Como eu consegui provocar a mudança necessária

salada de trigo

Esta salada é uma delícia: trigo, avelã e tomilho. Quem quiser a receita, pode pedir

Quem lê tanta notícia?

Ando me perguntando isto. Sobretudo no período de isolamento, é inacreditável a quantidade de informações que me chega pela web. Nem sempre são notícias que merecem minha atenção total, mas por todas elas eu passo os olhos. Eu e muita gente. Passar os olhos não significa fazer contato.

Hoje, por exemplo, temos a história da quase fritura do ministro Salles, do Meio Ambiente, aquele que disse para aproveitar a doença instalada e fazer passar a boiada. Pegou mal. Deixou o jogo muito explícito, já que não sabia que estava sendo gravado o que dizia.

Além disso, como o presidente Bolsonaro não está podendo circular e produzir notícias escabrosas, nós leitores vamos seguindo passo a passo a desmobilização contra o isolamento Brasil afora. Nosso país está entre os primeiros em casos confirmados da doença, mas já nos consideramos livres da pandemia.

Agora estamos em outra fase, viramos fiscais de quem não segue as regras. Fiscalizamos uso de máscaras, notamos se as pessoas estão nas ruas, nos bares, nas praias. E virou julgamento. Está um julgando o outro porque acredita, ou porque não acredita no vírus. Quem sai e se expõe se sente mais guerreiro do que nós, aqueles que acreditamos na ciência e na necessidade de se praticar o isolamento social para não haver uma mortandade mais acelerada ainda.

Enquanto isto, os comerciantes vão sendo multados porque os clientes burlam a lei. A fiscalização vai em cima dos donos dos bares, não em cima de quem está além do que os governantes comandaram como possível.

Prefiro virar a página.  Recebo muitos vídeos também, como todos vocês devem estar recebendo. Um, em especial, feito pela Nasa e que só agora chegou às redes, chamou minha atenção porque mostra a devastação que a humanidade já causou no planeta. Não é notícia fácil de ler, mas necessária. Talvez alguém esteja precisando só disso para ter um insight, para apertar o botãozinho da transformação dentro de si.

Embora sejamos já 7,6 bilhões de pessoas no planeta, isto representa apenas 0,01% de toda a vida que nos cerca. Na verdade, seria melhor dizer que os humanos cercam outras vidas. E já destruímos 83% da vida animal e 50% da biomassa do planeta.  Metade de toda a terra habitável já está sendo usada pela agricultura. Nos países pobres, estima-se que 120 milhões de hectares de habitats naturais serão convertidos em fazendas até 2050. Eu disse, nos países pobres. Porque seremos, com certeza, aqueles que continuarão a ser usados como recursos.

A pandemia vai mudar este tipo de comportamento?

Não temos bola de cristal para responder a esta pergunta, e os especialistas vão, apenas, especulando. Prefiro contar como eu fiz a minha transformação e que me levou a diminuir minha pegada ecológica. Quem sabe também ajuda a quem precisa só tocar no botãozinho interno para provocar mudança.

Eu tinha engordado. Como já falei no post anterior, ser dona de um restaurante à porta da falência faz a gente buscar compensação. O açúcar, a farinha e algum álcool (não sou alcoólatra, mas adorava tomar uma ou duas tacinhas de vinho à noite… que às vezes viravam três) dão a sensação de bem-estar instantâneo, e na medida. Mas a conta chegou para mim: dores de cabeça constantes, mal-estar digestivo, mau humor…

Meu médico não me poupou.

“Quer melhorar? Precisa mudar de vida. Tire açúcar, farinha e álcool. Ponha água e chá. E passe a comer em prato de sobremesa para diminuir a quantidade”.

Saí do consultório sem vontade de “tentar” a mudança. Quem apenas tenta, pode não conseguir. O que me guiou foi a certeza de que eu iria provocar a mudança. Como ainda não estávamos no meio da pandemia, fui ao supermercado mais perto, comprei frutas, queijo, algum frio. Já não comia carne vermelha há uma década, mas sabia que eu precisaria de algum novo sabor.

Uma amiga esperta em cozinha deu-me a receita de uma panqueca fácil de fazer pela manhã, para substituir os dois (às vezes três, dependendo do nível de angústia) pães que eu comia lambuzados na manteiga. Ovos, castanha do Pará moída, causando a sensação que eu precisava, de estar saciada.

O primeiro dia da mudança era uma sexta-feira e eu tinha o hábito de me encontrar com amigas, cachorreiras como eu, no bar aqui perto de casa. Bebia uma ou duas cervejas. Naquele dia faltei ao encontro. Mas, na sexta-feira seguinte, eu fui. E levei minha própria bebida: um chá de hibisco quentinho numa pequena garrafa térmica.

Mês que vem fará um ano de mudança. E, de lá para cá, decidi tirar totalmente qualquer tipo de carne da dieta. Como ovos, como queijos e muitas oleaginosas. Invisto nas sementes, nos temperos indianos para dar sabor diferente aos legumes (todos os tipos de páprica ou curry), descobri que outra amiga, vizinha, sabe tudo de receitas maravilhosas sem usar nenhum tipo de produto animal. E vou compondo, assim, minha nutrição.

Reduzi dez quilos, estou mais serelepe, durmo melhor, respiro melhor. De quebra, pus em prática aquilo que venho aprendendo na teoria: consumimos muito menos produtos do que a natureza nos oferece. Estamos (mal)  acostumados com o processo de industrialização, que vem facilitando a vida de quem precisa comer rápido, praticamente sem mastigar, com sabores que não surpreendam muito. Portanto, com os produtos de sempre.

Difícil não foi. Passei a usar a expressão “eu mereço”, não diante de um doce cheio de cremes ou de um espumante (adoro até hoje), nem mesmo à frente de pães deliciosos. Eu mereço é viver sem azia, má digestão ou tendo que me entupir de remédios para tirar dor de cabeça.

Esta é a minha história. Singular, única. O fato de estar contando num espaço onde tenho o hábito de escrever notícias, faz parte de minha crença. Penso que estamos, verdadeiramente, num momento de provocar mudanças. Para isto, a rede de informações precisa se ampliar, se diversificar com exemplos e casos de quem conseguiu, de quem tentou e não conseguiu, de quem desistiu ou de quem continua tentando.

Esta troca é saudável.  E nos tira do lugar de meros receptadores de notícias.

 

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No Centro do Rio, um caminho de abandono

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Por quase dois anos era esta a minha rotina: empurrada pela turba, descia do Metrô na Estação Carioca na hora do rush da manhã. Ainda a passos pequenos, espremida, seguia em busca da escada que mais espaço tivesse. Quando estava de salto alto, enfrentava a maior fila, a da escada rolante. Uma, depois outra. Era sempre meio mágico observar a diferença de nuance, entre o pálido claro das luzes de dentro da estação e a claridade da manhã que se impunha, natural, quando o rolar das escadas ia chegando à rua.

O burburinho que as pessoas faziam na estação também ia cedendo, aos poucos, para a barulhada da rua, para o som dos camelôs oferecendo, aos gritos, os seus produtos. Lembro-me bem de um, que vendia raquete para matar mosquitos e não parava de fazer um estalinho, roçando algo metálico na rede de fios emaranhados da raquete. Custava R$ 40,00. Sempre ficava na dúvida, se comprava ou não. Nunca comprei.

Descia os dois degraus laterais da estação, passava pela loja que expunha doces cremosos, atraentes. Eu consiga passar por eles sem ceder à tentação, embora nos quase três anos em que me vi dona de um restaurante popular na Sete de Setembro eu tenha conseguido aumentar a minha circunferência abdominal em quase dez centímetros. Felizmente, já recuperei a forma.

Seguia pelo Largo adiante. Eu e muita, muita gente. No verão, o sol chegava cedo, e eu sempre me arrependia da roupa que estava usando. Não é fácil encarar o calor urbano dentro de um restaurante cheio.

Os camelôs ocupavam toda a praça. Às vezes tinha uma feirinha de artesanato, em outras eram só poucas pessoas a vender seus produtos sobre um plástico preto jogado no chão. Nenhuma fiscalização, é claro. Quando apareciam os guardas, era fácil levantar tudo, fazer uma trouxa e ir para outra esquina. Como sempre, desde muito.

Em 2018, último ano de minha falida empreitada como negociante, a crise econômica avançava com tudo e foi  mudando a paisagem. Dia após dia eu observava mais pedintes, menos vendedores. Famílias de pessoas que haviam perdido seus tetos, por conta dos desmandos daqueles que regem o sistema, iam trazendo para a rua os restos daquilo a que chamavam lar. Colchões, roupas, brinquedos, cães de estimação, iam encontrando guarida nas beiradas das entradas e saídas laterais da Estação do Metrô.

E o barulho foi mudando. A turba de pessoas que saía da Estação, muitas ainda incluídas no sistema, se calava diante do quadro de miséria que se alastrava debaixo dos nossos olhos. A angústia crescendo. Em alguns dias, para aplacar a aflição, eu me virava ao contrário, seguia a caminho da Avenida Rio Branco, onde sempre encontrava a vendedora de livros usados. Tenho até hoje pilhas de Agatha Christie, George Simenon, autores que me ajudavam a dormir em meio aos pensamentos acelerados que teimavam em se fixar num futuro sem cor.

Ontem fiz este mesmo trajeto.

Saí do meu gueto dos isolados e fui comprar um tanque no Palácio das Ferramentas, na Rua da Carioca, em frente à porta de ferro do meu restaurante, hoje já cerrada definitivamente. Podia ter feito outro caminho, podia ter comprado pela internet. Mas, na parte da manhã, enquanto lia a reportagem do “O Globo”, em que especialistas em urbanismo apontam um caminho para o Centro do Rio, fiquei com vontade de voltar lá.

O Metrô estava quase vazio, mas fui num horário alternativo, portanto não posso dizer que haveria a mesma turba de outrora a me empurrar vagão afora. Tive medo do contágio o tempo todo. Passei álcool gel não sei quantas vezes nas mãos, reforcei a máscara. E desci na mesma Estação Carioca, quase cem dias depois de me trancar. Cem dias sem dar um passo além do quadrado onde moro e caminho diariamente para pegar um pouco de sol e levar os cachorros à rua.

As laterais da Estação estão fechadas. Não vi moradores de rua. Mas, no centro de um dos largos mais famosos da cidade que ainda é o segundo centro econômico mais potente do país que é a oitava economia do mundo, um pequeno entulho chamou minha atenção. Eram as tralhas de um morador de rua, que deixou para trás o cobertor que o aquecera à noite, junto com outros tantos panos. Nós, humanos, e nossa mania de ir juntando tralhas.

Segui pela Rua da Carioca. Lojas de instrumentos musicais abertas, uma outra que vende produtos eletroeletrônicos com meia porta aberta e uma sinistra fita amarela impedindo a entrada. Se quiser, tem que pedir e esperar. Pouca gente, muito pouca gente circulando. Na pequena travessa que liga a Carioca à Sete de Setembro, além do restaurante de prato feito que ainda mantém portas abertas, todas as outras lojas estão fechadas.

Lembrei-me de uma loja onde eu comprei certa vez uma malha de ginástica, e era bem legal. Tinha a escola de música, que sempre me animava os passos, mesmo quando, já percebendo que o fim do negócio se anunciava em letras garrafais e megafone, eu me arrastava, triste e angustiada como meu redor.

O Teatro Saara do Largo de São Francisco! Atores e atrizes encenavam peças ali, a preços populares. Um dia bateram lá no restaurante, pedindo permuta, eu concordei. Era uma alegria vê-los entrar, em bando, para almoçar quando terminavam o espetáculo. O Teatro Saara, hoje, tem um plástico preto cobrindo seu nome. Virou um  estacionamento.

Aliás, uma coisa me chamou a atenção: a quantidade de carros parados no Largo de São Francisco não condiz com a quantidade de gente na rua. De onde virão?

Comprei o tanque, dei uma espichada no pescoço para olhar mais uma vez. Os prédios são os mesmos, o trenzinho do VLT continua passando. Ele não cumpriu a promessa de transformar a rua num boulevard. E os imóveis do entorno estão mais velhos, carcomidos, sem manutenção.

Voltei para casa de táxi. Na volta, reparei que o sapateiro que um dia consertou meus sapatos permanece ali, na calçada do Teatro Carlos Gomes. Ocupa as mesmas pedras que, um dia, foram pisadas por artistas maravilhosos. Assisti lá Bibi Ferreira encenando “Gota D`Água”.

Ontem, um vento soprava no início da tarde. Já dentro do táxi, de máscara e totalmente isolada do motorista, vim pensando no livro que estou escrevendo, onde conto a história do meu empreendimento fracassado. Do dia em que decidi ampliar minha expertise e empregar num pequeno negócio tudo o que eu vinha aprendendo sobre desenvolvimento inclusivo.

Pedi ao motorista para passar devagarinho pela Praça Tiradentes e fui me lembrando de quando aguardava ali meu sócio, aos sábados de madrugada, para irmos ao Ceasa. No verão, ainda pegávamos os bares abertos com os frequentadores da noite anterior.

O vento levantava algumas folhas e ia colorindo de cinza o cenário de cidade abandonada. Abandono causado primeiro pela crise econômica e realçado pela crise sanitária. Precisamos mudar este astral.

 

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O recado das empresas ao governo brasileiro

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Foto por Andreas Wohlfahrt em Pexels.com

“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis/Elas desejam ser olhadas de azul/Que nem uma criança que você olha de ave”.

E assim, o poeta e mestre das palavras desconcertantes, Manoel de Barros, vai me ajudando a construir o texto de hoje. E a pintar de azul – seria a cor da esperança? – por exemplo, a notícia de que 40 empresas de grande porte  decidiram cobrar do governo atitudes mais responsáveis com relação ao meio ambiente.

O Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável enviou-me o e-mail com o teor da carta endereçada aos corredores do poder executivo. Particularmente, diz o texto, “esse grupo acompanha com maior atenção e preocupação o impacto nos negócios da atual percepção negativa da imagem do Brasil no exterior em relação às questões socioambientais na Amazônia. Essa percepção negativa tem um enorme potencial de prejuízo para o Brasil, não apenas do ponto de vista reputacional, mas de forma efetiva para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o país”.

Já estava eu comemorando, achando que dessa vez vai dar certo, quando a notícia de que o chefe do executivo mandou cortar os cuidados básicos – água potável, cestas básicas, produtos de higiene e cuidados  médicos – que estavam sendo dados aos indígenas(https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-sanciona-com-varios-vetos-lei-de-protecao-a-indigenas-na-pandemia,70003357556) me fez acreditar que o trabalho dos empresários vai ser bem árduo. Sobretudo “do ponto de vista reputacional”, um país que nega aos povos tradicionais o direito de receberem tratamento adequado, como cidadãos que são, não está nada bem na foto. E, desse jeito, esta imagem só tende a piorar.

Felizmente – vejam que insisto em olhar as coisas “de azul” – a nova ordem mundial que começa a surgir, colore de estranheza essa atitude do presidente Bolsonaro. Neste sentido, os empresários e as instituições que assinam a carta estão milhas à frente, mais conectados com as propostas de um olhar diferente, mais inclusivo e menos extrativista, sobre o futuro. Economia circular é uma expressão usada mais de uma vez na carta (pode ser lida aqui: https://www.google.com/url?q=https://cebds.org/wp-content/uploads/2020/07/cebds.org-setor-empresarial-cobra-agenda-sustentavel-do-governo-brasileiro-0707-)comunicadosetorempresarial.pdf&source=gmail&ust=1594307065676000&usg=AFQjCNHe-S4_leaSjbB9zFlzkqsX9YbKPA).

Acaba de ser lançado o livro “Economia do Bem Comum”, escrito pelo francês Jean Tirole, que vem prometendo ocupar o pódio de pensador econômico da atualidade ao lado, por exemplo, de Thomas Piketty, autor de “O Capital no Século XXI”, em 2013. Legitimamente, Piketty ocupou espaço na mídia e foi alçado, então, à categoria de “rock star da economia”. Seu nome já não ocupa mais tanto espaço, característica perversa dos nossos tempos digitais, que amam e desprezam com a mesma intensidade.

Tirole se dispõe, em mais de 500 páginas e dezesseis capítulos – que ainda não li inteiras porque acabo de adquirir por internet – a dar valores e eliminar a arbitrariedade que modela o exercício de definição do bem comum. É preciso. O objetivo é nobre: que se consiga delinear uma existência possível, que respeite não só as empresas que têm ferramental para extrair lucro dos recursos naturais, como as pessoas físicas, incluindo certamente os indígenas, os quilombolas e ribeirinhos, que precisam preservar as florestas para sua própria existência.

Impossível? Não. Mas vai ter que mudar muita coisa. A começar pela política ambiental, aquela que fala em “passar a boiada” sem respeitar limites.

Reputação, meus caros, é algo que se constrói devagar, pintando de azul os pensamentos, obedecendo  o sagrado direito de todos existirem. As empresas brasileiras – que bom! – já perceberam isto.

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A era dos desafios

Há uma necessidade imperiosa no ar: redefinição.

Este é o mote da palestra TED de George Monbiot, que acabo de ouvir e gostaria de compartilhar com vocês. Monbiot assina uma coluna no jornal britânico “The Guardian” sobre meio ambiente e ecodesenvolvimento. A fala dele me envolveu, precisamente porque tem muito a ver com o que penso sobre o que há por vir.

Temos sido enganados e explorados há décadas, adverte Monbiot. Quer seja por quem trouxe a ideia de que era preciso fortalecer o Estado, quer seja por quem trouxe a ideia de que o Estado mínimo é o que há de melhor para nosso desenvolvimento. Chegou a hora de redefinir estratégias, de “recuperar a democracia das mãos das pessoas que tomaram posse dela”. Provocação instigante.

Monbiot não se restringe à retórica reflexiva, ele apresenta uma proposta que gira em torno dos bens comuns. Consistem de três elementos principais, diz ele: “Um recurso específico; uma comunidade específica que administre este recurso; regras e negociações que a comunidade desenvolve para gerenciá-lo”.

A proposta de Monbiot não é novidade, já tem sido debatida, mas não está “nas redes”, este novo normal de captar informações. Ando pensando que as redes sociais  substituem as velhas e boas livrarias, com quem se tinha uma relação direta com o livreiro para saber das últimas publicações. Ou a boa e velha banca de jornal, lembram-se? No tempo em que banca de jornal vendia jornais, não balas, biscoitos e refrigerantes. Como era bom entrar num boteco antes de entrar para o trabalho, pedir um café perder o olhar na banca, destrinchando as notícias, comentando ora com um, ora com outro que passava e adotava a mesma postura. Daí que Caetano cunhou: “Quem lê tanta notícia?”

Mas, sigamos com nossa informação, e tomara que ela alcance “as redes”, que hoje bombam com a história de uma mulher que defende seu parceiro contra o inimigo – um agente sanitário pedindo que ele use máscara – dizendo que ele é um “engenheiro”, não um “cidadão”. Sinceramente? Eu poderia muito bem ficar sem ver esta cena.

Prefiro voltar minha atenção para pensamentos que podem ajudar a compor, não a destruir. Vejam o que diz Monbiot: “Um bem comum não pode ser vendido, nem doado, e seus benefícios são compartilhados igualmente entre os membros da comunidade”.

O colunista britânico fez surgir duas memórias bem distintas do meu HD particular.

A primeira memória vem de cinco anos atrás, quando fiz minha primeira viagem ao Arquipélago do Bailique, no Amapá, ali no cocuruto do Brasil, pertinho das Guianas. O Bailique 50 ilhas, perto de onze mil moradores, e para lá fui convidada quando eles estavam no processo de definir um Protocolo Comunitário. Este título é difícil, não cabe em manchete nem atrai os distraídos. Mas, resumidamente, trata-se, justamente, de estabelecer regras locais para compartilhar bens comuns de uma comunidade. Sem interferência de ninguém que não tenha nascido ali.

Minha viagem ao Bailique foi das experiências mais incríveis de minha vida de repórter. De barco, meio de transporte possível para aquelas pessoas, elas se deslocaram quilômetros para se sentarem juntas, no galpão alugado pelo Grupo de Trabalhos Amazônicos (GTA), na época dirigido por um mobilizador social de respeito, o Rubens Gomes (infelizmente já falecido). Ali foram costurando, passo a passo, as normas de convivência de sua comunidade. O encontro durou uma semana inteira. Fiquei até o final, não me afastei um só dia.

Um exemplo pode ilustrar bem o detalhamento que foi necessário para escrever o Protocolo (o Bailique foi a primeira comunidade brasileira a ter um). Lá a carne do bicho preguiça é muito usada. Os próprios moradores vão à caça. Ocorre que estava acontecendo uma sobrecaça, e já se davam conta de fêmeas grávidas sendo abatidas, o que resultaria, sem dúvida, na extinção dos animais. Consequentemente, na falta desta proteína na mesa dos bailiquenses.

Pois o Protocolo Comunitário, feito por cada um dos habitantes, fez constar esta regra: é preciso caçar preguiça com responsabilidade. Obrigatório deixar as fêmeas prenhes seguirem o curso de sua natureza, respeitando um período para que elas possam se reproduzir. Durante este período – poderíamos chamar de defeso do bicho preguiça? –  a comunidade se alimentaria de outros produtos. Assim foi feito, escrito e documentado.

A outra lembrança que Monbiot despertou em mim foi o livro “O negócio é ser pequeno”, do economista alemão, já morto, E. F. Schumacher. Ele o escreveu em 1976, e logo depois sofreu um infarto fatal. Se estivesse vivo, certamente estaria sendo revisitado para contar o que conta em seu livro: é preciso valorizar o desenvolvimento local. Antes de a expressão “mais é menos” ser adotada pelo universo digital e ser viralizada, Schumacher já escrevia, baseado em pesquisas e estudos, como as escolhas devem feitas localmente são mais legítimas e têm mais sentido.

Monbiot termina sua palestra de forma otimista, conclamando a que se use novas regras e novos métodos de eleições para garantir que o “poder financeiro nunca supere o democrático novamente”. E lembra um detalhe importante. Sim, o mundo está polarizado, mas há duas expressões que são universais, que são percebidas tanto pela esquerda quanto pela direita: pertencimento e comunidade.

Assim sendo, é hora de redefinir a democracia representativa, por uma democracia participativa. E refinar nossas escolhas políticas. Em nome de melhor qualidade de vida, que inclui o cuidado e o respeito com o ambiente que nos cerca.

 

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Crônica da diversidade

image1Tem gato que se chama Mio.

Tem cachorra que se chama Mia.

Tem o Beto cachorro, tem o Beto que zela pelo prédio. Tem também a Maria, cachorrinha velhinha e bem pimpona, respeitada até pelos dois irmãos caninos do segundo andar, lindos, a turma do barulho. 

Ah! E tem também o Che, passarinho danado de abusado que não quer saber do perigo. Vem aqui na minha janela beber água e deixa Mio e Zuda, do muro ao lado, com os olhos estatelados, lambendo os beiços. Mas Che é esperto, voa rápido que só ele. E só bebe água fresca. Se eu me esqueço de trocar, ele vai beber na vizinhança.

Tem palhaço! E tem palhaçada no corredor, a sério. O Café Pequeno, na verdade o ator Richard Riguetti, que vive de fazer arte para muita gente na rua e nos palcos, criou assim seu jeito de enfrentar a pandemia, esta mesma que obrigou todo mundo a ficar isolado. E a manter distância. Não se junta mais gente. Cadê a arte de rua? A foto do post é de uma apresentação, foi clicada por Juliana Garçon.

As crianças do prédio adoraram a palhaçada.

Tem gente que escreve, gente que lê e escreve, gente que cuida de gente! Isto tem mais de um. Tem jornalistas, assim mesmo, no plural.

E músicos, também tem! À tarde, é só esperar para ouvir o clarinete, o oboé…

Tem gente que faz cristais da boa energia e sai pendurando, dando para quem mais gosta. Tem vitrais que mais parecem com igreja, lindos.

É assim o prédio onde eu moro.

Pequenino, fica no fim da rua tranquila. Quando veio a ordem de ficar todo mundo em casa, foi um tal de um ajudar o outro, fazer compras, emprestar coisas. Manteiga, livro, açúcar, dendê… já rolou de tudo. 

 Quem sai, como eu, fica no quarteirão. É só para respirar e andar com a cachorrada. Ou pegar um solzinho com as crianças.

Mas não estou dizendo que vivemos em total harmonia. Até porque, como já estamos cansados de saber, essa tal de harmonia é só para inglês ver, para vender margarina aos que acreditam que a paz mundial tem uma receita única. Ou para fazer falsas promessas, que delas já estamos cheios.

Ser humano é diverso, cada um é um. Somos todos, como diria Friedrick Nietzsche, filósofo e poeta,  humanos, demasiado humanos. Portanto…já rolou discussão, muxoxo, um vira a cara para o outro, o outro vira a cara para o um.

Se tem muito barulho no prédio, nossa! Eu mesma viro bicho. Se aparece barata, ah… o Beto que zela pelo território vai ouvir…

Hoje acordei pensando nisto, hoje acordei acreditando na diversidade. A natureza é diversa, toda gente é diversa. Respeitar o poder da diversidade é uma das chaves que pode abrir as portas para uma civilização diferente. 

 Peguei da estante “Morte e vida das grandes cidades”,  de Jane Jacobs, lançado aqui pela editora Martins Fontes. Um livro gostoso de ler, com tanta informação que é impossível não identificar, nos pés e nas patas do meu prédio, o balé urbano sobre o qual ela fala. Um livro que quero sugerir aos leitores – sobretudo aos que estão estudando urbanismo –  porque estamos num momento de perceber, de abrir os olhos, de ficarmos atentos a tudo. Estamos num momento de acreditar que é possível mudar, que não podemos nos agarrar a uma fajuta “volta à normalidade”. Não depois de tudo que estamos vivendo. 

Jane foi uma super ativista social canadense, morreu em 2006 aos 90 anos. “Morte e vida das grandes cidades” foi seu grande gol, lançado nos Estados Unidos em 1961, que chegou aqui só no início deste século. O tema central é Nova York, cidade onde Jane viveu. Jane usa uma linguagem bem atraente, conta histórias a partir de sua própria vivência. E é deste jeito que vai construindo uma narrativa de oposição ao estilo higienizado e asséptico criado pelos arquitetos dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam). O Ciam foi uma instituição lançada na Europa nos anos 20, depois da I Guerra, para defender e difundir um ideário de arquitetura e do urbanismo modernos. Na verdade, para recuperar grande parte das cidades que foram derrubadas com os bombardeios.

Quando Jane lançou o livro, Brasília estava sendo construída exatamente sob os moldes de Le Corbusier, arquiteto que escreveu “Carta de Atenas”, livro do qual também gosto muito. Le Corbusier foi membro dos Ciam.  Na verdade, fico bem em cima do muro, entre um e outro plano de urbanismo. E decido gostar dos dois. 

Para Jane, cidade tem que ser diversa, pobre misturado com rico, rico misturado com remediado, todo mundo experimentando a vida. E assim vai se ajeitando. Não adianta impor um padrão, porque nós, humanos, não somos padronizados.

Le Corbusier constrói cidades que se adaptariam melhor à pandemia. Para ele, é preciso ter espaço entre as casas, é preciso que as ruas sejam setorizadas: comércio com comércio, banco com banco, empresa com empresa, residências com residências. Organiza mais. Por outro lado, tira a riqueza da diversidade.  

Fiquei enfeitiçada pelo texto de Jane. Uma frase, em especial, chamou minha atenção e está me ajudando a alinhavar meu pensamento: 

“Há um aspecto ainda mais vil que a feiura ou a desordem patentes, que é a máscara ignóbil da pretensa ordem, estabelecida por meio do menosprezo ou da supressão da ordem verdadeira que luta para existir e ser atendida”.

Estamos vivendo um momento especial no mundo, no  Brasil. Ainda mais no Rio de Janeiro. O professor e escritor Luiz Marques descreve assim no artigo que escreveu para o site da Unicamp, onde leciona:

“A atual pandemia intervém num momento em que três crises estruturais na relação entre as sociedades hegemônicas contemporâneas e o sistema Terra se reforçam reciprocamente, convergindo em direção a uma regressão econômica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recuperação. Essas três crises são, como reiterado pela ciência, a emergência climática, a aniquilação em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela indústria química”.

Ou seja: é um momento danado de ruim para se ter uma crise de saúde. 

Mas, já que não há outro jeito, o meu desejo é que a gente consiga sair dela com valores diferentes. Nem melhores, nem piores, mas diferentes. Para que isto aconteça, precisamos conhecer mais, descobrir autores que nos possibilitem reflexões. Eis a minha contribuição de hoje.

 

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Um Vale do Silício no Morro do Alemão: é o sonho de Lucas Lima, jovem que criou uma impressora 3D com sucata

Ele tem 25 anos, mora no Complexo do Alemão e criou uma impressora 3D usando material de sucata. Ficou três meses indo a todos os ferro-velhos que conhecia, gastou apenas R$ 680,10. Assim, ajudou as cooperativas que vivem de vender ferro-velho, reciclou as peças. Seguidor de Paul Singer, o economista que criou a Economia Solidária, o jovem Lucas Lima ficou satisfeito com o resultado:

“Li muito Paul Singer. Trabalho dentro daqueles três pilares: o econômico, o social, o ambiental. Ele diz isto, que toda produção precisa respeitar esses três pilares para que ela seja sustentável”, diz Lucas Lima.

O jovem ainda estava na faculdade, estagiando em Engenharia Mecânica, quando criou a impressora. Foi assim, só mesmo por curiosidade e vontade de fazer algo diferente. Estudou tudo via internet e conseguiu. Ganhou mídia, muita gente falou a respeito.  Ele passou a lecionar, dá aula de robótica educacional, e engrandeceu o sonho: quer transformar a favela onde mora, com 70 mil habitantes, num Vale do Silício!

Conheci Lucas Lima quando ele participou do programa “Papo com Favela”, que o jornalista Andre Balocco põe no ar duas vezes por semana,  em suas redes sociais. O objetivo de Balocco é aproximar o asfalto das comunidades. Sobretudo agora, que estamos isolados, o fosso entre esses dois mundos ficou ainda maior.

A pandemia travou o sonho de Lucas Lima, mas não o desanima. Ele ainda quer retomar. Pensa em criar uma fab lab dentro da favela para aproveitar os inúmeros talentos jovens que ficam à toa por falta de ferramentas e de incentivo.

“A ideia é ajudá-los a desenvolver esta mentalidade criadora. A impressora 3D é a porta de entrada para outras tecnologias porque ela possibilita fazer qualquer coisa, desde jogos a pequenos bonecos. É mais do que um produto, é uma ferramenta de mudança. Quero que os jovens trabalhem comigo e construam as suas próprias, construam outras tecnologias, não só para o mercado externo, mas para o mercado interno também. Favela é uma cultura, não tem como fugir disso.”

Lucas Lima está agora, momento de pandemia, mais aferroado do que nunca aos seus equipamentos. Tem sete impressoras em sua casa, faz lives, participa de podcasts – “Nunca pensei que fosse depender 100% de internet”. Amigos tentam estimulá-lo a dar curso online, mas ele esbarra na questão prática: não são todos os jovens da favela que têm computador e internet. Uma realidade que os donos das grandes empresas que espraiam a tecnologia virtual certamente pretendem mudar em pouco tempo. Vão facilitar cada vez mais este acesso. E isto é bom?

“Tem um lado bom, mas pode ser um perigo. Os adolescentes se viciam, ficam o tempo todo quando têm chance. Eu mesmo fui um adolescente que ficava no computador de meio-dia, quando eu voltava da escola, até duas da madrugada. Direto! Mas amadureci, hoje não faço mais isto e passo para os jovens esta lição. Hora de almoçar, é hora de almoçar. Tem que ter uma boa noite de sono. A gente não pode deixar que as máquinas nos consumam”.

Lucas Lima se autointitula um empreendedor. No dicionário, esta palavrinha significa ativo, despachado, diligente, desembaraçado. Quando foi abraçada pelo mundo dos negócios, tornou-se atributo de todos aqueles que conseguem tocar um projeto à frente mesmo em condições pouco favoráveis.

“Costumo dizer que sou um empreendedor em constante fase de adaptação. Para mim, ser empreendedor é resolver situações usando o mínimo viável, causando o maior impacto social possível, gerando renda, sem degradar o meio ambiente”.

Lucas Lima tem sido bastante requisitado para falar de sua experiência, considerando-se inusitado o fato de um jovem da favela ter conseguido empreender. E já se encontrou até com Yuval Noah Harari, o historiador que escreveu “Sapiens – uma breve história da humanidade”,  quando ele esteve no Brasil para lançar seu livro.

“É uma pessoa tranquila, não tem nada de esnobe. Conversamos um bocado. Falamos sobre o fenômeno da máquina substituindo o homem. E sobre o desemprego que isto já está causando: até 2025 o mundo terá 26 a 30 milhões de desempregados porque as máquinas estarão fazendo o papel deles. O homem vai ter que se reinventar. Mas eu acredito nisto, o homem se atualiza, ele é mutável”.

Um dos últimos podcasts do qual Lucas Lima participou girou sobre o tema “Cyberpunk”, ficção científica conhecida por seu enfoque em alta tecnologia e baixa qualidade de vida.

“O ser humano cria as máquinas para fazer o serviço que ele não quer fazer. Ou para fazer uma coisa que dá trabalho. Mas ele tem que se readaptar, não deixar que elas avancem muito. Tem que aprender a como utilizar essas máquinas. Elas são programação, atuador e receptor. São variáveis que possibilitam qualquer tipo de programação. Por trás de cada máquina há um ser humano, e ele está no comando. Hoje em dia estamos totalmente dependentes da máquina, uso a internet 80% para estudar e 20% para diversão.”

Mesmo com tanta dependência, o jovem está consciente de que precisa dar limite para tanta tecnologia.

“Tem pessoas que viram escravas da tecnologia, que não olham mais para os olhos, acham uma tela de celular mais segura do que o olhar dos humanos. Desse jeito, volta duas casas para trás. O que é bom pode ficar ruim. Depois que eu amadureci, e passei a dar à internet o devido valor na vida, sem exagero, minha vida melhorou muito. Adoro tomar uma cervejinha no bar com os amigos, por exemplo, não tem papo virtual que substitua isto”.

Mas é um programa que precisa esperar a pandemia passar…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Pensamentos sobre campos de quinoa

Para pra pensar!

Não, eu simplesmente não consigo seguir este ensinamento tão antigo. Meus pensamentos são nômades, gosto de pensar enquanto caminho.

Hoje, por causa do isolamento, estou mais restrita. Assim mesmo, dia após dia consigo descobrir algo novo nas calçadas de sempre às quais o vírus me confinou. Meus pensamentos caminham comigo, “convido” autores e me entrego a debates imaginários.

O meu blog, finalmente, mostra as caras aos amigos, parentes, meus seguidores de antanho. Foi um processo esta criação, teve idas e vindas, mas cá está, em última versão e de nome novo: Ser Sustentável.  O mote é o mesmo.  Há muito que venho ocupando espaços na mídia espalhando informações e refletindo muito sobre desenvolvimento, tema que vem se ampliando, se inflamando, inquietando muitos, aquietando alguns.

E hoje, em meu caminho, fui pensando nos campos de plantação de quinoa, semente que vem fazendo parte do meu cardápio diário, sobretudo depois que abri mão de comer proteína animal.  Quinoa é uma semente linda, originária da América Central e de parte da América Latina. O campo de quinoa, quando está florido, se parece um pouco com o de lavanda, porque as folhinhas nascem no topo do caule. E é uma delícia!

A quinoa ocupou hoje os meus pensamentos porque, nesta sexta-feira (26), assisti uma coletiva de imprensa digital da L`Oréal. O evento durou o dia todo, mas eu foquei na sessão que explicou as novas ambições de sustentabilidade da empresa até 2030, cujas informações foram passadas pelo presidente da empresa, Jean-Paul Agon, e pela Vice-Presidente de Sustentabilidade, Alexandra Palt.

Foi Alexandra Palt quem falou sobre a quinoa. A empresa está usando a semente para fazer xampu, vejam só! E já está ajudando produtores da Bolívia, de onde vem a quinoa para sua indústria, no sentido de evitar que o terreno onde plantam a semente fique degradado por causa do uso intensivo.

O projeto de ajuda aos produtores bolivianos faz parte, segundo informou a executiva, do plano montado pela empresa, que pretende garantir que 100%  das matérias-primas empregadas em sua produção virão de fontes sustentáveis. Como as corporações gostam de apelidar seus programas, os compromissos de sustentabilidade apresentados pela L`Oréal para 2030 receberam o nome de “L´Oréal Para o Futuro”.

A empresa anunciou um valor – 100 milhões de euros, o que quer dizer cerca de R$ 930 milhões – em investimentos que vão gerar impacto social e ambiental. O dinheiro será distribuído nos próximos três anos. Este valor será dividido meio a meio, e vai priorizar as mulheres no aspecto social. A outra metade vai ser usada para financiar projetos de restauração de ecossistemas marinhos e florestais naturais danificados, por meio do Fundo L’Oréal para a Regeneração da Natureza.

Em vez de ela própria gerar projetos, a empresa vai distribuir esse dinheiro para organizações da sociedade civil, entendendo que esta é a forma adequada. E é mesmo. Desde que leio e estudo sobre o empenho corporativo em mitigar seus impactos socioambientais, uma das maiores queixas da sociedade civil organizada é quando as empresas decidem as coisas por conta própria. Parceria é tudo, sobretudo nesta hora de crise tão aguda.

Jean-Paul Agon falou sobre a pandemia, disse que entende que é um momento de urgência. A uma das perguntas da plateia digital, sobre os efeitos do vírus em seus negócios, ele lembrou que o E-commerce (compra via sites) está deixando claro que as pessoas não pararam de consumir seus produtos. Apenas mudaram o meio de fazê-lo.

Pensando a este respeito, fui puxando da memória os tantos momentos em que participei de apresentações como esta, da L`Oréal. Quando foi mesmo que as empresas se sentiram parte do processo, e não somente no lugar de extrativistas? Ah, sim, um nome veio à lembrança: Stephan Schmidheiny.

Cheguei em casa e busquei na estante o livro “Mudando o Rumo – Uma perspectiva global sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente”, escrito por Schmidheiny e editado em 1992, logo após a Conferência Internacional do Meio Ambiente que aconteceu aqui no Rio. Foram tempos gloriosos aqueles. Não foi a primeira conferência internacional sobre o tema, já que em 1972 houve a histórica Conferência de Estocolmo, mas 92 foi uma espécie de marco para uma tomada de consciência coletiva.

Schmidheiny é um empresário suíço bilionário que, àquele tempo, decidiu juntar seus pares numa declaração conjunta de respeito ao meio ambiente e à sociedade a partir daquela data. O livro é uma espécie de carta-declaração neste sentido, e foi assinada por 47 empresários.

Infelizmente o compromisso ali assinado, de “satisfazer as necessidades do presente sem comprometer o bem-estar das futuras gerações” não foi cumprido a contento. Outros compromissos e metas foram surgindo, ano após ano, reunião após reunião internacional.

Chegamos a 2020 e, no ano passado, um balanço dos progressos realizados em direção às metas de diminuição dos gases de efeito estufa estabelecidas, o Missão 2020, publicado pelo World Resources Institute, afirmou que “na maioria dos casos, a ação foi insuficiente ou o progresso foi nulo”.

“Nenhuma das metas, em suma, foi alcançada e, em dezembro passado, a COP25 em Madri varreu definitivamente, em grande parte por culpa dos governos dos EUA, Japão, Austrália e Brasil (Irfan 2019), as últimas esperanças de uma diminuição iminente das emissões globais de GEE”, escreve o professor Luiz Marques, do Departamento de História do IFCH /Unicamp, autor do excelente “Capitalismo e Colapso Ambiental”.

Portanto, por mais que a L´ Òréal e outras tantas empresas estejam fazendo o dever de casa, que inclui exigências rígidas para que seus fornecedores também imprimam rigor na mitigação dos efeitos de sua produção, ainda estamos devendo à natureza. Em meu caminho, penso em soluções. Não existe uma única, mas podem surgir várias.

Por isto convidei também, hoje, o economista E. F. Schumacher para caminhar comigo. O alemão morreu logo depois de ter escrito “Small is Beautiful”, que aqui no Brasil recebeu a tradução de “O negócio é ser pequeno” e foi editado pela Zahar. Pode ser encontrado em sebos.

Muito resumidamente, o que diz Schumacher é que é preciso evitar o gigantismo e focar em desenvolvimento local. Esta é a saída que ele apontava, quatro décadas atrás, para o imbróglio em que nos encontramos. E que não é só ambiental, tendo em vista que a desigualdade social atingiu um nível alarmante: os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial, segundo relatório da Oxfam.org publicado em janeiro deste ano.

No subtítulo, Schumacher diz: “um estudo de Economia que leva em conta as pessoas”.

Meus pensamentos foram me levando a outro personagem importante. Relator especial da ONU, Jean Ziegler comenta que as empresas, hoje, “têm um poder que jamais um imperador ou papa teve na história da humanidade”, já que 500 multinacionais privadas têm 52% do PIB do mundo.

Empresas são pessoas que, um dia, tiveram a chance de ter em mãos uma máquina para fazer coisas que as mãos do homem não conseguem fazer sozinhas. Somos nós, portanto, que temos também a chance de criar oportunidade neste grande risco dos nossos tempos. O vírus corona fez reduzir em quase 8% as emissões globais de CO2 (ainda segundo Luiz Marques), mas não abriu sequer um dente na curva cumulativa das concentrações atmosféricas desse gás, medidas em Mauna Loa (Havaí).

“Elas bateram mais um recorde em abril de 2020, atingindo 416,76 partes por milhão (ppm), 3,13 ppm acima de 2019, um dos maiores saltos desde o início de suas mensurações em 1958.”

Tudo bem. Mas abre caminho para que se possa vislumbrar soluções.

Os cuidados com as plantações de quinoa certamente começaram a ser alicerçados em 92, com a tomada de consciência de que os bens naturais são finitos. E hoje, em meio à crise que promete revirar muitos valores e mudar paradigmas, talvez seja possível imaginar que não seria necessário investir na mitigação deste dano se a empresa seguisse alguns dos principais pensadores, incluindo o Papa Francisco, que advertem para a necessidade de baixar os níveis de produção. E de consumo.

Eis o ponto mais sensível.

Vamos adiante, caminhando e pensando.

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Boas lembranças dão imunidade

IMG_4359Lá no cocuruto do caminho que às vezes uso para descansar a mente e os olhos, estava eu, justamente,  fazendo um exercício qualquer quando ouvi, ao fundo, uma voz feminina:

“Mas meu filho, espera um pouco. Estou aqui ainda desenrolando a linha. Eu não sei soltar pipa, estou aprendendo”.

Curiosa, virei a cabeça e vi a cena. Um menino de seus 8, talvez 9 anos, segurava impaciente a pipa enquanto a mãe, do outro lado da linha, tentava desfazer um nó bem robusto. Ia demorar…

Estava assim entretida com a cena quando um homem se aproxima. Um vizinho talvez, alguém que passava pelo cocuruto para voltar ou ir… Fato é que o homem se condoeu da situação, parou, pegou a pipa, começou a desfazer o nó. O menino se aproximou, ambos trocaram alguma informação.

Larguei meu exercício de alongamento, tomei meu caminho que, forçosamente, passaria pelo trio. Não me contive e comentei com a mãe:

“Nada como alguém experiente para resolver uma situação de crise, né?”, disse eu, rindo.

Ela entendeu, devolveu o sorriso, e me disse:

“É o que estou dizendo ao meu filho: não aprendi a soltar pipa, isto é coisa de menino… Mas ainda bem que estou aprendendo. E. se ele tiver uma filha, já combinou comigo que vai ensiná-la!”

Acenei para ela e segui rua afora, descendo, até meu destino. E, como não podia deixar de ser, caminhei pensando. Já que o “novo normal” está sendo condenado por conta de sua viralização, usarei aqui outra expressão: novo cotidiano. Sim, a cena faz parte do cotidiano de pandemia. Se não fosse o isolamento obrigatório, possivelmente aquela mãe estaria, àquela hora, em algum escritório, sala de aula, ateliê, redação, sei lá. E o filho estaria na escola.

Ou seja: ainda há o que se espremer de positivo no momento doloroso que estamos vivendo. A relação entre crianças e adultos está florescendo. E ambos estão tirando disso um bom proveito, como fui capaz de perceber naquela caminhada.

Para mim também foi muito bom porque ativou em mim um pensamento muito gostoso. Lembrei-me de um dia que, instigada pelos amigos, resolvi levar  meu filho Pablo ao Maracanã. Ele devia estar com 7, 8 anos, o pai (que não morava mais conosco) não gostava muito de futebol, eu não tinha esta formação. E Pablo, até aquela altura, nunca tinha visto um jogo ao vivo.

Escolhi uma partida bem pouco interessante, de jeito que só encontrássemos lá os aficionados. Meu medo era o tumulto. Lembro até hoje que o jogo era Bangu X Flamengo. Era um sábado cinza, à tarde,  e eu deve confessar que não estava, exatamente, muito confortável com o programa. Fui pela causa. Queria que meu filho conhecesse o Maraca e tivesse a chance de se interessar por futebol. Lá fomos nós.

Comprei lugar na arquibancada, afinal a ideia era fazer o programa genuíno. A partida começou logo assim que chegamos. Mas, como eu não entendia patavinas do que estava acontecendo em campo (confesso minha total ignorância, que continua até hoje), comecei a me sentir atraída pelo movimento das torcidas. Era lindo ver a Ola!

Quando dei por mim, Pablo e eu tínhamos largado o campo e estávamos, ambos, extasiados com o que acontecia nas arquibancadas. Houve um gol e quase comemoramos, instantes antes de percebermos que era do time que ocupava a outra arquibancada.

Foi bom e divertido demais. Mas não deixou no filho o gosto por futebol. Nem me deixou vontade de repetir o programa.

É bom demais quando a memória nos aviva sentimentos alegres. Ajuda a enfrentar a pandemia e, de quebra, segundo a Medicina Tradicional Chinesa, fortalece nosso sistema imunológico. Êita caminhada boa esta!

A foto foi tirada por Sergio Ramalho há décadas. Na cena, além de mim, o filho.

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O consumo de carne e a Covid

Anda provocando irritação a expressão “novo normal”. É assim mesmo que acontece em nossa era de viralizações. Depois de criar e espalhar uma ideia, enfada os ouvidos com repetições, a ponto de não se querer mais ouvir falar. Já, já outra expressão será criada, e o destino será o mesmo.

Mas, mesmo correndo risco de interpretações cansadas, vou insistir no “novo normal”. Na verdade, cansada estou eu quando ouço a expressão “volta à normalidade”. Em meio a uma pandemia que, em cinco meses, já infectou 3,5 milhões de pessoas e causou mais de 250 mil mortes, imaginar que tudo vai voltar a ser como antes é, no mínimo, preguiça de pensar.

E fiquei feliz quando recebi, da amiga Juliana Garçon, o relatório que acaba de sair do forno, feito pela Fairr (https://www.fairr.org/), grandes investidores que abordam questões de responsabilidade das empresas quando se trata de riscos e oportunidades materiais causados ​​pela produção intensiva de animais.

Não fiquei feliz com os dados publicados, vejam bem, mas fiquei bem otimista com a iniciativa da rede.

Vamos logo aos números, para não cansar os leitores: das 60 empresas globais que vendem carnes, 44 estão em alto risco pandêmico. O que isto quer dizer? Que se essas empresas não mudarem seus métodos de matar os bichos e processá-los antes de irem às gôndolas dos supermercados, elas podem ser vetoras de outras pandemias.

Não, a Covid-19 não veio do gado. Mas a próxima pandemia pode vir, dizem os resultados do estudo.  Simples assim. As chamadas doenças zoonóticas são aquelas que passam dos animais selvagens para os humanos.

“Ao substituir habitats selvagens por cidades e fazendas, entramos em contato com animais silvestres que abrigam vírus anteriormente desconhecidos. Globalmente, a agricultura animal é responsável por 70 a 80% do desmatamento”, diz o relatório.

E mais: o uso excessivo de antibióticos na agricultura animal ameaça a capacidade de tratar doenças infecciosas e não infecciosas. “Prevê-se que o aumento da resistência antimicrobiana (RAM) mate dez milhões de pessoas anualmente até 2050 se não for verificado”.

Mas, o que aconteceu no processo? Como a indústria pecuária permitiu que as coisas desandassem desse jeito? A resposta é simples: “O modelo industrializado de produção animal foi otimizado para priorizar os custos e a eficiência da produção, à custa de vários outros fatores, incluindo segurança do trabalhador, biossegurança e, finalmente, resiliência”.

Em outras palavras: para respeitar os mandamentos do sistema econômico, que exige acumulação de riqueza, as empresas ajustaram a produção para ampliar muito o número de consumidores. E os preços ficaram “acessíveis”.

É bom visitar também os dados históricos. Mundialmente, a partir do fim da II Guerra é que a proteína animal começou a entrar com força na mesa para servir como alimento. Antes disso, o foco estava nos grãos, nas sementes, no trigo e no milho.

Aqui no Brasil, segundo o trabalho “A alimentação e as principais transformações no século XX – uma breve revisão”, de Iracema Santos Veloso Maria do Carmo S. de Freitas, entre as décadas de 1960 e 1990 houve um aumento aproximado de 45% no consumo de carnes e embutidos (9,1 para 13,2%), de 60% para leite e derivados (5,1 para 8,2%) e uma estabilidade no consumo de ovos (1,0%).

Agora vem a parte mais polêmica: a ideia é que a carne custa muito barato (embora seja quase inviável o consumo para as classes menos favorecidas) e que, para que a produção encontre um caminho sustentável, é preciso que o valor cobrado seja maior. Na prática, isto já acontece. Não imagino os grandes chefs de cozinha usando acém, pá ou patinho para criarem seus pratos. O que quer dizer que a classe rica já paga mais caro por um produto muito mais refinado.

Basta acompanhar a série “Somebody Feed Phil”, para ver como isto acontece. Tem até gado de neve, coisa que eu nunca tinha ouvido falar. São carnes mais tenras e mais gostosas. Para um público também selecionado.

A mudança é possível, na visão dos autores do relatório da Fairr, se o consumo das proteínas vegetais, “mais eficientes e sustentáveis” passar a ser maior. Já existe o Hambúrguer do Futuro no supermercado onde eu faço compras. Provei, achei gostoso, é feito à base de grão de bico. Vamos ver se daqui a um tempo não teremos também plantações de grão de bico degradando áreas que poderiam estar servindo para outros produtos.

A questão é: precisa diversificar. Precisa também informar as pessoas sobre as múltiplas possibilidades que podem substituir a proteína animal. É possível.

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Quem são os bois?

Se me permitem, leitores, quero falar sobre os bois.
Quero ir além da fala do ministro Ricardo Salles, do meio ambiente, que, como todo mundo sabe, disse de forma clara e cristalina que usa uma estratégia para fazer avançar seu projeto de desenvolvimento para o país. A estratégia é forjar, durante a pandemia (ou seria um “fuzuê”?), uma cortina de fumaça para que a mídia amorteça suas atitudes infralegais. Em tradução livre, infralegal é tudo aquilo que “não se encontra perfeitamente de acordo com os mecanismos legais”. Então, vamos logo simplificar: atitudes ilegais. Mas há outra interpretação à luz do Direito, segundo me avisou

Rubens Harry Born,  não é algo contra a lei, refere-se às normas administrativas que devem atender o que está previsto em lei. O que o ministro Salles quer é se valer de meros atos administrativos para flexibilizar as normas e gestão ambiental. OK, não é ilegal, mas…
A questão, para mim, nem é saber o que esconde o ministro. Fica muito claro que o projeto dele de “progresso” para o país é acabar com qualquer floresta em pé. Árvores vão para madeireiros, territórios antes preservados vão para mineradores ou para a agropecuária. E o futuro a Deus pertence. Zero preocupação com aquecimento global, terras degradadas, incêndios… nada. Sabemos disso, não é de hoje. Mas, será que aqueles que são convidados para o tal projeto, estão de acordo?
Este é meu ponto.
Como sabem aqueles que acompanham meu trabalho, desde o início do século eu me dedico a ler, pesquisar, detalhar e, talvez, interpretar as ações globais e nacionais de quem se ocupa do que se chama de desenvolvimento. E eu gostaria muito de saber o que pensam as corporações, chamadas de boiadas, sobre a fala do ministro.
Se não foi outra estratégia, uma espécie de propaganda para avisar que o Brasil está à venda, o ministro já teria esta boiada pronta para passar e explodir tudo? Se sim, quem será?
Falamos tanto, há tanto tempo, sobre a responsabilidade das empresas. Por mais que muitas delas tenham mostrado que, no fim e ao cabo, na hora de fazer a escolha, a moeda fala mais alto, eu sou capaz de apostar que há líderes empresariais sérios no país e que eles estão bem pouco à vontade com a fala de Salles. Não será nada honroso para o perfil corporativo ser comparado a bois que passam e destroem tudo.
A Floresta Amazônica perdeu 254 quilômetros quadrados de área verde e o desmatamento cresceu 279% em março deste ano. Deste ano, gente! No meio da pandemia. A impunidade aos crimes ambientais e os retrocessos, aliados ao estímulo à grilagem, são os principais culpados. Mas, quem está por trás disso? Quem é conivente com as infralegalidades?
Aqui abre-se a chance de virem a público aqueles que não são boiada. Para se defender. Do contrário, toda a indústria pecuária, a quem o documentário “Sob a Pata do Boi’, de 2018, atribui 80% do desmatamento da Amazônia, estará nesta lista. E, vamos combinar: ninguém há de ter orgulho de ser chamado de boiada.
Para além da vergonha, há chances sérias de que outros países não comprem produtos da boiada. E aí lá se vai por água abaixo o projeto de desenvolvimento do país.
O efeito de ter sido chamado de boiada para abrir espaço às ações infralegais do setor de meio ambiente do governo, neste momento, pode ser praticamente o que a febre aftosa causa. Muita gente vai querer correr.
O país tem empresas sérias, que devem estar bastante preocupadas com este cenário. Assim espero.
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