‘Cidades verdes’, um encontro para debater qualidade de vida

A forte onda de calor que atingiu o Brasil nas duas últimas semanas de inverno impulsionou ainda mais a preocupação crescente com as questões climáticas. Cientistas que há décadas vêm alertando para o fato de que os eventos extremos ficarão cada vez mais intensos, estão sendo chamados para explicar o fenômeno. Na fala da maioria, o que se constata é que o previsível chegou mais cedo do que o esperado.

As atenções, em geral, se voltam para as florestas tropicais, para o desmatamento que precisa ser estancado antes que seja tarde demais. No entanto, é nas cidades que as pessoas sentem o impacto direto das mudanças do clima. É nos aglomerados urbanos que furacões, ciclones, ondas de calor ou frio excessivo causam mortes, ferimentos ou desabrigam pessoas.

Atualmente, 56% dos habitantes do planeta moram em cidades, e esta porcentagem vai subir para 68% em 2050, segundo dados da ONU. Essa rápida urbanização torna urgente o debate sobre uma gestão eficaz dos grandes centros urbanos, no intuito de alcançar um desenvolvimento que proporcione bem-estar às pessoas. É sobre qualidade de vida que estamos falando.

Água e energia são os maiores desafios, já que precisamos desses dois insumos para garantir qualidade de vida e, ao mesmo tempo, é preciso assegurar a sustentabilidade de seu uso. As emissões de carbono, que contribuem para o aumento da poluição e do aquecimento global, são mais aceleradas nos grandes centros urbanos.

É preciso mudar hábitos e costumes para tentar estagnar o avanço dos eventos extremos.  Só para citar um exemplo recente, o ciclone extratropical que devastou o Rio Grande do Sul em setembro causou 48 mortes, deixou milhares desabrigados e, segundo estimativa da Confederação Nacional de Municípios (CNM), um prejuízo financeiro foi de R$ 1,3 bilhão.

Estamos, portanto, no melhor momento para encontros como o que vai acontecer nos dias 17 e 18 de outubro, para o qual eu fui convidada, o seminário Cidades Verdes, que está em seu décimo-primeiro ano de vida. Nos dois dias haverá debates que, se não apresentarem soluções, ao menos acenderão luzes para ampliar reflexões. É disso que estamos precisando, não de guerras. Temas como, por exemplo, a ascendência do Hidrogênio Verde, que surge como uma espécie de bala de prata para livrar-nos dos combustíveis fósseis.

Recentemente, a União Europeia sinalizou com um investimento de 2 bilhões de Euros (R$ 10,5 bilhões) para produção do Hidrogênio Verde no Brasil, o que nos deixa também com a responsabilidade de saber usar esse investimento da melhor maneira possível. Fato é que o Nordeste brasileiro parte como um potencial núcleo de produção, e no Ceará já se projeta um investimento, junto com a iniciativa privada, de mais de 5,4 bilhões na construção de uma usina de hidrogênio verde, que pode produzir mais de 600 mil toneladas dessa fonte de energia.

Será mesmo o Hidrogênio Verde o pulo do gato do qual necessitamos para sair da dependência dos combustíveis fósseis? O fato de ser necessário água para a produção do HV não nos põe também numa situação difícil por conta de eventuais secas?

Como vocês podem ver, o debate vai ser rico. E o evento é gratuito, no Centro de Convenções da Firjan. O público vai ser convidado a fazer perguntas, o que é muito importante. Estarei lá, fazendo a mediação de duas mesas. Para se inscrever, é só clicar: https://www.inscricoescidadesverdes.eco.br/

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Sobre emergências climáticas e Zonas Azuis de vidas centenárias

Fez muito bem o presidente Lula quando, num de seus discursos durante o encontro do G-20, na Índia, esta semana, deu materialidade à emergência climática. Ao criticar o “descompromisso com o meio ambiente”, Lula lembrou que o aquecimento global “modifica o regime de chuvas e eleva o nível dos mares”. E deu como exemplo a tragédia que ainda estava em curso no Rio Grande do Sul, estado que conta com o quarto maior PIB do país e foi arrasado por um ciclone, no início do mês, que deixou 43 mortos (registrado até domingo dia 10), 46 desaparecidos e milhares de desabrigados.

“Agora mesmo, no Brasil, o estado do Rio Grande do Sul foi atingido por um ciclone que deixou milhares de desabrigados e dezenas de vítimas fatais. Se não agirmos com sentido de urgência, esses impactos serão irreversíveis. Os efeitos da mudança do clima não são sentidos por todos da mesma forma. São os mais pobres, mulheres, indígenas, idosos, crianças, jovens e migrantes, os mais impactados. Quem mais contribuiu historicamente para o aquecimento global deve arcar com os maiores custos de combatê-la. Esta é uma dívida acumulada ao longo de dois séculos”, disse o presidente.

É da saúde dos humanos que se está falando. E por que o sentido de urgência? Porque há tempos esse alerta vem sendo feito.

Para ilustrar o que digo, peço licença aos meus leitores para fazer uma visita à História. O ano era 1969. Na XXIII Assembleia Geral das Nações Unidas, uma resolução propondo a realização de uma Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano foi aprovada. Começam então as tratativas para sua realização na capital sueca, país que se candidatou para sediar o evento que aconteceria em 1972.

 A época era propícia. No mesmo 1969, a divulgação da primeira foto da Terra vista do espaço tocou o coração da humanidade e abriu caminho para ampliar o debate iniciado em 1968 pelo Clube de Roma, um grupo formado por setenta cientistas, acadêmicos, economistas, industriais e membros de instituições públicas dos países ricos. Naquele foro de discussão ficou claro que as preocupações com o meio ambiente já tinham saído da esfera de uma parcela alternativa da sociedade e chegado ao andar de cima.

Apesar dessa espécie de aval dos mais ricos, ou talvez mesmo por causa dele, a Conferência de Estocolmo foi uma reunião à qual os países pobres compareceram com um pé atrás. O medo era que as questões ambientais fossem usadas pelos países desenvolvidos para tirar o tapete de quem estivesse no caminho da industrialização (leia-se, do maior consumo de combustíveis fósseis e rumo à poluição).

Não vou cansar vocês contando detalhes sobre a reunião que abriu as portas para que o meio ambiente passasse a fazer parte dos debates entre nações. O que me interessa dizer, para completar minha linha de raciocínio, é que o tema, embora em pauta, tinha um caráter anódino. O assunto era simpático, a mídia conseguia atrair leitores com boas fotos, mas as questões climáticas ocupavam o nicho de situações que vão nos afetar num tempo ainda distante. Havia, sempre, um valor mais alto que ganhava prioridade, no campo da política, da economia. E este cenário não está muito diferente ainda hoje.

Por isto achei importante o fato de o presidente Lula, ocupando uma liderança mundial incontestável, ter atualizado o tema. Não é mais num tempo distante que os eventos extremos vão nos afetar. Está acontecendo agora no Rio Grande do Sul. E os governos precisam ficar atentos aos alertas científicos e ter políticas públicas preventivas (há muito a ser feito) voltadas para esses tempos de eventos extremos, o que faltou ao governador Eduardo Leite, via de regra à maioria dos governantes.

 Ocorre que já em Estocolmo, na primeira reunião para debater o meio ambiente, as prioridades foram traçadas. A declaração final, assinada por todos os países, embora tenha evocado a luta contra a poluição, alertado para a finitude dos recursos naturais e retratado até mesmo a necessidade de se transferir “somas substanciais de assistência financeira e tecnológica” para complementar os esforços dos países pobres na luta contra os desastres ambientais, ela também deixou registrado, no Princípio 11, que…

“As políticas ambientais de todos os Estados devem ser orientadas no sentido de reforçar o potencial de desenvolvimento presente e futuro dos países em desenvolvimento, e não afetar adversamente esse potencial, nem impedir a conquista de melhores condições de vida para todos”.

Ainda não havia o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês), criado 16 anos depois. Só com a ajuda dos cientistas que trabalham no Painel de forma colaborativa é que ficou comprovado, sob a ótica da Ciência, que essa “conquista de melhores condições de vida para todos” pode custar e muito. Os impactos do aquecimento global, segundo o IPCC, incluem eventos extremos severos, como o ciclone que atingiu o Rio Grande do Sul.  

Um dos estudos do Painel, publicado em 2018, deixou claro que as atividades humanas já causaram cerca de 1 grau de aquecimento. E que, a continuar como agora, “é provável que o aquecimento global atinja 1,5 ºC entre 2030 e 2052”.      

Não se pode afirmar que nada foi feito desde 1972 até agora para mitigar os danos causados pela ação humana ao meio ambiente. Mas, é fato incontestável, que o que tem sido feito é pouco para dar o resultado necessário e garantir boas condições de vida aos humanos mais pobres afetados pelos eventos. Falo especificamente sobre os mais vulneráveis,  já que os mais abastados sempre terão várias chances a mais para se proteger. Eles sempre terão Marte…

As Zonas Azuis

Uma linha de raciocínio vai puxando a outra, num ritmo quase infindável, o que se explica pelo fato de estarmos tratando de nossas vidas no planeta. Assim, estava eu envolvida com esses pensamentos pós discurso do presidente Lula, quando minha amiga Martha Neiva Moreira me mandou uma dica: “Assista ao documentário ‘Como viver até os 100 anos: o Segredo das Zonas Azuis’ na Netflix. Você vai gostar”.

Dito e feito. Vi, gostei e ampliei pensamento. Trata-se de uma longa viagem feita pelo escritor Dan Buettner, decidido a descobrir por que há locais, que ele chama de Zonas Azuis, onde as pessoas vivem mais de cem anos e se mantém ativas, lúcidas, felizes.

Em linhas gerais, as Zonas Azuis são locais pacíficos, bonitos, a natureza é preservada, as pessoas se alimentam de produtos locais feitos por elas, não tomam remédios, não usam telas, estão sempre em grupo e se movimentam muito. Em resumo: não deixam que as máquinas façam coisas que elas próprias podem fazer.

Para além de tudo isso, em Okinawa, pequena localidade japonesa que produz a população mais longeva da história da humanidade, seus centenários deixaram Dan Buettner curioso quando falaram em Ikigai.

“Se perdermos o ikigai, é porque estamos prestes a morrer”

Ikigai pode ser traduzido por senso de propósito, energia de vida. É de cada um, singular. Não depende de ter ou não dinheiro, de ter ou não mérito. Sente-se naquele exato momento de abrir os olhos todas as manhãs.

Se eu estivesse produzindo um documentário, este seria o momento de trazer imagens belíssimas de convivência pacífica entre humanos e a natureza. A voz in of do locutor espalharia questões profundas, sem resposta, que sempre alimentam nossa capacidade de seguir pensando e pesquisando.

Para mim, este momento chegou hoje pela manhã, quando me sentei num banco à beira da Praia do Flamengo e apenas observei as pessoas em lazer, usufruindo de uma natureza que ainda se impõe, bela e potente.

Recorro a um dos livros que mais gosto sobre o tema. “Estocolmo, Rio, Joanesburgo – O Brasil e as três conferências ambientais das Nações Unidas” foi escrito pelo embaixador André Corrêa do Lago, que esteve na coordenação desses três encontros. Num trecho, ele relata que uma das teses que ganhava adeptos de respeitáveis cientistas ingleses na década de 70 falava que era preciso limitar a população mundial a 3,5 bilhões. Dessa forma, pregavam eles, felizmente numa proposta que morreu no nascedouro, seria possível garantir vida com qualidade para todos os habitantes do planeta.

Seria cruel limitar nascimentos, como as guerras são crueis, como as pandemias são devastadoras, até porque, por óbvio, o controle do crescimento atingiria só os mais pobres.

 Tenho a sensação, muitas vezes, que falhamos quando não damos valor à vida. Simples assim.

Uma das Zonas Azuis descoberta por Dan Buettner fica na Costa Rica, pequeno país da América Central, com uma população menor do que a cidade do Rio de Janeiro, que tem ficado cada vez mais longeva. Numa conversa entre o apresentador e uma funcionária do governo federal, ela diz a frase que, se não responde as minhas questões, serve para alinhavar e terminar estas reflexões:

“Nós não temos recursos naturais. As pessoas são nosso recurso natural”.

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‘Outra farmácia, não!’

O terreno é grande, pega uma esquina inteira aqui do bairro. Ali ficava o galpão de uma loja de materiais de construção. Lá um dia, soube-se que ela iria ser derrubada. Dito… e feito. Há uns seis meses, mais ou menos, chegou a turma da demolição. O terreno ficou sem o galpão, mas vazio, cheio de pedras e, com o tempo, é claro, também com lixo.

O disse-me-disse corria solto no balé urbano. Infeliz daquele governante que não percebe o quanto é importante o espaço de um bairro para seus moradores. É claro que há muitos desconectados, aqueles que passam com pressa de um lado para o outro, sem nem conseguir enxergar por onde andou. Mas há também aqueles que interagem e torcem.

Passando por lá, um dia vi que já tinha um tapume de obras. Sinal de que alguém tinha comprado o terreno. Logo o pintor que dá colorido às paredes do bairro – Odylio Falcão –  foi chamado para dar vida ao tapume. Criativo, ele formou uma frase e sugeriu: “O que você quer que seja aqui?”.

Ah, o povo não se fez de rogado. Cada um que passava, daquelas pessoas conectadas, deixava lá seu recado. Teve várias ideias: uma livraria; uma livraria com café; um mercadinho de produtos orgânicos (dos baratos, porque aqueles caros… aff).

Mas era só brincadeira, né? Claro. Porque, por mais que se more ali, que se caminhe por ali, que se tenha o local como extensão da própria casa, os moradores não foram chamados para ajudar a decidir nada. O espaço é privado, avisavam uns aos outros, de ombros baixos e muxôxo. Assim é, sempre. Quem tem capital é quem manda, fazer o quê?

Nos bilhetes sonhadores afixados no tapume, um pedido prevalecia: “Outra farmácia nãooo!”

É fácil explicar o motivo. Naquele quadrilátero do bairro, só ali, tem cinco farmácias. Poxa! É preciso apostar muito em doenças para resolver fazer um investimento em… mais uma farmácia. “Não, claro que não”, sonhávamos.

Pois foi exatamente o que aconteceu. Alguém achou – só por acaso, duvido que tenha sido feita uma pesquisa séria – que nós estamos precisando de mais uma farmácia. E hoje eu recebi a notícia do Sr João, que vende banana ali perto: ‘Eu não falei? Vai ser farmácia.”

Saí chutando latinha no meio fio. Outra farmácia para quê?

Tenho medo de sentimentalizar demais alguns aspectos que envolvem várias visões, portanto tentei, ponto a ponto, justificar a escolha. Uma farmácia vai dar emprego para muitos?

A resposta é: não. Há uma mega store na esquina seguinte, que talvez seja apenas um pouco menor do que a que está sendo construída, e ela está sempre vazia. Não totalmente, claro, mas quase. No entanto, é raro o cliente não enfrentar uma fila para pagar. Por quê? Porque há poucos funcionários. E há um deslocamento – do balcão para o caixa – quando se forma a tal fila.

Continuando meu check list para tentar justificar mais uma farmácia para o bairro, pensei que, no fim das contas, é um bairro onde há muitos idosos, e quanto mais farmácias, mais chance de se conseguir um desconto em remédios. Isto também não procede. Os preços variam, sim, mas para fazer uma economia real, é preciso ir às cinco e comprar uma coisa em cada uma. Dá trabalho e é chato. Não compensa a pequena economia.

De qualquer forma, ok, que se erga ali mais um tempo de consumo de drogas. Mas, precisa ser mesmo assim imensa? Se eu fosse ouvida, daria a seguinte sugestão: divida o terreno. Uma parte para a loja, outra parte com árvores e bancos. Aposto que a farmácia seria a mais frequentada do bairro.

Há outras opções, claro. A mais sonhada? Que a Prefeitura comprasse o terreno, mas não para lucrar com ele. ‘Apenas” para dar bem-estar aos moradores. E no terreno plantasse árvores adequadas, pusesse bancos, um espaço para crianças e outro para os cachorros. Seria um pouco espremidinho, mas com certeza as pessoas ficariam muito felizes.

Sim, estou sentimentalizando demais. Pés no chão, Amelia. A administração municipal precisa de dinheiro e dinheiro vem não só dos impostos dos moradores, mas também do comércio.

Ombros baixos, muxôxo… que venha então a tal farmácia. Parece mesmo que ninguém mais aposta em outra coisa. É muita falta de criatividade.

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Tempestade de ideias sobre o valor da vida

Tempestade de ideias sobre o valor da vida

Pesquisa recente feita no Reino Unido mostrou que as árvores em territórios que se tornaram inóspitos  estão se movendo para cima, para regiões mais altas. O estudo concluiu que o fenômeno seria uma espécie de fuga por causa das questões climáticas. É mais ou menos assim: em regiões de muita secura, as árvores estão buscando outro ecossistema para sobreviverem. O movimento, descoberto por pesquisadores da Universidade de Leeds e publicado na edição de 19 de agosto no jornal “O Globo” está preocupando os analistas.

A inquietação dos estudiosos se explica pelo fato de eles considerarem um perigo essa evasão. Ocorre que os animais e as plantas dos locais que estão recebendo as árvores, são mais suscetíveis a alterações no ecossistema. A presença dessas espécies  “invasoras”, “exóticas” à região, pode trazer problemas.

Desde que eu li essa notícia fiquei pensando sobre a vida. Em algum momento até comparei à trágica história dos migrantes que se arriscam em barcos frágeis para fugir de territórios, quer seja por causa de tiranos, quer seja pelo resultado das mudanças climáticas, como seca ou tempestade.

Será mesmo assim tão difícil a convivência entre essas árvores que encontram território menos inóspito para se manterem vivas e as plantas e animais do habitat que as acolheu?  

Ouvindo o podcast “Conversa na rede”, com Aylton Krenak e Eduardo Viveiros de Castro, chamado “Partículas particulares”,  estiquei meus pensamentos. O programa instigou-me a dar um atributo à tempestade de ideias que me seguiu: pensamento selvagem, segundo Viveiros e Krenak.

O antropólogo e o xamã são ligados à terra, aos saberes tradicionais, aos rios, aos bichos. E, no programa de cerca de 45 minutos, conversam sobre vida, sobre futuro, sobre partículas espraiadas por , sobre… sobrevivência. É do que se trata. Aquelas árvores que surpreenderam os analistas da universidade britânico estavam buscando sobreviver. E só um pensamento selvagem, que faz contato com o sensível, pode perceber isso dessa forma.

As mudanças climáticas têm recebido enormes holofotes, sobretudo desde que o velho continente se viu pegando fogo, enfrentando temperaturas inéditas para corpos tão acostumados ao frio. Será que os europeus, sofrendo com o clima, pensam em buscar novos territórios, menos inóspitos? Ou vão tratar de comprar aparelhos de ar refrigerado para continuarem a viver no mesmo local, de maneira mais confortável? Sou capaz de apostar na segunda hipótese, e é claro que essa corrida aos dispositivos aumenta a produção industrial que ajuda a causar mudanças climáticas.

“O capitalismo vive de produções inéditas, sem medir consequências”, disse Viveiros de Castro.

Há solução?

Krenak traz para a conversa uma expressão que usou para titular um de seus livros: o futuro é ancestral. Porque a ancestralidade não é, como hoje muito se propaga, um mundo atrasado, sem brilho, sem bem-estar. No passado até recente não havia aparelhos de celular, internet, os carros eram menos velozes e as redes sociais se faziam no bairro, na esquina. Por isso as pessoas eram infelizes?

Talvez nossos jovens, hoje, diante das notícias reais que mostram as adversidades enfrentadas pela humanidade por causa das mudanças climáticas, tenham mais medo do futuro do que as gerações passadas. Eles vivem numa era das contradições e dos paradoxos, quando sabemos muito e, ao mesmo tempo, muito pouco, como afirma a filósofa e zóologa estadunidense, Donna Haraway, em “Ficar com o problema”, livro que tem sido citado como referência entre vários campos de estudo.

“Sozinhos, com nossos diferentes tipos de especialidade e experiência, sabemos ao mesmo tempo muito e muito pouco, e então sucumbimos ao desespero ou à esperança – e nenhum dos dois é uma atitude sensível (ou sensata). Nem o desespero nem a esperança estão sintonizados com os sentidos, com a matéria conscienciosa, com a semiótica material, com os terráqueos mortais em copresença densa”, escreve ela

 Haverá mundo para as gerações futuras? Esse medo da finitude acompanha a humanidade. Mas as reações são diversas.

“O mundo dos povos indígenas das Américas se acabou em 1492. A chegada dos povos não indígenas ao seu habitat transformou inteiramente seu modo de vida. E nem por isso eles desapareceram”, lembra Krenak.

Segundo a ONU, há hoje 370 milhões de pessoas indígenas no mundo, o que quer dizer mais do que as populações dos Estados Unidos, do México, do Canadá. Eles falam quatro mil línguas diferentes e são 6% da população. Os territórios que habitam guardam 80% da biodiversidade que ainda resta no planeta.

O futuro é ancestral. O passado continha as sementes de possibilidades do futuro, conforme Krenak. Será que o mundo da Ciência vai se encontrar com o pensamento selvagem?

“O capitalismo quer saber quanto mundo ainda resta para ele comer. Os povos tradicionais pensam em qual mundo se pode criar? É possível produzir outros mundos, a vida não está contida no casulo do humano”, disse o indígena.

Xuku Xuku uê é uma expressão indígena que significa vida sempre. A ideia é que a vida é. Ela não será, ela não foi, ela é. Uma lagarta não sabe que vai virar borboleta e uma borboleta não sabe que foi lagarta. O que importa é viver o momento com  a intensidade possível.

Uma ode à vida, portanto. Que a vida passe a ser o valor, ocupando o lugar do ouro e do capital. Mudaria muita coisa nesse mundo.

O estudo feito pela universidade britânica e que me inspirou a escrever recebeu o título de “Global Distribution and Climate Controls of Natural Mountain Treelines” ( “Distribuição global e controle climático de linhas de árvores”, em tradução literal). Como é de praxe no mundo das ciências, só pode ser reconhecido depois de publicado numa revista  científica, no caso a “Global Change Biology  “. Com imagem de satélite, os pesquisadores descobriram que “de 2000 a 2010, cerca de 70% dessas linhas de árvores subiram em média 1,2 metros por ano. A mudança mais rápida foi observada nos trópicos, onde a subida foi de cerca de 3,1 metros por ano”.      

Será a vida falando mais alto? Ou será uma forma que as árvores “acharam” de ficar com o problema? 

Já que falamos tanto em plantas, vale terminar esta reflexão com o pensamento sensível de Stefano Mancuso, uma das autoridades em todo o mundo na área de Neurobiologia Vegetal. Em “Nação das Plantas” (Ed. Pergaminho), de maneira firme, sem vacilar, ele afirma ter uma proximidade com as plantas, de quem se tornou amigo. “A maioria das plantas que nos rodeiam […] são, efetivamente, espécies que, com a domesticação, iniciaram conosco uma relação especial de cooperação”. Assim, com a ajuda delas, o escritor criou uma Constituição das Plantas.

Mancuso certamente não se surpreende com a atitude daquelas árvores que provocaram o estudo. Subir mais para garantir sua sobrevivência só não é mais esperto do que viver em cooperação entre si.

“A cooperação é a força através da qual a vida prospera, e a Nação das Plantas reconhece-a como o primeiro instrumento do progresso das comunidades”, escreve ele.

Cooperar, compor… verbos do futuro ancestral. As árvores sabem muito bem do que se trata.

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Afinal, quem paga a conta das emissões?*

Por felicidade, acaso ou tomada de consciência tardia, o assunto “mudanças climáticas” tem ocupado fortemente o noticiário este ano. Dos eventos mais recentes que aumentaram o foco sobre o tema, a onda de calor em alguns países da Europa está na ponta, alavancando reflexões sugeridas há tempos e sempre guardadas num nicho das situações anódinas. É o espaço dos problemas cuja solução depende de tanta coisa que… é melhor postergar um pouco mais.

Fato é que, pelo menos aparentemente (pode ser apenas mais um momento propício, nunca se sabe) as mudanças climáticas se impuseram como tema urgente. Termômetros alcançando níveis altíssimos na Itália, na Grécia, é algo que atrapalha o turismo, mexe com a saúde, desnorteia até um planejamento urbano que tem contado sempre com temperaturas mais amenas. Mais ou menos como se nevasse na Praia de Copacabana no inverno.

Hão de se perguntar, alguns desavisados, se afinal de contas estamos sendo flagrados por esse fenômeno, ou se já se sabia que tudo estava para acontecer. A resposta é: as descobertas vêm sendo feitas – assim mesmo no gerúndio – e em passos lentos, mas com embasamento científico.

Em 1972 aconteceu a primeira Conferência Mundial do Meio Ambiente ancorada pelas Nações Unidas em Estocolmo. De lá surgiu o trabalho “Um só planeta”, o que se pode chamar de reconhecimento de que os bens naturais, também chamados de recursos naturais, são finitos.

Mas, como explica o embaixador Andre Corrêa do Lago em ‘Estocolmo, Rio, Joanesburgo – O Brasil e as Três Conferências Ambientais das Nações Unidas”, a Conferência de Estocolmo, de maneira geral, não causou um grande efeito na opinião do grande público:

 “O processo negociador é visto muito mais sob ângulo pessimista, – como um triturador de ideias progressistas”, escreve ele.

Stefano Mancuso, escritor italiano e uma autoridade mundial em Neurobiologia Vegetal, estende essa percepção da não aderência até mesmo a 1988, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou com unanimidade uma resolução sobre o tema: “Proteção do Ambiente Global para as Atuais e Futuras Gerações da Humanidade”. Mesmo contrapondo com a ideia de que sem esses tratados assinados em conjunto a situação poderia ser ainda pior, Mancuso pontua:

“Permanece o fato inegável de que estes acordos, em parte devido às notórias dificuldades de implementação, em parte devido à escassez de vontade e incapacidade política, parecem ser totalmente ineficazes”.

Tantas cabeças, tantas sentenças diferentes, serão mesmo capazes de construir um guia eficiente para se evitar que a espécie humana seja expulsa do planeta?

A ideia é avançar no debate, mesmo que para isso tenhamos que retroceder na história até o século XVIII, na primeira Revolução Industrial, que começou a poluir a atmosfera. Países ricos passaram a construir coisas com a matéria prima fornecida pelos países pobres. Ok, a equação não é assim tão infalível, há variáveis. Mas o fato é que a conta da poluição de gases de efeito poluente que estão ajudando a aquecer o planeta e, portanto, a severos eventos naturais, foi para os países ricos. Como o calor agressivo na Europa, por exemplo.

Responsabilidade comum, porém diferenciada

Como já se imagina, essa discussão ainda está longe de ter um resultado. A ativa percepção do presidente Lula, de que as questões climáticas são tema de suma importância, tem pintado a questáo com cores fortes e ajuda também a trazê-lo à tona.

“Não há dúvidas de que precisamos ampliar nossos esforços de mitigação, em especial os países que historicamente mais emitiram gases de efeito estufa, mas não podemos perder de vista a demanda crescente por adaptação e perdas e danos”, disse ele em Hiroshima no encontro do G7.

Em resumo, a questão é a seguinte: países ricos, que se beneficiaram com a matéria prima que colheram dos pobres, agora precisariam ajudá-los a diminuir as emissões, ajudando a pagar a tecnologia para mitigá-las. E, quem sabe assim, arrefecer a fúria dos eventos extremos que prejudicam sobretudo os mais pobres.

Numa recente oficina organizada pelo escritório de advogados Graça Couto, em que o tema veio à tona, a expressão “responsabilidade comum, porém diferenciada” chamou a atenção. É do que se trata? Como solucionar?

Um dos sócios do escritório e especialista em direito ambiental,  Guilherme Leal, lembra que, sim, existe uma regra:  países desenvolvidos que contribuíram de forma significativa para a acumulação histórica de gases de efeito estufa na atmosfera devem liderar esse percurso de transição para uma economia de baixo carbono.

“Eles têm uma responsabilidade histórica que os diferencia, e não à toa existe esse principío de responsabilidade comum porém diferenciada, que não é um princípio novo, está previsto na Convenção Quadro da Rio-92, e é um princípio do direito ambiental internacional”, disse Guilherme Leal.

O advogado não tem outra escolha senão deslizar também na linha do tempo para prosseguir com a reflexão. Cinco anos depois da Rio-92, Conferência que reuniu delegações de 172 países e trouxe ao Rio de Janeiro 108 chefes de Estado,  o Tratado de Kyoto foi assinado, organizando uma relação de países desenvolvidos que assumiram expressamente o compromisso de mitigação de emissões.

“Tínhamos ali o que chamamos de diferenciação binária, ou seja, ou o país tem ou não tem o compromisso (de mitigar as emissões). Kyoto foi esse movimento, de compromissos fortes. Mas Estados Unidos não ratificou, alegando que não podia incorporar essas obrigações internamente. Alegou ainda que o mundo vivia um contexto diferente, quando Índia, China, Rússia e Brasil já estavam contribuindo para as emissões significativamente. Não seria justo que os mais ricos, sozinhos, assumissem o compromisso”, disse Leal.

Na época o assunto foi, assim, esfriado. Mas algum tempo depois foi novamente levantado. Começam a surgir, nos debates das Conferências, a ideia de tratar essa diferenciação de responsabilidades de maneira mais flexível.  Até que, em 2015 em Paris,  na COP-15, consegue-se o já famoso Acordo de Paris. É um acordo híbrido, como lembra Guilherme Leal:

“Aquela relação de países organizada em Kyoto é extinta porque se decide não impor metas específicas a ninguém. Cada país assume um compromisso de acordo com suas próprias características e particularidades e capacidades nacionais. A obrigação de apresentar esse compromisso (chamado NDC) é de conduta, não de resultado. Não há uma obrigação de qual meta que o país tem que atingir, não há uma autoridade global que fará esse juízo”, disse Leal.

É um acordo híbrido: rígido em procedimento (obrigações fortes de apresentar um compromisso) e flexível em substância (quando diz que cada país é livre para dizer qual será esse compromisso).

A importância do direito ambiental

E ninguém pense que será fácil. Os eventos estão aí, a medir a urgência. Instituições privadas, civis, públicas, não se cansam de emitir alertas sobre os impactos ambientais que nossa produção está causando.

Estamos próximos, por exemplo, do Dia da Sobrecarga da Terra, que este ano cairá no dia 2 de agosto.   Trata-se de uma efeméride criada por organizações da sociedade civil para marcar o dia do ano em que a humanidade, tendo consumido toda a produção de recursos que os ecossistemas terrestres são capazes de regenerar para esse mesmo ano, começa a consumir recursos que já não são renováveis.

‘Não é preciso ser um gênio para perceber que este modo de atuar é insensato’, escreve Mancuso.

Já que sabe falar, dialogar, o homem vem ao menos tentando implementar ferramentas que possam regular as questões em torno de quem deve se responsabilizar para minimizar tanto impacto. O direito ambiental surge como um instrumento para isso.

“Ele surge, em essência, na década de 70, muito fortemente nos Estados Unidos. No Brasil surge em 1981, com a Política Nacional de Meio Ambiente e, em 1988, a Constituição garante o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. É a consolidação de um conjunto normativo básico da garantia, que começa a tratar o meio ambiente de maneira integrada e não apenas como recursos naturais isolados: proteção de floresta, dos animais, do rio, da água”, analisa Guilherme Leal.

A partir da década de 90, o Brasil passa a ter normas “mais instrumentais para colocar em prática a defesa desse macro bem ambiental, desse direito que se passou a reconhecer”.

O advogado situa o início do século como a era em que os tribunais entram na discussão, junto com o Ministério Público, na interpretação e compreensão do que diz a lei.  Na interpretação de Guilherme Leal, a sociedade civil       passa a abraçar mais a pauta, e o mundo fica menor, com a Internet.

“Normas e leis editadas na Europa são recebidas aqui no Brasil instantaneametne e de maneira muito acessível, com tradução imediata e com uma percepção de que existe uma causa comum em todo o mundo e que a sociedade civil se identifica demais com essa pauta”, disse ele.

Greta Thunberg, a jovem sueca que tem sido arauto da inércia dos líderes, é um exemplo dessa sociedade que passa a atuar sem dourar a pílula. Finalmente parece ter caído a ficha: vivemos num único mundo, e precisamos atuar em conjunto para garantir vida às futuras gerações.

É preciso que se diga que este foi o significado de desenvolvimento sustentável escrito em “Nosso Futuro Comum” em 1987… A história não nos deixará esquecer.

  • Texto originalmente escrito para o site #Colabora
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Quem é inteligente? O homem ou as baleias?

Na semana passada, o secretário-geral da ONU Antônio Guterres veio a público alertar, mais uma vez, para a falta de iniciativas que realmente possam dar conta de tentar conter o avanço do aquecimento global. Dessa vez, ele usou como exemplo as cenas de ondas de calor intenso que vêm assolando a Europa. Meteorologistas acreditam que a Itália registre 48 graus nos próximos dias.

Baleia Jubarte em Arraial do Cabo, foto de Custódio Coimbra em julho de 2023

Esse calorão não é nenhuma novidade para quem acompanha há décadas os relatórios divulgados pelos cientistas do Painel Intergovernamental SOBRE  Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) ou os resultados das COPs (Conferência das Partes sobre o Clima) ancoradas pelas Nações Unidas. Está tudo escrito, com dados que só vêm se mostrando, dia a dia, mais embasados.

 Muita gente para, lê, se incomoda e segue adiante. Outros resolvem tomar alguma atitude, pequena que seja, para ajudar na tentativa de conter o aquecimento.

Poucos, felizmente muito poucos, estão na negação.

 Sim, somos uma espécie que destrói o próprio habitat e que, ainda por cima, se julga mais inteligente do que qualquer outra espécie do planeta. Acho bastante  curiosa, portanto, a reação de espanto diante dos ataques das baleias orcas aos lemes de barcos no Estreito de Gilbratar, na Península Ibérica que circulou nesta semana. Só agora descobriram que esses mamíferos são capazes de reagir.

A primeira notícia a esse respeito foi divulgada na revista Science e reproduzida pelo jornal britânico “The Guardian” em maio e julho deste ano e na edição impressa do jornal “O Globo” de ontem (15). A história é a que segue: baleias Orcas se aproximam de barcos e começam a bater fortemente no leme. Só saem de perto depois que o barco para e não tem condições de seguir adiante.

Pessoas que passaram pela experiência, estando no interior de um barco abalroado pelas baleias,  contaram um pouco de suas histórias para as reportagens, que não são “de pescador”, porque muitas foram acompanhadas por imagens. O capitão Werner Schaufelberger estava num iate, na noite de 4 de maio, no Estreito de Gibraltar, na costa da Espanha, quando três orcas começaram a bater contra o leme.

“Havia duas orcas menores e uma maior. As pequenos balançaram o leme na parte de trás enquanto a grande recuou repetidamente e bateu no navio com força total pelo lado” , disse ele à revista alemã Yacht .

Schaufelberger tem uma explicação humana para o episódio. Para ele, a baleia  maior era a mãe, que estava ensinando a técnica de abalroar iates para as filhas. Seja como for, fato é que se o intuito das baleias era tirarem de cena aquele objeto que navegava em suas águas, elas conseguiram. O iate foi recolhido pela guarda costeira e afundou na entrada do porto.

O site especializado em baleias Orca Atlântica dá nome ao fenômeno: são interações. Diferentemente de quando a Orca apenas avista o ser humano e não chega perto (chamado de avistamento), as interações acontecem “quando os animais fixam a atenção no barco, chegando a manter um contato direto, ou seja, quando eles se aproximam, observam e/ou tocam o navio”.

O comportamento é perturbador, e disso não há quem duvide. Mas não é novidade. Segundo o site, a primeira vez que alguém contou ter acontecido algo assim foi em 2020. Primeiro foi com veleiros, depois embarcações de pesca. O relato das pessoas coincide: as Orcas tocaram, empurraram e até rodaram as embarcações, o que em alguns casos resultou em danos nos lemes.

“No total, foram registradas 52 interações entre julho e novembro de 2020 nas águas entre o Estreito de Gibraltar e a Galiza (Península NW), incluindo a costa ao longo de Portugal continental. Registraram-se dois novos casos a partir de janeiro de 2021 na costa atlântica de Marrocos e Estreito de Gibraltar, destacando-se a persistência deste novo comportamento ao longo do tempo, atingindo 197 interações no final do ano. Em 2022,foram registradas207interações”, diz o site Orca Atlântica, que sugere atenção ao fato e coordenação internacional entre administradores, navegadores e cientistas para evitar que algo mais grave aconteça tanto às Orcas quanto aos humanos.

Dei tratos à bola (expressão que minha mãe costumava dizer muito) para imaginar o que pode estar causando o fenômeno. Considerando que as baleias não demonstram intenção de interagir com os humanos, apenas com seus barcos, minha primeira reação foi pensar que o problema, para elas, é o barulho. Tão logo conseguem terminar com aquele desconforto, elas partem tranquilas.

Não somos, como bem demonstra o fato, as únicas criaturas capazes de pensar nesse planeta.

E, cá pra nós, a julgar pelo descaso com que vimos tratando os alertas de que será preciso mudar hábitos e consumo para garantir a permanência da humanidade no planeta, estamos longe do ranking dos mais inteligentes.

Para terminar, um exemplo de que é possível, ainda, reverter parte da situação. No jornal “O Globo” de hoje, há reportagem de Lucas Altino, com fotos belíssimas de Custódio Coimbra, que me cedeu algumas para ilustrar este texto,  mostrando que as baleias Jubarte estão de volta ao litoral brasileiro. Bastou, para isso, proibir a caça e pesca desses mamíferos que são importantíssimos para a nossa biodiversidade.  

Segundo o site da ONU, as baleias ontribuem com pelo menos 50% de todo o oxigênio da nossa atmosfera, ou seja, fornecem metade do ar que respiramos. E também capturam cerca de 37 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, o equivalente a quatro florestas da Amazônia.

Pensando nisso, não teríamos que erigir santuários para esses belos mamíferos?

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O tempo, esse feiticeiro

Quero falar sobre acontecimentos, sobre a potência do tempo quando ele é vivido intensamente. Quero falar de uma noite que começou com o convite de uma amiga para ir ao lançamento de um livro.

Francis Hme e seu piano no charmosíssimo espaço do Pro-Saber. Foto de Lucila Soares

A noite estava gostosa, como são gostosas as noites de inverno no Rio. Um casaquinho, uma calça comprida, e já estava eu aquecida e confortável, sendo recebida com carinho na simpática casa do Instituto Pró-Saber, uma faculdade particular gratuita que trabalha pela valorização da educação.

Dois dos meus sentidos foram aguçados. O primeiro foi a visão. Adoro ver espaços bem resolvidos, enfeitados na medida certa e sem luxo. Um banquinho com flor chamou logo a minha atenção quando o vi ornando o palco que tinha um piano. E foi só aí que percebi: o livro que estava sendo lançado é o “Francis Hime – Ensaio e entrevista’” da Editora 34, escrito por André Simões. Sim, e Francis Hime iria cantar!

Como disse aí em cima, estou aqui para falar sobre a potência do tempo.

E da memória.

Pois bastou o primeiro acorde do piano de Hime, de quem sempre fui fã, para me levar aos anos em que se esperava ansiosamente os discos dos nossos cantores prediletos. Hime, Chico, Milton, Gil, Caetano… como seriam as capas? Que músicas traria? Tempo de aguçar a audição, aliada à memória.

Naquele tempo… a vitrola não parava. Não tínhamos como levar para o ônibus, o trabalho, aquelas músicas, como hoje se faz, com um pirulito espetado no ouvido (sem preconceito, juro! Só estou constatando). Por isso, era preciso esperar um tempo, ter paciência para chegar em casa, abrir cuidadosamente a capa e degustar cada verso ou redondilha. Não demorava muito, e já estava tudo decorado.

Estava eu mergulhada nesses pensamentos quando Francis Hime começou a tocar. As primeiras notas já me fizeram reviver aquela que eu era. Será que deixei de ser algum dia? “Quando olhaste bem/ os olhos meus/o teu olhar/ era de adeus…”. Ora, como não sentir o coração quentinho? Seja lá o que for que eu tenha vivido sob essa canção, com certeza o vivi de maneira  apaixonada.

E a paixão nos torna resistentes. Aos 83 anos, Francis Hime tocava com uma força e vibração que o tornava atual, contemporâneo de qualquer jovem da plateia. Hime tocava apaixonadamente. Será a paixão a potência do tempo?

O livro é um primor. Andei com ele debaixo do braço pela rua afora e, em casa, com os óculos adequados, comecei a folheá-lo. Está ali a história da  música brasileira, de uma época que eu vivi!

A partir de uma entrevista com Francis Hime – que toca de canção popular a música de concerto, que fez trilhas sonoras, que sempre se colocou politicamente do lado certo – Andre Simões nos brinda com… a nossa história. A crônica de uma geração que viveu num tempo em que se esperava para ouvir um disco.

Ah, muita coisa está embutida nesse comportamento que hoje pode parecer  tão anacronico.

E não é que me lembrei de cada verso de “Passaredo”, uma das minhas prediletas?. “Toma cuidado/bico calado/ que o homem vem aí” é um dos versos que me acompanham quando caminho e converso com a passarinhada aqui do bairro. Eu, representante da espécie dos predadores.

Volto a 2023, à noite de junho gostosa que foi me nutrindo de boas, sensíveis, emoções. Ali na mesa, como mediador, estava Gregório Duvivier, o ator que reconheço por me fazer dar algumas boas risadas. Respeitoso, pouco falou, mas o jeito com que olhava dava para notar que estava comprometido, emocionado com o que via.

O show já ia à metade, canções após canções, quando Andre Simões fez o anúncio da 71ª parceria de Francis Hime: ele mesmo, Duvivier. E lá vem a música escrita pelo escritor humorista: divertida, cantada também de forma divertida, termina com um; “Guarda aí meu whats app/ para eu ser seu plano B”. Dei risada. E foi bom ouvir, encaixou-se no contexto do tempo, esse fugaz.

Nosso espetáculo, quase intimista, continuou. Bem solto e à vontade, Francis Hime contou que certa vez, num bar em terras estrangeiras, ouviu o músico que fazia o show anunciar:

 “Agora vou tocar “Minha” (letra de Ruy Guerra e canção de Hime), composta por um excelente músico brasileiro, Francis Hime”.

“Era eu!!”, disse ele, divertido.

E não é que um dos grandes nomes da MPB, já consagrado à época, emocionou-se com a menção a seu nome e, no fim do recital, ficou envergonhado de se apresentar ao músico?

Sou dessas.

Ao som de “Vai passar”, última canção da noite, que mobilizou a plateia e me fez também dar uns passinhos desengonçados, eu caminhei direto para a mesa onde os livros eram vendidos, comprei e saí correndo. Uma amiga ainda me ofereceu: “Eu pego o autógrafo para você”. Pensei um segundo, mas preferi me agarrar ao livro e levá-lo logo para casa.

Sim, eu tinha um compromisso, uma aula online. Mas, será mesmo que eu não poderia ter esticado aquele tempo, ido lá, apresentar-me como fã e dado um abraço no ídolo?

Tempo que se foi. Claro, em casa eu aproveitei também a aula, onde estamos lendo o pensamento de Henry Bergson e Gilles Delleuze sobre o tempo, a síntese do tempo, o tempo memória…

A emoção me embalou uma noite de sono tranquila. Não sonhei com o tempo de cantar chorando aqueles versos. Não me ressinto dos amores perdidos, pelo contrário, eu agradeço à minha capacidade de me apaixonar.

 Porque com paixão se preenche a potência do tempo.

Hoje pela manhã, quando ouvi o presidente Lula discursar na Cúpula de Paris, mais ainda me convenci de que é preciso tesão para viver intensamente seja o tempo que for. Aos 77 anos, Lula falou firme, forte, apontou o dedo para a ferida de nossos tempos.

Não sei se as palavras de Lula vão servir para, como ele disse, trazer os desiguais à mesa de debates. Mas dá alento ouvir isso, dito de maneira potente, por um… septuagenário apaixonado, também, pelo que faz.

O tempo, esse feiticeiro. É bom entender melhor as dobras que ele faz em cada um de nós.

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Inspira, respira… e tenha boa saúde

Aconteceu num dia em que meu estresse estava num nível bem mais elevado do que o normal. Sou uma pessoa 24/7, que não se conforma em ficar sem notícias, que quer explicação e solução para todos os problemas, que precisa estar atenta, sempre alerta, 24 horas, sete dias da semana. Como se pode imaginar, em alguns momentos o corpo reclama. Felizmente, com o passar dos anos, tenho sido mais responsável e tenho cuidado mais de mim. Sobre isso falo depois. Por ora, quero compartilhar o dia em que eu, à época estreando num fracassado projeto de negócios, quase pifei.

Não me lembro se foi zonzura, dor de cabeça ou qualquer outro sintoma. Sei que não estava bem e liguei para o Mauricio Tatar, meu médico, sobre quem já falei aqui neste espaço (autor do livro “Cuidar de Si” , Editora Mauad, que tem meu texto). Depois que eu desfiei meu rosário de queixas por telefone, Tatar marcou uma consulta e disse, antes de desligar:

– Respira! Não se esqueça de respirar!

Não fosse a relação médico/paciente de confiança mútua que temos, eu teria feito apenas um muxoxo à observação final, e seguido em frente. Mas, além do muxoxo, prestei atenção à sugestão e fiz o que ele propunha.

Nas consultas, que sempre geram muita reflexão, Tatar Já havia conversado sobre o papel da respiração na saúde da gente. Coisa difícil porque é comum respirar no automático, sem perceber. Agora, por exemplo, enquanto está lendo este texto, você já reparou na sua respiração?

Conversa daqui, registra dali, fato é que eu sabia, por ter ouvido dele em outras ocasiões, que a sugestão – “Respira!” – ia além de buscar o ar de forma quase ansiosa, como eu devia estar fazendo naquela tumultuada ocasião.

 Respirar começa com a soltura do ar, de forma lenta e profunda. Cerca de cinco segundos depois, só então é hora de inspirar. Foi o que fiz. E foi o que bastou para eu sentir como estava completamente travada, como se meus órgãos estivessem colados uns aos outros. A tal ponto, que foi difícil conseguir exalar. Mas quando busquei o oxigênio, segundos depois, senti um bem-estar incrível.

A situação estressante ainda estava lá, mas eu fiquei cuidando de mim, ao menos por momentos. E isto foi revolucionário para aquele instante e para os seguintes, tanto que não me esqueci da sensação até hoje.

Recuperei essa história na memória quando, dias atrás, decidi incorporar um exercício mais completo na minha rotina. Inscrevi-me numa aula de natação num clube grande, aqui perto de casa, que tem uma piscina semiolímpica. Na hora do cadastro, é claro, busquei uma turma de iniciantes. Aprendi a nadar já bem adulta, e há mais de uma década não treino.

No dia e hora marcados, lá estava eu, toda paramentada, pronta para estrear na piscina. Até que não fui mal, tanto que o professor se sentiu à vontade para relaxar um pouco e me dizer, duas aulas depois, que eu já estava apta a ir além. Isto significava nadar a piscina toda, em vez de ir só até a metade. São 25 metros. Quatro chegadas: cem metros. Eu conseguia, meio aos trancos e barrancos, mas já estava me achando.

A vida seguia assim, até que eu viajei para fazer um trabalho. Foi bom, rendeu bem, e eu me cansei. Voltei num dia e tive aula de natação no dia seguinte. O cansaço tinha provocado uma certa sensação de resfriado só nas vias aéreas superiores. Achei que seria o momento ideal de exercitá-las. E lá fui eu para a piscina.

Touca, máscara, protetor de ouvidos e.. tibum. Ao longe, ouvi a voz do professor: “Quatro chegadas em crawl”. Lá fui eu. Mas, no meio da piscina, cadê o ar? Engoli água, busquei a borda, e continuei tentando e tentando. A dificuldade não era mecânica, dos movimentos, mas me faltava o ar, simples assim.

A sensação foi tão desagradável que me levou a fazer uma reflexão a respeito do meu resultado na piscina e, noves fora, percebi que as aulas me deixavam mais cansada do que com a sensação boa de ter praticado um exercício. E foi meu último dia de aula na piscina semi-olímpica.

Mas não desisti de praticar na água: hoje estou numa ótima hidroginástica, piscina pequena, que me dá a chance de praticar natação quinze minutos/dia. E está de bom tamanho.

 Mas, como sempre faço, segui pensando. No caso, o ato de respirar passou a ser meu mote. Lembrei-me do capítulo do “Cuidar de Si” ao qual dei o título “Nos movimentos, o impulso de vida”. Lá está o alerta: com o passar do tempo, os adultos vão desaprendendo a respirar com o abdômen, passam a fazer uma respiração torácica, rápida, que demonstra ansiedade. É só reparar como respiram os bebês: a barriguinha se enche de ar e cresce, depois diminui à medida em que o ar vai saindo.

“Nossa respiração se torna mais curta, e com isso vamos acumulando gás carbônico. Quanto mais gás carbônico, menos espaço temos para o oxigênio. Afinal, dois corpos não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo”, afirma Mauricio Tatar.

Marquei com Tatar uma conversa para falarmos só sobre respiração. E compartilho aqui alguns bons esclarecimentos que ele me deu. Para início de conversa, vale desmitificar: o ar que respiramos é uma mistura gasosa que contém 21% de oxigênio, 78% de nitrogênio e 1% de argônio, um gás nobre.

“Análises feitas com o ar expirado constataram que só 6% do oxigênio inspirado foram absorvidos”, explica o médico.

A explicação é simples: respiramos ar poluído. Como não temos oxigênio suficiente nos centros urbanos, liberamos também pouco carbônico. Resultado: respiração curta, sensação de angústia. Era exatamente assim que eu me sentia quando, lá atrás, liguei pedindo ajuda.

Uma coisa puxa a outra, e as boas reflexões levam à saúde. Vamos ouvir quem entende:

“Quando uma pessoa diz que está com falta de ar e não consegue respirar, na verdade ela está inspirando pouco oxigenio. Existe uma troca gasosa, para eu inspirar o oxigênio,  eu preciso eliminar (expirar) gás carbonico. Se eu não elimino muito gás carbonico, pouco oxigênio irá entrar. Para você absorver o oxigênio,  o ar precisa ser filtrado e aquecido. E só o nariz faz isso”, explica Tatar.

A falta de ar que um asmático refere, na pratica é um excesso de gás carbonico que não foi eliminado. Quanto mais gás carbonico eu retiver, mais ansioso eu fico, mais disperso e sem concentração,  agitado e inquieto eu ficoUm pensamento vai puxando o outro… até que chego à minha fonte de estudos, o ecosociodesenvolvimento. Em outras palavras, neste caso, desenvolvo a reflexão sobre como as questões climáticas impactam a saúde humana.

 No ano passado, a OMS revisou suas Diretrizes de Qualidade do Ar e concluiu que “a base de evidências para os prejuízos que a poluição do ar causa ao corpo humano vem crescendo rapidamente e aponta para danos significativos causados até mesmo por baixos níveis de muitos poluentes do ar.”

A dedução de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, é que precisamos, com urgência, “avançar mais rapidamente em direção a um mundo muito menos dependente de combustíveis fósseis”.

Tornando mais explícito o alerta do executivo da OMS, é preciso avançar nas pesquisas e desenvolvimento para descobrir novas fontes de energia e investir nelas. Mas isso precisa de uma concertação entre empresas e consumidores, do contrário vamos continuar escarafunchando a terra em busca de petróleo até… sei lá até quando.

Enquanto isso, e enquanto nos sobra o oxigênio, o melhor investimento será mesmo em respirar direito para ganhar mais saúde. É no que eu acredito, por isso compartilhei com vocês esses pensamentos.

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Uma semana que desperta questões

Na semana do Meio Ambiente, que vai até o dia 9 de junho, eu me reservo o direito de questionar.

Na foto clicada por Custodio Coimbra, a presença de plástico nas águas da Baía da Guanabara

E começo questionando o sentido de os supermercados  terem ainda tantas embalagens plásticas ao mesmo tempo em que cobram, dos clientes, pelas sacolinhas plásticas que ajudam a carregar as compras. Você pode achar um questionamento mixuruca diante de um evento mundial tão importante, mas eu insisto. É um paradoxo, um dos muitos que povoam nossa era. E não vamos nos livrar dele se não pusermos o dedo na ferida coletiva. É mexendo nas coisas que parecem pequenas que a gente pode alcançar algum êxito em fazer mudanças radicais.

Não estou trazendo o assunto à toa. Na verdade, quem escolheu o espinhoso tópico para povoar nossos pensamentos foi a ONU. Para comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, como sempre faz anualmente, ela elegeu como tema “Soluções para a poluição plástica’.

Está na hora, portanto, de tentar não esquecer que existe 1,6 milhão de quilômetros quadrados e 79 mil toneladas de lixo plástico no Oceano Pacífico, segundo os últimos dados fornecidos pela revista Nature. Jogados pela civilização humana.  Nessa mesma reportagem, a notícia é de que há vidas se proliferando nos plásticos por nós descartados de qualquer jeito. E essas vidas estão pegando carona para navegar pelo oceano em direção a… sabemos nós?

Desculpe se tirei o prazer do seu café tomado às pressas numa cafeteria do Centro, ou se não levei em conta que é mais cômodo embrulhar o lanche das crianças em sacos plásticos. Ou, ainda, se estou sendo inclemente ao julgar que não dá mais para esquecer a bolsa retornável em casa quando se vai fazer compras. Adoraria dizer que todas essas atitudes nos trariam resultados imediatos, mas penso que a medida de redução deve vir de cima. Meu foco, como se vê no início do texto, é outro.

Nos fundos da Baía da Guanabara, Custódio Coimbra fez o flagrante do estrago feio pelo plástico

Para ajudar a formar pensamento crítico – e cobrança – relaciono abaixo alguns dados do site da OCDE que nos lembram que vamos precisar nos empenhar muito para encontrar soluções. Por enquanto, só estamos criando o problema.

  • O consumo de plástico quadruplicou nos últimos 30 anos, impulsionado pelo crescimento nos mercados emergentes. A produção global de plásticos dobrou de 2000 a 2019, atingindo 460 milhões de toneladas. Os plásticos representam 3,4% das emissões globais de gases de efeito estufa.
  • A geração global de resíduos plásticos mais que dobrou de 2000 a 2019, para 353 milhões de toneladas. Quase dois terços dos resíduos plásticos vêm de plásticos com vida útil inferior a cinco anos, com 40% provenientes de embalagens, 12% de bens de consumo e 11% de roupas e têxteis.
  • Apenas 9% dos resíduos plásticos são reciclados (15% são recolhidos para reciclagem, mas 40% são eliminados como resíduos). Outros 19% são incinerados, 50% acabam em aterros sanitários e 22% fogem dos sistemas de gerenciamento de resíduos e vão para lixões descontrolados, são queimados a céu aberto ou acabam em ambientes terrestres ou aquáticos, principalmente em países mais pobres. 
  • Em 2019, 6,1 milhões de toneladas (Mt) de resíduos plásticos vazaram para ambientes aquáticos e 1,7 Mt fluíram para os oceanos. Estima-se que haja agora 30 Mt de resíduos plásticos nos mares e oceanos, e outros 109 Mt acumulados nos rios. O acúmulo de plásticos nos rios implica que o vazamento no oceano continuará nas próximas décadas, mesmo que os resíduos plásticos mal administrados possam ser significativamente reduzidos.
  • Considerando as cadeias de valor globais e o comércio de plásticos, alinhar as abordagens de design e a regulamentação de produtos químicos será fundamental para melhorar a circularidade dos plásticos. Uma abordagem internacional para a gestão de resíduos deve levar à mobilização de todas as fontes de financiamento disponíveis, incluindo a ajuda ao desenvolvimento, para ajudar os países de baixa e média renda a cobrir os custos estimados de 25 bilhões de euros por ano para melhorar a infraestrutura de gestão de resíduos.
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Preservar a biodiversidade faz bem, e não é só para o planeta

Um olhar cuidadoso, uma escuta muito atenta, passos curtinhos, silenciosos e, sobretudo, muita leveza. Para observar pássaros soltos em seu habitat, não se deve fazer nenhum movimento brusco. Se a visita for em grupo, é preciso respeitar o espaço e se calar, respirar em consonância com o ambiente em volta. Qualquer solto som pode espantar a preciosidade do momento.

Em um par de horas, aprendi quase tudo isto com o guia Brener Fabres, na Reserva Natural Vale, quando lá estive, em Linhares no Espírito Santo.  Um dos maiores espaços preservados da Mata Atlântica*, a Reserva abriga 402 espécies de aves que vivem soltas, obedecendo às leis da natureza, nem sempre afáveis, mas nunca injustas. Ali não há julgamentos: ganha quem é mais forte.

Foto: Leonardo Meçon / Instituto Últimos Refúgios

No topo da cadeia alimentar das aves que ocorrem na Mata Atlântica temos a Harpia, também chamada de gavião real, nome que os homens lhe dão porque seu aspecto evoca reis e rainhas. Linda, imponente, a fêmea chega a medir dois metros e meio quando abre as asas, e chega a pesar mais de nove quilos. O macho é um pouco menor, mas não por isso menos potente. Essa espécie precisa de proteína animal para sobreviver: macacos, preguiças e ouriços. Sim, deve ser cruel e eu não consigo nem imaginar o momento da caça. Mas assim é a lei dos animais.

Apesar de chegar a medir até um metro de altura e de estar entre as cinco maiores aves de rapina do mundo, a Harpia é discreta. Seu piado inicial é quase confundido com o som de um pássaro menor, até que, segundos depois, ela emite um grito. Embora não seja muito alto, até para os que pouco entendem do riscado é possível reconhecer nesse grito a presença suntuosa de uma ave de rapina.

A Harpia gosta de fazer seus ninhos quase no topo das maiores árvores da floresta, e como sua penugem é cinza e preta, é muito difícil vê-la. Quando não confrontada com situações de risco, ela pode viver até 56 anos. Mas hoje faz parte de uma triste lista de espécies criticamente em perigo de extinção.

E são as atividades humanas o seu maior inimigo. A Harpia precisa ficar esperta contra os caçadores ilegais. E o desmatamento testa suas forças de maneira cruel, porque degrada seu habitat e diminui a sua chance de obter alimentos. Os últimos dados fornecidos pela Fundação SOS Mata Atlântica dão conta de que de 2020 a 2021 o desmatamento na região deu um salto, chegando a 21.642 hectares.

Para sorte de alguns indivíduos dessa imponente espécie que encontram pouso no complexo de cerca de 50 mil hectares de Mata Atlântica preservado composto pela Reserva Natural Vale e pela Reserva Biológica de Sooretama, ali elas estão um pouco mais preservadas dos perigos. Há vigilância que, se não impede totalmente, desestimula ação de caçadores no local. E as árvores são preservadas, berços para seus ninhos.

Jovem de 28 anos, o guia Brener Fabres dedica grande parte de seu tempo a observar e estudar os costumes e os cantos dos pássaros. Numa única caminhada pela Reserva, ao seu lado, fiquei sabendo de muitos nomes, ouvi diversos piares. Aprendi que existe um aparelhinho – que deve ser usado com extrema moderação – que imita um piado para chamar outro pássaro.

Atualmente, Brener está trabalhando numa tese de mestrado sobre a biologia reprodutiva da Harpia. A ave virou seu objeto de estudo, a Reserva se presta como seu campo de pesquisa. Uma concertação que só traz bons resultados. Brener não contém seu entusiasmo quando instado a contar a história da Harpia. Hoje existem cinco casais da espécie sendo monitorados por Brener e outros colegas:

“O primeiro ninho que encontramos aqui na Reserva foi em 2012, mas foi um mistério, porque a Harpia não chegou a chocar e sumiu. Naquela época ainda não usávamos câmera Trap, não fazíamos o monitoramento como fazemos hoje. Quatro anos depois, em 2016, encontramos um novo ninho, e este foi monitorado. Em 2017 apareceu uma Harpia, e achamos que foi aquela que havia sumido. Assim, passamos a ter dois ninhos na reserva, dois casais, em 2019 achamos um terceiro casal e em 2022 encontramos um quarto casal. Em resumo: hoje temos quatro casais aqui na Reserva Vale, e um em Sooretama”, conta ele.

Como é de se supor, um bicho com essa envergadura não se reproduz com facilidade. Primeiro, é preciso achar um canto ideal para o ninho, que tem de dois metros a dois metros e meio. O macho se encarrega dessa tarefa e, depois da cópula, fica abastecendo a fêmea com alimentos.

“Depois da cópula, a fêmea fica cerca de quatro meses totalmente dedicada ao ninho, ela não sai de lá. No máximo, voa até uma árvore ao lado para se esticar um pouco e volta logo. Ele caça, come e traz para ela. Depois que o filhotinho nasce, ela recebe a caça e divide com ele até ele completar dois meses e ter condições para se alimentar sozinho”, conta Brener.

Mas nem sempre dá certo. Poluição e consanguinidade podem estar prejudicando o nascimento dos filhotes, e este é o assunto do estudo de Brener. As Harpias precisam de muito espaço para que os indivíduos se espalhem, senão pode haver cópula entre os da mesma família, o que sugere a má-formação dos fetos.

Seja como for, é com prazer que ouço relatos de estudos que possam concluir o motivo do problema, e mais ainda porque sei que na região da Reserva Natural Vale as Harpias têm campo de sobra para se reproduzirem livremente.

É mais do que tempo de se levar a sério a importância de se preservar a biodiversidade para o próprio bem da humanidade. Organização tradicional no tema, a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN na sigla em inglês) lista em seu site alguns dos benefícios da biodiversidade, como a regulação do clima, a resiliência ecológica, o apoio aos polinizadores (cruciais para nossa alimentação), e até os benefícios econômicos: segundo a organização, mais da metade do PIB global – cerca de 40 trilhões de libras – depende da natureza.

Não custa lembrar também que durante a COP15 – conferência do clima realizada em Paris, durante a qual se conseguiu o histórico Acordo de redução de emissões de carbono – os líderes assinaram um tratado para proteger 30% da vida terrestre e marinha até 2030.

Dia 22 de maio é o Dia Internacional da Biodiversidade Ecológica. É apenas uma efeméride, que como tantas outras serve para que se ponha holofotes sobre o tema. Concluo minhas reflexões com um dos benefícios listados pela IUCN em prol da proteção da biodiversidade: o bem-estar mental dos humanos. Acima de qualquer outro, este é um sentido que… faz todo o sentido. Alguém já se imaginou num mundo sem bichos e plantas?

A experiência de Brener Fabres dialoga com este propósito de se promover um escudo contra o extermínio de espécies em prol, inclusive, da nossa própria saúde mental. Enquanto falava comigo pelo telefone, do posto de observação na mata onde estava alojado, Brener interrompeu o raciocínio que estava costurando na conversa e, sussurrando, me disse: “Acabo de ver uma anta! Ela está a uns 15 metros de mim. Estou emocionado”.

Fiquei também, é claro, e comemorei, mesmo que à distância. Empolgado com a visão, Brener se estendeu e relatou um dos comportamentos que mais observa nas pessoas que leva a passear na Reserva:

“Observar a natureza dá uma outra perspectiva, tem tirado muita gente da depressão”.

*Viajei para a Reserva Natural Vale a convite do Instituto Cultural Vale, que realiza atualmente no Espírito Santo as exposições ‘O extraordinário universo de Leonardo Da Vinci” e “Memórias do Futuro”

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