Blocos em bairros só até mil componentes. Passou disso, vai para o ‘blocódromo’

Moro em um canto de bairro no qual vizinhos e vizinhas têm o excelente hábito de cultivar bons cuidados com a natureza, incluindo aí os bichos, plantas, todos os seres não humanos. É uma relação de respeito. A maior parte da natureza preservada aqui nos jardins é para enfeite, e fica lindo mesmo sem o poder e a beleza de uma agrofloresta.

Poucos dias antes do carnaval, começa uma certa tensão. Os porteiros são orientados pelos síndicos a tentarem armar estruturas com madeira e redes a fim de preservar as plantas e gramas tão lindas dos apupos mais febris de carnavalescos nos blocos que passam aqui. Tem o Gigantes da Lira e Bichos do Mar (ou algo assim), ambos para a criançada e, por óbvio, também seus pais. E tem, sempre no domingo de carnaval, o Laranjada, que acolhe a efusividade foliã dos jovens e dos mais velhos.

Sempre foi assim, pelo menos desde que moro por aqui.

Ocorre que, neste domingo de carnaval, o bloco dos jovens e adultos exagerou. Seus membros não respeitaram os limites, arrebentaram as grades, as madeiras, pisotearam em plantas, urinaram em tudo que é lugar, e foram embora deixando um rastro de destruição. Além de um sentimento de raiva legítima, por parte dos moradores, que consegui captar numa rápida pesquisa aqui no território.

Foto clicada por mim há pouco tempo. as plantas pisoteadas

Quase ninguém quer mais o bloco dos jovens e adultos por aqui.

É um sentimento legítimo, a julgar pelo que se vê em um breve passeio pelas ruas.

Por um lado, eu lamento porque gosto muito da festa, embora já não participe mais como antigamente. E não participo por falta de energia, mas porque respeito, justamente, a natureza, que me exclui das ruas de asfalto quente por conta das ondas de calor absurdas que fazem mal a qualquer ser humano nessa época do ano. Seja novo, velho ou só adulto, qualquer um precisa se cuidar em temperaturas altas.

Por outro lado, entendo a fúria dos moradores. Uma delas, ontem, não conseguia conter sua indignação: “Você precisava ver! Cenas de barbárie explícitas, como eu nunca tinha visto na vida!”. Acredito.

E onde eu estava enquanto tudo isso acontecia? No mesmo território, mas vendo sob outro prisma. Eu estava numa sombra, protegida, e assistindo exatamente ao ponto de refúgio, para onde acorriam os foliões que não estavam querendo participar das cenas bárbaras de assassinato das plantas. Sob meu ponto de visão, portanto, eu via apenas o pessoal mais tranquilo e civilizado. Sorte a minha, no fim das contas.

A conclusão geral, aqui entre os moradores, é a de que isto aconteceu porque o bloco cresceu demais. E o canto de bairro é pequeno, não suporta tanta gente em estado febril de euforia. Tendo a concordar. Não são apenas moradores, é óbvio. A cidade, este ano, está comemorando mais um recorde de turistas, e isso é bom para a economia, sobretudo a informal. Mas, como sempre acontece, nós, os humanos, não nos detemos diante de nada. Muito menos em respeito à natureza, aos seres vivos com quem compartilhamos o espaço.

Ora, e eles não praticam o desmatamento em troca de bens naturais?

Voltando ao meu microcosmo, que se depender da vizinhança, ano que vem não terá mais a alegria efusiva, débil, histérica do bloco de adultos, quero compartilhar uma ideia. Jogo para o universo e, quem sabe, possa chegar a quem autoriza tais acontecimentos no município. Assim como existe o Sambódromo, existiria o Blocódromo. Já tem o camelódromo…

Seria organizar demais? Sim, seria. Mas, vejam bem: não dá para ser diferente. E, para quem acha que as ruas precisam ser ocupadas (eu me incluo neste rol), a solução é fácil. Blocos em bairros só até mil componentes (não sei se este número é real, estou só especulando). Passou disso, vai para o Blocódromo.

Em nome da folia, mas também em respeito aos seres que não participam dela e que só ficam com os maus-tratos impingidos pelos humanos em febre de euforia.

Bom fim de carnaval para todos.

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About ameliagonzalez848

Produtora de conteúdo. Jornalista especializada em sustentabilidade. Ajudou a criar e editou durante nove anos o caderno Razão Social, suplemento do jornal O Globo, sobre sustentabilidade, que foi extinto em julho de 2012. Assinou a coluna Razão Social do caderno Amanhá, de O Globo. Autora do livro `Porque sim`, sobre casos de sucesso da ONG Junior Achievement. Ganhou o premio Orilaxé, da ONG Afro Reggae. Esteve entre as finalistas como blogueira de sustentabilidade no premio Greenbest com o blog Razão Social, que foi parte do site do jornal O Globo de 2007 a 2012. Foi colunista do site G1 de 2013 a 2020, assinando o blog Nova Ética Social. Estuda os filósofos da diferença, como Fredrick Nietzsche, Gilles Deleuze, Spinoza, Henri Bergson em grupos de estudo no Instituto Anthropos de Psicomotricidade. Crê na multiplicidade, na imanência, na potência do corpo humano e busca, sempre, a saúde. Tem um filho, um cachorro.
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4 Responses to Blocos em bairros só até mil componentes. Passou disso, vai para o ‘blocódromo’

  1. Avatar de Solange Fonseca Solange Fonseca disse:

    Acho a sua ideia muito interessante e civilizada, vizinha. sempre pensei na ocupação do Sambódromo, com blocos nos dias sem desfile das escolas. Já imaginou que maravilha o trânsito fluindo, os ambulantes organizados sem o sacrifício enorme que é pra eles ( sábado à tarde tinha um monte de família já se preparando para a venda do dia seguinte, passaram a noite no chão da praça ). Os catadores teriam o seu árduo trabalho facilitado, as ruas ficariam sem cheiro de xixi, A segurança seria facilitada, sem contar a paz dos que preferem o sossego e silêncio habituais… mas carnaval também é transgressão, catarse, alegria. No meu entendimento o que falta é consciência cívica e educação ambiental.

  2. Avatar de Claudio Claudio disse:

    A ideia de um blocódromo, mesmo que de forma complementar, seria muito bem-vinda. Acho difícil que o poder público ou os diretores/presidentes dos blocos consigam, no entanto, não apenas calcular o número de foliões como, de algum modo, controlar o acesso no dia do evento.
    De qualquer modo, algo deve ser feito e de modo urgente, já pensando em 2027 e nos carnavais futuros. Existe um conflito de interesses entre o turístico/comercial e o regulatório/residencial e sua mediação é extremamente complexa. Mas com o crescimento do Carnaval de rua, ano a ano, infelizmente, episódios como o de domingo acabam acontecendo.
    Talvez uma maior presença do poder público pudesse ter protegido o patrimônio. Mas ficamos no campo das possibilidades, pois não apenas existe uma limitação de pessoal como – todos nós sabemos – é difícil controlar uma multidão.
    O pior é ver que o caos sempre é criado por 0,01% dos presentes.
    Nas condições atuais, tendo a ser cada vez mais simpático aos blocos infantis, como o Gigantes da Lira e o Mini Seres do Mar. Como cidadão e morador do bairro, eu fico com a pureza da resposta das crianças, onde podemos realmente brincar o carnaval com alegria.

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