Sobre emergências climáticas e Zonas Azuis de vidas centenárias

Fez muito bem o presidente Lula quando, num de seus discursos durante o encontro do G-20, na Índia, esta semana, deu materialidade à emergência climática. Ao criticar o “descompromisso com o meio ambiente”, Lula lembrou que o aquecimento global “modifica o regime de chuvas e eleva o nível dos mares”. E deu como exemplo a tragédia que ainda estava em curso no Rio Grande do Sul, estado que conta com o quarto maior PIB do país e foi arrasado por um ciclone, no início do mês, que deixou 43 mortos (registrado até domingo dia 10), 46 desaparecidos e milhares de desabrigados.

“Agora mesmo, no Brasil, o estado do Rio Grande do Sul foi atingido por um ciclone que deixou milhares de desabrigados e dezenas de vítimas fatais. Se não agirmos com sentido de urgência, esses impactos serão irreversíveis. Os efeitos da mudança do clima não são sentidos por todos da mesma forma. São os mais pobres, mulheres, indígenas, idosos, crianças, jovens e migrantes, os mais impactados. Quem mais contribuiu historicamente para o aquecimento global deve arcar com os maiores custos de combatê-la. Esta é uma dívida acumulada ao longo de dois séculos”, disse o presidente.

É da saúde dos humanos que se está falando. E por que o sentido de urgência? Porque há tempos esse alerta vem sendo feito.

Para ilustrar o que digo, peço licença aos meus leitores para fazer uma visita à História. O ano era 1969. Na XXIII Assembleia Geral das Nações Unidas, uma resolução propondo a realização de uma Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano foi aprovada. Começam então as tratativas para sua realização na capital sueca, país que se candidatou para sediar o evento que aconteceria em 1972.

 A época era propícia. No mesmo 1969, a divulgação da primeira foto da Terra vista do espaço tocou o coração da humanidade e abriu caminho para ampliar o debate iniciado em 1968 pelo Clube de Roma, um grupo formado por setenta cientistas, acadêmicos, economistas, industriais e membros de instituições públicas dos países ricos. Naquele foro de discussão ficou claro que as preocupações com o meio ambiente já tinham saído da esfera de uma parcela alternativa da sociedade e chegado ao andar de cima.

Apesar dessa espécie de aval dos mais ricos, ou talvez mesmo por causa dele, a Conferência de Estocolmo foi uma reunião à qual os países pobres compareceram com um pé atrás. O medo era que as questões ambientais fossem usadas pelos países desenvolvidos para tirar o tapete de quem estivesse no caminho da industrialização (leia-se, do maior consumo de combustíveis fósseis e rumo à poluição).

Não vou cansar vocês contando detalhes sobre a reunião que abriu as portas para que o meio ambiente passasse a fazer parte dos debates entre nações. O que me interessa dizer, para completar minha linha de raciocínio, é que o tema, embora em pauta, tinha um caráter anódino. O assunto era simpático, a mídia conseguia atrair leitores com boas fotos, mas as questões climáticas ocupavam o nicho de situações que vão nos afetar num tempo ainda distante. Havia, sempre, um valor mais alto que ganhava prioridade, no campo da política, da economia. E este cenário não está muito diferente ainda hoje.

Por isto achei importante o fato de o presidente Lula, ocupando uma liderança mundial incontestável, ter atualizado o tema. Não é mais num tempo distante que os eventos extremos vão nos afetar. Está acontecendo agora no Rio Grande do Sul. E os governos precisam ficar atentos aos alertas científicos e ter políticas públicas preventivas (há muito a ser feito) voltadas para esses tempos de eventos extremos, o que faltou ao governador Eduardo Leite, via de regra à maioria dos governantes.

 Ocorre que já em Estocolmo, na primeira reunião para debater o meio ambiente, as prioridades foram traçadas. A declaração final, assinada por todos os países, embora tenha evocado a luta contra a poluição, alertado para a finitude dos recursos naturais e retratado até mesmo a necessidade de se transferir “somas substanciais de assistência financeira e tecnológica” para complementar os esforços dos países pobres na luta contra os desastres ambientais, ela também deixou registrado, no Princípio 11, que…

“As políticas ambientais de todos os Estados devem ser orientadas no sentido de reforçar o potencial de desenvolvimento presente e futuro dos países em desenvolvimento, e não afetar adversamente esse potencial, nem impedir a conquista de melhores condições de vida para todos”.

Ainda não havia o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês), criado 16 anos depois. Só com a ajuda dos cientistas que trabalham no Painel de forma colaborativa é que ficou comprovado, sob a ótica da Ciência, que essa “conquista de melhores condições de vida para todos” pode custar e muito. Os impactos do aquecimento global, segundo o IPCC, incluem eventos extremos severos, como o ciclone que atingiu o Rio Grande do Sul.  

Um dos estudos do Painel, publicado em 2018, deixou claro que as atividades humanas já causaram cerca de 1 grau de aquecimento. E que, a continuar como agora, “é provável que o aquecimento global atinja 1,5 ºC entre 2030 e 2052”.      

Não se pode afirmar que nada foi feito desde 1972 até agora para mitigar os danos causados pela ação humana ao meio ambiente. Mas, é fato incontestável, que o que tem sido feito é pouco para dar o resultado necessário e garantir boas condições de vida aos humanos mais pobres afetados pelos eventos. Falo especificamente sobre os mais vulneráveis,  já que os mais abastados sempre terão várias chances a mais para se proteger. Eles sempre terão Marte…

As Zonas Azuis

Uma linha de raciocínio vai puxando a outra, num ritmo quase infindável, o que se explica pelo fato de estarmos tratando de nossas vidas no planeta. Assim, estava eu envolvida com esses pensamentos pós discurso do presidente Lula, quando minha amiga Martha Neiva Moreira me mandou uma dica: “Assista ao documentário ‘Como viver até os 100 anos: o Segredo das Zonas Azuis’ na Netflix. Você vai gostar”.

Dito e feito. Vi, gostei e ampliei pensamento. Trata-se de uma longa viagem feita pelo escritor Dan Buettner, decidido a descobrir por que há locais, que ele chama de Zonas Azuis, onde as pessoas vivem mais de cem anos e se mantém ativas, lúcidas, felizes.

Em linhas gerais, as Zonas Azuis são locais pacíficos, bonitos, a natureza é preservada, as pessoas se alimentam de produtos locais feitos por elas, não tomam remédios, não usam telas, estão sempre em grupo e se movimentam muito. Em resumo: não deixam que as máquinas façam coisas que elas próprias podem fazer.

Para além de tudo isso, em Okinawa, pequena localidade japonesa que produz a população mais longeva da história da humanidade, seus centenários deixaram Dan Buettner curioso quando falaram em Ikigai.

“Se perdermos o ikigai, é porque estamos prestes a morrer”

Ikigai pode ser traduzido por senso de propósito, energia de vida. É de cada um, singular. Não depende de ter ou não dinheiro, de ter ou não mérito. Sente-se naquele exato momento de abrir os olhos todas as manhãs.

Se eu estivesse produzindo um documentário, este seria o momento de trazer imagens belíssimas de convivência pacífica entre humanos e a natureza. A voz in of do locutor espalharia questões profundas, sem resposta, que sempre alimentam nossa capacidade de seguir pensando e pesquisando.

Para mim, este momento chegou hoje pela manhã, quando me sentei num banco à beira da Praia do Flamengo e apenas observei as pessoas em lazer, usufruindo de uma natureza que ainda se impõe, bela e potente.

Recorro a um dos livros que mais gosto sobre o tema. “Estocolmo, Rio, Joanesburgo – O Brasil e as três conferências ambientais das Nações Unidas” foi escrito pelo embaixador André Corrêa do Lago, que esteve na coordenação desses três encontros. Num trecho, ele relata que uma das teses que ganhava adeptos de respeitáveis cientistas ingleses na década de 70 falava que era preciso limitar a população mundial a 3,5 bilhões. Dessa forma, pregavam eles, felizmente numa proposta que morreu no nascedouro, seria possível garantir vida com qualidade para todos os habitantes do planeta.

Seria cruel limitar nascimentos, como as guerras são crueis, como as pandemias são devastadoras, até porque, por óbvio, o controle do crescimento atingiria só os mais pobres.

 Tenho a sensação, muitas vezes, que falhamos quando não damos valor à vida. Simples assim.

Uma das Zonas Azuis descoberta por Dan Buettner fica na Costa Rica, pequeno país da América Central, com uma população menor do que a cidade do Rio de Janeiro, que tem ficado cada vez mais longeva. Numa conversa entre o apresentador e uma funcionária do governo federal, ela diz a frase que, se não responde as minhas questões, serve para alinhavar e terminar estas reflexões:

“Nós não temos recursos naturais. As pessoas são nosso recurso natural”.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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2 Responses to Sobre emergências climáticas e Zonas Azuis de vidas centenárias

  1. Avatar de Lena Miessva Lena Miessva disse:

    Excelente, como sempre, texto. Vou assistir ao documentário, que já tinha ouvido falar. Ótima dica, Amélia.

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