Texto curtinho só pra dizer… que bom!

Com a irreverência característica, o carioca apelidou de Caribrejo a Praia do Flamengo depois que ela foi declarada limpa pelos órgãos competentes. Na verdade, o que fizeram foi endereçar para o emissário submarino o esgoto que estava sendo lançado na praia. Não sei o que vai acontecer quando e se um dia o oceano não der mais conta e resolver devolver o “presente’.. Mas hoje não é dia para se falar em catástrofe.

Quero dizer que passei uma boa parte da manhã no Caribrejo, eu e meu cachorro, e voltei de lá com a melhor das impressões. Famílias com crianças e cães, casais de namorados, clima de festa, de confraternização. Tinha lá um pessoal com som de funk bem alto, mas não perturbou.

O mar ensaiou algumas ondas para divertir a criançada e o sol se escondeu, a tempo de nos dar chance de respirar sem aquele calor sufocante. Ou seja: tudo conspirando para que a festa da virada no Caribrejo não fique nada a dever da de Copacabana. Se eu fosse turista, daria uma espiada, até para contar coisas novas sobre o passeio à Cidade Maravilhosa.

E, na volta do passeio, a cereja do bolo: peguei um táxi dirigido por Tina. Cilios postiços, unhas idem, idade que se aproxima ou avança os 60. Falante, pero na medida para não irritar o passageiro. Conversa vai, conversa vem, Tina me conta que faz parte de um grupo de taxistas mulheres. No zap, elas estão sempre se perguntando umas às outras como estão as coisas. E, se alguém desaparece por horas, todo mundo se mobiliza pra saber se alguma coisa de ruim aconteceu com aquela.

É o jeito que encontraram de não se curvarem à violência urbana e ganharem seu sustento.

Fiquei pensando que é assim que tem que ser mesmo. Somos 56% vivendo em cidades no planeta, e essa porcentagem vai aumentar. Cidades são redutos de criatividade, de oportunidades, mas também podem se tornar reduto de violência e maus feitos. Para enfrentar tudo isso, vamos precisar criar saídas. Elas existem.

Um novo ano menos quente, mais solidário, com mais saúde e tempo para contemplar tudo aquilo que, muitas vezes, atropelamos sem fazer contato.

(PS): Não tenho foto para este post porque não ando com celular, só quando estou trabalhando. É meu jeito de não sair perdendo muito se um ladrão cruzar meu caminho.

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Frio, vulcão, terremoto, risco de afundar: a Islândia me faz pensar como é bom morar no Brasil

Marcelo está rodando o mundo com a parceira e causando em mim ora inveja, ora alívio por não ser eu a enfrentar os desafios que uma viagem dessas pode trazer. Mas provoca também reflexões. Uma delas compartilho com vocês, na esteira do término da Conferência das Partes 28, que acabou em 13 de dezembro, em Dubai.

Primeiro, vou compartilhar as minhas impressões sobre o que ficou decidido no texto final da Conferência, conseguido, como sempre, a duras penas pelos 193 países que se sentam anualmente, convocados pela ONU, para debater sobre o clima. Em poucas palavras: foi um passo à frente na direção de se tentar a transição energética para conter o aquecimento global.

Mas um passo não é um salto, como bem disse Andrew Deutz, Diretor Geral de Política Global e Financiamento para a Conservação na The Nature Conservancy.

Esta foto é reprodução do jornal islandês Mbl.is / Kristinn Magnússon

Em linhas gerais, o documento acordado entre as partes traz uma linha ligeiramente nova, falando muito mais em adaptação do que em mitigação dos impactos causados pelos humanos ao meio ambiente. Adaptação se traduz, por exemplo, no plano que a Prefeitura do Rio está anunciando, de arborizar parques na Zona Norte do Rio. Isto é tentar oferecer bem estar aos moradores no enfrentamento das ondas de calor que vão ser mais intensas e seguidas.

Um momento considerado significativo para os ambientalistas é que, no documento final, os países presentes na cimeira decidiram que é preciso abandonar os combustíveis fósseis. Vocês, caros leitores, podem estar pensando que isto é apenas uma bobagem, uma promessa boba. Mas esta decisão nunca tinha sido conseguida numa Conferência do Clima, daí a comemoração. E daí tais encontros terem tido sempre uma aura de retórica inútil.

O que não ficou decidido em Dubai foi como se dará esta mudança total de consumo. Nem em quanto tempo isto deve acontecer. De qualquer maneira, finalmente se conseguiu ter um registro, assinado pelos países, atestando aquilo que os cientistas vêm afirmando, no mínimo desde 1988, ano da criação do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês): as atividades humanas causam o aquecimento global com o excesso do uso de combustíveis fósseis.

E é preciso mudar isto. Mas… como?

É claro que há numerosas sugestões sobre a maneira como isto deve acontecer.  Leio muito a respeito e tirei uma conclusão sobre o melhor caminho: ouvir os povos originários. O bizarro é que justamente eles, que já foram chamados de “guardiões das florestas’ pela própria ONU, não têm assento na reunião decisória da Conferência.

Mas hoje vesti a capinha mágica de minha xará Amélie Poulain, e quero pensar que a ficha caiu e que os indígenas vão passar a ter voz.

Uma das premissas dos indígenas é de que é preciso olhar para a natureza como parte do homem. Não por acaso, esta também é a teoria de Stefano Mancuso, escritor e botânico italiano, que tem uma série de livros em que prova, com algumas evidências, que as plantas não sentem, mas pensam. O problema que estamos enfrentando hoje começou a ser criado justamente quando o homem passou a se ver como um ser superior a todos os outros seres vivos do planeta.  Ampliou seus territórios com máquinas e, assim,  eliminou tudo o que tinha à sua frente e servia como um ‘entrave ao seu desenvolvimento’.

A conclusão é tão óbvia quanto parece. Segundo o MapBiomas, os povos indígenas perderam menos de 1% de sua área de vegetação nativa nos últimos 38 anos. Nas áreas privadas, a perda foi de 17%.

Portanto, se alguém pode ensinar como deixar de emitir tantos gases poluentes sem precisar de tecnologias estrambolicas, por óbvio, são os povos indígenas. Como diz Ailton Krenak, o primeiro xamã a ocupar uma cadeira na Associação Brasileira de Letras, as populações indígenas fazem um serviço ambiental melhor do que as unidades de conservação, que precisam manter todo um esquema de fiscalização. As Tis preservam o meio ambiente de graça.

Muito mais foi discutido na COP, algumas novidades surgiram dos debates, entre elas a inclusão da expressão “sistemas alimentares resilientes” no parágrafo sobre adaptação. Para mim, o importante é que, pelo menos aqui no Brasil, a questão sobre os eventos extremos causados pelas mudanças climáticas está, finalmente, mexendo com a opinião pública. Tudo bem que o tema veio à baila por conta dessas ondas de calor que estão nos vitimando, mas não  importa.

Fato é que anteontem (17) foi divulgada uma pesquisa pelo Instituto Datafolha, com dados que mostram que 78% dos brasileiros entendem que as atividades humanas contribuem para o aquecimento global. É um bom caminho para se chegar à necessária mudança de hábitos de consumo.

E aqui eu volto à história do meu amigo viajante e às reflexões que seus relatos têm me propiciado. Eles estão na Islândia, onde no verão a temperatura média varia entre 10 e 14 graus. Lá, praticamente só tem verão (de junho a setembro) e inverno (o resto do tempo).

 No inverno, às 15h já é noite. Deve ser uma luta, por exemplo, para secar uma roupa ou se manter aquecido. A fonte de energia usada na maior parte do país é a geotérmica,  obtida a partir do aproveitamento do calor proveniente do interior da Terra que vai se transformado em eletricidade. Um processo caro e muito barulhento mas, segundo consta, pouco poluente.

Frio, vulcão, terremoto, risco de afundar: a Islândia me faz pensar como é bom morar no Brasil. Será que os habitantes da Islândia – cerca de 350 mil pessoas – temem as mudanças do clima? Ou, muito antes pelo contrário, estão torcendo para que lhes sejam concedidos dias mais quentes?

O país tem um mega dispositivo tecnológico que se destina a sequestrar carbono e faz parte do “Umbrella Group”. Este grupo de onze países (incluindo aí os Estados Unidos e Israel) posicionou-se contrário ao fato de o texto final da COP28 não ter cravado o fim dos combustíveis fósseis, sem mencionar a necessidade de um calendário para isto.

Quando escrevi este texto, o vulcão que hoje está apavorando, com razão, os moradores da cidade de Grindavik, porque decidiu se manifestar depois de 800 anos quieto, ainda não estava tão alvoroçado. Felizmente ninguém se feriu, embora não seja nada fácil imaginar perder a casa e os bens. Bom, aqui no Brasil temos nossos problemas dessa ordem também. E não temos tanta rapidez na hora de consertar as coisas.

Mas, volto à questão: será que a população da Islândia, país com um regime parlamentarista, está interessada em conter o aquecimento? A resposta pode ser sim, considerando que é um país insular e que, como todos os países insulares, está sob risco de sumir sob as águas por causa do aumento dos oceanos.

Tempos difíceis esses que estamos vivendo, não?

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‘Cabaré Coragem’: espetáculo que esquenta, anima e faz pensar

“Amelia, você não é mais a mesma!”

Foi uma auto censura, o que é pior do que se eu tivesse recebido a reprimenda de algum amigo ou alguma amiga.

Explico o motivo de tanto rigor comigo mesma. Tinha acabado de assistir a peça ‘Caberá Coragem’, dirigido por Júlio Maciel, que o Grupo Galpão está encenando no Teatro Rival, Centro do Rio, até dia 10. É um show animado, com uma estética muito interessante, com mensagens de repúdio ao sistema capitalista. O “coragem” do título é uma alusão à “Mãe Coragem e os Seus Filhos”, de Bertold Brecht, e o pensamento crítico do poeta alemão permeia todo o espetáculo.

Sim, é um espetáculo. O Teatro Rival, em algum momento, se mostra até pequeno. Não só por causa das estripulias dos personagens, como por conta do som, que fica muito alto, sobretudo para quem está perto do palco. Era o meu caso. Começa aí o caminho para minha autocensura.

Assim que entrei no Teatro, que por sinal está lindo, pedi uma cervejinha  para saborear o momento. E o som alto começou a me provocar uma leve sensação de desconforto, que foi se ampliando, não a ponto de não me deixar curtir o espetáculo. Mas, quando os atores chamaram a plateia para interagir, dançando no palco durante o intervalo, eu me acanhei.

Não sou de dizer “no meu tempo’, porque meu tempo é hoje, agora, vivendo a intensidade da vida. Mas reconheço e respeito os limites que o tempo vai impondo ao meu corpo. Se eu tivesse menos tempo de vida, certamente teria pulado para o palco e aproveitado – aí sim! – o som bem alto que impulsionava quem quisesse dançar. Percebi até um casal bem heterogêneo – ele com roupa de executivo, ela bem dançarina – e fiquei pensando que ela o teria animado. Que delícia.

Animação é algo que não falta à festa/espetáculo do Grupo Galpão, e vale a pena assistir. Estamos precisando disso.

Penso que a bronca que me dei na volta à casa veio também na esteira de um certo mau humor provocado pelo absurdo desse alto verão extemporâneo aqui no Rio. Não no Rival, lá estava bem climatizado. Mas o calor está no ar, nos persegue pela cidade, e ainda exalava do chão, das paredes, à hora da saída do teatro, pouco depois das 21h. Parecia que eu estava em Cuiabá, Centro do Brasil. Lá, sim, é que sempre registra as maiores temperaturas. O Rio, gente!  O Rio… tinha que ter uma brisa a nos afagar depois de um dia de 40 graus, que hoje já são 50. Não há bom humor que resista.

Está ficando difícil achar graça nas coisas, e aí já traço o bordado do rumo da prosa com meu tema de estudo: as alterações climáticas. Não vou aqui repetir  o que os leitores estão lendo diariamente nas telas, nos sites de notícias. Trago apenas reflexões, de uma jornalista que cobre o assunto há vinte anos: sim, em 2003 foi para as bancas o primeiro ‘Razão Social”, caderno que eu editei no Globo por nove anos e que abordava o tema sob todos os aspectos, econômico, social, ambiental.

Quando se começou a falar sobre os impactos do aquecimento global, das mudanças do clima, a expressão mais usada era: “vamos salvar o planeta”. Hoje já se sabe que não é o planeta que precisa ser salvo, porque ele vai dar um jeito de expulsar daqui os seres que cometeram a gafe de não perceber que não são os únicos seres vivos a habitá-lo, e que deveriam ter respeito aos demais.

Reunidos na COP28, na esfusiantemente poluidora e quente Dubai, os líderes de empresas e nações estão tentando chegar a um acordo para minimizar os danos. Mas, vejam bem: o que está feito, está feito. O que estamos vivendo hoje no Brasil, e que a Europa viveu no verão, é o efeito El Niño (aquecimento do Oceano) embalado pelas mudanças do clima. E tudo que vem embalado pelas mudanças do clima fica mais intenso. Vimos isso acontecer, por exemplo, quando a ciclovia irresponsavelmente construída à beira mar carioca enfrentou sua primeira ressaca. Caiu, simples assim.

E vamos continuar usando petróleo, escavando para buscar petróleo? A resposta é uma só: sim. Porque o mundo se fez dessa forma, dependente do petróleo, em meados do século XIX.

E vamos continuar desmatando as florestas? Sim, porque muitos precisam ainda ganhar dinheiro com o que retiram de lá, e não há movimentos verdadeiramente robustos para se mudar isto por enquanto.

Estou sendo pessimista demais? Sim. É o calor.

Como sempre, estamos à espera do documento final da COP. O texto será seguido de comentários de ambientalistas, a maioria dizendo que ‘poderia ser mais ousado, mas que já se adiantou alguma coisa”. É nesse avanço que se aposta, e que as gerações futuras saibam disso. Aparentemente, a humanidade acordou, porque os eventos extremos alcançaram terras mais conhecidas, mais ocupadas pela ponta da pirâmide social.

E sabe quem consegue sistemas naturais e certeiros para lidar com todo esse cenário? Os indígenas. Mas… eles não têm assento na sala das decisões da COP28.

Hoje li um estudo, desses muitos que estão nos ofertando boas informações sobre o clima ultimamente, que dizia que o calor excessivo tem causado um aumento dos casos de suicídios. E hoje também, no supermercado, ouvi de uma senhora um lamento que me comoveu. Disse-me ela: “Se vai ser assim a vida, acho que vou preferir morrer mais cedo. Está muito ruim esse calor’.

Não concordei com ela. Penso que a vida vale a pena de qualquer jeito. Mas me emocionei.

A boa notícia é que já vem uma frente fria, e a partir de amanhã os termômetros vão baixar. Acho que, com a temperatura do corpo um pouco mais sensata, eu teria me aventurado a dançar um pouco no palco do ‘Cabaré Coragem’. Vou guardar essa vontade para a próxima vez.  

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Livro mostra a importância das florestas para a humanidade

Adoro livros. E há os que me emocionam, como neste caso. Em “Megaflorestas – Preservar o que temos para salvar o planeta”, o economista John W. Reid e o biólogo Thomas E. Lovejoy (Ed. Voo) oferecem, de forma emocionante, um quadro real sobre a importância de se preservar as florestas e, assim, ajudar a humanidade a continuar vivendo no planeta. Foi lançado ontem (28). 

Thomas Lovejoy não conseguiu ver a obra pronta, foi vencido por um câncer em 2021. Fiz uma entrevista com John Reid para o site #Colabora (https://projetocolabora.com.br/ods15/livro-revela-as-entranhas-das-cinco-maiores-florestas-do-mundo/) , e reproduzo abaixo. Se me permitem, quero sugerir, inclusive, que o livro seja um bom presente de Natal para uma pessoa que se interesse pelo tema. Vai ser um presente muito bem vindo.

“No dia 30 de novembro, o Brasil estará com uma delegação de mais de duas mil pessoas em Dubai, para a abertura da Conferência da ONU sobre o Clima, a COP28. Na avaliação que o embaixador Andre Correa do Lago fez em briefing para a imprensa no dia 20, o país chegará aos Emirados Árabes com “uma situação interna confortável por causa da redução do desmatamento”. O Prodes estimou queda de 22,3% no período de agosto de 2022 a julho de 2023 em relação ao período anterior, de agosto de 2021 a julho de 2022.

O foco dos líderes que se reunirão, convocados pela ONU, é baixar as emissões de carbono. E, como todo mundo já sabe, preservar as florestas é uma solução simples para alcançar esta meta.

Dois dias antes do início da COP28, será lançado o livro “Megaflorestas – Preservar o que temos para salvar o planeta”, no qual seus autores, o economista John W. Reid e o biólogo Thomas E. Lovejoy (Ed. Voo) oferecem de forma pungente, emocionante, um quadro real sobre a importância de se preservar as florestas e, assim, ajudar a humanidade a continuar vivendo no planeta. John  e Thomas não fizeram a pesquisa para escrever o livro no conforto de seus escritórios, encerrados em ambientes climatizados. Foi o contrário disso. Eles meteram o pé na estrada para nos ajudar a “abandonar o hábito de transformar florestas em paisagens de capim, arbustos, poeira e asfalto”.

Thomas Lovejoy, vencido por um câncer em 2021, não conseguiu ver a obra pronta, que ganhou um prefácio assinado pela ministra Marina Silva, do meio ambiente. Marina destaca a emoção contida no livro – “é um alimento para a esperança” –  onde os autores descortinam para o leitor o mundo desconhecido das cinco maiores florestas do mundo, às quais eles deram o nome de megaflorestas.

Taiga, a maior de todas, é chamada de floresta boreal e fica quase toda na Rússia e se estende também pelo continente europeu. A outra que recebe o mesmo atributo, por causa de Bóreas, deus grego do vento norte, é a Zona Boreal norte-americana, que começa no Alasca e se estende pelo Canadá. A floresta de Nova Guiné, ao norte da Austrália, é a menor das megas. Segue-se a floresta do Congo, no Centro da África, e a Amazônia, que segue por oito países independentes.

Thomas e John conversaram com muita gente e trazem, para nosso deleite, algumas informações fantásticas. Um exemplo é o do besouro-caçador-de-incêndio. O bichinho usa detectores de infravermelho no tórax para encontrar árvores queimadas e se põe à caça logo após um incêndio. Enquanto olhamos impactados a destruição causada pelo fogo, seres vivos se refestelam com as iguarias tostadas. É o ciclo da vida.

Além da descrição dos lugares visitados, os dois autores compilaram também muitos dados, a maioria que não nos causam orgulho da raça humana.

“Somente a perda de florestas tropicais emitiu cerca de 5 bilhões de toneladas métricas de CO2 anualmente na primeira década dos anos 2000. Para se ter ideia, o volume é maior do que todas as emissões da União Europeia no mesmo período”, contam.

Para se alcançar a meta que os líderes das nações buscarão atingir – aquecimento contido em 1,5 grau – os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC na sigla em inglês) recomendam que a perda de florestas seja completamente interrompida até 2030, lembram Thomas e John.

“Assim como a transpiração resfria o corpo humano, a água transformada em vapor absorve energia e resfria o ambiente circundante. É possível sentir este efeito de ar-condicionado no interior da floresta, mais fresco do que um local sombreado sem árvores como, por exemplo, sob um toldo”, relatam eles, parte do que viveram.

O livro tem 326 páginas, e é impossível fazer um resumo dos melhores momentos, porque há muitos deles. Daí ser uma publicação que merece estar na estante, não só de quem estuda e analisa o tema, mas também de jovens que merecem entender a profundidade do imbróglio em que a humanidade se meteu desde que resolveu encher o céu e os oceanos de carbono.

John Reid, atualmente morando na Califórnia, já visitou várias vezes o Brasil. Um dos seus territórios de pesquisa é o Vale do Javari, onde foram mortos Bruno Pereira e Dom Philips em junho de 2022. John era amigo e trabalhou com Bruno, com quem conversava semanalmente, mesmo morando longe. “Criativo, inovador e corajoso”, é como o autor descreve o indigenista em entrevista que ele concedeu ao Colabora.

“Esse tipo de compromisso dessas pessoas é que me faz sentir algo que não é otimismo, é encanto” disse ele.

Abaixo, a entrevista na íntegra:

No livro, vocês dizem que “Preservar grandes quantidades de carbono em florestas intactas é barato porque essas terras são remotas e o processo é simples. Tal oportunidade ainda é incrivelmente ignorada”. Por que ainda há tanta ignorância?

John Reid – Primeiro, quero destacar que nem todas as florestas estão sendo destruídas. Se temos  informações sobre custo de conservação é porque muitas florestas foram conservadas e há trabalho sério acontecendo para garantir a integridade dessas áreas. E o Brasil se destaca como um dos países que tem área de floresta tropical protegida. Mas tem a outra face da moeda, que é a destruição acontecendo em algumsa áreas publicas protegidas, a maior poarte áreas privadas, não destinadas, terra de niguém. Eu acho que, por um lado,  mesmo sendo mais barato conservar, ao conservar quem é beneficiado? Todos nós, toda a população de um país. Ao destruir uma floresta para tirar madeira, ouro, plantar coca, seja lá o que for, esse uso está beneficiando um pequeno número de pessoas. E essas pessoas podem e vão lutar para ter acesso àqueles recursos para se beneficiarem. E o cidadão que está longe e se beneficia da proteção, nem sempre sabe do que está acontecendo. Para enfrentar isso, é preciso um Estado disposto a fazer as ações no chão: fiscalização e a proteção, dando apoio para as populações locais que têm por tradição uma economia baseada na floresta para garantir os direitos e as possiblidades que eles têm de proteger essas áreas sem serem ameaçados e sem serem assassinados como foram Dom e Bruno.

Somos quase oito bilhões de pessoas no mundo, consumindo de forma estrondosa para a natureza. Para que a vida humana na terra possa seguir, com tudo o que os cientistas já disseram, com o que vocês já demonstraram no livro, será preciso reduzir produção e consumo. Quando se fala nisso,  a indústria logo alerta: vai ter desemprego em massa se isso acontecer. O senhor acredita que essa equação vai ser resolvida?

John Reid – Sempre que um sistema econômico muda, há dor, sofrimento, porque algumas pessoas vão ter que mudar de trabalho ou vão perder o trabalho. Se você pensar na época em que era legal a exploração de baleias, vai se lembrar de que,  quando acabou aquela indústria, muitos empregos também acabaram. Aqui na minha região (Califórnia, Estados Unidos), acabou a indústria madeireira não para atender os apelos de quem preza a conservação ambiental só, mas porque as madeireras acabaram com a madeira. E isso, é claro, causou muito desemprego. Agora, é fato que nós, sobretudo quem tem privilégio econômico, estamos consumindo além do que a Terra é capaz de oferecer. Sendo assim, vai ter que ter uma redução de consumo para diminuir a pressão constante nos recursos naturais, nas florestas. Essa transição pode ser bem feita ou mal feita. O papel dos governos será o de prever o que vai acontecer, saber quem vai perder emprego e tentar agendar uma transição de pessoas dos atuais empregos – seja no garimpo ou na exploração excessiva de madeira – para novas oportunidades. A questão é: de qualquer maneira, essa transição vai acontecer.  Podemos fazer isso já, ainda mantendo algo das nossas florestas,  ou podemos fazer isso depois que os recursos naturais acabarem.

A tecnologia, que segundo muitos está associada aos ‘empregos verdes’, é a bala de prata para resolver os problemas causados pelos impactos ao meio ambiente?

John Reid – Pode ter emprego verde sem que esses empregos tenham esse objetivo, de ir para um plano B porque o plano A foi destruir o planeta. Por exemplo, acho interessante pensar: se a nossa resposta é tecnológica porque fracassamos na tentativa de fazer uma boa gestão na nossa biosfera isso implica que a nossa única meta é sobrevivência de seres humanos? As outras espécies vão ter que se virar e vão ser extintas? E aí vem a tecnologia que vai nos proteger dos quase 60 graus de temperatura com ar condicionado. Nós podemos nos proteger até certo ponto, sim. Mas, e as outras espécies vivas do planeta? E os indígenas isolados da Amazônia,  como vão usar a tecnologia para se proteger? Eu acho que as resposta tecnológicas são muito necessárias no que diz respeito a como a gente produz energia. Essa revolução das fontes renováveis é ótima,  e o Brasil tem sido líder nessa transição. Essa é uma resposta tecnológica bem vinda, mas isso não nos livra da obrigação de cuidar do nosso lar, do nosso planeta.

No livro, vocês dizem que ‘A diversidade de pessoas é igualmente espetacular nas megaflorestas’. Conte, por favor, como é a relação dos povos das florestas com seu entorno. Há o perigo de que essas pessoas possam ser cooptadas pelo sistema econômico que ajuda a destruir seu habitat?

John Reid – Em março deste ano eu viajei ao Vale do Javari, fui de uma aldeia a outra com um amigo Marubo. Fomos parando, comendo nas malocas. E o que vi foi fartura de comida, pessoas saudáveis que conseguem viver com o básico, com o que conseguem em seu entorno que alimentou seus ancestrais. A relação delas com aquele lugar é diferente da minha relação, que fui como visitante.  Mas elas têm problemas, elas precisam de dinheiro. Ninguém passa ileso às pressões do mundo moderno, da economia moderna. Qualquer povo indigena vai ter pessoas que se destacam na escola, que são educadas para serem advovados, que interagem e fazem parte da sociedade como um todo, isso é normal. Só que eu acho que essas pessoas sentem as mesmas pressões, vivem com essa interação direta com a economia.

Nas últimas três décadas, conforme vocês informam no livro, os governos dobraram a porcentagem de terras protegidas, com base no ano de 1990. E a maioria dos países concorda, nos acordos e em NDCs,  em quase dobrar novamente até 2030. Mas os argentinos, por exemplo, acabam de eleger um negacionista de ultradireita. Donald Trump vai se recandidatar. A inquietante escalada de negacionistas de ultradireita no poder pode frustrar esses planos?

John Reid – Pode sim. Nós passamos por isso aqui nos Estados Unidos, vocês passaram por isso no Brasil, e agora a Argentina elegeu o Trump deles. Pode atrapalhar, adiar o alcance dessas metas. Mas o que a gente viu, pensando na sociedade civil brasileira, é que ela continuou trabalhando nesse período mais difícil. Passou por muitas derrotas, sim,  mas ela existe hoje e vai continuar. A mesma coisa se aplica à Argentina. A sociedade não abandona os valores ambientais, o amor pelas paisagens, mares, montanhas, florestas. Mas políticos do momento podem atrapalhar, e bastante.

O que podemos esperar da ascensão do mercado de carbono, que já está sendo apontado por muitos, sobretudo nas indústrias, como a solução de todos os problemas?

John Reid – O mercado de carbono é uma de muitas formas para financiar florestas. A grande maioria vem do Tesouro público, e em alguns casos vem da cooperação internacional, da filantropia. Mas o  mercado voluntário de carbono não está tendo um impacto muito grande hoje por causa de vários problemas. Há outras alternativas. O Brasil mostrou, por exemplo, com o Fundo Amazônia, uma forma mais eficiente de financiar a proteção desses estoques de carbono fglorestal. E não é um mercado, mas um arranjo entre um país e outro. O principal país pagador, no caso do Fundo Amazônia, é a Noruega, e ela fez acordos com o Brasil e com alguns outros países. Com isso, ela alcançou uma escala de impacto que não tem sido possível com os mercados de carbono. Diferentemente dos mercados de carbono, ela não exigiu uma cuidadosa medição de exatamente quantas toneladas foram sequestradas e com quais ações exatamente. Esse trabalho é muito caro e muito cheio de incrtezas. Em resumo, os mercados de carbono voluntários podem fazer alguns projetos interessantes, mas não vão ter escala.

A folhas tantas, no livro, vocês fazem uma pergunta de cem milhoes de dólares, para a qual eu busco a resposta há vinte anos: “Se as florestas intactas nos oferecem chuvas, alimentos, atmosfera saudável, rios limpos, biodiversidade caleidoscópica e sentimentos primários de conexão espiritual, por que a sociedade age como se mal pudesse esperar para se livrar delas?”   Falta educação ambiental? Esse livro poderia ser aplicado em escolas?

John Reid – Eu acho fundamental que os jovens aprendam. É este contato, desde cedo, que faz cair a ficha e cria espaço para várias perguntas: o que é essa coisa floresta? qual o cheiro?  qual o visual? o que a gente experimenta lá dentro? E acho que o mesmo pode se dizer para os especialistas também. Eles podem contar aos jovens todas as maravilhas cientificas que acontecem em um metro quadrado de floresta. Tem trabalhos interessantes em Manaus, como o Museu da Amazônia, que fica no centro de dez mil hectares de floresta e tem um trabalho extraordinario de didática. Fiquei impressionado com compartilhar o espaço com amazonenses que estavam descobrindo a Floresta Amazônica, que não conhecem nada sobre ela, embora morem ali, em Manaus. Thomas Lovejoy e muitos de nossos colegas tiveram alguma experiência na infância que os colocou em contato com a natureza, e nosso destino profissional foi decidido naquele instante. É importante isso acontecer. Independentemente de sua origem,  os jovens precisam ter essa opiortunidade.

No capítulo “As florestas e a economia real”, vocês fazem uma interessante reflexão. “Uma taxa de juros moderada a alta indica que a sociedade atribui muito mais valor a benefícios/consumo no presente do que no futuro”. Se não nos importamos muito com o futuro, não há razão, pelo menos não no setor econômico, para tomar agora medidas que garantam um futuro saudável, tais como salvar as florestas, é isso?

John Reid – Nesse capítulo nós quisemos explicar como os conceitos básicos de economia explicam o que está acontecendo. Porque no mundo ocidental, as pessoas priorizam o hoje ao amanhã, e isso é formalizado na economia, nos mercados financeiros,  com as taxcas de juros. Se você aplicar taxas de juros a uma análise global de avaliar ações para conter mudanças climáticas, terá um resultado ambíguo. Ou seja:  a economia fracasssa como ferramenta de decisão, porque nossas decisões têm que ser feitas com conhecimento econômico, mas é preciso ter outras fontes de informações e outros olhares éticos. Quisemos destacar também, nesse capítulo, os bens públicos. São as coisas não mensuráveis, tipo a beleza da lua numa noite sem nuvens, a beleza do mar, o fato de existir .. ter ar limpo, ou uma temperatura decente para se viver. Esses bens públicos não são reconhecidos pelos mercados, porque ninguém paga por eles. Nosso objetivo foi deixar claro que as soluções para preservar o bem público são as coisas que realmente importam. É um desafio coletivo que precisa ser abordado por comunidades – pode ser um país ou uma aldeia – mas tem que ser em coletivo.

Na linha das soluções possíveis para enfrentar o impacto climático, vocês dão alguns exemplos de populações que compartilham de um mesmo conjunto de valores e fazem regras de convivência. Como é isto?

John Reid – Eu vejo muito sentido na gestão coletiva de áreas de floresta, e isso acontece hoje em muitas comunidades, indígenas, não indígenas. Pode abranger produção para confumo próprio ou para o mercado. A  questão que importa é a força da comunidade e a confiança entre seus membros para fazer regras e respeitá-las. Eu acho que é uma solução muito importante, não apenas na Amazônia, mas também nas outras grandes florestas. Mas não adianta formentar esse tipo de de modelo de desenvolvimento e, no dia seguinte,  abrir uma estrada para escoamento de grãos. Tem que ter coerência de politicas públicas.

Minha última pergunta são duas: o Brasil o inspira? E o senhor é otimista?

Tenho muitos heróis e figuras admiradas do Brasil. O país e os ambientalistas são muito criativos, inovadores e corajosos. Tive a oportunidade de trabalhar com Bruno Pereira, a gente se falava toda quinta-feira pelo Zoom. Eu vi nele – não só nele, mas ele é um exemplo – uma dedicação tremenda. Ele pensava o tempo todo em desafios e estratégias, tinha uma leitura muito realista do que acontecia  naquele território, e sabia dos riscos. Recebia ameaças e pôs a vida à disposição do movimento. Esse tipo de compromisso – para começar a responder a sua segunda pergunta – me dá esperança. A esperança pode ser ingenua, mas também pode ser calibrada às realidades que a gente enxerga todo dia. Eu acho que tenho algo que não chamaria de otimismo, eu chamaria de encanto. Eu seou encatado com as florestas, com as pessoas que vivem nelas e as defendem. Eu vejo as derrotas, eu as sinto na pele. Eu não sei como essa história vai acabar,  o que sei é que pessoas talentosas, com belas almas, vão fazer o esforço máximo, sempre, para que tudo dê certo.

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Informações para construir links certos na era dos paradoxos

A rodinha de conversa na rua entre os vizinhos, hoje de manhã, girava em torno do raio que caiu ontem, durante a tempestade, nas imediações. Um forte clarão, seguido por um estalo como se algo elétrico tivesse se rompido, deixou-me inquieta. Fiquei mais apaziguada quando ouvi os relatos da vizinhança e descobri que não fora só meu o espanto. A gente sempre tem a sensação de conforto quando está em grupo, naõ tem jeito.

“Minha filha me disse: ‘mãe, parece que foi uma bomba!’, contou uma vizinha. E ela, em tom didático, explicou à mocinha que bomba é muito pior. ‘Além de fazer barulho, arrasa com tudo à sua volta, se é que lhe deixaria viva’”, comentou uma vizinha. E a conversa girou. “A gente aqui, falando em aquecimento global, e os caras lá jogando bomba”.

Link entre eventos extremos e guerra na mesma conversa informal entre vizinhos, isto sim é uma boa novidade.

Ultimamente os jornais e sites noticiosos estão investindo bastante espaço (até que enfim!) em explicações sobre o evento extremo que estamos sentido na pele, traduzido em calor infernal e tempestades fora de época. As notícias buscam fazer a correta ligação com as mudanças climáticas.

 “El Niño sempre existiu, mas El Niño junto com mudanças climáticas é como se você pusesse mais uma colher de açúcar numa xícara que já estava cheia. Transborda, não tem jeito’, explicava ontem, no site Brasil 247, o cientista Carlos Nobre.

A sociedade precisa mesmo de informações relevantes para entender aquilo que os cientistas estão falando há décadas: mudanças climáticas são responsabilidade de todos. E exigem uma grande concertação, todos empenhados em soluções, globais e locais mas, sobretudo, interconectadas.

Guerras tornam esta concertação mais difícil, senão impossível.

E lá vem a COP28!

A foto é do desenvolvedor de softwares Fernando Braga, publicada no site G1 em fevereiro deste ano

A partir do dia 30 de novembro, portanto daqui a quinze dias,  até o dia 12 de dezembro, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos,  estarão reunidos 190 líderes das Nações Unidas na 28a Conferência das Partes (COP28) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), com o desafio de destravar a desconfiança entre países ricos e países pobres. O debate é o mesmo de alguns anos: financiamento para ação climática, o fundo de compensação para perdas e danos decorrentes da mudança climática, a definição de metas mais ambiciosas de mitigação até 2030 e o fim da queima de combustíveis fósseis nas próximas décadas.

Dois mil, cento e cinquenta e oito quilômetros é a distância entre a Faixa de Gaza e Dubai. É mais ou menos como ir do Rio de Janeiro a São Luís do Maranhão. Fica no mesmo Hemisfério, e os holofotes estarão sobre os dois territórios. Mas, enquanto em Dubai os flashs de luz serão de máquinas fotográficas, em Gaza virão de bombas. Enquanto em Dubai a humanidade tentará estratégias para se manter viva, em Gaza a morte é a meta. Morte para, depois, tomar o território. Como faziam os povos mais primitivos, fazemos nós, em pleno século XXI, sem dor nem piedade.

“Isto não é uma ‘operação’ nem uma ‘ronda’, mas uma guerra até ao fim. É importante para mim que vocês saibam disso. Isso não é da boca para fora, mas vem do coração e da mente. Se não acabarmos com eles, eles voltarão”, disse Netanyahu aos soldados do Batalhão Caracal de Israel durante uma visita. Há dois dias.

Estamos na era dos paradoxos. Acho que faltou esse título ao historiador Eric Hobsbawn, que escreveu “Era do Capital”, “Era das RevoluçõeS”, “Era dos Impérios”, “Era dos Extremos”. Quisera que ele ainda estivesse vivo para ilustrar, com sua sabedoria, o que estamos vivendo hoje. Porque não é fácil explicar, a não ser pela ganância do capital, o desprezo que a humanidade tem demonstrado pela vida.

“É a única espécie que destrói seu próprio habitat’, lembra Stefano Mancuso, biólogo italiano de “Nação das Plantas” e “Revolução das Plantas”.

Só me resta, então, trazer aos leitores as informações mais relevantes dos acontecimentos, sem me prender a análises que poderiam ser ingênuas. É o jeito certo de conseguir fazer os links e construir massa crítica.

Para isso, busco, portanto, estar informada.

Ontem pela manhã, participei de um interessante webinar, esse fenômeno de nossa era pós pandêmica, organizado pelo Instituto Clima e Sociedade para os jornalistas que irão cobrir a COP28.  Foi uma prévia, que terá segunda parte, de assuntos importantes que a mídia precisa saber quando chegar a hora de assistir os debates e resultados da conferência. É uma iniciativa muito legal, pena que as redações estão com tanto trabalho que não são todos os jornalistas que têm tempo para serem capacitados.

Devo confessar a vocês que me regozijo em períodos pré-Conferência desde que, em 2009, passei a cobrir o tema. É bom, sobretudo, porque recebemos holofotes, as pessoas se interessam, debatem, buscam respostas. Mesmo que seja só por poucos dias, mesmo que os acordos não sejam cumpridos como deveria, mesmo assim é bom. Vale a pena para quem está na estrada há tantos anos tentando um lugar ao sol.

Alguns aprendizados que ouvi dos especialistas – Luiz Augusto Barroso – Diretor-presidente da PSR e Rodrigo A C Lima – Sócio-diretor geral da Agroicone – levados pelo ICS,  compartilho com vocês:

. O setor energético é o que mais emite gases de efeito estufa (79%). Portanto, sem resolver a questão da energia o acordo da COP 28, se houver, não será alcançado;

. Se a agricultura não estiver preparada para produzir, com tantos eventos extremos (seca e tempestades, sobretudo, atingem muito seriamente as produções agrícolas), isto poderá trazer um outro resultado que vai interferir diretamente na vida de todos nós: a insegurança alimentar, que hoje afeta milhões no mundo, vai aumentar muito.

. Até aqui falava-se só em mitigar os impactos causados ao meio ambiente, mas agora já se fala em mitigar, adaptar e dar benefícios.

. Segundo a Agência Internacional para as Energias Renováveis (Irena na sigla em inglês) teremos que triplicar a geração de energia renovável até 2050 para afetar positivamente o cenário climático atual.

. Para isso, vamos precisar dar escala a tecnologias que não estão competitivas ainda, como a produção de Hidrogênio.

. Captura de carbono virou licença para emitir, e este ponto de atenção é muito importante porque a tecnologia tem sido usada por muitas empresas.

. Estados Unidos, Europa e China querem chegar a uma matriz energética que o Brasil tem hoje. Nosso país tem transformado a forma como lidamos com energia.

. Por último, mas não menos importante: em ambiente de guerra fica difícil defender transição energética, ou transformação energética.  

Como cheguei atrasada, perdi a apresentação do Matheus Bastos – Segundo Secretário do Ministério das Relações Exteriores e negociador brasileiro de Financiamento Climático na UNFCCC. Mesmo assim, mandei uma pergunta para ele, que me martela desde sempre com relação às COPs. E se os acordos conseguidos entre os países fossem todos vinculantes, ou seja, fossem obrigatórios, não apenas um compromisso informal, como é?

Uma pergunta bem montada traz em seu bojo uma resposta. Perguntei sobre os prós e contras porque sei que, em diplomacia, sobretudo em acordos tão gigantes, que envolvem tantos países, nada é muito fácil.

Mas é isto. Estamos vivendo mesmo numa era quando nada é muito fácil. Viver, hoje, mais do que nunca é difícil, o que torna a luta pela vida uma tarefa cada vez mais custosa. Mas vale a pena.

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Lembrança ativada pelas redes que se torna muito atual

O ano era 2014.

O governo alemão estava pronto para desativar suas usinas de carvão, rumo a uma energia mais limpa.

Chamou um grupo de jornalistas do mundo inteiro para mostrar a estratégia. E eu fui convidada.

Annalena Baerbock, atual ministra das relações exteriores, era líder do Partido Verde. Fomos ao Parlamento conversar com ela, que nos atendeu minutos após o pronunciamento da então chanceler Angela Merkel. Annalena estava perplexa porque Merkel, no pronunciamento, não falara uma palavra sobre o caminho para a energia limpa.

Passamos quatro dias imersos em informações.

Em Berlim, fiz essas fotos que estão ilustrando este texto. A última foto retrata um artista de rua em frente ao famoso muro.

Na época eu era colunista do G1, a viagem está lá registrada em textos.

As informações, no entanto, se tornaram já obsoletas.

A Guerra da Ucrânia mudou planos, a Alemanha acabou (em abril) de desativar as usinas nucleares. Mas, para cumprir essa exigência dos ativistas, que se preocupam com o fato de o país não ter um único depósito seguro para armazenar resíduos nucleares, precisaram reativar algumas usinas a carvão.

Definitivamente, não estamos vivendo uma era fácil. A humanidade está sendo posta à prova o tempo todo.

Nesta semana (dias 17 e 18) eu participei do Seminário Cidades Verdes, evento bem interessante, que pôs, entre outros, o tema da energia na mesa de debates. Mediei a mesa que discutiu o Hidrogênio, nova opção de combustível na qual o Brasil está apostando muitas fichas.

Nosso país tem, a seu favor, o sol, a água, o vento, e agora tem taambém a chance de, com algum investimento, obter o hidrogênio.

Mas acho que está na hora de lembrarmos também o que me disse certa vez, em entrevista (em 2006), a ex-ministra Gro Brundtland, que liderou os estudos para o relatório Nosso Futuro Comum, onde se cunhou o termo desenvolvimento sustentável:

“A energia será o maior desafio para a humanidade. E será preciso diversificar as fontes, sempre”.

A questão é que, como nosso sistema econômico exige, os investimentos precisam sempre respeitar a ordem do acúmulo para poder dar lucro e, assim, pelo menos em tese, garantir um desenvolvimento que faça bem a todos.

Para acumular, será necessário desprezar a diversidade de fontes.

Mas, que bom que temos pessoas pensando a respeito. Ou, pelo menos, que bom que temos essa percepção.

Guardo dois momentos muito marcantes para mim, dessa riquíssima viagem, onde fiz contato com jornalistas do mundo todo. O Brics (ainda não expandido) estava todo ali.

O primeiro momento foi quando, numa aula ministrada por um ambientalista nas dependências de uma organização não-governamental, ele falava entusiasticamente sobre hidrelétrica, como se fosse a melhor forma de se obter energia, incomparável. Como vocês podem imaginar, ouvir palestras em inglês o tempo todo acaba criando algum desconforto para entender esse ou aquele trecho. Portanto, levantei a mão e perguntei:

“Vocês estão considerando a hidrelétrica uma energia limpa?’

Todos me olharam como se eu tivesse cometido uma sandice, fiquei constrangida. Assim mesmo, lembrei que, para se construir hidrelétricas, é preciso deslocar muita gente, matar alguns rios e peixes. E que isso, para mim, suja o processo.

O segundo momento foi quando, já no fim da viagem, peguei um táxi compartilhado com uma moradora de Colônia, onde estávamos então. Comecei a conversar, expliquei o motivo da viagem, dando o devido valor ao tema. Ela me olhou como se eu tivesse falando platitudes. E revelou a sua prioridade, que ela acreditava ser da maioria da população: na época, o desemprego estava alto no país.

Estamos na era das complexidades, sem dúvida.

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‘Cidades verdes’, um encontro para debater qualidade de vida

A forte onda de calor que atingiu o Brasil nas duas últimas semanas de inverno impulsionou ainda mais a preocupação crescente com as questões climáticas. Cientistas que há décadas vêm alertando para o fato de que os eventos extremos ficarão cada vez mais intensos, estão sendo chamados para explicar o fenômeno. Na fala da maioria, o que se constata é que o previsível chegou mais cedo do que o esperado.

As atenções, em geral, se voltam para as florestas tropicais, para o desmatamento que precisa ser estancado antes que seja tarde demais. No entanto, é nas cidades que as pessoas sentem o impacto direto das mudanças do clima. É nos aglomerados urbanos que furacões, ciclones, ondas de calor ou frio excessivo causam mortes, ferimentos ou desabrigam pessoas.

Atualmente, 56% dos habitantes do planeta moram em cidades, e esta porcentagem vai subir para 68% em 2050, segundo dados da ONU. Essa rápida urbanização torna urgente o debate sobre uma gestão eficaz dos grandes centros urbanos, no intuito de alcançar um desenvolvimento que proporcione bem-estar às pessoas. É sobre qualidade de vida que estamos falando.

Água e energia são os maiores desafios, já que precisamos desses dois insumos para garantir qualidade de vida e, ao mesmo tempo, é preciso assegurar a sustentabilidade de seu uso. As emissões de carbono, que contribuem para o aumento da poluição e do aquecimento global, são mais aceleradas nos grandes centros urbanos.

É preciso mudar hábitos e costumes para tentar estagnar o avanço dos eventos extremos.  Só para citar um exemplo recente, o ciclone extratropical que devastou o Rio Grande do Sul em setembro causou 48 mortes, deixou milhares desabrigados e, segundo estimativa da Confederação Nacional de Municípios (CNM), um prejuízo financeiro foi de R$ 1,3 bilhão.

Estamos, portanto, no melhor momento para encontros como o que vai acontecer nos dias 17 e 18 de outubro, para o qual eu fui convidada, o seminário Cidades Verdes, que está em seu décimo-primeiro ano de vida. Nos dois dias haverá debates que, se não apresentarem soluções, ao menos acenderão luzes para ampliar reflexões. É disso que estamos precisando, não de guerras. Temas como, por exemplo, a ascendência do Hidrogênio Verde, que surge como uma espécie de bala de prata para livrar-nos dos combustíveis fósseis.

Recentemente, a União Europeia sinalizou com um investimento de 2 bilhões de Euros (R$ 10,5 bilhões) para produção do Hidrogênio Verde no Brasil, o que nos deixa também com a responsabilidade de saber usar esse investimento da melhor maneira possível. Fato é que o Nordeste brasileiro parte como um potencial núcleo de produção, e no Ceará já se projeta um investimento, junto com a iniciativa privada, de mais de 5,4 bilhões na construção de uma usina de hidrogênio verde, que pode produzir mais de 600 mil toneladas dessa fonte de energia.

Será mesmo o Hidrogênio Verde o pulo do gato do qual necessitamos para sair da dependência dos combustíveis fósseis? O fato de ser necessário água para a produção do HV não nos põe também numa situação difícil por conta de eventuais secas?

Como vocês podem ver, o debate vai ser rico. E o evento é gratuito, no Centro de Convenções da Firjan. O público vai ser convidado a fazer perguntas, o que é muito importante. Estarei lá, fazendo a mediação de duas mesas. Para se inscrever, é só clicar: https://www.inscricoescidadesverdes.eco.br/

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Sobre emergências climáticas e Zonas Azuis de vidas centenárias

Fez muito bem o presidente Lula quando, num de seus discursos durante o encontro do G-20, na Índia, esta semana, deu materialidade à emergência climática. Ao criticar o “descompromisso com o meio ambiente”, Lula lembrou que o aquecimento global “modifica o regime de chuvas e eleva o nível dos mares”. E deu como exemplo a tragédia que ainda estava em curso no Rio Grande do Sul, estado que conta com o quarto maior PIB do país e foi arrasado por um ciclone, no início do mês, que deixou 43 mortos (registrado até domingo dia 10), 46 desaparecidos e milhares de desabrigados.

“Agora mesmo, no Brasil, o estado do Rio Grande do Sul foi atingido por um ciclone que deixou milhares de desabrigados e dezenas de vítimas fatais. Se não agirmos com sentido de urgência, esses impactos serão irreversíveis. Os efeitos da mudança do clima não são sentidos por todos da mesma forma. São os mais pobres, mulheres, indígenas, idosos, crianças, jovens e migrantes, os mais impactados. Quem mais contribuiu historicamente para o aquecimento global deve arcar com os maiores custos de combatê-la. Esta é uma dívida acumulada ao longo de dois séculos”, disse o presidente.

É da saúde dos humanos que se está falando. E por que o sentido de urgência? Porque há tempos esse alerta vem sendo feito.

Para ilustrar o que digo, peço licença aos meus leitores para fazer uma visita à História. O ano era 1969. Na XXIII Assembleia Geral das Nações Unidas, uma resolução propondo a realização de uma Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano foi aprovada. Começam então as tratativas para sua realização na capital sueca, país que se candidatou para sediar o evento que aconteceria em 1972.

 A época era propícia. No mesmo 1969, a divulgação da primeira foto da Terra vista do espaço tocou o coração da humanidade e abriu caminho para ampliar o debate iniciado em 1968 pelo Clube de Roma, um grupo formado por setenta cientistas, acadêmicos, economistas, industriais e membros de instituições públicas dos países ricos. Naquele foro de discussão ficou claro que as preocupações com o meio ambiente já tinham saído da esfera de uma parcela alternativa da sociedade e chegado ao andar de cima.

Apesar dessa espécie de aval dos mais ricos, ou talvez mesmo por causa dele, a Conferência de Estocolmo foi uma reunião à qual os países pobres compareceram com um pé atrás. O medo era que as questões ambientais fossem usadas pelos países desenvolvidos para tirar o tapete de quem estivesse no caminho da industrialização (leia-se, do maior consumo de combustíveis fósseis e rumo à poluição).

Não vou cansar vocês contando detalhes sobre a reunião que abriu as portas para que o meio ambiente passasse a fazer parte dos debates entre nações. O que me interessa dizer, para completar minha linha de raciocínio, é que o tema, embora em pauta, tinha um caráter anódino. O assunto era simpático, a mídia conseguia atrair leitores com boas fotos, mas as questões climáticas ocupavam o nicho de situações que vão nos afetar num tempo ainda distante. Havia, sempre, um valor mais alto que ganhava prioridade, no campo da política, da economia. E este cenário não está muito diferente ainda hoje.

Por isto achei importante o fato de o presidente Lula, ocupando uma liderança mundial incontestável, ter atualizado o tema. Não é mais num tempo distante que os eventos extremos vão nos afetar. Está acontecendo agora no Rio Grande do Sul. E os governos precisam ficar atentos aos alertas científicos e ter políticas públicas preventivas (há muito a ser feito) voltadas para esses tempos de eventos extremos, o que faltou ao governador Eduardo Leite, via de regra à maioria dos governantes.

 Ocorre que já em Estocolmo, na primeira reunião para debater o meio ambiente, as prioridades foram traçadas. A declaração final, assinada por todos os países, embora tenha evocado a luta contra a poluição, alertado para a finitude dos recursos naturais e retratado até mesmo a necessidade de se transferir “somas substanciais de assistência financeira e tecnológica” para complementar os esforços dos países pobres na luta contra os desastres ambientais, ela também deixou registrado, no Princípio 11, que…

“As políticas ambientais de todos os Estados devem ser orientadas no sentido de reforçar o potencial de desenvolvimento presente e futuro dos países em desenvolvimento, e não afetar adversamente esse potencial, nem impedir a conquista de melhores condições de vida para todos”.

Ainda não havia o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês), criado 16 anos depois. Só com a ajuda dos cientistas que trabalham no Painel de forma colaborativa é que ficou comprovado, sob a ótica da Ciência, que essa “conquista de melhores condições de vida para todos” pode custar e muito. Os impactos do aquecimento global, segundo o IPCC, incluem eventos extremos severos, como o ciclone que atingiu o Rio Grande do Sul.  

Um dos estudos do Painel, publicado em 2018, deixou claro que as atividades humanas já causaram cerca de 1 grau de aquecimento. E que, a continuar como agora, “é provável que o aquecimento global atinja 1,5 ºC entre 2030 e 2052”.      

Não se pode afirmar que nada foi feito desde 1972 até agora para mitigar os danos causados pela ação humana ao meio ambiente. Mas, é fato incontestável, que o que tem sido feito é pouco para dar o resultado necessário e garantir boas condições de vida aos humanos mais pobres afetados pelos eventos. Falo especificamente sobre os mais vulneráveis,  já que os mais abastados sempre terão várias chances a mais para se proteger. Eles sempre terão Marte…

As Zonas Azuis

Uma linha de raciocínio vai puxando a outra, num ritmo quase infindável, o que se explica pelo fato de estarmos tratando de nossas vidas no planeta. Assim, estava eu envolvida com esses pensamentos pós discurso do presidente Lula, quando minha amiga Martha Neiva Moreira me mandou uma dica: “Assista ao documentário ‘Como viver até os 100 anos: o Segredo das Zonas Azuis’ na Netflix. Você vai gostar”.

Dito e feito. Vi, gostei e ampliei pensamento. Trata-se de uma longa viagem feita pelo escritor Dan Buettner, decidido a descobrir por que há locais, que ele chama de Zonas Azuis, onde as pessoas vivem mais de cem anos e se mantém ativas, lúcidas, felizes.

Em linhas gerais, as Zonas Azuis são locais pacíficos, bonitos, a natureza é preservada, as pessoas se alimentam de produtos locais feitos por elas, não tomam remédios, não usam telas, estão sempre em grupo e se movimentam muito. Em resumo: não deixam que as máquinas façam coisas que elas próprias podem fazer.

Para além de tudo isso, em Okinawa, pequena localidade japonesa que produz a população mais longeva da história da humanidade, seus centenários deixaram Dan Buettner curioso quando falaram em Ikigai.

“Se perdermos o ikigai, é porque estamos prestes a morrer”

Ikigai pode ser traduzido por senso de propósito, energia de vida. É de cada um, singular. Não depende de ter ou não dinheiro, de ter ou não mérito. Sente-se naquele exato momento de abrir os olhos todas as manhãs.

Se eu estivesse produzindo um documentário, este seria o momento de trazer imagens belíssimas de convivência pacífica entre humanos e a natureza. A voz in of do locutor espalharia questões profundas, sem resposta, que sempre alimentam nossa capacidade de seguir pensando e pesquisando.

Para mim, este momento chegou hoje pela manhã, quando me sentei num banco à beira da Praia do Flamengo e apenas observei as pessoas em lazer, usufruindo de uma natureza que ainda se impõe, bela e potente.

Recorro a um dos livros que mais gosto sobre o tema. “Estocolmo, Rio, Joanesburgo – O Brasil e as três conferências ambientais das Nações Unidas” foi escrito pelo embaixador André Corrêa do Lago, que esteve na coordenação desses três encontros. Num trecho, ele relata que uma das teses que ganhava adeptos de respeitáveis cientistas ingleses na década de 70 falava que era preciso limitar a população mundial a 3,5 bilhões. Dessa forma, pregavam eles, felizmente numa proposta que morreu no nascedouro, seria possível garantir vida com qualidade para todos os habitantes do planeta.

Seria cruel limitar nascimentos, como as guerras são crueis, como as pandemias são devastadoras, até porque, por óbvio, o controle do crescimento atingiria só os mais pobres.

 Tenho a sensação, muitas vezes, que falhamos quando não damos valor à vida. Simples assim.

Uma das Zonas Azuis descoberta por Dan Buettner fica na Costa Rica, pequeno país da América Central, com uma população menor do que a cidade do Rio de Janeiro, que tem ficado cada vez mais longeva. Numa conversa entre o apresentador e uma funcionária do governo federal, ela diz a frase que, se não responde as minhas questões, serve para alinhavar e terminar estas reflexões:

“Nós não temos recursos naturais. As pessoas são nosso recurso natural”.

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‘Outra farmácia, não!’

O terreno é grande, pega uma esquina inteira aqui do bairro. Ali ficava o galpão de uma loja de materiais de construção. Lá um dia, soube-se que ela iria ser derrubada. Dito… e feito. Há uns seis meses, mais ou menos, chegou a turma da demolição. O terreno ficou sem o galpão, mas vazio, cheio de pedras e, com o tempo, é claro, também com lixo.

O disse-me-disse corria solto no balé urbano. Infeliz daquele governante que não percebe o quanto é importante o espaço de um bairro para seus moradores. É claro que há muitos desconectados, aqueles que passam com pressa de um lado para o outro, sem nem conseguir enxergar por onde andou. Mas há também aqueles que interagem e torcem.

Passando por lá, um dia vi que já tinha um tapume de obras. Sinal de que alguém tinha comprado o terreno. Logo o pintor que dá colorido às paredes do bairro – Odylio Falcão –  foi chamado para dar vida ao tapume. Criativo, ele formou uma frase e sugeriu: “O que você quer que seja aqui?”.

Ah, o povo não se fez de rogado. Cada um que passava, daquelas pessoas conectadas, deixava lá seu recado. Teve várias ideias: uma livraria; uma livraria com café; um mercadinho de produtos orgânicos (dos baratos, porque aqueles caros… aff).

Mas era só brincadeira, né? Claro. Porque, por mais que se more ali, que se caminhe por ali, que se tenha o local como extensão da própria casa, os moradores não foram chamados para ajudar a decidir nada. O espaço é privado, avisavam uns aos outros, de ombros baixos e muxôxo. Assim é, sempre. Quem tem capital é quem manda, fazer o quê?

Nos bilhetes sonhadores afixados no tapume, um pedido prevalecia: “Outra farmácia nãooo!”

É fácil explicar o motivo. Naquele quadrilátero do bairro, só ali, tem cinco farmácias. Poxa! É preciso apostar muito em doenças para resolver fazer um investimento em… mais uma farmácia. “Não, claro que não”, sonhávamos.

Pois foi exatamente o que aconteceu. Alguém achou – só por acaso, duvido que tenha sido feita uma pesquisa séria – que nós estamos precisando de mais uma farmácia. E hoje eu recebi a notícia do Sr João, que vende banana ali perto: ‘Eu não falei? Vai ser farmácia.”

Saí chutando latinha no meio fio. Outra farmácia para quê?

Tenho medo de sentimentalizar demais alguns aspectos que envolvem várias visões, portanto tentei, ponto a ponto, justificar a escolha. Uma farmácia vai dar emprego para muitos?

A resposta é: não. Há uma mega store na esquina seguinte, que talvez seja apenas um pouco menor do que a que está sendo construída, e ela está sempre vazia. Não totalmente, claro, mas quase. No entanto, é raro o cliente não enfrentar uma fila para pagar. Por quê? Porque há poucos funcionários. E há um deslocamento – do balcão para o caixa – quando se forma a tal fila.

Continuando meu check list para tentar justificar mais uma farmácia para o bairro, pensei que, no fim das contas, é um bairro onde há muitos idosos, e quanto mais farmácias, mais chance de se conseguir um desconto em remédios. Isto também não procede. Os preços variam, sim, mas para fazer uma economia real, é preciso ir às cinco e comprar uma coisa em cada uma. Dá trabalho e é chato. Não compensa a pequena economia.

De qualquer forma, ok, que se erga ali mais um tempo de consumo de drogas. Mas, precisa ser mesmo assim imensa? Se eu fosse ouvida, daria a seguinte sugestão: divida o terreno. Uma parte para a loja, outra parte com árvores e bancos. Aposto que a farmácia seria a mais frequentada do bairro.

Há outras opções, claro. A mais sonhada? Que a Prefeitura comprasse o terreno, mas não para lucrar com ele. ‘Apenas” para dar bem-estar aos moradores. E no terreno plantasse árvores adequadas, pusesse bancos, um espaço para crianças e outro para os cachorros. Seria um pouco espremidinho, mas com certeza as pessoas ficariam muito felizes.

Sim, estou sentimentalizando demais. Pés no chão, Amelia. A administração municipal precisa de dinheiro e dinheiro vem não só dos impostos dos moradores, mas também do comércio.

Ombros baixos, muxôxo… que venha então a tal farmácia. Parece mesmo que ninguém mais aposta em outra coisa. É muita falta de criatividade.

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Tempestade de ideias sobre o valor da vida

Tempestade de ideias sobre o valor da vida

Pesquisa recente feita no Reino Unido mostrou que as árvores em territórios que se tornaram inóspitos  estão se movendo para cima, para regiões mais altas. O estudo concluiu que o fenômeno seria uma espécie de fuga por causa das questões climáticas. É mais ou menos assim: em regiões de muita secura, as árvores estão buscando outro ecossistema para sobreviverem. O movimento, descoberto por pesquisadores da Universidade de Leeds e publicado na edição de 19 de agosto no jornal “O Globo” está preocupando os analistas.

A inquietação dos estudiosos se explica pelo fato de eles considerarem um perigo essa evasão. Ocorre que os animais e as plantas dos locais que estão recebendo as árvores, são mais suscetíveis a alterações no ecossistema. A presença dessas espécies  “invasoras”, “exóticas” à região, pode trazer problemas.

Desde que eu li essa notícia fiquei pensando sobre a vida. Em algum momento até comparei à trágica história dos migrantes que se arriscam em barcos frágeis para fugir de territórios, quer seja por causa de tiranos, quer seja pelo resultado das mudanças climáticas, como seca ou tempestade.

Será mesmo assim tão difícil a convivência entre essas árvores que encontram território menos inóspito para se manterem vivas e as plantas e animais do habitat que as acolheu?  

Ouvindo o podcast “Conversa na rede”, com Aylton Krenak e Eduardo Viveiros de Castro, chamado “Partículas particulares”,  estiquei meus pensamentos. O programa instigou-me a dar um atributo à tempestade de ideias que me seguiu: pensamento selvagem, segundo Viveiros e Krenak.

O antropólogo e o xamã são ligados à terra, aos saberes tradicionais, aos rios, aos bichos. E, no programa de cerca de 45 minutos, conversam sobre vida, sobre futuro, sobre partículas espraiadas por , sobre… sobrevivência. É do que se trata. Aquelas árvores que surpreenderam os analistas da universidade britânico estavam buscando sobreviver. E só um pensamento selvagem, que faz contato com o sensível, pode perceber isso dessa forma.

As mudanças climáticas têm recebido enormes holofotes, sobretudo desde que o velho continente se viu pegando fogo, enfrentando temperaturas inéditas para corpos tão acostumados ao frio. Será que os europeus, sofrendo com o clima, pensam em buscar novos territórios, menos inóspitos? Ou vão tratar de comprar aparelhos de ar refrigerado para continuarem a viver no mesmo local, de maneira mais confortável? Sou capaz de apostar na segunda hipótese, e é claro que essa corrida aos dispositivos aumenta a produção industrial que ajuda a causar mudanças climáticas.

“O capitalismo vive de produções inéditas, sem medir consequências”, disse Viveiros de Castro.

Há solução?

Krenak traz para a conversa uma expressão que usou para titular um de seus livros: o futuro é ancestral. Porque a ancestralidade não é, como hoje muito se propaga, um mundo atrasado, sem brilho, sem bem-estar. No passado até recente não havia aparelhos de celular, internet, os carros eram menos velozes e as redes sociais se faziam no bairro, na esquina. Por isso as pessoas eram infelizes?

Talvez nossos jovens, hoje, diante das notícias reais que mostram as adversidades enfrentadas pela humanidade por causa das mudanças climáticas, tenham mais medo do futuro do que as gerações passadas. Eles vivem numa era das contradições e dos paradoxos, quando sabemos muito e, ao mesmo tempo, muito pouco, como afirma a filósofa e zóologa estadunidense, Donna Haraway, em “Ficar com o problema”, livro que tem sido citado como referência entre vários campos de estudo.

“Sozinhos, com nossos diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco, e então sucumbimos ao desespero ou à esperança – e nenhum dos dois é uma atitude sensível (ou sensata). Nem o desespero nem a esperança estão sintonizados com os sentidos, com a matéria conscienciosa, com a semiótica material, com os terráqueos mortais em copresença densa”, escreve ela

 Haverá mundo para as gerações futuras? Esse medo da finitude acompanha a humanidade. Mas as reações são diversas.

“O mundo dos povos indígenas das Américas se acabou em 1492. A chegada dos povos não indígenas ao seu habitat transformou inteiramente seu modo de vida. E nem por isso eles desapareceram”, lembra Krenak.

Segundo a ONU, há hoje 370 milhões de pessoas indígenas no mundo, o que quer dizer mais do que as populações dos Estados Unidos, do México, do Canadá. Eles falam quatro mil línguas diferentes e são 6% da população. Os territórios que habitam guardam 80% da biodiversidade que ainda resta no planeta.

O futuro é ancestral. O passado continha as sementes de possibilidades do futuro, conforme Krenak. Será que o mundo da Ciência vai se encontrar com o pensamento selvagem?

“O capitalismo quer saber quanto mundo ainda resta para ele comer. Os povos tradicionais pensam em qual mundo se pode criar? É possível produzir outros mundos, a vida não está contida no casulo do humano”, disse o indígena.

Xuku Xuku uê é uma expressão indígena que significa vida sempre. A ideia é que a vida é. Ela não será, ela não foi, ela é. Uma lagarta não sabe que vai virar borboleta e uma borboleta não sabe que foi lagarta. O que importa é viver o momento com  a intensidade possível.

Uma ode à vida, portanto. Que a vida passe a ser o valor, ocupando o lugar do ouro e do capital. Mudaria muita coisa nesse mundo.

O estudo feito pela universidade britânica e que me inspirou a escrever recebeu o título de “Global Distribution and Climate Controls of Natural Mountain Treelines” ( “Distribuição global e controle climático de linhas de árvores”, em tradução literal). Como é de praxe no mundo das ciências, só pode ser reconhecido depois de publicado numa revista  científica, no caso a “Global Change Biology  “. Com imagem de satélite, os pesquisadores descobriram que “de 2000 a 2010, cerca de 70% dessas linhas de árvores subiram em média 1,2 metros por ano. A mudança mais rápida foi observada nos trópicos, onde a subida foi de cerca de 3,1 metros por ano”.      

Será a vida falando mais alto? Ou será uma forma que as árvores “acharam” de ficar com o problema? 

Já que falamos tanto em plantas, vale terminar esta reflexão com o pensamento sensível de Stefano Mancuso, uma das autoridades em todo o mundo na área de Neurobiologia Vegetal. Em “Nação das Plantas” (Ed. Pergaminho), de maneira firme, sem vacilar, ele afirma ter uma proximidade com as plantas, de quem se tornou amigo. “A maioria das plantas que nos rodeiam […] são, efetivamente, espécies que, com a domesticação, iniciaram conosco uma relação especial de cooperação”. Assim, com a ajuda delas, o escritor criou uma Constituição das Plantas.

Mancuso certamente não se surpreende com a atitude daquelas árvores que provocaram o estudo. Subir mais para garantir sua sobrevivência só não é mais esperto do que viver em cooperação entre si.

“A cooperação é a força através da qual a vida prospera, e a Nação das Plantas reconhece-a como o primeiro instrumento do progresso das comunidades”, escreve ele.

Cooperar, compor… verbos do futuro ancestral. As árvores sabem muito bem do que se trata.

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