A força que nos traz as coisas belas

Ganhei este pé de Manacá de um porteiro vizinho há cerca de três, quatro anos.

Cuidei bem dele. Comprei um vaso grande, pus manta, terra boa.

De vez em quando ele flora, mas só um pouquinho. Passo pelos outros pés de manacá que tem aqui no entorno e fico bolada. Mas, tudo certo, direito dele não querer florir tanto.

Até que um dia um jardineiro que cuida do jardim decidiu podar meu pé de manacá. Ele estava grande, de fato, e meio desconjuntado, de fato. E continuava sem florir. Mas eu gostava dele assim mesmo. Podado, foi controlado. Submetido às regras de nossa estética. ‘Planta é bonita e deve enfeitar o ambiente, por isso precisamos dar um jeitinho sempre”. Ora bolas, eu acho planta bonita de qualquer jeito. Para falar a verdade, nem gosto muito dessa nova onda, de amarrar orquídeas em troncos de árvore. Mas, enfim….

Vida que segue.

Fato é que o manacá não gostou nada de ser podado. E começou a minguar, a minguar. Além de não florir, ele minguou. Comprei uma vitamina natural, passava diariamente para conversar um pouco com ele. E nada. Ele continuava minguando.

Há cerca de dois meses, eu achei que estava morto. Muito triste, diariamente o visitava, mas os galhos quase inteiramente secos só me desanimavam. Nada a fazer, pensava eu.

Até que ontem, alvíssaras!!! Um dia antes de entrar setembro, comecei a ver pequenos brotinhos da planta. Hoje tirei fotos, e corri aqui para compartilhar. Feliz da vida. E fui à estante reler um pouco de “Nação das plantas”, escrito pelo italiano Stefano Mancuso, uma autoridade mundial e neurobiologia vegetal.

Mancuso faz uma espécie de Constituição dos seres da flora, o que chama de “Carta dos Direitos das Plantas”, com oito artigos. O primeiro deles, que dialoga especificamente com o tempo que estamos vivendo no país, é:

“A Terra é casa comum da vida.

A soberania pertence a cada um dos seres vivos”

Soberanamente, meu pé de manacá decidiu que vai florir sempre quando desejar. E me mostrou, claramente, que não quer intervenção em seu processo de crescimento. Muito bem. E eu ouvi. Assim vamos seguir, respeitando mutuamente um ao outro.

Avatar de Desconhecido

About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário