A história de Nel, sertanejo que criou as cisternas que mudaram a cena do Sertão

Apolonio

Capa do Razão Social de 2004: Nel mantém a revista até hoje em sua casa

O ano era 2004. Eu editava há cerca de um ano o caderno “Razão Social”, no “O Globo”, que, como muitos de vocês já sabem, tinha o propósito de informar sobre ações que davam certo na construção de uma sociedade mais justa para todos. Vivíamos então, no mundo, no Brasil, uma época diferente da que vivemos agora. Não havia um debate tão polarizado sobre a se a atuação do Estado deveria ser forte ou não. As políticas sociais se amontoavam, estavam dando certo. ONGs até se queixavam de que o Estado estava tomando o lugar delas. Enfim, como em tudo na vida, havia um lado, outro lado, não necessariamente opostos, mas diferentes.

De qualquer modo, havia no ar uma energia nova, que o Razão Social acompanhava. E eu, como repórter que nunca deixei de ser, fazia todo o possível e o impossível para estar nos lugares, registrando de perto os projetos. Não queria contar aos leitores apenas dados que os assessores me enviavam. Eu precisava estar presente, reportariando.

Foi assim que aceitei o convite para ir ao Nordeste participar da solenidade que marcava o início da parceria entre governo, empresa privada (um banco) e a Articulação Semiárido (ASA) para a produção de um milhão de cisternas rurais, meta alcançada dez anos depois. Até hoje me lembro: foi um bate-volta, porque não podia ficar longe da Redação, tinha muito trabalho a fazer. Mas gostei de ter ido porque entendi a extensão e a importância daquele Programa.

Era uma coisa simples: construir um tanque gigante feito de cimento para captar a água da chuva por um mecanismo ainda mais comum: calhas, com um filtro para depurar a sujeira. Agregar uma pequena bomba, para retirar a água quando necessário. Ou seja: a época da chuva servia para armazenar a água neste tanque, uma quantidade que bastasse para cozinhar, lavar, até beber. Havia cisternas de até 60 mil litros. Cada uma levava cerca de cinco dias para ficar pronta e custava, na época, R$ 1 mil.

Saí do evento de lançamento com um nome da cabeça: Pedro Damião, apelido Nel. Em sua palestra, Frei Betto, então assessor especial do governo Lula, citou Pedro Damião como o grande idealizador da cisterna. E fiquei com muita vontade de ouvir a história daquele sertanejo que tinha revolucionado, de forma simples, a história de sua terra, até então entregue a políticos oportunistas que trocavam caminhões-pipa por votos.

Não foi fácil encontrá-lo. Na época ainda não tínhamos internet tão veloz e cheia de dados como hoje. Eu tinha fontes, ONGs que me ajudaram na busca.  Com a ajuda da Articulação do Semiárido (ASA), consegui descobrir Nel e, de quebra, desvendei o mistério, porque fora tão difícil chegar a ele. Frei Betto cometera um equívoco: o apelido estava certo, mas o nome era outro. Manoel Apolônio de Carvalho, e não Pedro Damião.

As meninas da ASA fizeram a ponte e Nel combinou de ir à pracinha principal de Simão Dias, cidade sergipana onde vivia, às 20h em ponto para falar comigo a partir de um telefone público. Assim foi feito.

Ele tinha 17 anos quando pegou o rumo de São Paulo, para fugir da seca no sertão. Como era analfabeto, só arranjou viração numa obra, como assistente, a quem foi pedido que construísse a piscina de um clube. Nel conheceu ali o cimento, ficou extasiado com a mágica proporcionada por aquele pó cinza, que misturado com água endurecia e ficava forte. Nas horas vagas ele assumia a postura de pensador: em sua terra, aquele tanque imenso podia ter outra serventia. No período das chuvas, era só guardar a água ali, tapar e usar na seca.

Nel contou-me seu sonho e de como, ao ser demitido – porque, afinal, dono de obra não quer sonhador como funcionário – voltou para sua terra, em Jeremoaba, na Bahia, e começou a erguer cisternas, por “dois merréis” cada uma. Foi assim que conseguiu se casar, criar família, ter uma casa. As cisternas passaram a se espalhar, muita gente copiou o invento, e a confusão foi tanta que, no fim das contas, ninguém mais sabia que Nel fora o primeiro. Contei a ele, pelo telefone, que Frei Betto o havia homenageado (omiti a confusão do nome).

“Moça, então alguém reconheceu o que eu fiz? Eu fico com os olhos cheios d´água, sabe? Porque eu tenho certeza de que fiz uma coisa de grande autoridade para a humanidade”, disse-me ele.

Busquei na internet notícias atuais de Nel e descobri uma reportagem feita pela repórter Isabela Assumção para o Globo Rural há três anos. Desta vez, quem ficou emocionada fui eu: está lá, pendurada na parede da casa de Nel, a capa do Razão Social em que sua história foi contada. Coisas boas desta profissão que abracei e da qual tenho muito orgulho.

Por que estou trazendo esta história hoje? Porque recebi da ASA, organização com a qual continuo mantendo contato, uma triste notícia: o Programa Cisternas estagnou.

“Não há nenhum investimento de recursos públicos novos neste ano de 2020 neste programa”, diz a mensagem que recebi por e-mail.

Busquei contato e Veronica Pragana Ferraz, uma das pessoas que cuida da comunicação da ASA, contou-me que perdeu o acesso a Nel. Mas que hoje no Semiárido há “milhares de Nel”:

“Não só homens, como mulheres, todos(as) cisterneiro(a)s, que já construíram 1,2 milhão de cisternas de primeira água para a população dispersa do Semiárido”, contou-me Veronica. Mas, infelizmente, disse-me ela, ainda tem 350 mil famílias sem acesso a esta água. Por isto o Programa deveria continuar.

Por outro lado, a ONG conta que está empenhada em novo projeto – que será realizado na America Latina, ou seja, Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai e nos países do Corredor Seco, região subúmida que corta vários países da América Central, entre eles El Salvador.  Este novo projeto não substitui o Cisternas, mas tem a proposta de “identificar e sistematizar experiências locais que trazem impactos positivos com relação ao aumento da adaptação das famílias agricultoras às áreas secas, cada vez mais afetadas pelos eventos extremos climáticos”.

Sim, é preciso olhar para o sertão. Um estudo recente lançado pela Fiocruz dá conta de que metade das 800 milhões pessoas que passam fome no mundo são pequenos agricultores e agricultoras que vivem em áreas secas do planeta. Não é de se estranhar, claro.

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O trem fantasma

 

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Foto atual da Sete de Setembro, tirada hoje de manhã

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Foto da época das obras para o VLT, julho de 2016

Durante dois anos e oito meses de minha nem tão longa existência eu decidi ouvir o canto da sereia. E comprei um ponto de um restaurante popular, bem popular, ali na Sete de Setembro, importante rua do Centro da cidade que é o segundo polo econômico do país. Para isto, investi todo o dinheiro que tinha. E o dinheiro que eu tinha, era fruto de uma vida inteira de trabalho como jornalista.

Bem, a história desses 970 dias – eu não quero chamar de aventura, mas é quase isto – vai ser detalhada num livro que estou escrevendo. O que trago hoje, aqui neste espaço, é a minha indignação. E, quem sabe, algum pensamento que possa servir como adjutório aos candidatos a se sentarem na cadeira de quem administra a cidade. As eleições, no fim das contas, vão acontecer. E, como cidadã, sinto-me impelida a botar holofote sobre aquele canto da cidade. Que não é um canto qualquer, como já disse, e que precisa muito de um estudo urbanístico, social, ambiental. Precisa de régua, compasso, óleos essenciais, velas, orações, mantras… seja lá o que for. Mas não pode continuar como está.

Para falar do presente, preciso dar uma rápida pincelada do que foi aquele momento, em maio de 2016, quando assinei o contrato e tornei-me dona de 80% do restaurante. A Sete de Setembro estava em obras para abrir canal ao Veículo Leve sobre Trilhos, o famoso VLT. O dono do restaurante que me vendeu o ponto – preciso dizer que fica no trecho mais pobre da rua, entre a Uruguaiana e a Praça Tiradentes – não suportou os quase dois anos de barulho, poeira e poucos clientes. Vendeu-me por um preço que, para ele, era muito baixo. E deu para eu comprar.

Alimentei-me da esperança que estava no ar. Eu era a sócia majoritária, e tive ajuda de um amigo, que se tornou o segundo sócio, que já tinha outro restaurante no local. Era um momento penoso para os comerciantes, mas todos acreditavam que a bonança estaria próxima. A Sete de Setembro, até então uma rua praticamente tomada por carros – estacionados e circulando – se tornaria um boulevard. Teria vasos, flores, plantas. O VLT iria atrair turistas, os turistas se sentiriam atraídos pelos restaurantes, a clientela faria filas nas portas.

Meu projeto era ter um local bonito, confortável, oferecer boa comida por um preço que pudesse ser pago por trabalhadores. Camelôs, funcionários de lojas, iriam se sentar para comer num lugar com quadros de Tarsila do Amaral, pequenos textos contando a história da Semana da Arte Moderna. E fariam contato com alimentos com os quais estavam pouco familiarizados, já que eu queria tornar prática a teoria que estudo, sobre um ecodesenvolvimento, sobre a necessidade de se diversificar nossos hábitos alimentares.

O sonho foi se desmoronando como marshmallow em fogo. As obras terminaram, o trenzinho começou a circular e, em poucos meses, viu-se que o boulevard não saíra das pranchetas dos urbanistas e das propagandas. A rua foi virando um deserto. E o que é pior: árido. Passei lá três verões. E era um sacrifício fazer o trajeto entre o Metrô Carioca e meu restaurante sob um sol que, já de manhã, me desnorteava de tão forte. Quem mora nesta  cidade sabe a ilha de calor em que ela se transforma.

Tentei, juro que tentei. Fiz contato com a Fundação Parques e Jardins, que me dizia que a empresa do VLT (Alstom) era obrigada a fazer a urbanização como contrapartida. Ofereci-me para ajudar, na época ainda sobravam-me alguns tostões. Sugeri que eu pudesse levar alguns vasos, enfeitar de alguma forma e trazer algum verde para tanta aridez.

“A senhora vai acabar sendo multada por atrapalhar o caminho dos pedestres”, disse-me uma voz fria do outro lado do telefone.

À medida que os clientes iam desistindo, não só por falta de incentivo para atravessar o deserto e ir almoçar,  como por falta de dinheiro – sim, a crise foi comendo também a vontade de ir a restaurantes e eu via, desesperada, aumentar o número das tais bolsinhas de marmitas nas mãos de usuários no Metrô – a minha energia ia baixando. E o meu caixa ia se esvaziando. Até que, em janeiro de 2019, dei por finda a minha vida de empreendedora. Mas meu coração, é claro, continua ligado ao lugar onde vivi tão intensamente.

Salto para agosto de 2020. Mesmo nos meus mais atormentados pesadelos, à época que me vi como dona de restaurante, pude imaginar o que estamos vivendo. A pandemia, o isolamento social, acirraram o desterro. A Sete de Setembro, naquele trecho, está proscrita. O VLT ganhou um apelido: o trem fantasma. Que leva ninguém a canto nenhum, dizem os comerciantes guerreiros que sobrevivem ao caos.

Lição de casa para o governante que ganhar as eleições. E lição de vida para nós, que vivemos aqui nesta cidade. Acreditar demais em quem se dá o direito de redesenhar a trama urbana oferecendo garantias de progresso e bem estar aos cidadãos parece ser a nossa marca.  Atraso o relógio da história e vou mais além, para o início do século XX. Em 29 de fevereiro de 1904, Rodrigues Alves, então presidente da República, deflagrou aqui uma revolução urbana.

“A mudança na cidade exigia que os prédios tivessem fachadas e que os projetos fossem previamente aprovados. Remodelou-se, também, a rua do Ouvidor e a avenida Beira-Mar, revelando a beleza da orla, pouco aproveitada … Impuseram-se normas de civilidade: tornou-se proibido cuspir no assoalho dos bondes…” (Mary del Priore, em “Histórias de gente brasileira”, volume 3) .

Olavo Bilac, num texto reproduzido pela historiadora, invejava a sorte dos “que agora estão nascendo, dos que vão viver numa cidade radiante – quando eu, e os da minha geração, pela estupides e pelo desleixo dos enfunados parlapatões que nos governaram, tivemos de viver numa imensa pocilga de dois mil quilômetros quadrados, como um bando de bácoros fuçando a imundície”.

Ah, meu caro Bilac, se me permite me dirigir a você com tanta intimidade, quero lhe dizer que aquela cidade radiante de seus sonhos anda precisando de muitos cuidados, em todos os setores. Que não tenhamos, a nos governar, mais um parlapatão. A gente não conseguirá sobreviver…

 

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Sonhar não custa nada

 

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Esta foto foi publicada na coluna Nova Ética Social, assinada por mim no portal G1 em março de 2016. A foto é de Elke Wetzig/Creative Commons

Já que o agronegócio está no centro dos holofotes, este vai ser nosso assunto de hoje.  E, para variar um pouco, trago boas notícias. Não sem alguma reflexão, claro, afinal tem sido meu papel.

A primeira notícia é que ontem houve uma reunião entre governadores da Amazônia e grupos de empresários, incluindo Abag (Associação Brasileira de Agronegócio), em que foram listadas algumas ações objetivas que eles exigem do poder público. Não vou listá-las aqui para não cansar vocês. Basta dizer que faz parte de um pacote de quem ainda valida a percepção de que é possível desenvolver e preservar, sem debater a envergadura do desenvolvimento. Mas já é bom, porque ficou claro, segundo o release que recebi do Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), que há uma forte preocupação do empresariado com a imagem negativa do país no exterior. E estamos falando, aqui, só na questão de negócios e meio ambiente.

Bem, a reunião aconteceu antes da notícia-bomba que saiu hoje, dando conta de que a prefeitura de Shenzen, na China, detectou coronavírus no frango importando do Brasil. A imagem do país ganhou tons negativos ainda mais fortes, pelo que imagino.

Mas, já que estou em dias de boas notícias, vamos continuar falando sobre a reunião de ontem, entre empresas e poder público, e sobre o que pode vir de bom deste encontro.  Os mais céticos podem dizer que, no fim das contas, é apenas mais uma reunião como tantas. Não deixa de ser, mas não se pode enquadrá-la na seção de retórica inútil. É bom lembrar que … “As 500 empresas multinacionais privadas têm 52% do PIB do mundo (todos os setores reunidos, bancos, serviços e empresas). Elas monopolizam um poder econômico-financeiro, ideológico e político que jamais um imperador ou papa teve na história da humanidade” (ZIEGLER, Jean, no site outraspalavras.net em 24/05/2019).

Considerando todo este poder, não se pode achar pouca coisa que as corporações estejam preocupadas com o combate ao crime organizado ligado à grilagem e ao desmatamento ilegal na Amazônia. Se o governo se empenhar e fortalecer a segurança na área, isto poderá beneficiar também os indígenas que estão denunciando massacres em massa por lá.

Bem, mas já que as empresas estão se unindo em prol de mudanças, não custa trazer aqui um caso de sucesso que pode validar a teoria de que não é preciso desmatar tanto ou usar tantos pesticidas para alimentar a população mundial. E, quem sabe, pode servir como exemplo a ser replicado.

O nome dele é Ernst Götsch, um suíço que tem atraído a atenção da mídia que cobre assuntos relacionados ao ecodesenvolvimento. Sua história apareceu há uma semana no site Mongabay, mas eu já o conheço há uns três anos, quando falei sobre ele na coluna que eu mantinha no portal G1.

Ernst Götsch criou, na fazenda de soja Invernadinho, perto de Mineiros, Minas Gerais,  um modelo de agricultura orgânica capaz de substituir a Revolução Verde impulsionada desde os anos 50 pelos avanços da agroquímica. Também conhecida como agrofloresta, baseia-se num conceito fácil de entender: é preciso deixar a terra respirar e respeitar a diversidade da natureza.

Fácil não é.

“Nós somos a girafa, os agricultores têm que aparar regularmente as fileiras de árvores que ladeiam as plantações. A poda estimula o crescimento das plantas, cria biomassa que é adicionada ao solo como fertilizante e faz entrar a luz que estimula a fotossíntese e, portanto, absorve mais dióxido de carbono”, explicou o suíço à jornalista Sandra Weiss, que assina a reportagem do site.

Este ponto – a facilidade ou não do trabalho de produção, qualquer que seja ele – é muito importante e faz parte das reflexões que quero compartilhar com vocês. A partir de minha experiência pessoal, ando pensando que compramos, meio sem refletir muito, a praticidade que as máquinas nos garantiram. Não me interessa eleger vilões. Prefiro a impertinência de trazer para cada um de nós a responsabilidade – “Seja a mudança que você quer ver no mundo”, diz Mahatma Gandhi. De certa forma, torna também mais fácil provocar as variações. Já que os hábitos são nossos, nós podemos alterá-los a qualquer momento.

Tenho uma amiga, Martha Neiva Moreira, que me conheceu numa época em que eu me nutria à noite com shake emagrecedor e sanduíche de pão de forma light com algo que se compra às pencas nos supermercados, costuma-se chamar de queijo, mas que não se sabe bem como é feito. Ela gosta de lembrar disso quando, hoje, trocamos receitas sobre pães sem glúten, doces sem açúcar feitos com frutas, refogados interessantes para tornar os legumes mais apetitosos com temperos indianos, e por aí vai. Minha mudança foi bem radical, mas lenta, fez parte de um processo que ainda se arrasta.

Esta é a questão. Parei de comer carne vermelha há mais de uma década, e hoje não salivo mais por um pedaço de picanha, garanto a vocês. Parei de comer frango há quase dois anos, e o porco saiu completamente da minha dieta assim que começou a pandemia. Sim, tem uma ideologia que me conduz, mas eu consegui, acima de tudo, perceber a diversidade de alimentos que estava perdendo ao me concentrar na prática solução de arroz, feijão, carne e saladas. Sem falar no shake, cuja fórmula eu prefiro nem me lembrar…

Vandana Shiva é uma física, indiana, que conheci enquanto editava o “Razão Social” (caderno sobre ecodesenvolvimento que editei no O Globo de 2003 a 2012) e que passou a fazer parte de meus estudos. Volta e meia eu dou uma olhada no site do instituto criado por ela, o Navdanya. Vandana criou o banco de sementes na Índia, e isto revolucionou o cenário de fome na região. Ela traz, de uma forma simples, direta e muito inspiradora, a ideia de que a diversidade de alimentos foi sendo destruída quando a grande indústria de alimentos tomou para si, grande parte com nosso consentimento, a tarefa de nutrir a população mundial. Vale a pena vocês conhecerem, se já não conhecem, as ideias de Vandana Shiva.

Há muitos grãos e sementes que a gente nem imagina que existem e que podem nutrir nosso corpo com eficácia. Mas são mais difíceis de achar, às vezes é preciso debulhar, não têm gosto conhecido… enfim, dá mais trabalho comer. A ideia é que eles podem ser descobertos. E deixemos ao agronegócio a tarefa de gerenciar o estrago que já foi feito na natureza por causa de tanta monocultura. Aos poucos, à medida em que formos indicando outros desejos, pode ser que ele se adapte e trabalhe mais a favor da diversidade.

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Mobilização social salva a Floresta de Camboatá

Até segunda ordem, a Floresta do Camboatá vai se manter onde está e como está. A boa notícia correu feito rastilho de pólvora nas redes sociais. Coube a uma mulher, a juíza Roseli Nalin, da 15ª Vara de Fazenda Pública do Estado do Rio de Janeiro, perceber o cheiro de maus feitos no afã avassalador de derrubar 200 mil árvores de floresta nativa, matar no mínimo 14 espécies de bichos e, enfim, destruir uma área equivalente a duas vezes o Jardim Botânico para construir um empreendimento imobiliário e um autódromo. Cinza em vez de verde. Ar poluído em vez de ar puro. Matando, também, a chance de drenar água da chuva. De quebra, aumentando sensivelmente a temperatura da região. A geringonça que querem construir fica em Deodoro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que registra verões quentíssimos.

A pergunta que não quer calar é: por quê construir um autódromo? E por que ali? Não tenho a resposta na ponta da língua, ou seja, não tenho dados que me deem garantia para escrever. Vou seguir a moda criada pelos procuradores da Lava Jato quando apresentaram denúncia contra o ex-presidente Lula: não tenho provas, mas tenho convicção.

E a minha certeza é de que, ainda hoje, a humanidade não percebe o valor da vida. O lucro fala mais alto. Mesmo com nossa realidade atual, com mais de 600 mil pessoas mortas pela ação de um vírus que chegou mostrando que os cientistas falavam a sério quando diziam que o aquecimento global aumenta sensivelmente as ameaças sanitárias. Mesmo assim, derrubar árvores não parece, aos pretendentes àquele espaço, nada absurdo.

“À medida que o planeta se aquece (…) os animais deslocam-se para os polos fugindo do calor. Animais estão entrando em contato com animais com os quais eles normalmente não interagiriam, e isso cria uma oportunidade para patógenos encontrar outros hospedeiros. Muitas das causas primárias das mudanças climáticas também aumentam o risco de pandemias….” (Aaron Bernstein, diretor do Harvard University’s Center of Climate, Health and the Global Environment, em artigo publicado no site da Unicamp escrito pelo professor Luiz Marques em 05-05-2020).

Isto é fato. Mas o que me faz escrever sobre este tema hoje é o desejo de compartilhar com os leitores uma relativa dose de ânimo: a esperteza e rapidez da mobilização social em torno da Floresta de Camboatá.

Desde a semana anterior à decisão da juíza Roseli tenho recebido mensagens e vídeos com famosos alertando para a destruição que seria iminente. Já tinha sido marcada uma mega manifestação virtual, um abaixo assinado começou a recolher assinaturas e quase nove mil pessoas tinham assinado.

Por tudo isto, podemos dizer que, além de ter percebido que debaixo deste angu tem caroço – e dos grandes – a Justiça também deu ouvidos à grande parte da população interessada em preservar o que nos resta de verde e de saúde.

“A democracia funciona na medida em que os indivíduos possam ter uma participação significativa na arena pública, ao mesmo tempo que cuidam de seus próprios assuntos, individual e coletivamente, sem intromissões ilegítimas por parte das concentrações de poder” (Noam Chomski em “O lucro ou as pessoas?” Ed. Bertrand Brasil).

Em 2008 fui ao Chile fazer uma reportagem sobre o lançamento do Mapa Verde de Santiago para o caderno Razão Social, que eu editava no jornal O Globo com temas ligados ao desenvolvimento sustentável. A pauta mudou completamente porque tive a chance de conhecer e conversar com Lake Sagaris, uma mobilizadora social de primeiro time. Ela contou-me sobre o início da ONG Ciudad Viva, que estava ali fazendo parceria com a Natura no lançamento do Mapa. Vou resumir para caber aqui no meu objetivo de mostrar a importância dessas ações populares.

Um consórcio de empreiteiros decidiu fazer uma mega rodovia. Até aí, tudo bem, não fosse o fato de que uma parte da estrada passaria pelo meio de um bairro histórico, tradicional de Santiago. Foi este o mote que começou a juntar os moradores. Um trabalho intenso de mobilização, com passeatas e auxílio da grande mídia teve um resultado feliz: a rodovia foi construída em outro espaço, e o bairro manteve seus paralelepípedos que o constituíram como cenário urbano tradicional.

A festa de lançamento do Mapa Verde aconteceu num imóvel público, comunitário, bonito, que a empresa enfeitou para receber as autoridades e convidados. Estranhei o ineditismo, já que as ações solenes de grandes corporações costumam acontecer em auditórios de hotéis chiques. Minha curiosidade foi debelada por um executivo da Natura, que me explicou que o local da festa fora uma exigência de Sagaris: “Ela queria que fosse num lugar onde qualquer pessoa se sentisse à vontade para participar da festa”.

Busquei Lake Sagaris para uma entrevista, e fiquei encantada com a forma realista e sincera com que ela conduz o tema mobilização social. E lembrei-me dela quando soube que, pelo menos até agora, a Floresta de Camboatá está salva. Não dá para cochilar, porém. Porque, como já estamos cansados de saber, na luta entre a preservação e o desenvolvimentismo, a primeira anda perdendo feio.

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Foto de Lake Sagaris editada no Razão Social de agosto de 2008

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‘Fora Corona vírus!’

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Foto por Torsten Dettlaff em Pexels.com

Todo santo dia a cena se repete. Ele se veste com a camisa de seu time de futebol predileto, pega uma bola e desce. Aqui do outro lado, em frente ao pedaço de cimento de seu prédio, que virou um campo de futebol em sua fantasia, eu ouço as batidas ritmadas da bola sendo chutada contra a parede. Uma após outra.

Se fossem outros os tempos, eu bem que iria reclamar da vida, da sorte, porque é um barulhinho prá lá de chato. Mas, hoje, não. O rapaz, sua bola e sua fantasia se tornaram, para mim, um símbolo dos nossos tempos.

Isolado! Deve ir aos 14, 15 anos. De vez em quando o pai desce com ele, às vezes é a irmã mais nova. Já vi até a mãe tentando agarrar a bola. Mas ninguém de sua idade, com a mesma porosidade que nos torna seres agrupáveis, gregários.

Não me perco pensando o que será do amanhã, como será o tempo pós-pandemia. Nem me iludo muito. A humanidade, pelo menos aqui neste hemisfério que eu conheço, ainda não está preparada para uma virada substancial, uma transformação radical em seu estilo de vida. E pode ser que tenhamos a má sorte de cozinhar pandemias daqui para a frente.

Restrita a meu território, a meu habitat, é daqui que colho eventuais fontes que alimentam minhas reflexões. O rapaz que joga sozinho sua bola contra o muro se junta, em meus pensamentos, à criança de 4 anos que divide parede comigo. Um vizinho querido, Pedro, sensível e doce, que certa vez já ouvi gritar, empunhando uma espada imaginária:

“Fora, Coronavírus!!!!”

Ah, Pedro, criança adorável. Que as forças do universo ouçam seu pedido e levem daqui todos os vírus que andam nos apoquentando a vida.

Foi Pedro quem me fez pensar em telefonar para uma amiga, Nuelna Vieira, que tem uma escola linda, super bem cuidada, para crianças de 0 a 6 anos. Lá tem arte, contato com a natureza, jogos, tudo sob os auspícios da psicomotricidade relacional, estudo que nos põe em contato.  Quis saber dela se a Casa Monte Alegre, sua escolinha, decidiu abrir as portas, como algumas têm feito.

“Não! Só abriremos quando a lei mandar e, mesmo assim, só para as famílias que realmente precisarem. Estou com saudades do futuro, sabe? Não vejo perspectiva alguma. As famílias não estão se sentindo seguras, e têm razão. Se eu volto a abrir as portas, quem voltará comigo?”, disse-me ela.

Nuelna é psicomotricista, portanto tem o olhar que mescla o de dona de escola, de empresário, ao da profissional que percebe o momento, que sente a situação de crianças e pais.

“Óbvio que ficar com pai e mãe é maravilhoso, muitas crianças estão adorando este momento. O que complica é que o ambiente em casa nem sempre é tranquilo. Muitos pais estão fazendo home office mas têm medo de demissão. Ou estão sendo super cobrados. Ou mesmo têm medo de pegar a doença. Fica um clima tenso em casa, não há uma zona de conforto. É diferente do que ficar em casa por opção. Estar com pai e mãe porque não há outra opção gera angústia”, disse Nuelna.

Como dona de negócio, Nuelna se sente muito perdida. Há a possibilidade de aceitar o empréstimo que o governo oferece, mas são tantas as exigências, que dá medo.

“Estou avaliando a possibilidade, mas percebo que vai me prender muito. Se eu aceitar o empréstimo, serei obrigada a manter toda a equipe pelo menos durante oito meses. Agora, imagine se eu perco 50% de minha capacidade, o que vou fazer? Como terei dinheiro para pagar os salários? A ajuda seria, de fato, diminuir nossos tributos, não dar um tempo para pagarmos. O governo está tentando evitar demissões. E acho isto bom, mas é preciso ter noção de que as empresas estão ficando menores, perdendo potência”.

Sim, isto é fato. E sim, isto não está sendo observado, muito menos cuidado pelo governo atual. Não foi o ministro Paulo Guedes que disse que preferia ajudar as empresas grandes?

Voltemos, pois, ao mundo das crianças e adolescentes. Para esmiuçar mais a reflexão sobre a rotina de Pedro e seus pais, sempre presentes, carinhosos, fulltime no reino da fantasia de uma criança de 4 anos, liguei para outra amiga, a psicomotricista Vitoria Bonaldi. Ela continua atendendo online, tanto adultos como crianças, e me contou que há muita tensão e, ao mesmo tempo, muita chance de ressignificar a vida em família.

“O sistema familiar está agora bem aberto, sem disfarces, para todos. O pai que é um alcóolatra disfarçado, a criança que é hiperativa, tudo isto vem à tona quando se está dentro de casa o tempo todo. É a chance de as pessoas olharem para isto e cuidar deste sistema para não adoecerem ainda mais. A criança aponta esta questão, e quando ela está na escola, fica mais diluído”, disse ela.

Por outro lado, vivia-se um exagero que poderá ser revisto, lembra Bonaldi. As crianças estavam fora de casa muitas horas por dia, com excesso de atividades. Na volta, que não se sabe quando será, é possível mudar esta necessidade tão premente de mantê-las o tempo todo ocupadas.

Fico pensando que esta mudança poderá puxar outras. Menos ocupação para as crianças, menos consumo, menos horas dedicadas a atividades que não nos dão prazer. E por aí vai a lista de transformações. Não ouso chamar de preparação para um novo futuro porque, como disse, nutro pouca ilusão de que haverá, de fato, esta transvaloração.

À geração que hoje se vira para ocupar o tempo de lazer sem ser em grupo ou à que já se volta com bravura contra os inimigos nada imaginários, minha total solidariedade. Deixamos para vocês um desafio e tanto, de reconstruir sua saúde sob seus próprios moldes.

 

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Cuidem de sua saúde! É este o último recado da OMS para o mundo

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O contato com a natureza é fundamental para garantir a saúde do corpo

Há duas leituras possíveis sobre o recado que a OMS mandou ontem. O etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da instituição – que é subordinada à ONU e foi criada três anos depois, em 1948 – disse em alto e bom som que a pandemia vai alterar a forma como vivemos. E que é responsabilidade de cada um ajudar a barrar a transmissão do vírus.

A primeira leitura é política. Fica bem claro que as promessas de um modelo único para cuidar da saúde de todos pode dar certo. Mas depende muito da vontade política de cada país, de cada governo. As falsas promessas, portanto, estão escancaradas.

Não significa muito investir monetariamente em saúde se aqueles que estão gerindo tais valores não têm boas intenções. Ou, não vêm saúde do mesmo jeito que você vê. Aqui no Brasil, a julgar pela atitude do presidente, que mesmo infectado deu a mão a um trabalhador na rua, o governo tem uma visão, no mínimo, esdrúxula sobre o que seja saúde. Temos sido, portanto, alvo direto e certeiro da mensagem da OMS: cada um cuide de si. Este será o ato mais solidário, porque pode pôr uma barreira na proliferação da doença.

A segunda leitura da mensagem da OMS envolve, pois, o autocuidado, tema recorrente quando se debate saúde sob o ponto de vista amplo. Claro que vai ajudar a não espalhar o vírus, mas sobretudo vai ajudar a que outras doenças não se instalem. E, se for possível ser ouvido sem barreiras, é um recado que vai, de verdade, provocar uma grande mudança no mundo.

Dia desses entreouvi uma conversa entre duas mulheres aqui na vizinhança. Uma delas estava feliz porque o teste feito na mãe, que mora no Norte, tinha dado negativo para o vírus Corona. Mas a senhora está enferma, com febre, taxas altíssimas de glicose, é obesa… A outra perguntou se ela estava cuidando dessas questões e a filha deu pouca importância. Sim, eram sintomas recorrentes, aos quais ela já se habituara (obesidade, diabetes). Tudo sob controle, desde que com a dosagem habitual dos remédios.  O grande problema era a febre.

A ideia é, justamente, perceber que não se precisa conviver com obesidade, diabetes, pressão alta, tomando remédios a vida toda. A pandemia pode ter vindo, justamente, para chacoalhar nossa noção de saúde.

E pode-se dizer que Ghebreyesus disse, praticamente: movam-se para buscar saúde, não fiquem à espera de alguém que venha ditar regras sobre seu corpo. Pelo menos, foi este o recado que chegou a mim.

A prevenção é o forte das pessoas que são educadas para sentir o que o corpo fala. Neste sentido entra a forte conexão entre saúde e o ambiente que nos cerca, meu foco de interesse, como sabem.

Há poluição demais no mundo – do ar, a urbana; na água e na terra.  Aqui no Brasil estamos consumindo produtos com uma carga exagerada de agrotóxicos – em maio, já durante a pandemia, o governo Bolsonaro liberou 118 tipos. Num cenário desses, fica difícil ser saudável. Mas não é impossível buscar saúde. Como também não é nada inviável abrir espaço para outras culturas em nossas vidas.

O conceito do Bem Viver dialoga bastante com esta proposta. Na verdade, é mais do que um conceito, é uma vivência. Foi formatado por Alberto Acosta, político, economista, ex-ministro, ex-presidente da Assembleia Constituinte do Equador. Alguns textos que podem levar a um entendimento do Bem Viver estão compilados no livro “O Bem Viver” (Ed. Elefante), do qual recomendo muito a leitura.

A base da saúde, segundo esta vivência, é mesmo o contato com a natureza. Já há cinco anos, quando decidiu escrever o livro, Acosta lembrava que “o mundo precisa de mudanças profundas, radicais, para superar as visões simplistas que transformaram o economicismo em eixo da sociedade”. Mas não é só isto. A cultura indígena está incrustrada em cada uma das propostas dos “bons conviveres”, como prefere Acosta.

Resumindo: uma nutrição que não use produtos processados (de preferência, nenhum, mas, se for preciso, poucos); um sono que não seja interrompido por luzes e sons; tempo para meditar; tempo para caminhar; menos remédios e químicas que  E maior conexão com a natureza, consigo mesmo.

Dito assim, de forma corrida, pode parecer que tudo é muito fácil. Ou que tudo é muito difícil. Talvez não seja uma coisa, nem outra. Mas é possível. E, se prestarmos bem atenção, as sugestões independem de ter ou não dinheiro. Mas requerem educação desde a base, para que as crianças comecem cedo a sentir que têm potência de produzir saúde e de ajudar o sistema imunológico, que é a rede de segurança mais competente.

Assim sendo, vemos que Saúde, Educação e Meio Ambiente deveriam andar de mãos dadas e ter muito peso num programa de governo. É de vida que estamos falando, no fim das contas.

 

 

 

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Quem sabe faz a hora

yunus vale essa-novo

Tirei esta foto quando assisti a palestra de Yunus no Rio em 2013

Acredito que o acaso é um produto de forças, de cruzamentos acidentais. É assim que venho sentindo, em meu dia a dia que hoje se mostra às vezes mais monótono, feito de uma nota só.

As lives se tornaram o diamante que risca a pedra e dá a luz necessária para a sobrevivência do pensamento criativo. Longe do convívio pele a pele, perto daquilo que as pessoas têm para compartilhar, o conhecimento. E eu, na minha legítima função de espalhar informações, vou me municiando também. E vou me enriquecendo assim.

Hoje pela manhã, uma das primeiras de uma infinidade de mensagens que recebi pelas redes falava sobre os Despatronados, uma Cooperativa de entregadores(as) que decidiram se organizar numa alternativa de trabalho que consideram mais justa. Foi a oportunidade no risco. Isolados por conta do vírus, muitos de nós lançamos mão do serviço de quem se arrisca e vai para as ruas. Num país pobre como o nosso, em que o governo atual não atua na parceria, essas pessoas resolveram romper o código perverso de quem os emprega a troco de migalhas. E parece que está dando certo.

Ontem à noite, assisti no programa Papo com Favela (instagram), do jornalista Andre Balocco, a entrevista com Jessé Andrilho, da Favela de Antares. É um escritor que também conseguiu, obviamente depois de muito persistir e de encontrar parceiros certos, vencer o muro de exclusão que a cultura impõe a quem mora em comunidades. Lançou um, outro e outro livro, já foi chamado para auxiliar como roteirista e se sente, assim, incluído. Mas não largou a retórica e o sentimento de quem sempre foi posto à margem.

Eu precisava de uma linha que conseguisse unir estas peças que já formavam um mosaico na minha cabeça. E, como disse lá em cima, não por acaso, atendi o convite de Rita Afonso para assistir a uma live chamada “Tecnologias do Comum: Tendências da Inovação Social” (. sobre Inovação Social.

Rita é fonte das antigas, daquelas que se transformam em amizade, e os jornalistas que me leem sabem bem o que é isto. Professora da UFRJ na Faculdade de Administração e pesquisadora associada do Laboratório de Tecnologia, Diálogos e Sítios e outros. Eu a conheço desde o início do século, quando a entrevistei para o caderno Razão Social, que editei no O Globo durante nove anos. Rita é uma pessoa que me ajuda a espalhar notícias que têm a ver com o que acredito.

Se você, caro leitor que me prestigia, percebeu que seu “mesmiçômetro” foi às alturas quando ouviu a expressão Inovação Social, saiba que não está sozinho. Eu também faço críticas, sobretudo à quantidade de siglas e sínteses deste pensamento, a um engessamento na hora de captar dinheiro para os projetos. Quantos passos os Despatronados teriam que dar para pôr no ar e fazer andar sua criação se tivessem que impor o programa a uma banca de especialistas?

De outro modo, dentro do esquema que vivemos e que ainda não conseguimos transformar, a Inovação Social tem a vantagem de ajudar. Talvez num universo muito menor do que seria necessário, mas é positivo. Sobretudo quando se fala em relações, na verdade, em novos padrões relacionais.

Gostei muito quando Rita Afonso falou, do jeito claro e cristalino que a caracteriza (ela virou minha fonte, né?), que quando se fala em Inovação Social não se está falando só em APPs. Lavou minha alma esta informação.

“Estamos falando de novos padrões relacionais. De caminhos para soluções da vida cotidiana, das comunidades. São instáveis e se espalham por contágio”.

Mais do que tudo, Rita conseguiu dizer a frase que fez meu “mesmiçômetro” se acalmar: “Não precisa de escala”.

Sim, os programas de Inovação Social podem se adensar, podem fazer diferença. Querem um exemplo? O Papo Reto, no Morro do Alemão, surgiu da ideia de Raul Santiago que pensou em traçar um caminho para os moradores da comunidade poderem entrar e sair da favela com segurança.

Gostei tanto que continuei na live. E ouvi Cindy Lessa, uma das primeiras diretoras da Ashoka Brasil. A Ashoka é  considerada a quinta ONG de maior impacto social do mundo, e também conheci enquanto editora do Razão Social.

Cindy me trouxe a memória de Muhammad Yunus, fui correndo à estante e achei o livro “O Banqueiro dos Pobres” (Ed. Ática). Está bem velhinho, foi escrito em 1997 e conta a experiência de Yunus, que começou em 1976, quando ele decidiu emprestar 27 dólares a uma comunidade de 42 pessoas no seu país, Bangladesh, que atravessa a pior crise de fome de toda a história. Hoje ele tem uma instituição privada auto-sustentável, o Grameen Bank, com 2185 agências. Já emprestou o equivalente a 5,72 bilhões de dólares para 6,61 milhões de mutuários, 97% dos quais são mulheres.

Mas Bangladesh continua a ser um país pobre, muito pobre. Está em 142º lugar no último ranking de desenvolvimento humano feito pelo Pnud. Isto é só uma informação? Sim. E serve para alimentar minhas caraminholas matinais que compartilho aqui com vocês.

Uma das questões levantadas na live da UFRJ foi o empobrecimento de uma sociedade quando ela se baseia no individualismo. E eu me pergunto se não é exatamente esta grande “escala do humanismo” que tem estragado tudo. O que é a pobreza de Bangladesh? Como estará hoje aquela comunidade de Jobra, onde Yunus começou sua empreitada? Não será por aí, focando no desenvolvimento de cada cidadão, de cada bairro, que se vai conseguir enfrentar o mundo com ou sem pandemia?

 

 

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Resolução de segunda-feira: continuar a morar em cidade

transito_no_rio_1Segunda-feira é dia de dar início a novos planos. Muita gente começa uma dieta, muda os móveis de lugar ou mesmo transforma em ação projetos outros que estão guardados no fundo da memória. Pode ser que no final da semana tudo tenha estagnado. Mas, não importa. Sigamos o calendário gregoriano – promulgado pelo Papa Gregório XIII, em fevereiro de 1582 – e as segundas-feiras serão os dias sagrados de mudança.

Pensei sobre isto quando assisti ao documentário “Que estranha forma de vida”, dirigido por Pedro Serra, que a amiga Martha Neiva me mandou, sob a inscrição “Você já viu este doc? Nada que você não saiba. Acho que a negação da importância da nossa ligação com a natura nos trouxe aqui”.

Como não ver, depois de um comentário desses?

O filme é sobre mudança de vida radical. Pessoas que largaram cidade, trabalho, ganho de renda fixo e foram buscar saúde no contato com a natureza, em uma nova organização social. É inspirador quando eu penso na calma do local, na leveza da água, na pureza dos legumes plantados e colhidos ali mesmo. É assustador quando me imagino sem os pequenos símbolos da civilização que gosto – um bom colchão, banho quente, livro e mesinha de cabeceira fazem parte do meu arsenal de modernidade – e cercada por alguns perigos que só conseguiria combater se usasse ao menos parte da tecnologia que nos cerca. Mosquitos e seres peçonhentos estão entre eles.

É inspirador quando ouço que um grupo na Espanha criou uma comunidade com moeda própria e vive sob os critérios do movimento “Smart Village”. São cidadãos preocupados com os 3,4 bilhões de pessoas rurais no mundo e incentivam seu empreendedorismo. Mas não abrem mão da ajuda de governos, empresas grandes e pequenas, o que pode acabar sendo um leopardismo a mais dentre tantos os que nos cercam hoje.

E por falar em leopardismo, em dias e datas, lá vamos nós caminhando céleres para uma nova Conferência  de Cúpula conclamada pela ONU para tentar debater ações em prol de uma qualidade de vida para o mundo. Em maio do ano que vem vai acontecer, na China (nenhuma surpresa, já que este país tem aumentado sua participação nas Nações Unidas) a COP 15, ou seja, Conferência das Nações Unidas sobre a Biodiversidade.

Como viram, um tema se liga ao outro, já que nas cooperativas e comunidades documentadas no filme a relação com os seres vivos – animais e plantas – que os rondam é de respeito. O tempo todo. Até mesmo quando uma moça se dedica a ensinar cavalos. Ela usa um pequeno chicote, o que me impressionou, mas se explicou, para meu alívio, dizendo que o usa somente como símbolo de poder. Somente para fazer o animal segui-la.

Como se sabe, o vírus Corona que hoje nos ameaça pode ser fruto da relação abusiva e predatória que temos com a natura. “Não devemos temer os mísseis, e sim os vírus”, disse Bill Gates há cinco anos, numa palestra. A jornalista Soledad Barruti reproduz este sentimento num belo artigo publicado no site da Editora Elefante: “Nuggets e morcegos: como cozinhamos as pandemias”.

Desde muito vimos sendo levados a crer que somos mais poderosos e potentes porque temos inteligência racional. Isto nos levou a subjugar, matar e comer os bichos, esquecendo-nos das outras tantas matérias – vivas também, mas que não sentem dor, como os animais – que podem nos servir de alimento.

Não sei se a Conferência de Cúpula da Biodiversidade conclamada pela ONU vai expor este tipo de debate. Desde que o presidente Donald Trump assumiu o comando dos Estados Unidos (ex principal mantenedor da ONU) e abriu a possibilidade de se considerar o negacionismo climático uma hipótese viável, tais reuniões têm sido, em geral, uma tremenda oportunidade de se pôr holofotes sobre tal descalabro. É possível que, se não tivéssemos assinado um Acordo de Paris em 2015, comprometendo-nos a baixar emissões de carbono, a fala do ministro Salles sobre “deixar a boiada passar” passasse despercebida.

Criar uma consciência mais ampla do que os limites dos ativistas ambientais, portanto, é uma função importante. E que faz com que as Conferências do Clima e da Biodiversidade sejam mais do que uma reunião de retórica inútil. Uma semana atrás, na 4ª Sessão da Conferência Ministerial sobre a Ação Climática, a secretária executiva da ONU, Patrícia Espinosa, deu o tom quando falou aos ministros dos países aliados:

“Peço-lhes que considerem a possibilidade de que, longe de estarmos à beira do apocalipse, estaremos à beira de um momento de transformação na história humana … um momento que as gerações futuras identificarão como crucial; marco para uma nova era. Vamos escolher ‘voltar ao normal’? O normal em que o aumento da temperatura global chega a mais do dobro até o final deste século? O normal em que nossos oceanos se acidificam a um ritmo alarmante? O normal que faz desertos de terra desmatada e solo sobrecarregado?”

Foi uma senhora puxada de orelhas, né? Sinto dizer a vocês, porém, que não foi a primeira. E, provavelmente, não será a última. Essas belas falas engrossam a parte da retórica inútil. Mas é bom para puxar manchetes, acender os holofotes e chamar mais pessoas para a causa.

Conversa que vai, conversa que vem. Sem perder o fio da meada, volto à questão da mudança radical de vida. E devo dizer que, já que é segunda-feira, decido… continuar morando em cidade. Gosto das cidades. Não gosto é do que fizeram delas. No excelente “A cidade no século XXI” (Ed. Consequência), de Álvaro Ferreira, li pela primeira vez a expressão “cidade vitrine”. E descobri a raiz do (meu) problema.

É bom poder andar num bairro que eu conheço, conversar com vizinhos. É bom poder visitar a livraria, a biblioteca, ir ao cinema, pensar em criar uma horta comunitária, descobrir alguém que está vendendo um produto orgânico, um artesanato. Não é bom ver tanta gente sem teto, numa clara demonstração de incompetência do sistema que nos rege e exclui. As “cidades vitrines” (moro numa) são aquelas que se tornam produtos à venda. Com o dinheiro dessa venda, faz-se… mais eventos para vender. Não se pensa em acomodar os cidadãos, em dar qualidade de vida a todos.

Não é uma questão de superpopulação, portanto. É questão de como esta população está distribuída.

Pensando assim, o documentário “Que estranha forma de vida”, que me inspirou este texto, pode ser também ideia para se viver em cidades. Buscar mais contato com a natureza, cuidar da nutrição, são atitudes que se consegue num bairro. O problema é o barulho. Bem, mas para isto a tecnologia criou os fones de ouvido…

 

 

 

 

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É preciso estar atento. E forte

beto-e-maria-lindosFui derramar um pouco de mim fora do gueto dos isolados, dos homeofficers. Ando fazendo essas caminhadas quinzenalmente, tempo que me parece na medida para não ficar doente de tanta falta de poder ter a liberdade de outrora, quando eu ia até onde os meus pés me levavam. Naquela época eu seguia sem culpa, sem esta máscara que me tolhe bastante a respiração. Mais feliz.

Desta vez, rumei ao Largo do Machado. E, diferentemente do cenário devastador e quase desértico (comparativamente a dois anos atrás) que encontrei no Largo da Carioca, fui recebida por ruas cheias, engarrafamento, de um jeito quase igual ao que era antes da pandemia. Estranho dizer isto, “antes da pandemia”, porque pode parecer que ela já passou. E não passou. Vi muitas pessoas usando máscaras, o que dá o tom de novidade ao nosso tempo atual.

Na Rua do Catete, num entroncamento bem movimentado, um jovem pregava a palavra de Deus aos berros. Parei para ouvi-lo durante um tempo, impressionada com o tom e a perseverança do rapaz, que falava, literalmente, para o vento, o sol. Ninguém, além de mim, parou para ouvir.

A vendedora de livros me viu parada e não segurou o comentário:

“Deve ser ex-presidiário. Eles saem do presídio e muitos logo entram numa igreja. E ficam assim, loucos. Coitado. Vai perder a voz, de tanto que grita”.

Não concordei nem discordei. Sei lá o que ela quer dizer quando usa a expressão “louco”.

Do outro lado da rua, ao lado de uma lojinha que vende bugingangas orientais foi aberta… outra lojinha que vende bugingangas orientais. Ora, numa crise dessas, alguém abrir uma loja para vender produtos importados que estão longe de poderem ser chamados de gêneros de primeira qualidade é, realmente, para refletir. Ainda por cima, do lado de outra!

Se a loja foi aberta é porque há público. E, se há público, como se pode explicar o fato de haver quem, no meio do desmonte econômico que presenciamos e do qual temos notícia diariamente, se sente à vontade para gastar dinheiro com coisas inúteis? Não tenho esta resposta, mas fiquei com a reflexão.

Próxima parada: farmácia. Levei junto a minha indignação de sempre, que se agrega a uma preocupação crescente. As farmácias estão cada vez mais cheias. E os preços dos remédios estão cada vez mais caros. Pude constatar que o suplemento vitamínico do qual faço uso está 15% mais caro do que quando começou a pandemia.

Os laboratórios fazem de tudo para mostrar que se preocupam com a falta de saúde dos cidadãos. Embalam os remédios em cores vibrantes e gastam bastante dinheiro com propaganda, com mensagens que mostram para que se consiga viver sem dor, sem febre, sem mal estar, sem indigestão… E a farmácia fica parecendo supermercado. Que coisa.

Passei pela Petshop e pude constatar que o suplemento  que minha cachorra idosa precisa tomar também subiu de preço. Paguei R$ 20,00 a mais do que no mês passado. Mostrei minha indignação para a menina que me atendeu, mas logo me arrependi de tê-lo feito.

A moça lançou-me um olhar/paisagem que me deixou com a constatação de que estamos impotentes diante de corporações que decidiram ganhar dinheiro com a crise. Possivelmente demitiram alguns funcionários, deram uma enxugada na produção e elevaram os preços para não perder. Para mim, é gênero de primeira necessidade porque cuido muito bem dos meus bichos (na foto acima, Maria e Beto), já que foi minha opção ter a companhia deles. Sendo assim, não me resta outra alternativa senão pagar o preço que estão me cobrando. E reclamar ao bispo.

Já de volta, lancei um olhar rápido para os preços do supermercado e descobri uma super promoção: a caixinha da pizza pronta estava sendo vendida a R$ 7. Uma razoável dose de gordura, massa e conservantes com um sabor forte e, para muitos, agradável. Certamente meu corpo reagiria com uma baita dor de cabeça se eu resolvesse comer. Fui adiante, pensando sempre.

O ciclo se fecha assim.  A má alimentação desencadeia problemas no corpo que serão “sanados” pelos remédios, alguns até em promoção. Leve duas, pague apenas uma caixinha de analgésico ou frasco de medicamento que resolve questões do fígado. Já os remédios não populares sobem de preço.

Ontem recebi um email da Editora Elefante com um artigo que faz parte da reflexão contida no livro “Capitalismo em quarentena: notas sobre a crise global”. A reflexão é interessante:

“A quarentena autoimposta do capitalismo foi, para este, um mal necessário para continuar existindo. Mas esse remédio amargo pode ter um perigoso efeito colateral, tendo aumentado exponencialmente a montanha de dívidas impagáveis que ameaça desabar a qualquer instante”.

Se estamos falando que precisamos viver uma mudança de paradigma nos tempos incertos que começam a se abrir para nós, a primeira coisa é perceber a nossa própria atuação em toda esta história. Indispensável a percepção de que é preciso pegar com a mão a batuta e reger nossas vidas.

Rendo homenagem aqui aos mestres da música Gilberto Gil e Caetano Veloso que, em 1969, lançaram “Divino Maravilhoso”, lindamente cantada por Gal Costa. “É preciso estar atento e forte/Pro palavrão, para a palavra de ordem”.

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Como organizo meu dia entre lives, livros, cuidados com casa e redes sociais

livro para blogAndo dividindo meu tempo, neste já saturado isolamento que se arrasta em nossos dias, da seguinte maneira: pré-escolho e me inscrevo para assistir a uma live pela manhã, outra à tarde/noite. Entre uma e outra, eu leio, pesquiso nas redes e escrevo aqui para o blog e para o livro que estou produzindo.

Fora isto eu cuido da casa, dos cachorros, cozinho e me cuido. De hora em hora, no computador, eu paro, respiro, ponho um chá de camomila no olho que está ressecado. E quando percebo que estou saturada de informações, calço o tênis, boto a máscara, um vidrinho de álcool no bolso e vou lá embaixo. Vejo a rua, carros, o balé urbano que me ronda. Inspiro e expiro vendo a pedra que abraça as ruas da comunidade onde moro. E isto me acalma.

Vocês devem estar me achando um exemplo de organização. Até ficaria feliz com isto, mas… preciso confessar que nem sempre eu consigo cumprir o planejado comigo mesma. Sendo mais honesta: passo mais tempo do que eu gostaria nas redes sociais, por exemplo. E às vezes fico bem irritada, quando me vejo assistindo a um vídeo que não vai me ajudar em nada.

É esta nossa realidade: no fim de 2011, o número de sites e blogs no mundo tinha chegado a 550 milhões, mais do que o dobro da base, e as assinaturas de banda larga eram quase 600 milhões. São dados do livro “Tempo Orgânico”, de Álvaro Esteves, lançado pela Sinergia em 2012. Recomendo a leitura.

E o meu espaço virtual está colaborando para engrossar a estatística que põe o Brasil em quarto lugar do mundo em número de blogueiros. Cada um querendo a sua atenção, caro leitor. Eu também.

Sendo assim, vou me esmerar para trazer a vocês informações interessantes.

Ontem à noite e hoje pela manhã me dediquei a assistir e ouvir notícias frescas sobre o meio ambiente. Lembro sempre a vocês que, para mim, este é um tema que permeia. Não tem como falar de política, economia, de conjuntura urbana, social, nem mesmo de dinâmica psicossocial sem levar em conta onde estamos. Sem considerar a água que bebemos, o ar que respiramos, os caminhos que trilhamos.

Neste sentido, fico bem preocupada quando a gente entrega aos homens e mulheres que se postam oficialmente como interlocutores de nossa organização social e quase não pisam em chão. Digo chão mesmo, sabe, a calçada. A sensação que eu tenho é que muitos executivos saem de jatinhos direto para um carro, direto para o elevador, direto para sua suíte e lá ficam pouco tempo antes da próxima reunião, antes de pegar outro jatinho, outro carro, outro elevador…

Mas isto é só uma reflexão que compartilho com vocês.

Ontem à noite assisti a live da Agência Envolverde. O jornalista Dal Marcondes, parceiro de cobertura ambiental há mais de uma década, a jornalista Lucia Chayb, que edita a competente revista “Eco-21” e o também coleguinha Reinaldo Canto entrevistaram Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente e atual co-presidente de um painel de Alto Nível da ONU. Dizer para vocês que fiquei com uma certa sensação de nostalgia ao perceber a competência da ex-ministra e comparar com nossa situação atual pode provocar polarização política, coisa da qual ando fugindo. Mas… já disse, né?

Izabella se coloca o tempo todo como uma profissional de carreira, e isto explica muita coisa. Ela respira leis, artigos, situações sobre meio ambiente desde que começou a trabalhar. Teve uma participação preponderante na COP-15, em 2009, que ajudou muito para se fechar o Acordo de Paris em 2015, este já tão desprezado pelos líderes que se seguiram ao presidente Obama e à presidente Dilma.

A live, que ainda está na web para quem quiser assistir (só acessar o site da Envolverde), tem a marca dos bons jornalistas: deixar o entrevistado falar. Assim, Izabella discorreu sobre grande parte da história ambiental do país. E me fez lembrar muitas coisas, entre elas que a agenda ambiental brasileira começou, na verdade, com a disputa por quem conseguiria tirar Cubatão da saga de tanta poluição industrial. Isto aconteceu nos anos 80.

De lá para cá tudo está do jeito que se vê… mas alguma coisa mudou para melhor.

Hoje pela manhã, outra live. Fui ao Museu do Amanhã, infelizmente só virtualmente, porque é um local que adoro visitar. O convite foi para ouvir a entrevista que o jornalista Emanuel Alencar fez com Andre Trigueiro (dois queridos colegas) sobre a questão do novo marco regulatório do saneamento básico que acaba de ser sancionado pelo presidente Bolsonaro.

Concordo com Trigueiro quando ele diz que a questão nem é mais se queremos ou não que privatize um serviço que está precisando ser… um serviço. A questão é que não pode continuar como está. Só para resumir, nossos rios recebem cinco a seis mil piscinas olímpicas de esgoto. E esta é a água que recebemos. Nós, que temos direito à água com (algum) tratamento.

Concordo também com alguns espectadores da live, que lembraram o possível sucateamento. Do jeito que está, a Cedae, por exemplo, pode ser arrematada por poucos tostões. E lá se vai um jeito de o Estado poder arrecadar mais. Nas mãos de empresa privada, o serviço pode melhorar… ou não.

Foi outra ótima live, também cheia de informações importantes. Recomendo. E deixo com os leitores uma observação minha, da qual Trigueiro discordou amorosamente, e que acredito ser pano para mangas de reflexões. A consciência ambiental, para mim, só está sendo ampliada na classe abastada, na elite. Falo do Brasil, que é a realidade que mais conheço. Não sei como se pode situar isto no mundo.

Na verdade, eu havia dito que a “elite brasileira” tem mais chance de ter consciência ambiental, mas quero consertar minha fala: uma elite das grandes metrópoles brasileiras, digo. Os trabalhadores de estados onde os recursos naturais fazem parte da sobrevivência (Pará, Amazonas, Tocantins, Acre), sim, já têm hábitos e preocupações concernentes.

Mas aqui no Rio, por exemplo, infelizmente não consigo imaginar um jovem carente, que precisa ir e voltar para o trabalho diariamente num ônibus lotado, sonhando em ter uma bicicleta em vez de um carro. Abro espaço para o diálogo e aceito contribuições para ampliar pensamento.

 

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