Carta a uma jovem do século XXI

Minha amiga Martha alegrou minha tarde de ontem, com a mensagem que dizia: “Laura está muito interessada em se informar sobre questões climáticas. Pedi a ela que seguisse você no seu blog e conversasse com você”. Para contextualizar: Martha foi da equipe do caderno “Razão Social”, que editei durante nove anos no jornal “O Globo”, atualizando os temas ligados ao ecodesenvolvimento.

Laura tem 19 anos, portanto é uma jovem nascida e criada no século XXI. Cerca de três décadas antes de seu nascimento, o mundo já tinha se dado conta de que levar a vida como extrativista e consumista não daria em boa coisa. Uma trágica descoberta, feita em laboratórios científicos, vinha reafirmando o que os povos da floresta percebiam em seu dia a dia: os bens naturais são finitos.

E é assim que começa a história que quero contar para Laura nesta missiva virtual.

Querida Laura

Primeiro, é importante singularizar este depoimento. Aqui vai o relato de alguém que era uma jovem adulta quando o Rio de Janeiro sediou a Rio-92, segunda Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente. A primeira, em 1972, acontecera na fria Estocolmo, capital da Suécia, numa época em que nem fax funcionava bem, portanto no Brasil soubemos pouco, quase nada, do que fora decidido lá, sob a batuta do então presidente da ONU Maurice Strong.

Mas a Rio-92, não! Foi aqui, em nossa casa. O Aterro do Flamengo foi tomado por ONGs ambientalistas, indígenas, quilombolas, população ribeirinha, todo mundo advertindo para o que estava acontecendo no Brasil profundo. Não funcionei como repórter, mas editava as matérias escritas pelos colegas que cobriram in loco a Conferência. Na época eu era subeditora do jornal O Globo, na Editoria Rio.

Escolhia as fotos, ouvia os relatos, consertava alguns erros nos textos e tentava fazer bons títulos para chamar a atenção dos leitores. Ficava impactada com as notícias, sim.  Mas… saía da redação, depois de um dia intenso de trabalho, e ia viver minha vida, conversar com amigos, sem fazer muita conexão com tudo aquilo que eu lera e ouvira.

Na época, vivíamos o desterro político de um presidente que sofreu o impeachment. E fizemos aquilo que ainda hoje fazemos: priorizamos os desmandos palacianos, como se tudo aquilo que ouvíamos na Rio-92 não fosse mais importante.

Penso que, como eu, a sociedade em geral, no dia a dia, não se rendeu aos fatos mostrados na Rio-92. Ainda era difícil fazer a ligação entre consumo e meio ambiente.

 Aqui no Brasil, o então presidente Collor de Melo, antes de ser afastado, abriu as portas para a entrada de produtos estrangeiros. Laura, eu preciso lhe dizer que, apesar de todos os pesares, aquele foi um momento especial. No sentido macro, começaram a entrar produtos e máquinas que tornavam nossa vida melhor. De computadores a equipamentos médicos (cateteres, por exemplo), que podiam salvar vidas.

Mas, junto com isso, chegavam também quinquilharias e outros produtos que nos deixavam feito crianças em frente a vitrine de brinquedos. Lembro bem que eu gostava de usar uma henna francesa que antes só era vendida numa lojinha escondida no Leblon. Custava caro, mas valia o investimento que eu fazia de vez em quando. De repente, a mesma henna estava ali, ao alcance das mãos, nas farmácias do bairro.

Pode jogar pedras, porque vou confessar: não pensava em quem plantava a henna, em quem extraía o corante, não tinha ideia, nem procurava saber sobre as condições do plantio, tampouco no salário das pessoas que empacotavam o produto ou nas emissões de carbono intensa do transporte que a fazia chegar até mim.  Percebeu o tamanho da encrenca? Agora multiplique isso pelas mil bugingangas que começaram a vir dos países asiáticos e que nos enchiam os olhos. De novo: estou relatando sob o ponto de vista de uma pessoa urbana, classe média, que morava numa grande cidade.

A febre de consumo chegou às roupas. Você já ouviu falar em calça Lee? Pois é o seu jeans de hoje. Eu cruzava a cidade para comprar, numa loja em Copacabana. Ou esperava uma muambeira, que vendia escondida no banheiro do jornal. Até que, com a “abertura dos portos”, a calça Lee virou jeans , barateou e foi parar na vitrine dos shoppings… como resistir?

Não estou justificando nosso comportamento, apenas relatando os fatos. Ontem mesmo, quando li a reportagem mostrando que no deserto de Atacama existe uma montanha de roupas jogadas fora, pensei na minha primeira calça Lee. Como durou!

Mas, chega de falar do passado, senão esta carta vai ser ressentida, e isto não se casa com meu estilo. Se você me perguntar se hoje eu percebo tudo isso, a resposta é sim. Se eu mudei meu estilo, novamente eu respondo que sim. Mas não patrulho ninguém para mudar. Não é meu estilo.

 É importante repetir que, à exceção dos ambientalistas, que na década de 90 começaram a emergir, pouco demos ouvidos às questões que já se anunciavam. Na época, quem alertava recebia logo o apelido desagradável de ecochato, seguido da frase: “Vai ficar aí salvando a vida do mico leão dourado e as baleias?”. Pois é. Hoje sabemos o que é bulliyng, na época a gente ria amarelo e se escondia.

Como você me pediu dicas de leitura, sugiro dois livros que podem dar essa visão histórica. O primeiro, acabo de ler: é da Samyra Crespo, ambientalista que esteve no segundo escalão do governo Lula. Tem muita coisa para contar e o faz de um jeito gostoso, leve. O livro se chama “Conta que viveu, escreve quem se atreve”, editado pelo Instituto Envolverde. O outro livro é do economista Ignacy Sachs, e se chama “A terceira margem” (Ed. Companhia das Letras).

 Assim como Samyra, Sachs mistura a vida pessoal no seu relato sobre a luta como ambientalista. Se eles usam essa maneira de contar é porque, sim, é tudo misturado. Não se pode falar e escrever sobre meio ambiente sem misturar com o dia a dia. Como não se pode falar em cuidados com o meio ambiente sem ter um olhar sensível para os pobres.

Ano que vem vai ser um ano cheio de comemorações porque terão se passado quatro décadas da Conferência de Estocolmo, três décadas da Rio-92, uma década da Rio + 20… adoramos efemérides.

Eu, como repórter, na cobertura da Rio + 20, no Riocentro

Talvez as comemorações fiquem mesmo centradas em Estocolmo, já que o Brasil não está, atualmente, sendo visto como um parceiro nas questões climáticas. Não é para menos. Leu a frase do atual ministro do meio ambiente na COP 26? Ele disse: “Onde existe muita floresta, existe muita pobreza”.

É uma frase que soa mal aos ouvidos de quem se preocupa, de quem gosta dos bens naturais, não é? Mas soa muito bem aos ouvidos de quem chama BENS NATURAIS de RECURSOS NATURAIS.  Já vou explicar meu ponto.

Sempre fiquei muito incomodada com discursos vazios. Naomi Klein, a jornalista canadense, militante da causa ambiental –  outra dica boa de leitura para você (“This changes everything”, sem tradução para o português, é o melhor dela, mas tem outros bons) – diz que as COPs estão cheias de “retórica inútil”. Concordo com ela, por exemplo, quando leio num mesmo jornal a opinião de um especialista que ressalta a necessidade de se elevar o PIB e outro artigo, geralmente nas páginas de amenidades ou em encartes especiais, alertando para a necessidade de se preservar o meio ambiente e baixar as emissões.

Atenção, jovem Laura: uma coisa tem a ver com a outra, sim!

E aqui vai outra indicação de leitura: “Laudato Si”, a encíclica papal de 2015. O papa Francisco, já engajado no tema desde o início de seu papado, diz com todas as letras: é preciso baixar produção E o consumo, se quisermos realmente salvar a humanidade dos eventos extremos causados pelas mudanças climáticas. Porque, no fim das contas, é do que se trata: furacões, tempestades violentas, alagamentos, secas, muito calor e muito frio acabam com plantações, matam mendigos nas ruas (de calor ou frio) e, de quebra, causam transtorno também nas grandes cidades.

 Mas, adivinhe quem será, sempre, o mais prejudicado? O pobre, claro. Os indígenas, os ribeirinhos, os quilombolas, exatamente aqueles que não têm assento nas COPs, não têm como dizer sim ou não a este ou aquele acordo global. Não que sejam acordos totalmente inúteis, é preciso salientar. Ao menos fazem acordar uma parte da sociedade ainda adormecida.

E por que a questão do PIB me incomoda? Porque só se eleva PIB de um país quando se eleva a produção. Percebeu o paradoxo? Então vou acrescentar mais um ingrediente: mudar a produção simplesmente, sem uma organização estruturada, pode causar uma enxurrada de desempregos. E não é de hoje que já tem muitos especialistas pensando a esse respeito, tentando uma forma de modificar a medição de riqueza atual.

O ex-presidente da França Nicolas Sarkozy (que administrou o país de 2007 a 2012) chegou a encomendar um estudo para rever o PIB. Três renomados economistas: Joseph Stiglitz, Amartya Sen, Jean-Paul Fitoussi se debruçaram sobre pesquisas e formularam uma nova possibilidade de medição de riqueza, publicada em 2009 mas que foi devidamente engavetada mesmo antes de Sarkozy deixar o governo.

Já me alonguei demais, é este meu problema. O assunto me apaixona tanto, e é tão rico, que acabo perdendo leitores no meio do caminho. Leitores que, como nos tempos atuais, estão acostumados a ler tudo de forma abreviada, rápida.

Não será seu caso, querida Laura, eu tenho certeza. Guarde esta longa missiva e vá lendo devagarinho, degustando E, por favor, aceite meu pedido de desculpas. É sincero. Deixamos um mundo bem mais complexo para a geração de vocês. Mas a riqueza que vocês terão será a de perceber que é melhor SER do que TER.

 Enquanto eu estiver por aqui, estarei disponível para ajudar com o conhecimento que continuo adquirindo em pesquisas incansáveis. É no que eu acredito.

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O caminho para o grande recomeço passa pelo mercado de carbono?

Mundo afora, uma sensação de que o Corona vírus está sendo, finalmente, derrotado, vem tomando conta. Aqui no Rio, as escolas já estão funcionando presencialmente, por exemplo. Lado a lado com o alívio, porém, toma corpo entre as pessoas que não se acomodam, uma profunda preocupação com o que se anuncia como o grande recomeço. Uma pesquisa recente feita no Reino Unido mostrou que somente um quarto das pessoas entrevistadas querem a volta ao normal. Entre essas pessoas, aqui no Brasil, estão os signatários do Grupo Carta de Belém e mais de 80 outras organizações da sociedade civil que assinaram o “Manifesto rumo à COP26”.

Como se sabe, a Conferência do Clima deste ano será realizada em Glasgow, na Escócia, a partir do dia 1 de novembro. E existe uma enorme expectativa, por parte das tais pessoas que não se acomodam, para que essa reunião possa organizar melhor algumas coisas.

Ao mesmo tempo, porém, existe também um ceticismo, alimentado de forma legítima pelo fato de muitos desses encontros internacionais terem se revestido de uma retórica quase inútil. Mas, considerando que resultados pífios não são zero resultado, no fim e ao cabo conclui-se que ainda vale a pena participar.

 Diz o Manifesto rumo à COP 26 que a grande promessa da Conferência é a finalização do Livro de Regras do Acordo de Paris. Firmado em 2015, o Acordo aguarda a regulação dos mercados de carbono e de transações envolvendo ‘resultados de mitigação’ – para atingir os objetivos de estabilização da temperatura do planeta. O Livro seria uma espécie de ata para oficializar tais medidas.

A maior crítica, por parte das associações que assinam o Manifesto, começa justamente desse ponto. “Mercado de carbono é licença de poluição’, diz o texto.

“Os mecanismos de mercado criados para a redução das emissões de gases de efeito estufa, representam um processo histórico de reconfiguração das formas de acumulação e promovem nova reengenharia global da economia em nome do clima”.

A segunda maior crítica é o fato de a COP 26 ter, segundo os manifestantes, “as piores condições para a participação democrática na história das negociações climáticas”.  

Diante disso, os signatários do Manifesto elencaram cinco itens, que podem servir como sugestões para serem lidas pelos participantes da Conferência. Dessa forma a sociedade civil pode se sentir, minimamente, participante também.

 A necessidade de um projeto político para a Amazônia, construído para e com os povos amazônidas, é um dos itens principais da lista. Demarcação de terras indígenas e quilombolas e a defesa do protagonismo desses povos, juntamente com agricultores familiares e camponeses/as para a conservação dos territórios são outras questões importantes.

O fortalecimento das iniciativas agroecológicas também ganhou destaque no Manifesto, assim como a necessidade de se discutir “amplamente o caminho para uma Transição Justa e Popular, conforme a qual uma economia mais integrada e consciente dos limites da natureza não acirre a já dramática situação de desemprego e restrição da renda de famílias da classe trabalhadora”.

Se há alguma chance de se perceber um único dado positivo como resultado desse período de trevas que estamos vivendo, este é o fato de as pessoas estarem, hoje, mais conectadas à vida. É de se compreender, pois passamos por muitas mortes. E se conectar à vida traz mudanças de hábitos, de costumes, de valores. Muita gente passou a se conectar mais com a saúde, assim como ao nosso entorno. Valorizar o meio ambiente e dar atenção aos alertas que a Ciência vem dando para os impactos da nossa atividade sobre o clima é, pois, uma descoberta para muitos.

Como estou ligada ao tema há quase duas décadas e sou jornalista, tenho recebido outros manifestos, o que denota uma movimentação interessante da sociedade civil no momento pré-COP. Um exemplo é o “Planetary Health Alliance” (https://www.planetaryhealthalliance.org/spd-signatories) , também no seio das Nações Unidas, assinado por grandes organizações globais.

Trata-se de um documento que também entende que é preciso uma grande reestruturação pós Covid. Este é ancorado pela jovem sueca Greta Thunberg, que também assina um outro com um pedido interessante e extremamente necessário: que as crianças passem a ter educação ambiental nas escolas públicas, desde a mais tenra idade.

E o que ensinar às crianças sobre o meio ambiente? Penso que respeito é um bom começo. Que tal vermos ética nas plantas e nos bichos, tanto quanto na terra e no mar? Entendo ética como os valores que intercedem nas relações não só entre as pessoas, mas também com os seres vivos que nos cercam. Dessa forma, seria um grande, um enorme ganho começar a vida já percebendo o quanto ficamos maiores quanto mais nos aproximamos de tudo o que colabora para nos manter vivos.

É isso que pavimenta o caminho para trocar a chave do TER para o SER. Que nosso grande recomeço pós-tormenta parta desse princípio.

Barco no Rio Amazonas: região é uma das mais focadas pelos que se preocupam com as mudanças climáticas
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O que vai acontecer na COP26

Semana passada eu participei de um encontro virtual que tinha como objetivo abrir espaço de debate para os jornalistas que vão cobrir a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 26). A iniciativa foi do Instituto ClimaInfo junto com o Instituto Clima e Sociedade (ICS), e é bem-vinda. A Conferência vai acontecer entre os dias 1 e 12 de novembro em Glasgow, na Escócia, e vai ser num sistema híbrido, ou seja, parte presencial, parte online, essa novidade que a pandemia nos legou. Seguirei cobrindo online.

O logo da Conferência, conseguido do site da UNFCCC

Este é um assunto que tem muitas vertentes, a cobertura pode ser bem complicada. Por isso, foi muito bom poder dividir algumas questões, ouvir comentários de quem está há mais tempo na estrada das conferências do clima.

A complexidade da cobertura se explica pelo seguinte: quando se fala em desenvolver de maneira sustentável, o que é um mantra para os ativistas ambientais, é preciso que haja um olhar cuidadoso não só para o meio ambiente, mas também para o social e para o econômico. Isto quer dizer que é preciso envolver profissionais de diferentes áreas.

  Lembro-me bem que, quando eu editava o caderno “Razão Social” no jornal O Globo (de 2003 a 2012), totalmente dedicado ao tema, eu nunca sabia, ao certo, em qual editoria do jornal eu poderia encaixar chamadas para as reportagens que editávamos no caderno. Era um caderno de notícias muito variadas. O que não variava era o senso crítico que buscávamos, uma visão aguçada para evitar noticiar greenwashing, e a vigilância sobre os projetos que duravam pouco tempo.

O maior interesse dos jornalistas que compareceram ao convite do ClimaInfo e do ICS na na semana passada era a agenda econômica da COP26. É um interesse legítimo porque, em geral, é mesmo a parte mais forte da Conferência ou, pelo menos, é de onde saem as notícias mais quentes.

Neste ano, parece que o debate vai ser sobre um acordo feito na COP-15, realizada em Copenhague em 2009, em que se previu que os países ricos ofereceriam US$ 100 bilhões por ano até 2020 para ajudar países pobres a lidarem com os impactos da mudança climática. Só que, desse total, segundo o diretor do Climainfo, Delcio Rodrigues, há controvérsias se já se chegou perto de US$ 90 bilhões ou se ainda estão no patamar de US$ 40 a US$ 60.  Seria preciso uma pesquisa muito profunda para checar onde esse dinheiro foi empregado.

Foi muito bom constatar, na conversa entre meus colegas, o que já estava ficando claro, para mim, nos últimos tempos: a questão do mercado de carbono não é relevante para a COP26. Digo muito bom porque essa é uma questão bem polêmica. Ativistas ambientais mais críticos defendem que a economia verde, muitas vezes, é um disfarce verde para o business as usual. Tendo a concordar. Ontem mesmo, ouvindo a entrevista coletiva do atual ministro do meio ambiente, não sei quantas vezes ouvi essa expressão. A economia verde aparece como a solução de todos os males.

 Não é, como sabemos. Existem muitos cálculos que precisam ser feitos para se chegar ao preço do carbono e que ficam sempre no campo das promessas. E, no fim das contas, precificar é mais do mesmo modelo econômico. E não ajuda a promover a mudança civilizatória que até o Papa Francisco já disse ser necessária. E não ajuda, também, a incluir pessoas.

Neste sentido, vocês vão entender por que, para mim, a melhor notícia, na reunião, foi dada por Cristina Amorim, coordenadora de comunicação do Instituto    de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Segundo ela, a COP26 não será apenas uma Conferência do Meio Ambiente. Ela será também sobre inclusão e exclusão de pessoas.

Cristina Amorim lembrou que a questão da justiça climática tem crescido muito nos debates pré-conferência dos quais tem participado. E, sim, os representantes dos indígenas e os movimentos sociais têm sido cada vez mais ouvidos. Não é para menos. Cada vez mais se tem certeza de que os povos indígenas são os que mais preservam a floresta. É absurdo deixá-los no segmento “eventos paralelos” da Conferência.

Um estudo divulgado pelo site MapBiomas em agosto deste ano, mostrou que nos territórios indígenas o desmatamento e a perda de floresta foram de apenas 1,6% no período de 35 anos. Para mim, é clara a motivação: os indígenas precisam da floresta para viver, por isso dão valor a ela, por isso respeitam cada pedaço de terra, curva de rio.

 Mas, apesar dessa constatação, apenas 13,8% de todas as terras do Brasil são reservadas aos povos originários. No país, segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há725 terras indígenas em diferentes etapas do processo de demarcação). Dessas, somente 487 foram homologadas(quando o processo de demarcação foi concluído) desde 1988. O governo de Jair Bolsonaro é o primeiro, desde a redemocratização do Brasil, a não demarcar nenhuma terra indígena.

Gosto sempre de lembrar que este ano de 2021 começou com a reunião dos líderes empresariais e de nações, em Davos, no World Economic Forum, conclamando para um Grande Recomeço. E que vai terminar com outra grande reunião, a COP26, que está sendo considerada fundamental para propor mudanças civilizatórias.

Vale a pena ler “O futuro começa agora”, de Boaventura de Sousa Santos (Ed. Boitempo) porque, no fim do livro, escrito durante a pandemia, ele faz muitas sugestões para essa mudança. Nenhuma delas passa por mercado de carbono, com certeza. Mas, segundo lembra o professor, é preciso abolir a ideia do “one size fits all”.

“Impõem-se decisões globais e a criação ou o reforço de instituições globais para as levar a cabo, mas as soluções concretas e os seus ritmos devem ter em atenção a diversidade dos contextos e das culturas do mundo”.

Neste sentido, será preciso reformar a própria ONU, assim como outras instituições, “para deixarem de ser instrumentalizadas ou neutralizadas pelos grandes interesses capitalistas globais e dos Estados a seu serviço”, é uma das sugestões do sociólogo português.

Vou acompanhar a COP.  Na verdade, pretendo me concentrar nos side events, onde estarão os debates com os indígenas e com os movimentos sociais. Ainda que mais bem posicionados estrategicamente do que em outras COPs, eles ainda não terão assento nas discussões do mainstream. Quem sabe, um dia?

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Está na hora de crescer

Cerca de quinze árvores, em pouco tempo de ventos fortes, caíram nas ruas cidade do Rio de Janeiro anteontem. Era o Dia da Árvore.  Prejuízo para carros e para o trânsito, felizmente nenhuma vítima humana. No grupo do zap do qual faço parte, e que debate sobre a arborização urbana, especialistas cravaram o diagnóstico: “Só pode ser árvore que foi cimentada”.

Árvores livres à beira do Rio Amazonas. Foto de Amelia Gonzalez

Sim, isso acontece. Dia desses mesmo, passei por uma calçada que estava sendo reformada.  Nela existe uma árvore linda, frondosa, mas que está totalmente inadequada porque atrapalha a passagem. Não é culpa dela. Mas os operários, querendo mostrar serviço, decidiram cimentá-la para atrapalhar menos. Chamei a atenção para o fato, e o porteiro me respondeu, sem humor: “Essa árvore nem tinha que estar aí, outro dia uma mulher quase caiu por causa dela”.

Quase caiu quer dizer que não caiu, pensei.  E não cairá, se a pessoa usar sapatos adequados e, principalmente, não usar telefone celular enquanto estiver caminhando. Mas, seja como for, a árvore será sempre a culpada. Que sina essa, da humanidade, em se achar sempre mais inteligente, esperta, forte e merecedora de estar no planeta, acima de todos os outros seres vivos.

Vale refletir a esse respeito, sobretudo quando estamos a cerca de dois meses da Conferência das Partes sobre o Clima, COP26, que vai acontecer em novembro na Escócia. Será uma reunião importante, a chance de os líderes e tomadores de decisões ampliarem o debate e as soluções para enfrentar o aquecimento global. Mas pode naufragar, segundo o secretário geral da ONU, Antônio Guterres, alertou na Assembleia Geral da organização que aconteceu na terça-feira em Nova York.

Guterres fez um discurso contundente, pedindo solidariedade e intervenções, já que um relatório da     COP editado há poucos dias mostra que os países pouco fizeram no sentido de baixar as emissões de carbono e alcançar a meta do Acordo de Paris. Na capital francesa, em 2015, os líderes reunidos decidiram que agiriam em conjunto para não permitir que o aquecimento global ficasse acima de 1.5 graus Celsius até o fim do século. Mas, de lá para cá, as emissões só fizeram crescer.

O presidente das Ilhas Maldivas, Ibrahim Mohamed Solih, ilustrou sem retoques o que significa, para a pequena nação-ilha do Pacífico, a diferença entre aquecer 1.5 grau e 2 graus: “É uma sentença de morte para as Maldivas”. Solih discursou também na Assembleia Geral da ONU, que este ano elencou a questão climática como um dos grandes desafios da humanidade do século XXI, além da pandemia, da desigualdade, da fome.

Ocorre que, para limitar o aumento da temperatura, é necessária uma redução das emissões em 45% até 2030 e zerar até 2050. E será preciso agir em conjunto, países ricos ajudando os pobres, tendo a crise climática como foco prioritário, para que se consiga este objetivo. Ou, como diz Guterres, a COP26 já vai nascer fracassada.

O alerta não é novo, assim como não é novidade, para os ativistas ambientais, lidarem com a quase passividade da maioria dos líderes globais diante de uma situação absolutamente emergente. É inexplicável. No início do século ainda se podia dizer que o meio ambiente não era um assunto considerado prioritário porque havia um caráter anódino rondando o tema. Hoje, não.

Basta ver, por exemplo, o último relatório da Organização Mundial de Meteorologia (WMO na sigla em inglês, segundo o qual, nos últimos 50 anos, mais de onze mil desastres foram atribuídos a riscos relacionados ao clima, envolvendo dois  milhões de mortes e US $ 3,6 trilhões em perdas econômicas. Já um relatório da ONU divulgado em junho deste ano dá conta de que pelo menos 1,5 bilhão de pessoas foram diretamente afetadas pela seca neste século, e o custo econômico ao longo desse período foi estimado em US$ 124 bilhões. Não é pouca coisa. Mas, também neste ponto, a desigualdade social mostra suas garras potentes, já que os mais vulneráveis ao risco são os países pobres, ou seja, aqueles que emitem menos emissões de carbono.

Voltamos assim ao discurso do presidente Ibrahim Solih, das Ilhas Maldivas, que abriu a sessão da Assembleia anual das Nações Unidas em Nova York. Com outras 38 nações-ilhas, Maldivas faz parte da Alliance of Small Island States (Aosis), associação criada na última década do século passado para representar esses países que, por conta da própria geografia, estão no topo do risco climático. Muitos já estão sentindo o avanço do mar, o que impede a agricultura em alguns territórios.

Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) de 2019 mostrou que o aumento do nível do mar se acelerou devido ao aumento combinado da perda de gelo das camadas da Groenlândia e da Antártida.

Como já deu para perceber, o debate sobre as questões climáticas é uma espécie de novelo. Uma informação puxa a outra, que puxa a outra. Um pensamento vai se ligando a outro e a outro mais. Essa interconectividade é característica de nossos tempos, e precisaremos aprender a lidar com ela.  Das árvores cimentadas chega-se ao drama das pessoas que vivem nas ilhas do Pacífico porque, no fundo, estamos falando da mesma coisa.

Árvore cimentada nas ruas do Rio. Foto de Amelia Gonzalez

O xamã Ailton Krenak faz uma imagem interessante. A sensação que ele tem é que nós estamos brincando de ser humanidade. Como se fossemos eternas crianças, sem responsabilidade de nada com o ambiente que nos cerca. Está mais do que na hora de crescermos e de tratarmos as árvores, por exemplo, como seres vivos que precisam respirar. Ou, admitir que jogar cimento em sua base é uma forma de assassinato e pagar por isso.

(P.S.) – Este texto foi escrito originalmente para o site Entrenós e para o blog da Casa Monte Alegre

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Histórias e soluções num mundo pandêmico

Estávamos em 2015 quando ganhei de uma grande amiga o aparelho celular 5S da Apple. Ela tinha comprado um mais novo, e o aparelho que eu usava era muito, mas muito antigo, tinha uns dez anos de uso.

O 5S esteve comigo até sexta-feira passada, quando, pela manhã, fui conferir as notícias e percebi que, apesar de ter estado a noite toda na eletricidade, ele estava sem bateria. Fiquei preocupada. Pedi ajuda a vizinhos, havia um problema no cabo, mas… na verdade, há tempos eu não recebia a notificação da empresa dizendo que iria atualizá-lo. Enfim. Noves fora, na verdade é que tinha chegado a hora de trocar meu aparelho de celular.

Não sou muito apegada a coisas. Mas não gostei nada de ser obrigada a fazer uma despesa com a qual eu não estava contando. Parecia aquele momento, no jogo Banco Imobiliário… “recue quatro casas porque você vai ter que trocar seu celular”. Mais ou menos isto. Lá fui eu para a loja, aproveitando que tenho pontos por ser cliente antiga e leal da operadora.

Trouxe de lá um celular novo, mas tive que optar por outra marca por causa dos preços. Certamente que este terá mais autonomia de bateria e uma câmera mais potente, além de uma memória maior. Por outro lado, pesa uma tonelada. Comprei um carregador novo e vou deixar o meu velho ali na gaveta…

Toda essa operação me fez pensar em consumo. E pensar em consumo me lembrou que em novembro os holofotes do mundo estarão voltados para Glasgow, no Reino Unido, onde vai acontecer a COP26, ou Conferência da ONU sobre o Clima, cujo propósito será como sempre acontece nessas reuniões, traçar políticas públicas a nível mundial para tentar travar o avanço do aquecimento global. O último relatório dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) não traz boas notícias a este respeito. O planeta aquecerá 1,5º em todos os cenários já nos anos 2030.

Pela primeira vez na história dos relatórios do IPCC, os pesquisadores dizem que não há a menor dúvida de que a ação humana é a responsável por este aquecimento.

É este o link com a situação que vivi na sexta pela manhã. No meu caso, consegui manter um celular que já havia sido usado por mais seis anos. Há quem troque de ano em ano, por nada, só porque surgiu um novo, com uma resolução maior na câmera. Não estou julgando nem criminalizando. Meu objetivo aqui é fomentar o debate com informações. Vale a pergunta, portanto: o consumismo é, então, o grande vilão? Um dos alertas dados pelos cientistas é que estamos vendo e veremos cada vez mais eventos compostos, ou seja, ondas de calor e secas que ocorrem próximas umas das outras ou ao mesmo tempo. Isso dá pouca chance de as comunidades vulneráveis se refazerem.

A norte-americana Annie Leonard ficou conhecida quando criou, em 2009, o vídeo “A História das Coisas”, que virou livro lançado aqui no Brasil pela Editora Zahar. Ali ela fazia um apanhado interessante sobre o caminho das coisas que compramos até virarem lixo. Em 2013, porém, a expert em desenvolvimento sustentável e em cooperação internacional lançou “The History of Solutions”, ainda sem tradução aqui no Brasil. Neste vídeo, Leonard deu um passo à frente e denunciou o sistema econômico que nos rege, desenhado por pessoas que criaram regras para os vencedores. Segundo essas regras, a meta é, sempre, Mais.

“Mais estradas, mais shoppings, mais dinheiro sendo gasto. É o PIB.  E é o que os economistas chamam de crescimento. Mas nada disso leva em conta uma vida melhor para todos nós”, conclui Annie Leonard.

Vale registrar que o ex-presidente da França Nicolas Sarkozy já havia pensado nisso. A seu pedido, os prêmios Nobel Joseph Stiglitz e Amartya Sen fizeram um relatório com sugestões que poderiam servir para substituir a medição de riqueza atual. O estudo concluiu que o desenvolvimentismo estava destruindo mais do que criando coisas boas para a humanidade. Em 2009 Sarkozy expôs este pensamento numa reunião de líderes, pediu mais foco em qualidade de vida e sugeriu que se acabasse com o fetichismo do PIB.

Tudo isso é história que nos trouxe até aqui, até nosso mundo pandêmico. O ano de 2021, que será lembrado como o segundo ano da pandemia causada pelo Corona Vírus, começou com outro grande encontro de líderes mundiais no World Economic Fórum, em Davos, na Suíça. Preocupados com os rumos da doença que se espalhava, eles se reuniram por vídeo conferência e debateram sobre um novo modelo econômico. O movimento recebeu o nome de “Great Reset”, que em tradução literal pode ser chamado de “Grande Reinício”.

O criador do Fórum, Klaus Schwab, escreveu um livro em parceria com Thierry Malleret , em que estão documentadas algumas das preocupações dos nossos tempos. E traçados alguns caminhos para a mudança. Entre as preocupações dos líderes estão a financialização excessiva, a polarização política, o déficit público crescente e a falta de uma governança global, além, é claro, da degradação ambiental. Se não foi, pelo menos até agora, a pandemia que mais causou mortes –  menos do que 0.006% da população mundial, enquanto a Peste Negra dizimou 30 a 40% das pessoas no século XIV – a Covid-19 deixa um rastro de possibilidades de mudanças num mundo muito mais interdependente.

As questões de justiça social estarão em evidência no mundo pós-pandêmico, assim como as questões ambientais. E, segundo a dupla Schwab/Malleret, “o pré-requisito absoluto para o mundo pós-pandêmico terá que ser maior colaboração não só dentro das nações como entre elas”.

Não há moral nessa história. Nem conclusão possível, ainda. Sigamos em frente, tentando soluções.

Foto do site 350.org: moradores das nações ilhas do Pacífico fazem protesto dizendo: “Não estamos afundando, estamos lutando”, durante a COP de 2017

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Calamidade pública anunciada no Bailique

                                                                

São 220 quilômetros de barco pelo Rio Amazonas até chegar ao Arquipélago do Bailique, no Amapá. São dez, às vezes mais horas, de uma viagem nem sempre tranquila, dependendo muito do humor do maior rio do mundo. A travessia pode começar por Belém ou por Macapá, mas se até cinco, seis anos atrás, os viajantes tinham um  porto seguro para atracar, em pelo menos duas das 50 comunidades que ocupam as oito ilhas do Arquipélago, hoje não há píer de atracação. O fenômeno das terras caídas, causado pelo assoreamento do Rio Araguari (único rio totalmente amapaense) já destruiu uma, duas vezes, não só o píer como 700 casas de moradores, escolas e outros prédios públicos no Arquipélago.

Este é apenas um dos problemas enfrentados pelos cerca de dez mil moradores (o último censo, feito em 2010, registrou 7,6 mil) do Bailique. Uma das destruições de maior impacto na região foi a da linha de transmissão de energia, que submete os moradores a um apagão sem fim. Caem os postes, a denúncia é feita, muitos dias depois chega lá uma equipe e ergue os postes no mesmo lugar de antes, ou seja, prontos a cair de novo. Não há planejamento para enfrentar a situação.

  A salinização da água do rio é outra questão, em virtude do avanço das águas do mar, que já está prejudicando não só a agricultura familiar como o fornecimento de água potável para a população.

Na sexta-feira (13), uma audiência pública virtual convocada pelo deputado Camilo Capiberibe (PSB/AP), da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara, pôs o tema em debate, levantou a necessidade de se construir políticas públicas para aquela população. Dois pesquisadores, um representante da Aneel e o responsável pelo Conselho Comunitário do Bailique, compareceram e expuseram essas e outras questões. Os representantes das hidrelétricas Coaracy Nunes (Eletronorte), Caldeirão e Ferreira Gomes foram convidados, mas não compareceram. O Governo do Estado, também convidado, igualmente não deu importância à audiência.

Com uma economia baseada na pesca, na agricultura familiar, na extração vegetal (oleaginosas, açaí, pracaxi e andiroba), o Bailique é, também, um legítimo representante do Brasil profundo. E traz o selo do menosprezo do poder público, cuja ausência é sentida diariamente pelos contribuintes que moram na região. A falta de regulação e fiscalização nas fazendas que criam búfalos, cujas pesadas pegadas estão abrindo igarapés na região, ajudando o assoreamento do rio, é apenas outra consequência disso.

Danilo Capiberibe informou que o governo municipal de Macapá, assim como o estadual serão, mais uma vez, alertados das privações a que estão sendo submetidos os bailiquenses.  E vai ser pedido que seja decretado o estado de calamidade pública na região.

Paulo Motta Rocha, presidente do Conselho Comunitário do Bailique, 66 anos vividos no Arquipélago, levou para a audiência o drama, o pedido de socorro.

“Em quase todos os desastres da natureza que ocorrem no planeta, os primeiros socorros são para as pessoas, elas são ajudadas com novas moradias, gêneros de primeira necessidade. No Bailique isto não correu, nem ocorre”, disse ele.

Paulo tem uma memória bem viva de quando, em meados da década de 70, pescava no Araguari ainda quando o rio tinha seu curso natural, sem ter sido desviado pelas três hidrelétricas que se instalaram nos quase 700km de seu leito a partir de 1975. Reparem no contrassenso: a comunidade se vê impactada pela construção de três hidrelétricas e sofre de apagões diários. É o cartão postal do nosso tempo, uma amostra clara de que o desenvolvimento atualmente defendido por líderes de nações e de empresas é insustentável e tem beneficiado a poucos.

“Sabemos que o processo não vai parar, não temos mais como voltar atrás no desastre que está ocorrendo não só por conta da ação do homem como das mudanças climáticas. Mas nós temos como empreender ações que socorram aquelas pessoas. Não queremos ser reconhecidos apenas como moradores da região, mas como trabalhadores da agricultura familiar, como homens do campo, como plantadores de alimentos, como consumidores, como contribuintes do Fisco Nacional. Nós consumimos produtos industrializados, pagamos impostos”, disse Paulo.

A partir de 2015 começou a ser notado o processo acentuado de erosão, que os habitantes apelidam de “fenômeno das terras caídas”.  Mas já no início do século, em 2002, pesquisadores apontaram a necessidade de se fazer este monitoramento, pedido menosprezado. Também presente na audiência, a pesquisadora, geóloga e professora do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, Waldenira Ferreira dos Santos, é também uma pessoa indignada com o que está ocorrendo no Bailique.

“Fala-se muito sobre as questões da Amazônia floresta, sobre o desmatamento. Mas não se fala sobre a Amazônia água. O aumento do nível do mar aumenta a erosão e afeta todas as populações que estão nas áreas costeiras. Estou falando de cerca de três milhões de pessoas que vivem na Foz do Amazonas. Isto afeta, inclusive, a economia local, já que se depende das águas do rio para tudo”, disse ela.

A denúncia, nesse caso, é da falta de investimento do poder público em pessoal para fazer esses estudos e trabalhar junto com os engenheiros que estão à frente dos empreendimentos. É como se não existissem pessoas morando ali, é como se fosse possível ocultar os impactos em vez de enfrentá-los e minimizá-los.

“Temos que parar de fazer de conta e dar atenção que a Foz do Amazonas merece. Não temos pessoal para fazer pesquisas, não temos dinheiro para manter as pesquisas. Vou a campo com meu dinheiro e recebo a ajuda da comunidade para trabalhar. Estão fazendo intervenções sem informações Geóide (sobre elevação do nível do mar). A região precisa de levantar dados científicos, mas não temos nem estação meteorológica na Foz do Amazonas”, disse a pesquisadora.

Não é de hoje que o debate está na mesa, lembra Waldenira dos Santos. Há cerca de vinte anos o cenário começou a ser traçado, mas as ações continuam até hoje no papel.

“Não se traça cenários sem dados, sem monitoramento. Tem que ter um grupo de planejamento integrado, porque as comunidades e a economia vão continuar sofrendo. Está na hora de agir, de trabalhar integrados com engenheiros, Aneel, empresas, poder público, população, para ver o que pode ser feito. Mas a comunidade precisa ocupar um lugar importante nesse debate porque ela, mais do que ninguém, sabe de suas privações e consegue apontar caminhos”, disse Waldenira.

Cartão postal da era de contradições

Quando se viaja dez, doze horas pelo Rio Amazonas, a maioria do tempo à noite, a expressão “Brasil profundo” se materializa. Há igarapés, caminhos de terra, pequenas ilhotas. Quem anda por ali, de dia ou à noite, é porque conhece os caminhos, sabe se livrar dos perigos, sabe negociar e tem intuição, sentimento há muito abandonado pelos citadinos. Não há pranchetas ou computadores de última geração que substitua este saber. Só mesmo com parceria entre ciência e saber tradicional, dando a ambos o mesmo peso,  é possível dar certo.

Estive duas vezes no Bailique (em 2014 e 2015), fazendo reportagem sobre o processo de produção do Protocolo Comunitário, exigência do Tratado de Nagoya, do qual o Brasil é signatário.

Valeu a pena ter ido. Foram as duas viagens mais lucrativas que fiz em minha vida profissional. Aprendi muito, saboreando a prática de toda a teoria que eu já vinha acumulando desde que comecei a pesquisar sobre o tema desenvolvimento sustentável. O Bailique é rico, extremamente rico em bens naturais. E sua população vive, muitas vezes, na linha da pobreza. Esta é a contradição denunciada por nove entre dez autores que se dedicam a pesquisar mais profundamente o drama de nosso modelo civilizatório.

‘Há quarenta anos que o mundo vive dominado pela ideia de que não há alternativa à sociedade atual, ao modo como está organizada e como organiza as nossas vidas […] Esse bloqueio de alterativas ocorreu de par com a ideia de que isso era a plena realização do progresso […] Mas afinal, que mundo suportava este presente eterno? Era um mundo que quanto mais ‘progresso’ realização mais intolerável e inabitável se tornava para a grande maioria da população mundial” (Boaventura de Sousa Santos em “O futuro começa agora” – Ed. Boitempo – 2021).

Se a busca pelo lucro continuar sendo a força motriz, estaremos condenados […] algo bem diferente poderia vir à tona: talvez valores comuns, como a ajuda mútua e a preocupação com uma vida plena de significados e realizações em lugar da acumulação de recursos em benefício próprio e o enriquecimento de quem tiver capital para investir”. (Noam Chomsky em “Crise Climática e o Green New Deal Global – Ed. Roça Nova – 2021).

As ruas são pontes de madeira porque a área é de várzea. O ar é limpo. Os bichos são soltos (incluindo os cachorros). As pessoas são doces, gostam de falar de si e das mazelas do lugar que habitam, causada pelos desmandos governamentais.

 O processo de organização do Protocolo Comunitário, alavancado por Rubens Gomes (falecido em maio do ano passado, meu anfitrião nas duas viagens), então diretor executivo da Oficina Escola de Lutheria da Amazonia (Oela) e presidente da Rede Grupo de Trabalho Amazônia (GTA) foi uma experiência de organização societária. Em pranchetas confeccionadas com material resistente à água, os pesquisadores se reuniam com pequenos grupos de moradores e propunham debates sobre um modelo de vida em comum que não impactasse os moradores nem o meio ambiente. É possível, sim.

Quem quiser saber mais a respeito desse trabalho pode acessar os textos que escrevi para a minha coluna, à época sitiada no Portal G1 (http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/93.html) .

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Está faltando algum sentido

Na hora de pagar a conta, a moça da caixa do supermercado fez a pergunta que já virou praxe nesses grandes estabelecimentos:

— A senhora quer sacola plástica?

— Quanto custa? – perguntei.

— R$ 0,05 cada uma.

— Então eu vou precisar de duas. Mas tenho saudades do tempo em que essas sacolas não eram cobradas – resmunguei.

— A senhora não pode reclamar. Lá perto de casa eu pago R$ 0,08.

Comprei duas sacolas plásticas, menos para carregar as coisas – eu carrego bolsas de pano por onde vou – mais para utilizá-las em casa, num ou noutro serviço. Mas a conversa com a moça do caixa puxou o fio da minha memória.

O ano era 2010. Estava em curso na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro uma lei que instituía a cobrança das sacolinhas plásticas usadas para transportar compras em qualquer estabelecimento comercial. Eu editava o caderno “Razão Social”, no jornal “O Globo”, e pedi à repórter Martha Neiva Moreira que fizesse uma reportagem ouvindo todos os lados. Sim, todos os lados. Quando a proposta é pensar sobre um novo tipo de desenvolvimento, o bom é ampliar pensamentos.

Quando Martha voltou com a apuração, o quadro era o seguinte: aqueles que encaram as sacolinhas como vilãs da poluição ambiental aplaudiram imediatamente a ideia porque seria uma forma de a gente se ver livre delas. Mas ouvimos também pessoas que se preocuparam com o outro lado, com os operários de fábricas das sacolinhas. E  a Plastivida, entidade que atua na conscientização da população para o uso consciente do plástico, disse que o problema do acúmulo das tais sacolas era que as grandes redes não seguiam uma regrinha básica da ABNT: para evitar que o consumidor tivesse que sair carregando dezenas de sacolas, elas precisariam ser mais fortes. Quanto mais produtos coubessem numa sacola, menos sacolas seriam necessárias.

Ficamos nos perguntando, afinal, como os consumidores lidariam com o fato de terem que começar a pagar por um serviço que era gratuito.  Os donos de supermercados se apressaram em dizer que o lucro seria repartido com projetos para pessoas de baixa renda.

Naquele ano fez-se muitas reportagens a respeito das sacolinhas plásticas. Muita gente começou a mudar seus hábitos, a carregar sacolas retornáveis. Mas muita gente também não mudou uma pena para acabar com as sacolinhas na hora da compra, já que elas têm mil e uma utilidades em casa.

No ano passado, a lei entrou em vigor. E, desde janeiro, as redes de supermercado podem cobrar pelas sacolinhas. O preço não pode ser mais do que oito centavos.

 No entanto, muita coisa continua a ser como era antes. Para facilitar a vida de pessoas que moram só, por exemplo, o comércio de alimentos inventou as porções fracionadas. Ótima ideia? Só que… para embalar as porções não se poupa o uso de plásticos.

Ou seja: o cidadão faz sua parte, carrega uma bolsa descartável para levar suas compras, mas o plástico continua sendo intensamente utilizado em várias embalagens.

Falta algum sentido. Os rumos dos acontecimentos de hoje exigem algum sentido.

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A humanidade frente a seu maior desafio: união

Quase tão certo quanto o fato de termos Natal todos os anos é o vazamento de informações confidenciais contidas nos relatórios feitos pelos cientistas do IPCC (Intergovernmental Panel of Climate Change). São estudos publicados a cada seis, sete anos, muito aguardados porque costumam traçar uma espécie de perfil do que podemos esperar das mudanças do clima nos próximos anos. O quinto e último relatório foi divulgado em 2014 e trouxe importantes insumos para o Acordo de Paris assinado um ano depois. Agora os milhares de cientistas espalhados pelos 195 países membros das Nações Unidas estão trabalhando (voluntariamente, diga-se de passagem) sobre o Sexto Relatório, que deveria ficar pronto até o início da próxima Conferência das Partes sobre o Clima (COP) 26 que vai acontecer em novembro, em Glasgow, na Escócia.

Ocorre que o relatório não ficou pronto a tempo, mas os cientistas decidiram fazer, no próximo dia 9 de agosto, o anúncio de uma espécie de melhores momentos do estudo para ajudar os debates na COP. E, como eu disse acima, tão certo como o Natal, parte desses highlights vazaram para a imprensa. São dados que impressionam, como sempre são surpreendentes os anúncios do IPCC. O jornal britânico “The Guardian” foi um dos que publicou o vazamento.

“É provável que os impactos sejam muito mais próximos do que a maioria das pessoas imagina, o que irá remodelar fundamentalmente a vida nas próximas décadas, mesmo que as emissões de gases de efeito estufa sejam controladas”, dizem os jornalistas do “The Guardian”, concluindo com uma das frases que, ao que tudo indica, foi pinçada do relatório vazado: “A vida na Terra pode se recuperar de uma mudança drástica no clima evoluindo para novas espécies e criando novos ecossistemas … os humanos não podem.”

Acompanho há algum tempo os debates em torno dos impactos das atividades humanas sobre o clima, e posso lhes garantir que nunca o anúncio dos cientistas foi tão forte. Certo é que eles se assombraram com as informações colhidas que fazem parte das quatro mil páginas do relatório ainda em segredo. O Guardian ouviu Simon Lewis, professor de Ciência da Mudança Global na Universidade College London, que ressaltou a subida de tom dos cientistas.

 “Nada no relatório do IPCC deve ser uma surpresa, já que todas as informações vêm da literatura científica. Mas, em conjunto, a mensagem nítida do IPCC é que ondas de calor, incêndios, inundações e secas cada vez mais graves estão vindo em nossa direção, com impactos terríveis para muitos países. Além disso, há algumas mudanças irreversíveis, muitas vezes chamadas de pontos de inflexão, como quando as altas temperaturas e as secas significam que partes da floresta amazônica não podem persistir. Esses pontos de inflexão podem então se ligar, como derrubar dominós.”

Lewis mencionou a Floresta Amazônica, parte que nos cabe intensamente. E, sim, os dados mostram aquilo que mais tememos: é bem provável que a Floresta perca sua vegetação natural e vire savana, bioma que tem como característica arbustos pequenos, não árvores frondosas. O último relatório sobre desmatamento na Amazônia, feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), mostrou que, nos últimos 11 meses, foi 51% maior do que o registrado no período anterior, de agosto de 2019 a junho de 2020, quando o bioma apresentou 5.533 km² de devastação. Portanto, não é devaneio pensar que tudo pode ser diferente daqui a algum tempo.

O mundo estaria em queda livre?

Nicholas Stern, ex-economista chefe do Banco Mundial e especialista em mudanças climáticas, quando soube do vazamento do relatório do IPCC, disse à AFP:

“O mundo está confrontado com um conjunto complexo de desafios entrelaçados. A menos que você os enfrente juntos, não vai se sair muito bem em nenhum deles”.

Este é o ponto. Enfrentar juntos, como sugere Stern, significa deixar de lado querelas políticas, respeitar a multidiversidade, todas as culturas, costumes, focar seriamente no que interessa e ajudar quem já está sendo mais atingido. Dito assim parece um sonho, sobretudo para uma humanidade que há séculos vem se acostumando a tratar seus semelhantes com diferença.

No cargo desde 2013, a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, não parece comovida com a causa. Tampouco dá sinais de que deseja se unir a seus pares, como sugere Stern, para enfrentarem juntos o problema. Em declaração recente feita à reportagem do jornal “Financial Times”, Solberg disse que seu país vai continuar explorando petróleo e gás.

“Há uma grande mudança acontecendo, e isso vai acontecer de qualquer maneira. A questão é quão rápido isso vai acontecer”, disse ela à reportagem. Importante dizer que Solberg está em campanha para sua reeleição, o que nos permite especular que, com esta declaração, ela vai angariar votos dos empresários de óleo e gás noruegueses. A questão é saber onde está, nessa altura, o sentimento de solidariedade tão necessário.

Enquanto escrevo este texto, o evento de abertura dos Jogos Olímpicos, em Tóquio, emociona todo mundo que teve tempo para assistir. Na fila dos atletas, na bela criação de drones iluminados, nas trilhas sonoras, no discurso do “banqueiro dos pobres” Muhammad Yunus, a palavra reintegração foi muito ouvida. Assim como paz, união.

Vamos ter que transformar discursos em prática. E não vai dar para esperar muito não.

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Do amor aos pets ao bife sangrento: é a nossa era dos paradoxos*

Vamos imaginar, num exercício de ficção, qual será a imagem que a nossa era deixará para o futuro? Eu digo futuro mesmo, daqui a uns cem anos. E, é claro, contando com a possibilidade de a humanidade permanecer como espécie no planeta.

Os shih tzus Bidu e Fred correm soltos na grama. A foto é de 2005 e o flagrante foi conseguido por Nena

Algumas imagens me veem à mente, mas pensando sobre o paradoxo que nos rodeia, um retrato se destaca. Nele, um homem acaricia docemente seu cão com uma das mãos enquanto, com a outra, segura um garfo que o ajuda a levar à boca um naco sangrento de carne de boi.

Sem julgamento. O convite aqui é para a reflexão.

Alguns sites dão conta de que a pandemia fez crescer ainda mais o afeto dos brasileiros aos bichos de estimação.  Quem já tinha, passou a dar mais atenção, a pesquisar mais sobre seu comportamento, a tentar melhorar sua qualidade de vida. Atualmente, o Brasil tem a segunda maior população de cães, gatos e aves canoras e ornamentais em todo o mundo, e é o terceiro maior país em população total de animais de estimação. São 54,2 milhões de cães, 23,9 milhões de gatos, 19,1 milhões de peixes, 39,8 milhões de aves e mais 2,3 milhões de outros animais. O total é de 139,3 milhões de pets (dados do site da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação – Abinpet).

É possível que o primeiro lugar em número de pets fique com os Estados Unidos, que tem mais de 83 milhões só de cães. Em toda a Europa estima-se que haja 75 milhões de cães.

E adivinhem quem farejou esse crescimento como uma oportunidade e tanto para seguir à risca um dos mandamentos do capitalismo, acumular? O mercado, claro. O mercado pet já representa hoje 0,36% do PIB brasileiro, à frente dos setores de utilidades domésticas e automação industrial. Em 2018, a indústria de produtos para animais de estimação faturou R$ 20,3 bilhões. Em 2006, esse número era de R$ 3,3 bi. Num recentíssimo pronunciamento, o presidente Bolsonaro garantiu que, em 2020, o faturamento do setor passou para R$ 40 bilhões.

Há exageros, consumismo. E nem sempre é divertido, para o cão, ser vestido como gente, usar sapatos (eles PRECISAM pisar no chão, na grama, na terra) e ser medicado em excesso. Roupinhas para ocasiões especiais, brinquedos de último tipo, tapetes, travesseiros, colchas, quitutes dos mais variados… e o dono do pet pode acabar deixando na loja uma soma em dinheiro que, no fim das contas, pode pesar no orçamento. Resultado direto disso: a relação com o bicho começa a ficar desgastada. E o bicho nem pediu aquilo tudo…

 O problema é humanizar os animais:

“Tratar seu cachorro como um bebê não é bom para ele, nem para você”, dizem os especialistas. E, vamos combinar, com razão.

Existem algumas boas sugestões que podem ajudar na relação com os pets. A mais importante é que, antes de adotá-lo, ou comprá-lo, o humano pense bastante, pese prós, contras e, sobretudo, converse com todos que vão conviver com o bichinho em casa. Se tudo der certo, esta relação vai durar cerca de dez a 15 anos. E o pet existe para dar alegria, não para trazer problemas e discussões. Sendo assim, o contrato entre os humanos para receber o bicho em casa é fundamental.

Quando a pessoa mora sozinha e trabalha fora, tem que levar em conta a quantidade de horas que o bicho ficará sozinho em casa. E deve abrir mão da vontade de ter um pet, caso não possa fazer companhia a ele. Um apartamento, ou mesmo uma casa, é confinamento para qualquer animal.

Mas, no geral, os cuidados exagerados são melhores, para o bicho, do que ser abandonado à noite numa rua escura e deserta por donos covardes que se justificam dizendo que não podem mais cuidar dele.

Mesmo evitando os excessos, porém, o que ocorre é que os preços de remédios veterinários, por exemplo, sobem muito e, aparentemente, sem regulação. De um mês para o outro, o medicamento que precisa fazer parte da rotina de um cão idoso, pode subir sem que você tenha sido avisado. A surpresa aparece na hora de pagar a conta. O mesmo com os preços das consultas, exames e tais.

Numa entrevista bem interessante que deu ao jornalista Breno Altman, do site OperaMundi (assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=amE253akFd0) , a também jornalista Silvana Andrade, presidenta da Associação de Noticias sobre o Direito dos Animais (Anda) (https://anda.jor.br) lembra que dar atendimento adequado aos animais que se tutora é uma questão de cidadania, portanto os governos deveriam ser instigados a ajuda, fornecendo, por exemplo, saúde pública para os bichos:

“Muitas pessoas me dizem: ‘Silvana, vc é louca! Não há saúde nem para as pessoas, quanto mais para bichos’. Mas é preciso exigir. Uma pessoa em situação de rua deve ter o direito de cuidar de seus animais, por exemplo”, disse ela, lembrando que em São Paulo já há quatro hospitais desse tipo e que a luta é para que se abram farmácias populares.

Já que começamos o texto com lembranças sobre nossa era dos paradoxos, não custa lembrar que cobrar coerência nessa hora – “não tem nem para pessoas, quanto mais para animais” – é mais uma contradição. Sabemos a importância dos bichos, valoramos sua companhia, mas na hora de oferecer-lhes lugar em nossa civilização, eles acabam ocupando um degrau abaixo. Sem medo de estar sendo exagerada, digo que esta atitude corrobora a onipotência do homem, que sempre considerou a natureza como algo a ser dominado.

Sempre? Não, nem sempre com relação aos bichos. No pequeno vilarejo chamado Saint-Julien, no século XVII, seus habitantes abriram um processo contra uma colônia de gorgulhos – espécie de besouros – que teria invadido vinhedos causando estragos consideráveis na colheita. O pedido, feito ao vigário-geral, era para que ele prescrevesse medidas convenientes para “aplacar a cólera divina e a proceder dentro das regras, por intermédio da excomunhão ou qualquer outra censura apropriada”, à expulsão definitiva dos insetos.  Foi, como lembrou Luc Ferry, provavelmente a primeira ocorrência de um “contrato natural, de um pacto com seres da natureza”.

(P.S.) – Enquanto escrevia este texto li a notícia de que o ator Alan Cumming pediu que os organizadores da próxima cúpula do meio ambiente, COP-26, que vai acontecer em novembro na Escócia, não sirvam carne de animais aos participantes. Para ele, seria o mesmo que servir cerveja numa reunião de Alcoólicos Anônimos. Ponto para Cumming. Assim podemos ir aparando as arestas do nosso retrato de paradoxos.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Revista Entrenós.

Em dupla é sempre mehor, sobretudo para raças pequenas e que ficam em apartamento
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Lições sobre como combater a fome de um povo*

Corria o ano de 1993 e o Brasil ainda vivia a sua primeira infância como sociedade democrática. Na presidência, Itamar Franco, vice que inaugurou a nefasta e estranha saga dos vices que assumem a cadeira principal, elencou como prioridade de seu governo a fome a miséria que grassavam no país. Éramos então 156 milhões de brasileiros, dos quais 32 milhões começavam e terminavam o dia sem terem se nutrido, nem com a quantidade de alimento necessária para se manter em pé. Resultado de políticas econômicas erradas, que consideraram muito mais o progresso (para quem?)  do que o bem estar das pessoas, essa situação vergonhosa começou a incomodar a sociedade civil.

Herbert de Souza, o Betinho, sociólogo . Foto do site da ONG Ação da Cidadania, que ele criou

Eram tempos profícuos. Amordaçada durante os vinte anos de regime militar, a sociedade civil se via, finalmente, capaz de falar, pensar, agir de acordo com tudo aquilo em que acreditava. Sobretudo, em prol dos desvalidos. Entre as pessoas que tinham voltado para casa depois de um exílio forçado, Betinho, o irmão do Henfil, já vinha se articulando e debatendo a questão da fome com o novo governo. Numa famosa reunião, em que o presidente Itamar dedicou seu tempo para ouvi-lo, junto com Dom Mauro Morelli, Betinho expôs o Mapa da Fome e desenhou seus planos para acabar com ela.

Nascia, assim, o Programa de Combate à Fome que, segundo seu idealizador, só teria sucesso se, além da ação do governo, contasse também com ampla mobilização da sociedade.  Na sequência, Betinho criou uma ONG,  Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria. E veiculou sua ideia aos quatro cantos do Brasil. “Quem tem fome, tem pressa” era a frase que mais se ouvia e que se tornou uma marca. Conseguiu a adesão de políticos, empresários, jornalistas, artistas, sim, a sociedade civil. E, no fim do primeiro ano de campanha, já existiam cerca de três mil comitês em funcionamento no país.

“O Ibope foi a campo pesquisar o fenômeno de adesão e registrou que 68% dos brasileiros tinham conhecimento da existência da campanha, notadamente através da televisão. Do total dos entrevistados, 32% declararam alguma forma de participação ou contribuição para a campanha e 11% afirmaram participar ou trabalhar em algum comitê. Isto significa dizer que, em dezembro de 1993, a Ação da Cidadania envolvia aproximadamente 2,8 milhões de brasileiros e brasileiras, todos mobilizados para contribuir com a doação de alimentos e roupas”, diz um trecho do livro “Ação da Cidadania – 25 anos”.

A rede de mobilização lançada por Betinho, mais as políticas públicas lançadas pelos governos sociais de 2002 a 2015, foram responsáveis por tirar o país do Mapa da Fome (da ONU) em 2014. Na época, houve muita comemoração. O Mapa da Fome é um instrumento criado no início do século XXI para mostrar para todos, de forma gráfica, os países que estão sendo atacados pela fome.

A boa notícia é que ainda não voltamos ao Mapa da Fome. A má notícia é que estamos prestes a voltar, embora longe das condições agudíssimas de países africanos como Iêmen ou Madagascar. Dados do IBGE publicados em setembro do ano passado mostraram avanço da fome no país, que atingia 5% da população brasileira em 2018, ante 3,6% em 2013, alcançando mais de dez milhões de pessoas.

Hoje este número cresceu: são 19 milhões de pessoas que têm fome no Brasil. Uma vergonha. Ou, como diria Betinho:

“A fome é exclusão. Da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da economia, da vida e da cidadania. Quando uma pessoa chega a não ter o que comer, é porque tudo mais já lhe foi negado. É uma espécie de cerceamento moderno, ou de exílo. Exílio da terra.”

A ONG de Betinho continua ativa, e hoje, 27 anos depois daquele distante 1993, contabiliza 35 mil toneladas de alimentos arrecadados pelos mil comitês que se espalham pelos 26 estados mais DF. Quatro milhões de famílias foram atendidas, e seria muito bom que, hoje, a Ação da Cidadania estivesse em outro lugar, auxiliando de outro jeito, mas não. Ainda precisa lutar para acabar com a fome, a pobreza, a miséria, e para dar cidadania aos cidadãos brasileiros excluídos.

Acima de tudo, a Ação dá uma lição aos atuais governantes, pessoas sem nenhuma intimidade com o tema fome. Com a pandemia, o desemprego se alastrou e agravou o quadro da indigência no país. A modesta sugestão é que se ouça quem sabe fazer por ter  aprendido com o mestre de todos os mestres.

Há, sim, um desperdício enorme de alimentos no mundo, no Brasil. O último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), publicado em 2019, deu conta de que em apenas um ano o Brasil desperdiçou 26,3 milhões de toneladas de alimentos. Mas a maioria desses produtos se perde na produção, ou seja, desde o momento em que é colhido até chegar à ponta da cadeia. A FAO esclarece que o desperdício no final da cadeia alimentar está mais associado às nações desenvolvidas.

Portanto, não faz sentido, nem com uma visão pragmática, a sugestão do atual ocupante da pasta do Ministério da Economia, para que as pessoas de classe média dividam seus, digamos, excessos de alimentos, com os pobres. O que resolve na emergência, para combater a fome, é fazer campanhas de mobilização, é se juntar a organizações que estão empenhadas (como no caso da Ação), é convocar artistas, políticos, estudantes, donas de casa. E é, sobretudo, criar políticas públicas voltadas para o combate à fome. Não estou falando em auxílio emergencial apenas. Há vários programas que podem ser resgatados.

Todos os dados sobre a campanha de combate à fome eu tirei da publicação lançada em 2013 pela própria Ação da Cidadania. O site da ONG está atualizado e tem várias informações. Disponível para quem quiser ler e aprender. Não custa sugerir.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Revista Entrenós e da Casa Monte Alegre

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