O tempo, esse feiticeiro

Quero falar sobre acontecimentos, sobre a potência do tempo quando ele é vivido intensamente. Quero falar de uma noite que começou com o convite de uma amiga para ir ao lançamento de um livro.

Francis Hme e seu piano no charmosíssimo espaço do Pro-Saber. Foto de Lucila Soares

A noite estava gostosa, como são gostosas as noites de inverno no Rio. Um casaquinho, uma calça comprida, e já estava eu aquecida e confortável, sendo recebida com carinho na simpática casa do Instituto Pró-Saber, uma faculdade particular gratuita que trabalha pela valorização da educação.

Dois dos meus sentidos foram aguçados. O primeiro foi a visão. Adoro ver espaços bem resolvidos, enfeitados na medida certa e sem luxo. Um banquinho com flor chamou logo a minha atenção quando o vi ornando o palco que tinha um piano. E foi só aí que percebi: o livro que estava sendo lançado é o “Francis Hime – Ensaio e entrevista’” da Editora 34, escrito por André Simões. Sim, e Francis Hime iria cantar!

Como disse aí em cima, estou aqui para falar sobre a potência do tempo.

E da memória.

Pois bastou o primeiro acorde do piano de Hime, de quem sempre fui fã, para me levar aos anos em que se esperava ansiosamente os discos dos nossos cantores prediletos. Hime, Chico, Milton, Gil, Caetano… como seriam as capas? Que músicas traria? Tempo de aguçar a audição, aliada à memória.

Naquele tempo… a vitrola não parava. Não tínhamos como levar para o ônibus, o trabalho, aquelas músicas, como hoje se faz, com um pirulito espetado no ouvido (sem preconceito, juro! Só estou constatando). Por isso, era preciso esperar um tempo, ter paciência para chegar em casa, abrir cuidadosamente a capa e degustar cada verso ou redondilha. Não demorava muito, e já estava tudo decorado.

Estava eu mergulhada nesses pensamentos quando Francis Hime começou a tocar. As primeiras notas já me fizeram reviver aquela que eu era. Será que deixei de ser algum dia? “Quando olhaste bem/ os olhos meus/o teu olhar/ era de adeus…”. Ora, como não sentir o coração quentinho? Seja lá o que for que eu tenha vivido sob essa canção, com certeza o vivi de maneira  apaixonada.

E a paixão nos torna resistentes. Aos 83 anos, Francis Hime tocava com uma força e vibração que o tornava atual, contemporâneo de qualquer jovem da plateia. Hime tocava apaixonadamente. Será a paixão a potência do tempo?

O livro é um primor. Andei com ele debaixo do braço pela rua afora e, em casa, com os óculos adequados, comecei a folheá-lo. Está ali a história da  música brasileira, de uma época que eu vivi!

A partir de uma entrevista com Francis Hime – que toca de canção popular a música de concerto, que fez trilhas sonoras, que sempre se colocou politicamente do lado certo – Andre Simões nos brinda com… a nossa história. A crônica de uma geração que viveu num tempo em que se esperava para ouvir um disco.

Ah, muita coisa está embutida nesse comportamento que hoje pode parecer  tão anacronico.

E não é que me lembrei de cada verso de “Passaredo”, uma das minhas prediletas?. “Toma cuidado/bico calado/ que o homem vem aí” é um dos versos que me acompanham quando caminho e converso com a passarinhada aqui do bairro. Eu, representante da espécie dos predadores.

Volto a 2023, à noite de junho gostosa que foi me nutrindo de boas, sensíveis, emoções. Ali na mesa, como mediador, estava Gregório Duvivier, o ator que reconheço por me fazer dar algumas boas risadas. Respeitoso, pouco falou, mas o jeito com que olhava dava para notar que estava comprometido, emocionado com o que via.

O show já ia à metade, canções após canções, quando Andre Simões fez o anúncio da 71ª parceria de Francis Hime: ele mesmo, Duvivier. E lá vem a música escrita pelo escritor humorista: divertida, cantada também de forma divertida, termina com um; “Guarda aí meu whats app/ para eu ser seu plano B”. Dei risada. E foi bom ouvir, encaixou-se no contexto do tempo, esse fugaz.

Nosso espetáculo, quase intimista, continuou. Bem solto e à vontade, Francis Hime contou que certa vez, num bar em terras estrangeiras, ouviu o músico que fazia o show anunciar:

 “Agora vou tocar “Minha” (letra de Ruy Guerra e canção de Hime), composta por um excelente músico brasileiro, Francis Hime”.

“Era eu!!”, disse ele, divertido.

E não é que um dos grandes nomes da MPB, já consagrado à época, emocionou-se com a menção a seu nome e, no fim do recital, ficou envergonhado de se apresentar ao músico?

Sou dessas.

Ao som de “Vai passar”, última canção da noite, que mobilizou a plateia e me fez também dar uns passinhos desengonçados, eu caminhei direto para a mesa onde os livros eram vendidos, comprei e saí correndo. Uma amiga ainda me ofereceu: “Eu pego o autógrafo para você”. Pensei um segundo, mas preferi me agarrar ao livro e levá-lo logo para casa.

Sim, eu tinha um compromisso, uma aula online. Mas, será mesmo que eu não poderia ter esticado aquele tempo, ido lá, apresentar-me como fã e dado um abraço no ídolo?

Tempo que se foi. Claro, em casa eu aproveitei também a aula, onde estamos lendo o pensamento de Henry Bergson e Gilles Delleuze sobre o tempo, a síntese do tempo, o tempo memória…

A emoção me embalou uma noite de sono tranquila. Não sonhei com o tempo de cantar chorando aqueles versos. Não me ressinto dos amores perdidos, pelo contrário, eu agradeço à minha capacidade de me apaixonar.

 Porque com paixão se preenche a potência do tempo.

Hoje pela manhã, quando ouvi o presidente Lula discursar na Cúpula de Paris, mais ainda me convenci de que é preciso tesão para viver intensamente seja o tempo que for. Aos 77 anos, Lula falou firme, forte, apontou o dedo para a ferida de nossos tempos.

Não sei se as palavras de Lula vão servir para, como ele disse, trazer os desiguais à mesa de debates. Mas dá alento ouvir isso, dito de maneira potente, por um… septuagenário apaixonado, também, pelo que faz.

O tempo, esse feiticeiro. É bom entender melhor as dobras que ele faz em cada um de nós.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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2 Responses to O tempo, esse feiticeiro

  1. Avatar de andresimoes andresimoes disse:

    Obrigado pelas palavras gentis sobre o livro, Adelaide!

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