
Fato é que a vida nos ensina e a natureza exige mais.
“Amelia, seu blog tem dois problemas: você não publica com regularidade e escreve textos muito longos”.
O que fazer, senão concordar com o amigo que me fez este alerta?
Mas… concordar não significa ter condições de fazer mudanças. O blog é errático porque quando eu tenho compromisso com trabalhos free lancers (necessários para pagar contas) eu não tenho condições de me dedicar. E os textos são longos porque são tantos e tão bons assuntos, que não dá para reduzir, simples assim.
Hoje, porém, vou tentar um novo modelo. Escreverei três pequenos textos sobre notícias que me chegaram e que podem ajudar a engrossar nosso caldo de reflexões sobre o tipo de desenvolvimento e civilização que queremos:
O primeiro tema me fez viajar no tempo. Em junho de 2006, fui convocada para uma entrevista coletiva, em Manaus, em que a empresa Phillips lançaria seu primeiro relatório de sustentabilidade. A convocação fazia sentido porque, até então, a empresa seguia o conceito de responsabilidade social corporativa, que passava a abandonar por ter percebido o esgotamento dele.
Desce o pano, e vamos para julho de 2025. A notícia agora é que a Natura, empresa que sempre teve sua marca atrelada às questões socioambientais, apresenta seu relatório que chama de Visão 2050. No documento, ela expressa seu desejo de não querer ser mais uma empresa sustentável, e cria um novo emblema: “empresa regenerativa”.
O que isso quer dizer? Quer dizer que, em vez de repor ao meio ambiente os recursos que dele retira, a ideia é investir em práticas que contribuam para a resiliência do solo, das florestas, recuperar os recursos naturais que utiliza na produção de seu produto. “Empresa regenerativa” é, sim, um conceito criado especialmente para a Natura, mas o modelo não é tão novo.
Em 2022 o ex-CEO da Unilever Paul Pollman, lançou o livro “Impacto Positivo”, juntamente com Andrew Winston. As empresas de impacto positivo, segundo o executivo, são aquelas que operam dentro de limites naturais para respeitar o planeta.
“Parte disso parecerá familiar aos defensores da sustentabilidade, mas uma coisa é falar, outra é agir”, escreve Paul Pollman.
A distância entre intenção e gesto parece que tem sido a marca de nossa era. E são boas intenções, na maioria das vezes, que produzem algum bem estar, talvez maior do que o impacto negativo que as produções causam.
Mas é preciso mais para provocar mudanças reais. 80% dos estragos no meio ambiente estão sendo feitos por 57 empresas, que operam em apenas 34 nações, segundo o Dados Carbon Majors. E, em maio deste ano, um estudo publicado pela Nature Communications mostrou que as metas atuais de aquecimento que os países estão debatendo nas COPs não impediriam o colapso das camadas de gelo na Groenlândia e na Antártida, o que pode afetar milhões de pessoas em áreas costeiras.
Seja a mudança de emblema de vinte anos atrás, seja a de agora, fato é que a vida nos ensina e a natureza exige mais.
SEGUNDO TEMA
Os indígenas não têm assento nem voto na COP30, apesar de, em 2018, a relatora da ONU para os Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, ter declarado serem eles os verdadeiros guardiães das florestas. Mas, aqui e ali, há meios de contornar e dar voz a eles, por formas indiretas. “Diálogos pelo Clima”, do Programa Copaíbas, faz este papel ao lançar o livro “Comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas: impactos e soluções na agenda climática”.
Este é o segundo tema do nosso post.
Na publicação, o artigo “A voz dos povos indígenas e a (in)justiça climática”, escrito por Suliete Gervásio Monteiro, lembra os efeitos causados pelos eventos extremos e explicita o papel importante dos povos indígenas para tentar conter o desastre:
“A seca que ocorreu em 2023 (no estado do Amazonas) atingiu 633 mil pessoas. Segundo boletim divulgado pela Defesa Civil, das 62 cidades do estado, 59 ficaram em situação de emergência por causa da estiagem. Ainda de acordo com a Defesa Civil, 158 mil famílias foram afetadas pela seca. Devido a essa situação, o governo do estado decretou situação de emergência em 55 dos 62 municípios. Em Manaus, a seca é a pior registrada em 121 anos: a cota do Rio Negro foi 12,89 metros, a menor registrada desde 1902, quando começaram as medições do volume do rio. As populações indígenas ribeirinhas sentiram e sofreram os impactos da seca nos rios Solimões e Negro, influenciando as dinâmicas socioculturais do povo. Nesse contexto entra em cena a (in)justiça ambiental. Sendo os povos indígenas os responsáveis pela conservação das florestas por meio de seus territórios e seus saberes milenares, são os que sofrem diretamente os impactos das mudanças climáticas”.
É bom quando se consegue mostrar, em números, que é sobre vidas – humanas ou não – que se está falando. O aquecimento global – que já superou o teto de 1.5 grau acordado em 2015, na COP21 – tem efeitos diretos na qualidade de vida e na vida. Por isso ser tão urgente ter um fundo para ajudar os países pobres, os indígenas, os ribeirinhos, para enfrentarem os desastres que estão cada vez mais fortes e frequentes.
“Os apoios e financiamentos climáticos contribuem diretamente para o sucesso e a ampliação da atuação das comunidades tradicionais no enfrentamento às mudanças climáticas”, escrevem Luiz Eloy Terena e Caíque Ribeiro Galícia no artigo “Construção do bem-viver dos povos indígenas no Brasil” .
A publicação, inteiramente dedicada a destacar o protagonismo de comunidades tradicionaos, quilombolas e indígenas no uso sustentável da sociobiodiversidade, no combate ao desmatamento e na resposta às mudanças climáticas, pode ser acessada, gratuitamente, na biblioteca virtual no site da COPAÍBAS.
TERCEIRO TEMA
Por último, achei bastante interessante a notícia de que a ONU criou o Dia Internacional das Cooperativas, que comemorou em 8 de julho com uma celebração de alto nível em sua sede em Nova York. A instituição não anda colaborando para o que se propôs quando foi criada – manter a paz e a segurança globalmente – mas funciona, muitas das vezes, para criar formas de propor temas que são importantes para a humanidade.
É o que parece ser o caso. Com a criação da efeméride sobre as cooperativas, que vem na sequência da criação do Ano Internacional das Cooperativas 2025, sob patrocínio da Mongólia e do Quênia, a ONU reconhece o papel delas na construção de uma civilização diferente. E uma sociedade que tem tudo para ser mais inclusiva, já que embute o sentido de socialização.
O tema do ano é “Cooperativas constroem um mundo melhor”, segundo destaca o impacto global duradouro das cooperativas, posicionando-as como soluções essenciais para os desafios globais da atualidade. Antonio Guterres, secretário da ONU, acredita que as cooperativas contribuem “para o desenvolvimento sustentável em dimensões sociais, econômicas e ambientais, mostrando como as cooperativas são motores essenciais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU até 2030”. O tema também enfatiza a capacidade única das cooperativas de promover o crescimento inclusivo e fortalecer a resiliência comunitária.