Lá no cocuruto do caminho que às vezes uso para descansar a mente e os olhos, estava eu, justamente, fazendo um exercício qualquer quando ouvi, ao fundo, uma voz feminina:
“Mas meu filho, espera um pouco. Estou aqui ainda desenrolando a linha. Eu não sei soltar pipa, estou aprendendo”.
Curiosa, virei a cabeça e vi a cena. Um menino de seus 8, talvez 9 anos, segurava impaciente a pipa enquanto a mãe, do outro lado da linha, tentava desfazer um nó bem robusto. Ia demorar…
Estava assim entretida com a cena quando um homem se aproxima. Um vizinho talvez, alguém que passava pelo cocuruto para voltar ou ir… Fato é que o homem se condoeu da situação, parou, pegou a pipa, começou a desfazer o nó. O menino se aproximou, ambos trocaram alguma informação.
Larguei meu exercício de alongamento, tomei meu caminho que, forçosamente, passaria pelo trio. Não me contive e comentei com a mãe:
“Nada como alguém experiente para resolver uma situação de crise, né?”, disse eu, rindo.
Ela entendeu, devolveu o sorriso, e me disse:
“É o que estou dizendo ao meu filho: não aprendi a soltar pipa, isto é coisa de menino… Mas ainda bem que estou aprendendo. E. se ele tiver uma filha, já combinou comigo que vai ensiná-la!”
Acenei para ela e segui rua afora, descendo, até meu destino. E, como não podia deixar de ser, caminhei pensando. Já que o “novo normal” está sendo condenado por conta de sua viralização, usarei aqui outra expressão: novo cotidiano. Sim, a cena faz parte do cotidiano de pandemia. Se não fosse o isolamento obrigatório, possivelmente aquela mãe estaria, àquela hora, em algum escritório, sala de aula, ateliê, redação, sei lá. E o filho estaria na escola.
Ou seja: ainda há o que se espremer de positivo no momento doloroso que estamos vivendo. A relação entre crianças e adultos está florescendo. E ambos estão tirando disso um bom proveito, como fui capaz de perceber naquela caminhada.
Para mim também foi muito bom porque ativou em mim um pensamento muito gostoso. Lembrei-me de um dia que, instigada pelos amigos, resolvi levar meu filho Pablo ao Maracanã. Ele devia estar com 7, 8 anos, o pai (que não morava mais conosco) não gostava muito de futebol, eu não tinha esta formação. E Pablo, até aquela altura, nunca tinha visto um jogo ao vivo.
Escolhi uma partida bem pouco interessante, de jeito que só encontrássemos lá os aficionados. Meu medo era o tumulto. Lembro até hoje que o jogo era Bangu X Flamengo. Era um sábado cinza, à tarde, e eu deve confessar que não estava, exatamente, muito confortável com o programa. Fui pela causa. Queria que meu filho conhecesse o Maraca e tivesse a chance de se interessar por futebol. Lá fomos nós.
Comprei lugar na arquibancada, afinal a ideia era fazer o programa genuíno. A partida começou logo assim que chegamos. Mas, como eu não entendia patavinas do que estava acontecendo em campo (confesso minha total ignorância, que continua até hoje), comecei a me sentir atraída pelo movimento das torcidas. Era lindo ver a Ola!
Quando dei por mim, Pablo e eu tínhamos largado o campo e estávamos, ambos, extasiados com o que acontecia nas arquibancadas. Houve um gol e quase comemoramos, instantes antes de percebermos que era do time que ocupava a outra arquibancada.
Foi bom e divertido demais. Mas não deixou no filho o gosto por futebol. Nem me deixou vontade de repetir o programa.
É bom demais quando a memória nos aviva sentimentos alegres. Ajuda a enfrentar a pandemia e, de quebra, segundo a Medicina Tradicional Chinesa, fortalece nosso sistema imunológico. Êita caminhada boa esta!
A foto foi tirada por Sergio Ramalho há décadas. Na cena, além de mim, o filho.
Muito bom Amélia. Fico feliz de ver seu blog de volta
Obrigada, querido! A partir de amanhã, segunda-feira, voltará com regularidade e notícias. beijos