O eterno nó na relação entre empresas e comunidades na Amazônia.

Comparada com qualquer cidade da região amazônica,  Oslo, capital da Noruega, é muito mais rica e organizada, mas muito mais pobre em recursos naturais.  O paradoxo é até simplório, diante de tantos outros com os quais a gente se depara nesse mundo da sustentabilidade.  O interessante aqui é como três moradores de Barcarena, cidade paraense carente de tudo e com minério de sobra explorado por uma rede de empresas norueguesa, em visita oficial a Oslo, setembro do ano passado, puderam constatar in loco essa diferença. Pararam em frente a um belíssimo rio no centro da cidade e coçaram a cabeça:

— Ora, mas essa água daqui desse rio é mais limpa do que a que sai da torneira de nossas casas… E tudo isso eles conseguem com o minério que sai de nossas terras.

A história dessa longa viagem começou em 2009 e ainda está em curso. É  um exemplo vivo de como são difíceis  as relações entre o mundo corporativo e o dos habitantes de cidades pobres, carentes de tudo, cujo solo tem recursos de sobra para engordar o orçamento das empresas. Depois de receber uma denúncia de que a Norsk Hydro, empresa norueguesa, estava contaminando o rio Murucupi, em Barcarena, com os dejetos de suas atividades minerais, a ONG Ajuda das Igrejas da Noruega entrou em contato com o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) pedindo que avaliasse a situação . A preocupação da ONG norueguesa era que a empresa de seu país estivesse driblando as leis ambientais que, por lá, são bem severas. O fato em si, a denúncia de vazamento,  ainda não foi resolvido.  Existem duas a três mil ações correndo na Justiça do Pará, de pescadores locais exigindo indenização porque tiveram que parar de trabalhar. Os peixes estavam todos contaminados.

Na época, a empresa era a Alunorte e tinha 56% de participação da Vale, o resto era da Norsk Hydro.  O Razão Social deu a notícia , a Vale respondeu. Em parte, eximiu-se de culpa. Em parte, ratificou o que estava patente: a comunidade de Barcarena não tinha dado licença para a empresa operar ali. Ou seja: ninguém se entendia.  Provavelmente não por esse motivo, em especial, logo depois a Vale saiu da parceria e deixou toda a operação por conta da norueguesa.

Vida que segue. O Ibase, que tinha uma atuação forte na questão dos balanços sociais e da responsabilidade social das empresas, fez reformulações internas e o assunto Barcarena acabou deixando de ser focado pela ONG. Mas a situação na cidade continuava em pé de guerra.

Até que outra instituição entrou para fazer a ponte, o  Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB). Beneficiados  por um Termo de Ajustamento de Conduta que outra empresa, a Imerys, que atua na cidade e foi multada também por avançar o sinal na questão ambiental, precisou pagar, o IEB decidiu pôr um pouco de lado as ações jurídicas, que essas a Justiça há de tocar, para  apostar numa questão mais profunda: ensinar aos habitantes  de Barcarena  os direitos que eles têm e como podem  fazer para  defendê-los. Vocês entendem agora como é importante a constatação dos paraenses à beira do rio de Oslo?

A história toda ganha um (ainda leve) sabor de vitória  quando, na sequencia de tais cursos, nos ganhos de capital social da comunidade, a empresa norueguesa passou a entender que  tem interlocutores capazes de ouvir e de se fazerem ouvir. Foi assim que se marcou essa histórica reunião em Oslo. Presentes estavam, além dos três moradores de comunidades  de Barcarena, uma representante do Ministério Público,  o diretor brasileiro da Norsk Hydro e Maura Moraes, assistente social e  coordenadora do projeto pelo IEB. Foi com ela que conversei longamente há pouco pelo telefone.  Maura não está eufórica com a reunião porque, até agora, nada está resolvido. Mas acha que foi um importante passo. E conta que no dia 11 agora, ou seja, sexta-feira, haverá outra reunião, dessa vez na quente Barcarena, quando se pretende que, de uma vez por todas, o estado entre como mediador dessa relação:

— O que acontece é que as empresas (são 4 do grupo Hydro que atuam em Barcarena) têm sempre o mesmo discurso: já pagam impostos, não podem fazer o papel do estado, não podem ficar resolvendo questões como esgotamento sanitário, saúde, mais escolas e tal. Mas nós também, da sociedade civil, não podemos pagar a conta pelo fato de elas serem obrigadas a minerar ali. Então, temos que chamar o estado para resolver isso. Não pode é deixar as coisas como estão. A cidade tem carência de tudo, quase 90% das ruas não têm esgoto, falta escola, postos de saúde… e nosso minério serve para enriquecer outros lugares.

Maura garante que a comunidade não quer partir para o enfrentamento, o conflito. Pelo vídeo produzido pela IEB (ver abaixo), com vários depoimentos dos moradores, é possível perceber isso. Mas, de fato, se até agora os pescadores não podem pescar e se a situação na cidade continua precária, é claro que em algum momento essa panela de pressão vai estourar.

Não foram poucas as vezes em que, a convite de empresas ou de instituições, estive na Amazônia durante os nove anos em que editei o Razão Social. A beleza natural daquela terra, misturada ao desconforto causado pelo calor excessivo ou umidade excessiva, dependendo da época do ano, sempre me deixou uma sensação estranha, de querer voltar. Parece que ali, mais do que em qualquer outro lugar, o Brasil é Brasil.  E seus moradores guardam uma espécie de humildade misturada a uma segurança de saber que, seja de onde o cidadão visitante vier, ele terá menos ferramentas para sobreviver na selva do que quem nasceu e vive ali.

Que eles não precisam ser ‘salvos”, como se acreditava na época da ditadura, isso fica claro em todos os cantos por onde se anda. Quem mora na Amazônia (estou falando da parte brasileira, que conheço mais) gosta de lá, se orgulha de lá. Mas… vejam que contrasenso… nem sempre sabe como se defender dos impactos causados pela estupendo e rápido descobrimento, que começou por volta dos anos 80, de que aquele lugar é um manancial de recursos.

Aqui é importante dizer que o tempo de estudos e reportagens sobre responsabilidade social corporativa, que fica no chapéu da sustentabilidade,  me deu uma espécie de armadura contra  o vício midiático de se escolher vilões e mocinhos. Não acho que todas as empresas que lucram com recursos naturais sejam crueis, insensíveis e desumanas .  Mas também não creio cegamente na boa vontade de distribuir lucros, muitas vezes com projetos que vão beneficiar pouquíssima gente e onde elas gastam mais em propaganda do que no projeto em si.

Por outro lado, não acho que todas as comunidades que ficam no caminho dessas empresas são constituídas de pessoas boazinhas e vítimas infelizes. Tem gente de má fé entre ribeirinhos também, e por que não teria? Mas entre o mar e a pedra, sabemos bem que o molusco é que sempre acaba se dando mal.

Dito isso, volto ao meu ponto de observadora,  de leitora, e de entrevistadora, para concluir: há um grande, um imenso nó nessa relação entre empresas e comunidades na Amazônia. Mais, talvez, do que em qualquer outro lugar. Uns não escutam os outros e acabam  precisando de uma espécie de “atravessadores da escuta”, pessoas que, por conhecerem bem a região e por terem tido mais acesso ao mundo corporativo, fazem esse link. Isso não é ruim, mas às vezes pode ajudar a mascarar uma situação. O bom mesmo seria que o contato fosse direto, olho no olho. Mesmo que, para isso, fosse preciso suar muito a camisa, bronzear mais a pele, levar muita picada de mosquitos.

Vou esperar o dia 11 para voltar ao assunto sobre Barcarena porque Maura ficou de me dar notícias sobre essa próxima reunião. Mas quero contar aqui  uma história que pode ilustrar a minha tese do “olho no olho’. A primeira vez que estive na Amazônia, sobrevoando com um monomotor a selva, fui levada por uma empresa que fornecia tecido de revestimento interno de carros para a Volkswagen.  A empresa se chamava Pematec-Triangel e recebeu da gigante de automóveis a tarefa de passar a produzir o tecido de forma a proporcionar desenvolvimento local a alguma comunidade do norte do país.

O CEO da Pematec à época, Alberico Pasquetto Jr, paulistano  de pele bem clara por conta da ascendência italiana,  de um jeito bem executivo,  pegou o telefone e começou a procurar quem poderia ajudá-lo na tarefa. Descobriu um engenheiro agrônomo da Embrapa, Christovam Senna, que tinha descoberto que o curauá, uma planta muito comum na Amazônia, podia servir para fazer manta de fibra natural, em substituição à malva, sempre usada para isso, que costumava causar problemas a quem tinha que ficar horas com meia perna dentro de água para catá-la. Com o curauá,  planta que dá o ano todo, seria possível ajudar várias famílias que tinham a planta em seu território. Pasquetto adorou a ideia e logo fez a encomenda:

— Então vamos combinar o preço direitinho, você me manda  por malote e ficamos assim combinados.

Ao que o engenheiro Senna, caboclo  de boas histórias e pé no chão, retrucou:

— Não, senhor. Se quiser curauá, tem que vir aqui, ajudar a plantar, conhecer as pessoas, botar o pé na terra e construir uma fábrica aqui para dar emprego.

Assim foi feito. Fui encontrar Alberico Pasquetto em 2006, para fazer a reportagem para o Razão Social, já bastante integrado à terra que o acolhera.  Posso dizer que a pele clara já tinha ganhado tons bastante bronzeados. Ele conhecia o restaurante de Santarém (onde foi construída a fábrica para 150 funcionários) que vendia a melhor pizza.  E já tinha hábitos bem locais, como o de saborear um belo sorvete de açaí à tardinha, quando o sol está se pondo e o calor fica mais brando.

Na nossa despedida, por sinal ali mesmo, na sorveteria, Pasquetto me confidenciou que nunca tinha ouvido falar em sustentabilidade, não estava alinhado com questões de responsabilidade social corporativa. Agiu por impulso, sensibilidade, apurou a escuta e botou a mão na massa. Dei-lhe algumas dicas, mas talvez nem fosse preciso…

Publicado em Sustentabilidade | 9 Comentários

Dia sim, dia não…

Muita gente está me perguntando qual a periodicidade do blog. No primeiro post eu digo, mas ficou lá embaixo, acho que a informação se perdeu.

Então, lá vai: o blog vai ser devidamente “alimentado” dia sim, dia não, por enquanto. É que pretendo fazer muito mais uma reflexão do que anda acontecendo no tema da sustentabilidade do que, propriamente, noticiar coisas novas. E, como uma reflexão exige referências e muito estudo, não tenho como fazer isso diariamente.

Mas digo “por enquanto” porque também estou pensando em criar, pelo menos uma vez por semana ( e aí seria um dia diferente) para postar notícias de atitudes que estão dando certo por aí. Projetos, não só de empresas como de organizações não governamentais ou mesmo de pessoas físicas, que possam contribuir de alguma forma – não vou usar o clichê básico, “para salvar o planeta”, porque nisso não acredito – mas para melhorar a vida de si próprio ou de uma comunidade.  Só estou esperando chegarem mais algumas dessas iniciativas para inaugurar esse dia.

Mais uma coisa: sei que o blog não está tão perfeitinho em termos de estrutura e imagem como poderá ficar. Já estou providenciando isso também. Pedi uma ajuda para uma profissional que virá aqui me ajudar e farei todos os ajustes necessários. Vai ficar tinindo!

Aqui eu quero fazer uma homenagem justíssima ao fotógrafo Carlos Ivan Siqueira, parceiríssimo do blog, parceiríssimo do extinto Razão Social, que trabalhou comigo também na Revista da TV e que me doou com o maior carinho este lindo nascer do sol que está enfeitando a capa do blog. Carinhosamente, a equipe do Razão sempre o chamou de “neguinho”, mas é um apelido que veio lá dos tempos da Revista da TV, com o pessoal da Patrícia Kogut. Portanto, nosso neguinho querido, muito obrigada pela foto!

Até amanhã, portanto, com mais um texto reflexivo!

Publicado em Sustentabilidade | 2 Comentários

O crescimento é um espetáculo?

‘O maior fenômeno das próximas décadas será o crescimento da classe média em todo o mundo”, diz um artigo da “The Economist” da semana passada. A informação da revista britânica, que não traz exatamente uma grande novidade, virou notícia porque é a principal conclusão  do relatório da agência National Intelligence,  dos Estados Unidos, divulgado nos últimos dias do ano passado. Foi um trabalho intenso, encomendado a vários profissionais, com o objetivo de tentar entender como as mudanças mundiais impactam (e impactarão) os Estados Unidos. Uma dessas mudanças é o crescimento da classe média, sobretudo na China e na Índia.

Em 2005, o economista e consultor indiano  C. K. Prahalad  escreveu um livro  —  “A riqueza na base da pirâmide”,  disponível em português pela Bookman – que dava uma orientação segura para as  empresas sobre o lucro que elas  poderiam ter se investissem em mercados de pessoas pobres.  Quando o indiano — que morreu aos 68 anos  em 2010 —  começou a traçar sua teoria, em 1995, o mundo tinha mais de 4 bilhões de pessoas que viviam com menos de 2 dólares por dia. Hoje, segundo os últimos dados do Banco Mundial, esse número baixou para  1,29 bilhão de pessoas. Ainda assim,  um público e tanto para as empresas que gostam de ouvir o tilintar de moedas, mesmo que em conta-gotas.

O indiano tinha boas intenções. Ele queria demonstrar que se as empresas diferenciassem seus produtos e serviços com foco nas populações de baixa renda e baixassem seus preços ou facilitassem o crédito, elas estariam contribuindo para criar um capitalismo inclusivo. Para demonstrar sua tese, ouviu várias experiências bem sucedidas daquilo que os especialistas do mercado dito sustentável chamam de “ganha-ganha”. Uma subsidiária da Unilever, por exemplo,  citada no livro, concentrou-se em fabricar e vender sabonetes para regiões rurais e muito pobres da Índia. É que nesses locais registrava-se um índice altíssimo de mortes por diarreia porque ninguém tinha o hábito de lavar as mãos. A empresa investiu pesado numa campanha nacional linkando o uso do sabonete à saúde  e baixou os preços de seus produtos para que todos pudessem comprá-los. O índice de diarreia também baixou. E a conclusão do economista e guru de vários empresários é que, dessa forma, todos saíram ganhando.

A brasileira Casas Bahia mereceu mais de 20 páginas no livro de Prahalad com o subtítulo  “Realizando um sonho”. O sonho é o de possibilitar aos pobres  consumirem produtos que antes eles nem podiam imaginar em ter. Na época em que o livro de Prahalad foi escrito, ou mesmo lançado, os cientistas ainda não tinham vindo a público demonstrar como o desenvolvimento industrial desenfreado impacta nosso ecossistema. A preocupação, portanto, era  com a inserção de mais pessoas no mercado.

Assim que saiu o livro aqui no Brasil, fui a São Bernardo entrevistar Michel Klein, diretor das Casas Bahia, para o Razão Social. Num escritório de decoração austera, Klein conversou comigo durante quase duas horas, explicando porque se tornara um “case” para o indiano. Seu pai Samuel, o fundador da rede de lojas, preferiu não se juntar à conversa embora tenha ficado a maior parte do tempo de longe, observando.

Não era sobre sustentabilidade que se falava. E o consumo, passando longe das preocupações ambientais, era comemorado de um jeito muito peculiar: “Dar crédito é ajudar uma pessoa a ter mais cidadania e auto-estima”.  Para ele, se o Brasil tem muitos pobres, é claro que eles precisarão de seu crédito para conseguirem viver com mais dignidade, foi esse pensamento que atraiu Prahalad.  E ficamos assim combinados.  Sem espaço para controvérsias.

Como se sabe, no entanto, há controvérsias. A discussão mais básica é sobre essa “falsa inclusão” via consumo; passa pela questão do meio ambiente, pois segundo os ambientalistas já estamos consumindo mais do que a Terra pode fornecer. E, é claro, vai desaguar na economia. O relatório da agência norteamericana fez um estudo e  descobriu que a   Inglaterra, onde aconteceu a Revolução Industrial, levou 150 anos para dobrar a sua renda per capita. Nos Estados Unidos, isso começou a acontecer 30 anos depois. China e Índia estão fazendo isso em tempo recorde.

Se as empresas descobertas por Prahalad estavam querendo atingir o pé da pirâmide, a história agora é outra. Quem decidiu investir nesse mercado emergente está de olho nas pessoas que já conseguiram seu lugar ao sol no mundo do consumo. A reportagem da “The Economist” conta o caso da PepsiCo, por exemplo, que apimentou um salgadinho para se adaptar ao gosto dos indianos.  A Kraft pôs menos açúcar em seus biscoitos e lançou um chá verde enquanto  o dono da Louis Vitton fez parceria com uma empresa de agronegócios para produzir um espumante chinês. Tudo para agradar o gosto do freguês.

E o que não vai faltar é freguês. A agência norteamericana não é a única a apostar que a classe média é o futuro. O Boston Consulting Group prevê que até 2020 haverá cerca de 1 bilhão de chineses e indianos querendo consumir. Dizer “não” para eles,  invocando um certeiro desastre ambiental global, parece uma tarefa fadada ao insucesso. E, até certo ponto, injusta. Para alguns estudiosos do assunto,  resta ao  Estado, que desde os anos 80 tem deixado as rédeas das corporações bem soltas, retomar esse controle. Será que é por aí a solução?

Publicado em Consumo consciente, Sustentabilidade | Com a tag , , , | 12 Comentários

As chuvas virão. Tragédias também. E ninguém fala em adaptação

O noticiário de hoje sobre as chuvas já consegue causar irritação, sentimento bem próximo  à consternação e impotência pelos prejuízos causados a tanta gente. Não é possível que se continue não cobrando do governador Sergio Cabral uma atitude madura, consciente e responsável sobre a adaptação do estado às chuvas. Tive o cuidado de rever a última entrevista que ele deu para falar da questão dos royalties que tem chance de perder, e em nenhum momento o governador disse que este dinheiro poderia ser usado para tirar as famílias das áreas de risco e construir outras casas para elas. Não. Ele diz que sem os royalties não terá condições de fazer os eventos internacionais que todos esperam ávidamente. Diz ainda que não terá dinheiro para pagar os servidores. E ponto. Nenhuma menção ao que deveria ser uma das prioridades de seu governo, já que ele administra um estado onde chove muito e vai passar a chover mais intensamente por causa dos efeitos causados pelas mudanças climáticas. Isso é real, não é ficção. Mas Sergio Cabral não vai aos jornais e televisões dizer que sem o dinheiro dos roylaties ele não terá como levar adiante seu plano de adaptação aos desastres naturais porque esse plano, se existe, não é prioridade. Tampouco a mídia se lembra de cobrar isso dele, a menos que esteja sob o impacto da tragédia que vem sempre, entra ano, sai ano.

Estive na Holanda em 2011, a convite do governo, que queria mostrar ao mundo o que está fazendo como adaptação às mudanças climáticas e, para isso, chamou representantes da imprensa de vários países. Não, eu não estou comparando alhos com bugalhos. Sei perfeitamente que a Holanda é um país muito menor e com muito mais dinheiro do que o nosso, e que a realidade é outra.  Mas a consciência, não só dos governantes como da população, de que é preciso fazer algo para enfrentar as águas do Mar do Norte, que certamente subirão a ponto de causar alagamentos quanto maior for o degelo do Ártico, é de dar inveja. Já que não dá para ter tanto dinheiro, me dou o direito de sonhar em perceber por aqui,  pelo menos, esta noção de cuidado que eles têm.

Só para se ter uma ideia: numa pequena cidade chamada Arnhem há 50 casas lindas, daquelas que parecem casinhas de boneca, que quando estive lá estavam prestes a serem demolidas para ampliar o leito do rio iJssel quando suas águas aumentarem por causa do degelo. E mais: uma barreira gigante, com dois portões em forma de arco com 22 metros de altura por 220 de comprimento foi construída desde 1997 para se fechar diante de qualquer ameaça de enchente  à cidade e ao Porto de Roterdã. Custou US$ 700 milhões e exige uma equipe de dez pessoas que ficam ali, em turnos, apenas para fazer a manutenção e tomar todas as providências porque o único que consegue fechar o portão é o computador. Alguém terá que telefonar para o prefeito se acontecer.

Vejam bem: isso não quer dizer que a Holanda seja o país padrão exemplar no tema das mudanças climáticas. Não é. A própria Roterdã é uma das cidades que mais emite carbono do mundo. O que está acontecendo ali é que eles estão cuidando muito bem do quintal deles. O convite à imprensa mundial para conhecer as iniciativas que estavam sendo tomadas veio justamente numa época em que estava para ser aprovada no Parlamento uma lei permitindo a criação de um fundo – de cerca de 1 bilhão de euros por ano – para as obras de adaptação. Não consegui saber se foi ou não aprovada a tal lei.

Voltando à nossa realidade, o que fica claro é que depois que a chuva passa, literalmente, os assuntos prioritários passam a ser outros.  Os candidatos ao governo também não tocam no assunto. Sustentabilidade, mudanças climáticas, desastres naturais, são temas que não dão voto. E isso é impressionante porque mostra uma desconexão com a realidade não só dos candidatos como dos eleitores, que não se acostumaram a cobrar isso deles.

Publicado em Sustentabilidade | Deixe um comentário

A sustentabilidade é um mito?

Quem já passou por uma redacao de jornal na hora do fechamento sabe como é. Um momento unico, indizível. Em questáo de minutos, os jornalistas têm que fazer o melhor titulo, uma legenda criativa, não cometer erros ortograficos. E o tempo correndo, o editor avisando que está na hora, que o prazo está se esgotando. Às vezes alguém empaca em uma palavra e grita:
— Fórum tem acento?
A criatura nem espera resposta, até porque sabe que  ninguém está conseguindo, de fato, dar atenção naquele momento. Mas o  simples  falar alto já  ajuda a descobrir o caminho das pedras.
Pois foi nesse ambiente solidário, isolacionista, inquietante, caótico, criativo, ensandecedor,  que resolvi passar grande parte da minha existência. E foi também nesse cenário que comecei a me aprofundar no tema da sustentabilidade, como editora do caderno Razáo Social, suplemento do Globo extinto em julho do ano passado. Lembro-me perfeitamente quando, num dia de fechamento, resolvi pedir à diagramadora (profissional de importancia relevantissima dentro de uma redação, pois é quem vê e desenha o jornal na tela do computador), pela primeira vez, para `fazer caber` a palavra sustentabilidade no título da matéria que eu estava escrevendo. Para quem nao está familiarizado com o termo, `fazer caber` significa usar as ferramentas disponíveis na internet para espremer uma palavra. E ela retrucou:
— Ah, Amelia, nem pensar, nao cabe. E depois, cá entre nós, né? Quem vai ler uma materia com um nome complicado desses no título?
Estávamos em meados de 2005, eu já editava o Razão Social desde 2003 e, de fato, eu mesma não estava lá muito convencida de que deveria usar sustentabilidade no título. Afinal, fora `educada` desde o primeiro número do Razão a usar o termo responsabilidade social, talvez um pouco mais palatável. Assim, disse `ok, você venceu` e troquei o título.
 A diagramadora exultou, eu encasquetei. Como é que poderia falar sobre um movimento sem usar o nome dele? Será que um jornal diário não comportaria esse tipo de reflexão?
Seis anos se passaram, e veio a Rio+20. Evento glamuroso, cheio de pompa, com a presença de 120 chefes de estado, convocado pela ONU para se discutir a transição do mundo para uma Economia Verde 40 anos depois de Conferencia de Estocolmo em 1972.  Fiz parte do time que cobriu a Conferëncia e uma noite, na Redação,  enquanto tentava o tal título criativo, percebi que estava vivendo um momento totalmente diferente daquele lá atrás, no in[icio do Razao Social. Ali, naquele momento,  o dificil  era driblar o uso das expressões  sustentabilidade ou verde.  Todo mundo falava nisso o tempo todo.
O que aconteceu nesse período de tempo para provocar uma mudança tão significativa?
 Aqui vale um registro histórico que pode ajudar a refletir. Em junho de 2006 fui chamada pela entáo diretora da Philips, Flavia Moraes, para uma entrevista coletiva em Manaus em que a empresa reuniu jornalistas para contar que a partir daquele momento estava se colocando num outro patamar, que não o de somente uma corporação socialmente responsável. Percebendo o
 esgotamento desse modelo, a Philips queria passar a ser inserida na lista de empresas sustentáveis. Ela entendia que, assim, estaria envolvendo toda a corporaçáo num caminho sem volta, atenta aos pilares econmico, social e ambiental.
Ato contínuo à publicação da reportagem, o então presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (ao qual a Philips se mantinha como sócia) Oded Grajew, enviou-me uma carta pedindo que publicasse. Era uma dura resposta a polêmica surgida em torno do conceito responsabilidade social por causa da atitude da Philips: `Nào é importante saber se o nome mais adequado é responsabilidade social, sustentabilidade, boa governança corporativa ou outra denominação qualquer. O mais importante é entender que estamos falando de absolutamente todas as ações da empresa e mais importante ainda é praticar este conceito`.
A discussão ainda está em aberto. E este blog pretende  acompanhar passo a passo, atualizando o tema,  sem verdades, n em certezas, mas convidando à reflexão.
 No livro `Corporação 2020` (ainda sem tradução no Brasil), recentemente lançado pelo economista indiano Pavan Sukhdev ,  ele chama atenção para uma questão importante: pressionadas pela opiniao pública, que foi sendo alimentada desde a primeira Conferencia  em 1972, as empresas passaram a desenhar para si próprias um cenário bem cuidadoso onde todos ganhariam se tomadas algumas iniciativas sustentáveis.
Segundo a resenha do livro publicada no jornal `Valor Econômico` do dia 18 de dezembro passado pelo jornalista Ricardo Abramovay, `a grande virtude do novo livro de Sukhdev  é que ele se distancia da visão complacente e apologética de que a resposta empresarial aos grandes  desafios socioambientais de nosso tempo é sempre ganha-ganha. Ele reconhece, é  claro, a conquista de riqueza, a melhoria da formação dos trabalhadores e a própria ampliação dos horizontes de circulação dos bens, dos serviços e das pessoas, como resultados do funcionamento das empresas modernas. Mas o traço central das atividades corporativas dominantes a partir de 1920 (em oposição ao que deve ocorrer com a “Corporação 2020”) é a obtenção de ganhos cada vez mais apoiados em perdas, tanto para os ecossistemas como para o próprio mundo social.`
O nosso desafio, portanto, como cidadãos comuns, é enorme. Pensar num novo modelo civilizatório que envolva as empresas, com cuidado para que elas, acostumadas que são a tomar sempre atitudes estrategicas, nao transformem tudo em  preço. Que envolva os movimentos sociais sem esquecer que a cultura é importante. Que envolva os movimentos ambientalistas sem descolar da realidade, ja que não existe  meio ambiente sem gente.
Não existe fórmula mágica, mas acredito que a filosofia pode ajudar. Sobretudo os filósofos franceses da decada de 60, como Felix Guattari (que criou o termo Ecosofia) e Gilles Deleuze. Juntos, eles pensaram e criticaram  um sistema construído com base no pensamento aristotélico do julgamento, do bem e do mal, dos viloes e mocinhos. Entender a sustentabilidade exige, sobretudo, que se abandone um pouco visões tão rígidas.
Para terminar esse `post de apresentação`, convido os leitores a `visitarem` o reino da Kakania, idealizado por outro filosofo, Robert Musil, menos conhecido porque so escreveu uma obra – O Homem sem Qualidades – publicada post mortem nos anos 50. Em poucas palavras ele consegue por o dedo na ferida de uma civilização da abundância, da ganância. Pois não são eles, notoriamente, os dois males que mais nos enlaçam em direção a uma vida insustentável, seja lá qual for o significado deste conceito?  Reparem nesse trecho:
`Na Kakania, esse pais desaparecido, incompreendido, em tantas coisas exemplar mas não reconhecido, havia dinamismo, mas não demais. Naturalmente também corriam automóveis nessas estradas, mas não muitos.  Também ali se preparavam para conquistar os ares, mas não com muita ênfase… Não se tinham ambições de economia mundial, nem potencia mundial… Gastavam-se imensas somas com o exército, mas só o suficiente para continuar sendo a penultima das grandes potencias. Tamb-em a capital era um pouquinho menor do que todas as demais maiores cidades do mundo, mas um pouquinho maior do que são as meras grandes cidades`. E agora, a cereja do bolo que Musil nos oferece, com a qual eu termino esse post, prometendo que os próximos não serão tao longos: `E na Kakania so se tomava um genio por patife, nunca se tomava um patife por genio, como acontecia em outros paises`.
Pretendo postar dia sim, dia nao. Ou a qualquer momento, em edição extraordinária. Portanto, até sexta-feira! E obrigada pela visita.
Publicado em Sustentabilidade | 28 Comentários