortável e quente. Não tinha como alguém ficar feliz em condições tão difíceis. Quando desceram, a primeira coisa com que fizeram contato foi uma lanchonete bem precária com duas pessoas também cheias de calor e com pouca disposição para atender. O desconforto daqueles  que não tinham van ou táxi à sua espera não terminava aí porque tiveram que ficar esperando, num ponto de ônibus com sol a pino, um ônibus que demorou muito tempo para chegar. E muitos tiveram que viajar em pé até a Zona Sul.

Quando penso que, durante a Rio+20, várias vezes ouvi que o Rio de Janeiro quer se inserir no cenário mundial como uma cidade sustentável, percebo que, para isso, será preciso muito tempo e organização. Há várias maneiras de se olhar esse descaso com os turistas no Corcovado, assim como também é possível pensar num jeito de direcionar o povo que chega via Rodoviária ou aeroportos para outros lugares que não apenas a Zona Sul. Para tudo isso é preciso ter estratégia e, com certeza, um olhar menos voltado apenas para grandes obras de infraestrutura. A “casa’ tem que ser arrumada não só para seus moradores como para receber visitas. E era só dar uma caminhada pelas ruas (ruas mesmo, não de helicóptero nem de carro blindado) depois do carnaval para ver que estava tudo muito, mas muito bagunçado.

Assim, não é só diminuir o número de pessoas nos  blocos que importa. Talvez se conseguir diversificar a brincadeira, ou os lugares da brincadeira, já dê para espalhar um pouco mais os foliões. Para isso é preciso chamar a equipe toda e caminhar pelas ruas. Ficar tecendo estratégias de dentro de um escritório distorce o problema que só vê quem está no chão.

Bem, mas deixa eu me organizar para o texto de segunda-feira. Aguardem, acho que vão gostar!

 

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