Passado o tempo do negacionista Donald Trump no comando da nação mais rica do mundo – e a segunda mais poluidora –, a população global observa agora o resgate da preocupação com as mudanças climáticas. Joe Biden, que substituiu Trump, imediatamente pôs os Estados Unidos de volta no Acordo de Paris. O tratado foi um compromisso assinado durante a Conferência das Partes sobre o Clima (COP) de 2015, cujo mote principal é fazer o possível por manter o aumento das temperaturas globais abaixo de 1,5 graus Celsius. Donald Trump havia retirado os Estados Unidos do Acordo, o que causou uma espécie de efeito de contágio, revelando ao mundo outros líderes negacionistas que estavam, até então, se omitindo.
Foto tirada por mim em evento pela despoluição da Baía de Guanabara em agosto de 2015
Segunda providência de Biden: convocou uma reunião de cúpula sobre o clima que vai anteceder a COP-26, que acontecerá em Glasgow, na Inglaterra, em novembro. E esta reunião vai acontecer quinta-feira agora, dia 22, quando se comemora o Dia da Terra. O encontro, para o qual foram convidados 40 chefes de nação (o presidente Bolsonaro já confirmou presença) vai se estender até o dia seguinte.
Congo, Colômbia, Chile, Gabão, Índia, Bangladesh, Ilhas Maurício, Noruega, Polônia estão entre os que já confirmaram presença. Rússia ainda é dúvida. Mas a China estará lá. Para azeitar as negociações entre os dois mega poluidores, já houve uma prévia entre China e Estados Unidos e uma declaração conjunta foi anunciada. Por ela, fica-se sabendo que as duas nações estão “firmemente comprometidas em trabalhar juntas e com outras Partes para fortalecer a implementação do Acordo de Paris”. Alvíssaras.
Mas, quem está na estrada há muito tempo como eu, há de se lembrar que China e Estados Unidos já protagonizaram outro momento bem parecido e que foi bem comemorado pela parte da população preocupada com as mudanças climáticas. Foi em 2014, quando o então presidente Barack Obama reuniu-se com Xi Jin Ping, também previamente à COP de 2015, e os dois anunciaram ao mundo que estavam assinando um pacto a favor do clima.
De lá para cá, bem… como se sabe, tudo o que não se esperava aconteceu. E hoje estamos à mercê de um inimigo ainda mais letal do que os eventos extremos, de tamanho diminuto e que está difícil de ser rendido. Seu nome: Corona Vírus.
Fato é, caros leitores, que mesmo com a boa vontade dos dois maiores poluidores do planeta, a realidade tem nos mostrado que são muitos os desafios para se manter compromissos de baixar as emissões. E não me refiro apenas aos entraves geopolíticos, a questões diplomáticas. É sobre o meio ambiente que estamos falando. E é sobre a relação que construímos, como humanidade, com bichos, plantas, terra, rios, mares. Como se tudo isso fosse, desde sempre, apenas um pano de fundo para facilitar nossa vida. Nós, os humanos racionais. Nós, os mais poderosos. Só que não.
Tornamo-nos mais frágeis quando descobrimos, no início dos tempos, que podemos usar ferramentas e meios para vencer distâncias e praticar a força. Ficamos à mercê à medida em que descobrimos o conforto de não sentir muito frio, muito calor, de proteger os pés e mãos. Para cada avanço nos refrigérios que fomos criando, mais precisamos avançar sobre o meio ambiente. E nem estou mencionando a ganância, o acúmulo, descobertas unicamente racionais.
Aqui estamos, portanto. Com a industrialização, passamos a soltar gases poluentes que impedem que o calor do sol volte à atmosfera. Dessa forma, com o planeta mais quente, os mares ficam mais atormentados, os ventos mais fortes, a terra, muitas vezes, mais ressecada. A cada um desses tormentos, muitos de nós se vai. Como agora, quando o vírus está tirando muitas vidas. Segundo o xamã e filósofo Aylton Krenak, a Terra está “apagando os humanos”. E vai continuar, se não conseguirmos parar e ouvir o que ela está dizendo.
Parar, como? Se estamos imbricados até a medula num processo de desenvolvimento que nos obriga a avançar sobre o meio ambiente, mesmo quando tentamos diminuir a força do nosso impacto.
Estive pesquisando, por exemplo, sobre o lítio. Ele faz parte do grupo químico dos metais alcalinos e, ultimamente, tem sido foco de disputa porque é a base da bateria dos carros elétricos. Só a China fabrica dez mil carros elétricos por mês, todos com bateria de lítio. Os carros elétricos têm sido vistos como a solução, ou parte dela ao menos, para diminuirmos o apetite sobre os combustíveis fósseis.
Aqui, vale um parêntese. Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, acumulou fortuna, justamente, vendendo carros elétricos. Não é uma economia sustentável, mas faz parte do paradigma que vivenciamos no sistema econômico vigente.
Bolívia, Chile e Argentina são os países que formam o chamado Triângulo do Lítio*, sendo que o Chile tem a posição mais alta. Mas é importante saber o seguinte: uma coisa são os recursos do lítio e outra são as reservas. Só as reservas são exploráveis. O que quer dizer que um país pode ter muito lítio, como no caso da Austrália, mas não ter reserva, ou seja, que ele não seja explorável.
Um dos problemas é que explorar lítio requer muita água: são necessários 500 mil galões de água para produzir uma tonelada de lítio. Além disso, no processo de separação do lítio são empregados muitos químicos tóxicos. Tudo isso cria, como se pode esperar, grande revolta entre as pessoas que moram próximo às minas de lítio. Recentemente, na Argentina, na mineração Jujuy, houve um protesto, com cartazes que diziam:
“Água tem mais valor do que o lítio”.
Ninguém pode discordar disso. Eis portanto, um dos muitos imbróglios que temos pela frente no caminho em busca de uma economia com menos emissões de carbono. Se, por um lado, os carros elétricos podem ajudar a baixar as emissões, seria, no mínimo, um desatino, apostar as fichas no lítio e aumentar o risco, que já é grande, de ficarmos sem água.
Outro exemplo de nossa era de paradoxos, incertezas e da necessidade de tomada de decisão em prol de nossa saúde é a Emenda Kigali, um adendo ao Protocolo de Montreal, do qual o Brasil faz parte. Trata-se, basicamente, de proteger a camada de ozônio, evitando que os ares-condicionados emitam um gás que pode ser ainda pior do que o carbono. A Emenda está há um ano e meio esperando que a presidência da Câmara dos Deputados mande para ser aprovada no plenário. Quando isso acontecer, a indústria nacional de ar condicionado e geladeiras terá acesso a cerca de US$ 100 milhões do Fundo Multilateral para a Implementação do Protocolo, a fundo perdido. E promete usar o dinheiro para que as fábricas brasileiras produzam equipamentos mais eficientes e menos poluentes.
Quando penso a respeito, e me sinto envolvida nessa teia labiríntica entre desenvolvimentismo e preservação, gosto de ler autores que me levam a refletir sobre outras possibilidades, que não essas, usuais da economia verde. São chaves que podem abrir caminhos diferentes. E que vão exigir uma mudança bem forte de hábitos, costumes, de consumo e de relação com a natureza.
Cito o Papa Francisco. Com uma visão panorâmica de todo o cenário, o Sumo Pontífice, líder da comunidade católica do mundo, fez uma radiografia da origem de nossos problemas em Laudato Si, sua Encícilica de 2015. Na carta ele adverte, de maneira clara, que é preciso repensar nosso modo de consumir e de produzir. Não é simples assim como pode parecer, mas é um caminho.
Às vezes fico pensando sobre como os historiadores do futuro vão conseguir explicar esta nossa era. É um tempo de incertezas, um tempo de paradoxos, um tempo em que muitos ainda não se deram conta de que o homem não pode continuar se sentindo superior a tudo, porque desse “tudo” depende a sua própria vida. É um desrespeito global. Complexo? Então deixe eu exemplificar a teoria:
Rio Amazonas em foto tirada em 2015, viagem que fiz ao Arquipélago do Bailique: a natureza precisa deixar de ser o ‘entorno’
Há pouco estava caminhando com meus cães (dois shih tzus), quando uma menina de seus 4 anos veio por trás e deu um chute no Beto. Claro que foi um chute tranquilo, Beto não sentiu nada, mas o gesto foi horroroso. A mãe ficou consternada. Mas eu amansei a bronca porque um detalhe na cena havia passado despercebido da mãe: a menina tinha arrancado um galho bem grande, bonito, novo, da árvore da calçada, coisa que a mãe não notou. Nem registrou como ato tão horrível quanto o chute no meu cãozinho. É também a isso que me refiro quando falo sobre o desrespeito do homem pela natureza.
Vivemos um tempo de muitos erros, mas que também pode servir para refletir. A natureza precisa deixar de ser o “entorno” e passar a ter um papel principal em nossas vidas. É no que acredito. E, para ajudar nesse processo tão importante, de análise, é preciso informação.
Busco, então, nutrir-me diariamente, procurando informações em vários veículos, sobretudo no tema ao qual me dedico há quase duas décadas: o ecodesenvolvimento. Ou desenvolvimento sustentável. Mais recentemente, também chamado de conceito ASG (Ambiente, Social, Governança) ou ESG (Environmental, Social and Governance). Resumindo muito tudo isso, busco atualizar-me em tudo o que diz respeito ao nosso sistema civilizatório. E não, não é simples. Na maioria das vezes, é angustiante.
Ontem, duas notícias chamaram minha atenção. A primeira, no portal G1, traduzido do site da BBC, na verdade é um artigo escrito pelo cientista Piers Forsters, professor de física das mudanças climáticas e diretor do Centro Internacional Priestley para o Clima da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Ele contou que sua equipe da universidade fez uma pesquisa com o objetivo de avaliar se o lockdown quase global que o mundo enfrentou em março de 2020 teria, realmente, sido benéfico para as questões climáticas. Lembram-se como isso foi comentado há cerca de um ano?
Resumindo a conclusão do estudo, que usou dados de mobilidade do Google e da Apple, “tanto no curto quanto no longo prazo, a pandemia terá menos efeito sobre os esforços para combater as mudanças climáticas do que muitas pessoas esperavam”.
“Apesar do céu claro e tranquilo, a pesquisa de que participei mostrou que o lockdown teve, na verdade, um leve efeito de aquecimento na primavera de 2020: conforme a indústria estagnava, a poluição do ar diminuiu e o mesmo aconteceu com a capacidade dos aerossóis, micropartículas produzidas pela queima de combustíveis fósseis, de resfriar o planeta refletindo a luz do Sol para longe da Terra”, escreveu o professor.
Quando fizeram uma projeção para dez anos à frente, os pesquisadores concluíram que o vírus Corona contribuirá para baixar apenas 0,01º grau. Muito mais do que este resultado seria conseguido caso os países decidissem levar a sério os esforços para baixar as emissões, dizem os estudiosos.
Mas, parece que baixar emissões ainda é uma proposta que não pegou. Pelo menos não em políticas públicas de larga escala. No mesmo dia em que foi divulgado esse artigo, uma reportagem comemorou o “superciclo de commodities”. Na conjuntura atual, acreditam economistas ortodoxos, uma forte recuperação de Estados Unidos e China seria uma janela de oportunidades para o Brasil sair da crise. Na avaliação deles, esta expectativa impulsiona “a valorização de produtos como minério de ferro, soja, açúcar, petróleo e outras commodities que têm forte peso na balança exportadora brasileira”.
Considerando que cada uma dessas commodities citadas tem seu peso nas emissões de gases do efeito estufa, e não é peso leve, reparem bem no tamanho do paradoxo. Precisamos de aquecimento na economia? Sim. Precisamos de mais empregos? Sim. Precisamos que o ar esteja mais limpo e o clima não nos submeta a eventos extremos que matam centenas de pessoas a cada passagem de furacões e tempestades? Sim, também.
Precisamos ainda que a agricultura não use tantos agrotóxicos, que as águas não sejam contaminadas por resíduos, que os peixes possam ter tempo para se reproduzir antes de serem pescados… nossa, a lista é grande, viu? Para viver com saúde e causar menos impactos aos bens comuns, a lista é grande.
E ainda tem o Corona vírus. Vários estudiosos já relacionaram o surgimento do nosso maior inimigo atual à maneira pouco respeitosa com que se andam tratando animais silvestres e a terra. Se você, caro(a) leitor(a), prefere acumular mais razões para crer nessa teoria, vale ler o que diz o sociólogo Boaventura de Sousa Santos em seu livro “O futuro começa agora – da pancemia à utopia” (Ed. Boitempo), recém-lançado:
“O modo como o vírus emerge, se difunde, nos ameaça e condiciona as nossas vidas é fruto do mesmo tempo que nos faz ser o que somos. São as nossas interações com animais, e sobretudo com animais selvagens, que o tornam possível. O vírus espalha-se no mundo à velocidade da globalização. … Descobriu os nossos hábitos e a proximidade social em que vivemos uns com os outros para melhor nos atingir. Gosta do ar poluído com que fomos infestando as nossas cidades. Aprendeu conosco a técnica dos drones e, tal como estes, é insidioso e imprevisível onde e quando ataca… Prefere as populações empobrecidas, vítimas de fome, de falta de cuidados médicos, de condições de habitabilidade, de proteção no trabalho, de discriminação sexual ou etnoracial”.
E, agora, a cereja do bolo para concluir minhas reflexões de hoje neste espaço: “Considerar o vírus como parte da nossa contemporaneidade implica ter presente que, se quisermos ver-nos livres do vírus, teremos de abandonar parte do que mais nos seduz no modo como vivemos”.
Ou isto, ou vamos ser vítimas de um apocalipse latente, silencioso, caso nosso conceito de desenvolvimento continue a contemplar números, não o bem-estar de pessoas.
Hoje tomei a primeira de duas doses da vacina contra o vírus Corona, nosso atual inimigo mais letal. A vacina que os funcionários do Sistema Único de Saúde (SUS) aplicaram no meu braço direito (não pode ser no esquerdo, fui alertada) foi desenvolvida pela empresa Sinovac Biotech, uma fornecedora mundial de vacinas contra influenza, hepatites A e B, caxumba e H1N1, conforme dados da pesquisa que fiz pela internet.
Ela é também chamada de Coronavac, e já até recebeu outros apelidos pouco nobres por parte daqueles que ideologizaram e politizaram o drama que estamos vivendo. A Coronavac vem da China, mas é distribuída por um conglomerado de empresas privadas que negociam com os países e lucram – muito, como se pode imaginar – com sua distribuição.
Fato é que, sim, estou um pouco mais aliviada. Fato, também, é que considerei minha vacinação como um ato cívico de solidariedade. Por mais que quem quer que seja julgue que pode se livrar de ficar doente porque leva uma vida saudável, não dá, simplesmente não dá, para esquecer que se vive em uma comunidade. E que é preciso que muitos se vacinem para criar uma barreira ao vírus.
“Ninguém estará salvo até que todos estejam salvos”. A frase, dita pela cientista Mariângela Simão durante a Conferência de Imprensa da OMS em março deste ano, resume nossa responsabilidade na era pandêmica.
No caminho até o posto onde eu tomaria a vacina, lembrei-me de entrar num supermercado para comprar alimentos. Há uma campanha, idealizada pela Prefeitura do Rio, que incentiva a doação de alimentos não perecíveis na hora da vacinação. Decidi apoiar.
Quase R$ 10 o quilo de fejão e quase R$ 6 o quilo do arroz: quem pode com isto?
Um quilo de arroz e um quilo de feijão no supermercado que fica em frente ao Museu da República, no Catete, Zona Sul do Rio de Janeiro, outrora um bairro nobre, hoje já não tão nobre assim, custam, no total, R$ 15,68. Talvez eu devesse grifar este valor. Vou especificar, para ficar mais claro: UM quilo de feijão custa R$ 9,88 e UM quilo de arroz custa R$ 6,99. Não é pouca coisa, gente. Sobretudo considerando a taxa de desemprego, que já atinge cerca de 13,5 milhões de pessoas no país.
Com os produtos em mãos, segui para o posto. Meu caminho foi interrompido por uma jovem com uma criança no colo. Vestida de maneira asseada, a moça tinha uma cicatriz no nariz e os cabelos recém-lavados. A criança usava um macacãozinho amarelo. Nada destoava, a miséria não era exposta. Jovem e bebê tinham as insígnias que as permitiam estar circulando entre os demais cidadãos sem perturbar a ordem.
— Moça, estou com fome, pode pagar uma comida para mim?
Não sei quantas vezes ouço essa frase ultimamente, nas raras vezes em que preciso me afastar de casa. Dói na alma. Causa indignação, é insuportável. O Brasil, de novo no Mapa da Fome. O Brasil, de novo entre os países que expõem o descalabro de um sistema que permite que pessoas passem fome! E não é por falta de alimento: o Ministério da Agricultura comemorou, no mês passado, a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos: 15,4 milhões a mais do que na safra 2019/2020.
O problema, portanto, está na má distribuição desses alimentos.
Qual foi meu primeiro movimento naquela hora em que a moça chegou perto? Disse a ela que acabara de comprar um quilo de arroz e um quilo de feijão para doar. E fui quase inocente: sugeri que ela fosse ali no posto. Certamente iriam dar-lhe, talvez, até mais do que o arroz e o feijão, quem sabe uma cesta básica inteira.
— Não, eles não dão assim fácil não. A senhora não pode me dar direto?
Os olhos da jovem estavam cravados na bolsa que abrigava os alimentos que eu comprara. E, é claro, percebi ali que não faria sentido algum burocratizar o processo. Direto da doadora à consumidora. Assim foi feito.
Lembrei-me da fala do padre Júlio Lancelotti que ouvi, dia desses, numa dessas inúmeras lives que hoje são nosso meio de comunicação: “Como ajudar? Doe qualquer coisa a quem esteja na rua, necessitado, a quem lhe peça. Qualquer coisa”. Felizmente a jovem não parecia estar sem teto. Perguntei-lhe ainda se ela teria onde cozinhar os dois produtos e ela confirmou-me. Terá gás? Disse-me que sim, eu acreditei. Pode ser que ela faça outro uso dos produtos, quem sabe até venda para ter algum dinheiro. Eu não me importo.
Ando preocupada além da conta. A pandemia foi apenas a pá de cal jogada para avivar ainda mais a sensação, que já vinha acentuada, de que vai ser preciso uma boa reviravolta no país, no mundo. Mais atos solidários, mas de maior monta, para que possamos dar a volta por cima.
Meu desassossego só faz aumentar quando busco informações em publicações estrangeiras. A pandemia já está ocupando a segunda dobra da primeira página dos sites de grandes jornais da Europa. Isto quer dizer que já não é a notícia mais importante, pois tem baixado o número de mortos globalmente, felizmente. O Brasil hoje ocupa o segundo lugar, superado apenas pelos Estados Unidos, em número de mortes e infectados pelo vírus. Não que o resto do mundo já tenha se livrado, mas com certeza o caminho já está mais livre com a vacinação em massa, o isolamento social, as medidas de higiene.
Meu medo é que, com o avanço da vacinação, que deve servir para diminuir o insano avanço do vírus, a situação se cronifique. E que se passe a naturalizar a doença e suas sequelas, assim como, hoje, a gente já está naturalizando a miséria e a fome. Falo do Brasil e do mundo. Geopoliticamente, imaginem, quando a maioria estiver vacinada e longe da possibilidade de adoecer, quem estará do lado daqueles que forem se infectando, que não conseguiram ser vacinados. E mais: daqueles que, por má ventura, desenvolvam sequelas funestas e paralisantes da doença?
Não, isso não pode acontecer, e tenho certeza de que não vai acontecer. A sociedade, ou seja, nós, estamos frente a frente com um desafio monstruoso: o de sermos solidários e de olharmos para o lado com indignação, de apontarmos o dedo e não nos calarmos diante de um cenário de fome, doença, falta de educação e de saúde. A hora é esta: vamos virar o jogo e vamos sair bem.
Termino este texto com a reflexão instigante do filósofo Harry Frankfurt, professor da Universidade de Princeton, que escreveu “On Inequality”, um pequeno livro que se propõe a mostrar que estamos diante de “um sério desafio para as crenças políticas acalentadas, tanto na esquerda quanto na direita”. Frankfurt acha ofensivo tanto a riqueza excessiva quanto a pobreza e a miséria.
“Se nos dedicássemos a ter certeza de que todo mundo tem o suficiente, nós reduziríamos a desigualdade como um efeito colateral. Mas é essencial saber que a última meta de justiça é acabar com a pobreza, não com a desigualdade”.
Pensador de muitos quilates, reconhecido como o maior geógrafo brasileiro, Milton Santos morreu em 2001 deixando dezenas de publicações, a maioria com um forte tom crítico ao sistema econômico vigente. Em “Por uma nova globalização”, publicado um ano antes de sua morte, ele vai além. Critica a falta de compaixão, critica a competitividade, sente falta da palavra solidariedade. E responsabiliza um sistema que se fortalece com o acúmulo e privilegia a competitividade pelo estado atual das coisas.
“Nos últimos cinco séculos de desenvolvimento e expansão geográfica do capitalismo, a concorrência se estabelece como regra. Agora, a competitividade toma o lugar da competição. A concorrência atual não é mais a velha concorrência, sobretudo porque chega eliminando toda forma de compaixão… Comportamentos que justificam todo desrespeito às pessoas são, afinal, uma das bases da sociabilidade atual”, escreveu ele.
Na entrevista que concedeu aqui para o blog no mês passado, o pensador Noam Chomsky, um dos mais lúcidos da atualidade, foi claro quando se referiu à necessidade de as nações serem solidárias num momento como o que estamos passando:
“Somente através de uma solidariedade internacional podemos pensar em ter alguma esperança de superar as crises que nos confrontam hoje e, assim, poderemos nos mover para um futuro melhor”, disse ele.
Não há como escrutinar qualquer coisa boa nesse vírus que decidiu assolar o planeta e nos afundar numa pandemia. Mas, sim! Há a solidariedade. Eis que este sentimento começa a dar sinais, aqui e ali, nesse ou naquele grupo.
Vale um parênteses, para que vocês não me julguem alheia ao que está acontecendo. Há, e não são poucos, aqueles que trilham o caminho contrário da solidariedade, sobretudo no campo das vacinas. Sabe-se que está faltando vacina no mundo, mas que os países ricos estão tendo atitudes egoístas, comprando o máximo sem olhar para o lado, sem ajudar as nações pobres.
Mas, hoje, aqui neste espaço, vamos focar no positivo para liberar boas energias.
Há um alento no ar que chega sob forma de cuidados. E esses cuidados, que também precisam ser consigo, andam se estendendo de humanos para humanos. O subtítulo do livro de Milton Santos parece dar o tom certo ao que anda ressurgindo: “Do pensamento único à consciência universal”. Reparem, por favor, que não estou entrando no aspecto político, cuja atmosfera está tão cheia de fuligem que não dá para acessar sem nos deixar com um muxoxo de impotência. O que se pode fazer, afinal?
Em entrevista recente, o Padre Júlio Lancellotti deu uma receita clara, que ando seguindo: “Não discrimine ninguém, sobretudo as pessoas que estão morando nas ruas. E, sempre que possível, ajude. Com uma garrafa de água, com roupas, com um pouco de dinheiro. Ajude”.
É por ser solidário com o drama daqueles que não têm o que comer, por exemplo, que Jorge Luiz Fernando dos Santos, o rapper Shackal, criou a campanha “Tropa contra a Fome”, um financiamento coletivo para distribuir quentinhas e kits com itens de prevenção ao Covid. Mesmo antes de ter o financiamento, Shackal já distribuiu cinco mil quentinhas na cidade. Anteontem, o rapper foi ao Centro, e se abalou de verdade com a situação das pessoas:
“Vi pessoas numa fila, às 7h da manhã, esperando o ticket para não perder o almoço. Não tem nem mais café da manhã. Pessoas olhando para o nada, sem dignidade. É crueldade, igualzinho aconteceu na Guerra Fria: o mesmo que botar um monte de gente numa cela de gás. Eles continuam matando as mesmas pessoas, só que de uma outra forma. Falar de amor agora é dar comida para essas pessoas. O método da Tropa é este: tentar levar comida o mais urgente possível. Para que aquelas pessoas consigam fazer uma revolução interna, de fora para dentro. A revolução é estar digno, bem, saudável. E voltar a ser humano”, disse Shackal.
O rapper Shackal: “Eles continuam matando as mesmas pessoas, só que de uma outra forma”. Foto: Divulgação: Tropa da Solidariedade
No site de notícias G1, leio uma reportagem que conta histórias lindas, de pessoas que saem de barco, pelo Brasil recôndito, levando livros e contando histórias para as crianças que moram à beira dos rios e estão sem escola. Há também uma ONG que está arrecadando tablets e computadores para as crianças que necessitam, em São Paulo. É bom lembrar que, no Brasil, um em cada quatro cidadãos não tem acesso à internet, por isso não é garantido resultado do ensino à distância. Acesse aqui a reportagem e, se for possível, ajude: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2021/03/23/na-pandemia-projetos-sociais-levam-material-escolar-cestas-basicas-e-computadores-para-alunos.ghtml.
Grandes corporações também estão se mexendo. Mas, no macro cenário, há menos ações do que necessário, como lembra Boaventura de Sousa Santos em seu livro “O Futuro começa agora”:
“Ao longo dos últimos quarenta anos, o neoliberalismo […] promoveu com tal intensidade a ideologia do individualismo que ela voltou a ser o senso comum das elites, tal como no século XIX”.
Mas, de novo, voltemos nosso olhar para o que pode dar certo. Assim será.
Há muitas campanhas encabeçadas por grandes corporações. Instituto Ethos, organização que aglutina empresas que têm o objetivo de seguir uma linha socialmente responsável, a ONG Oxfam – que se articula pela igualdade social – a Redes da Maré e outras lançaram uma campanha também de ajuda aos desvalidos. Quem quiser e puder ajudar, é só acessar aqui (https://doe.oxfam.org.br/umpaismaisjusto/single_step) .
Já estava finalizando este texto quando recebi uma mensagem com a história de Priscila da Silva Olegário, 34 anos, moradora do Morro de São Carlos. Priscila conta sua história no vídeo, uma história de privações, semelhante à de tantos outros cidadãos, brasileiros e não brasileiros. Mas Priscila tem um diferencial: um sorrisão no rosto, enorme, de felicidade por estar recebendo uma desta básica, doação do pessoal do Circo Crescer & Viver. Desde o início da pandemia, essas pessoas vêm arrecadando alimentos, roupas, tudo o mais necessário para quem está precisando.
Há quem sonhe com uma viagem sem volta a Marte. Sensibilizados pelas recentes fotos que mostram o planeta bem pertinho de nós, muitos criaram essa válvula de escape. Abandonar o planeta Terra, atualmente tão inóspito aos humanos, e ir para muito longe em busca de sossego, paz. Talvez, não se sabe, lá cometêssemos os mesmos erros. Carregaríamos nos ombros a mesma postura superior, que nos credita o equivocado direito de invadir bens comuns da natureza ao redor, surrupiá-los, sem deixar nada em volta, só devastação.
Pois eu, já penso diferente. Ando cabisbaixa como todo mundo, com os ombros pesados, sentindo nas células de meu corpo o horror de viver num tempo de pandemia, miséria, desacertos intensos. Um tempo em que, como diz o historiador Yuval Noah Harari, nós humanos tivemos condições de mostrar total sabedoria e sucesso no campo científico e absoluto fracasso no campo político, humanitário. Mas, embora com as perspectivas aparecendo para mim como luzes distantes numa estrada escura, não sonho com outro planeta. Meu lugar é aqui.
É dessa forma, caminhando e olhando para cima, para os lados, fazendo contato com pássaros e plantas, que vou tamponando minhas tristezas (ouvi isso hoje, de uma amiga, gostei e estou repetindo). Mas não sigo só. Convido – obviamente não no sentido literal, mas virtual do termo – alguns autores a caminhar comigo. Ultimamente o italiano Stefano Mancuso, da obra “Revolução das Plantas” (pode ser lido aqui em PDF: file:///C:/Users/Amelia/Downloads/Revolucao_das_plantas_um_novo_modelo_par.pdf) virou meu livro de cabeceira. O cientista Mancuso detalha nele experiências feitas com plantas que levaram os pesquisadores a concluir que elas apresentam comportamentos interessantes, estão bem mais perto da cognição animal do que supomos, ainda que sem cérebro.
Eis um pensamento que me acolhe, distrai.
O livro não sugere que as plantas sejam sencientes, ou seja, elas não sentem dor, o que exime de culpa os vegetarianos. As pesquisas levam, principalmente, ao entendimento de que as plantas têm memória. É delicioso o relato do estudo que chegou a essa conclusão, encabeçado pelo biólogo Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de Lamarck, no século XIX.
Monet se interessou em desvendar o mistério do mecanismo de fechamento das folhinhas da Mimosa pudica, folhinha que muitos conhecem pelo nome de Dormideira. Ela fecha delicadamente as folhas quando é submetida a algum estímulo externo, por exemplo, se forem tocadas. Outros estudiosos já haviam atinado para o fenômeno, tentaram desvendá-lo, e é preciso dizer que até hoje continua sendo um mistério.
Mas Lamarck observou um detalhe que mudou o rumo dos estudos e agregou uma informação que interessa muito a Mancuso e a todos nós, amantes das plantas e do planeta Terra.
É que, depois de algum tempo sendo estimulada e se fechando, a planta para de responder. No início o cientista interpretou assim: é cansaço. Depois de muitas vezes, no entanto, em que o fenômeno foi repetido pela plantinha (que se fechava a cada estímulo), a dormideira não teria mais energia para fazer isso. Só que, em algumas situações, Lamarck observou que a planta parava de responder mesmo antes de ficar cansada.
Daqui por diante, quem vai contar a história para vocês é o próprio Mancuso:
“O botânico francês elaborou um experimento inédito. Pediu a um de seus alunos que transportasse muitas plantas em uma carruagem para um agradável passeio por Paris e, escrupulosamente, verificasse o comportamento delas. Ele deveria, sobretudo, observar com atenção quando elas fechassem as folhas. O estudante, cujo nome não sabemos, evidentemente acostumado aos pedidos extravagantes de seu mestre, não titubeou. Colocou nos assentos de um cupê vários vasos de Mimosa pudica e ordenou ao condutor que desse uma volta pelos lugares mais interessantes da cidade, com um trote moderado e, se possível, ininterrupto. No entanto, enquanto continuavam passeando, algo inesperado aconteceu. Primeiro uma, depois duas, depois outras cinco, finalmente todas as mudas começaram a abrir as folhas, apesar de as vibrações da carruagem terem continuado com igual intensidade. Foi um fato interessante. O que estava acontecendo? O aluno desconhecido teve um estalo e anotou no caderno: as plantas estavam se acostumando”.
Conclusão: as plantas têm uma forma especial de memória, sem cérebro.
Este é somente um exemplo, que ocupa algumas das quase cem páginas do livro de Mancuso. Ele também discorre sobre a capacidade de as plantas se mimetizarem com outras, o que venho observando aqui na minha janela. Pode ser que eu esteja sendo influenciada pela leitura de Mancuso, mas ando percebendo que as folhas da minha lavanda estão parecidíssimas com as folhas do meu alecrim… Tirei foto para vocês servirem de testemunhas.
E assim consegui escapar um pouco de nosso presente comum e angustiante, sem precisar usar foguetes. Fazer contato com o mundo ao redor, com a natureza que nos cerca, ao contrário de servir como fuga, é uma incursão em saúde. E vale a pena.
Kigali é a capital de Ruanda, pequeno país africano com cerca de 12 milhões de habitantes, sem costa marítima. No relatório 2020 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Ruanda ganhou uma classificação de baixo desenvolvimento humano – ficou em 160º lugar. A nação teve um importante papel na epidemia, contendo o vírus com ações severas de isolamento social desde o início.
Em 2016, Kigali foi sede de uma reunião, convocada pela ONU, que resultou no compromisso, assinado por 193 países, de reduzir o uso do gás hidrofluorcarbonetos (HFC), que causa mais danos à atmosfera do que o CO2. Assinado em outubro de 2016, o tratado passou a se chamar Acordo de Kigali, e propõe que o emprego de HFC, usado como fluido em equipamentos como geladeiras, freezers e aparelhos de ar-condicionado, seja reduzido entre 80% e 85% até meados do século.
Acordo feito, acordo apenas cumprido parcialmente, como sói acontecer nas questões climáticas. Até 2019, ou seja, três anos depois de terem firmado o compromisso, somente os países desenvolvidos tinham tomado providências para diminuir o uso de HFC. Com a entrada do negacionista Donald Trump em cena, até mesmo Estados Unidos, que chegou a assinar o Acordo de Kigali, não se movimentou neste sentido.
Mas, aparentemente, as coisas estão começando a mudar. Quando tomou posse, o novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assumiu, no discurso oficial, o compromisso de pôr seu país novamente à mesa das negociações para conter o aquecimento. E conclamou a parceria com outros países que tentam reverter as mudanças do clima para não se chegar ao fim do século com um aquecimento maior do que 1.5 a 2 graus.
Uma das primeiras providências de Biden foi colocar os Estados Unidos novamente no Acordo de Paris, conseguido a duras penas em 2015 justamente com esse objetivo. E um pouco depois, no dia 21 de janeiro, Biden deu ordens para que sua equipe recupere o papel dos Estados Unidos no Acordo de Kigali, até agora ratificado por 112 nações.
Nos países que já ratificaram o compromisso de Kigali – como Japão, Coreia do Sul, União Europeia, Austrália, Canadá, Reino Unido – estão algumas sedes das maiores empresas de refrigeração do planeta. Há também parceiros comerciais do Brasil entre os signatários, como Chile, Uruguai e Paraguai.
Para adicionar uma informação, aqui faço um parêntese: o primeiro país que assinou a ratificação do Acordo de Kigali foi Marshall, uma das nações-ilha do Pacífico. Trata-se do lugar mais ameaçado do planeta pelos eventos extremos causados pelas mudanças climáticas. Seus 62 mil habitantes já tiveram que conviver com o terror das bombas nucleares norte-americanas, pois os Estados Unidos fizeram do local uma espécie de laboratório para testar suas armas nucleares. Hoje os marshalleses ainda não estão livres desse pesadelo, já que há riscos de vazamento radioativo com a subida do nível do mar. E seu território pode desaparecer do Pacífico se a pequena faixa de terra que habitam for cada vez mais submersa pelo mar. Fecha o parêntese.
É óbvio que a atitude de Joe Biden, trazendo o resgate da agenda de mudanças climáticas no debate internacional, está sendo comemorada. Com a volta da nação mais poderosa às negociações, será possível a países como as Ilhas Marshall sonharem com subsídios para poderem enfrentar seu maior inimigo atual, a elevação do nível do mar. E o Acordo de Kigali está intrinsecamente ligado a essa questão.
Na esteira do resgate de Joe Biden, outros chefes de estado podem estar se mexendo para voltar a dar importância às negociações climáticas. É dessa forma que está voltando à cena o Acordo de Kigali, que aqui no Brasil está há um ano na pasta de projetos a serem analisados pelos deputados em Brasília.
Está nas mãos do presidente da Câmara, deputado Artur Lira, portanto, botar em votação a ratificação do Acordo de Kigali. Entre outras coisas, isso poderá liberar US$ 100 milhões – parte dos recursos do Fundo Multilateral para Implementação do Protocolo de Montreal para o período de 2021-2023 – destinados à adaptação de processos produtivos em favor de sistemas de refrigeração com uso reduzido de gases HFCs. Esse dinheiro, que será tomado como empréstimo a fundo perdido, pode ser utilizado pela indústria para adaptar os aparelhos de ar-condicionado, o que também contribuirá para reduzir o consumo de energia. Um esquema win-win.
A nova tecnologia já está sendo usada na China, Estados Unidos e Inglaterra. Se ratificado o Acordo pelo Brasil, e se a indústria brasileira tiver acesso a esse dinheiro, é possível que o país possa dar alguns passos em direção a uma sinalização positiva aos investidores sobre seu compromisso com a economia de baixo carbono. Vamos combinar que estamos precisando disso.
Um detalhe também relevante: segundo um estudo feito pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS), em cooperação técnica com o Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL), aparelhos de ar condicionado mais eficientes produziriam um impacto de R$ 57 bilhões na economia nacional até 2035. Desse total, R$ 30 bilhões deixariam de ser gastos pelo governo na geração de energia elétrica. Outros R$ 27 bilhões seriam economizados pelos consumidores na conta de luz.
A ratificação da Emenda de Kigali – um acréscimo ao Protocolo de Montreal – já passou por todas as comissões da Câmara dos Deputados. Fica a torcida para que o presidente da Casa perceba a importância do gesto. Que, como é obvio, não poderá vir sozinho. É preciso que o Brasil volte a ser protagonista na história do clima, como já foi.
Para conscientizar a população algumas entidades formaram a Rede Kigali, que lançou a campanha “Se liga na conta do ar-condicionado: bom para o seu bolso, bom para o planeta”.
Uma vista de Kigali, cidade sede do Acordo feito em 2016
Por falta de espaço, a entrevista que fiz com o pensador Noam Chomsky e que foi publicada na revista Época que está nas bancas, saiu sem a resenha do livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” (Ed. Roça Nova), mote da entrevista. É natural, coisas do jornalismo impresso.
Mas, como tenho este espaço virtual, vou compartilhar com vocês, recomendando muito o livro, que é excelente, cheio de dados incríveis, e que deve interessar muito, sobretudo quem se interessa pelo tema.
A foto de capa do livro é de divulgação da editora, e a foto de Chomsky foi gentilmente cedida pelo fotógrafo Leo Canabarro.
Abaixo, então, a resenha do livro e a entrevista na íntegra.
Conversa entre amigos sobre o clima
Resenha: “Crise Climática e o Green New Deal Global” (Ed. Roça Nova, 219 páginas, 2020).
Amelia Gonzalez
“Crise Climática e o Green New Deal Global”, que a Editora Roça Nova acaba de lançar, é um livro fácil de ler, no formato de perguntas e respostas, e cheio de informações relevantes. O cientista político C. J. Polychroniou foi feliz ao reunir, para uma conversa virtual, como exige essa nossa era pandêmica, o principal intelectual público do mundo Noam Chomsky, ativista político e ambiental e Robert Pollin, economista progressista que tem atuado como líder em defesa de uma economia verde e igualitária, para compartilhar suas reflexões sobre essa era e os desafios que temos que enfrentar. As reflexões dos dois, imprescindíveis na agenda do mundo pós-pandemia, são o sumo do livro.
Chomsky costura o pensamento social, alinhava a forma como os líderes e as grandes empresas enfrentam o desafio de tentar baixar a zero as emissões de carbono até 2050 (proposta assinada pelos líderes no Acordo de Paris). Expõe a falta de responsabilidade com o que chama de “catástrofe ambiental” e localiza o fim da II Guerra como o ponto de inflexão para “uma segunda ameaça à nossa sobrevivência”.
Robert Pollin se encarrega de traçar o cenário com informações mais técnicas, em detalhes. O economista se permite um traço de incerteza com relação ao conjunto de consequências que enfrentaremos caso a média de temperatura global suba mais que 1,5º C até o fim do século, o que não quer dizer rechaçar os efeitos das mudanças climáticas ou negá-los. É que, segundo ele, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) “tem um histórico de mudar regularmente suas avaliações”.
“Está bem claro que existe um nível de incerteza com relação ao conjunto de consequências que enfrentaremos caso permitamos que a média de temperatura global suba mais que 1,5oC ou mesmo 2 graus em relação aos níveis pré-industriais (…) Em resumo, temos informações mais que suficientes para tomar atitudes decisivas agora mesmo, sem deixar de reconhecer o grau de incerteza à nossa frente (…) Não é o equivalente a decidir se compraremos um seguro para o carro, mas a determinar quanto gastaremos e qual será nossa cobertura”, escreve Pollin.
Enquanto escreviam o livro, aconteceu a pandemia de Covid-19 e os dois autores foram obrigados ao isolamento social. Refletiram assim, para nosso proveito, sobre as intersecções entre a crise climática e o alastramento do Corona vírus. A destruição dos habitats naturais como consequência do desmatamento e dos avanços das atividades humanas, as ondas de calor, secas e enchentes facilitam o contato próximo das espécies selvagens com os humanos… “e permitem que os micróbios que vivem em seus corpos migrem para os nossos, transformando micróbios animais benignos em mortíferos patógenos humanos”.
Como consequência, estamos obrigados a rever nossos hábitos para compor com a necessidade de progresso e não sermos lesados. A tarefa é árdua, e nem todos conseguem percebê-la com a urgência que se faz necessária. Apenas 25% dos republicanos, lembra Chomsky, ou 36% dos millenials mais bem informados, reconhecem que os humanos são responsáveis pelo aquecimento global. O filósofo se inquieta com esses dados e faz a pergunta que ronda há tempos as reflexões dos ambientalistas: afinal, por que a população vira o rosto e não reconhece a crise climática, se o que o que está em jogo é a sobrevivência da vida humana?
“O aquecimento global parece algo abstrato. Quem entende a gravidade da diferença entre 1,5º e 2º C, em comparação à diferença de colocar ou não comida na mesa de seus filhos no dia de amanhã? “
Chomsky traz a resposta. A precarização do trabalho, a supressão dos sindicatos, em parte porque os líderes optaram pelo “corporativismo”, teve papel relevante no distanciamento dos trabalhadores da causa ambiental. Os anos de “globalização neoliberal’ serviram para sepultar a preocupação e o respeito com o meio ambiente. A meta a ser perseguida é usar “a militância trabalhista como força motriz dos movimentos ambientalistas”, afirma Chomsky. Para ele, não é um sonho ingênuo.
Já para Roberto Pollin, o Green New Deal, plataforma escrita por parlamentares norte-americanos com propostas econômicas para ajudar a combater a crise climática e social é um projeto realista e sustentável para baixar as emissões, conter o aquecimento global, gerar emprego e renda. Mesmo com alguns desafios técnicos a serem superados.
“Envolve questões como a extensão de terra necessária para a infraestrutura de painéis solares e turbinas eólicas a fim de satisfazer a demanda energética e outros problemas correlatos, como a intermitência, transmissão e armazenamento de energia”, escreve Pollin.
De qualquer maneira, garante o economista, esse será um desafio que só deverá ser enfrentado daqui a muitos anos, provavelmente não na próxima década. É que vai ser difícil reduzir o consumo de combustíveis fósseis e energia nuclear, que hoje respondem por 85% do fornecimento total de energia.
Como numa boa conversa entre amigos, o livro vai levando o leitor a refletir junto, sem temer opiniões contrárias ou diferentes. Pelo contrário, é daí que se vai extrair matéria prima para enfrentar o desafio da nossa era.
ENTREVISTA/
Noam Chomsky: ‘Gostem ou não, estamos juntos nessa crise climática’
Amelia Gonzalez
Aos 93 anos recém completados, o linguista, sociólogo, filósofo e cientista cognitivo Noam Chomsky ainda está pleno em sua capacidade de se indignar e de apontar responsáveis pela crise climática. Nessa entrevista exclusiva, Chomsky não hesita em culpar o sistema neoliberal como responsável pela destruição ambiental do planeta. E alerta: não vamos conseguir soluções se não pensarmos de forma solidária, como uma grande comunidade global.
O encontro de líderes e empresários que estiveram reunidos no World Economic Fórum, na cidade suíça de Davos, de 21 a 24 de janeiro deste ano, foi chamado de “The Great Reset”, que em tradução literal quer dizer “O Grande Reinício”. Por causa da pandemia, as mudanças climáticas estiveram no centro das conversas. O que o senhor espera dessa reunião? Podemos ter esperança de ações que resultem em políticas que levem pessoas (não o lucro) em conta?
Noam Chomsky – O aquecimento global é uma ameaça existencial. Se a crise não for superada logo, nada mais importa. Há medidas possíveis – as quais, na verdade, resultariam num mundo não somente bom para a humanidade, mas muito melhor do que ele é hoje. No entanto, só saber disso não é suficiente. As medidas têm que ser implementadas. Há ações encorajadoras em alguns lugares, mas elas precisam ser amplamente expandidas.
Há um grande esforço acontecendo agora para moldar a sociedade pós-pandêmica. O World Economic Forum pode ajudar a inclinar a balança no sentido de uma ordem social que se guie pelas necessidades humanas, não pelo lucro e poder para poucos.
Elon Musk, dono de uma montadora de carros elétricos, que investe também em tecnologia para energias limpas, foi considerado o segundo homem mais rico do mundo. Neste caso específico, a economia verde colaborou para o enriquecimento de um cidadão, não para a saúde de todos, já que ainda não há provas de que o uso de carros elétricos contribuiu para diminuir a poluição, segundo Robert Pollin fala em seu livro. Há um paradoxo nisso?
Noam Chomsky – Numa ordem social capitalista, não é um paradoxo. Mais do que isso, esta é a essência do capitalismo. Isso já foi delineado claramente por Adam Smith no seu clássico “Riqueza das Nações”. Como ele explicou, os “poderosos da humanidade” – no seu tempo, eram os comerciantes e os donos de fábricas da Inglaterra – são “os principais arquitetos da política”. Ainda segundo Smith, eles vão sempre assegurar que seus próprios interesses sejam atendidos, “sem se importar com os impactos disso sobre o povo da Inglaterra, perseguindo apenas sua máxima vil: ‘Tudo para nós, nada para mais ninguém’”.
Esse legado herdado do capitalismo pode ser inibido pela força popular. Mas, sem ela, ele vai permanecer.
Joe Biden venceu as eleições para a presidência dos Estados Unidos, eliminando da disputa o negacionista do clima Donald Trump. É motivo de comemoração para a causa ambientalista?
Noam Chomsky – É motivo para se ficar aliviado, não para celebração.
Sem a maldade de Trump no mundo – pelo menos temporariamente – ficamos com algum espaço para enfrentar a ameaça da catástrofe ambiental. Trump estava dedicado a acelerar a corrida para o abismo e, se ficasse no poder por mais quatro anos, eles nos conduziriam para bem perto de um ponto de ruptura. Talvez, até mesmo, para além desse ponto.
Nunca houve tamanha perversidade na história humana. São palavras fortes, mas verdadeiras.
Teremos motivos para celebrar se Biden for capaz de dar os passos necessários para evitar o desastre. Isto vai requerer uma enorme pressão pública. Graças, principalmente, aos esforços corajosos de jovens ativistas, Biden apresentou um programa ambiental que é muito melhor do que o de qualquer de seus predecessores, embora ainda longe de ser suficiente.
Lamentavelmente, porém, é provável que o Partido Republicano continue no caminho que tem trilhado nos últimos anos, sobretudo sob a liderança de Mitch McConnell: quando eles não estão no poder, tentam fazer de tudo para que a administração falhe, sem se importarem se isto será cruel com a população. Quando estão no poder, servem primeiro ao seu principal eleitorado, os “poderosos da humanidade”.
As empresas têm sido convocadas a agir de maneira responsável, sócio e ambientalmente, desde a década de 60. Hoje o conceito ESG (Environmental, Social e Governance) tem tomado as discussões empresariais. Alguns chamam de retórica inútil. Como o senhor vê o papel das empresas na construção de um mundo melhor e mais igualitário?
Noam Chomsky – Na década de 1950, nós estávamos certos de que as empresas haviam entendido sua responsabilidade social e estavam se tornando “corporações com alma”. Mas comprovamos a “real generosidade” delas, particularmente quando começaram a ganhar enorme controle político sob o regime neoliberal dos últimos quarenta anos.
Adam Smith teve um olhar certeiro.
O guru econômico da era neoliberal, Milton Friedman, foi admiravelmente franco sobre isso. Friedman argumentou que as corporações não têm que ser responsáveis com a sociedade. Sua única responsabilidade, afirmou ele, é enriquecer os acionistas – que já estão muito ricos – e, naturalmente, enriquecer a si próprias. Em resumo, elas devem seguir, literalmente, a “vilania de Smith”.
Os patrões executaram a tarefa de maneira muito eficiente. Um estudo recente, de alto nível, estimou que houve uma transferência de riqueza, de 90% da camada mais pobre da população aos mais ricos, de cerca de US$ 50 trilhões. Os que receberam esse valor estão concentrados na camada dos super ricos. Ou seja; 0,1% da população aumentou em 20% do total sua participação na riqueza desde que os princípios de Friedman foram impostos, há 40 anos, sob a bandeira da “liberdade”.
Poucos anos atrás, o sistema corporativo começou a enfrentar o que chamou de “riscos de reputação”. Como se diz comumente, os camponeses estão chegando com suas forquilhas, o que pode começar uma luta de classes incessante, a partir do capital.
Passamos, então, a ouvir líderes corporativos reconhecerem erros cometidos em suas gestões e afirmarem sua intenção de transformar suas empresas para que elas se tornem “corporações com alma”, devotadas apenas ao bem estar da população. Dessa forma, os camponeses podem botar de lado suas forquilhas e empenhar sua esperança nos líderes corporativos humanos e generosos.
Acredite nisso por sua conta e risco.
No livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” (resenha abaixo), o senhor diz que o resgate do movimento sindical é tarefa essencial, inclusive por causa da crise climática, e lembra que um dos primeiros ecologistas foi um líder sindical, Tony Mazzocchi. Qual a importância de se trazer os trabalhadores para engrossar as fileiras do ativismo ambiental?
Noam Chomsky – Usar a palavra “importância” é um eufemismo. Em vez disso, eu digo que é essencial. O movimento trabalhista tem sido vanguarda, tanto na mudança social progressista, quanto na transformação social. Os poderosos, e aqueles que cumprem suas ordens, sabem disso muito bem. Quando Reagan (presidente Ronald Reagan) e Thatcher (primeira-ministra da Inglaterra Margareth Thatcher) lançaram o ataque neoliberal sobre a população, seus primeiros atos foram no sentido de atacar os sindicatos. Para que o ataque tivesse sucesso, foi necessário destruir os meios primários que os trabalhadores usam para se defender e para defender a sociedade. Era isso que Mazzocchi estava fazendo. Foi isto também que os trabalhadores militantes fizeram quando eles atacaram o New Deal nos anos 1930, e em outras numerosas ocasiões. Os poderosos e seus agentes sabiam o que eles estavam fazendo.
Hoje, muitos dos mais respeitados economistas dizem que a destruição dos sindicatos é o principal fator que originou esta imensa desigualdade social criada nos últimos quarenta anos. Recentemente, isso foi dito até mesmo por Lawrence Summers (secretário do Tesouro dos Estados Unidos no governo de Bill Clinton).
A desigualdade social global parece não perder força. De que maneira se pode juntar as duas lutas: contra a desigualdade e contra as mudanças climáticas?
Noam Chomsky – Definitivamente. O capitalismo descontrolado, quase por definição, produz duas crises: aumento da desigualdade e a destruição do meio ambiente. Não somente por causa de sua dinâmica operacional, mas também porque o aumento do poder econômico permite aos poderosos da economia que minem a democracia. Cada vez eles ficam mais poderosos e já se tornaram “os principais arquitetos da política” nos governos, usando o poder do estado a favor de seus próprios interesses. Levamos 250 anos de experiência para comprovarmos que Adam Smith estava certo. Extirpar as raízes dessas duas crises – uma destrutiva, a outra letal – é a tarefa do movimento para criar um futuro para o bem comum.
A jovem sueca Greta Thunberg arregimenta jovens do mundo todo na luta contra as mudanças climáticas. O “Extinction Rebellion” é outro movimento que também consegue atrair jovens nessa direção. O senhor vê diferença entre esses dois movimentos?
Noam Chomsky – É inspirador o que os jovens vêm fazendo, e suas ações deixam uma lição cruel. Quando Greta Thunberg se dirige a nós dizendo “Vocês nos traíram”, ela está certa. E nós deveríamos ouvi-la.
É vergonhoso que gerações mais velhas tenham tolerado este caminho para o colapso social e o suicídio das espécies, de fato até estimulando isto. É vergonhoso que os jovens tenham que liderar um movimento para superar os danos severos que nós causamos.
É importante frisar aqui: não se deve dizer “nós”. Não são os “humanos” que têm causado tantos horrores na era do Antropoceno. Os impactos devastadores têm sido causados, em sua esmagadora maioria, por algumas sociedades, não por todas as sociedade. E pela riqueza e privilégios dentro dessas sociedades, trabalhando dentro de estruturas institucionais com características profundamente perversas. Tais estruturas não foram implantadas pela grande massa da humanidade, ao contrário disso. Frequentemente houve objeções fortes e resistência superadas pela concentração de poder.
Nada disso deveria ser esquecido enquanto trabalhamos para criar um futuro melhor.
Os indígenas são apontados como os povos que mais ajudam a preservar terras, rios e mares. No entanto, são povos que não têm assento nas grandes decisões mundiais sobre o clima. Por quê?
Noam Chomsky – A isso se chama “poder”. Em todo o mundo, populações indígenas que têm sido submetidas a uma “injustiça selvagem” por parte dos europeus, estão na linha de frente dos esforços para salvar o planeta. Os que perpetraram essa violenta injustiça, que causou um extermínio colossal e expulsou-os violentamente de suas terras, agora falham em seguir seu exemplo. E, em alguns lugares, como por exemplo o Brasil de hoje, o poder concentrado está, literalmente, causando sua extinção.
O livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” destaca o Green New Deal, formato que pode estar entre as soluções para salvar o planeta. Kate Raworth, a economista britânica, sugere uma economia Donut, em que ninguém seria deixado de fora. Podemos imaginar que cada país, cada região, vai encontrar seu próprio modo para lidar com a crise climática?
Noam Chomsky – Regiões, e mesmo indivíduos, podem e deveriam encontrar seu próprio caminho para um futuro melhor. Mas os problemas são internacionais. Eles não têm fronteiras. Somente através de uma solidariedade internacional podemos pensar em ter alguma esperança de superar as crises que nos confrontam hoje e, assim, poderemos nos mover para um futuro melhor.
O que o senhor acha do “Small is beautiful”, modelo de economia local criado pelo economista alemão E. F. Schumacher nos anos 1970? Seria um dos caminhos para salvar o planeta e a humanidade?
Noam Chomsky – Pode ser parte da solução, mas somente parte. Economias locais não vão parar o degelo das capotas polares ou a próxima pandemia. Gostem ou não, nós estamos juntos nessa crise climática, e devemos trabalhar com verdadeira solidariedade, ajuda mútua e respeito pelo próximo se quisermos persistir e seguir em frente.
Quando não tira vidas, quando não deixa sequelas incômodas em todos que contraem a Covid-19, o vírus Corona, atualmente atuando em todo o globo, também consegue trazer uma inusitada situação: os mais ricos viram sua riqueza aumentar em meio trilhão de dólares (alguém consegue imaginar isso?) desde o início da pandemia. E os mais pobres, aqueles que só ganham dinheiro com a força do seu trabalho, estão enfrentando a pior crise de desemprego em mais de 90 anos. São centenas de milhões de pessoas subempregadas ou desempregadas.
Terminou há pouco a coletiva de imprensa do World Economic Fórum (WEF), que está acontecendo desde 21 de janeiro na cidade suíça de Davos, em que a ONG Oxfam tradicionalmente apresenta seu Relatório anual sobre Desigualdade no mundo. Dessa vez o Relatório se chama “O vírus da desigualdade”. A coletiva foi virtual, como todas as outras conferências do Fórum, justamente porque não foi possível, num ambiente pandêmico, criar tantos deslocamentos mundo afora para levar os painelistas à Suíça.
Um fato surpreendente foi o tempo dado aos painelistas que discutiram a desigualdade com base no relatório da Oxfam: muito curto. Tanto que foi visível a surpresa da colombiana Gabriela Bucher, diretora executiva da organização, quando a mediadora anunciou o encerramento da apresentação. Gabriela foi contundente ao anunciar uma prévia do relatório, que pode ser lido no site da Organização (www.oxfam.org.br):
“Assistimos ao maior aumento da desigualdade desde o início dos registros. A profunda divisão entre ricos e pobres está se mostrando tão mortal quanto o vírus”, disse ela.
Mas a Oxfam avisa: a pandemia já pegou um mundo extremamente desigual, onde um pequeno grupo de dois mil bilionários tinham mais riqueza do que poderiam gastar em mil vidas.
“Um mundo onde quase metade da humanidade foi forçada a sobreviver com menos de US $ 5,50 por dia, onde, pode quarenta anos, o 1% mais rico ganhava mais do que o dobro da renda da metade inferior da população global, onde o 1% mais rico consumiu duas vezes mais carbono do que os 50% mais pobres para o último quarto de século, levando à destruição do clima”, diz o relatório.
O número total de bilionários quase dobrou dez anos após a crise financeira de 2008 e, entre 2017-2018, um novo bilionário foi criado a cada dois dias. Neste cenário, as pessoas mais pobres não tinham nenhum recurso ou apoio para enfrentar a tempestade econômica e social que se instalou. Mais de três bilhões não tinham acesso à saúde; três quartos dos trabalhadores não tinham acesso a políticas de proteção social e, em países de renda baixa e média-baixa, mais da metade dos trabalhadores sobrevivia com trabalhos precários.
Nos primeiros seis meses de pandemia, no entanto, houve sim um revés para os mais ricos. Mas isso durou pouco. Em nove meses, segundo ainda o relatório da Oxfam, os mil maiores bilionários ganharam de volta o que haviam perdido porque os governos deram apoio ao mercado de ações.
O resultado foi que, em todo o mundo, a riqueza dos bilionários aumentou em impressionantes US$3,9 trilhões entre 18 de março e 31 de dezembro de 2020. Sua riqueza total agora é de US$ 11,95 trilhões.
“Os dez bilionários mais ricos do mundo viram sua riqueza aumentar coletivamente em US$540 bilhões durante este período. Mukesh Ambani, o homem mais rico da Índia, dono da empresa Reliance Industries, especializada em petróleo, varejo e telecomunicações, mais que dobrou sua riqueza entre março e outubro de 2020, fazendo-o ocupar a 6ª posição de pessoa mais rica do mundo, quando anteriormente ocupava a 21ª posição”, exemplifica o relatório.
Ao mesmo tempo, a pandemia começou a fazer estragos na vida dos mais pobres: centenas de milhões perderam seus empregos e enfrentam miséria e fome.
“Esse choque deve reverter o declínio da pobreza global que testemunhamos nas últimas duas décadas. Estima-se que o total de pessoas que vivem na pobreza pode ter aumentado entre 200 milhões e 500 milhões em 2020. O número de pessoas que vivem na pobreza pode não voltar ao nível anterior à crise por mais de uma década”, diz o relatório.
A Oxfam considera cedo ainda para se falar em aumento significativo da desigualdade, mas para aprontar o relatório a tempo de ser divulgado no Forum Econômico Mundial, como é de praxe, os pesquisadores da organização fizeram uma entrevista com 295 economistas de 79 países. Suas respostas puderam conduzir algumas reflexões: 87% dos entrevistados acreditam que a desigualdade de renda em seu país aumentará fortemente como resultado da pandemia, percepção de economistas de 77 dos 79 países participantes.
Mais da metade dos entrevistados também acredita que a desigualdade de gênero irá subir, e acima de dois terços pensam o mesmo para a desigualdade racial. Um exemplo dessa desigualdade entre raças vem dos Estados Unidos onde, segundo o relatório, enquanto as taxas de pobreza entre os brancos devem aumentar em 4,2 pontos percentuais devido à pandemia, os negros enfrentarão um aumento de 12,6 pontos percentuais e os latino-americanos um aumento de 9,4 pontos percentuais.
Dois terços dos entrevistados também avaliam que seus governos não têm um plano em vigor para combater a desigualdade.
Fato é que o vírus mexeu com a vida de todos, mas não de forma igual. Haverá aumento de desigualdade, e vai depender das escolhas feitas pelos governos do mundo todo se ela será muito extensa e com que velocidade isso se dará. A pandemia afetou muito mais os pobres do que os ricos, isto também é fato notório, e muito mais mulheres e negros do que os brancos. Aqui no Brasil, por exemplo, a população negra tem 40% mais chance de morrer pelo vírus do que os brancos.
Como sempre faz nos relatórios sobre a desigualdade social que apresenta anualmente, a Oxfam dá sugestões para os governos. Dessa vez, a organização não está sozinha: tem muita gente preocupada com o nível de desigualdade que o mundo pode atingir. Kristalina Georgieva, a diretora-geral do FMI, disse que “o impacto será profundo […] com a desigualdade crescente levando a agitações econômicas e sociais: uma geração perdida nos anos 2020 cujos efeitos serão sentidos nas décadas por vir”. Antônio Guterres, secretário-geral da ONU, afirmou: “Estamos todos flutuando no mesmo mar, mas é evidente que alguns estão em super iates, enquanto outros se agarram aos escombros à deriva.”
E por que se preocupar com a desigualdade num momento em que a crise é sanitária, de saúde? Porque não é só a doença que mata, mas também a injustiça social:
“A pandemia expôs os piores efeitos dos sistemas públicos de saúde cronicamente negligenciados, especialmente para pessoas que vivem na pobreza e comunidades marginalizadas”, conforme mostra o relatório da Oxfam.
É importante lembrar que a reunião do Fórum Econômico de Davos, este ano, tem um título bastante carregado de simbologia: “O Grande Reinício”. Se a turma que está lá, líderes empresariais e chefes de estado, realmente quiser levar a sério essa proposta, já tem por onde começar. Até porque, mesmo com a vacina, se não houver um olhar cuidadoso para a desigualdade, haverá um risco de que imunizantes eficazes sejam monopolizados por países e indivíduos ricos e poderosos. Um pequeno grupo de nações ricas, representando apenas 14% da população mundial, já comprou mais da metade do suprimento dos principais produtores da vacina. As farmacêuticas já obtiveram enormes lucros durante a pandemia e provavelmente serão as que mais ganharão com as vacinas eficazes, a menos que seja introduzido um limite de preço.
Vale a pena ler o relatório. E refletir.
Foto por Guduru Ajay bhargav em Pexels.com. Homem pobre na Índia
Estamos vivendo tempos bem complexos. O trabalho em casa, a falta de liberdade nas ruas, a necessidade de usar máscaras, de higienizar as mãos todo o tempo, de cuidar para não entrar em lugares aglomerados. São novos hábitos que precisam ser incorporados à rotina, e nem sempre é fácil.
Nesse lufa lufa, é normal que se procure o mais prático. No caso das máscaras, as descartáveis são a melhor opção, sobretudo para quem tem crianças. Mas… se você, caro(a) leitor(a), é uma pessoa que se incomoda com a quantidade de lixo que o mundo está produzindo além de sua capacidade, essa notícia vai lhe interessar:
Recém lançado, um relatório preparado pela Fundação Heinrich Böll, chamado “Atlas do plástico” (aqui na íntegra: file:///C:/Users/Amelia/Downloads/Atlas%20do%20Pl%C3%A1stico%20-%20Funda%C3%A7%C3%A3o%20Heinrich%20B%C3%B6ll%20Brasil.pdf) , mostra que “Se todas as pessoas utilizarem máscaras faciais descartáveis, necessitaríamos, de acordo com estudos, de consumir 129 bilhões de máscaras faciais por mês para atender toda a população mundial. No Brasil, o consumo mensal de máscaras seria de 3,5 bilhões por mês. Levando em conta que cada máscara descartável pesa por volta de três gramas, isto levaria a uma dispersão de mais de 387 mil toneladas de plástico, o equivalente ao peso de 338 estátuas do Cristo Redentor por mês! Só no Brasil, seriam 10,5 mil toneladas de plástico, o equivalente ao peso de nove estátuas do Cristo Redentor”.
É claro que há soluções. As máscaras de pano são as que mais se adequam à ocasião. A situação é bem parecida com as fraldas de pano versus fraldas descartáveis. Não há mais condições de se convencer uma jovem mãe que trabalha fora, a gastar parte dos seus dias de licença maternidade em tanques cheios de fraldas, certo? Pois é. Mas as fraldas descartáveis que facilitam tanto a vida, quando não são devidamente descartadas, aumentam e muito o lixo plástico no mundo.
O mesmo vai acontecer com as máscaras. E, pelo que se tem observado no cenário global, certamente será um acessório que vai nos acompanhar por muito tempo ainda, infelizmente. De cepas em cepas de vírus.
Vale a pena destrinchar um pouco mais sobre o relatório da Fundação Böll, já que pode ajudar a tomar uma decisão a favor das máscaras de pano (na comparação com as fraldas, as máscaras ganham e muito, já que são muito mais fáceis de lavar).
Para começar, a informação de que os países que mais produzem lixo plástico, segundo o Atlas, são: em primeiro lugar, os Estados Unidos, com aproximadamente 70,782 milhões de toneladas ao ano; depois a China, com 54,740; em terceiro lugar a Índia, com 19,311 milhões. O quarto lugar, com 11,3 milhões de toneladas de plástico produzidas ao ano é do Brasil, que recicla apenas 1,28% de seu lixo. Nesse total ainda não estão contabilizadas as máscaras.
Elenquei alguns pontos do Atlas que reproduzo aqui, como informações importantes:
. Nos oceanos, o plástico vira micro plástico, que vai para a barriga dos peixes que consumimos;
. Se não mudarmos o jeito de produzir e consumir, a expectativa, segundo os pesquisadores, é adicionar 40% a mais de plástico no comércio até 2025;
. Entre 1950 e 2017 foram produzidas 92 bilhões de toneladas de plástico em todo o mundo. Desse total, menos de 10% foram reciclados;
. Nossa maior preocupação tem sido com a poluição que o plástico está causando nos oceanos, mas a poluição plástica do solo pode ser entre quatro e 23 vezes maior. A agricultura usa 6,5 milhões de toneladas de plástico em todo o mundo;
. Os quatro países mais exportadores de plástico são Estados Unidos, Japão, Alemanha e Reino Unidos.
Os pesquisadores da Fundação Böll traçaram a história do plástico, e é possível descobrir como as embalagens são as grandes vilãs do lixo plástico que se deixa no planeta. E isso também aumentou em tempos de Covid, quando, em casa, fomos cada vez ficando mais dependentes de produtos que nos chegam pelo sistema delivery. Eles perceberam, também, como não podia deixar de ser, um aumento no consumo de plásticos de curta duração nesse período.
“Entre janeiro e maio deste ano houve um aumento de quase 95% no gasto com aplicativos de entrega comparado a 2019, de acordo com a startup de finanças Mobilis. Se, antes da pandemia, pouco mais de um terço do consumo de plásticos era daqueles com até um ano de vida útil, como embalagens plásticas, estima-se que este percentual aumentará significativamente”, diz o relatório.
Têm razão aqueles que se queixam de que muitas empresas continuam fazendo tudo como antes, produzindo as mesmas quantidades de plástico, e que acaba sobre os ombros dos cidadãos comuns a mudança necessária. Têm razão também, no entanto, aqueles que perceberam que não dá mais para manter os mesmos hábitos como se nada estivesse acontecendo ao nosso redor.
Vai ser preciso um grande esforço de mudança. A pandemia, o isolamento, nosso medo da morte, convidam a, finalmente, fazer contato com essa necessidade. A boa notícia é que, em grande medida, essa mudança depende de nós.
Em entrevista à jornalista Daniela Chiaretti, no jornal “Valor Econômico” de sexta-feira passada (11/12/2020), o ex-primeiro ministro da França Laurent Fabius faz algumas considerações importantes para se entender a urgência climática. Fabius foi o principal articulador do Acordo de Paris, conseguido a duras penas em 2015. E agora está, claramente, e com apoio das Nações Unidas, tentando levar adiante o compromisso assumido por 194 países, ratificado por 147 e solenemente ignorado pelo atual e quase ex presidente dos Estados Unidos Donald Trump.
Com Trump fora do jogo, e considerando Joe Biden, democrata eleito no dia 3 de novembro, como parceiro na causa ambiental, é hora de tentar recuperar o que não foi feito nos últimos quatro anos. E às pressas, para se tentar chegar a algo próximo do que foi acordado em Paris há exatos cinco anos: baixar as emissões de carbono para que o aquecimento global fique, no máximo, entre 1.5 e 2 graus acima, tendo como base os níveis pré-industriais. Para que isso seja factível, é preciso zerar as emissões antes de 2050. De preferência, até 2030.
Fabius deixa claro que todas as apostas para que o Acordo de Paris dê certo estão hoje com Estados Unidos, Europa e China. Aos países emergentes (pobres), entre eles o Brasil, restará se apegar às tecnologias, finanças e justiça para que não sejam vítimas de um vazamento de emissões, coisa bem possível de acontecer por causa do Mercado de Carbono. Como o próprio nome diz, essa ferramenta não inova muito, foca nos mesmos mecanismos que privilegia os méritos, os mais fortes.
O Mercado de Carbono é bem complexo, tem muitas firulas. Mas uma de suas faces é a seguinte: se uma empresa alemã, por exemplo, quiser contribuir para que seu país participe do esforço coletivo dos grandes blocos para zerar as emissões, ela pode produzir num país com legislação ambiental mais frouxa. Mais ou menos como acontecia quando a China tinha salários muito baixos e se tornou, assim, um bom mercado para muitas empresas que montavam lá suas fábricas. A China elevou os salários, ficando menos atraente. Os países que não quiserem ser quintal de vazamentos de emissões devem, então, fortalecer sua legislação ambiental.
Tanto Europa quanto China quanto Estados Unidos, no entanto, precisam se adequar aos novos tempos. De cinco anos para cá muita coisa mudou. Uma pandemia assola o mundo, e isso não é pouco. A sociedade civil percebeu, à queima roupa, que nada será como antes. Até mesmo a vacina, embora muito bem vinda, não será a solução final para o problema, como bem se sabe. A pandemia mudou o mundo, descaracterizou os mercados, desmobilizou ainda mais os trabalhadores.
Quando Fabius fala em “sociologia da mudança do clima” talvez esteja se referindo a isso. A boa notícia é que, em seu discurso, há sempre a preocupação com os mais pobres, com a necessidade de os países ricos ajudarem a quem precisa, até mesmo, se adaptar a um clima mais quente.
“Precisamos de uma recuperação verde, de planos que sejam a favor, não contra o meio ambiente”, disse Fabius à jornalista. E conservar é a palavra mais usada. Conservar a floresta, que se chama de “sumidouro” de CO2, conservar os bichos, fundamentais para a existência da floresta. Mas… tenho uma dúvida crucial: será mesmo possível falar em conservação se o discurso continua sendo de “dinamizar as atividades econômicas”? É possível, verdadeiramente, esperar justiça nesse mundo das nações ricas, para com as mais pobres?
O ex-ministro, atual presidente do Conselho Constitucional, um dos cargos mais altos do judiciário francês, exerce muito bem seu papel diplomático quando alerta para a urgência das ações. Uma batalha que vem ganhando corpo, sobretudo nesse período já chamado de “pós-pandemia”. Para a ONU, começa agora a “Década da Restauração”. Para o World Economic Fórum, entraremos no período do “Grande Reinício”.
Fabius, assim como todos os executivos que refletem sobre um dos dois grandes desafios da humanidade atual (o outro é a desigualdade social que só faz aumentar), fala de um lugar distante do chão. Pisam sobre carpetes, defendem-se da temperatura quente ou fria com aparelhos, alimentam-se com comidas prontas, muitas vezes às pressas, como requer a vida de quem vive, praticamente, num mundo 24/7. E isso não é um julgamento de minha parte. Isso é assim, pronto.
Longe, muito longe dos escritórios aclimatados onde as decisões geopolíticas são tomadas, no chão, sob sol ou chuva, colhendo os alimentos na terra, há motivos para se acreditar que é possível.
Aqui vai só um exemplo: distante da geopolítica e exercendo, na prática, a solidariedade que Laurent Fabius menciona ao falar sobre as nações, mulheres da etnia Yarang, no Xingu, saem de suas ocas diariamente, andando juntinho como formigas, descalças, para catar sementes. E vão felizes. Elas participam de um projeto que tem por objetivo plantar 1 milhão de árvores em 27 milhões de Áreas de Preservação contínuas. Trata-se da maior rede de sementes nativas no Brasil. E é uma prova de que há outras soluções possíveis para manter a floresta em pé, cuidar de nossos sumidouros de CO2.
Falo sobre a Rede de Sementes Xingu, projeto de geração de renda orquestrado pelo Instituto Socioambiental (ISA) na Amazônia. Carinhosamente a chamam de Muvuca de Sementes. O ISA é uma Oscip, tem 148 parceiros e atua com 24 povos indígenas em três biomas há mais de duas décadas. Rodrigo Junqueira, engenheiro agrônomo do ISA e um dos idealizadores da Rede, foi o último convidado a participar da Conferência Amazônia, evento online organizado pelo Itaú que terminou no dia 9 de dezembro.
Rodrigo mostrou um vídeo onde se vê a cena que descrevi acima, protagonizada pelas mulheres da etnia Yarang. Elas próprias se dão o nome de formigas cortadeiras, e já ajudaram o projeto a plantar 3,2 toneladas de sementes nos dez anos de existência da Rede de Sementes.
O mais interessante é que o projeto une as pontas da cadeia e faz dar certo um dos maiores desafios para se conseguir, verdadeiramente, capturar carbono da atmosfera. Simplesmente plantando árvores. Em vez de derrubá-las.
Representando o Grupo Agropecuário Fazenda Brasil, portanto a outra ponta da cadeia, Artemizia Moita foi convidada a dar seu depoimento no vídeo. O grupo de Artemizia tinha um passivo ambiental: 800 hectares de áreas a serem recuperadas. Tentaram fazer a plantação com mudas, mas é um processo muito complicado, delicado, exige um acompanhamento constante. Depois do contato com o ISA, compraram as sementes da Rede e já têm 500 hectares completamente recuperados, com cerca de cinco mil árvores por hectare.
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