No Dia da Conscientização sobre Mudanças Climáticas, lembranças da primeira Conferência há 50 anos

Leio no site da Fiocruz que hoje se comemora o Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas. A data foi definida por uma lei federal de 2011, e eu ainda não tinha tomado conhecimento dela. Talvez para me redimir do que pode ser julgado como descaso, caminhei pela manhã pensando em ajudar, já que o objetivo da lei é estimular os cidadãos comuns e empresas a se conscientizarem da importância de diminuir o agravamento dos impactos das mudanças do clima. E, como o que sei fazer é escrever e fazer circular informações, é o que pretendo fazer aqui.

Na pista Claudio Coutinho, uma das paisagens mais belas do Rio de Janeiro. Foto Amelia Gonzalez

Escolhi um outro caminho para a minha caminhada matinal que, a propósito, tenho que fazer cada dia mais cedo porque o Rio de Janeiro, onde moro, vem se transformando numa ilha de calor ainda mais quente a cada ano que passa. Sou teimosa em achar que os tocos de árvores que encontro mais do que gostaria nas ruas por onde ando são, em parte, responsáveis pelo desconforto. Mais árvores, menos calor e, nas chuvas, menos chance de alagamentos.

 A Prefeitura do Rio garante que tem plantado muitas mudas, e não há motivos para não se acreditar nela. Mas eu gostaria muito de ver uma operação casada: árvore cortada num dia e, no dia seguinte, a Secretaria de Obras no local para preparar a calçada para receber nova árvore. Mas não é o que vejo.

Voltando à minha caminhada e aos meus pensamentos, lembrei-me que neste ano de 2022 se comemoram os 50 anos da primeira Conferência Mundial de Meio Ambiente que se realizou em Estocolmo em 1972. A reunião aconteceu em junho, portanto vamos ter comemorações pela efeméride daqui a pouco tempo. Como estudo o assunto, tenho aqui nos meus arquivos o texto final da Conferência, que foi convocada pelas Nações Unidas, à época comandada por Maurice Strong.

Ler este texto, sobretudo no momento que estamos atravessando, de uma guerra em meio a uma pandemia, é uma chance única de reflexão sobre o caminho que percorremos até chegarmos aqui. Quem tiver curiosidade, pode acessar neste link.

Alguns detalhes chamam atenção no texto, que teve 26 princípios. O primeiro ponto é a insistência em fazer referência ao “ambiente humano”, num tempo em que ainda não se mencionava o “desenvolvimento sustentável”. Mas já há citação ao imbróglio – ainda sem solução –  entre proteção ambiental e processo de desenvolvimento econômico.

Pelo texto, é fácil perceber que os humanos de então ainda não sabiam que os bens naturais são finitos. Ou, pelo menos, acreditavam que alguns deles se renovam com facilidade.  Vejam o que diz o princípio 3 do texto:

“A capacidade da terra (sic) de produzir recursos renováveis ​​vitais deve ser mantida e, sempre que possível, restaurada ou melhorada”.

E, agora, o que diz o princípio 5:

“Os recursos não-renováveis da terra devem ser empregados de tal maneira a se evitar o perigo de exaustão futura e a se assegurar que seus benefícios seja divididos por toda a humanidade”.

Outro ponto a se destacar é o que as delegações dos 88 países que estavam na reunião deixam claro que a opção da humanidade deve ser no sentido de cada um cuidar de seu próprio território. A globalização só iria começar a se tornar presente anos depois.

Há referência também à necessidade de compensar as vítimas de poluições e a se assegurar que Ciência e Tecnologia sejam empregadas para identificar possíveis riscos ao ambiente e solucionar problemas para o bem comum da humanidade.

Mas que não se pense que a Conferência de Estocolmo foi um consenso. De forma alguma. O texto final foi intensamente lido, relido, e houve muitas contestações, até uma tentativa de boicote. Na época chamados de países subdesenvolvidos, os pobres tiveram que contar com a ajuda de organizações não-governamentais para levantarem a questão da desigualdade social e fazer constar no texto final.

E aqui estamos nós, meio século depois, com muitos avanços tecnológicos e científicos que, de fato, fizeram bem à humanidade. Não fosse a Ciência, por exemplo, a conseguir isolar o Corona vírus e produzir vacinas, teríamos perdido muito mais pessoas do que perdemos na pandemia.

 Ao mesmo tempo, não podemos esquecer também que a pandemia foi, segundo muitos especialistas, causada por uma maneira totalmente desastrada de os humanos lidarem com os animais silvestres. E de utilizarem a terra para criar bichos e alimentá-los para a própria alimentação.

Hoje somos muito mais do que éramos há 50 anos. Vivemos mais, temos mais facilidades, mas deixamos de aprender muito também. Como, por exemplo, que plantar árvores é imprescindível para dar qualidade de vida às pessoas em grandes cidades.

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Olhos nos olhos

Entre as manias que eu tenho, uma é assistir a esses programas em que profissionais fazem uma transformação – para melhor – na vida das pessoas. Gosto também daqueles que mostram casas lindas e maneiras de viver que a gente nem imaginava que existiam, como os que decidem construir mini casas em quintais mundo afora. Adoro ver, sobretudo, os cenários e o jeito como é possível fazer com que tudo fique mais bonito, leve, colorido, às vezes com nada de dinheiro.

Minha última mania tem sido “Restaurantes em risco”, na Netflix, é claro. É assim: alguém tem um restaurante em algum lugar incrível, mas que não está dando certo, prestes a falir. Uma decoradora, um chef e um administrador de empresas (para cuidar da imagem) são chamados e fazem a transformação, deixando todo mundo feliz. Não há um que fim levou, para saber se o restaurante saiu do vermelho, mas eu gosto de acompanhar o movimento.

E, mais do que ver a mudança na cara do imóvel, no cardápio, o que ando gostando muito nesta série é que a produção está caprichando no sentido de nos lembrar, com alerta vermelho, que os donos do negócio precisam ter um olhar ao redor. Explico o que eu digo, com um exemplo: no primeiro episódio a equipe foi visitar o restaurante na Ilha de Malta, lugar paradisíaco. O dono, um jogador de futebol, apostou certo, organizando um cardápio com foco em peixes. Claro, ninguém vai a Malta para comer carne de boi.

Mas o moço decidiu, sabe-se lá por que, investir pesado em peixes importados. Agora, imaginem vocês: com todo o esplendor do Mar Mediterrâneo no quintal, ele servia aos parcos clientes peixes vindos da Noruega! O chef deu uma bronca e a primeira coisa que fez foi ir à feira, coisa que o nosso goleiro não fazia também. Todo sábado, barracas e mais barracas de peixes são vendidos a ótimos preços na esquina do restaurante. Mini anchovas, por exemplo, que eu aprendi que são mais ou menos como nossas sardinhas, podem ser compradas por centavos (de euro, claro, mas…).

Mudança do cardápio feita, a decoradora só precisou mexer em alguns pontos do salão, e o administrador saiu em campo, contando a todo mundo que ali tinha um restaurante sendo gerido por um jogador famoso. Era só o que precisava. Pelo menos a reabertura foi um sucesso.
Falar sobre mudanças de paradigma, como estão sendo propostas até pelo Papa Francisco, é falar também sobre fazer contato com o entorno. É mostrar ser possível, para os comerciantes, provocarem o desenvolvimento local. Cada um cuidando um pouco mais do seu pedaço. É do que se trata.

Gosto sempre de reler “O negócio é ser pequeno”, do economista alemão, já morto, E. F. Schumacher. Ele escreveu o livro em 1976, e logo depois sofreu um infarto fatal. Se estivesse vivo, certamente estaria sendo revisitado para contar o que conta em letras bem pequeninas em seu livro, que aqui no Brasil pode ser comprado em sebo, parou na terceira edição (79).

 Schumacher produziu ainda “A Guide for the Perplexed”, que não ganhou tradução brasileira, uma continuação do seu primeiro livro. Pretendia fazer uma trilogia, mas se foi antes.

George McRobie, que trabalhou com Schumacher, completou o trabalho e escreveu “Small is possible”, também sem tradução no Brasil, contando o que tem sido feito, por quem, para pôr em prática as ideias descritas pelo economista. Consegui comprar em sebo, é bem interessante.

Num momento como o que estamos vivendo, em que a gente se vê obrigado a olhar, perplexos, para uma situação tão macro da qual não damos conta, o melhor que me cabe – não sei a vocês – é olhar para o lado. Começo dando bom dia a vizinhos, perguntando de sua saúde, termino assistindo um bom programa de televisão que mostra o valor do contato, das relações pessoais, até para os negócios.

Não precisa dar beijinho no rosto ou apertar as mãos. Olho no olho já é tudo! 

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IPCC faz alerta que a humanidade não quer ouvir

No início da semana, pouco antes de começar a sessão emergencial da Assembleia Geral da ONU que ainda está debatendo uma resolução sobre a ofensiva militar russa na Ucrânia, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) lançou a segunda parte do relatório divulgado em agosto do ano passado. Com tintas ainda mais fortes, os cientistas do Painel – criado em 1988 para atualizar dados sobre efeitos das mudanças climáticas no planeta – avisam que o tempo não está contando a favor da humanidade na batalha contra o clima.

Para conter as ondas provacas por tsunamis, o Japão está construindo muros. A foto da é da agência Reuters, de 2018

Seria correto apontar para uma imensa contradição entre os dois eventos que citei acima?

 Na Assembleia, as nações põem em discussão a ofensiva da Rússia tendo como base a Carta das Nações Unidas. Trata-se de um “guia atemporal para enfrentar os desafios que partilhamos e corrigir as fragilidades do mundo”, assinado há 75 anos, que prega valores bem esquecidos. No relatório do IPCC, a busca é para conscientizar as pessoas de que há uma revolução em curso, da qual a humanidade sairá, certamente, como perdedora. Ambos têm as Nações Unidas como base.

Onde eu vejo o paradoxo? É que um evento não dialoga com outro. Como se nossa referência não fosse o mesmo planeta. Como se não estivéssemos vivendo a degradação dos bens naturais e os eventos extremos causados pelas alterações climáticas que, segundo os cientistas já provaram, são de responsabilidade das atividades humanas.

O relatório do IPCC, chamado AR6, é um trabalho feito por 330 cientistas que não ganham um tostão para emprestar seu conhecimento à humanidade. Ao todo, são 34 mil estudos que encerraram uma mensagem forte: aproximadamente 3,3 a 3,6 bilhões já vivem em contextos altamente vulneráveis às mudanças climáticas. A crise climática está instalada e é inseparável da crise da biodiversidade, da pobreza e desigualdade sofridas por essas pessoas.

Esta é a questão central: vidas de pessoas estão em risco. Vidas de bichos, plantas e corais também. Mas há nações que se ocupam em criar conflitos que comprometem o valor da vida. O que terá mais peso do que isto?

Feito meu desabafo, certa de que não terei resposta para minha indignação, voltemos a centrar no relatório, que pode ser lido aqui em espanhol. As notícias não são nada boas para quem quer preservar vida, e vida com qualidade.  Os cientistas dão conta de que metade da população mundial já está sofrendo, por exemplo, por falta de água. E uma, em cada três pessoas, está exposta ao “estresse térmico mortal” – muito frio ou muito calor – fenômeno que deve aumentar para 50% a 75% até o final do século. América Central e América do Sul estão altamente expostas às condições climáticas, vulneráveis à seca e, consequentemente, à insegurança alimentar.

O relatório assume que houve progresso – não está claro de quanto tempo para cá – no planejamento e implementação de adaptação em várias regiões. No entanto, aponta uma desigualdade. E há também, talvez por falta, justamente, de uma concertação internacional, atitudes que apenas aparentam dar certo.

“Muitas iniciativas priorizam a redução imediata e de curto prazo dos riscos climáticos, o que diminui a oportunidade de adaptação que realmente leve à transformação”, diz o texto.

O biólogo marinho alemão Hans-Otto Pörtner, copresidente do Grupo de Trabalho do relatório AR6, falou à imprensa e trouxe alguma esperança. É possível ainda pensar em recuperação.

“Ao restaurar ecossistemas degradados e conservar de forma eficaz e equitativa 30 a 50% da terra, água doce e habitats oceânicos da Terra, a sociedade pode se beneficiar da capacidade da natureza de absorver e armazenar carbono, e podemos acelerar o progresso em direção ao desenvolvimento sustentável, mas finanças e políticas adequadas apoio são essenciais”, disse ele.

Quero me ater a este depoimento porque ele aponta uma saída. Pörtner fala em restaurar ecossistemas degradados, o que é bem diferente de fazer compensações, como querem os estudiosos adeptos à “economia verde”.  Neste ponto, vou compartilhar com vocês a visão de Joel Bakan, que lançou em 2020 o livro “New Corporation”, uma continuação do “The Corporation” (2003), sempre com críticas construtivas ao papel das empresas na recuperação do estrago, grande parte causado justamente desde a Revolução Industrial, no século XVIII.

Bakan combate o mecanismo das compensações, que dá às empresas o direito de poluir ou usar ao máximo um bem natural como a água, desde que elas compensem em outro lugar, financiando projetos ou outros sistemas. Para ele, embora seja incerto, para o meio ambiente, contar com os benefícios das compensações, é real o dano causado por elas às pessoas. Este é o ponto. O relatório do IPCC fala em poupar vidas, em melhorar a qualidade de vida. É disso que se trata.

“Se uma companhia de energia holandesa compensa as emissões de uma nova usina a carvão financiando a preservação da floresta em Uganda, seis mil habitantes da floresta são despejados pelo governo ugandense, por exemplo”, conta Bakan em seu livro, que infelizmente ainda não tem tradução no Brasil.

Combater a crise climática exige um esforço coletivo por parte, sobretudo, das empresas que fazem seu negócio com base nos bens naturais. Será preciso que as pessoas também se acostumem com um sistema diferente, onde menos tem que ser mais. A essa união se chama concertação. E é preciso que se tenha um objetivo comum. No caso, nada menos do que a vida de tantos que se tornarão cada vez mais vulneráveis às secas, tempestades, furacões. O relatório tem, por exemplo, um capítulo dedicado às cidades, que valeria muito a pena ser estudado com afinco pelos prefeitos.

Enquanto escrevo, passo os olhos pelos sites e fico estarrecida com as fotos dos horrores da guerra. E me vem uma estranha sensação de que estou vivendo em outra dimensão. Ainda mal terminamos de enfrentar uma pandemia, os efeitos adversos das mudanças climáticas se aceleram, e mesmo assim há países se preparando para uma guerra.

Que o valor da vida fale mais alto, nem se que seja por um breve momento, diante de tantos absurdos.

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A história dos besouros rola-bostas

Próximo ao Lago Sagrado, no Templo de Karnak, na cidade de Tebas, no Egito, há várias estátuas feitas em pedra. Uma delas é a de um imenso escaravelho, mais conhecido por nós como besouro. Milhares de turistas passam por ali, mas talvez uma pequena minoria se dê conta da homenagem feita por aquela civilização, que tem cerca de cinco mil anos, a um pequeno inseto.

A capa do Atlas dos Insetos, da Fundação Böll

Eu também jamais estaria contando isso para vocês, não fosse o Atlas dos Insetos, editado pela Fundação Heinrich Böll Stiftung, ter trazido essa história. No Egito, o escaravelho tem uma alusão religiosa, já que esses insetos eram considerados como símbolos da ressurreição. Os egípcios os usavam como amuletos e os esculpiam em tumbas e sarcófagos de grandes faraós.

Aqui no Brasil, o escaravelho recebe um nome bem prosaico: rola-bosta. É uma referência ao hábito que ele tem de remover e manipular, em formato esférico, porções de fezes. Essas “bolas” de fezes são transportadas, enterradas e utilizadas por eles para construção de ninhos e para a alimentação de larvas e de adultos. Esses insetos alimentam-se principalmente de fezes de mamíferos, mas também podem se alimentar de fungos, frutas ou carcaças de animais em decomposição.

Para os egípcios, o sol nascia e morria todos os dias. Eles acreditavam, assim que o deus Khepri se transformava em um besouro rola-bosta, a fim de “rolar” o sol de um lado para o outro.

Justamente por livrar o pasto das fezes, esses bichos são importantíssimos para o ecossistema. E como livram os quadrúpedes das moscas que picam sua pele os deixam estressados e feridos, também são importantes para os bois e vacas. Além disso, quando movem os excrementos para debaixo da terra eles permitem que nasçam gramíneas. Por serem extremamente sensíveis à degradação do ambiente, são considerados bioindicadores de conservação ambiental, motivo pelo qual são usados em estudos para avaliação de riscos gerados pela perda da biodiversidade no mundo.

Neste ponto, a história do escaravelho começa a ser manchada pelas atitudes humanas. É que, para evitar que o gado fique doente, os produtores aplicam remédio nos bichos, principalmente a ivermectina. A maior parte da eliminação desses remédios é feita pelas fezes, o que gera uma diminuição considerável da atuação dos rola-bostas. Consequentemente, o pasto fica cheio de cocô, ali não nasce grama e o resto é o que já sabemos: o ecossistema fica extremamente prejudicado.

Mas a história do escaravelho ou rola-bosta é apenas uma. Os insetos representam cerca de 70% de todas as espécies animais do mundo, e por isto mereceram uma edição bem caprichada, com muitos fatos e muitos dados. Entre outras coisas, é bom lembrar: os insetos polinizam, logo são responsáveis pela nossa comida. Os insetos polinizam três quartos dos plantios mais importantes e impulsionam sua produtividade. Sim, claro, há também aqueles que podem acabar com uma plantação, mas a quantidade de insetos benéficos é muito maior.

Há também a possibilidade de os insetos serem, eles próprios, o alimento. Em mais de 130 países, as pessoas comem insetos que contém muitos nutrientes eficazes contra a desnutrição causada, como se sabe, por má distribuição de alimentos. Não por falta deles.

No entanto, apesar de sua importância inquestionável, a agricultura intensiva, as monoculturas e os agrotóxicos estão fazendo com que tanto a diversidade quanto os números absolutos de insetos estejam diminuindo dramaticamente. O que fazer? Políticas públicas que possam mudar o cenário atual.

Já está mais do que provado que a agroecologia, os sistemas agroflorestais, que não utilizam fertilizantes ou produtos químicos em sua produção, é a melhor maneira de preservar e respeitar o meio ambiente, ao mesmo tempo que se faz uso dos bens que ele nos oferece. Mas isto não é levado em conta. A Câmara dos Deputados acaba de aprovar o texto-base (veja aqui: https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/02/09/camara-aprova-projeto-que-facilita-autorizacao-de-agrotoxicos.ghtml) de um projeto de lei que flexibiliza o controle e a aprovação de agrotóxicos no país. Como se fosse preciso: só em 2019, o governo federal liberou 503 novos agrotóxicos, sendo 41% altamente ou extremamente tóxicos, segundo o Atlas dos Insetos.

Na Dinamarca isto foi resolvido com um imposto bem alto sobre os agrotóxicos. Caiu em um terço a carga tóxica anual dos agrotóxicos no país escandinavo. Mas também pode-se pensar em fazer um controle biológico de pragas para evitar os danos que os insetos possam fazer às plantações. Isto será mais bem sucedido se a diversidade de espécies e do ambiente forem maiores.

Um dos primeiros inimigos naturais utilizados em larga escala, com o objetivo de controlar danos provocados por pragas, é a joaninha. Elas conseguem comer de 40 a 75 pulgões por dia, o que faz com que sejam utilizadas em controle biológico, inclusive em áreas urbanas. Elas também têm história, contada no Atlas que pode ser acessado, gratuitamente, no site da Fundação: https://br.boell.org/pt-br/atlas-dos-insetos. Vale a pena ler e contar para as crianças.

  • Este artigo foi publicado originalmente no Espaço Entrenós, da Creche Monte Alegre
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Nós e os vírus

Na Petshop, a funcionária que me atendeu estava, visivelmente, gripada. Fala anasalada, nariz entupido e tosse bastante. Fiz o pedido, mas não consegui disfarçar um certo receio, mesmo usando máscara, e ela também.  Quando dei o cartão para pagamento, comentei:

Imagem do Corona Vírus

— Nossa, você está com uma gripe forte, hein?

A moça demonstrou, ligeiramente, ter ficado constrangida, e eu quase pedi desculpas. Mas ela negou:

— Não, começou agora uma tossezinha – disse.

Não estiquei a conversa. Tempos difíceis, esses que estamos vivendo. Por um lado, sim, fiquei incomodada porque, mesmo com as três doses da vacina, sei que posso ser infectada. Vou ter sintomas brandos, garantem os cientistas, mas vou ter sintomas. Amigos meus que estão vacinados com as três doses, mas se infectaram com a Ômicron, confirmam que os sintomas são brandos.  Mas dão conta de um mal-estar danado, muita preguiça, corpo pedindo cama. Não quero, nem posso passar por isso.

Por outro lado, sim, entendo que a moça fique preocupada, talvez não se sinta segura se faltar ao trabalho. Afinal, segundo os dados oficiais, há quase 14 milhões de pessoas sem emprego no Brasil, o que quer dizer que são poucas as chances de alguém ser demitida e conseguir colocação num curto prazo.

Eis a questão que se coloca hoje para uma grande maioria de brasileiros que não podem se dar ao luxo de cuidar da saúde. Sim, cuidar da saúde virou um luxo.

Visitei outra loja, a poucos metros daquela, dessa vez para saber o preço de um produto. A vendedora estava com uma máscara de pano que insistia em sair do lugar. Ela começava a falar, a máscara caía. De novo, pontuei o problema. Diferentemente da vendedora da Petshop, aquela não demonstrou nenhum tipo de constrangimento.

— Ih, pois é. Acho que preciso comprar outra máscara. Esta aqui está velha, caindo o tempo todo… – disse ela, sorrindo.

E, sorrindo, continuou a atender a clientela. Pensei em perguntar se a empresa não fornecia a máscara para ela trabalhar de forma segura – para ela e para os clientes – mas desisti. Depois me arrependi de não ter feito, mas já era tarde.

Nosso cotidiano pandêmico exige cuidado. Esta frase não é casual, não é clichê. Precisamos nos habituar a uma rotina que inclui máscara, higiene muito mais consciente e o afastamento social. Menos festas e eventos. Nosso convívio terá que ser mais familiar do que em sociedade. A pergunta é: isto é saudável para seres gregários, como somos?

A resposta é não, obviamente. Tanto que os profissionais de saúde mental mostram preocupação com os efeitos da pandemia no comportamento das pessoas. Há muito(a)s deprimido(a)s e o uso de drogas – lícitas ou não – está crescendo.

Em meio a tudo isso, ainda precisamos lidar com governos que tentam convencer que, para salvar a economia, é preciso correr o risco de sacrificar vidas.  Foi assim que vimos, durante o tempo em que, de fato, nos fechamos em casa, muitos trabalhadores arriscando-se, não só conduzindo transportes públicos, como buscando um frágil equilíbrio em motocicletas ou bicicletas para fornecer os alimentos que precisamos.

O mundo é injusto e não ficou menos injusto com a pandemia. Enquanto eu me preocupava com a minha saúde e com a possibilidade de ser infectada pela moça que me servia na loja, imaginava quantos outros funcionários estavam, naquele momento, enfrentando ônibus e trens lotados, com aglomeração que possibilita muito mais contágio. No entanto são pessoas que, talvez, não sejam vítimas de depressão, justamente porque estão se relacionando mais e mais ativas.

Há diversas soluções sendo apontadas por quem estuda o problema. Parte delas tem a ver com uma mudança estrutural da maneira que costumamos reagir às doenças. Quantas e quantas vezes não fomos trabalhar gripados? Agora já temos mais consciência do problema e dos perigos do contágio.

Parte das soluções, a maioria, no entanto, deve vir dos governantes. São eles que precisam se organizar para novos tempos. E esta organização tem que ser rápida. Há muito a ser feito, desde adaptação das cidades às pandemias, até criação de empregos que possam abarcar a quantidade de pessoas que foram demitidas, segundo uma nova ótica econômica. Menos tempo no emprego, semanas menores… são muitas as opções, e não faltam autores que se dedicaram a estudá-las. Kate Raworth, da economia Donut, é apenas uma delas. E sua teoria está disponível, já é realidade na cidade de Amsterdam, na Holanda.

Fato é que, assim como não dá para fechar os olhos à urgência de medidas contra as mudanças climáticas, também não se poderá fingir que voltaremos a um “novo normal” idílico depois da tormenta. Mas tem que encarar seriamente o problema, juntar os teóricos, promover estudos e, acima de tudo isso, botar em prática o resultado do trabalho.

“A guerra contra as pandemias recentes tem em comum com as outras guerras permanentes o fato de ser uma guerra irregular. O inimigo é elusivo, enganoso, não respeita as leis da guerra, não usa táticas convencionais, e o combate contra ele tem de pautar-se pelos mesmos meios para ser eficaz. Será a guerra contra a pandemia da Covid-19 uma nova guerra a acrescentar ao catálogo das guerras permanentes ou eternas? Sabemos que, enquanto não houver vacinas amplamente disponíveis, a guerra não termina. Até lá viveremos num período que caracterizo como de pandemia intermitente.”, escreve o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos em seu último livro “O Futuro começa agora”, escrito durante a pandemia e editado no ano passado pela Boitempo.

O pensamento de Boaventura de Sousa Santos está alinhado com os últimos números da pandemia que a ONU divulgou hoje, dia 12 de janeiro: entre os dias 3 e 9 do primeiro mês do ano surgiram 15 milhões de novos casos no mundo, um aumento de 55%. Este dado fez com que um grupo de especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) alertasse para o fato de que as atuais vacinas precisam ser adaptadas para continuarem eficientes contra a Ômicron e variantes futuras.  

E por último, mas não o menos importante nesta espécie de diário pandêmico, deixo registrada a fala da médica e Diretora-assistente da área de medicamentos e produtos de saúde OMS Mariangela Simão. Para ela, há motivos para se ter otimismo porque já há vacinas que nos protegem contra doenças graves e mortes. No entanto, uma rápida pesquisa feita no site que nos dá panorama sobre a vacinação no mundo mostra que um bilhão de pessoas ainda não receberam nenhuma dose. O que nos põe diante de um tremendo ponto de interrogação: a África é o continente que menos recebeu doses de vacina até hoje e, ao mesmo tempo, é o único que apresenta diminuição do número de casos de Covid.

A ciência saberá explicar. Voltando à Mariângela Simão, ela ressalta que é preciso muita cautela. E que o comportamento de cada pessoa tem um impacto na contenção da transmissão do coronavírus.  

“As medidas incluem evitar aglomerações, utilizar máscaras da maneira correta, higienizar bem as mãos e vacinar”, alerta a especialista.

Tudo aquilo que já sabemos. É só botar em prática.

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França proíbe embalagens plásticas nos supermercados

Os ares do novo ano chegam junto com uma boa notícia para os ambientalistas e todas as pessoas que se preocupam com o impacto à nossa saúde causado pelo excesso de produção e consumo. Na França, desde ontem, uma lei proíbe embalagens de plástico para algumas frutas e vegetais frescos. A proibição vai atingir supermercados e pequenos comércios. Nunca é demais lembrar que os supermercados cobram atualmente pelas sacolas plásticas, que antes eram gratuitas, mas não se negam a expor as embalagens.

O presidente Emmanuel Macron chamou a nova lei de “uma verdadeira revolução”. E anunciou, em reportagem publicada no jornal britânico “The Guardian” que a França estava, a partir de então,  assumindo a liderança global para eliminar gradualmente todos os plásticos descartáveis ​​até 2040.

As embalagens acima de 1,5kg estarão isentas, assim como frutas picadas ou processadas.  Tomates cereja ou frutas macias, como framboesas e mirtilos, terão mais tempo para permitir que os produtores encontrem alternativas ao plástico. Com cerca de 37% das frutas e vegetais vendidos embalados em embalagens de plástico na França em 2021, o governo acredita que a proibição cortará mais de 1 bilhão de itens de embalagens de plástico descartáveis ​​por ano. 

A julgar pelo resultado de uma pesquisa feita no país em 2019, a opinião pública está aplaudindo a iniciativa de Macron. O estudo mostrou que 85% das pessoas eram a favor da proibição de embalagens e produtos plásticos de uso único. Além disso, mais de dois milhões de franceses assinaram uma petição da ONG WWF pedindo aos governos mundiais que parem com a crise de poluição dos plásticos.

A causa é mais do que nobre e urgente, mas não será nada fácil mudar essa cultura. O plástico faz mal à saúde humana, já que para que ele tenha características que o tornem útil, uma variedade de produtos químicos é adicionada em sua produção. E também faz mal ao meio ambiente: resíduos de plástico e microplástico flutuando nos oceanos são uma questão muito discutida, embora poucos se deem conta de que a poluição plástica do solo pode ser de quatro a 23 vezes maior do que nos mares.

“O que torna o plástico útil é exatamente o que o torna prejudicial: ele persiste”, disse Barbara UnmüBig, presidente da Fundação Heinrich Böll, na introdução do “Atlas do plástico”, que a organização lançou no ano passado com “fatos e números sobre o mundo dos polímeros sintéticos”. Os dados que acabo de descrever foram reproduzidos do Atlas.

O estudo da Heinrich Böll, feito em parceria com a ONG Break Free From Plastics, conta o caminho que percorremos para chegar ao estarrecedor volume de 600 milhões de toneladas por ano, estimativa para 2025. Tudo começou depois da II Guerra Mundial, época que o historiador Eric Hobsbawn chama de Era de Ouro (1947 a 1973) em seu livro “Era dos Extremos” (Ed. Companhia das Letras). Hobsbawn chama de “espantoso período”, que assinalou o fim dos sete ou oito milênios de história humana iniciada com a revolução da agricultura na Idade da Pedra. Uma era em que a esmagadora maioria da raça humana vivia “plantando alimentos e pastoreando rebanhos”.

Corroborando com a análise de Hobsbawn, o Atlas do Plástico diz que, entre 1950 e 2017, foram produzidos cerca de 9,2 bilhões de toneladas de plástico, o que representa mais de uma tonelada por cada pessoa que vive hoje no planeta. O momento da grande virada a favor do plástico foi em 1978, quando a Coca-Cola substituiu suas garrafas de vidro por pets. A partir daí, foi uma febre. O leite deixou de ser vendido na porta, em vidro. Os remédios passaram a ser embalados em celofane.

Na década de 50, as pessoas ainda tinham algum cuidado em reutilizar o plástico. Mas, com o impulsionamento da economia pela necessidade de consumir mais produtos, a “semente da cultura descartável” foi plantada.

“O plástico é, ao mesmo tempo, resultado da globalização e um combustível que a alimenta. Compras online estão causando a acumulação de montes ainda maiores de lixo”, diz o relatório. No mar, e na terra.

Um capítulo do Atlas é dedicado justamente à indústria de alimentos, tema que afetou Emmanuel Macron a proibir o uso de plásticos nas embalagens. Plástico filme e espumas são usados para proteger os alimentos de danos, mantê-los frescos e torná-los atraentes.

 A questão é que os supermercados gostam de oferecer os mesmos produtos o ano todo e a embalagem garante que eles permaneçam frescos e possam ser transportados sem grandes danos. Além disso, o dinamismo da vida atual faz com que as pessoas busquem facilidades, o que inclui comida pronta, embalada. Aqui no Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Plástico (Abiplast), depois da construção civil (22,4%), o setor que mas consome transformados de plástico é o de alimentos (20,3%).

No mundo, segundo a Grand View Research, o tipo mais comum de embalagem para a indústria de alimentos é o plástico. E a maior parte do lixo plástico nos oceanos é proveniente de embalagens de alimentos descartadas.

Ainda por cima, por conta de não se ter muita confiança na pureza da água, nem mesmo com filtro, aqui no Brasil muita gente bebe água de garrafa… plástica. O problema disso é que os fabricantes (da água engarrafada) precisam listar o conteúdo mineral em detalhe, mas o microplástico, presente em altas doses, não aparece como ingrediente. Ou seja: estamos consumindo microplástico. Ainda não se sabe se faz mal, ou o quanto faz mal.

“O debate está apenas começando a respeito dos microplásticos no solo, na pecuária e nos alimentos”, diz o relatório.

A melhor solução? Não produzir tanto plástico. No entanto, sem plástico nenhum dos carros de hoje estaria nas estradas. Os aviões não estariam no ar. Olhe em volta que você vai se dar conta de outras tantas coisas que não teriam sido fabricadas, produzidas, sem o plástico. Na agricultura, ele é usado inclusive para cobrir algumas plantações e evitar, assim, que elas sejam danificadas por animais.  

É legítimo perguntar: como sair desse imbróglio? Há algumas soluções, assim mesmo, no plural. E é claro que reduzir a produção e o consumo de plástico encabeça a lista. Mas o Atlas do Plástico traz também o exemplo de uma pequena cidade italiana, chamada Capannori, que tem apenas cerca de 40 mil habitantes, mas que conseguiu criar uma política publica de Lixo Zero desde 2007. Termino este texto detalhando a iniciativa de Capannori. Quem sabe nos inspira um pouco?

“Entre as ações estão incluídas a minuciosa separação de diferentes tipos de resíduos, incentivos econômicos para reduzir a produção de resíduos e um esforço coletivo para reduzir o que não é considerado lixo não reciclável. Há lojas sem embalagens, fontes públicas de água, um centro para reunir doações de roupas com oficina de conserto. Fraldas laváveis são subsidiadas, e realizam-se desafios de Lixo Zero para engajar os cidadãos.”

Feliz Novo Ano para todos!

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Quando se atira no que vê e se descobre o que é pouco visto

Escada rolante em estação do metrô de Seul. Foto da Getty Image

Longe de mim vestir o manto do otimismo a qualquer custo, como muitos fazem nesse período de festas natalinas. “Foi um ano difícil, mas será melhor em 22”, é o que dizem. Pode ser. Mas, como não há prova cabal de que tal afirmação seja verdadeira, prefiro caminhar com os dois pés no chão. Se está difícil, não será uma simples passagem de uma noite para o dia que vai fazer melhorar as coisas, torná-las mais fáceis.

De qualquer maneira, sempre é possível buscar boas notícias para abrandar um pouco a carga, e foi o que fiz. No entanto, talvez atestando a percepção de que os tempos não estão mesmo fáceis, tão logo comecei a pesquisar para ampliar os dados sobre a boa notícia, deparei-me com um problemão ligado a ela.

 Sem mais delongas, deixe-me explicar sobre o que estou falando.

A boa notícia é que a capital da Coreia do Sul, Seul, está se preparando para oferecer a seus 9,7 milhões de habitantes um empreendimento chamado “Cidade de 10 minutos”. Resumindo, trata-se de um bairro, com cerca de oito prédios, onde cada morador viverá a cerca de dez minutos, a pé, de todas as suas necessidades diárias. Incluindo escolas, hospitais, farmácias, prédios públicos. Serão cerca de 500 mil metros quadrados nos quais os carros serão proibidos, a energia será gerada ali mesmo e a água da chuva será guardada para ser reusada.

A ideia original é da atual prefeita de Paris, Anne Hidalgo, que venceu as eleições prometendo à cidade francesa uma “Cidade de 15 minutos”. Melbourne, Milão e Singapura também estão tentando abordagens semelhantes.

Nem é necessário listar os benefícios do projeto. Menos poluição, mais praticidade e bem-estar para os moradores são apenas alguns.

Mas, como avisei logo no início do texto, o prefeito atual de Seul, Oh Se-hoon, vai enfrentar um mega revés. Trata-se de desigualdade social, esta realidade infame que derrota os ares de modernidade da atual civilização. Em alguns lugares do planeta ainda se vive sob privações seculares, enquanto em outros há riqueza abundante. E, mesmo na pandemia, os ricos ficaram mais ricos e os pobres ficaram mais pobres.

Enquanto buscava informações sobre Seul para ilustrar este texto que seria, apenas, otimista, cheguei ao mais novo relatório sobre desigualdade social, produzido pela equipe do World Inequality Lab, de Thomas Piketty e sócios, divulgado no início de dezembro. Abandonei o otimismo, em prol de informação real.  O estudo é detalhado, cheio de informações, tanto que não se pode elencar um único assunto que seja mais importante, sem cair no risco de desprezar outros. Ou, o que é pior, de não dar atenção a dados que merecem nosso alerta.

 Mesmo assim, vou tentar resumir: segundo o relatório, Índia é um dos países mais desiguais do mundo, mas a desigualdade de riqueza do Brasil também está entre as maiores do mundo. Há ainda a constatação oficial do que já se sabe: a pandemia apenas acirrou a desigualdade. E uma informação bem preocupante: a totalidade das riquezas do mundo está em mãos privadas e não de governos. A pandemia acirrou essa tendência porque os governos tiveram que pedir emprestado a empresas.

Dois economistas que ganharam o Prêmio Nobel em 2019 encabeçam a apresentação do relatório: o indiano estadunidense Abhijit Vinayak Banerjee e sua esposa, a francesa Esther Duflo. Uma nota surpreendente é que as mulheres agora estão mais bem representadas em algumas economias emergentes – Brasil, por exemplo – do que em economias avançadas – Estados Unidos.

Uma conclusão contundente dos pesquisadores é que a desigualdade e sua redução não são uma questão de limitações econômicas, e sim uma escolha política sobre o tipo de sociedade onde queremos viver. Quem tiver curiosidade, pode acessar aqui: https://wir2022.wid.world/.

Volto, assim, ao tema principal deste artigo. Em Seul, a escolha de um empreendimento que pode significar um bem-estar maior a seus moradores tem a outra face, de negligenciar bairros periféricos pobres da cidade. A cidade é a quarta maior economia do mundo, atrás apenas de Tóquio, Nova York e Los Angeles. Foi escolhida como sede das maiores empresas globais, o que colabora para que o nível de desemprego seja baixo, em torno de 3%. No entanto, registra aumento de desigualdade nos últimos trinta anos, quando a classe média e os trabalhadores têm se excluído, mais e mais, da riqueza nacional.

O filme “Parasita”, de Bong Joon Ho, ganhador do Oscar em 2019, é uma produção sul-coreana e retrata a diferença entre pobres e ricos, que não é pequena. “Parasita” nos apresenta os banjihas, espécies de apartamentos semissubterrâneos onde quase não há luz do dia, com tetos baixos, construídos durante a guerra entre as Coreias para servir de abrigo em caso de necessidade. Hoje servem como moradia para milhares de jovens que tentam se incluir na sociedade do futuro.

Construir uma cidade de “Dez Minutos” num território que tem questões sérias de moradia é, de fato, uma escolha política. Errada. É preciso, antes, empregar todos os investimentos possíveis para conseguir garantir que os cidadãos comuns sejam incluídos no processo de bem-estar. Só assim é possível chamar o empreendimento de sustentável.

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Dê livros de presente, ainda vale a pena

Tudo bem, já acabou o Natal. Mas a época de dar presentes se estende. Há famílias que trocam esse carinho só no dia 6 de janeiro, dia em que os Reis Magos presentearam Jesus Cristo. Faz sentido para quem é religioso.

Foto de Amelia Gonzalez

Bem, tudo isso é para justificar o fato de só estar divulgando agora minha pequena lista de sugestões de livros para dar de presente. Antes tarde…

“Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke (LP&M Pocket, 91 páginas) – Trata-se do maior poeta de língua alemã do século XX. Mas este livro é em prosa, e deve interessar, sobretudo, aos jovens sensíveis que têm o saudável hábito de refletir sobre os rumos da vida. Franz Kappus, o jovem em questão, aspira tornar-se poeta e pede conselhos, em carta, ao já famoso escritor. Rilke o escreve de volta e começa assim uma troca de cartas, compiladas nesta pequena publicação. Os dois conversam sobre o que consideram os verdadeiros aspectos da vida. Um trecho de uma das cartas mostra também o quanto Rilke tem sensibilidade para perceber a essência de seu correspondente, mesmo de longe:

“… só se pode desejar ao senhor que, cheio de confiança e paciência, deixe trabalhar em sua pessoa a grandiosa solidão que não poderá mais ser riscada de sua vida. Essa solidão permanecerá e atuará, de modo decisivo e sutil, em tudo o que o senhor tem a experimentar e a fazer, como uma influência anônima, como o sangue de antepassados que percorre as nossas veias continuamente, compondo com o nosso próprio sangue o que somos de único e irrepetível a cada nova guinada de nossa vida”.

“Crise climática e o Green New Deal Global”, de Noam Chomsky e Robert Pollin (Ed. Roça Nova, 217 páginas) – É um livro fácil de ler, no formato de perguntas e respostas, e cheio de informações relevantes. Especial para as pessoas que gostam de se informar sobre a crise climática, um grande desafio que a humanidade está enfrentando. O cientista político C. J. Polychroniou foi feliz ao reunir, para uma conversa virtual, como exige essa nossa era pandêmica, o principal intelectual público do mundo Noam Chomsky, ativista político e ambiental, e Robert Pollin, economista progressista que tem atuado como líder em defesa de uma economia verde e igualitária, para compartilhar suas reflexões sobre essa era e os desafios que temos que enfrentar. As reflexões dos dois são o sumo do livro. E são imprescindíveis a qualquer pessoa que gosta de obter informações de qualidade.

“Covid-19: The Great Reset”, de Klaus Schwab e Thierry Malleret (Fórum Publishing, 280 páginas) – O problema desse livro é que ele não tem ainda tradução, portanto só pode ser dado para pessoas que têm intimidade com a língua inglesa. E por que ele pode ser importante na estante? Porque estamos vivendo um período extremamente complexo, e devemos acumular o máximo de informações, dados, estudos, livros, arquivos. Os dois autores são pessoas comprometidas com o “progresso do mundo”, por isso é importante saber o que está sendo pensado por eles.  O World Economic Fórum, criado por Schwab, congrega líderes e empresários poderosos anualmente em torno de um tema. O tema do ano 2021 foi “The Great Reset”, ou “O Grande Reinício”. O livro é um apanhado das reflexões dessas pessoas, que pensam no resgate da vida pós-pandemia. Politicamente, economicamente, ambientalmente, serão necessárias mudanças, com certeza. O livro traz análises e algumas ideias.

“O futuro começa agora”, de Boaventura de Sousa Santos (Ed. Boitempo, 426 páginas) – O sociólogo português é agora diretor emérito do Centro de Estudos sociais da Universidade de Coimbra. Escreveu este livro durante a pandemia, por isso o chama de “empreendimento de alto risco”, já que há muitas incertezas nessa época que podem provocar mudanças de cenários. E traz reflexões lúcidas, emergentes. Na primeira parte faz uma análise do mundo atual e cria metáforas para caracterizar o Corona Vírus: “o vírus como inimigo; o vírus como mensageiro; o vírus como pedagogo”. Teremos condições de aprender com o vírus, de fazer mudanças radicais em nosso comportamento, nossa rotina, nossos hábitos de consumo, de produção. Há muita coisa por ser feita, e Boaventura de Sousa Santos lista, uma a uma, sugestões para a humanidade. Se há, e há, um mote a seguir, é o da diversidade, do respeito às culturas, da solidariedade entre os povos. E o sociólogo faz alertas importantes sobre um estado de coisas que pode começar a ser naturalizado, como, por exemplo, o ensino à distância. Considerado como um processo bem-sucedido (e rentável, claro, embora este ponto não seja tão veiculado), na verdade ele provoca uma das muitas exclusões de que se tem notícias, já que segundo a Unesco, 60% dos estudantes do mundo não têm acesso.

“Morte e vida de grandes cidades”, de Jane Jacobs (Ed.Martins Fontes, 499 páginas) – Um bom presente, sobretudo para jovens estudantes de arquitetura e urbanismo. Jane Jacobs é norte-americana nascida em 1916 e este livro é considerado um dos mais influentes estudos urbanos de todos os tempos. Faz uma crítica bem-humorada, num texto gostoso de ler, “à arrogância intelectual que caracterizou boa parte do planejamento urbano moderno”. Apesar de ter sido lançado em 1961, é absurdamente atual.

“Niketche, uma história de poligamia”, de Paulina Chiziane (Ed. Companhia das Letras, 296 páginas) – A autora é moçambicana, pobre, e recebeu, este ano, o Prêmio Camões. O vídeo que mostra o momento em que ela é notificada sobre o prêmio (https://www.youtube.com/watch?v=2jG4BGhYpcQ) mostra a sensibilidade da autora: “É todo um povo que é agraciado por este prêmio… eu venho de lugar nenhum, sou aquela pessoa que teve a sorte de aprender a ler e escrever. Eu vim do chão. Um reconhecimento para alguém que veio de lugar nenhum. Sem dúvida é importante”. Este é um romance que foi reeditado.

“Cuidar de Si, Uma Busca Interior de Saúde Total”, de Mauricio Tatar, com texto de Amelia Gonzalez (Ed. Mauad, 163 páginas) – Mauricio Tatar é um médico homeopata que se especializou em Acupuntura e, assim, aproximou-se bastante da milenar Medicina Tradicional Chinesa. E é meu médico. Esse livro nasceu porque, invariavelmente, ao sair de uma consulta eu me pegava refletindo a respeito das coisas que ele me dizia. O texto é meu, os pensamentos são dele. E quem vai lucrar muito é o leitor, posso garantir. Mauricio Tatar se rege pela simplicidade, condena o uso excessivo de remédios, aposta na alegria e no amor como forma de cura e é contunde quando afirma: “Saúde não vem de fora para dentro, vem de dentro para fora”. Se você parou para pensar, vale comprar o livro.

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Vá ao Museu e viaje pela Amazônia

Do Deserto de Saara à Amazônia. No dia 16, pela manhã, foi inaugurada a exposição “Fruturos – tempos amazônicos”, no Museu do Amanhã, e lá estive, no evento para convidados.   Em sete ambientes, o curador Leonardo Menezes convida o visitante a se sentir parte da maior floresta tropical do mundo, que já tem 20% de seu território desmatados. Entre fotos, textos explicativos, objetos da cultural local, desenhos e estruturas, o tempo é o protagonista.

Viagem pelo Rio Araguari, vizinho do Rio Amazonas., em direção ao Arquipélago do Bailique, em 2015.
Foto Amelia Gonzalez

Mas o Deserto de Saara, logo na entrada da exposição, chama também para outra reflexão: sobre o espaço. E sobre como estamos todos, globalmente, enfrentando tempos sombrios por conta das mudanças climáticas.  Em resumo: o vento leva as areias do Saara para a Floresta Amazônica, as areias são ricas em ferro e fósforo, nutrientes inexistentes na Floresta. Logo, o Deserto de Saara, a cinco mil quilômetros de distância, ajuda a fertilizar a Amazônia. Estão interligados.

Eis a proposta, portanto, para pensarmos. Se existe esta ligação entre forças da natureza, é difícil entender como desprezamos a ligação entre nós, humanos. São 30 milhões de pessoas que vivem na Amazônia e, segundo Índice de Progresso Social, IPS Amazônia 2021, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado no dia 6 de dezembro, não há progresso social na Amazônia. E as áreas desmatadas, que em tese serviriam para levar o desenvolvimento local, já que são riquezas vendidas, são as menos favorecidas.

Ainda no evento pré-abertura da exposição, as falas das pessoas envolvidas na produção da “Fruturos – tempos amazônicos” foram todas no sentido de alertar para a importância de se conhecer a Floresta. É uma ótima proposta, já que não se consegue falar, com propriedade, sobre temas que não conhecemos de verdade.

 Vanda Ortega, líder indígena dos Witoto  – povo transfronteiriço entre Brasil, Colômbia e Peru – foi uma das personalidades que falou, e foi muito aplaudida. Como todos os outros, seu depoimento também foi num tom de alerta. Se fosse pintura teria cores fortes. Vanda pediu licença a seus antepassados e contou a história do seu povo, que até 1999 vivia dentro da mata, indígenas ainda não identificados. Só depois que ela entrou para a escola, onde cursou enfermagem, os Witoto foram mapeados.

Vanda contou ainda que hoje seu povo está vivendo na lama, sem água potável – “Mas ninguém está preocupado com isso”, afirma ela.

São muitos os malfeitos que os humanos têm espalhado em sua trajetória. E não começou agora. Grilagem, garimpo, atividades ilegais que deixam a Amazônia à mercê do desmatamento, são temas recorrentes, no mínimo, desde que os líderes se reuniram na Rio-92 para debater o tema. Como se sabe, a floresta degradada é um perigo real, não só porque as árvores servem como sequestradoras de carbono, como porque o solo, revirado de maneira irresponsável, tende a mandar o carbono para a atmosfera. Mas, como diz Vanda, quem se preocupa, verdadeiramente? A exposição traz para a mesa o debate, e isto é importante, sobretudo porque será visitada também por crianças e jovens em idade escolar.

 Paulo Artaxo, cientista e integrante do Comitê Científico e de Saberes do Museu do Amanhã, foi sucinto em sua fala: “O futuro da Amazônia é o futuro do planeta. São 120 bilhões de toneladas de carbono: se isso for para a atmosfera, acaba.”

A exposição é bastante informativa. Artaxo ressaltou exatamente a “importância de levar os temas de um dos ecossistemas mais ricos do mundo para um público amplo de maneira bonita, lúdica e simplificada para que qualquer pessoa possa entender. São aspectos relevantes e estratégicos para a sociedade brasileira como um todo”,

 “Fruturos” será a exposição com o maior número de objetos da história do Museu do Amanhã. Foi construída a partir do reaproveitamento de peças de outras mostras que já passaram pelo equipamento cultural, e vai apresentar também objetos confeccionados a partir do trabalho de artesãos indígenas de diferentes regiões do país.

No caminho entre minha casa e o Museu, segui pensando sobre a Amazônia que conheci, onde estive algumas vezes.  É muito bom vê-la representada para pessoas que vivem tão distante dela. Melhor ainda se a exposição conseguir acender a vontade de visitá-la. Não faltam incentivos na Mostra, já que, segundo o curador Leonardo Menezes, nos diferentes cenários mostrados ali, a exposição traz a perspectiva atual do bioma. Não só no meio ambiente, mas também no campo social e cultural.

Como ressaltou Luiz Eduardo Osorio, vice-presidente executivo de Relações Institucionais e Comunicação da Vale e presidente do Conselho do Instituto Cultural Vale – instituição que apresenta a exposição – há muito o que aprender com a “Fruturos”. Osório destacou, por exemplo, detalhes sobre o Círio de Nazaré, manifestação religiosa católica instituído em Belém do Pará no século XVIII. Hoje o Círio, que acontece no Pará, no Amapá  e no Acre, portanto três dos nove estados que compõem a Amazônia Legal, é Patrimônio Cultural da Humanidade, declarado pela Unesco.

Vale a pena visitar “Fruturos”. E estender a visita em conversas, discussões, sobre o nosso momento.

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Novo documentário de Yann Arthus-Bertrand inclui crise climática no contexto socioeconômico

Estava me perguntando por que eu não consigo sentir alegria e ânimo quando leio notícias que animam e alegram os que apostam na tecnologia para nos livrar do aquecimento global.  Li, no conceituado site Climate Action desta semana, uma reportagem que diz que “o crescimento da eletricidade renovável está acelerando mais rápido do que nunca em todo o mundo, com um novo recorde alcançado para instalações de eletricidade renovável este ano”. A Agência Internacional de Energia, que forneceu dados do estudo para serem divulgados, é uma agência respeitável e está muito interessada no tema. Os dados, portanto, são verdadeiros.

Foto da Praia de Ipanema, Rio de Janeiro. Divulgação do filme “Nosso planeta, nosso legado”

Por que, então, não me comove mais, logo a mim, uma jornalista dedicada ao tema há tanto tempo? Afinal, captar energia e transformá-la em benefício dos humanos, de forma sustentável, tem sido apontado como o centro da solução dos problemas atuais da humanidade. É, segundo os estudiosos, a chave do sucesso contra as variações climáticas que tanto mal têm causado à humanidade.

Estava eu divagando assim, tentando descobrir a razão de minha apatia, quando recebi, por e-mail, o convite para assistir “Nosso planeta, nosso legado”, filme dirigido pelo renomado Yann Arthus-Bertrand. Agora com 75 anos, o fotógrafo francês especializou-se em fazer imagens incríveis, do alto, captando com drones a opulência da natureza. Em 2011 lançou “Home – Nosso Planeta, Nossa Casa”, que fez bastante sucesso. O atual “Nosso planeta, nosso legado”, parte do Festival Varilux, de cinema francês que acontece até dia 8 de dezembro em todo o Brasil, tem tudo para ser bem recebido também pelo público. Aliás, deveria ser filme obrigatório para se assistir nas escolas do mundo todo.

Além das imagens, que deixam a gente sem fôlego em algumas cenas, o filme é narrado em primeira pessoa por Arthus-Bertrand. O francês percorre a história da humanidade em 1h40m, desde a primeira energia que possibilitou a criação da vida e que só foi possível – vejam vocês! – por causa do efeito estufa.

No texto que lê in off durante todo o documentário, Arthus-Bertrand conta parte de sua própria história, quando viveu no Kenia, quando jovem, fotografando o comportamento dos leões. Ao se dizer espantado com o aumento da população que vive na favela queniana de Quibera – de 60 mil pessoas nos anos 70 para os atuais um milhão – Arthus-Bertrand mostra que seu documentário não vai tirar as questões climáticas do contexto socioeconômico. É de desigualdade social, de gigantismo e de falso progresso que o cineasta fala, o tempo todo, no filme. E retrata, de forma única, como chegamos a esse cenário, que nada tem de sustentável. Mesmo com tantas eólicas e placas solares a enfeitar alguns territórios.

A reflexão de Arthus-Bertrand dialoga com meus pensamentos, e faz todo sentido. Apesar do investimento que vem sendo feito nas energias renováveis mundo afora – melhor dizendo, nos países desenvolvidos – ainda vivemos, como demonstram os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) sob o grave risco de o planeta aquecer mais do que 2 graus até o fim deste século. Graças aos excessos dos humanos, é esta a resposta.

“Os painéis solares não substituíram os cem milhões de barris de petróleo que consumimos todos os dias”, disse o cineasta.

E não é qualquer coisa aquecer dois graus. Yann Arthus-Bertrand usa uma figura para atestar o que afirma: quando o nosso corpo se aquece dois graus nós nos sentimos muito mal. Quatro graus a mais, para um organismo humano, é a morte.

A energia, ou a maneira de captá-la a favor da humanidade, é o mote principal do documentário de Yann Arthus-Bertrand. Ele vai tecendo o pensamento com dados históricos importantes de se registrar. Até a metade do documentário, faz elogios ao homem, este ser que foi capaz de transformar uma dura realidade, de mortes precoces por doenças para as quais não se tinha solução e de fome por falta de meios para expandir a agricultura.

“Mas essa grande história de sucesso humano começa a derrapar. Tendo eliminado os obstáculos naturais, o homem continuou seu curso para frente cego e descontrolado, em desequilíbrio total. As pessoas têm ideia da crise que o planeta está passando? Amparados em suas riquezas, os humanos não abandonam seu instinto de acumulação, reprodução e disseminação”.

 O documentário lista alguns dos paradoxos que também fomos capazes de disseminar. Dois deles chamam especial atenção:

. Há quase 900 milhões de pessoas com fome no mundo, apesar de todo o território que já foi degradado pela indústria alimentícia e da quantidade exorbitante de pesticidas também utilizados, em tese, para aumentar a produção de alimentos e evitar a fome no mundo;

. Os oceanos estão entupidos de plástico. Isso deixa claro que, apesar de toda a campanha contra as tais sacolinhas plásticas, o mal continua. E por que continua? Vamos falar sinceramente: não são apenas as sacolinhas plásticas que entopem os oceanos. As grandes indústrias de alimentos embalam seus produtos – em plástico – para vendê-los.  No supermercado, o cliente paga pela sacolinha, o que seria uma forma de adestrá-lo a não usar muitas. Mas, quando se olha para os lados e vê-se a quantidade de isopores e PVCs utilizados para viabilizar a venda de alguns produtos, dá desânimo.

“Precisamos reduzir nosso consumo de combustíveis fósseis em 5% ao ano. E estou falando sobre as nações ricas, já que 70% das emissões de CO2 são produzidos por 10% da população mundial. Se não fizermos nada, em 2070 três bilhões de pessoas podem estar vivendo em regiões tão quentes como o Saara. Se não fizermos a descarbonização, vamos nos tornar cúmplices dessa tragédia”, disse o cineasta.

Algumas das soluções que ele sugere no documentário podem estar ao alcance de nossas mãos. Outras providências, é claro, dependerá da iniciativa das autoridades:

. Parar de comer comida processada;

. Parar de utilizar serviços de bancos que praticam finanças não sustentáveis;

. Escolher votar em políticos que priorizem as questões climáticas;

. Comprar menos e comprar coisas de segunda mão. Usar menos carros e, quando o fizer, dar preferência ao transporte solidário;

. Avião só deve ser meio de transporte em circunstâncias excepcionais.

Ao fim e ao cabo, minha apatia diante de sucessos tecnológicos alcançados em prol de energias renováveis tem explicação. Não que não seja necessário. Mas há muito, muito mais a ser feito para incluir pessoas no rol das vitórias das máquinas.

Este texto foi publicado originalmente no site Entrenós (

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