‘Ser estrangeiro’, um livro que ensina a viver o lugar do outro

Imagine-se no lugar do outro.

Imagine-se vivendo uma situação semelhante ao que o outro vive.

Imagine-se…

Convidar o leitor para viver, na ficção, o que o outro vive na real, é uma receita amorosa de escrita.

E é desse jeito que o autor João Paulo Charleaux conquista seus leitores para o livro “Ser estrangeiro” (Ed. Claroenigma, 2022). Um tema dos mais sofridos, que mostra a face mais individualista dos humanos, recebe um tratamento ao mesmo tempo didático e muito sensível.

Dá vontade de espalhar este livro entre jovens, se  assim garantíssemos alguma melhora na forma preconceituosa com que se tratam os estrangeiros.

João Paulo Charleaux tem uma vantagem sobre outros autores: observa, conversa, e tem aquele ímpeto, comum aos jornalistas, de espraiar a informação. Assim, começa o livro relatando o que vem observando, várias cenas tristes de um balé urbano que já é quase rotina em nossas vidas. O preconceito invade como peste: da senhora letã que pede esmolas sob a neve, à estupidez de um passageiro num trem de Metrô, na França. Embriagado, o sujeito ataca verbalmente pessoas negras que estão no mesmo vagão.

Combinei comigo, lendo Chalraux, nunca mais usar “que bárbaro!” como expressão alegre para enaltecer alguém ou algum feito. Não! Bárbaro, em grego, significa estrangeiro.

“Para o Império Romano, todo estrangeiro era um inimigo por sua própria natureza. Isso significa que, mesmo que não tivesse cometido  qualquer ato hostil contra Roma, ele era, mesmo assim, um inimigo, pelo simples fato de ser de outro lugar”, escreve Chalraux.

Sou, eu também, filha de estrangeiro que se exilou no Brasil e precisou se naturalizar para conseguir um emprego. E cresci ouvindo: “Minha filha, nunca queira se tornar estrangeira. As pessoas não te tratam bem”.

Desde quando? Desde o Império Romano!

Por acaso estive envolvida recentemente com a leitura de “A situação da classe operária na Inglaterra” (Ed. Boitempo), escrito em 1845 pelo então jovem Friedrich Engels (ele tinha 24 anos). Em todo o livro aparecem referências aos irlandeses, que competiam com os britânicos mesmo a péssima situação em que moravam, se alimentavam e se vestiam. Os irlandeses não gozavam de simpatia, e Engels deixa isso claro. Eram os que mais bebiam, os que menos se higienizavam e os que ensinaram aos britânicos hábitos ruins, entre eles o de andar descalço.

Já no meio do século XIX, a humanidade não suportava os estrangeiros. Mas é uma contradição porque, como lembra Charleaux,  somos seres que se movem.

 É no movimento que os humanos buscam conhecimento e novas experiências. Mas, diferentemente, das aves e dos ruminantes, que vão e voltam sempre ao mesmo lugar, nossa população busca destinos promissores. E, em geral, se junta em cidades, que ficam mais e mais superlotadas. Tudo bem, porque é desse jeito mesmo que somos mais criativos.

Só não podemos aguentar a fome, as guerras, os eventos extremos que destroem nossos lares, muitas vezes nosso país (como é o caso das nações-ilhas do Pacífico, ameaçadas de serem mergulhadas no oceano por causa do aumento do mar).

Charleaux passeia pelos conceitos de ser estrangeiro. O migrante, o exilado, o deslocado, o asilado, o refugiado. Cada um desses conceitos é esmiuçado à lupa dos Direitos Humanos assinada em 1948.

“Os ‘combinados’ assinados entre os diversos governos são, portanto, como chaves que tornam possível abrir as portas para as pessoas em necessidade. Essas chaves não são um presente, não são uma esmola. Não são dadas por pena ou por caridade. São direitos”, afirma o autor.

O ponto alto do livro de Charleaux é quando ele convida o leitor a imaginar. Imagine você vivendo num condomínio que, por circunstâncias tais que ele descreve, vítima de uma explosão, se vê inundado depois de uma chuva, sem luz, onde os vizinhos brigam entre si, onde há corrupção do síndico e, para piorar a situação, um mata outro e o corpo fica estendido no corredor.

O que fazer? Correr dali, é claro.

Imagine mais. Que, ao correr dali, você consegue  chegar ao prédio mais alto e chique, na mesma rua. Mas lá… não lhe recebem. Seguranças dizem não ao seu pedido para entrar, mesmo vendo sua situação: todo molhado, já desesperado, sem casa, sem documentos (que se perderam na água), com fome e sede.

Imagine. Só imagine. E sinta, por um tempo ao menos, enquanto está lendo o livro, o que sente um refugiado.

Em que momento a civilização humana se desapegou de sentimentos solidários, aqueles mesmo que se aprende quando criança? Em que momento as coisas passaram a ter mais importância do que as vidas?

Há uma moral na história contada por Charleaux, o que ratifica o método quase didático. Ele incita o leitor a conhecer novas culturas, e dá um exemplo simples: se você gosta de comida japonesa, é certo que essa gastronomia chegou ao Brasil trazida por migrantes.  

E mais: contra o preconceito, use informação. Não poderia dialogar mais com tudo o que se sabe, e estou cem por cento de acordo.

De minha parte, colaboro quando produzo conteúdo e espalho as notícias.

A notícia de hoje é esta: o livro de Charleaux merece um lugar na estante, sobretudo dos jovens que estão agora começando a caminhar. Eles  precisam se livrar de ideias, expulsar o ranço dos pensamentos antigos e abraçar, finalmente, o respeito ao outro, à diversidade. Sem que isto seja apenas uma retórica inútil.

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‘Festival Dia da Amazônia’: arte para celebrar e refletir sobre o impacto que provocamos na maior floresta tropical do mundo

Dois anos depois de ter levado o Maracanã à loucura com um show memorável, o roqueiro Sting encontrou-se com o cacique indígena Raoni, da etnia caiapó, em Altamira, no Pará. O ano era 1989, nascia ali uma parceria que correu mundo e décadas.  Sting se comprometeu para valer com a luta pela preservação da Amazônia e se mostrou solidário à preservação das terras indígenas, elegendo Raoni como seu parceiro. O roqueiro e o cacique percorreram mundo e conseguiram levar holofotes a uma questão que hoje, infelizmente, continua sendo emergencial.

A foto foi tirada por mim durante minha viagem em 2015 ao Arquipélago do Bailique, que fica na Amazônia profunda

Muitos anos depois da cruzada de Raoni e Sting, em 2007, a Amazônia ganhou uma efeméride para comemorar. Desde então, segundo a Lei nº 11.621, de 19 de dezembro,  o dia 5 de setembro foi instituído como “Dia da Amazônia”, já que foi nesta data, em 1850, que D. Pedro II criou a província do Amazonas.

Faltava, porém, uma comemoração em grande estilo. Não falta mais. A partir deste ano, anualmente o Dia da Amazônia será celebrado com um festival que reunirá atividades culturais, fortemente marcado com músicos que encantam com toadas bem regionais.

Quem sabe um dia Sting se junte?

 Enquanto isto, nossa celebração da Amazônia ficará por conta de nomes como Gabi Amaranto, Geraldo Azevedo, BaianaSystem, BK’, MC Carol e MC Rapadura, que se apresentarão a partir de 3 de setembro em shows gratuitos em oito cidades.  Com o nome de Festivais Dia da Amazônia 2022 (http://festivaisdiadaamazonia.com.br/), a iniciativa está sendo produzida por diversas organizações socioambientais.

O show de abertura vai ser em São Paulo, no dia 3 de setembro, com Gabi Amarantos e outros convidados. No mesmo dia vai acontecer um show em Belém, e assim vai até o dia 10 de setembro. No site tem a programação toda.

Além dos festivais, está sendo organizada a Virada Cultural Amazônia de Pé (https://virada.amazoniadepe.org.br/), conduzida pela Campanha Amazônia de Pé (https://amazoniadepe.org.br/). A programação da Virada reúne mais de 400 ações descentralizadas por todo o país, como oficinas, cine-debates, rodas de conversa e outras atividades organizadas de maneira autogestionada por seus proponentes.

É bom celebrar a efeméride com com música e arte.

Mas é importante também prestar atenção em alguns dados sobre a região:

– Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia constataram, em estudo divulgado em julho deste ano, que o desmatamento na Amazônia registrou recorde nos seis primeiros meses deste ano.

– Grande maioria do desmatamento é feito por atividades ilegais.

– A pecuária é ainda a principal responsável por 80% da destruição da cobertura florestal do bioma Amazônia, que representa 48% do território nacional, possui 4,2 milhões de km2, e é definido como um conjunto de fauna, flora, florestas úmidas, extensa rede hidrográfica e enorme biodiversidade. E são essas propriedades as principais responsáveis pelo fogo que vem transformando a floresta em pasto.

– A Amazônia Legal tem 5 milhões de km2 e inclui o bioma Amazônia, parte do Cerrado e Pantanal, todos os estados da Região Norte, Mato Grosso e parte do Maranhão. Ela representa 59% do território nacional.

– Há 50 anos, quando aconteceu a primeira Conferência Mundial do Ambiente Humano em Estocolmo, convocada pela ONU, a população da Amazônia Legal era de cerca de 7 milhões. Hoje é de 28 milhões.

Manter a floresta em pé significa, em primeiro lugar, respeito à vida dessas pessoas. Desmatamento causa mais emissões de carbono, que contribui para as mudanças climáticas. E as mudanças climáticas causam eventos extremos: no caso da Amazônia, seca – que provoca falta de alimentos, migrações em massa.

Mas, se preferirem, podemos falar em economia. Publicado em 2009, na sequência do Relatório Stern – primeiro estudo que aponta vulnerabilidades econômicas por conta das mudanças climáticas – o Economia das mudanças do clima no Brasil, custos e oportunidades mostra que poderá haver redução de 40% da cobertura florestal na região sul-sudeste-leste da Amazônia, que será substituída pelo bioma savana em 2100.

“Uma perda de 12% das espécies de vertebrados da região mais biodiversa do planeta já seria um valor expressivo, mas, quando associado ao desmatamento projetado, o impacto da mudança do clima na biodiversidade leva a um quadro catastrófico de extinção de cerca de um terço das espécies”, diz o estudo, reproduzido por Fabio Feldman em seu livro “Sustentabilidade planetária: onde eu entro nisso?”.

O custo de não se fazer nada é calculado pelos pesquisadores e alcançaria uma cifra de R$ 719 bilhões a R$ 3,6 trilhões para a economia brasileira.

Hoje temos acesso a mais informações de qualidade, o que pode ser uma alavanca para provocar mudanças. E reflexões. É para o que servem as efemérides e as comemorações.

Grupo de Manaus – Casa de Caba – foto de Divulgação
MC Carol, de Belém – Foto de Divulgação
Geraldo Azevedo vai cantar no Rio de Janeiro – Foto de Divulgação
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A lista vermelha das espécies em extinção na cidade maravilhosa

Com otimismo, podemos dizer que nossa era  avançou bastante em tecnologia de dados. Com pessimismo, precisamos constatar que nem sempre uma profusão de dados adianta alguma coisa para se mudar o cenário. Seja ele ambiental, humano.

Esta belíssima foto de um mico leão dourado é do fotógrafo e amigo Custódio Coimbra

Nesta semana, a Secretaria de Ambiente e Clima do Município do Rio de Janeiro divulgou a informação de que retomou a divulgação das listas das espécies nativas de fauna e flora ameaçadas de extinção na cidade. O último relato desses foi divulgado exatamente há 22 anos, na virada do século. No trabalho atual executado por uma comissão de pesquisadores e especialistas da área em outros órgãos, listaram-se 348 espécies da flora ameaçadas de extinção e 174 espécies da fauna que estão sob o mesmo risco.

Cará, Palmito Jussara, Pau-Brasil (sim! Ele, que deu nome ao país!) , onça parda, jacaré-de-papo- amarelo, o nosso velho conhecido mico leão dourado e o macaco bugio ruivo são algumas das espécies que, possivelmente, daqui a algumas gerações não serão mais visto na natureza. Diz o informe da Secretaria de Ambiente:

“Vale destacar que o Rio de Janeiro possui mais de seis mil espécies nativas registradas, dentre fauna e flora, e pode estar entre as cidades mais ricas em número de espécies no Brasil e no mundo”.

Confesso que não sei muito bem o que podemos fazer, de posse dessas informações, a não ser entristecer. O que deu errado, quando paramos de ouvir a nós mesmos, desde a primeira Conferência do Meio Ambiente, que aconteceu na capital sueca em 1972?

Tenho aqui na minha estante o pequeno livro “Only one Planet – The Care and Maintenance of a Small Planet” (“Um só planeta – o cuidado e a manutenção de um pequeno planeta”, em tradução literal), escrito por Barbara Ward e René Dubos após a Conferência de Estocolmo. Naquele tempo, em que ainda não tínhamos tanto acesso a dados como agora, o hábito era ler livros em papel.

O prefácio do relatório/livro foi assinado por Maurice Strong, secretário da Conferência, que depois se tornou diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Segundo ele, o texto é “o resultado de um experimento único de colaboração internacional”.  Quatorze anos depois, Strong ajudaria em outro relatório feito a várias mãos, que se chamou “Nosso Futuro Comum”, encabeçado por Gro Brundtland, então ministra da Noruega.

Uma leitura bem atenta dos dois textos mostra claramente a gradação da percepção humana com relação aos problemas que teríamos que enfrentar, considerando que os bens naturais não são finitos. É interessante notar que os autores, representantes de nações (no caso do texto de Estocolmo, de 58 países, e 21 na Comissão Brundtland) tinham uma visão bastante crítica à miséria, à prosperidade que só atingia algumas nações. Ainda não tinha viralizado a expressão desigualdade social, mas era do que se tratava.

A extinção das espécies, que é o que nos interessa neste texto, só entrou no radar de preocupação global em 1986, no relatório que criou a expressão “desenvolvimento sustentável”.

“Há muitas maneiras de uma sociedade se tornar menos capaz de atender no futuro às necessidades básicas de seus membros e a exploração excessiva dos recursos é uma delas. A extinção de espécies vegetais e animais pode limitar muito as opções das gerações futuras: por isso o desenvolvimento sustentável requer a conservação dessas espécies”, diz o texto do Relatório Brundtland.

E aqui estamos nós, trinta e seis anos depois, lastimando o risco de extinção, apenas na cidade do Rio de Janeiro, de 522 espécies. A lista dos ameaçados segue o critério da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês), organização criada nos anos 40, dedicada à conservação da natureza, que reconhece Maurice Strong como “líder no movimento do meio ambiente”.

No site da IUCN, há um alerta colorido que diz:

“O mundo aspira a estabilizar o declínio da biodiversidade e colocar a natureza no caminho para recuperação até 2030. A Lista Vermelha da IUCN  inclui 128.918 espécies, dos quais 35.765 (28%) estão ameaçados com extinção. Alguns grupos são reconhecidamente ameaçados: anfíbios (41%), tubarões (31%) e corais (33%) com maiores riscos de extinção desde 1990”.

Não há moral nessa história. Talvez sirva como um aviso para muitos de nós, que possamos estreitar o contato com nossa natureza ao redor, aumentando o respeito pelas coisas vivas, diminuindo o consumo de coisas mortas que só se acumulam em armários, bolsas, casas. Nem que seja para aproveitar o que ainda nos resta, e respeitar as espécies que vão surgindo. Cada um tem seu caminho, o importante é passar a perceber esta urgência.

Vou terminar este texto com um pequeno trecho do livro de David Kopenawa, o xamã yanomami que, em conversas com o etnólogo Bruce Albert, produziu o livro “A queda do céu” (Ed. Companhia das Letras). É um relato cheio de magia que dá ao leitor a noção exata do respeito que os indígenas têm pelo ambiente. Diferentemente do que pensavam os especialistas que escreveram os relatórios de 72 e 86, a ideia é que natureza e humanos são parte do planeta. Somos todos seres vivos, afinal.

“As bananas não nascem sozinhas à toa! As bananeiras são mulheres-plantas. Seus frutos nascem porque elas ficam grávidas e parem. É assim com tudo o que cresce nas roças e na floresta. As mulheres-plantas primeiro ficam grávidas. A gravidez dura algum tempo, e depois elas dão à luz. É então que seus frutos aparecem. Eles nascem como os humanos e os animais”.

*Este texto foi publicado originalmente no site da Escola Monte Alegre

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Bem Viver, o movimento que tem raízes indígenas, é apresentado em festival no Rio de Janeiro

Da direita para a esquerda: Thiago Ávila, Tucumã Pataxó e Eliane Potiguara no palco do Festival Iris

Nos dias 12, 12 e 14 de agosto, o Parque Lage, espaço verde da Zona Sul do Rio de Janeiro, recebeu o Festival Iris Pro Bem Viver. Estruturado por uma organização sem fins lucrativos, idealizado por três mulheres, o evento foi palco para ótimos pensamentos. Falou-se muito de amor, imprimindo a este sentimento tão empastelado pelo romantismo utópico, um significado diferente. Amor como respeito, não só às pessoas, mas à biodiversidade.

Falou-se também de saúde, e muito. Deu-se voz e consideração aos povos indígenas e toda a sua sabedoria milenar. Pessoas acostumadas a práticas da civilização de metrópoles fizeram contato com rituais indígenas e saíram com cheiros e cores diferentes em seus corpos.

O Festival Iris foi criado com a proposta de lançar um olhar ancestral para o futuro. Faz sentido este paradoxo. Estive lá no sábado (13), e gostei de ouvir a Eliane Potiguara, poeta, professora e embaixadora universal da Paz em Genebra, chamar a atenção dos presentes para o fato de que nada muda se cada um não proporcionar a si próprio uma experiência de mudança. Uma que seja.

“Estou na sétima década da minha vida e posso lhes garantir que a gente começa a transformação, primeiro, dentro de nós”.

Tucumã Pataxó foi o segundo indígena a falar. E definiu assim o Bem Viver, principal mote do encontro no Parque Lage:

“O Bem Viver é aprender a viver com nossos mais velhos. E a respeitá-los. Eles são livros vivos”, disse.

O socioambientalista e ativista ambiental Thiago Ávila foi o próximo palestrante. De pés descalços, calças enroladas até as canelas, sorriso eterno no rosto, o jovem Thiago, de 35 anos, apresenta-se como um socioambientalista e fala sobre desigualdade, sobre o sistema opressor, sobre trabalho explorado e degradação ambiental.

“A sociedade que explora e oprime é a mesma que causa destruição da natureza”, alerta ele.

Thiago é de Brasília, tem uma vida de luta contra a degradação ambiental e planeja construir o Poder Popular trilhando um caminho que ainda é recente para o Brasil, mas que já deu certo em alguns países, o mandato coletivo. Sumariamente, trata-se de uma forma de exercício de cargo eletivo legislativo, em que o representante se compromete a dividir o poder com um grupo de cidadãos.

Thiago conheceu o Bem Viver em 2016, na Bolívia, na posse do então presidente Evo Morales.

“É um caminho que nega a ideia de um desenvolvimento pintado de verde ou de rosa. É uma lógica contrária à forma de vida que explora a força de trabalho e a natureza, onde tudo é justificado pelo fundamento do desenvolvimento’, disse Thiago.

Já eu, fiz contato com o Bem Viver pela primeira vez através do livro de Alberto Acosta lançado no Brasil em 2016 pela Editora Elefante. Acosta é economista e foi Ministro no Equador e um dos responsáveis pelo plano de governo da Alianza País, partido encabeçado por Rafael Correa, que governou aquele país de 2007 a 2017. Acosta dirigiu os trabalhos da primeira Assembleia Constituinte do planeta que reconheceu direitos à Natureza. Ele tentou implantar no país o Bem Viver como instituição, mas não conseguiu. Distanciou-se de Correa, fazendo críticas dos desvios no processo que ajudara a instalar.

A leitura de “Bem Viver” é um mergulho num pouquinho de saúde. O conceito, que também pode ser chamado de movimento, retrata um mundo novo, ainda em construção, desenhado com outras formas de organização social e práticas políticas. A filosofia indígena é a essência do Bem Viver.

Seguem alguns pontos do livro que podem ajudar a entender melhor o conceito:

“Para obter essa transformação civilizatória (Bem Viver), é preciso inicialmente desmercantilizar a Pacha Mama ou Mãe Terra, como parte de um reencontro consciente com a Natureza. É um desafio especial para quem vive nas cidades – que se encontram, no mínimo, distantes da natureza. Os habitantes das cidades devem entender e assumir que a água, por exemplo, não vem dos supermercados ou da torneira”.

“A economia deve submter-se à ecologia. Por uma razão muito simples: a Natureza estabelece os limites e alcances da sustentabilidade e a capacidade de renovação que possuem os sistemas para autorenovar-se. Disso dependem as atividades produtivas. Ou seja: se se destrói a Natureza, destroem-se as bases da própria economia.”

“Precisamos de um mundo reencantado com a vida, abrindo caminhos de diálogo e reencontro entre os seres humanos, enquanto indivíduos e comunidades, e de todos com a Natureza, entendendo que todos os seres humanos formamos parte da Natureza e que, no final das contas, somos Natureza”.

São pensamentos simples, no fim e ao cabo. Não simplórios, com querem os economistas e pensadores ortodoxos, para quem qualquer mudança precisa trazer em si a teoria do leopardismo: mudar para que tudo continue a mesma coisa.

O Festival Iris foi uma boa oportunidade para essas reflexões.

*Este artigo foi publicado originalmente no site da Escola Monte Alegre

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Moradores de Laranjeiras se unem contra mais uma megaobra que vai causar forte impacto no bairro

Mais um empreendimento imobiliário de mega porte numa rua já tão congestionada como a Rua das Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro, está deixando inquietos os moradores. É o local onde os empreendedores imobiliários pretendem erguer seis prédios em um terreno de 50 mil metros quadrados que hoje abriga o Palacete Modesto Leal, construído entre 1904 e 1905.

 Como o palacete é tombado pela Prefeitura, ele vai ser preservado. Já não se pode dizer o mesmo com relação às árvores de seu entorno, um trecho bonito, um oásis em meio à barulheira asfáltiva do local. Um projeto de lei do Deputado Carlos Minc (PSB), que atende aos pedidos das associações de moradores de Laranjeiras (Amal) e da Rua Alice (Amaralice), se aprovado, prevê tombar o terreno todo, não só o prédio.

No sábado passado (13), os moradores fizeram um ato para angariar assinaturas e chamar atenção das autoridades. Carlos Minc esteve lá e contou mais uma triste novidade sobre o condomínio que as empresas querem erguer ali:

“Ficamos sabendo que no projeto consta uma garagem subterrânea e que isto não vai levar em conta o impacto que poderá causar no Rio Carioca, que passa por ali debaixo da terra. Ou seja: isto faz parte de uma luta mais ampla, pela preservação do verde, contra as inundações. Porque as árvores não são apenas importantes porque trazem sombra e abrigam pássaros, elas também seguram a água das chuvas. Ou seja: quem desmatar essas árvores e causar impacto no Rio Carioca está cometendo um crime ambiental”, disse o deputado.

No ato da manhã ensolarada de sábado, faixas estendidas pelos moradores pediam o fim da especulação imobiliária.

É a chave para reflexões.

Segundo a ONU Habitat, em 2050 seremos 68% da população mundial morando em cidades.

“As cidades são desiguais porque são lugares muito agradáveis ​​para ser rico e são lugares menos intoleráveis ​​para ser pobre”, escreve Edward Glaeser, economista de Harvard e renomado urbanista, autor de “Os Centros Urbanos – A maior invenção da humanidade” (Ed. Campus, 2011).

Ao mesmo tempo, como lembra a também urbanista Raquel Rolnik em seu recém-lançado “Guerra dos Lugares” (Ed. Boitempo), estamos em meio a um longo processo de desconstrução da habitação como um bem social “e de sua transmutação em mercadoria e ativo financeiro”.

O cenário, portanto, une a sanha imobiliária ao crescente número de pessoas que precisam de moradia e à também crescente miséria – o Censo de 2022 dá conta de que existem quase 185 mil pessoas morando nas ruas em todo o país. Não sobra muito espaço para achar bom morar em megalópoles, sobretudo porque há também a questão ambiental, como bem pontua Minc no caso da chácara que vai ser impactada.

Tem solução?

Criar outros espaços pode ser uma solução. Pensar em moradias mais compactas, operacionais. Que se possa privilegiar os espaços verdes deixando-os para todos, nas cidades, do que transformá-los em meros jardins que servirão apenas como enfeite a poucos.

 É uma visão diferente, mais realista, que considere o espaço urbano como um território verdadeiramente para todos. Como diz Glaeser em seu livro, as grandes cidades exercem uma forte atração sobre os humanos. É neste espaço que se consegue criar. Precisamos uns dos outros para trocar impressões, aprender, ensinar. Somos gregários.

Mas é preciso que se tenha uma visão de cidades inclusivas, com transporte público eficiente, rede de esgoto, escolas e hospitais espalhados por toda parte. É engraçado, por exemplo, ver o anúncio de que haverá uma garagem enorme no novo condomínio em Laranjeiras, talvez com lugar para dois carros para cada morador.

Alguém pensa no impacto que vai ser na malha urbana quando tantos carros saírem de sua luxuosa garagem e se tornarem apenas mais um veículo a entupir as ruas?

 Tenho a forte impressão de que o tema não é ainda prioritário, nem mesmo para os candidatos que começam agora a apresentar suas propostas.

É sempre bom, portanto, ver a sociedade civil se mobilizando neste sentido, porque pode ser um bom começo.

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No tempo da delicadeza

A manhã transcorria pertencida daquela falsa normalidade que nos deixa com a alma aquietada.

Escolhi a ladeia para me afastar do burburinho. A foto é de Amelia Gonzalez

Não tinha caminhado nem cinco minutos, porém, quando ouvi um latido forte de cachorro angustiado, nervoso. Sou intensamente afetada por cães. Sinto a angústia deles na voz, e isto já me tirou da falsa normalidade.

“A manhã começou tensa”, pensei.

Na sequência, vejo o rapaz sair com o carrinho de sua bebê, que chamava pela mãe. Pouco atrás, a mãe, de sandálias de dedo, uma jovem bem bonita que vi grávida, equilibrava nas duas mãos suas duas vira-latas. Uma delas, a de latido angustiado.

Seguiram em frente. Estamos acostumados a nos desejar bom dia, mas achei que não seria de bom tom, naquele momento. Quando a tensão ronda a gente, fica chato ver alguém com ares de monge do Himalaia.

Bom dia? Como assim? Quais são suas fontes? Quem te garante?

Fui arrastando Beto, meu cão, que já estava prestes a arrumar treta com a vira-lata angustiada. Nem pensar, amigo. Não é hora disso.

Na esquina seguinte, alguém falava ao telefone celular. Àquela hora da manhã, já num tom de voz acima, explicava-se pelo atraso.

Eram 7h30m!

Fiquei nostálgica. Como era bom o tempo em que a gente saía pelas ruas sem ser monitorado, vigiado, seguido, por um dispositivo. Se chegasse atrasado, a situação se resolvia no instante da chegada.

Naquele tempo a gente ouvia, falava, ouvia. E fazia hiato entre um e outro momento.

Preferi o caminho da ladeira para me afastar um pouco do burburinho. Busquei ouvir o som dos pássaros, focar meu olhar nas árvores que formam um lindo rizoma lá no alto da pedra. Mas se engana quem pensa que só tem serenidade na natureza. É preciso lidar com o tempo da tensão, intercalar com a calmaria.

              “Os morros se andorinham longemente…

                Eu me horizonto”

                                         Manoel de Barros

Busco fazer conexão com a minha respiração. O ar entra pelo nariz, enche a barriga e sai pela boca. Uma, duas, três vezes… e o corpo vai se tornando pleno de uma certa tranquilidade.

Passo por um vizinho que procurou bater papo, e aceito. Jogar conversa fora, falar sobre o instante, pode ser bom para desestressar. Mas ele foi além. E me lembrou da viagem da presidente da Câmara estadunidense Nancy Pelosi – a segunda no comando da nação mais rica do planeta – a Taiwan, pura provocação à China. Como se nos Estados Unidos tudo estivesse muito bem resolvido, ah, então vamos cuidar de ampliar nossa capacidade de ter dispositivos eletrônicos (para quem não sabe, pesquise, foi esta a razão da viagem). Mais dinheiro gasto com armas do que com educação! Mais dinheiro com tecnologia do que para dar bem-estar à população!

Pronto, o efeito esponja de novo. A tal lucidez me perseguindo, como se eu não tivesse um momento que fosse próprio meu, a conversar com plantas, pedras, pássaros.

            “A voz de um passarinho me recita”

                                             Manoel de Barros

O mundo pertencido a líderes que só enxergam uma forma de vida: aquela que possui dinheiro, coisas, tecnologia. Mais, mais e mais.

O valor da vida fica em outro lugar, e nem consigo imaginar… na cabeça de um líder que investe dinheiro e paga equipe, drones, armas, para matar um único homem, chamado de “o terrorista mais procurado”. E depois vai à televisão para se vangloriar disso… não consigo imaginar o valor da vida para uma pessoa dessas.

A conversa com o vizinho, como vocês podem imaginar, não prosperou muito. Segui meu caminho, buscando na pedra, nas árvores, no canto de cada passarinho, meu desejo de me acalmar.

Na volta para casa ouvi um filho pequeno brigando com a mãe, que tentava fazê-lo abandonar a televisão para ir à escola. Ele gritava, ela gritava.

Tantas vezes vivi a mesma cena! Deu vontade de dizer a ela: “Educar é a arte do impossível, querida. Mas no fim, dá certo”.

Meu filho hoje tem 40 anos. E é um ser. Um ser sensível. Não sei se ajudei ou atrapalhei. Mas dei-lhe a vida. E ele respeita cada momento desse regalo.

Voltei para casa e recebi a notícia de uma amiga, dizendo-me que sua mãe partira. Eu acompanhei os momentos de extrema delicadeza que envolveram a despedida. É triste, é um luto, é a finitude se impondo. Mas foi gentil, foi carinhoso. Não pude abraçar a amiga. A distância se impôs.

 Senti uma tremenda vontade de ver o mar. Consultei minha agenda, o compromisso de entregar um texto, calculei o tempo e decidi ir.

Por sorte o ônibus chegou logo. Por sorte a maré estava baixa. E pude andar rápido na areia dura, molhando os pés no mar. Delícia.

Teve que ser rápido, mas como foi bom.

Na volta, peguei um táxi para agilizar.

Abri a janela, deixei o ar invernal refrescar meu rosto.

Foi quando percebi, num som baixinho, o Claudio Nucci cantando “Quem tem a viola”. Tão baixinho que precisei me aproximar um pouco do rádio para ouvir. E a música me levou embora, final dos anos 70, esperança no ar, os tempos de chumbo, da ditadura torturando amigos, tinha que acabar.

E me peguei dedilhando ao som do “Tem tom de roupa quando seca no varal”…

Até que percebi o movimento do motorista. Devagar, como se não quisesse perturbar meu enlevo, ele tocou no rádio e aumentou um grauzinho o som, coisa de nada.

Ficou mais confortável para eu ouvir.

Um gesto delicado, só isso. E, no meio daquele turbilhão que fora o início da manhã, aquele gesto me emocionou.

Estava mesmo precisando carregar minha bateria com a delicadeza que aquele desconhecido me ofereceu.

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Evento sobre água leva esperança de mudança no cenário dos cariocas

“É preciso ter esperança/

Mas ter esperança do verbo/

Esperançar/

Porque tem gente que

Tem esperança do ver esperar/

E esperança do verbo esperar/

Não é esperança/

É espera

Paulo Freire, o grande, o super educador e pensador foi muito feliz quando criou este verbo, esperançar. É no sentido de criar movimento, não de ser passivo. Cidadãos que esperançam são cidadãos que não perderam a motivação, a vontade de ver mudanças. E acreditam.

Hoje pela manhã, o verbo esperançar foi usado muitas vezes no painel de conversa “Cenário de Saneamento do Estado do Rio após a Concessão” que aconteceu no evento Fits 2022 Água. E os participantes, quatro presidentes de empresas, cada um à sua maneira, estavam nutrindo a plateia   com vontade de esperançar. E bem que estamos precisando disto…

Compartilho com vocês alguns pensamentos motivadores que ouvimos durante o evento:

Vamos ver a Baía da Guanabara limpa de novo! Vamos ver o Interceptor Oceânico limpo depois de anos e anos… Vamos ter empregos para jovens que se especializarem na questão de saneamento… Vamos ter três empresas trabalhando em parceria com a Cedae para limpar os esgotos, as estações de tratamento, fazer dragagem em lagoas e rios. Vamos poder tomar banho na Praia de Botafogo! O  Rio Banana Podre vai deixar de lado este desonroso apelido.

“O que está sendo feito agora, nunca foi feito. A aposta é possível de ser feita. Estamos fazendo o que é preciso fazer para alcançar nossa meta. Sou um realista esperançoso”, disse o atual presidente da Cedae Leonardo Soares.

Estavam na conversa, além de Soares, o presidente da Águas do Rio, Alexandre Bianchini; o CEO da concessionária Rio+Saneamento, Leonardo Riguetto e o diretor-geral da Iguá no Rio de Janeiro, Eduardo Dantas.

A crise financeira que assolou o Estado e a Cedae nos anos 17/18 uniu os quatro executivos. A empresa não teria condições de seguir se não recebesse ajuda, e o Estado não conseguia ajudar.

“A Cedae reduziu despesas e concedeu serviços de distribuição de água e captação e tratamento de esgoto a outras empresas”, diz o histórico da empresa.

Que assim seja. Que dê certo. Vamos esperançar. Estamos precisando, o cenário é triste.

Dados do ano passado veiculados pelo Conselho Regional dos Técnicos Industriais do Estado do Rio de Janeiro mostram que 7,5% da população do Estado ainda não recebem água tratada; 34,2% da população não têm acesso à rede de coleta de esgotos e apenas 35,4% do esgoto gerado é tratado antes do descarte, ou seja, bem mais da metade do esgoto volta ao rio.

O conceito da sustentabilidade percorreu as falas dos quatro executivos do painel. E, como se sabe, este conceito, em sua essência, significa um desenvolvimento que respeite, em última instância, preservar a saúde humana. Aqui vale lembrar que um relatório da Organização Mundial de Saúde publicado no ano passado mostrou que “as mudanças no tempo e no clima estão ameaçando a segurança alimentar e aumentando as doenças transmitidas por alimentos, água e vetores”.

 Bianchini lembrou que o primeiro ser humano morreu de doença provocada por falta de saneamento.

“Temos residências sem banheiro em locais a 500 metros de Ipanema, um dos bairros mais caros. Já estamos conseguindo mudar este quadro na Barreira do Vasco, onde o esgoto entupia e vazava. Fizemos o Programa Afluentes, contratamos 3,5 mil pessoas da comunidade. Vamos dar dignidade àquelas pessoas, muitas que nunca tiveram um banheiro em casa. Não existe chance de dar errado, vai dar certo’, disse o presidente da Águas do Rio, que arrematou dois blocos da Cedae em abril de 2021.

O Marco Legal do Saneamento, lei federal promulgada em 2020 e que regulamenta o saneamento básico no Brasil, tem uma meta muito ousada: chegar a 2035 com 90% do esgoto tratado. Muitos desafios.

Leonardo Riguetto, da Rio+Saneamento, que pertence ao mesmo grupo da Águas do Brasil, está esperançoso. E realista.

“Temos vagas de emprego no saneamento. Precisamos pensar no desenvolvimento social também, não apenas no econômico. Vamos investir R$ 4,7 bilhões, abril cinco mil empregos e sanear este estado”, disse ele.

Palavras que alimentaram de esperança a plateia. Eduardo Dantas corroborou. Sua empresa assumiu em 7 de fevereiro os serviços de saneamento em dois municípios fluminenses – Paty do Alferes e Miguel Pereira – e nos bairros da capital que integram a Zona Oeste.

“Emprego e renda vão vir na esteira, mas vamos levar dignidade a todas os cidadãos”, garantiu.

Saí do evento com algum otimismo. E pensando sobre o nosso modelo atual de desenvolvimento, na participação das empresas em nossas vidas. Lembrei-me de Joel Bakan e seu “New Corporation” (ainda sem tradução no Brasil), sobre o qual já falei aqui neste espaço.

Bakan, jornalista e especialista em decifrar os códigos de nossa atual civilização, faz no livro uma forte crítica à privatização de serviços que são fundamentais para a vida humana.

“Uma vez privatizados, os serviços de água, como todos os outros, viram commodities que devem ser vendidas e compradas. Muito mais isto do que um direito dos humanos”, escreve ele.

Para criar um ambiente onde as empresas sejam cobradas a tratar tais serviços com a urgência que eles exigem, é preciso garantir que elas sejam reguladas, diz Bakan.

“Empresas são produtos de regulação. Elas não foram criadas pela mão invisível do mercado, ou por uma entidade sobrenatural. Elas são uma criação do Estado, de leis que garantem sua existência”, completa o autor.

Escrevo este texto, como podem perceber, a um só tempo embalada por um irresistível sentimento de esperança, e sem abandonar meu eterno senso crítico. Não se trata de escolher entre “isto” ou “aquilo”, mas sim de compor ideias, em prol do bem-estar dos habitantes.  São ingredientes fundamentais para ampliar pensamento.

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Curupira, protetor das florestas, olhai por nós!

A foto foi tirada por mim em 2015. Trata-se da Floresta Amazônica

“Depois então entra lá na minha página do Insta! Está bem, legal, você vai gostar”

“Vou entrar lá sim, valeu!”

O diálogo foi capturado por mim durante a caminhada matinal. Os personagens são desconhecidos, são dois homens. Mas o teor da conversa se tornou universal. Se alguém ouvisse isto há duas décadas, não iria entender nada. Hoje, porém, tenho certeza de que todos vocês que estão lendo este texto entenderam muito bem a mensagem.

No fim das contas, o que vai acontecer é o que acontece na grande maioria das vezes quando o dono da rede social não é um influencer ou não pagou para que sua publicação fosse impulsionada. O amigo vai se esquecer de “ir lá na página”. E o outro vai se frustrar, depois de algum tempo, com o baixo número de visitantes.

Nossa civilização, impulsionada por grandes corporações que lucram muito com a conectividade global, agregou mais um fator de frustração ao nosso rol,  que já não é pequeno.

Fui pensando nisto enquanto seguia meu caminho. Frustração é um sentimento que a gente conhece desde os primórdios. Começa porque o bebê quer que a mãe continue fazendo parte dele, como no útero. E segue vida afora. A maneira de lidar com as frustrações é que depende do nível de maturidade, de estresse, de bons ou maus momentos na vida de cada um.

Mas, certamente, as redes sociais conseguiram ativar este recheio. A conversa por WhatsApp se tornou um detonador de sentimentos de frustração aliados à desconstrução do hiato entre uma conversa e outra, condição indispensável para se manter um diálogo com ação, reação, escuta e fala. Pelo “zap”, se a pessoa demora um pouco para responder, fica caracterizado que ela não quer responder. E, dependendo da situação, o interlocutor pode se sentir desprezado.

Mas, o que me causa frustração?

Pensando a respeito, ouvi o barulho da motosserra. E estava ali, na minha frente, um dos motivos que hoje me deixam frustrada, indignada, com raiva.  Uma amendoeira gigante estava sendo suprimida.

Perguntei o motivo da morte da árvore a quem estava coordenando os trabalhos, e não me pareceram injustos. Tampouco incomuns. Ela estava com cupim e suas raízes estavam invadindo os canos das casas, o que poderia provocar um tremendo problema.

“Mas é claro que as raízes estão se alastrando. Quem mandou plantar uma amendoeira ali?”, perguntei, com raiva.

Não esperei pela resposta. Não sei se o interlocutor se frustrou, mas pouco se me dá, eu estava com raiva.

 A amendoeira estava dentro de uma casa antiga. Este tipo de árvore leva cerca de dez anos para estar madura, e vive até uns 50. Digamos que tenha sido plantada há uma década. Já tínhamos internet com alcance suficiente para fazer uma busca rápida e pensar duas vezes antes de plantar uma árvore desse tamanho no quintal.

O que mais me deixa indignada é que dificilmente outra será plantada no lugar. E a sombra de uma amendoeira, numa cidade como o Rio de Janeiro, que já virou uma ilha de calor, é quase uma dádiva do universo. Lá se foi, portanto, mais um regalo dos deuses.

Já em casa, enquanto compartilho com vocês, recebo a notícia de que o domingo, dia 17 de julho é considerado o Dia de Proteção às Florestas, uma efeméride nacional. Para comemorar, resgatam a imagem do Curupira, personagem do folclore brasileiro, famoso pelos cabelos vermelhos, pés virados para trás, que vive dentro de uma árvore, no meio da floresta. Ele é o protetor da natureza e anda sempre com uma lança para espetar aqueles que querem derrubar as árvores.*

Curupira, olhai por nós!

E acho que vou pedir sua lança emprestada…

*Informações obtidas na aula de Arte online do professor Rafael Mendes, de onde também retirei a arte que postei aqui.

  • Originalmente escrevi este texto para ser publicado no site da Casa Monte Alegre
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O que é uma cidade sustentável?

Estive na China em 2008. Viagem rápida, porque precisava voltar logo para fechar o “Razão Social”, caderno que editei no Globo durante nove anos. Aceitei o convite de uma empresa porque achei muito interessante a proposta: um fórum para debater sobre cidades sustentáveis.

Eu nunca tinha ouvido essa expressão. Foram dois dias intensos, de aulas e palestras, num campus universitário imenso (aliás, tudo é imenso na China…). Durante os intervalos para o café, gravador em punho, fui fazendo uma única pergunta aos painelistas: “O que é uma cidade sustentável”?

Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, conhecido por ter feito uma boa revolução na cidade à época em que a administrou, deu-me uma explicação que jamais esqueci. Ele falou que as cidades sustentáveis são aquelas que não assustam as pessoas. Nem com o tamanho dos prédios, nem com a quantidade de carros nas ruas, tampouco com a falta de espaço para se andar nas calçadas.

Ontem, durante o evento “Cidades Verdes”, organizado pelo Ondazul no auditório da Firjan, trabalhei nos bastidores e fiquei responsável por fazer breves entrevistas com painelistas. Lembrei-me do encontro na China e fiz a mesma pergunta para todos.

Eu no trabalho, no auditorio da Firjan durante o Seminário Cidades Verdes. Foto de Andre Balocco

Fiquei feliz quando Ilan Cuperstein, diretor da C40 Cities para a América Latina, em sua resposta à minha pergunta, citou Peñalosa. É tão bom quando boas informações circulam e a gente ajuda que isso aconteça.

Atributos como “digna”, “inclusiva”, “agradável”, foram alguns dos indicados pelos outros especialistas que entrevistei ontem para classificar o que seria uma cidade sustentável. Gosto dos debates que servem para clarear as ideias, ampliar pensamentos. Isto agrega, não sou de desperdiçar pensamentos, como diria Hannah Arendt. Corro léguas de dogmas e verdades que trazem a “velha opinião formada sobre tudo” (obrigada Raul!).

O evento acolheu opiniões do poder público, do setor privado, da academia, de organizações da sociedade civil. E, como se exige de uma reunião com tamanha diversidade, opiniões contrárias enriqueceram a plateia, fornecendo insumo para a plateia sair dali com caraminholas a expandir suas reflexões.

Somos muitas, seremos ainda mais pessoas que buscam morar em grandes cidades. Segundo relatório da ONU-Habitat lançado semana passada, a população urbana dobrou, de 25% para 50%, de 1950 a 2020. A aceleração será mais lenta para os próximos 50 anos, e a previsão é de que cheguemos a 58% até 2070. Em países de baixa renda, o número de cidades aumentará em 76% nos próximos 50 anos e é onde vai crescer a área urbana. Mais cidades, mais pessoas apinhadas: a densidade vai aumentar em 141% nos países pobres.

Por isto vai ser preciso, segundo Aspásia Camargo, uma das painelistas do Seminário, construir cidades inteligentes, ou seja, “cidades verdes, azuis, libertárias e justas”.  O Rio de Janeiro tem pressa para se tornar assim, acrescentou a ambientalista. E eu concordo. Mas antevejo um caminho muito longo até lá, e precisaremos de administrações mais focadas neste propósito.

Fiquei interessada em conhecer um pouco melhor, na prática, a teoria apresentada pelo secretário Luciano Paez, de Niterói, que se apresenta como o primeiro secretário de mudanças climáticas do Brasil. Criou um Painel de Mudanças Climáticas, agregou pessoas que sempre estudaram o tema – como o ativista ambiental e economista Sergio Besserman –  e anunciou duas medidas simpáticas: aumento expressivo da quantidade de bicicletas na rua principal do Centro da cidade, a compra de ônibus elétricos e a redução do preço da passagem.

Considerando que Niterói é uma cidade com cerca de 515 mil habitantes, é claro que não se compara aos desafios (palavra que as corporações adoram) de uma cidade como o Rio, que tem seis milhões de pessoas. Por outro lado, uma administração municipal de mega cidade precisa estar, cada vez mais, preparada para o gigantismo dos problemas.

Tratamento de esgoto; distribuição de água; transporte humano e acessível; uso consciente de energia e o enfrentamento às mudanças climáticas foram temas abordados no encontro. E eu incluo nosso papel, de cidadãos, nisso tudo. Não gosto da ideia de culpar as vítimas no caso de assuntos que não depende de nós resolvermos, como por exemplo a baixa ocupação dos ônibus na cidade carioca. Mas ando pensando, enquanto caminho pelas ruas, que está faltando respeito.

Só isto: respeito. De humanos para humanos, de humanos para o pouco de verde que ainda nos resta nas cidades, de humanos para animais, para o espaço público, para o patrimônio público. Não vai resolver todos os problemas, mas se tiver respeito alguma coisa muda para melhor.

Assim, respondo eu a minha pergunta. Cidades sustentáveis, para mim, são exatamente tudo aquilo a que se referiu Peñalosa. E mais: com respeito.

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As árvores certas para o ambiente urbano

Quem se importa com árvores urbanas não consegue ficar indiferente quando vê troncos que um dia foram árvores frondosas em várias esquinas da cidade. Sou uma dessas pessoas.

A foto é de Custódio Coimbra, que cedeu gentilmente ao blog. As árvores são Oitis, da Rua Santa Clara, em Copacabana

Por isso estranhei o anúncio, de dois meses atrás, dando conta de que a cidade do Rio de Janeiro foi considerada, pela organização das Nações Unidas para alimentação e agricultura – FAO – e pela ONG norte-americana Fundação Arbor Day, uma “cidade amiga das árvores”. A notícia não recebeu muita repercussão, possivelmente porque tem sido difícil, nos dias de hoje, ganhar a atenção dos leitores com uma novidade boa.

 Mas pode ser também que as pessoas tenham tido uma atitude cética diante do anúncio. Com tantos troncos abandonados, será mesmo que a cidade merece este elogio?

Há muitas perspectivas que podem ser analisadas nesta situação. E, para fazer uma análise sem tendências, precisamos de boas informações.

Tempos atrás ouvi de um ambientalista que árvores urbanas têm um ciclo de vida que deve ser respeitado. Como qualquer outro ser vivo, elas nascem, crescem e morrem. Como estão em locais de grande movimento, sua morte pode causar enormes transtornos e, dependendo do seu tamanho, pode ser até muito perigoso para a vida dos humanos. Depois disso, aprendi a respeitar as tosas e até mesmo parei de interferir no trabalho de equipes que cortam uma árvore. Eles podem estar prestando um serviço à comunidade.  

Mas… árvore morta, árvore plantada, certo? Infelizmente, nem sempre. Os troncos espalhados por vários bairros mostram que há uma lacuna de tempo entre o corte e o replantio, e às vezes a árvore que se foi não é nem substituída. Em seu lugar cresce o cimento.

É importante falar mil vezes: árvores urbanas não têm só o efeito estético. Elas servem para reduzir a poluição sonora, do ar, fornecem sombra e moradia para os pássaros, além de alimentos. E, ainda por cima, oferecem sua beleza, seu esplendor, para quem acredita na meditação como possibilidade de fortalecer o sistema imunológico. Ou seja: árvore é tudo de bom, não só na floresta, como também nas cidades.

Porém…

Sim, tem um “porém” que precisa ser destacado.

Não é qualquer árvore que pode ser plantada em ruas da cidade. Tubulações de água e esgoto estourados, calçadas levantadas, problemas na rede elétrica e frutos pesados que podem machucar quando caem são alguns dos problemas que uma árvore plantada num local inadequado pode trazer.

Isso quer dizer que, por mais que a pessoa tenha muito boa vontade, não deve sair plantando árvores perto de casa sem consultar profissionais. E as prefeituras – sobretudo aquelas que recebem selos de garantia, como aconteceu com o Rio de Janeiro – têm obrigação de contratar tais especialistas, pessoas que estudam a biodiversidade.

Pois bem. No site da Prefeitura do Rio há uma informação que faz toda a diferença. É que a cidade não produz ainda suas próprias árvores urbanas: tem que importar de Minas Gerais ou de São Paulo.

Mas, aparentemente, esse quadro vai mudar. No mês passado, foi inaugurado um viveiro de árvores urbanas na Fazenda Modelo, em Pedra de Guaratiba. Segundo informações do site, a ideia é produzir ali dez mil mudas por ano para serem usadas em arborização do município. Foram identificadas áreas, principalmente nas zonas Norte e Oeste, que devem receber a maior parte das mudas.

“Um diferencial do viveiro será o cultivo de mudas de alto padrão, grandes, e que se destacam na paisagem, entre elas pau-brasil, pau-ferro, sibipiruna, escumilha, paineira, ingá, mangueira, oiti, jequitibás, ipês e palmeira-imperial. Além de preservar o meio ambiente, o projeto pode melhorar a saúde da população. Segundo pesquisas, morar em locais arborizados reduz em 36% o risco de desenvolver depressão e doenças cardíacas e do sistema circulatório”, diz a notícia publicada no site.

Ôba! Talvez a iniciativa tenha sido influenciada pelo selo de “amiga das árvores”, dado pela ONU. Se for, valeu. Estamos aqui à espera dos resultados.

Agregando mais informações sobre o tema: o primeiro estudo realizado sobre o número de árvores que o planeta pode suportar foi publicado pela revista científica Science e no site da BBC em 2019. A notícia traz informações que corroboram nossa preocupação com as árvores.  Antes de mais nada, calcula-se que o planeta tenha, no total, cerca de três trilhões de árvores. Mas ele precisa de 1,2 trilhão de novas árvores para conter o aquecimento.

“Seguramente podemos afirmar que o reflorestamento é a solução mais poderosa se quisermos alcançar o limite de 1,5 grau [de aquecimento global], disse Thomas Crowther, cientista e ecólogo britânico, à reportagem.  

O estudo concluiu que há ainda um total de 1,8 bilhão de hectares de terra no planeta em áreas com baixíssima atividade humana que poderiam ser transformadas em florestas. 

Como se vê, soluções existem, e muitas estão mesmo ao alcance dos cidadãos comuns e preocupados. Uma das grandes vantagens de se plantar árvores, segundo estudiosos, é manter viva a relação entre as pessoas. É uma atividade que agrega e faz bem.

Nossa sugestão é olhar em volta para tentar descobrir, no seu bairro, pessoas com quem se juntar para adotar a iniciativa. Aí sim, nosso selo de cidade amiga das árvores será justo. Por enquanto, é só uma promessa.

Neste site há uma lista de árvores que podem ser plantadas nas cidades sem causar problemas.

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